Translate

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Públius Lêntulus



Públius Lêntulus
por Sylvio Britto Soares
Reformador (FEB) Agosto 1944

Quantos anos já são passados daquela manhã primaveril, em que o velho e sisudo professor, com gesto comedido, contava aos seus alunos a fábula de La Fontaine, intitulada "O Lobo e o Cordeiro"!..

Jamais a esqueci, como também nunca olvidei a sua paternal advertência: "Meus filhos, neste mundo em que vocês, amanhã, irão trabalhar com dignidade e amor à verdade, existem, infelizmente, muitos lobos como o da fábula a que me referi".

As produções mediúnicas de Francisco Cândido Xavier vêm, de ano para ano, se enriquecendo com trabalhos notáveis e sobre eles a crítica sincera e desapaixonada não pode deixar de reconhecer o seu real valor. Surgiram, agora, alguns desafetos da doutrina espírita e que, procedendo como o lobo da fábula, atacam essas obras mediúnicas com a estulta pretensão de invalidá-las. Assim intencionados, com fumaças de sabichões, ei-los apontando erros de português - inexistentes - ou, então, possíveis falhas gravíssimas em suas referências históricas.

Houve mesmo quem prometesse um doce à pessoa que descobrisse ter Públius Lêntulus (personagem citada no "Há Dois Mil Anos", de Emmanuel) governado a Judéia no tempo de Jesus Cristo, embora nessa obra não se encontre afirmativa alguma de que Públius Lêntulus houvesse sido governador da Judéia. E satisfeitos verificamos no "Diário de Notícias" de 21 do mês de julho, e publicado pelo Sr. Silvano Cintra de MeIo, em resposta a essa interpelação, o interessante artigo que, "data vênia", passamos a transcrever:

O Sr. Átila Pais Barreto, em seu ineditorial de 18 deste mês tecendo comentários em torno das obras psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier, prometeu "um doce" a quem descobrisse que Públius Lêntulus governara a Judéia no tempo do Cristo. Vou atender a essa sua solicitação, não atraído pelo "doce" prometido, possivelmente envenenado, como venenosa foi a sua critica, e sim para que, de futuro, não se mostre o ilustre articulista tão afoito em suas assertivas.
Em "La Grande Encyclopedie" - tome 22 - Editeur, H. Lamirault et Cie., Paris, e "Enciclopedia Universal Ilustrada-Europeo-Americana", tomo XXIX. Editores, Hijos de J. Espasa, Barcelona, lê-se o seguinte: "PÚBLIUS LÊNTULUS - Suposto predecessor de Pôncio Pilatos, na Judéia, a quem é atribuída a autoria de uma carta, dirigida ao Senado e povo romano, relatando a existência de Jesus Cristo. A Enciclopédia espanhola adianta mais: "Por essa carta, Públius Lêntulus oferece pormenores sobre o aspecto exterior de Jesus e de suas qualidades morais, terminando-a com a afirmativa de que o Cristo era "o mais formoso dos filhos dos homens". A origem deste documento é desconhecida; o certo é que foi impresso pela primeira vez na VITA CHRISTI", de Ludolfo Cartujano (CoIônia, 1474) e, pela segunda vez, na Introdução às
obras de Santo Anselmo (Nuremberg, 1491)".
Caso o douto articulista Pais Barreto deseje conhecer, na integra, essa presumida carta escrita por Públius Lêntulus, eu recomendo manusear a coleção de "Lar Católico", creio que do ano de 1940, e lá encontrará, então, um interessante artigo subscrito por Frei Benvindo Destefani, O. F. M., e no qual esse religioso insere o conteúdo da carta em lide. E é só. Houvesse ainda, em nossos dias, o uso da palmatória... "

Se, como pretende o Sr. Pais Barreto, as obras de Chico Xavier nada têm de mediúnicas, sendo simples fantasias suas, de pronto nos acode perguntar, porque esse "suposto" médium não escolheu Pôncio Pilatos, por exemplo, em vez do senador romano Públius Lêntulus, evitando destarte quaisquer reparos por parte da crítica?
Deve, sem dúvida, causar impressão a qualquer pessoa de bom senso o fato de inúmeras criaturas cultas desconhecerem ter sido contemporâneo do Cristo esse senador romano, e que Chico Xavier o fosse exumá-la das cinzas de uma remota civilização, para revivê-lo nessa interessante e comovedora narrativa da vida pregressa de Emmanuel! O certo é que este iluminado Espírito, responsável pela obra "Há Dois Mil Anos", limitou-se a ditar a verdade dos acontecimentos então ocorridos, pouco se lhe dando a ignorância humana. Que a História silencie o nome desse senador, nada mais natural porque a sua vida política não foi aureolada com qualquer atitude digna de nota pelos historiadores.

Foi ele um senador como muitos outros de sua época e cujos nomes se perderam na noite dos tempos. Ainda recentemente em nosso País era comum, quando, por motivos particulares, um alto servidor público necessitava ir, digamos, à Europa ou aos Estados Unidos, confiar-se lhe uma comissão qualquer, maneira indireta de se lhe custear as despesas. Com Públius Lêntulus sucedeu a mesmíssima coisa; motivos de família impeliam-no a transferir-se para a Palestina, e César desejando ser-lhe agradável, e para de algum modo justificar sua ausência de Roma com a percepção de vencimentos, confiou-lhe a incumbência de permanecer nessa região da Ásia Menor, como seu e também emissário especial do próprio Senado. Onde não existem as nuvens tendenciosas dos interesses subalternos, tudo é claro e perfeitamente compreensível!

A Bierce, com ou sem razão, declarou que "a História é uma narração quase sempre mentirosa, de fatos quase sempre insignificantes, realizados por governantes quase sempre marotos e por soldados quase sempre imbecis." Eu prefiro comparar a História a uma respeitável anciã que, pela sua idade muito avançada, tem já a memória demasiadamente enfraquecida. Esquece-se, a todo momento, de contar episódios curiosos da sua vida. Senão, vejamos: O Sr. Antônio Neves Mesquita, em sua obra - "Estudos no Livro de Gênesis" - relata o seguinte: "Os grandes guerreiros Sargão lI, Esaradon, Tiglat-Falasar, Assurbanipal, Nabucadrezar, Ciro, Dario e uma lista de outros, não eram conhecidos há dois séculos passados e, por conseguinte, não era conhecida a sua história. Isto bastou para que a Bíblia fosse impugnada como contrária à História, falsa, lendária, etc. Quem ousaria hoje afirmar tal coisa? A Arqueologia encarregou-se de desenterrar todas estas civilizações e faze-las viver em nosso século." Se há alguns anos, em comunicação mediúnica, um Espírito dissesse chamar-se Akhenaten e que fora rei da décima oitava dinastia egípcia, naturalmente surgiria um Pais Barreto qualquer a proclamar a inverdade dessa comunicação, a flagrante mistificação do médium porque a História não consigna houvesse, naquela dinastia egípcia, existido rei algum com esse nome! E no entanto, agora, em nossos dias, a Arqueologia veio apresentá-lo ao mundo. Esse Ahkenaten fora filho de Amenhotep III mas a História o registrara, apenas, como Amenhotep IV!!!

Grande psicólogo esse senhor La Fontaine! Suas fábulas continuarão, ainda por muitos séculos, oferecendo-nos o retrato perfeito desses "lobos" que desejando inutilizar uma obra de amor e de verdade, como a do Espiritismo, não trepidam em lançar mão de motivos absurdos, mas perfeitamente justos em seu entender faccioso
e apaixonado .

E quanta verdade encerra este pensamento de Le Sage - "Quando a paixão entra pela porta, a razão sai pela janela"!!!


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Fala o Líder



Fala o Líder
G. Mirim  (Antonio Wantuil)
Reformador (FEB) Agosto 1944

A Igreja Católica acaba de manifestar-se, pela imprensa, por intermédio da voz autorizada do seu prestigioso líder, o Sr. Tristão de Ataíde, declarando, peremptoriamente, que são reais as comunicações dos mortos com os vivos. Aliás, todos os líderes dessa igreja têm sido acordes nessa afirmação e muitos, como o sr. Felício dos Santos, no Brasil, e o Sr. Lapponi, na Itália, tem escrito livros onde nos apresentam uma série desses fenômenos.

Em entrevista concedida ao "O Globo" de 7 do corrente mês, o prestigioso líder e chefe civil do Catolicismo brasileiro, Sr. Tristão de Ataíde, acaba de declarar:

“As manifestações de ordem sobrenatural podem ser explicadas ou como manifestações angélicas ou como manifestações demoníacas, através de meios humanos".

Essa declaração é categórica. Afirma que, por intermédio dos meios humanos, ou, seja, através de médiuns, os chamados mortos se comunicam com os vivos. Em duas classes divide o ilustre líder essas manifestações: angelicais e demoníacas. A primeira, segundo o criador da classificação, devem pertencer as que são recebidas pelos médiuns católicos, como a atual Teresa Neuman e, demoníacas, todas as transmitidas através de criaturas que não pertençam à Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Muito respeitável é o ponto de vista do distinto líder, visto que a história das religiões nos apresenta outras opiniões, todas, também, dignas de respeito. Assim, os sacerdotes do Judaísmo só admitiam o que era pregado e ensinado pelos seus maiores e negavam qualquer valor às palavras e ensinamentos do humilde Nazareno, chegando, mesmo, com o poder de que dispunham, a condená-lo à morte como impostor, herege e revolucionário.

Há, todavia, um ponto em que o referido líder deve estar um pouco atrasado, apesar dos seus afamadoÉs dotes de cultura e de inteligência. Os fenômenos não são sobrenaturais, como afirma. Nada existe de sobrenatural nessas manifestações. Elas aí estão porque fazem parte da obra divina, logo, não são sobrenaturais. E se assim as denominaram os antigos, pela sua tendência ao misticismo e ao milagre, não podem os homens atuais, que já lhes conhecem as leis por que se realizam, chamar-lhes sobrenaturais, mas, naturalíssimas, e classificadas cientificamente por centenas de sábios pertencentes àquele grupo que estudou o movimento da Terra, a
circulação sanguínea, o para-raios e outros fenômenos que os mesmos líderes da Igreja Católica classificaram, então, como demoníacos.

O Sr. Tristão de Ataíde prestou ao Espiritismo um grande serviço. Os nossos irmãos católicos necessitam, de quando em vez, ouvir a repetição dessa afirmativa da
sua Igreja: “Os fatos são reais". E necessitam porque, constantemente, lemos artigos de certos figurões que se dizem católicos, os quais procuram negar a existência desses fatos, apesar de se dizerem católicos e de apresentarem as suas homenagens à Igreja a que estão ligados. É preciso que esses negativistas saibam que a sua igreja admite o fenômeno e que, negá-lo é ofensa à infalibilidade do Catolicismo.

Os nossos agradecimentos, pois, ao líder católico.

Amor e Egoísmo



Amor e Egoísmo
por Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Junho 1944

            "Disse o Rei aos que se achavam à sua direita: Vinde benditos do meu Pai; possui como herança o reino que vos está destinado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era forasteiro, e recolhestes-me; estava nu, e vestistes-me; estava prisioneiro e enfermo e visitastes-me. Então perguntaram os justos, Senhor, quando te vimos faminto, sedento, nu, forasteiro, encarcerado e enfermo, e te assistimos? E o Rei responderá: Em, verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Prosseguindo, disse o Rei aos que se encontravam à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, destinado ao diabo e seus anjos. Pois tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; estava nu e não me vestistes; era forasteiro, e não me recolhestes; enfermo e preso, e não me visitastes. Estes também indagarão: Senhor, quando te vimos faminto, sedento, nu, forasteiro, enfermo e encarcerado, e não te assistimos! Então lhe responderá: Em verdade vos digo que todas as vezes que o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.”  (Evangelho).

Os trechos acima, extraídos da Parábola dos Cabritos e das Ovelhas, são dignos de toda a meditação e apreço, por isso que encerram, numa síntese concisa, clara como a luz meridiana, a súmula da lei que rege os nossos destinos.

Os dois grupos - o dos eleitos e o dos réprobos - distinguem-se por uma só e única característica; O primeiro, conduziu-se pelo influxo do amor; o segundo, pela influência do egoísmo. Uma só virtude salvou os bem-aventurados. Um só pecado perdeu os precitos (que está previamente condenado). Céu e inferno resultam, pois, respectivamente, de uma única norma de conduta: solidarismo ou isolacionismo. A condenação dos esquerdistas não procedeu propriamente do mal que houvessem cometido, porém do bem que deixaram de praticar. Sua atitude foi negativa, em obediência ao programa ditado pelo egoísmo, enquanto que a dos direitistas foi positiva, atendendo aos impulsos do amor, Dessas circunstâncias, que representam causas distintas, resultaram, como é natural, efeitos opostos, isto é, a felicidade de um grupo, e a desventura do outro.

Havendo, portanto, uma só virtude que salva, e um só pecado que condena, torna-se simples e sumário o julgamento das almas. Não se faz mister aparatos, defensores e acusadores, o Juiz não precisa recorrer a testemunhas, informes e pesquisas fastidiosas. Não lhe interessa a religião, a raça, a naturalidade, os conhecimentos, a política e a posição daqueles a quem vai julgar. Uma só informação, um só antecedente lhe basta para formular o único quesito de cuja resposta depende a sentença, esse quesito resume-se no seguinte: as necessidades, as vicissitudes e as angústias dos pequeninos encontraram, ou não, eco em seu coração? Nada mais. A resposta afirmativa é a vida a negativa é a morte.

A vida está no sentimento. A morte na impiedade. E o que é o sentimento, que nos desperta interesse pelos que sofrem, senão o reclamo do amor? E o que é a indiferença, a frieza, numa palavra a impiedade, senão a resistência do egoísmo? Entre o amor e o egoísmo oscila, inclinando-se para a direita ou para a esquerda, o fiel da balança, símbolo da soberana e indefectível Justiça Divina.

O amor faz os justos; o egoísmo, os réprobos. Não há, pois, necessidade de enumerar faltas, delitos e crimes, tais como o homicídio, o roubo, o adultério, a inveja, a cobiça, a hipocrisia, a luxúria. etc. por isso que o egoísmo reveste no mal, todos os aspectos e modalidades, Outrossim, torna-se dispensável aconselhar e encarecer o valor e a excelência das virtudes, essas ou aquelas, porque todas elas são aspectos e modalidades que o amor assume na infinita esfera do Bem e do Belo.
            
Jesus encarna todos os sofredores, todos os abandonados e todos os párias deste mundo, Ele tomará sobre si as nossas dores, disse o profeta.

Cada um dos padecentes a que se reporta a Parábola representa certo problema social, até hoje sem solução. Os famintos, sedentos e nus personificam o pauperismo, a miséria, os doentes, a enfermidade, os encarcerados, o crime; e, finalmente, o forasteiro que perambula ao léu, os desocupados. Tais problemas são do passado e são do presente, por isso que são de todos os tempos, constituindo, alguns deles, o fermento de agitações que convulsionam a humanidade, e de guerras cruentas e bárbaras que, por vezes, tem ensopado a terra de sangue e de lágrimas, quando Deus determinou que ela fosse regada com o suor do nosso rosto.

Não basta, portanto, dar de comer ao que padece fome ao nosso lado; vestir o nu que está ao alcance de nossa vista; assistir o forasteiro e o enfermo e o prisioneiro, de nosso conhecimento, Cumpre encararmos de frente os problemas sociais que esses sofredores personificam, trabalhando pela sua solução.

Sabemos que mesmo através das iniquidades do século, cumpre-se a Divina Justiça. O sofrimento por que o homem passa importa no reajustamento do seu passado ao presente. Todavia faz parte dos nossos deveres porfiar pelo progresso do planeta que ora nos hospeda, contribuindo com o nosso esforço pessoal, para que,
mediante a nossa, se consume a sua evolução.

Ora, as raízes dos males, que infelicitam o nosso orbe, estão na organização social vigente, organização esta urdida de egoísmo, falha de sentimento, divorciada do amor. Sua finalidade é invariavelmente, o lucro, o interesse, sendo que este se desdobra em várias formas, desde o interesse velado, cujo objetivo é a vaidade particular ou o prestígio dos credos, instituições e partidos. Todas as atenções convergem para semelhante alvo, ao qual tudo o mais é sacrificado. 

Para Jesus, o indivíduo constitui o valor supremo, conforme demonstra a sua atitude diante dos leprosos, da mulher adúltera e de todos os deserdados que o procuravam. Este é o critério que deve orientar a sociedade futura.

Se a guerra mundial, que ora assola o planeta, trouxer essa transformação, estará devidamente compensando o sacrifício de tantas vidas nela imoladas. É necessário, pois, como já foi dito com justeza, ganharmos a paz, por isso que a vitória desse ou daquele grupo de beligerantes, de per si, nada representa. A vitória do amor sobre o egoísmo, do sentimento sobre os interesses, esse, sim, é a única capaz de assegurar a felicidade humana implantando na Terra o reino de Deus.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Deus e a igreja católica



Deus e a igreja católica
Rodolpho Calligaris
Reformador (FEB) Dezembro 1939

Somos dos que acham que a seara espírita é extremamente grande e devoluta, constituindo insensatez de nossa parte o deixá-la frequentemente para excursionarmos pelas searas alheias.
Por outras palavras, há no Espiritismo muita matéria a examinar e estudar, que deve e precisa ser divulgada, com maior proveito para a causa, do que a discussão de questões e assuntos que não lhe dizem respeito.
Os fatos, porém, com que nos vamos ocupar são de tal ordem, que não resistimos ao ímpeto de alinhavar este breve arrazoado.
Em dias do ano passado, teve lugar na catedral de Diamantina a sagração de D. José André Coimbra, nomeado bispo da Barra do Piraí, sendo a cerimônia dirigida por D. Serafim Comes Jardim, arcebispo de Diamantina, e bispos de Montes Claros e Arassuaí, dioceses sufragâneas daquela arquidiocese.

Tudo decorreu com aquela pompa e aquele aparato peculiares a solenidades que tais. Duas chapas foram batidas: uma a porta do Palácio
Arquiepiscopal, quando, sob o pálio, aqueles prelados se dirigiam à catedral e outra focalizando o pálio já em plena rua. Até aqui nada de extraordinário.

Acontece porém, que, ao serem reveladas as ditas chapas, notou-se em ambas a presença, nítida e perfeita, de um "extra", identificado como sendo o Espírito de D. Joaquim Silvério de Souza, falecido cerca de seis anos antes da referida Sagração.

D. Joaquim Silvério de Souza fora, em vida, patrono de uma associação cuja finalidade é custear o estudo de seminaristas pobres, sendo que era grande aspiração sua ver algum desses seminaristas sagrado bispo. Dizia então que, quando tal se verificasse, ele próprio seria o oficiante.

A sagração do primeiro de seus pupilos, D. José André Coimbra, deu-se seis anos depois de sua morte, circunstância que, conforme o atestam as fotografias em apreço, não o inibiu de ver cumprido aquele seu ardente desejo.

A igreja católica, que não perde vasa para as suas especulações, entendeu de explorar o caso, aliás conhecidíssimo dos adeptos do Espiritismo, servindo-se do embuste grosseiro do milagre para poder enganar e conseguir o fim que tem sempre em mira. Este "fim" é ilaquear a boa fé dos tolos e ignorantes e impingir-lhes milhares da milagrosa fotografia em "troca" de uma esmolinha, o que, certamente, não deixará de dar pingues resultados...

Um panfleto de propaganda do milagre, contendo uma das fotografias, só agora reveladas ao público, datada de Diamantina aos 20-9-1938, traz os seguintes dizeres por nós destacados propositadamente para que os nossos presumíveis leitores lhe apreciem a lógica genuinamente católica, apostólica, romana:

"Só os católicas são dignos, ante a face imutável de Deus, de receber tamanha graça, em tão estupendo milagre. Os espíritas costumam dizer que os mortos se comunicam, se deixam fotografar, mas nós continuaremos a dizer: Isto é falso, pois sendo as leis de Deus imutáveis,  iguais para todos os filhos de Deus, só para os católicos há exceção... Porque Deus violenta o seu próprio estatuto para operar o milagre! Aí está a prova de que os mortos não se deixam fotografar, a menos que tenham sido católicos e como tal tenham morrido."

Que tal, hein? "Só os católicos são dignos", "só para os católicos há exceção" e "só para os católicos Deus violenta o seu próprio estatuto". E nós que estávamos quase acreditando que "as leis de Deus são, mesmo, imutáveis e iguais para todos"...

Que ingenuidade, a nossa!

Esta outra tirada é ainda mais formidável: "Aí está a prova de que os mortos não se deixam fotografar...” e para corroborar aquilo que dizem, a fim de que não subsistam quaisquer dúvidas, apresentam... a fotografia em que aparece o Espírito de D. Silvério, morto seis anos antes!!!

É verdade que ressalvam:  “...a menos que tenham sido católicos e como tal tenham morrido". O inteligente leitor, porém, saberá dar a essa ressalva o apreço que merece ...

É extraordinário o ponto a que chegou o desplante e a impavidez do clero!

Fenômenos idênticos, verificados por um Aksakof, um Crookes, um Richet, não passam de ilusão, fraude, mentira ou sugestão; agora, o caso de D. Silvério é milagre!

Felizmente, porém, "os tempos são chegados" e a lógica dos fariseus já não convence a muita gente...

É deixá-los; acabarão falando sozinhos ...

*

O outro fato que deu ensejo a estas linhas não é menos interessante.

O general Franco, chefe da revolução que cobriu de luto a bela e heroica pátria de Cervantes, ofereceu a Deus a sua espada vencedora, tendo recebido, a propósito, a seguinte carta do cardeal primaz da Espanha, que transcrevemos do "Correio da Manhã", de 12 de Julho de 1939:

"Julgo de meu dever dar o maior relevo ao gesto nobilíssimo de cristã edificação que teve V. Ex. ao entregar, na qualidade de representante da Igreja na Espanha, a sua espada vencedora, como tributo de gratidão a Deus, que, com Sua Amorosa Providência, auxiliou os que lutaram por Sua Honra e pela da Espanha, e como veneração à Santa Igreja Católica da qual V. Ex. é filho ilustre e fidelíssimo.

"Fiz entrega da histórica espada ao Cabido da Catedral Primaz em cujo tesouro deve ficar guardada. Peço a Deus do fundo d’alma que dê todas as Suas bênçãos a quem ofereceu tal exemplo de religiosidade à Espanha e ao mundo, e que dê a V. Ex. luz e força para triunfar nas árduas tarefas da paz, como triunfou nos dias heroicos da guerra. Deus guarde a v. ex. muitos anos." (Os grifos são nossos),

Algum leitor menos avisado que deparasse com tal noticia, sem se inteirar da data de sua publicação, poderia, com justíssimas razões, confundir-se e supor tratar d’algum acontecimento ocorrido na infância da humanidade. Efetivamente, entregar um instrumento de guerra a Deus, em sinal de gratidão pelo seu auxilio ao massacre e destruição de milhares de filhos desse mesmo Deus, é coisa que aberra dos mais comezinhos princípios de moral e religião. O Deus que porventura aceitasse tal oferenda poderia quando muito ser o deus Marte, da mitologia antiga, mas nunca o Deus de amor e de justiça de que nos fala o Evangelho de Jesus. O qual não só ditou o "Não matarás", como condenou toda e qualquer forma de violência e desprezo para com os semelhantes, por constituir infração ao "amai-vos uns aos outros", mandamento que resume toda a lei e os profetas.

Por mais paradoxal que pareça, trata-se, porém, de um facto recentíssimo, passado num país que se diz civilizado e essencialmente católico, constituindo mesmo um magnífico exemplo de "religiosidade" oferecido ao mundo do século XX por um dos mais "ilustres e fidelíssimos filhos da santíssima igreja católica, apostólica, romana"!

Muito edificante, pois não!

Como vemos, a mentalidade católica d’aquém e d’além mar é a mesma. Aqui, é deus que "violenta o seu estatuto para operar um milagre-católico", provando destarte que "só os católicos são dignos e só para eles há exceção.

Acolá, é o mesmo deus que, "com Sua Amorosa Providência." (triste ironia), desce de seu sólio de astros e de estrelas, protege e auxilia o chefe de horrível guerra fratricida, para, depois de saciado em sua sede de sangue e morte, conduzi-lo finalmente à ambicionada vitória!

Semelhante deus, francamente, mais se parece com Satanás...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A ilusão do discípulo



A Ilusão do discípulo
Humberto de Campos por Chico Xavier
Reformador (FEB) Dezembro 1939

            Jesus havia chegado a Jerusalém sob uma chuva de flores.
De tarde, após a consagração popular, caminhavam Tiago e Judas, lado a lado, por uma estrada antiga, circundada de oliveiras, que conduzia às casinholas alegres de Betânia.
Judas Iscariote deixava transparecer no semblante uma íntima inquietação, enquanto no olhar sereno do filho de Zebedeu fulgurava a luz suave e branda que consola o coração das almas crentes.
- Tiago - exclamou Judas, entre ansioso e atormentado - não achas que o Mestre é demasiado simples e bom para quebrar o jugo tirânico que pesa sobre Israel, abolindo a escravidão que oprime o povo eleito de Deus?
- Mas - replicou o interpelado - poderias admitir no Mestre as disposições destruidoras de um guerreiro do mundo?
- Não tanto assim. Contudo, tenho a impressão de que o Messias não considera as oportunidades. Ainda hoje, tive a atenção reclamada por doutores da lei que me fizeram sentir a inutilidade das pregações evangélicas, sempre levadas a efeito entre as pessoas mais ignorantes e desclassificadas. Ora, as reivindicações do nosso povo exigem um condutor enérgico e ativo, - Israel - retrucou o filho de Zebedeu, de olhar sereno - sempre teve orientadores revolucionários; o Messias, porém, vem efetuar a verdadeira revolução, edificando o seu reino sobre os corações e sobre as almas!.. "       
Judas sorriu, algo irônico, e acrescentou: - Mas, poderemos esperar renovações, sem conseguir o interesse e a atenção dos homens poderosos?
- E quem haverá mais poderoso do que Deus, de quem o Mestre é o enviado divino?
Em face dessa invocação, Judas mordeu os lábios, mas prosseguiu:
- Não concordo com os princípios de inação e creio que o Evangelho somente poderá vencer com o amparo dos prepostos de Cesar, ou das autoridades administrativas do Templo, as quais, em Jerusalém, nos governam o destino. Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em Sebaste, em Corazim e Betseida, quando das suas ausências de Cafarnaum, jamais o vi interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida. É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas, só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.
- Jesus, porém, já nos esclareceu -obtemperou Tiago com brandura - que o seu reino não é deste mundo.
Imprimindo aos olhos inquietos um fulgor estranho, o discípulo impaciente revidou com energia:
- Vimos hoje o povo de Jerusalém atapetar o caminho do Senhor com as palmas da sua admiração e do seu carinho; precisamos, todavia, impor a figura do Messias às autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitar esse surto de simpatia. Notei que Jesus recebia as homenagens populares sem participar do entusiasmo febril de quantos o cercavam, razão por que necessitamos multiplicar esforços, em lugar dele, a fim de que a nossa posição de superioridade seja reconhecida, em tempo oportuno.
- Recordo-me, entretanto, de que o Mestre nos asseverou que o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.
- Não podemos levar em conta esses excessos de teoria. Interpelado que vou ser hoje por amigos influentes na política de Jerusalém, farei o possível por estabelecer acordo com os altos funcionários e homens de importância, a fim de imprimir novo movimento às ideias do Messias.
- Judas! Judas!.. observou-lhe o irmão de apostolado, com doce veemência. - Vê lá o que fazes!.. Socorreres-te dos poderes transitórios do mundo, sem um motivo que justifique esse recurso, não será, desrespeito à autoridade de Jesus? Não terá o Mestre visão bastante para sondar e conhecer os corações? O hábito dos sacerdotes e a toga dos dignitários romanos são roupagens para a Terra... As ideias do Mestre são do céu e seria sacrilégio misturarmos a sua pureza com as organizações viciadas do mundo! . . . Além de tudo, não podemos ser mais sábios e mais amorosos do que Jesus e Ele sabe o melhor caminho e a melhor oportunidade para a conversão dos homens!.. As conquistas do mundo são cheias de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que o Mestre representa.
 Judas sienciou, atormentado.
No firmamento, os derradeiros raios do Sol batiam nas nuvens distantes, enquanto os dois discípulos tomavam rumos diferentes.

Sem embargo das carinhosas exortações de Tiago, Judas Iscariote passou a noite tomado de angustiosas inquietações.
Não seria melhor apressar o triunfo mundano do cristianismo? Israel não esperava um Messias que enfeixasse nas mãos o conjunto de todos os poderes! Valendo-se da doutrina do Mestre, poderia tomar para si as rédeas do movimento renovador, enquanto Jesus, na sua bondade e simpleza, ficaria, entre todos, como um símbolo vivo da ideia nova.
Recordando suas primeiras conversações com as autoridades do Sinédrio, meditava na execução dos seus sombrios desígnios.
A madrugada o encontrou decidido, na embriaguez de seus sonhos ilusórios. Entregaria o Mestre aos homens do poder, em troca da sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente justas, a fim de organizar a vitória cristã no seio de seu povo. Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria a Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos.
O Mestre, a seu ver, era demasiadamente humilde e generoso para vencer sozinho, por entre a maldade e a violência.
Ao desabrochar a alvorada, o discípulo imprevidente demandou o centro da cidade e, após horas, era recebido pelo Sinédrio, onde lhe foram
hipotecadas as mais relevantes promessas.
Apesar de satisfeito com a sua mesquinha gratificação e desvairado no seu espírito ambicioso, Judas amava ao Messias e esperava, ansiosamente, o instante do triunfo para lhe dar a alegria da Vitória cristã, através das manobras políticas do mundo.
O prêmio da vaidade, porém, esperava a sua desmedida ambição.
Humilhado e escarnecido, seu Mestre bem amado foi conduzido à cruz da ignomínia, sob vilipêndios e flagelações.
Daqueles lábios, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, não chegou a escapar-se uma queixa. Martirizado na sua estrada de angustias, o Messias só teve o máximo de perdão para os seus algozes.
Observando os acontecimentos, que lhe contrariavam as mais íntimas suposições, Judas Iscariote se dirigiu a Caifás, reclamando o cumprimento de suas promessas. Os sacerdotes, porém, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram com sarcasmo. Debalde recorreu às suas prestigiosas relações de amizade: teve de reconhecer a falibilidade das promessas humanas. Atormentado e aflito, buscou os companheiros de fé. Encontrou-os vencidos e humilhados; pareceu-lhe, porém, descobrir em cada olhar a mesma exprobração silenciosa e dolorida.


Já se havia escoado a hora sexta, em que o Mestre expirara na cruz, implorando perdão para os seus verdugos.
De longe, Judas contemplou todas as cenas humilhantes e angustiosas do Calvário. Atroz remorso lhe pungia a consciência dilacerada. Lágrimas ardentes lhe rolavam dos olhos tristes e amortecidos. Malgrado à vaidade que o perdera, ele amava intensamente ao Messias.
Em breves instantes, o céu da cidade impiedosa se cobriu de nuvens escuras e borrascosas. O mau discípulo, com um oceano de dor na consciência, peregrinou em derredor do casario maldito, acalentando o propósito de desertar do mundo, numa suprema traição aos compromissos mais sagrados de sua vida.
Antes, porém, de executar seus planos tenebrosos, junto à figueira sinistra ouvia a voz amargurada do seu tremendo remorso.
Relâmpagos terríveis rasgavam o firmamento, trovões cavernosos os pareciam lançar sobre a terra criminosa a maldição do céu vilipendiado e esquecido.
Mas, sobre todas as vozes confusas da natureza, o discípulo infeliz escutava a voz do Mestre consoladora e inesquecível, penetrando-lhe os refolhos mais íntimos da alma: - "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai, senão por mim!.. "


sexta-feira, 11 de maio de 2018

Direitos e Deveres



Direitos e Deveres  
por Vinícius 
Reformador (FEB) Novembro 1939

Todas as rixas, leves ou graves, entre os povos e indivíduos, se originam da defesa ou da disputa de direitos. Ninguém quer abrir mão dos que tem, todos querem conquistar os que não têm.

Jesus foi o único que abdicou de todos os direitos próprios, para cumprir os deveres alheios. Em tal se funda sua escola: cumprir deveres e renunciar a direitos. Semelhante doutrina é a loucura da cruz, que os sábios e prudentes do século não podem conceber nem aceitar.

O homem primitivo desconhece deveres: usa e abusa do direito, única forma de ação que concebe. O homem do presente cumpre alguns deveres e exerce todos os direitos que pode. O homem do futuro cumprirá deveres e desistirá de direitos.

Fato curioso: quem acaba adquirindo maior soma de direitos são justamente aqueles que mais se dispõem a despojar-se deles. Renunciar é uma espécie de riqueza que quanto mais se espalha mais se ajunta e multiplica. Quem desiste de um direito que legitimamente lhe assiste, lança no coração da humanidade uma semente que vai produzir cento por um e, assim centuplicada, voltará um dia às mãos do semeador.

Existem muitas escolas de Direito. Delas procedem os jurisconsultos, os juristas, os magistrados e os causídicos. Todos eles proclamam o grande valor dessa ciência de cuja interpretação se dizem mestres. Não há, no entanto, um templo para o Dever, nem uma academia onde se aprenda essa disciplina. Não é, pois, de admirar que os homens não se entendam e vivam em constantes querelas e disputas à cata da justiça.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Fim do Materialismo



Fim do materialismo
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Agosto 1955

Em outro artigo já nos referimos de passagem ao profundo prefácio de Emmanuel para o novo livro de André Luiz - Nos Domínios da Mediunidade -, mas não citamos as palavras textuais do nosso Irmão Maior. Diz:

...Químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição ele investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem. sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiado estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecer, por falta de matéria, a base que lhe assegurava as especulações negativistas.

Os laboratórios são templos em que a inteligência é concitada ao serviço de Deus, e, ainda mesmo quando a cerebração se perverte, transitoriamente subornada pela hegemonia política, geradora de guerras, o progresso da Ciência, como conquista divina, permanece na exaltação do bem, o glorioso porvir.
O futuro pertence ao Espírito!

Todo o edifício materialista é construção sobre areia movediça, porque a matéria não é uma realidade, é apenas uma forma passageira de energia condensada, e a energia é dirigida pela mente, ou pelo Espírito, que tem força de dar-lhe formas, de agregá-la e desagregá-la a seu talante.

Quem tenha assistido aos fenômenos de materialização e desmaterialização, que é quase um brinquedo para os Espíritos, tem que perder sua fé na matéria e passar a confiar só no Espírito, em Deus como Espírito Universal, Força criadora e transformadora.

O novo livro de André Luiz é uma janela aberta para esse amplo porvir, no qual o Pan-materialismo será substituído nas consciências pelo Pan-espiritualismo e, consequentemente, pela mais sublimada moral; porque o homem verificará por toda a parte as leis morais em ação, prendendo a uns na jaula atroz da expiação, elevando a outros à suma felicidade do amor universal, sem meio algum de serem enganadas ou subornadas essas leis divinas, inexoráveis em sua perfeita justiça.

O livro relata uma excursão de dois aprendizes desencarnados, André Luiz e Hilário, guiados por um mestre, Aulus, pelos domínios da mediunidade em todas as suas mais variadas, infinitas manifestações. Visitam sessões espíritas de diversos tipos, desde as mais altas até as de tristes serviços (ou ilusões de serviços) puramente materiais, às quais afluem pedidos de empregos, de andamento de processos em repartições, de rusgas amorosas etc., e que lembram a triste situação de obscuros crentes católicos que "fazem promessas" aos santos de sua devoção, a fim de obterem tudo que espiritualmente lhes prejudicaria e seus pastores certamente desaconselhariam. Mas não se limitam a sessões espíritas; estudam a mediunidade igualmente na rua, na taverna de viciados, nos lares infelizes e felizes, por toda a parte em suma onde existe o homem, porque onde há um ser humano há um médium em ação.

Estuda o vampirismo como uma realidade concreta e não como o faz a crendice popular.

O vampiro é um Espírito muito grosseiro, apegado às sensações materiais inferiores, mais comumente ao alcoolismo, que subjuga um ser humano encarnado que possua tendências semelhantes às suas, para lhe servir de médium em sua incontinência, e desce com sua vítima aos mais profundos abismos da sensualidade e do crime.

As casas de diversões, as tavernas, todos os meios de viciados, estão repletos de vampiros e de vítimas.

Acompanhar em sua excursão os dois aprendizes e seu Excelso Mestre, através das páginas do livro, não só é muito instrutivo, mas também muito sedutor como literatura. Tem um sabor de "Divina Comédia", mas em prosa simples e clara, e não nos versos muitas vezes obscuros de Dante Alighieri. E muitas cenas que ocorrem
em nosso meio, sem que as compreendamos, são tão penosas como as do Inferno de Dante.

Se todos os livros de André Luiz são excelentes, este mais recente é, em certo sentido, melhor do que todos os outros, segundo nossa humilde apreciação, constituindo inegavelmente um compêndio prático para nos libertar de tremendos perigos que nos envolvem por todos os lados.
...................................................................

Do Blog: Que tal fazer deste livro sua próxima leitura?


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Do berço ao túmulo


Do berço ao túmulo
por Nicolás Reyes Esquivel
Reformador (FEB) Maio 1954

Berço, Túmulo, dois extremos da vida.

O Berço é ave mensageira de plumagens brancas, que traz um companheiro para vida.

O Berço é para o mortal, alegria, entusiasmo, dia de festa para os que esperam, e que não sabem se o que chega é enfermo da alma, criminoso com todas as agravantes humanas e divinas, ou acrisolada virtude em alma pura, com importante missão a cumprir junto dos homens. Os que esperam sabem somente que é a inocência: sua pequenez, seus movimentos, seus gemidos, seus instintos de conservação, seus olhares puros e outros mil pormenores próprios da criança, de um ser indefeso, envolto em fraldas - sejam elas de algodão ou de seda - dizem-nos apenas que é nosso filho, um irmão, parente ou amigo e ao qual nos cabe prodigalizar os cuidados necessários.

O recém-chegado é inconsciente. Está aturdido. Para ele não há explicação possível: revela sua presença apenas por um gemido doloroso - o mais cruel – depois, muitos outros gemidos, dolentes. A um Espírito livre que se tornou prisioneiro, preso pelos laços de sua vestidura carnal, tudo se lhe obscurece. A partir desse momento ele sofre o tormento da vida.

Viver para tornar a morrer e progredir sempre (Tal é a Lei), disse um filósofo. Ele viveu nos espaços siderais, contemplou mundos de luz e de trevas; viu suas humanidades e não ignora que as há selvagens e também infinitamente sábias. Quanto mais evolvido, melhor conhece esse laboratório infinito da vida espiritual. Hoje, porém, que baixou à prisão, hoje que se tornou preciso morrer, nas alturas, para seguir sempre adiante, ele não sabe nada. Um véu denso, terrível, espantoso, mais terrível e espantoso que o sepulcro, o envolve por todos os lados circunscrevendo-o aos cinco miseráveis sentidos focos imperfeitos e deficientes, quando comparados com os psíquicos da vida espiritual. E ainda mais: pode vir mudo, surdo-mudo ou carente de todos os sentidos. Pode vir louco.

Não obstante, sentimo-nos satisfeitos com a sua chegada, desde que as condições se mostrem favoráveis, ou profundamente entristecidos se nos chega organicamente atrofiado. Nada sabemos a respeito de sua alma, unicamente que é um inocente. Doloroso seria, querido irmão, caso pudéssemos adivinhar qual o valor espiritual que este viajante desconhecido traz à Terra!

Talvez haja embarcado para fazer uma viagem neste mundo. Ela, porém, é tão perigosa! O caminho a percorrer está juncado de obstáculos, basta que se desvie um pouco, para cair no abismo sem fundo. Contudo, ali não perecerá, porque a vida não se acaba, mas terá, isto sim, que reiniciá-la, e em cada uma delas com provas sempre em consonância com as suas quedas.
Este caminhante não pode descuidar-se e nem parar; tem de afastar os obstáculos que surgem, pois que, à medida que avança, eles se vão tornando mais numerosos, daí ser indispensável, sempre e sempre, redobrar esforços até chegar ao extremo do caminho. Uma voz o adverte então e diz: “Chamo-me consciência e acompanho-te sempre”: A seu lado seguem entidades, aconselhando-o, dando ânimo e forças, a fim de que continue o seu carreiro, mas que não tomarão parte em suas lutas, pois que ele próprio deve ser quem se coroe, ao término da viagem. Se deixar de ouvi-las, sua consciência se obscurece, não toma precauções, desvia-se do roteiro seguro e irá precipitar-se no abismo. Por isso, ao começar teu calvário, ó alma! o grito é doloroso. Tal viagem é pior que a morte. É a experimentação que te conduz à mansão dos bem-aventurados ou aos recintos da desolação e da tristeza onde moram os Espíritos sem luz. Porém, ó alma! eu já te disse: quantas vezes fracassares, tantas outras terás de voltar - não importa o tempo -, porque aí está a Eternidade.

Venceste, mas também caíste. E na verdade quem não caiu? Todas as vezes que caias, redobravas teus esforços e aplanavas o caminho; cada Vez desapareciam esses obstáculos e, quando afastaste a maior parte deles, então não mais tiveste que fazer esforços! bastou-te a vontade.

Muitas vezes iniciaste o percurso, terminando-o sem que ficasse em tua vida material uma recordação. São os dois polos da existência. Nascer e morrer. Berço e Túmulo. Resultado: amor e ciência. Deus é o amor, Deus é a ciência. Pelo amor e pela ciência chegarás a Deus.

Luta, irmão: o berço e o túmulo são os cenários de tuas existências para progredires. Não necessitas de ouro, nem de prata em teus alforjes, nem da coroa de rei, nem do bolso do avarento; podes ir humilde, mas escutando sempre a voz de tua consciência que te dita: amor, honradez justiça.. Não te macules com o orgulho do déspota, nem com a crueldade do tirano, nem com a vaidade do ignorante, por serem a lepra da desgraça.

Assim falou o filósofo, para que medites.

(Traduzido de Voz Informativa, do México, número de Dezembro de 1953)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Em Cristo


Em Cristo
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Maio 1954

Cristianismo será, sobretudo, nós em Cristo, tanto quanto o Cristo vive em nós.
A fim de alcançar, porém, essa fórmula de integração divina, para que o apostolado santificante da Boa Nova se estenda a toda a Terra, através de nossa fé renovadora, não basta a confissão exterior do nosso modo de crer.
É imprescindível nos ajustemos ao ideal, à ação, à conduta e à atitude do Mestre perante a vida, convertendo-nos, assim, em refletores de sua vontade misericordiosa e justa.
O Evangelho não ê um florilégio de afirmativas filosóficas, a caminho dos museus literários e, sim, roteiro vivo, que nos cabe observar, negando a nós mesmos, tomando a cruz de nossas responsabilidades individuais e seguindo ao encontro de nossa união com o Benfeitor Celeste.
Para isso, contudo, não nos compete indagar e sim obedecer.
Não desfrutamos, por enquanto, o direito de tudo compreender, no quadro de nossas presunções científicas, mas atingimos, por graça do Senhor, a oportunidade de servir em Seu Nome.
Nesse sentido, não vemos o Cristo, em sua gloriosa passagem no mundo, internado no labirinto das inquirições sem propósito, acerca da natureza divina, nem mergulhado na teorização quanto a esse ou àquele setor do incognoscível, mas em todos os instantes extremamente consagrado a Deus na pessoa das criaturas, exemplificando o imediatismo do bem, no reerguimento das almas, dando-nos, assim, a entender que a extensão do Reino do Céu à comunidade humana é serviço afeto à nossa própria responsabilidade de espíritos endividados à frente do mundo - milenária escola de nossas consciências - que tudo nos têm dado e que espera de nós a conjugação do verbo ressarcir.
Enquadrando-nos, desse modo, nos padrões de ordem moral que Jesus nos legou, abandonemos a pesada concha do "eu" que nos retém nas trevas do egoísmo esterilizante e avancemos na direção do Alto, alongando braços e corações, no culto da verdadeira fraternidade, para com o próximo mais próximo.
Desce a luz - para clarear as sombras.
Corre a fonte - para fertilizar a terra seca.
Amadurece o fruto - para alimentar.
Surge o remédio - para socorrer.
Brilha a sabedoria - para eliminar a ignorância.
Nasce o amor - para a desintegração do ódio.
Floresce, vitoriosa, a fé viva - para aquecer as almas enregeladas na indiferença.
O cristão igualmente é uma dádiva do Céu à Terra, para que a vida se faça melhor e mais digna de ser vivida.
Cristianismo, pois, sem atividade regeneradora dos aprendizes que o esposam, é pregação morta no túmulo adornado das bibliotecas sem proveito ou no cárcere da inteligência sem amor.
Compete-nos, portanto, avançar para a frente, centralizados em Jesus, em favor de nossa integral comunhão com Ele e a benefício da redenção total do mundo.
Nós em Cristo, para que o Cristo reine em nós.

Alma e Corpo



Alma e corpo
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Maio 1955

Não nos esqueçamos de que o corpo na Terra é o filtro vivo de nossa alma.
Nossos pensamentos expressar-se-ão, segundo sentimos, tanto quanto nossos atos serão exteriorizados, conforme pensamos.
            Todos os processos emocionais de nosso coração atingem o cérebro, de onde se irradiam para o campo das manifestações e das formas.
Sensações e atitudes mais íntimas se mostram, invariavelmente, em nossa vida de relação.
A gula produz a deformidade física.
            O orgulho estabelece a neurastenia sistemática.
A vaidade conduz, apressadamente, à loucura.
A cólera dá origem à congestão e à apoplexia.
O ciúme arrebata ao ridículo.
            A maldade encontra sempre a casa escura do crime.
A inveja situa o homem na preguiça e na maledicência.
O desânimo alimenta o caruncho da inutilidade.
A ignorância faz a miséria.
A tristeza prolongada deixa na alma o cupim das moléstias indefiníveis.
O vício gera monstruosidades.
Os hábitos deploráveis trazem a antipatia em torno de quantos a eles se afeiçoam.
A paixão, não raro, conduz à morte.
Cada sentimento emite raios e forças intangíveis que lhe são característicos.
Cultivemos, assim, a bondade, a compreensão e a alegria, porquanto nelas possuímos o manancial das energias de soerguimento e elevação da nossa alma eterna para Deus, nosso Pai e Misericordioso Senhor.
Nem corpo inteiramente mergulhado na Terra, nem espírito integralmente absorvido na contemplação do firmamento.
A árvore produz para o mundo, sustentando a vida, de raízes imersas no solo e de copa florida a espraiar-se em pleno céu.
Aprendamos com a Natureza.
A situação ideal será sempre a do equilíbrio com a vigilância concentrada por dentro. Por isso mesmo, há muitos séculos, já nos afirmava a profecia: - "Guardar com carinho e cuidado o coração, porque realmente dele procedem as correntes da Vida."