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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Práticas Religiosas


Práticas Religiosas - 1
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Novembro 1941

Em certos meios paulistanos, o Espiritismo, parece, vai romanizando-se e os que têm espírito crítico mais ou menos independente devem dar o sinal de alarma.

"Política dos espiritistas", dirão; mas, o Espiritismo não tem política, diremos. Deixem-se tais inovações aos credos materializados ou materialistas, como o romanismo, que quase nada mais tem de espiritualidade; é romanismo civil... A Santa Madre, agora, multiplica seus Congressos Eucarísticos e encarrega os jornais oficiosos de dar-lhes larga publicidade, com enormes clichés, onde se veem as autoridades civis sempre acompanhadas dos senhores bispos, padres, etc. Ela, a Igreja, já recebeu a sua parte, consoante diz o Evangelho, pois que vive unicamente desse exibicionismo, dessa exterioridade, desse formalismo ritualístico, que é o que lhe basta.

Mas, entre nós, espiritistas, precisa não ser assim, por isso que só devemos homenagens à Igreja viva, do Senhor Jesus, qual a estabeleceu Ele, e não a Igreja morta, material, que para subsistir necessita da mão forte do Estado, das muletas do mundo político-oficial.

A Igreja viva do Senhor Jesus, sempre e cada vez mais vivo e vivificante, não é a que se encontra nas dioceses, arquidioceses, paroquias, mas aquela que está dentro de cada ser, aquela cujo templo é o próprio indivíduo. E tanto assim é que Jesus disse: "onde duas ou mais, pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei". A nossa fé deverá viver sentida e não mostrada. Mostrar-se, ela o deve, porém, unicamente nos atos da vida quotidiana e sobretudo no exemplo.

Aqui em S. Paulo, ao que parece, generalizam-se as concentrações como as que já se realizaram no Estádio do Pacaembú. E dizemos concentrações, para não dizer Congressos...

Nos nosso salões ou centros já se encontram enormes quadros com a efigie de Jesus Cristo e não será difícil verem-se amanhã andores, acompanhados por caravanas, incenso, banda de música, etc.

A tendência do homem, neste mofino planeta, é para corporificar tudo em forma material, transformar os símbolos em realidades palpáveis, tangíveis e práticas, sempre esquecido de que se deve adorar a Deus em espírito e verdade, isto é, em consciência, em atos enquadrados naqueles cânones indicados pelo seu divino Enviado.

Realmente, é difícil combaterem-se as tendências, herdeiros que somos de vasto acervo de hábitos, usos e costumes. Em religião, então, a coisa ainda é mais séria. Uma ideia, quando desce ao coração, ou ao subconsciente e se torna instinto, só mesmo uma força maior, maior sensação pode arrancá-la dali, motivo pelo qual a dor; o sofrimento, o desamparo são elementos de primeira ordem - única linguagem empregada por Deus para se fazer entender pelos homens.

Mas, para, bem compreendermos essa linguagem de Deus, faz-se mister ainda uma certa evolução espiritual. Os que têm olhos de ver encontram na doutrina espírita a equação prática do problema, retendo-a, transubstanciando-a, fazendo-a carne de sua carne, vida de sua vida. Felizes os que não perdem as lições.

Dissemos, linhas atrás, que é muito difícil combater-se, em religião, a tendência que temos herdado e realmente assim é. O paganismo, o politeísmo, que eram praticados em Roma e na Grécia, antes do advento do Cristo, continua latente, a imperar na humanidade, graças ao "Cristianismo' das Igrejas, que não passa de prolongamento daqueles.

Aos deuses familiares dos gregos, que eram seus antepassados, seus heróis, deuses esses que, igualmente, foram adotados pelos romanos, ajuntaram-se outros que, em vez de serem heróis, ou ascendentes, eram os elementos físicos da natureza: o Sol, a Lua, o trovão, o vento, etc. O altar - doméstico agrupava a família; o marido, o pai era o sacerdote desse altar. Como várias famílias adoravam, às vezes, os mesmos deuses, criou-se um aglomerado que foi a cidade. Temos, pois, fundada a cidade, cujas famílias praticavam os seus ritos no mesmo altar, no recinto fechado duma edificação - pritaneu na Grécia, templo de Vesta em Roma - lugares esses que eram os mais respeitados e venerados da cidade, pois que neles ardia o fogo sagrado.

Na Grécia enfraqueceu-se logo esta veneração, com o haver a imaginação grega levantado templos suntuosos aos seus deuses, segundo diz De Coulanges, cujo tratado estamos seguindo.

Ainda e sempre, observa-se aqui como a forma, o culto, a observância aniquilam a ideia. Efetivamente, quando se observa o culto da forma, a substância vai passando a um plano secundário.

Já, por isso, o divino Mestre fez sentir à Samaritana que Deus é espírito e como tal é que os seus verdadeiros adoradores o devem adorar!




Práticas Religiosas - 2
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Fevereiro 1942

A virtude, o caráter principal do Espiritismo está em elevar a inteligência humana à concepção do absoluto de Deus, e não o de estacionar em pequenos ritos, pequenas práticas em que nada há para refletir e aprender.

Comer-se uma refeição preparada sobre um altar consistia o principal culto do paganismo grego e romano. Essa a primeira forma que o homem deu ao ato religioso.

O "Cristianismo" de Roma e o de Lutero não se libertaram da velha influência pagã a que continuam jungidos, escravizados, no dogma imutável. O romanismo come, deglute o próprio Cristo. O protestantismo, se bem que um tanto mais simples, tem igualmente o seu repasto.

Na observância de práticas e ritos demoram as religiões que, por Isso mesmo, caem nesse automatismo que delas faz um meio de vida, criando-se assim os profissionais da fé. E as consequências aí estão: religião hoje, para toda gente, consiste em atos de culto exterior, em sacramentos, etc., que, uma vez cumpridos, põem a criatura em harmonia com Deus ... O substratum da doutrina do Cristo é pouca coisa; as práticas religiosas o mais importante ... Preenchidas umas tantas fórmulas e formas, está-se bem com Deus. Dele não se pode ter mais medo, porquanto, a sua exigência - o culto material - foi satisfeita.

Os espiritistas precisam estar vigilantes para não jogarem a doutrina na vala comum das outras religiões, cristalizando-a em formas litúrgicas, em cerimônias que só servem para abafar a manifestação intima e pessoal do nosso espírito. Daí o nosso grito de alarma contra os congressos, ou melhor, as concentrações públicas, as imagens do Cristo etc., que observamos na capital paulista. A observância da forma abafa, repita-se, o sentimento da substância.

O paganismo grego e romano tinha as regras estabelecidas, suas formas sacramentais para evocar a alma dos antepassados; uma palavra que faltasse na recitação de uma fórmula era o suficiente para o fracasso do que se pedia. Essas fórmulas haviam de ser repetidas ipsis litteris. Veja-se a influência que a forma exerce!

Quanto os bons espiritistas terão de lutar contra esse acervo de superstições acumuladas! O Espiritismo tem que preparar a humanidade para a implantação do reino do Senhor Jesus na terra, motivo pelo qual cada indivíduo tem que ser um sacerdote, sem, todavia, o sacerdócio das religiões que instituíram um esoterismo para si e um esoterismo para os outros.

Mas, todas as "religiões" nascem, vivem e morrem porque são plantas que Deus não plantou. Larguemos nós, os espiritistas, essas sementes que Deus não semeou. Tirem delas bom proveito as elites censoras do romanismo sibarita.



Práticas Religiosas - 3
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Abril 1942

Ao ilustrado e incansável batalhador Dr. Romeu de Camargo.

Celebra-se este ano o primeiro centenário de William James, que, herdando o misticismo de Swedenborg, através de seu Pai, aderiu ao Espiritismo.

W. James é incontestavelmente o maior filósofo da América. Coordenador do pragmatismo, doutrina filosófica que, salvo melhor juízo, consiste em estabelecer o critério da verdade de uma proposição na medida da utilidade de suas consequências, merece as homenagens de todos os espiritistas.

W. James é adorado na América do Norte, onde o Espiritismo avança a passos largos - a terra dignificando seu filho, seguindo-lhe as pegadas. Este exordio, que fugiu ao assunto do estudo que temos feito, sobre a contrafação do Espiritismo, que se nota em certos meios, foi a título de desencargo de consciência e, também, para convidar os confrades a fazerem somente Espiritismo inteligente, baseado em ciência e não correrem ansiosos, como faz muita gente, atrás de adeptos, o que é mais política do que religião.

Entre as contrafações, uma se avoluma, a que leva os membros da família espírita a discutirem entre si a natureza do corpo do Senhor Jesus. Que mal há que esta entidade ou aquele individuo aceite o divino Mestre num corpo carnal ou fluídico? Fique cada um com o seu ponto de vista, com a sua concepção e não discutamos o modo íntimo de sentir do crente. O conceito de liberdade deve estar, principalmente no espiritista, muito acima de melindres pessoais. O essencial é que procuremos exemplificar a doutrina, objetivando-a em nossa conduta. Que importa que se aceite o Salvador sob a indumentária carnal, físico-material, ou etérea, fluídica? Não é o habito que faz o monge ...

Em vez de nos determos numa questão que, na hora presente, é de Iana caprina, demoremo-nos em meditar a substância da maravilhosa doutrina que Ele ensinou, estudando-a em sua plenitude, pois que, assim, faremos que ela exsurja na harmonia e beleza de sua estrutura.

O homem quanto mais cultiva a forma menos serve à substância. A forma é a substância em ato, ensinava Aristóteles, e todos sabemos que essa forma é passageira, morre, transforma-se, dissolve-se no turbilhão da vida universal. O culto da forma é a geratriz dos automatismos; é a ideia passando do dinamismo do cérebro para a estagnação do subconsciente.

Não nos demoremos no exame das vestes do Senhor Jesus. Deixemos isto para as sutilezas da Escolástica, que só tem servido para complicar e aristocratizar o conhecimento de Deus. O luminoso Espírito de Emmanuel nos conta, pela pena de Francisco Candido Xavier, que, "os romanos, ao contrário dos atenienses, não procuravam muitas indagações transcendentes em matéria religiosa ou filosófica, atendendo somente aos problemas do culto externo (o grifo é nosso), sem muitas argumentações com a lógica, e foi por isso que, com a evolução da cidade, o Panteon, seu templo mais aristocrático, chegou a possuir mais de trinta mil deuses". O romanismo atual, com o seu número astronômico de santos, tem razões com a sua tradição, que lhe é tão cara...

Conhecemos e admiramos ótimos caracteres kardecistas, como admiramos e conhecemos excelentes amigos roustainistas. Aliás, Kardec e Roustaing jamais tiveram a pretensão de dizer a última palavra sobre o Espiritismo. Sejamos coerentes
com a doutrina, em cujo conhecimento apenas aprendemos as primeiras letras.

Seja-nos permitido voltar às sublimes lições de Emmanuel, endereçando-as aos litigantes do corpo do Senhor Jesus. "A grandeza da doutrina não reside na circunstância do Evangelho ser de Marcos ou de Mateus, de Lucas ou de João; está na beleza imortal que se irradia de suas lições divinas atravessando as idades e seduzindo os corações". Não há vantagem nas longas discussões, quanto à autenticidade de uma carta de Inácio de Antióquia, ou de Paulo de Tarso, quando o raciocínio absoluto não possui elementos para a prova concludente e necessária. "A opinião geral rodopiará em torno do crítico mais eminente, segundo as convenções". Todavia, a autoridade literária não poderá apresentar a equação matemática do assunto.

"É que, portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as almas e, em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos" (1).

(1) A caminho da luz, pag. 100


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Será crime a caridade?



Será crime a caridade? Parte 1

Reformador (FEB) Dezembro 1942

Jesus, reunindo os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem e para curarem todas as doenças e enfermidades, relata Mateus, no cap. 10 do seu Evangelho. Disse-lhes o Senhor: "E pondo-vos a caminho pregai, dizendo: que está próximo o reino dos céus.

Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; dai de graça o que de graça recebestes".

Mais tarde, nas últimas instruções que dava aos seus discípulos, Jesus de novo afirmou: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará as mesmas obras que eu faço e fará outras ainda maiores". (São João, cap. 14, v. 12). O fato é que os discípulos, pondo-se a caminho, pregavam os ensinos do Cristo e confirmavam a sua pregação com as curas que produziam, curando toda classe de enfermidades, impondo as mãos sobre os doentes.

E não se diga que Jesus tenha escolhido os seus discípulos entre a elite da sociedade israelita; eram eles homens iletrados, pescadores que ganhavam a sua vida pescando e vendendo o produto do seu labor.

Além dos doze, Jesus escolheu outros 70 entre a turba que o seguia atônita e mandou-os dois a dois e ordenou que fizessem o mesmo que os 12 e quando eles voltaram, muito alegres, disseram: "Senhor, até os mesmos demônios se nos
submetem em virtude do Teu nome".

Jesus lhes respondeu: "Eis aí vos dei eu poder de pisardes as serpentes, e os escorpiões, e toda a força do inimigo; e nada vos fará dano. E contudo, o sujeitarem-se-vos os espíritos não é de que vós vos deveis alegrar, mas sim deveis alegrar-vos de que os vossos nomes estão escritos nos céus". E exultando disse: "Graças Te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos". (São Lucas, cap. 10).

Ainda disse Jesus, momentos antes de sua ascensão: "E estes sinais seguirão aos que crerem em mim: Expulsarão os demônios em meu nome; porão as mãos sobre os enfermos e os sararão". (São Marcos, cap. 16, v. 17 e 18).

Há quase 80 anos, desde a introdução do Espiritismo no Brasil, tem-se pregado o Evangelho em espírito e verdade e confirmado a pregação com as curas de milhões de enfermos, dando-se de graça tanto as receitas, como os remédios, e a mão que traça estas linhas, por graça de Jesus, tem dado vista a cegos e curado milhares e milhares de doentes com a imposição das mãos, seguindo o preceito de Jesus. Milhares de outros têm feito o mesmo em todo o Brasil.

Não sei com que intuito se tem procurado, e procura-se cercear a prática dessa caridade cristã que a tantas criaturas tem felicitado em todo o território brasileiro.

O Sr. presidente da República que tão sábias providências tem sabido tomar para favorecer os desprovidos da sorte, os necessitados de socorro, a classe que trabalha, que luta para criar a sua prole, certamente não teve ainda ocasião de se inteirar do que se passa com referência à religião espírita e as dificuldades que se antepõem à sua livre prática.            

Apelamos, pois, para S. Excia., para que nos seja dada a mesma liberdade de que gozam todas as outras religiões no nosso pais. Que nos seja concedida a liberdade de "dar de graça o que de graça e por acréscimo, Nosso Senhor Jesus Cristo nos outorga". 

Inserto no "Correio da Manhã" de 6 do corrente como objeto da "Crônica Espírita" que esse diário costuma publicar aos domingos, o artigo que vimos de transcrever é da lavra do velho trabalhador da Seara de N. S. Jesus Cristo, Fred Figner, que, há muitas dezenas de anos, como médium curador, tem posto os dons mediúnicos que o Senhor lhe outorgou ao serviço do bem, curando um sem número de irmãos seus, presidiários, como ele, da carne, aliviando os sofrimentos de inúmeros outros e iluminando a muitos que, já evadidos dessa prisão, ainda escravizados se conservam ao mal, que é filho da ignorância e do erro, sempre fiel, o caridoso obreiro, ao preceito evangélico que manda se dê de graça o que de graça é recebido da munificência do Pai celestial.

Assim, a frase interrogativa que ele tomou para epígrafe do seu articulado não significa, nem poderia significar, é bem de ver-se, que no seu espírito paire qualquer dúvida sobre a legitimidade da prática da caridade cristã, sob todos os seus aspectos. Fora absurdo supô-lo, por um instante sequer, pois ninguém, melhor do que ele, sabe quão profunda e absolutamente verdadeira é a sentença que serve de lema à Doutrina Espírita, estabelecendo que ela é a mesma doutrina do Crucificado, ou do puro Cristianismo. O que a sua interrogação exprime, legitimando-se plenamente, é antes um brado de angústia da sua alma de crente sincero, angústia de que também a nossa participa, diante de circunstâncias e conjunturas que somente se justificariam, ou, pelo menos, explicariam, se de alguma forma se pudesse capitular de delituoso o exercício da caridade.

Entretanto, por muito que repugne à razão e a consciência desanuviadas admiti-lo, de tal natureza se tornou a mentalidade geral dos homens, no seio das sociedades ditas civilizadas e qualificadas de cristãs, que unicamente pela afirmativa pareceria possível responder-se à pergunta com que o nosso estimado companheiro de labor cristão encimou o seu artigo. Dir-se-ia, com efeito, que, por se haver tornado substancialmente cética e materialista, entremeada exclusivamente de egoísmo, de orgulho, de vaidade, de superlativa presunção, aquela mentalidade acabou, como aliás o estão revelando os fatos que há três anos se desenrolam em quase toda a superfície do planeta, por escravizar inteiramente as almas aos interesses mais subalternos e às ambições mais grosseiras, a uma cupidez tal, que as desvaira e cega para a visão do que quer que não esteja no âmbito da mais sórdida materialidade.

Ora, a caridade é filha primogênita do amor, sentimento de ordem puramente espiritual, composto de devotamento, de desinteresse, de abnegação, de renúncia, numa palavra: de altruísmo integral e, assim sendo, desde que sentimentos opostos ao amor são os que dominam o coração do homem, a verdadeira caridade deixa de ser compreendida o termo continua de uso corrente, mas com uma significação totalmente abastardada, pois que a caridade passou a consistir em dar esmolas e em fazer donativos mais ou menos vultosos, com maior ou menor ostentação, sempre de modo a granjear para a vaidade o prêmio que esta vive a buscar ansiosamente: os elogios, os louvores mundanos, as honras de benemerência terrena. Ninguém mais portanto, entende, nem pode entender que a caridade seja qual a definiu o Apóstolo Paulo, dizendo, no capítulo 13 da sua 1ª Epístola aos Coríntios:

            "Se eu distribuir todos os meus bens para sustento dos pobres e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disso me aproveita.
A caridade é paciente, é benigna, não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca jamais há de acabar ou deixem de ter lugar as profecias, ou cessem as línguas, ou seja abolida a ciência".

Daí, necessariamente e logicamente, o entender-se que faze-la de maneira diversa daquela isto é, dando esmolas com ostentosa retumbância; faze-la, procurando, sem alarde, aliviar os sofrimentos aos enfermos do corpo, levantando o ânimo aos que se deixaram abater, levando o conforto moral aos desalentados e desesperançados, libertando de seus perseguidores invisíveis os possessos do "demônio", orientando, por meio da prece, para a fonte da misericórdia inesgotável, o pensamento e o coração do que se revolta e blasfema, é prática indébita da arte de curar, quando não simples curandeirismo muito embora não haja nesse proceder o mais pequenino laivo de dolo, que era, ao tempo das velharias obsoletas, o que constituía a figura jurídica (cremos ser assim que se dizia) característica da contravenção ou do delito.

Dado isso, chega-se, de dedução em dedução, à conclusão lógica de que exercer a caridade, como a exercia Jesus, cuja vida foi toda ela um ato de caridade, e mandava que os seus seguidores de então e de todos os tempos a praticassem, é tão somente exercitar o curandeirismo, donde o corolário tremendo, mas irrecusável, de que o Cristo de Deus, o Messias prometido e mandado ao mundo, foi apenas o mais eminente curandeiro que a terra já conheceu, não sendo também outra coisa os seus apóstolos, os seus discípulos e todos os cristãos primitivos, cuja fé e humildade lhes permitiam fazer o que os apóstolos e discípulos faziam.

É possível e provável, quase certo mesmo, que nos lembrem, ou apresentem, como objeção ao que vimos de dizer, a divindade de Jesus, divindade que não só lhe facultava operar a série imensa dos "milagres" que produziu, como outorgar aos seus escolhidos a capacidade de igualmente os operar. Não colhe, todavia, a objeção.

Em primeiro lugar, a sua divinização foi obra de cunho meramente humano, legitimada, até certo ponto, pela impossibilidade em que se encontravam os homens, devido ao enormíssimo atraso das inteligências de apreenderem e compreenderem as causas determinantes dos efeitos que observavam. Tais efeitos, então, tiveram que ser considerados "milagres" e como só uma divindade poderia realizar coisas que pelo seu aspecto de prodígios extraordinários pareciam inteiramente fora para sempre da alçada das criaturas, a deificação daquele que as realizava em tão larga escala e só pelo poder da sua vontade foi a consequência natural. Progredindo, porém, a inteligência do homem, por virtude da lei universal da evolução, semelhante deificação perdeu a sua razão de ser e se acha hoje abolida completamente, para os que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir, pela compreensão, em espírito e verdade, graças ao advento do Consolador prometido, dos Evangelhos, onde não há uma palavra do Cristo de Deus, autorizando a divindade que lhe atribuíram; onde, ao contrário, superabundam, conforme se acha demonstrado, à saciedade, em Allan Kardec e em Roustaing, as com que Ele antecipadamente infirmou, privando-a de qualquer fundamento durável, a que a sua presciência lhe mostrava de antemão que viriam a atribuir-lhe, como efetivamente aconteceu.

Em segundo lugar, tanto não era na qualidade de Deus que Ele praticava a caridade, como costumava praticá-la, com as características que mais tarde Paulo, por Ele inspirado, lhe assinaria, que declarou aos que lhe ouviam as prédicas: fareis as obras que eu faço e outras ainda maiores, dirigindo-se, não somente aos discípulos ou aos que no momento o rodeavam, mas aos que então e de futuro guardassem a sua palavra, isto é, lhe seguissem os ensinamentos, que Ele próprio resumira num mandamento único, o do amai a Deus sobre todas as coisas, amando ao próximo como a vós mesmos.

O que acabamos de expender basta, parece-nos, para corroborar o que disse o irmão e amigo autor do artigo que nos moveu a traçar estas linhas e para lhe testificar a nossa solidariedade no doloroso espanto que o induziu a formular a interrogação com que intitulou o seu escrito. Entretanto, convém atendamos ainda a uma, pelo menos, das contestações que o espírito de seita não se furtará a contrapor-nos. Fá-lo-emos, contudo, de outra vez, para não alongarmos demasiado estas observações que, apesar de sumárias, já alcançaram excessiva longura...
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Será crime a caridade? Parte 2

Reformador (FEB) Janeiro 1943

Concluímos, no último número do "Reformador", as primeiras observações que nos sugeriu o artigo ali transcrito, que o estimado e operoso confrade Fred Figner publicara, sob o título acima, no "Correio da Manhã", dizendo que ainda nos cumpria atender a uma, pelo menos, das contestações que o espírito de seita nos anteporia. Consideremo-la.

Essa contestação é a de que o poder ou a faculdade de produzir as obras que Ele produzia, praticando a caridade-amor, o Divino Mestre somente o outorgou aos que iam ser os continuadores da sua missão e aos sucessores destes últimos, consta, antes de tudo, notar que Jesus, em nenhuma ocasião, falou sequer em sucessores especiais para os apóstolos e para os primeiros discípulos. A instituição de tais sucessores equivaleria a ter Aquele que viera fundar a Igreja Universal, cujo templo é o nosso planeta, cujos fiéis são todos os que praticam a sua moral simples e cujos sacerdotes são todos os de coração mais ou menos puro, que arrebanham os Espíritos transviados, para reconduzi-los ao divino redil, fundado uma igreja particularista e sectarista, qual a que fundaram, desprezando-lhe os ensinos, os que, ex-autoritate própria, se constituíram únicos herdeiros dos apóstolos. Absurdo dos absurdos.

Essa pretensão, ao contrário, Ele a deixou prévia e decisivamente invalidada por várias formas e em diversas circunstâncias. Fê-lo, quando declarou: Não são os que dizem: Senhor! Senhor! os que entram no reino dos céus, mas exclusivamente aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. Fê-lo, igualmente, quando, respondendo aos que lhe diziam que sua mãe e seus irmãos o chamavam, disse: "Quem são minha mãe e meus irmãos?" E acrescentou: "Minha mãe e meus irmãos são todos quantos fazem a vontade de meu Pai que está nos céus" querendo de tal modo significar que somente se lhe acham ligados pelos laços do amor fraternal únicos e inquebráveis, compondo a sua família espiritual, que somente pertencem à sua Igreja os que fazem a vontade do Pai celestial. E qual é a vontade que, cumprida, estabelece a ligação espiritual com Jesus? Ele desde logo aboliu quaisquer possíveis dúvidas a respeito, ao declarar que toda a lei e os profetas se contêm neste mandamento; amarem a Deus as criaturas de Deus, amando-se reciprocamente umas às outras.

Há, no entanto, ainda mais, que não permite se mantenha de pé por um instante a contestação que examinamos, como sendo a que provavelmente o sectarismo religioso apresentará, no pressuposto de que tão só aos que se arvoraram em herdeiros dos apóstolos é lícito possível realizar as obras que Jesus obrava e os apóstolos, depois, produziram, isto é praticar a caridade, sem limitação de espécie alguma, em observância do mandamento que acima lembramos.
                                   
Há, com efeito, no Evangelho de Marcos (cap. 9, v. 37-40), esta passagem
eloquentíssima:

"Disse-lhe em seguida João: Mestre, vimos um homem que expulsa os demônios em teu nome, mas que não te segue. Nós lho proibimos. Jesus disse: Não lho proibais, porquanto ninguém há que, tendo feito um milagre em meu nome, possa depois dizer
mal de mim, visto que quem não é contra vós é por vós; e quem quer que em meu nome vos dê de beber um copo d’água, por serdes do Cristo, não perderá, eu vo-lo digo em verdade, a sua recompensa."

Estas palavras que, pelo seu largo alcance e profunda significação, merecem estudadas detida e pormenorizadamente, conforme o faremos mais tarde, se Deus no-lo permitir, cortam cerce a contestação ou alegação que vimos apreciando, pois que firmam, como verdade insofismável, que a qualquer filho de Deus é dado fazer as obras que Jesus fazia, operando prodígios de caridade, desde que seja seu discípulo, isto é, haja tomado sua cruz para segui-lo, nele deposite fé viva, firmemente confie no seu amor e, humildemente submisso aos ensinos do seu Evangelho, obre sob o influxo desse sentimento, que teve nele a mais sublimada personificação entre os homens.

Do que deixamos expendido, forçosamente se há de concluir que exercer a caridade, curando os enfermos por todos os meios de que se possa dispor, expelindo os "demônios", reconfortando os desalentados, desentrevando as consciências, iluminando com a luz da verdade evangélica os entendimentos, restituindo fé aos que a perderam ou a tenham vacilante, dando, em suma, de beber um gole da água viva que mata toda sede d’alma, aos sequiosos de justiça, de liberdade, de paz e de ânimo para a difícil jornada da redenção, não representa privilégio de quem quer que seja, ainda que o consagrem as leis humanas e os cânones religiosos.

Nada obstante, como, aliás, fatalmente havia de acontecer e já o indicavam os próprios acontecimentos que culminaram no sacrifício do Gólgota, surgiram igrejas, declarando-se únicas depositárias da palavra do Cristo, únicas capacitadas para interpretá-la, mesmo quando de meridiana clareza, únicas cujos fiéis se achavam habilitados a reproduzir as obras do Cristo, a praticar a caridade como Ele exuberantemente a praticou, certas de que, para assim procederem, haviam conseguido realizar a transação, ou que outro nome tenha, que não logrou levar a melhor aquele personagem de que falam os Atos dos Apóstolos e que pretendeu obter destes últimos, por preço que lhe parecia bastante elevado, o dom de sarar os doentes, de dar vista aos cegos, de restituir os movimentos aos paralíticos, de limpar os leprosos.

Os fatos, porém, se encarregaram, para logo e através dos séculos, de abater tão injustificável pretensão, de mostrar que semelhante transação nenhum êxito alcançara, deixando prognosticar que aos que intentarem efetivá-la sucederá, se já não sucedeu, o que se verificou com o personagem a que vimos de aludir e que, tendo ouvido a resposta de Pedro à sua proposição, caiu fulminado. De fato, salvo algumas raras figuras eminentes, de legítimos cristãos, que afloraram, de tempos a tempos, no seio delas, para não deixarem que em completo olvido mergulhassem os ensinamentos do livro da vida, o que se há visto é que os demônios zombam dos hissopes (é, provavelmente, a manjerona, um pequeno arbusto) e da água benta e que os enfermos, na sua imensa maioria, nenhum alívio logram da ação dos que se dizem sucessores dos apóstolos.

Nem outra coisa poderia ocorrer, porquanto as obras a que se referia o Divino Mestre declarando: fareis as que eu faço e outras ainda maiores, somente sob a égide do Cristo podem fazer-se, ou, seja, com o espírito da doutrina evangélica. Ora, tendo-se divorciado sem tardança desse espírito, é claro que jamais poderiam as igrejas terrenas obrar em nome do Cristo de Deus.

Por outro lado, divorciados do espírito do vero Cristianismo, onde tudo tem que ser amor e, por conseguinte, devotamento, abnegação, renúncia, desprendimento dos bens terrestres, sacrifício, empolgou-as dominante o espírito de seita que é cego, fanático, intolerante, porque sempre voltado para os interesses materiais, e os que as constituíram se Identificaram de pronto com aqueles fariseus a cujo respeito ponderava Jesus que não entram e não consentem que os outros entrem, pelo que acrescentava, serão os últimos a entrar.

Evidenciado fica assim que, do ponto de vista religioso, o tratamento de enfermos, com desinteresse absoluto, por exclusivo amor do bem, mediante ou não a aplicação de medicamentos indicados por inspiração de benfazejos Espíritos do Senhor, é ato de pura religião, tomado este termo em sua mais ampla e lídima acepção, porque é ato de fé e humildade, praticado sob o influxo das virtudes que caracterizam o cristão em Jesus Cristo. Essas virtudes vedam ao praticante da caridade, que a todas as demais sobreleva, estabelecer distinção entre ortodoxos e heréticos, entre sábios e ignorantes, entre pobres e ricos, pois, observando-os pelo prisma dessa virtude, ele nos outros homens somente vê irmãos seus, porque filhos do mesmo Pai, que apenas os distingue pelo grau de progresso moral realizado e de cuja misericórdia, conseguintemente, pela só razão de ser infinita, nenhum se acha excluído.

Daí o poder afirmar-se que, como o proclama o Espiritismo, resumindo toda a Doutrina Cristã, sem caridade não há salvação, ou, por outras palavras, não há conquista da vida eterna, que, entretanto, todos têm de alcançar mais cedo ou mais tarde e que, segundo a definiu Jesus, é a vida do Espirito que adquire, pela perfeição moral, o conhecimento de Deus e nele se integra.

Acima de tudo, portanto, o que cumpre ao homem, para viver como o quer Deus, aqui na terra e fora daqui, é praticar de todas as formas e por todos os meios a caridade, uma vez que, enfeixando num único mandamento, o do amor a Deus e ao próximo, toda a legislação divina, o divino Mestre revelou e ensinou, exemplificando o seu ensino, que o Pai de ilimitada bondade apenas prescreve a todas as suas criaturas que o amem, demonstrando cada uma esse amor pelo proceder, para com todas as demais, como se
diante de si o tivesse a Ele, necessitado de seu valimento.

Ulteriormente encararemos a questão com que nos ocupamos sob outros aspectos, não menos importantes que ela comporta.
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Será crime a caridade? Parte 3

Reformador (FEB) Março 1943

Apreciados, como aqui o têm sido, à luz do Evangelho, entendido este, não segundo a letra, que agora mata, mas segundo o espírito, que vivifica sempre, os fatos de cura mediúnica das enfermidades físicas que atacam as criaturas humanas, por trazerem enfermas da lepra do pecado suas almas; apreciados tais fatos, de modo geral, pelo prisma sob que devem ser encarados, como simples, porém indeclinável obediência ao princípio básico do Cristianismo do Cristo, o de que sem caridade não há salvação, cremos que nem mesmo qualquer mentalidade, que porventura exista, exclusivamente moldada em cânones sectaristas, ou em postulados, científicos puramente materialistas, se julgara autorizada a responder pela afirmativa à pergunta que o nosso companheiro Fred Figner tomou para epígrafe do seu artigo e que mantivemos nestes por serem um desdobramento daquele.

Com efeito, nenhuma mentalidade bastante equilibrada, que se caracterize pela clareza e segurança do raciocínio, encontrará meios de contestar fundadamente que a prática da caridade, da caridade cristã, que implica desinteresse, renúncia, abnegação, da caridade estereotipada na parábola evangélica do Samaritano não está sujeita a nenhuma sanção humana, nem, ainda menos, pode ser considerada o que as leis humanas qualificam de contravenção.

Assim, claro é que também não pode ser equiparada, por exemplo, à do curandeirismo que sempre se assinalou pela aferição de lucros ou proventos pecuniários, a prática da caridade, conforme o Espiritismo a concebe, em perfeita concordância com o que prescreve a doutrina verdadeiramente cristã. Semelhante equiparação jamais lograria subsistir, não somente por se não justificar de forma plausível, como porque se denunciaria resultante de sentimentos e propósitos nada consentâneos com o espírito realmente religioso, nem com o espírito realmente cientifico; como derivantes de sentimentos e propósitos baldos da nobreza e elevação que dão cunho preciso aos atos e atitudes que se inspiram no bem, que se orientam para o ideal de justiça, de bondade e de paz, que as almas dignas acariciam e que só não atrai as que o orgulho e o egoísmo incompatibilizaram com a tolerância, a benevolência, a equanimidade.

Tampouco se justifica a condenação da prática de que vimos falando e da doutrina que a ordena - o Espiritismo, por constituir aquela e sanciona-la este uma invasão indébita e prejudicial do campo da ciência, ou, mais exatamente, da ciência médica, a cujo cargo exclusivo se acha, conforme o entendem muitos, a missão de combater as enfermidades, de tratar por meio de medicamentos, os doentes do corpo, livrando-os das suas doenças. A erronia dessa maneira restrita ou restritiva de entender-se o problema da cura dos males físicos que atormentam os seres terrenos, problema que se apresenta não sob uma apenas, mas sob múltiplas faces, que todas precisam consideradas, porque não há dissociar do espírito o corpo, mero instrumento seu, para só cuidar do último; a erronia desse modo de entender, dizíamos, Jesus a deixou evidenciada quando, ao mandar que seus discípulos fossem pelo mundo pregar o Evangelho do Reino, lhes pôs por dever precípuo a prática irrestrita da caridade para com todos os seus irmãos, determinando-lhes:

"Restituí a saúde aos doentes, ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demônios", acrescentando a seguinte cláusula insofismável: "Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido." (Mateus, 10:8).

Essa cláusula ou condição envolve, sem sombra de dúvida, a existência de alguma coisa por eles recebida. Que seria? Alguma coisa que houvessem haurido da ciência ou do saber dos homens? Não, de certo, visto que o divino Mestre e médico divino, se dirigia a criaturas completamente desconhecedoras dessa ciência.

Logo, tratava-se de alguma coisa provinda de mais alto, de fora do âmbito dessa ciência de fora mesmo da Terra. Que poderia então ser senão um dom de Deus, uma faculdade que o Pai outorgara a seus filhos, àqueles como aos demais, entre as diversas outras com que os dotara, faculdade, portanto, natural, embora de especial natureza, atento o fim, igualmente especial, a que deveria ser aplicada e especial ainda, porque destinada a somente ser utilizada com proveito pelos que a empregassem com amor e por amor? E caridade é amor.  

Daí decorre, forçosamente, que toda intervenção humana, tendente a impedir o exercício desse dom, em nome da ciência terrena, que nada é em presença da do Criador do universo, equivale a contrapor-se o homem a um desígnio da Divindade onisciente, à execução de uma lei divina e, conseguintemente, natural. Acresce que o dom ou faculdade a que nos referimos ultrapassa de muito o campo que a ciência terrestre labora, porquanto, ao passo que esta se cinge a curar umas tantas enfermidades que afetam o envoltório perecível do espírito, as que, após de porfiados trabalhos de observação e experimentação e mediante inspirações e intuições vindas do plano invisível, se tornaram, por assim dizer, familiares aos homens, o dom ou faculdade sobre que discorremos vai ao ponto de facultar a cura dos leprosos, a expulsão dos demônios (muitas vezes denominados no Evangelho "espíritos de enfermidade") e a ressuscitação dos mortos, isto é, dos que os homens consideram tais por se mostrarem com todas as aparências do estado de morte, ou os a quem a medicina terrena se reconhece de todo impotente para restituir a saúde.

É, pois, uma prescrição do médico divino, que ninguém ousará ter como curandeiro, por não empregar meios terapêuticos humanos no tratamento dos que buscavam o recurso da sua ciência extraterrena, o que se contêm na sua ordenação àqueles que iam lançar por toda parte as bases da universal Igreja Cristã, onde o culto se resume na prática ilimitada da caridade por amor de Deus e do próximo, e iam, ao mesmo tempo, proclamar c demonstrar que os que cressem na sua palavra de enviado do Pai celestial fariam as obras que Ele fazia e outras ainda maiores.

Ora, dada a sua procedência, nada poderá nunca prevalecer contra essa prescrição que, aliás, se acha implícita naquele preceito máximo do amor ao próximo, como expressão do amor a Deus, que é todo amor e bondade.

Quaisquer que sejam as restrições que se ponham, em nome seja do que for, à prática do bem sob todas as formas possíveis, e elas são infinitas, o que vale dizer ao exercício da caridade cristã segundo a exemplificação do divino Modelo e dos que Ele prepôs à disseminação imediata de seus ensinos, da doutrina que há de salvar das abominações do erro e da mentira a pobre humanidade da terra, ainda tão infeliz por escrava de toda casta de preconceitos, de toda sorte de ideias preconcebidas e de
sectarismos contrários à razão, porque apenas inspirados pelo orgulho e pelo egoísmo, que continuam a contar-se entre as mais graves e funestas enfermidades do espirito; quaisquer que sejam os cerceamentos que se criem à consciência e a fé dos que possuam o dom de Deus de que falou o Redentor à Samaritana a beira do poço de Jacó e se sintam capazes de utilizá-lo a benefício de seus irmãos, fim único para que lhes é outorgado, o conhecimento da verdade as fará desaparecer, eliminando-as como árvores que o Pai não plantou, de modo que apenas subsistam, sem que nenhuma obscuridade lhes empane a refulgência, as palavras do Messias, respeito as quais disse Ele próprio que não passariam, mesmo que passassem o Céu e a Terra.

Essa verdade é a que Ele personifica e personificará para todos os tempos; é a que constitui a essência e o fundamento das suas prédicas sublimes; é aquela a que se referia, rendendo graças ao Pai por havê-la ocultado aos doutos e aos prudentes, incapazes de a compreenderem e sentirem, e revelado aos pequeninos e humildes, aos "pobres de espírito", do espírito do século, cuja preocupação maior são os interesses mesquinhos da vida material; é a que se resume numa só palavra, conforme Ele o testificou, a palavra - amor. É a verdade que a terceira revelação, a revelação espírita, o Espiritismo, veio colocar de novo em foco, desentranhando o puro Cristianismo do amontoado imenso de interpretações grosseiramente errôneas, de falseamentos intencionais, de interesseiras deturpações e invenções flagrantemente incompatíveis quer com o espírito, quer com a letra dos ensinamentos que o estruturam.

A dor e o sofrimento farão que mesmo aos mais recalcitrantes ela se imponha, como todos os dias se vai impondo a um número sempre mais avultado dos que até à véspera a repeliam em nome dos princípios materialistas que adotavam, do espírito de seita que os dominava, ou do desprezo que, tendo-se na conta de "espíritos fortes", votavam a ideias que, segundo criam, somente em seres incultos e propensos às superstições podiam encontrar agasalho.

Não são afirmações graciosas estas, filhas da imaginação fantasista ou dos veementes anseios que arrebatam a alma idealista por ver cumpridas em toda a sua extensão as sagradas promessas que o amoroso Pastor meigamente ofereceu às suas pobres ovelhas, garantindo-as feliz resultado aos diligentes esforços que empreguem por evadir-se da misérrima condição a que se condenaram e por ascender à perene Bem aventurança reservada a todos os que se tornam "filhos de Deus", depois de se terem feito "filhos do pecado". São, ao contrário, afirmações decorrentes da observação dos fatos que, embora multiplicando-se incessantemente, ainda passam, em geral, despercebidos à maioria das criaturas, pelo viverem com os olhos quase exclusivamente voltados para as coisas mínimas e insignificantes que urdem a vida cotidiana.

Dentre eles, um se destaca, ocorrido ultimamente, que, pelo seu alcance e expressividade, nos forra ao trabalho de citar outros mais, que corroborem as nossas assertivas. Aludimos ao de que tivemos conhecimento lendo a concludente monografia que publicou, faz pouco tempo, o ilustre médico Dr. Mario E. Azambuja, um dos fundadores do Sindicato Médico Brasileiro, personalidade de grande projeção nos meios cultos do nosso país, especialmente nos círculos constituídos pelos profissionais da medicina, onde alcançou muito renome e aos quais consagra, particularmente, o seu trabalho.

Em próximo artigo (*) trataremos dessa monografia, tão importante, quão singularmente curiosa e eloquente, com a qual, ao que se nos afigura, seu eminente autor abriu aos descrentes, aos negadores, aos céticos, convidando-os vivamente a perlustrá-la, uma senda por onde muitos deles não tardarão a enveredar e que os conduzirá ao ponto que deixamos marcado acima - o do conhecimento da verdade básica do Espiritismo, como fator de eliminação de todas as prevenções e hostilidades que o Espiritismo ainda suscita e que dão lugar a que ainda se cogite de cercear, aos seus adeptos, aos neo-cristãos, a prática da caridade, qual ele a considera, encarece e preceitua.


(*) Não foi encontrada a continuação desse artigo em todo o ano de 1943. Não foi encontrado o nome do autor deste artigo nas revistas.

Necessidade do Bem


Necessidade do Bem
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1956

"E consideremo-nos uns aos outros para nos estimularmos à Caridade e às boas obras." - Paulo. Hebreus 10:24.

Muitas instituições da vida cristã, respeitáveis por seus programas e fundamentos, sofrem prejuízos incalculáveis em razão da leviandade com que muitos companheiros se observam uns aos outros.

Aqui, comenta-se o passado desairoso de quem procura hoje recuperar-se dignamente; ali, pequenos gestos infelizes são analisados através das escuras lentes do sarcasmo e da crítica...

A censura e a reprovação indiscriminadas, todavia, derramam-se na família de ideal, como chuva de corrosivos na plantação, aniquilando germes nascentes, destruindo flores viçosas e envenenando frutos destinados aos celeiros do progresso comum.

Nunca é demais repetir a necessidade de perdão, bondade e otimismo, em nossas fileiras e atividades.

Lembremo-nos de que, com o nosso auxilio, tudo hoje pode ser melhor que ontem e tudo amanhã será melhor que hoje.

O mal, em qualquer circunstância, é desarmonia à frente da Lei, e todo desiquilíbrio redunda em dificuldade e sofriment0.

Examinemo-nos mutuamente; acendendo a luz da fraternidade para que a fraternidade nos clareie os destinos.

Sem perseverança no bem, não há caminho para a felicidade.

                      Por isso mesmo, recomendou-nos o apóstolo Paulo: -“e consideremo-nos             uns aos outros para nos estimularmos à caridade e às boas obras”, porque                   somente nessa diretriz estaremos servindo à construção do Reino do Amor.

O herdeiro do Pai


O herdeiro do Pai
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1956

“A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo." - Paulo, Hebreus 1:2.

Cede aos poderes humanos respeitáveis o que lhes cabe por direito lógico da vida, mas não te esqueças de dar ao Senhor o que lhe pertence.

Esta fórmula conciliadora do Evangelho permanece, ainda, palpitando de interesse para o bem-estar do mundo.

Não convém concentrar em organizações mutáveis do plano carnal todas as nossas esperanças e aspirações.

O homem interior renova-se diariamente.  Por isso, a ciência que lhe atende as reclamações nos minutos que passam não é a mesma que o servia nas horas que se foram e a do futuro será muito diversa daquela que o auxilia no presente. A política do pretérito deu lugar à política das lutas modernas. Ao triunfo sanguinolento dos mais fortes ao tempo da selvageria sem peias, seguiu-se a autocracia militarista. A força cedeu à autoridade, a autoridade ao direito, No setor das atividades religiosas, o esforço evolutivo não tem sido menor.

Em vista de semelhantes realidades, porque te apaixonas, com tanta veemência, por criaturas falíveis e programas transitórios?

Os homens de hoje, por mais veneráveis, são herdeiros dos homens de ontem, empenhados na luta gigantesca pela redenção de si mesmos. Poderão prometer maravilhosos reinados de abastança e paz, liberdade e harmonia: entretanto, não fugirão ao serviço de corrigenda dos erros que herdaram, não só daqueles que os antecederam, no campo dos compromissos coletivos, mas igualmente de suas próprias experiências passadas em tenebrosos desvios do sentimento.

A civilização de agora é sucessora das civilizações que faliram.

As nações que se restauram, aproveitam as nações que se desfizeram.

As organizações que surgem na atualidade guardam a herança das que desapareceram na voragem da discórdia e da tirania.

Examinando a fisionomia indisfarçável da verdade, como hipertrofiar o sentimento, definindo-te, em absoluto, por instituições terrestres que carecem, acima de tudo, de teu próprio auxílio espiritual?

Como pode a casa sem teto abrigar-te da intempérie? A planta do arranha-céu, inteligentemente traçada no pergaminho, ainda não é li construção mantenedora da legítima segurança.


Não existem, pois, razões que justifiquem tormentos dos aprendizes do Cristo, angustiados pelas inquietudes políticas da hora que passa. Semelhante estado d’alma é simples produto de inadvertência perigosa, porque todos devemos saber que os homens falíveis não podem erguer obras infalíveis e que compete a nós outros, partidários do Mestre, a posição de trabalhador sincero, chamados a servir e cooperar, na obra paciente e longa, mas definitiva e eterna, d'Aquele a quem o Pai "constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo".

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os trabalhadores das diversas horas


Os trabalhadores das diversas horas
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Março 1943

O reino dos céus é semelhante a um proprietário que saiu pela manhã a assalariar trabalhadores para a sua vinha. Feito com eles o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a vinha. Saindo à hora terceira, viu outros na praça, desocupados, e disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. Eles foram. Saiu às horas sexta e nona e fez o mesmo. Finalmente, indo à praça à hora undécima e encontrando ali jornaleiros, disse-lhes: Por que estais todo o dia ociosos? Porque ninguém nos assalariou, responderam. Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. À tarde, chamou o seu mordomo dando-lhe a seguinte ordem: Chama os jornaleiros e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros. Chegaram, então, os da undécima hora e perceberam um denário cada um. Vindo os primeiros, esperavam receber mais; porém, foi-lhes dada igual quantia. Ao receberem-na, murmuraram contra o proprietário, alegando: Estes últimos trabalharam apenas uma hora, e os igualaste a nós que suportamos o peso e o calor do dia. Retrucou o proprietário a um deles: Meu amigo, não te faço agravo nem injustiça: não ajustaste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te embora, pois quero dar a este último tanto como a ti. Não me é lícito fazer o que me apraz daquilo que é meu? Acaso o teu olho é mal, porque sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos." (Evangelho).

A alegoria acima, como, aliás, toda alegoria, exprime e revela um princípio diferente daquele que literalmente enuncia. Parece, à primeira vista, haver injustiça da parte daquele proprietário que manda pagar igual salário aos obreiros das diversas horas do dia. Pois, então - como alegaram os que iniciaram o trabalho pela manhã - será justo pagar o mesmo jornal a nós e aos que entraram às nove horas, ao meio dia e até mesmo à hora undécima?

Para entrarmos no mérito do critério em que se baseou o proprietário da vinha, cumpre lembremos que a parábola em apreço tem relação com o reino dos céus, isto é, com os meios e processos empregados para a sua conquista. Neste particular, o tempo constitui elemento de somenos importância. "A cada um será dado segundo as suas obras", e não segundo o tempo, mais ou menos dilatado, de sua atuação nos arraiais do credo que professa. Assim, pois, se os jornaleiros da hora nona e do meio dia fizeram, pela maior soma de atividade empregada, tanto como os da manhã, é natural que percebessem o mesmo jornal, por isso que o proprietário havia prometido DAR-LHES O QUE FOSSE JUSTO. E aos da undécima hora? Seria possível, em tão minguado tempo, fazer o mesmo que os demais? Pelo dedo se conhece o gigante, reza o rifão popular. O que teriam feito aqueles assalariados no decurso de uma hora apenas? Aqui entra em jogo um fator de subida importância, no que respeita ao merecimento do obreiro: A QUALIDADE da obra. Certamente, o pouco que produziram os jornaleiros da undécima hora superou tanto, em qualidade, o que fizeram os outros, em quantidade, que os bons olhos do proprietário acharam de justiça dar-lhes a mesma paga. Em realidade, o que ele viu é que o trabalho destes valia mais que o dos outros, fazendo, nesse cômputo, abstração do FATOR TEMPO.  
A sabedoria da sentença evangélica - a cada um será dado segundo as suas obras - abrange dois aspectos distintos: O objetivo e o subjetivo. Só de posse do conhecimento exato de ambos, é possível opinar com acerto e com justiça. Os homens julgam comumente através do aspecto objetivo das obras, por isso que não lhes é dado penetrar o plano subjetivo. Daí a precariedade dos seus juízos e das suas sentenças. Por vezes, há mais estimação nos feitos sem maior importância objetiva, do que nas vultosas obras que impressionam e deslumbram os sentidos. Aquela pobre viúva que lançou no gazofilácio do templo uma moedinha de cobre, de ínfimo valor pecuniário, deu mais, disse o intérprete da divina justiça, que os ricos, que ali despejaram moedas de ouro a mancheias. O valor da oferta da viúva é de natureza subjetiva, está no que se não pode ver nem tocar, isto é, no motivo que determinou o seu gesto; está na santidade, na pureza da intenção e no sacrifício com que o fez, pois ela havia dado tudo o que possuía, aquilo que estava reservado para o seu próprio sustento. Os olhos humanos não podem aquilatar os valores desta espécie, mas os do Filho de Deus vão descobri-los nos íntimos e secretos refolhos da alma humana.

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Recapitulando, recordemos mais uma vez que a semelhança ora comentada se relaciona com o reino dos céus. Somos todos jornaleiros da vinha do Senhor, que é o planeta onde nos encontramos. Cada um age no setor que lhe foi destinado. O proprietário observa a maneira como os seareiros mourejam, julgando o mérito individual, não pelo tempo, nem pelo volume da produção, mas pelo cunho de perfeição imprimido à obra. O bom obreiro tem os olhos fixos no mister que executa e não nos ponteiros do relógio. Pensa menos na recompensa que no bom acabamento da sua tarefa. O trabalho é santo, pela sua mesma natureza e, sobretudo, pela alma do operário nele encarnado, "Só canta bem quem canta por amor." Os músculos refletem as vibrações do cérebro e os latejos do coração. A inteligência e os sentimentos dirigem as mãos, tanto do operário como do artista. É com o Espírito e não com a matéria que se constroem as obras que dignificam e imortalizam os seus autores. Trabalhemos, portanto, com simpleza e santidade. Imprimamos aos nossos atos aquela naturalidade com que os pássaros gorjeiam e aquela dedicação com que fazem os seus ninhos. Não nos preocupemos com o peso e a vultuosidade das nossas obras; tampouco nos deixemos impressionar com o tempo que temos empregado em produzi-las e, menos ainda, com a recompensa presente ou futura: o Senhor da vinha nos DARÁ O QUE FOR JUSTO. Confiemos como confiaram os jornaleiros das derradeiras horas, pois "os primeiros serão últimos e os últimos serão primeiros; porque muitos são chamados e poucos os escolhidos."

E, assim, verificamos que a parábola ora comentada encerra a mais bela e excelente apologia da JUSTIÇA.