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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Cortinas de fumaça


Cortinas de fumaça
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Dezembro 1942

No piedoso intuito de mostrar as maleficências do Espiritismo, o digníssimo reverendo Zioni, quando não dá ensanchas ao gênio inventivo, arma umas frases que ninguém entende. E é fácil saber porque.

Pretende ele desvirtuar, deturpar os ensinos ou os factos espíritas, mas não quer que o apanhem em falso. Põe-se, então, a ajeitar os períodos, e, sobretudo, a enfumaçá-los, a fim de que passe por verdade o "maranhão" (mentira bem engendrada) que nos esteja a apresentar. Senão, vejamos esta, a título de amostra:

"A primeira vista, sob o aspecto social evidencia-se o Espiritismo como uma instituição beneficente aos que sofrem as dolorosas taras bio-psicológicas de uma hereditariedade infeliz. A Santa Igreja, sempre de atalaia, proibiu aos seus filhos a menor contribuição a essas instituições, sectárias do erro e de intentos perversos ... " (O Probl. Esp. Pág. 9)

Perceberam? Provavelmente, não. Nós, porém, que lidamos há muito com o "pessoal", com cujas manhas estamos familiarizado, já vamos explicar a coisa e o que ele quer dizer na sua.

Como se vê, fala-se ali em "instituições beneficentes". Todos sabem que, em Espiritismo, há essas instituições. Não existe ninguém, mediocremente esclarecido, que não julgue supinamente estúpido combate-las. Mas, a Igreja as combate; lançam-se lhe anátemas de todos os púlpitos; não deixa de entrar com seu contingente o padre Zioni.

Para justificar, então, assim a arrancada ofensiva, como para desmoralizar as ditas instituições, o professor lança aquela cortina de fumaça: "instituição beneficente aos que sofrem as dolorosas taras bio-psicológicas de uma hereditariedade infeliz". E reforça o período nebuloso, com epítetos, desta vez claros, à guisa de solução do enigma: - "instituições sectárias do erro e de Intentos perversos".

Ora, os asilos espiritas são abrigos de órfãos, casas de velhos, tabernáculos para os desamparados. Neles se socorrem, indistintamente, a todos.

Nunca, absolutamente nunca, nunca jamais, constou a ninguém que se andassem catando especialmente para os abrigos os sofredores de taras, os herdeiros infelizes. Donde viria, para o padre, essa finalidade das instituições?..

Clara, a manganilha (artimanha): Trata-se de conspurcar a beneficência espírita. Não sabendo como atingir o alvo e receoso de que desse muito na vista a protérvia (petulância), arranjou S. R. aquela frase, por onde se insinuava a maranha (fibras embaraçadas). Antevendo o risco de ser colhido em flagrante embuste, foi entrevando o período; besuntou-o de termos impressionantes, para que a casca do trovisco (tipo de arbusto venenoso) produzisse nas ideias as necessárias empolas (bolhas) e ficassem todos a crer que as beneficências estavam ligadas a taras infelizes e hereditariedades do mesmo jaez.

O ilustre ministro de Deus - vejam só a quanto leva o sacrifício pelas coisas divinas - faz ali o papel de melga, mosquito que pica sem zunir.

*

Constam em muitos estatutos das malsinadas instituições, que nelas não se faz questão do credo dos protegidos. Católicos ou protestantes, espíritas ou não, são eles aceitos de acordo com sua indigência ou infelicidade. Em muitas dessas mansões de amor fraterno, o asilado exerce o culto que entende. O que nelas se procura é prestar socorro, tão somente.

Mas não tinha que ver! O padre precisava escurecer aquilo tudo. Fazia-se mister denegrir a caridade espírita e, de outra mão, inocentar a campanha agressiva dos seus correligionários e a dele, inclusive. E vai daí, lançou aquela caligem (escuridão, trevas) das taras bio-psicológicas e da hereditariedade infeliz, com o acréscimo da terrível objurgatória - instituições sectárias do erro e de intentos perversos.

Tivesse S. Reverendíssima, ainda que por momentos, o desejo de explicar-se, ou pelo menos esclarecer-nos um pouco, e nós lhe perguntaríamos porque, apanhando uma criança ao desamparo, a quem morreram os pais, ou que estes abandonaram, são obrigados os espíritas a responder pelas taras bio-psicológicas, ou têm alguma coisa que ver com as hereditariedades Infelizes: ou porque há de haver sempre uma hereditariedade infeliz ou uma tara psicológica, num indivíduo a quem as asperezas da sorte ou as desgraças do mundo lançaram na orfandade, ou cobriram de andrajos na velhice.

E indagaríamos, ainda, ao honrado reverendo, porque será instituição sectária do erro a que procura dar em vez de receber, a que recolhe sem nada indagar, a que não estabelece condições para o amparo, a que consola em vez de excomungar, a que enaltece em vez de humilhar.

Onde estarão os intentos perversos, numa obra de caridade, em que se dá tudo e não se pede nada?..

Em resumo: não sabendo como aviltar as instituições de benemerência espírita, o professor mascara o seu período com uma transe bombástica e obscura, onde fala em bio-psicologia, em taras, em hereditariedades infelizes, sem que se saiba porque os beneficiados hão de ter essas taras e essas hereditariedades, nem se compreenda a culpa que delas cabe aos espíritas beneficiadores. Mas, a frase lá fica para turvar o merecimento da obra. E para achatá-la de veras, dado o caso de que o mistifório (confusão) não produza o desejado efeito, atira o padre a contumélia (insulto, afronta) final: instituições de intentos perversos.

Está justificada a Igreja no seu anátema. A Igreja e ele!


E depois daí, o honrado sacerdote continua a folhear tranquilamente o seu breviário e o erudito professor a esparzir as luzes do seu conhecimento e os benefícios da sua justiça por sobre as promissoras cabeças dos seminaristas do Ipiranga! 

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