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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Mediunidade e Trabalho


Mediunidade e Trabalho
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1954

Nunca é demasiado insistir sobre a necessidade de incrementar o trabalho de desenvolvimento mediúnico. Ele pode ter influência marcante na vida individual, porquanto, desde que o médium se apresente em condições de exercer atividade diante dele se abrirá vasto campo de realizações fecundas. A retenção de mediunidades, isto é, a falta de exercício do dom mediúnico, pode trazer perturbações diversas, inclusive de natureza nervosa. Via de regra o médium é indivíduo de grande sensibilidade psíquica. Se adquire o domínio relativo da força que possui, pode orientá-la de modo a alcançar os resultados mais produtivos e benéficos. Se se desinteressa desse poder, ele acaba por lhe prejudicar o equilíbrio nervoso e pode trazer consequências danosas a todo o organismo.

A situação de médium independe de crenças e opiniões, bem como da condição social. Naturalmente, o médium que se vota a uma vida sadia, moralmente elevada, inclinado à prática de ações louváveis, estará naturalmente protegido de surpresas desagradáveis. A mediunidade é um fluido, admitamos, como a eletricidade: conhecido, mas de difícil definição. O médium atua como um instrumento, como uma antena, capaz de captar todas as manifestações psíquicas que lhe sejam afins. Nestas condições, precisa de estar sempre preparado para realizar espontaneamente a seleção das influências que o acometem. Desde que se desenvolva suficientemente temente e se oriente de modo superior, dará mais facilmente passagem às manifestações de Espíritos de boa moral do que a Espíritos ainda em grau evolutivo inferior. Ninguém desconhece, entre os espiritistas, que os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram solução racional senão no Espiritismo.” (“O Livro dos Espíritos” - Introdução.)

Ao contrário do que muitos opinam, devem ser cultivados todos os aspectos da mediunidade. Não há razão para se desprezar o desenvolvimento da mediunidade relacionada com os fenômenos físicos. Ela é de enorme utilidade e importância. O que se deve evitar é a preferência pelos fenômenos, com o abandono da parte moral, indispensável à melhoria espiritual dos indivíduos. Qualquer setor da mediunidade é digno de estudo e de cultivo: a mediunidade curadora, a mediunidade psicográfica, a mediunidade intuitiva, a mediunidade auditiva, a mediunidade mecânica, a mediunidade de efeitos físicos (incluindo-se neste ramo os trabalhos de materialização e desmaterialização, de desintegração e reintegração da matéria, de transportes, de voz direta, de escrita direta, etc., etc.).

Evidentemente, qualquer trabalho de natureza mediúnica deve ser realizado com o maior escrúpulo, com todos os cuidados possíveis, além de um serviço de controle efetivo, que não dê margem a dúvidas e contribua para a obtenção de elementos progressivamente mais amplos de verificação. Julgar-se que tudo já esteja feito ou descoberto no setor do Espiritismo é parar no meio do caminho. O Espiritismo é, por excelência, uma doutrina evolutiva. Não se prende a dogmas estreitos, não tem a presunção de haver já conquistado a plenitude dos conhecimentos, não presume haver dominado a verdade inteira. Precisamos convir que a vida não cessa, assim como não se detém o impulso investigador da Humanidade. O muito que já se conseguiu até hoje talvez nada seja diante do que ainda aguarda os homens do futuro.

O dom mediunico é de excepcional importância no porvir da Humanidade. Impõe-se, todavia, que se desenvolva metodicamente, que possa ir, ainda que lentamente, ampliando sem interrupção seu campo de ação. Nada se perde, pelo contrário, tudo se terá a ganhar, com a persistência e a boa vontade no progresso do trabalho espiritual.

As sessões mediúnicas familiares são úteis, desde que à sua testa se encontre alguém com real capacidade moral e suficiente experiência para controlar e orientar os trabalhos. Sem se afastar da ambiência evangélica; podem ser efetuados todos os serviços relacionados com as experiências mediúnicas, sejam estas de que natureza for. O trabalho de caráter cientifico não é incompatível com o ambiente religioso, porque, na realidade, os dois se completam. Para muitos, o caráter religioso de uma reunião espírita (ou de qualquer outro credo) prescinde de experimentações científicas, porque religião subentende revelação. Não devemos, nós, os espíritas, adotar semelhante atitude. As experimentações científicas estão perfeitamente acordes com o espírito religioso, porque os homens jamais poderiam entregar-se a investigações no ramo da Ciência sem o beneplácito das forças espirituais superiores. E cada conquista científica não deixa de ser uma revelação e essa revelação, a História no-la mostra, muito embora inicialmente combatida, acaba por ser aceita no mundo e passa a constituir um dos elementos da vida humana, caindo na rotina.

Sabemos que muitas conquistas da Ciência foram impugnadas por credos mal esclarecidos. O clero se insurgia, acusando-as de obras do demônio, mas o tempo acabou por destruir inteiramente os argumentos cavilosos de pretensos donatários da verdade absoluta... Olhemos para o passado. Se hoje a Humanidade se debate no ceticismo e no materialismo, devemo-lo à diretriz defeituosa daqueles que, em nome de Deus e de Jesus, pretenderam, a ferro, fogo e sangue, cortar cerce os voos da inteligência humana, esquecidos de que, em muitos dos heróis da Ciência, vicejava a mediunidade mais bela e fecunda. Sacrificaram corpos, mas não puderam destruir as almas. O pior é que se falava em nome de Deus para consumar tragédias que hoje atestam a falta de substância moral daqueles que tentaram infrutiferamente jugular o avanço da Ciência.

O Espiritismo não está nesse molde. É Ciência-Religião-Filosofia. Cresce em todos os sentidos porque sua doutrina, evolucionista por excelência, ampara o homem, esclarece-o, encaminha-o e lhe dá a força moral de que necessita na vida humana, para a compreensão de seu importante papel na Terra e na vida espiritual. Mesmo em seu seio, o Espiritismo tem de progredir sempre, porque esta é a sua lei, esta é a determinação de sua própria origem. Allan Kardec, o grande mestre, codificou os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos. Em seguida, Jean-Baptiste Roustaing, também assistido por forças espirituais respeitáveis, trouxe novos e preciosos esclarecimentos que reuniu em notável obra denominada “OS Quatro Evangelhos”. Temos, pois, como pedestal do Espiritismo, os livros notáveis de Kardec: “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho segundo o Espiritismo” , “A Gênese”, “o Céu e o Inferno” além do seu ingente trabalho como desbravador, numa época em que ainda era forte e perigoso o poder do clero católico no mundo. Depois, surge Roustaing, como discípulo de Kardec, digno também do maior respeito, com os ensinamentos vindos do Alto pela médium Collignon. Então, passaram “Os Quatro Evangelhos” a constituir uma obra também indispensável ao estudo do Espiritismo, da qual testemunhou Allan Kardec (“Revue Spirite” Junho de 1867): Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com o auxílio de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar em contradição, por qualquer dos seus pontos, com a doutrina ensinada n’O Livro dos Espíritos e no dos Médiuns. As partes correspondentes às de que tratamos n'O Evangelho segundo o Espiritismo o são num sentido análogo.

Aí está a palavra de Kardec, que dispensa, por sua autoridade, maiores comentários, Assim como as obras do Codificador foram devidas a excelente e idôneo trabalho mediúnico, também “Os Quatro Evangelhos”, recebidos por via idêntica, mediante um médium autorizado, como Mme. Collignon, tiveram em Roustaing o apoio de que necessitavam no ambiente terreno em que apareceram, já que essa grande figura do movimento espírita era pessoa de absoluta inteireza moral, possuidora de sólida cultura e perfeitamente identificada com a essência e os objetivos da doutrina que professamos.

Quaisquer que sejam as modalidades do mediunismo, todas revelam a ação formidável dos Espíritos, que, se mais não fazem, é porque nem sempre podem contar com médiuns perfeitamente à altura dos trabalhos, médiuns que se encontrem realmente integrados em sua importante missão terrena. Isto põe em relevo a necessidade primordial de serem dispensadas atenções cada vez maiores aos médiuns, para que eles possam, com segurança e orientação superior, adquirir as condições imprescindíveis ao trabalho traçado no plano invisível.


Para que o esforço mediúnico ofereça resultados excelentes, devem os médiuns encará-la com a máxima seriedade possível, escorados no exemplo evangélico e nos princípios da doutrina espírita. Se, em qualquer atividade, a persistência, o esclarecimento e a boa vontade obram prodígios, no campo da mediunidade, então, os efeitos são insofismavelmente magníficos. Portanto, desenvolver- o trabalho mediúnico, seguindo os métodos prescritos pelo Espiritismo, consoante Kardec, é estabelecer bases sólidas para farta e valiosa colheita futura. Os médiuns, pelo fato de serem dotados dessa valiosa faculdade, devem aceitar com coragem e fé a missão que lhes for destinada, buscando cumpri-la com devotamento, santificando-a pelo exemplo e pela resignação em face dos obstáculos comuns ao itinerário humano. Não há dúvida de que mediunismo não necessita de estudos para desabrochar no espírito doa seres humanos. Todavia, o ideal será que o médium estude, enriqueça os seus conhecimentos e leve uma vida simples e pura, fugindo o mais possível do que possa contribuir para o enfraquecimento de suas reservas morais.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A religião em Espiritismo


A religião em Espiritismo
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) 1942

O eminente mestre, Dr. Almeida Junior, baseou algumas de suas razões, num excerto de George Dumas:

"A forma pela qual o homem recebe as verdades religiosas é, inicialmente, a revelação, secundariamente, a persuasão, que se dirige, de preferência à personalidade afetiva: mantendo-se essas verdades no espírito humano, em virtude da crença, alicerçadas na fé. Por isso, o conteúdo subjetivo das religiões é fundo preponderantemente afetivo e modestamente cognitivo."

Continuando, escudado ainda no autor citado, ensina o catedrático paulista:

"Por isso, como assevera George Dumas, Traité de Psychologie, II, 208, todas as Igrejas sempre protestaram contra a subordinação da fé ao raciocínio."

Objetaremos a George Dumas e ao digno professor Almeida, inicialmente, que as primitivas religiões não se originaram de uma revelação, no sentido teológico do termo, mas do fato. Foi o fato espírita, foi o fenômeno psíquico que encaminharam os homens para as atitudes religiosas. A primeira ideia de religião surgiu com a ideia do Espirito. Data da aparição dos Espíritos a aparição da religiosidade.

Segundo: se a Revelação entra no conceito moderno de religiões, ou na gênese das religiões modernas, dela não escapará também o Espiritismo, tido como a Terceira Revelação, ou como o Consolador prometido, de que fala o Evangelho.

Finalmente, há ainda equívoco no supor que as Igrejas sempre protestaram contra a subordinação da fé ao raciocínio. Se tal protesto existe, as principais Igrejas não se mostram fieis aos princípios de seus fundadores.

Mas, tal não há, como provaremos.

E teremos, assim, por terra, a opinião de George Dumas, ou um dos esteios a que se firmou o honrado diretor do ensino.

Vamos demonstra-lo.

Uma grande autoridade em matéria religiosa, o prof. Oltremare, da Universidade de Genebra, ensina na sua obra. - A Religião e a Vida do Espírito:

“A I'origine le divin est en quelque sorte diffus. Il est partout: Il n'est nulle part chez lUi. Des dieux? Non pas, mais des "espirits",  sans personalité, sans atributs, sans nom, qui révelent leur présence de Ia maniêre Ia plus imprévisible" (1).

(1)     Paul Oltramare – La Religion et la Vie de l’Esprit, pags 27 - 1925

Isto é, originariamente, o divino era difuso. Existia por toda a parte. Não havia ainda deuses, senão Espíritos, sem personalidade, sem atributos, sem nome, que revelavam sua presença de maneira imprevisível.

Está patente que naquelas sociedades inferiores, o que havia era a manifestação de Espíritos inferiores, atribulados, perturbados, incapazes de se identificarem, ou por deficiência do aparelho mediúnico, ou por conturbação espiritual.

E temos, naqueles povos recuados, os sinais, embora primitivos e rudimentares, do Outro Mundo, tais como são eles hoje descritos nas obras de Allan Kardec. E se aqueles deram começo a religiões, também primitivas e rudimentares, os de hoje, iluminados pela luz de uma grande filosofia e observados com os rigores de uma nova ciência, abrem caminho a uma religião, consoante o século que vivemos, de acordo com a aurora que sentimos despontar.

Segundo de Vesme, nos povos selvagens, ainda os mais atrasados, veem-se, por toda parte, invariavelmente, as mesmas crenças: espíritos inferiores, fantasmas, etc. (2).

(2) Cesar de Vesme, Histoire du Spititualism expérimental, pag. 9.

E mais adiante acrescenta o mesmo historiador:

"A crença na alma, na sobrevivência, nos espíritos impõe-se ao homem, quer ele queira, quer não - bon gré, mal gré - independentemente dos seus desejos, pela observação dos fatos" (3).

(3)     Idem, Idem, pag. 11.

Que foi a observação de tais fatos o que originou no espírito humano a ideia religiosa, concluem, sem sombra de dúvida, os modernos antropologistas, os pensadores, os etnógrafos, os filósofos, todos os que, jogando fora o velho lastro, se aprofundam em tais estudos, com mira posta em descobrir a verdade.

Folheemos, ainda, o autor citado, que vir sua obra laureada pela Academia Francesa:

"A crença na sobrevivência, nos fantasmas nos espíritos, na feitiçaria, se encontra em quase todos os povos, com uma uniformidade impressionante" (4).

(4) Idem, Idem, pag.13

Já Herbert Spencer notava que as crenças eram tentativas de interpretação de fenômenos (5).

(5) H. Spencer, Socio          logie, V. II, pag. 689

Também assim opinava Maxwel:

"Os sonhos verdadeiros produzem-se em estados que a ciência chama hipnóides, sonambúlicos, transes, extases. Eles favorecem certas percepções de ordem instintiva ou supranormal. A origem das crenças religiosas é talvez, devida a esses fenômenos" (6).

(6) J. Maxwel, La Magie

Ernesto Bozzano, o afamado escritor, cuja vida vem sendo dedicada ao mais acurado estudo dos fenômenos psíquicos, declara que: crença no "Espírito" sempre existiu, sempre foi testemunhada e tem sido a base das religiões primitivas.

Escreve o notável filósofo em sua obra - Das manifestações supranormais entre o povos selvagens:

"Basta consultar as obras dos mais eminentes antropologistas e sociólogos para verificar que todos esses autores reconhecem, de comum acordo que a crença na sobrevivência humana é universal.

E. B. Tylor em sua Primitive Culture observa que "a fórmula mínima para definir uma religião consiste na crença de entidades espirituais, crença que se encontra nas raças humanas mais atrasadas, com as quais conseguimos entrar em relações bastante íntimas."

Ele salienta, ainda, que a crença em entidades espirituais implica, em seu pleno desenvolvimento, a crença na existência de uma alma sobrevivente à morte do corpo, e prossegue:

"Essa crença é a base fundamental de toda a filosofia das religiões, a partir da religião dos selvagens mais atrasados, para chegar à dos povos mais civilizados; essa mesma crença constitui, aliás, a filosofia mais antiga e mais universal" (7).

(7) Ernesto Bozzano - Delle manifestazioni Supernomali tra i Popoli Selvaggi   Pag. 3 - 1926 - Roma.

Seguindo a mesma alheta, poderíamos citar com Bozzano vários e notáveis publicistas, entre os quais Grant Allen (The Evolution of the idea of God), Brinton (Religions of Primitive Peoples), Goblet d'Alviela (Hibbert Lecture), Powers (Tribes of California), Huxley (Lay Sermons and addresses.)

Creio ter evidenciado, pelo testemunho de grande cópia de pesquisadores, muitos de notável saber, que a crença nos Espíritos dominava entre os povos primitivos e que foi essa a semente do espírito religioso.

Ora, como negar a religiosidade em Espiritismo, baseada na manifestação dos Espíritos, e onde aquela semente, germinada através dos tempos, floresceu e deu os frutos contidos na doutrina de Kardec, que é a chave, que é a prova, que é a cúpula da lição evangélica?

*

Revelação, segundo o ensino dos seminários, tem duas acepções: é o ato pelo qual Deus comunicou aos homens os mistérios e os mandamentos; é o conjunto das verdades que Deus nos ensinou.

Revelação é, enfim, uma mensagem divina transmitida aos homens, por intermédio de um profeta.

Missionários baixaram a este orbe de pecado e sofrimento com a incumbência de trazer-nos a palavra de Deus, ou os seus ensinos, ou a sua moral, ou os preceitos pelos quais nos devíamos guiar na senda do amor divino e na senda do amor humano.

Foi assim que o verbo se fez carne.

Mas esses mensageiros entraram em contato com as potências superiores pela vasta gama da fenomenologia espírita.

Diz-se que Moisés recebeu do Criador a lei das doze taboas: aí, veríamos as manifestações de uma mediunidade vidente e auditiva.

Maomé fundou a sua religião do seu colóquio com o anjo Gabriel. O profeta era sujeito a visões e a vários outros fenômenos.

Buda retirou -se para o deserto e lá, no silêncio e na meditação, recebeu as lições que deveriam libertar o homem do desejo e do sofrimento. Temos a mediunidade inspiradora.

As religiões oriundas do Cristianismo falam no Espírito Santo, que é o símbolo da inspiração superior.

Temos, pois, ainda ai, o fato psíquico, o fato mediúnico, na base das revelações.

Tal é, sem tirar nem pôr, a gênese de toda a Doutrina Espirita. Em vez de um só Espírito, são muitos os Espíritos que nos vêm trazer as revelações; é da concordância delas que estabelecemos a Verdade e, por cima de todas, paira a sombra d' Aquele que no-Ia enviou.

Essa Verdade vem trazida periodicamente à Terra até que os homens a compreendam, a sintam, a estimem. Ela promana de Deus, não importa os vasos que a conduzam.

*

Nem a palavra Revelação faltou à nossa doutrina.

No dizer de Allan Kardec, o Espiritismo foi inicialmente uma revelação, como quer Dumas que o sejam todas as religiões.

Veja-se a Gênese e logo no primeiro capítulo encontrar-se-á o seguinte título: Caracteres de Ia révelation spirite       

E ainda da Gênese:

"Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores, os quais mudaram a face do mundo, e aí se vê a prova de suas missões divinas.

Atualmente, importante revelação se nos apresenta: é a que nos mostra a possibilidade de comunicar-nos com os seres do mundo espiritual (9).

(9) Idem, id. P.8

Desenvolvendo o tema, Kardec refere-se longamente às três revelações e declara:

21. - Moisés, como profeta, revelou aos homens o conhecimento do Deus único...

22. - Cristo, tomando à antiga lei o que é eterno e divino, rejeitou o que não passava de transitório, de puramente disciplinar e de concepção humana ...

30. - O Espiritismo, tendo seu ponto de partida nas próprias palavras do Cristo, como o Cristo o tinha nas de Moisés, é uma consequência daquela doutrina" (10).

(10) Idem, id. P. 19

E é essa a linguagem dos seus seguidores:

*

Vejamos, agora, se os fundadores das religiões protestaram contra o raciocínio e se elas assumem, apenas, um fundo modestamente cognitivo.

Principiemos por aquela religião que mais parece pôr o raciocínio de lado e leiamos esse luminar das letras católicas, que é o eminente padre Franca:

Diz ele, referindo-se à Bíblia, em resposta a Eduardo Carlos Pereira:

"Antes, porém, de chegar a estas conclusões dogmáticas, cumpre-lhe resolver um sem número de dificuldades preliminares. Dificuldades linguísticas... Dificuldades críticas... Dificuldades gramaticais... Dificuldades exegéticas..."

Mais adiante, acrescenta o ilustre padre:

"Na escritura há verdades que se devem crer e preceitos que se devem praticar; há prescrições locais e temporárias e prescrições perpétuas e universais. Tudo isto deve ser analisado, discutido, discriminado antes de se redigir um símbolo ou formular um código moral" (11).

(11) Leonel da Franca - A Igreja, a Reforma e a Civilização, pags. 248 e 249 – 3ª ed.

Como abstrair do raciocínio em meio ao cerrareiro de tais dificuldades, sendo as Escrituras uma das fontes do ensino eclesiástico?
.
Se tudo deve ser discutido, analisado, discriminado, impossivel abolir o entendimento.

Littera occidit, spiritus vivificat. Para tirar a letra que mata o espírito que vivifica. força é utilizar a cabeça, embora essa utilização seja cometida, apenas, a um pequeno número, na religião católica.

Outro ramo do Cristianismo, o Protestantismo, estabelece o livre exame. Aí todas as cabeças devem raciocinar.

Lutero proclamava: "A todos os cristãos e a cada um em particular pertence julgar a doutrina”. (12).

(12) Martinho Lutero. - Werke. Kristiche Gesamtausgabe.

E o padre Franca comenta: "Era a teoria do sacerdócio universal. Todos os fiéis são reis e sacerdotes, senhores absolutos na interpretação das Escrituras, livres de expor e de ensinar a fé" (13).

(13) Franca, obra cit., p. 252.

Isto que é senão o uso franco da razão?..

O próprio S. Paulo a estabelece, quando manda:

''Examinai tudo e escolhei o que for bom." (14)

(14)  S. Paulo, Epístolas.

Não poderia haver maior poder de síntese na prescrição do raciocínio.

E é S. Paulo quem fala.

Buda, o Iluminado, ensinava aos seus discípulos:

"Não creias numa coisa, só porque te hajam dito, nem em escritos de sábios, só porque estes os escreveram; nem em fantasias que se digam inspiradas por anjos; nem em deduções inferidas de alguma fortuita suposição, nem na meia autoridade de vossos mestres e instrutores; temos que crer o escrito, doutrina e dito quando corroborados por nossa própria razão ou consciência" (15).

(15) Kolama Sutta. - Angutara Nikaia.

Breuster, que escreveu a vida de Buda, segundo as escrituras palias diz, a respeito da doutrina do Mestre:

"Em compensação ouvimo-lo também concitar seus adeptos a considerarem bem o valor moral de sua doutrina, antes de a seguirem, e tomá-la a ela e não a ele como mestre, a serem os guias de si mesmos, e não os cegos discípulos de um mestre qualquer" (16).

(16) Breuster. - Vida de Buda, p. 8. Trad. Augusto Sousa.     S. Paulo.

Como se vê, nem todas as Igrejas e nem todos os seus fundadores pregavam esse servilismo da consciência que o prof. Dumas tem como um caráter da religião, e em cujas águas navegou, despreocupadamente, o prof. Almeida.

Iríamos mostrar agora de como as religiões pregam o conhecimento, mas o cumprimento deste já vai fugindo dos limites da tolerância.


Sob o signo de Deus


Sob o signo de DEUS
Arnaldo S. Thiago
Reformador (FEB) Fevereiro 1943

O servo de Jesus, para vencer o mundo, deve conservar-se fiel aos                compromissos assumidos para com o Divino Pastor, quando lhe pediu para entrar no redil das ovelhas. Sim, porque Jesus espera essa manifestação espontânea da parte daquele a que o Pai lhe confiou. Quantos, porém, depois de obterem o ingresso no redil, se tornam lobos devoradores, obrigando o Mestre a afastá-los, para que não venha o rebanho a lhes sofrer as investidas perturbadoras!

Conhecem-se as ovelhas e distinguem-se pela sua constância no trabalho, que somente pode ser mantida pela assistência do Mestre, através dos seus mensageiros, pois que, em faltando a alguma essa assistência, falecer-lhe-á também a constância no trabalho, porque, sendo este desinteressado de recompensas, não encontra estímulos na organização humana - toda firmada sobre Interesses - e somente com o amparo do alto pode manter-se. Esse amparo é recebido como manifestação de força moral constante, ininterrupta, em forma de dispensação fluídica, provindo das entidades orientadoras do trabalho divino. Como se compreende bem, recebendo essa dispensação fluídica, a que espécie de água que mata a sede para todo o sempre, Jesus se referia quando falou à Samaritana junto ao poço de Jacó!

Constância no trabalho, sejam quais forem as situações de ordem social, econômica, doméstica em que nos encontremos - eis o que importa ao servo fiel do Senhor da seara.

A natureza, arquétipo de todas as perfeições, é um exemplo vivo dessa força que mantém, pelo espírito, a energia da coesão em meio das formas da matéria, sempre tendentes à desagregação. Na sociedade humana, erguem-se monumentos de aparente estabilidade, reunindo-se materiais sólidos sobre os quais as forças dissolventes dessa mesma natureza possam exercer o mínimo de ação. Seduzido por essa forma de construir, de edificar, estritamente humana, o homem não sabe quase arquitetar seja o que for de útil, sem que lhe venha, por analogia, uma sugestão da mesma ordem, esquecendo a advertência do Mestre: "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo.”

Pioneiros da verdade espírita, nós estamos sob o signo de Deus, lembremo-nos sempre disto! Tal signo é construir no espírito, para o Espírito.

Não podemos desmentir o Mestre que nos determinou: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". As construções humanas tem de corresponder à estrutura moral da sociedade humana. Por mais que apliquemos o nosso esforço em escorar-lhes os muros com o potencial do nosso amor e do nosso desapego as coisas do mundo, fatalmente elas ruirão, se não se adaptarem afinal à maneira de ser das construções humanas: e nessa adaptação é que está o desvirtuamento da doutrina do Mestre e a falência do crente que, afinal, comprovará ter apenas entre as mãos um simulacro material, - um cadáver - de tudo que idealizou e arquitetou com tanto carinho e tanto entusiasmo!

É a verdade, dolorosa sempre, como todas as verdades morais; mas, é a verdade!

Deus permitiu que se conservasse, no mundo governado por leis escritas e formulas convencionais, a inviolabilidade do lar da família: é nesse augusto santuário da sinceridade, cuja organização real deve ser a do amor, que o espírita tem de por à prova os seus sentimentos de caridade, ainda tão mal compreendidos, geralmente, no pobre mundículo em que nos encontramos a expiar faltas do passado.

Quando se percebe a dificuldade que ainda tem o homem terreno de esquecer ofensas, de perdoar, de manter constância no espírito de bem fazer, através da trama insidiosa da vida planetária, é que bem se pode avaliar a extrema ausência de sentimento de caridade, que se verifica no humano coração e a razão de ser da existência desse constante buril das almas, que é a dor!

Longe de nós o intuito de depreciar a ação social de qualquer dos confrades que tem a seu cargo a organização de obras piedosas: essa é uma digna e excelente modalidade de atuação do espírita no meio em que vive. 

Certamente, amparar os necessitados, criar escolas, manter estabelecimentos de ordem hospitalar, creches, abrigos - tudo isso é revelação de bons sentimentos, é agir segundo a orientação mental benfazeja que a doutrina plasma na alma de todo crente sincero: frutos bons de árvores boas.

Mas, tenhamos sempre em vista que a grande obra educativa dos espíritos é a que se processa pelo atrito das almas, no cadinho das provas remissoras a que ninguém poderá fugir, porque não basta adotar bons princípios, é preciso pô-los à prova na luta grandiosa da vida.

Escrevendo estas linhas, somos inspirados pela noção que possuímos da extrema gravidade do assunto aqui ventilado. Precisamos compreender que "orientação espírita" ainda não existe nem adentro dos lares espiritas, quanto mais das organizações espíritas, de qualquer espécie, que não podem pretender mais homogeneidade do que a dos lares...

Que o ardor das realizações externas não invalide o esforço da reforma interna, do exame atento de nós mesmos, das nossas tendências. As pepitas de ouro que o garimpeiro recolhe, no labor diuturno do seu progresso moral, ocultam-se-lhe na palma da mão, ao passo que a ganga dos mil interesses removidos, por encontrá-las, formam em torno montanhas. A sinceridade, o completo desinteresse do amor, apenas constituem, no mundo, ínfimas pelotas, para encontrar as quais tivemos de rejeitar montões de cascalhos de interesses transitórios. O mundo é ainda muito mau, muito enganador, muito insidioso. Todos os que não vivem dissimulando tendências e sentimentos mas arrostam de frente as imensas conveniências, os temerosos pontos de vista pessoais e sabem, por experiência própria, quanto às mais belas organizações terrenas, o próprio brilho de muita organização familiar, que passa por excelente, estão
vinculados a interesses transitórios, pontos de vista  econômicos - reinado de Mamon, em suma, que não aquele Reino de Deus, de que falava o Cristo - esses conhecem a profunda imperfeição que ainda impera na sociedade humana - e bem podem avaliar do profundo sentimento de dor experimentado por Jesus, ao proferir estas palavras, no dia seguinte ao da multiplicação dos pães: "Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comeste dos pães e vos saciastes. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este selou o Pai, Deus". (João VI, 26 a 27).”

Sim, tudo façamos pelo bem do próximo, mas que o nosso trabalho seja executado sob o signo de Deus.            


Revelação da Revelação


Revelação da Revelação
por J.-B. Roustaing
Reformador (FEB) Janeiro 1943

Com o superior critério que sempre em tudo revelou e com o intuito louvabilíssimo, comprobativo desse critério, de afastar muitas das causas de controvérsias capazes de embaraçar a marcha inicial da Doutrina Espírita, o seu preclaro codificador, Allan Kardec, ao encarar, no desenvolvimento da sua obra de missionário, a Doutrina Cristã, para erguer, tendo-a por base, esse monumento que é o Evangelho segundo o Espiritismo, e para, por meio dele, firmar a identidade de princípios do Cristianismo e da Nova Revelação, se ateve, exclusivamente, como era natural, às máximas morais do Cristo.

Os Espíritos elevadíssimos dos Apóstolos e dos Evangelistas, porém, prepostos do Divino Mestre ao cumprimento da sua promessa relativa ao Consolador, claro viram da altitude em que pairam, numa percepção ampla dos desígnios providenciais, que nada de temer seria o aparecimento de tais controvérsias, que elas de nenhum modo poderiam contravir à execução plena daqueles desígnios. Assim, agindo sob a direção suprema do único Mestre e Senhor e considerando que, publicados os três primeiros volumes das obras fundamentais do Espiritismo, já fora outorgada ao mundo a luz necessária à compreensão, em espírito e verdade, dos Evangelhos e à ampliação dos ensinos que eles encerram, empreenderam e levaram a cabo essa obra não menos monumental do que aquela, à que J. B. Roustaing deu publicidade sob o título de - Os Quatro Evangelhos explicados em espírito e verdade, e o subtítulo, acertado e próprio, de Revelação da Revelação, isto é, da Revelação Cristã.

Sendo, porventura, a mais notável e portentosa obra mediúnica existente, confirmada em muitos dos seus pontos capitais, em nossos dias, pela Grande Síntese, também mediúnica e igualmente admirável, a simples enumeração de algumas das revelações que contém, afora a da natureza extra-humana de Jesus, basta para indicá-la como opulento repositório de matérias a cujo respeito não pode conservar-se alheio ou indiferente aquele que deseje aprofundar-se na ciência espírita e obter a prova provada de que o Espiritismo é não só religião, ciência, filosofia, como ainda, realmente, o Consolador que o Cristo de Deus prometeu à humanidade e que viria lembrar-lhe o que Ele pregara e exemplificara e, mais, ensinar-lhe todas as coisas e ficar eternamente com ela.

Al, com efeito, se deparam, entre vários outros, ao estudioso que, sem ideias preconcebidas, nem preconceitos de qualquer gênero, a perlustre, esta série de temas e questões sabiamente elucidados:

"Origem do Espírito, como essência espiritual ou princípio de inteligência"; - "Sua evolução através dos diferentes reinos da natureza e das espécies intermediárias"; - "Individualização da essência espiritual, sua investidura na posse de inteligência capaz de raciocínio e na do livre arbítrio"; - "Evolução do Espírito formado através de esferas fluídicas, quando não incorre em falência"; - "Causas determinantes desta e suas consequências" - "Significado real da encarnação e da reencarnação para os que faliram"; - "Transmigração do Espírito de um mundo para outro"; - "O magnetismo como agente universal, como fonte de origem de todos os fluidos"; - "As diversas espécies destes, suas combinações e apropriações a todos os efeitos de ordem espiritual e material"; - “A matéria e sua constituição fIuídica"; - "Identidade do princípio espiritual e do princípio material, atestando a unidade absoluta da obra divina"; - "Existência, natureza e função do fluido cósmico universal; seu papel, como
laboratório divino na formação e na economia do universo"; etc.

É, pois, repetimos, uma obra cuja leitura e meditação não pode deixar de atrair a quantos se não considerem fartos bastante de conhecimento das grandes verdades reveladas; a quantos, ao contrário, anseiam constantemente por saber mais e melhor, por avançar cada vez mais pela senda desse conhecimento, que enleva a alma e, por assim dizer, a força a colocar-se um pouco acima das míseras e corriqueiras contingências da vida material, que passa a apresentar-se-lhe sob aspecto mais consentâneo com os grandiosos e sublimes objetivos de Deus.

Alimentar contra semelhante obra, sem a conhecer, quaisquer prevenções é atirar para debaixo do alqueire potentíssimo foco de luz, capaz de banir da mente e do coração humanos, senão toda, uma larga parcela da treva que a uma e outro obscurece.


O Temor do Inferno


O Temor do Inferno
Djalma Matos
Reformador (FEB) Janeiro 1943

A crença na existência do inferno... O temor do inferno, como mansão de penas eternas, como lugar destinado a sofrimentos horríveis, que jamais têm fim, para as desditosas almas que nele, por suprema desgraça, chegam a ingressar, se, em outras eras, de maior atraso moral e intelectual, teve a sua utilidade, para refrear instintos perversos de consciências endurecidas no crime e na impiedade, já agora, na nossa época, em que predomina o livre pensamento, o livre exame e a livre manifestação da ideia, mau grado ao sangrento esforço em contrário dos fazedores de guerra, é de todo ineficaz e contraproducente.

Causa estranheza que os sacerdotes das igrejas se empenhem, com tanto zelo, em propagar tal crença, como se fosse ensinamento cristão, quando, evidentemente, não há nada mais contrário ao espírito do Cristianismo, que se inspira no amor e no perdão, pregados e exemplificados pelo seu excelso fundador.

Esse dogma, incompatível com o grau de evolução mental e espiritual a que chegamos; não pode mais ser aceito sinceramente por quem tenha a faculdade de raciocinar.

Se a uma criança, que vive num meio em que ainda não penetraram os melhoramentos da civilização, alguém quiser assustar com o papão, é bem possível que consiga o seu intento. Usar, porém, do mesmo expediente com um menino ou menina, que se acostumou a andar de automóvel, a ouvir rádio, a assistir cinema e a ver aviões cruzarem os ares quase que diariamente, o efeito será negativo, porquê, dispondo de elementos para raciocinar e esclarecer-se, compreenderá logo o absurdo da ameaça.

Acontece, não obstante, que muitas crianças ladinas fingem acreditar no papão, para não parecer que estão convencidas de que os maiores - quase sempre os pais - não estão falando a verdade, e se esforçam, a seu turno, por convencer aos mais pequenos da real existência do papão.

O mesmo fenômeno mental, ou psicológico, observa-se nos pregadores e fiéis das igrejas cristãs, em relação à existência do inferno, com a condenação eterna e Satanás. São, por via de regra, bastante inteligentes e sensatos para intimamente não aceitarem tais absurdos, incompatíveis com a noção que se deve ter da justiça de Deus, equânime e misericordiosa, mas, fingem acreditar - os pregadores, por amor à intangibilidade do dogma, que juraram defender, e os fiéis, porque se sentem no dever de proclamar como verdade indiscutível tudo que sai da boca dos sacerdotes de sua infalível religião, Jesus jamais se referiu a inferno como mansão circunscrita de penas eternas, e sim como planos, ou diversos estados, em que as almas pecadoras se encontrarão pelos sofrimentos e expiações: as trevas exteriores, onde haverá "choros e ranger de dentes", para as criminosas, endurecidas, impenitentes, e o "fogo", fogo das más paixões e dos desejos impuros, para as viciosas de toda espécie.

Amai a Deus sobre todas as coisas – Amai ao próximo como a vós mesmos - Amai-vos
uns aos outros - Não façais aos outros o que não quereis que vos façam - Perdoai para serdes perdoados - Perdoai não sete vezes, mas setenta vezes sete - Não julgueis para não serdes julgados. .. Estes ensinamentos que se confirmam e se completam uns aos outros, repetidos, quase todos, várias vezes, no Evangelho de Jesus, consubstanciam os fundamentos de sua santa e consoladora doutrina, como ninguém poderá negar.

E, assim sendo, porque querer obscurece-los, dando mais importância a frases isoladas, atribuídas ao meigo Nazareno, que falam em inferno, condenação e satanás, e que, se realmente proferidas por Ele, se não referiam a estados transitórios das almas pecadoras, só podem ser levadas à conta de força de expressão?

Como admitir que o Divino Messias fosse incoerente e contraditório, certificando da bondade e misericórdia do Pai, e ao mesmo tempo, ameaçando com a vingança extremada desse mesmo Pai, com a condenação eterna e satanás?

Oh! cegueira dos homens! Dizem-se cristãos, mas, como não encontram em seus corações a predisposição para o amor e o perdão, que o Cristo pregou e exemplificou, querem ver, de preferência, nas suas palavras, o inferno e satanás, à previdente sabedoria e misericórdia de Deus, que elas revelam - a condenação e a intolerância, ao "perdoai setenta vezes sete vezes" - o exclusivismo de seita, ao "amai-vos uns aos outros" - a hostilidade em nome da fé, ao "não façais aos outros o que não quereis que vos façam" - o direito de julgar em nome do Cristo, à sua formal declaração de que não veio para julgar o mundo é sim para salva-lo, e ao conselho de não julgarmos para não sermos julgados. Como não querem reformar-se, para adaptar os atos aos preceitos evangélicos; lidam por moldar o Cristianismo ao sabor de suas mentes e sentimentos.

Nós, espíritas, temos convicção de que não existe inferno com condenação eterna, nem diabo ou satanás, rival ao mesmo tempo que carcereiro de um Deus vingativo e cruel. Para nós, Deus é pai de amor e misericórdia, que não quer a perdição de nenhuma de suas criaturas, e nenhum poder contrasta à sua vontade onipotente e sabedoria infinita.

Sabemos que nas consequências do nosso modo de agir neste mundo - em pensamento, palavra e atos - estão a punição e a recompensa.

Os crimes que cometemos, os vícios que adquirimos, as imperfeições que conservamos, aderem à nossa personalidade e, ao desencarnarmos, levamos no perispírito - no corpo espiritual a que se referia S. Paulo - esse lastro indesejável, que mantém o nosso ser preso à pesada atmosfera da Terra, impedindo-o de elevar-se e de evoluir. É possível que, não sendo a carga muito pesada, ainda no estado de desencarnados possamos dela livrar-nos, por um vigoroso e persistente esforço da vontade. O regular, porém, o que por via de regra acontece, é termos que reencarnar na Terra, algumas ou muitas vezes, para, experimentando o mal que fizemos aos outros, padecermos, sofrendo com aquilo que antes nos deu ilícito prazer, e nos irmos corrigindo e depurando.

Neste processo de depuração, mais ou menos doloroso, mais ou menos prolongado, conforme as imperfeições a corrigir e a força de vontade empregada, consiste o inferno aceito e reconhecido pelos espíritas, o qual, por não ser eterno, mas transitório, condicionado ás circunstâncias de cada caso e consentâneo com a bondade e sabedoria do Criador e com as esperanças da criatura, é tomado mais a sério, concorrendo muitíssimo mais para a regeneração da humanidade do que o temor absurdo das penas eternas.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Nossas Limitações



Nossas Limitações
Lino Teles (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Janeiro 1940

Em palestra com um dos nossos mais caros e esclarecidos confrades, ouvimos estas proposições que merecem meditadas por outros: "As antigas escolas espiritualistas cometem o erro de pensar que seja mais fácil subirmos aos Espíritos Superiores, do que descerem eles até nós; justamente o contrário é a verdade: para tudo têm aqueles muito mais facilidade do que nós".

As aparências iludem. Nunca a razão está integralmente com uma das partes em litígio. Quase sempre, quem parece não ter razão ainda tem uns dois ou três por cento de razão e quem nos parece tê-la toda só tem 98 ou 99 por cento.

Sem dúvida, os Espíritos Superiores têm muito mais facilidade de descer até nós, do que nós de subirmos até eles, pois que nos é impossível improvisar uma ascensão incompatível com o nosso grau de evolução; no entanto, a nossa falta de preparo torna inútil a descida dos Espíritos Superiores. Não os entendemos, não lhes damos atenção e, não raro, os crucificamos, se encarnam.

Só nos é dado o pouco que podemos aproveitar do mesmo modo que um professor de Universidade não perderia suas preleções com alunos do curso primário, porque sabe de antemão que não seria entendido. A obra do mestre-escola tem que preceder à do lente de Ginásio e esta à da Universidade.

Os adversários do Espiritismo tiram contra ele argumento do fato de que os Espíritos só nos dão literatura humana, não operam prodígios, não nos trazem as grandes descobertas que deveriam transformar o mundo da noite para o dia, como se eles tivessem por encargo forrar-nos a todo esforço; a todo trabalho, transformando-nos em autômatos. Verdade, porém, é que já nos dão muito mais do que a média dos nossos intelectuais pode assimilar: proclamam e demonstram a sobrevivência da alma humana e a lei das reencarnações evolutivas. Quantos por cento dos homens que cursaram escolas superiores no mundo presente aceitam e se adaptam aos ensinamentos já mil vezes repetidos na literatura mediúnica dos últimos cinquenta anos?

Sem vencermos as nossas próprias limitações a obra dos grandes Espíritos não pode produzir os desejados efeitos. Disso temos prova tristemente expressiva no emprego dado à Revelação Cristã durante os dez séculos da Idade Média. Os
"cristãos" se serviram de sua poderosa organização para os fins mais opostos ao ensinamento dos Evangelhos!

Outro triste exemplo encontra-se na Revelação Antiga. Moisés recebe as Tábuas da Lei, com o mandamento expresso: "Não matarás", e o primeiro dos seus atos é determinar uma grande matança entre seus próprios compatriotas (1)!

O progresso não se Improvisa. Os Guias não podem antecipar os tempos. Nossas limitações lhes opõem barreiras intransponíveis dentro de certo momento.

Nada vale a nossa Impaciência. São imensas as nossas limitações!


(1) Vide: Êxodo cap. 32 v. 25 a 28