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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Recepção de um Justo


  Recepção de um justo
Reformador (FEB) 15.4.1906

            A epígrafe é nossa. Adaptamo-la por exprimir o fato que se passou no Grupo Ismael (1), logo após a desencarnação do querido companheiro Domingos Filgueiras (2).
           
            Trata-se, com efeito, da recepção que teve no espaço esse humilde e desinteressado servidor do Cristo, verificando-se assim os nossos vaticínios acerca das festas, de que tudo, de resto, fazia prever que seria ele alvo em seu regresso à pátria universal.

            Dando publicidade ao que se passou nessa comovedora sessão, temos em vista proporcionar aos nossos confrades um novo motivo de edificação, que o será ao mesmo tempo de estímulo para quantos pelejamos nestas incruentas pugnas do Espiritismo e que assim podemos ter a antecipada certeza de que o nosso pequenino esforço é contemplado e abençoado pelo céu, e de que é sempre imenso, compensador das amarguras a que não raro nos expomos, o galardão reservado aos que sabem perseverar até o fim.

            Para entendimento dos leitores, uma explicação se faz necessária. O médium, Frederico Jr., com quem se dá a seguinte a particularidade: Uma vez mergulhado no transe sonambúlico, ora e o seu próprio espírito, desprendido, que fala, descrevendo a cena que se desenrola nas regiões espirituais, ora são outros espíritos que se manifestam sucessivamente, entabulando-se, por vezes verdadeiros diálogos. '

            Foi neste estado que, aberta a sessão (29 de março) e feita a prece, começou ele:
           
            Meu Deus! Vejo um dos quadros mais belos que tenho visto na minha existência de médium. Preside o trabalho o Guia Ismael; a seu lado Paulo. O espaço em que flutua meu espírito é semelhante a um campo de flores odorosas; sobre ele... como calcular o número, se a minha vista não alcança a multidão toda? espíritos alados, numa mescla de virgens e de anjos. Ajuda-me, Bittencourt, a ver tudo ... - Vejo guias e guiados; almas que partiram antes dele esperavam-no, não para o banquete das lágrimas, porque a lágrima é um fruto da terra, mas para recebê-lo em hinos.

            Bittencourt - É o que tu estás vendo?

            Frederico - E os companheiros?

            Bittencourt - Espere um pouco.

            Frederico (Após uma pausa) - A multidão abre-se e lá no infinito - se meus olhos da alma alcançam o infinito... - vejo à frente Dias da Cruz e ele. Acompanham-no Romualdo, Bezerra, Sayão, Geminiano Lacerda, Silva, Netto, Santos, Isabel Sampaio, Gama... Mas onde iria eu?

            Ainda Frederico - Filgueiras, sim. Soubeste compreender bem a missão a que baixaste. Tu dizes 'não sou digno'. É nisso mesmo que consiste a tua grandeza. Estende como eu os olhos de teu espírito, que não foram velados pela morte, neste mesmo recinto onde tantas lágrimas enxugaste. Por isso, ontem dizia o nosso  Bittencourt: "Felizes daqueles que partem cobertos de bênçãos e saudades! Dias da Cruz, espírito eleito do Senhor, a ti também uma palma essa vitória.  Incansável como ele te mostraste sempre em favor dos enfermos, daqueles que o procuravam.

            Sim, Celina... "-Eu também vim - diz ela - por minha Mãe. Anjo do céu, pensamento, luz, sentimento, tudo de Maria... como és bom!" Comprimes ainda em teu angélico seio o cofrezinho dos vossos votos (3)."

            - Compreendo a alusão que fazes ao amor celeste. Aquele soube cumprir com o seu voto. Assim o saibamos nós, míseros cativos ainda da Terra!

            Celina - Sim, aqui mesmo onde soubeste plantar as flores mais odorantes da caridade, aqui mesmo, onde a dor foi sempre apaziguada com o carinho do teu espírito devotado ao bem, aqui onde o infortúnio achou sempre guarida, nesta tenda onde todo faminto encontrou o pão, todo sequioso uma gota d'água, aqui mesmo vieram receber-te os mais altos espíritos, abençoados pelo Senhor e a mais humilde das servas de Maria.     Sim, soubeste compreender tua missão na Terra, atravessando o teu cruciato de dores. Quando a contingência da matéria levava-te quase à cegueira (4), como que a lâmpada sagrada de teu espírito feria a pupila de teus olhos, e tua alma se irradiava, dando os seus derradeiros lampejos aqueles que precisavam do teu conforto, das inspirações que recebias, para abater o sofrimento. Não chores... É em nome de Maria que eu venho também saudar-te. Ela não pode estar estranha à apoteose que te prepararam neste dia da tua passagem. Anjos do céu, espíritas benditos, cantai hosanas! A terra fica o que a terra pertence. O espírito de luz se evola, retempera-se e vai por um pouco descansar das suas fadigas, para começar de novo. 'Repouse em paz' - diz a minha mãe - cobra novas forças e volta, mais forte ainda, a fazer da Doutrina de Meu Filho uma verdade no mundo que deixaste."

            Descansa por instantes, abençoado espírito, no aroma dessas flores da Caridade, do Amor, que tu mesmo plantaste, embalsama todo o teu ser espiritual, e quando o Pai Celestial de novo te chamar a nova jornada, que saibas, como desta vez, rasgando os pés, escondendo lágrimas, chegar até ao fim, abençoado e cheio de saudades.

            Frederico - Palavras de Bittencourt, ontem, e que este anjinho repete...

            Filgueiras (comovido até as lágrimas) - Eu não tenho o que dizer. Não fiz nada, não fiz nada...

            Bittencourt - Recebam as comunicações dos seus guias, rendam graças ao Senhor e encerrem o trabalho...

            (1) Grupo Ismael: Familiarmente conhecido por Grupo Sayão por ter sido por anos presidido por Antônio L. Sayão.         
            (2) Domingos Filgueiras era carioca, nascido em 1846, casado desde os 19 anos, pai de 4 filhos, abnegado médium receitista intermediário do espírito do Dr. Dias da Cruz e dedicado espírita. Por sua fé muitos se converteram, a saber: Manuel Quintão, Frederico Fígner, Abigail LIma. (por Zeus Wantuil, Grandes Espíritas do Brasil, Ed, FEB)
            (3) Alusão ao seguinte fato: Toda vez que um novo membro era admitido ao Grupo Ismael, o meigo e puro espírito Celina apresentava-se E recolhia em cofrezinho simbólico o voto pelo qual o iniciado se comprometia virtualmente a servir a causa de Jesus.

            (4) Filgueiras tinha descolamento da retina. Nos seus últimos anos ficara quase que totalmente cego.' (por Z. Wantuil, op. cit.)

Celina fala aos médiuns


Celina fala aos médiuns

Data: 15.7.1880, dia da inauguração do Grupo dos Humildes.
Médium: Frederico Jr. Reformador (FEB) 1.12.1916
           
            Eu sou Celina.

            O meu nome indica a minha origem: Mensageira de Deus. Venho dizer-vos que é aqui onde piso que se deve estabelecer a sede da verdadeira crença no Espiritismo.

            Trago-vos a pedra que deve servir de base ao vosso edifício. Lance-a na terra e comece a vossa obra.

            Ocupai-vos, primeiramente, só da educação dos médiuns.

            Escolhei-os, vede que nele encontrem todas as qualidades precisas para bons instrumentos. Não é somente a faculdade de poder transmitir vozes alheias o que deveis nelas buscar, não.

            Deveis primeiramente procurar conhecer se eles se acham dispostos a se compenetrarem da santa e verdadeira tarefa que lhes é confiada. Vede, é mister que os vossos médiuns não só estudem a Doutrina; mas é preciso que eles se julguem como partes necessárias ao edifício levantado por ordem superior.

            É mister que eles se desliguem dos defeitos a que a matéria os possa impelir, e que se refugiem completamente no seu espírito e se resignem a pertencer mais a Deus do que ao mundo.

            Da moralidade dos médiuns dependerá a recepção dos puros espíritos. É mister que se dispam do egoísmo, da inveja, do ódio, do ciúme, da vaidade, das lascívia, do sensualismo, todos esses defeitos que arrastam a humanidade ao abismo, à perdição.

            Educai-os em todo sentido, moral e intelectualmente, sem o que jamais podereis conseguir o fim desejado.

            É mister que eles se compenetrem que nos olhos de Deus nada pode ser oculto e que aquele que aceitar a missão que lhe foi imposta e não envidar todos os esforços para tornar-se um verdadeiro instrumento, tem por duas vezes ofendido o seu Criador.

            Quando se sentirem vacilar, despontando em seu seio qualquer um desses defeitos, levantem os olhos ao céu e chamem Ismael. Ele vos enviará Celina, trazendo-vos parte da pureza do Mártir do Gólgota.

            Seja Jesus o vosso exemplo, em todo o sentido.

            Lembrai-vos que Ele não precisava sofrer, porque não havia delinquido e por amor da humanidade despiu-se de tudo, para unicamente cumprir a sua missão.

            Vede vós, que já nesta, já em outras existências, tendes incorrido em grande erros, se deveis ou não buscar purificar-vos.

            Da pureza dos médiuns dependerá a transmissão da verdadeira luz que Deus, por seu intermédio, transmitirá a seus filhos, para seu ensino e ensino dos seus semelhantes.

            Vede bem, já vos disse e repito; a tarefa é árdua; mas se pudésseis, como eu, ver a glória imensa para aquele que compreender e se dedicar espontaneamente em prol do gênero humano, não hesitareis um só momento em tudo deixar para seguir as pisadas do Cristo.

            Quem mais do que Ele sofreu? Ninguém. Vós que tendes consciência, que incorres constantemente em seu desagrado, aproveita o santelmo que Ele vos oferece: a tábua de salvação que vos é outorgada, por sua bondade infinita!

            Adeus, meus irmãos, vou às regiões donde fui mandada e aqui vos deixo o estandarte de vossa nova escola, e sobre vossos corações eu lanço a fé, o amor e a caridade que Cristo nos envia. Celina  

            ... Registre-se ainda que, aos 15 de Julho de 1880, quando da 1ª reunião do Grupo Ismael, foi ele (Frederico Jr.) quem serviu de instrumento à doce Celina. Esta, menina angelical e irradiante, apareceu descalça, com um pé no espaço e outro apontando o Rio de Janeiro, num globo terrestre, e dizendo que ali, naquele local, floresceria a árvore do Evangelho. A Casa de Ismael nascia, portanto. Celina tinha nas mãos um belo estandarte, conclamando a humanidade à fé, à esperança e à caridade...


Reformador (FEB) 16 de Maio de 1920

            Manifesta-se  Celinaa, espírito angélico, que a todos os videntes se apresenta sob o aspecto de meiga e encantadora criança. Vamos ao texto:

            "Paz, irmãozinhos meus. Na ampulheta do tempo se escoam os últimos grãos de areia marcando o fim de um ciclo que se encerra, ciclo em que a humanidade tresvairou num dédalo de crimes e de erros, e o início de um novo mundo regenerado, habitado por espíritos que, trabalhados pela dor, depurados pelo sofrimento, virão enfim gozar o prêmio de seus esforços, tomando parte no concerto universal dos que cantam hosanas ao Senhor.

            A nossa Mãe Santíssima me envia a vós para saudar-vos em Seu nome e dizer-vos:

            "Meu filhinhos, imenso é o amor que vos consagro.

            Sofro convosco e convosco me alegro. Meu espírito vibra de intenso júbilo quando vos vejo nortear a vossa conduta pelos preceitos de moral que vos ensinou aquele que na terra foi meu filho; e meu coração se confrange quando noto que procurais o caminho do mal, por onde ireis à perdição

            Meu pensamento não se desvia um só momento de vós, imprecando ao Pai que vos dê forças para que carregueis a vossa cruz sem murmurar, a fim de que não percais o vosso tempo, que é precioso, visto não saberdes quando chegará a vossa hora. Rogo a Deus que vos torne capazes de dizer, nos momentos mais angustiosos de vossa existência terrena, por mais acerbo que seja o sofrimento; cumpra-se nos escravos a vontade do Senhor.

            De escravos que sois da matéria transformai-vos em senhores. Para isso dispondes de poderosa alavanca - a vontade - que, posta em ação, remove montanhas.

            Se os meus conselhos penetrarem os vossos corações, meus filhinhos, tereis finalmente tragado a morte na vitória, atingindo a meta suprema, o objetivo principal da vossa peregrinação, que é a perfeição sideral.

            Permita o Pai que o consigais e aceitai o ósculo amoroso d 'Aquela a quem, nos momentos de aflição, vos dirigis, dando-lhe o doce e meigo nome de Mãe"

            Cumprida a missão que me incumbiu a Virgem, ofereço-vos a minha fronte de criança e vos rogo que nela também depositeis um ósculo, certos de que um dia saberei retribuir-vos carinhosamente.

            A paz do Senhor seja convosco.   Celina  

Ainda    Celina...
(Página recebida na Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro, RJ, na reunião
do Grupo Ismael da noite de 6-8-1981, pelo médium Olímpio Giffoni)

            Meus irmãos,

            A fonte deixa correr a linfa pura, que brota de entre as rochas, despreocupada com o emprego que dela farão dali em diante. 'Por certo se regozijaria se pudesse manifestar emoções com a carícia dos pássaros que lhe beijam o regaço, para de gota em gota mitigar a sede; ou com as lágrimas, vertidas pelo viajor exausto, que dela se vale para refrescar o rosto escaldado pela inclemência do Sol e saciar a sede que lhe resseca as entranhas.

            Sois colocados para a sublime missão de, como a fonte, deixar correr de entre vós a linfa cristalina que desce do Céu para dessedentar os que têm sede de Sabedoria Divina. Abri os vossos corações, dai curso ao que do Céu recebeis e não vos importeis com o mau uso que dela farão; contentai-vos, amados meus, com o bem que dela fizerem os que receberem com alegria a Mensagem de Vida Eterna.

            Como a fonte, amados do meu Senhor, regozijai-vos com o aproveitamento dos que derem prosseguimento com fidelidade ao que lhes transmitistes. Tanto quanto vos seja possível, limpai o caminho para que ela possa alcançar o mais longe possível sem se contaminar.

            Os obreiros da Vinha do Senhor, que vos antecederam, da mesma forma como hoje, tiveram de defrontar-se com os detratores que procuraram impedir o curso normal das mensagens do Meigo Nazareno, mas apesar destes as mensagens prosseguem a sua jornada vitoriosa, levando no seu bojo inclusive os que tentaram impedir-lhe a
marcha.

            Prossegui, amados do meu Senhor, levantando bem alto o estandarte do Anjo Ismael, que proclama o lema DEUS, CRISTO E CARIDADE.

            Vossa irmã em Jesus Senhor Nosso,   Celina


Richet - Fundador e Apóstolo da Metapsíquica


Carlos Richet - Fundador e Apóstolo da Metapsíquica
Reformador (FEB)  Agosto 1954

            Corria o ano de 1897, quando Carlos Richet, em seu discurso inicial proferido como presidente da Sociedade de Estudos Psíquicos de Londres, teve ensejo de introduzir, pela primeira vez, o termo Metapsíquica como designação da nova ciência que, segundo suas próprias palavras, seria um dia considerada a “rainha das ciências”.

            É difícil, em simples nota, interpretar sua personalidade de sábio em numerosos ramos do saber humano: médico, filólogo, bacteriólogo, sociólogo, literato e metafísico, tendo mesmo cogitado, se bem que rapidamente, do campo da engenharia, quando de seus primeiros ensaios pelo domínio do ar.

            Nascido em Paris a 26 de Agosto de 1850, seguiu as pegadas de seu pai, ao tempo cirurgião e professor da Faculdade de Medicina; notou, no entanto, já no exercício de sua profissão, que sua vocação real era a da investigação. E, como interno dos hospitais, pode dedicar-se, durante um ano inteiro, ao estudo do sonambulismo, que foi sua iniciação no campo da Fisiologia, chegando de tal maneira a destacar-se, que foi designado, em 1878, com a idade de 28 anos adjunto de Fisiologia na Faculdade de Medicina (1). Foi um trabalhador incansável.  

            (1) Não foi, em vão, destacado discípulo do grande mestre Claude Bernard.

            Através de uma série de investigações plenas de êxito, descobriu a seroterapia que tão incalculáveis benefícios tem proporcionado à Humanidade. Contava Richet 37 anos quando, em 1887, foi designado professor de Fisiologia, fazendo, logo a seguir, várias descobertas de capital importância, sustentando inúmeras teorias que, com o correr do tempo, contribuíram extraordinariamente para o progresso da Ciência, e, em 1913, publicou um livro à base de seu estudo experimental sobre a “anafilaxia”, descoberta essa que, além de novamente assombrar o mundo cientifico de sua época, lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Medicina, em 1913. Nele já se havia revelado o mestre com todos os atributos do saber científico. Sua agitação inata e seu intenso fervor pacifista levaram-no, em 1884, a participar do movimento de pacificação, a ponto de ocupar a presidência da Sociedade de Pacifistas. Discursos, conferências, artigos e livros foram assinalando sua trajetória, que culminou, em 1930, depois de um passeio pela Itália, Romênia e Rússia,  onde contava com muitos admiradores do seu livro “Pela paz” dedicado a seu avô, por lhe ter este inoculado a aversão à guerra, desde a sua meninice.

            Este gênio, extraordinariamente privilegiado, cujo natural dinamismo o impedia de   entregar-se ao descanso, empregava o tempo livre de sua tarefa científica, em vasta produção literária que, só por só; o colocava entre os grandes escritores da época. Seus livros denotam profunda inquietude pelas condições de vida do povo e tendem a melhorar a conduta dos homens, por uma maior moralização de seus costumes. O sociólogo profundo que havia nele surgia amplamente de seus escritos, combatendo igualmente o baixo índice de natalidade na raça branca e, como estudioso dos problemas sociais, isso o preocupava sobremodo, pela possível extinção da raça mais evolvida do planeta.

            Sua considerável obra literária colocou-o na posição de autor ilustre e a Academia de Ciências o chamou, por isso, ao seu seio, justo reconhecimento a quem, como poucos, era, acadêmico no fundo e na forma.

            Seus estudos iniciais sobre o sonambulismo conduziram-no posteriormente ao estudo do hipnotismo, e em 1884 recebeu a visita do sábio russo Aksakof, que lhe disse: “o senhor se ocupa de sonambulismo e de hipnotismo, mas existe ainda uma coisa mais interessante: os fenômenos denominados espiritistas, isto é, as aparições e os movimentos de objetos sem contato.”

            Pouco tempo depois Richet visitava Milão, a convite de Aksakof, onde, em companhia de César Lombroso, Schiaparelli, Chiaia e Finzi, assistiu às experiências que então se faziam com Eusápia Paladino. Dali saiu plenamente convencido da existência de fenômenos cujo estudo, menosprezado pela ciência oficial, era do domínio exclusivo da fisiologia experimental.

            De retorno ao seu país, prosseguiu na investigação dos fenômenos psíquicos, que o apaixonaram tanto quanto a Fisiologia; e, depois de novas experiências com Paladino, que a seu pedido fora à França e se hospedara em uma ilha de propriedade de Richet, realizadas em companhia de Oliver Lodge, Myers e Ochorowicz, resolveu criar, em 1891, um periódico especializado desta nova ciência, denominado “Anais de Ciências Psíquicas”.

            Carlos Richet, afirmando a existência do sexto sentido, não obstante o ceticismo dos que só admitiam os cinco sentidos conhecidos, conseguiu a sua aceitação definitiva.

            Sua obra – “Nosso Sexto Sentido” - fez que convergisse para ele a atenção geral, e já em 1897 ocupava a Presidência da “Sociedade de Estudos Psíquicos” de Londres e definia a Metapsíquica como “o estudo de propriedades do espírito que saem do campo de observação da psico-fisiologia, aliás universalmente admitida e ensinada”. Sempre em busca de novas provas da imortalidade da alma, viajou pela Itália, Alemanha, Inglaterra, Suécia e Polônia, fazendo experiências com distintos médiuns. A Metapsíquica o absorvia já quase totalmente, quando, em 1914 idealizou em França, sua pátria (onde não existia nenhuma organização que reunisse os investigadores), sessões de almoços que contavam habitualmente com comensais ilustres tais como Flammarion, Roux, Maxwell, Bergson, Grammout, Vesme, etc. Nessas reuniões, logo após a saída dos serviçais, Richet costumava bater em um vaso, indicando assim o começo das conversações, durante as quais se entremeavam informações e novidades, estabelecendo-se sistemas de trabalho, etc. às quais só faltara poucas vezes. “Eu virei até à minha morte” costumava dizer.


            Conjuntamente com o Dr. Geley, o professor Santoliquido e Meyer de Beziers fundaram tempos depois, em Paris, o “Instituto Mepsíquico Internacional” e criaram a “Revista Metapsíquica”, sendo ele designado para presidente, cargo que desempenhou com profunda dedicação, já que o Instituto era a concretização de um velho anelo que não supusera ver realizado.

            Em 1922 apresentou à Academia de Ciências seu famoso “Tratado de Metapsíquica”, obra-prima de seu pensamento luminar e que o imortalizou, mostrando-o como autêntico iniciado em cumprimento de alta missão com projeções de eternidade. Em 1926 o Governo de Painlevé lhe concedeu a distinção da Legião de Honra, no grau de Grão Oficial. Ao receber a distinção pelas mãos do Marechal Foch, a cujo ato assistiu o mencionado Presidente do Conselho de Ministros da França, Richet se aproveitou da oportunidade para insistir longamente sobre o porvir da Metapsíquica como a grande esperança do futuro, afirmando que “um novo ideal moral seria sua consequência”.

            Posteriormente e sempre em defesa da Metapsíquica sua pena lançou à circulação “O Futuro da Premonição”, em 1931; “A Grande Esperança”, em 1933, e “Em Socorro”, em 1935, desencarnando pouco depois, aos 85 anos de idade.

            A vida de Carlos Richet, sábio entre os sábios, apóstolo em toda a acepção do vocábulo, foi um relâmpago nas trevas de uma época de obscurantismo, em que as correntes materialistas detinham o cetro. Seu “Tratado de Metapsíquica”, verdadeira Constituição Científica do Espiritismo, situa-o entre a plêiade de seres superiores que de tempos a tempos encarnam, a fim de auxiliarem a orientação do homem em seus novos destinos. Um de seus biógrafos, o Dr. Eugênio Osty, confirma esta assertiva com as seguintes palavras: "Uma soberana serenidade; uma esquisita amabilidade, uma alma elevada que esquecia toda injúria, e uma grande bondade, completam a excepcional personalidade de Carlos Richet.


            (Traduzido de um artigo da direção de “Prédica”, de Buenos Aires, Fevereiro de 1954.)

Mensagem aos crentes da fé e prática e aos que não o são


Mensagem aos crentes da fé e prática 
e aos que não o são.

 por     Carlos Imbasssahy.
Reformador (FEB) Março 1945

Raimundo Camargo Castanho, de S. Paulo, declara que se dedicou 25 anos ao Espiritismo; combateu contra o fanatismo e a incredulidade nos Centros e chegou à conclusão de que no Kardec há contradições e ensinos inaceitáveis. Expondo-os, pede perdão aos seus irmãos espíritas.

Cá por mim está perdoado; as razões é que me parecem fraquinhas. Examinemo-Ias:

A primeira versa sobre a reencarnação e o ensino espírita que se refere aos Espíritos criados simples e Ignorantes. O autor indaga; "Como atribuirmos a Deus a criação de Espíritos simples e ignorantes, em lugar de máxima inferioridade, por sua maldade e por seu sofrimento de origem, impondo-os ainda a obrigação de se fazerem a eles mesmos perfeitos, sem supor no Criador atributos inteiramente opostos aos de equidade, justiça e amor? Impossível."

Ora, o autor, que estudou 25 anos, ao que parece, ou ao que diz, não teve tempo, já não digo de assimilar o ensino espírita, mas o de lhe passar a vista em cima.

Porque, o que se declara, tão só, é que o Espírito foi criado simples e ignorante. O lugar de máxima inferioridade, a maldade, o sofrimento de origem, isto não sei o que é. No decorrer da sua evolução é que o Espírito toma o caminho do mal e lhe sofre as consequências.

Na concepção criticada - diz o autor - o Espírito partindo do ponto extremo da ignorância sofre tanto mais quanto mais ignorante é."

Não é isto o que declara o ensino, mas que o ser sofre tanto mais, quanto mais maldoso é.

Que existe no mundo a maldade e o sofrimento, creio eu que o autor não negará.

Que nos explique isto fora da lição espírita e mais de acordo com a "equidade, a justiça e o amor de Deus", e estaremos satisfeito, pronto a substituir por sua nova lição a lição velha dos Espíritos.

Por enquanto, esta é a que temos por melhor.

Também não compreendemos porque acha o autor injustiça fazer-se o indivíduo à sua custa, pelo mérito próprio. A não ser assim, ascenderia por que ou por quem?..

Fora desta doutrina, só o Inferno, que o irmão repudia.

O ponto, aliás, já está explicado, ventilado e elucidado em muitas páginas do “A  Margem do Espiritismo”.

A segunda versa sobre o Milagre, que nós, espíritas negamos, diz o autor.

Nós não negamos milagre nenhum; o que negamos é que Deus revogue ou derrogue as próprias leis. O que se tem por milagre é um fenômeno pouco conhecido ou extranormal, ou sujeito a novas leis. Quando um balão sobe não fica alterada, nem diminuída, nem revogada a lei da queda dos corpos. Experimenta ele, apenas, o influxo e outra lei, a de que os corpos sofrem um impulso vertical de baixo para cima, igual ao peso do volume do fluido deslocado.

Quando um Espírito cura o que o médico encarnado não cura, não é a medicina que está sendo desalojada, é o médico do Espaço que sabe mais ou que vê mais que o médico da Terra.

Terceira - É a velha e debatidíssima questão de dizerem os espíritas que espirito é matéria quintessenciada, ao mesmo tempo que combatem os materialistas, para quem tudo é matéria.

Esta frivolidade, que gira apenas em torno de um termo, está ventiladíssima no livro “A Margem do Espiritismo”.

A quarta contradição é sobre o perispírito, que o autor nega.

Confesso que não entendi muito o arrazoado da Mensagem, neste ponto.

Explicar, de maneira que o autor entenda, em poucas linhas, o que é o perispírito, a sua função, o seu valor, é impossível.

A contradição firma-se numa série de dogmas, ou numa série de princípios, cuja base é inseguríssima: "Porque não é aceitável a justaposição, molécula por molécula do corpo fluídico com o corpo tangível." "Porque este é limitado." "Porque o corpo fluídico é matéria e exige reparação no espaço." "Porque o espírito não necessita de corpo tangível ou fluídico." "Porque o espírito não ocupa lugar e portanto não pode ter perispírito, que é materializado."

Por maneira que existe uma contradição no Espiritismo em virtude de uma concepção errada do autor sobre o que seja o perispírito, sobre sua materialidade, sobre o que sejam moléculas, sobre a expansão e acomodação delas.

Na água solidificada o volume é diferente do da líquida. No entanto, como teria aumentado ou diminuído o número de moléculas?

Para só tocar na última razão, perguntaria ao autor, mesmo admitindo a materialidade do perispírito, qual o lugar que ocupam no espaço as emanações do rádio ou o perfume, ou mesmo o éter.

Quinta -  "0s espíritas ensinam que a justiça de Deus é paternal, e que o castigo é fatal, conforme o pecado. Recomendam, de outro Iado que peçamos perdão a Deus."

Diante disto, "erramos de dois lados - acha o autor – 1º, porque a justiça divina não exclui o perdão, logo o castigo não é fatal; 2º, porque a vítima é que é dado perdoar." Mas, ao mesmo tempo "Deus é ofendido e se reservou para perdoar aos falsos amigos de Jó, a pedido deste."

Está confuso. Parece, por este ensino, haurido na Bíblia, que ao ofendido é que cabe o perdão. De sorte que se o ofensor esbarrar numa vítima de maus bofes, está perdido ou atrapalhado. A justiça divina depende da generosidade do ofendido. O perdão fica reduzido a uma questão de acaso ou de sorte.

Que justiça e que doutrina!

Pensa ele também que nós recomendamos o pedido de perdão, mas acha que erramos, do mesmo passo que afirma que a justiça divina não exclui o perdão. Parece ainda inferir que, para os espíritas, perdão é remissão da dívida. E depois desta embrulhada formidável, a contradição é do Kardec.

A sexta contradição é o divórcio. Aparecem aqui as velhas, ilógicas, absurdas razões com que a ele se opõem os clericais.

Vejamos: "A proibição de novo matrimônio para o adúltero funda-se na incapacidade do adúltero para novo casamento."

E o que não adulterou?

"A situação dos filhos não se conforma com a nefanda instituição do divórcio."

E quando um dos cônjuges não presta, injuria, maltrata e abandona o outro, qual é a situação dos filhos? . .. Como se remedeia, sem o divórcio?

Há mais razões: "a natural repugnância ao pudor dos cônjuges dignos."

Mas os cônjuges dignos não se divorciam.

"Há homens e mulheres que se divorciam mais de 20 vezes."

            Esses que tais, com ou sem divórcio, desquitar-se-iam essas 20 vezes, ou mais, porque não foi a lei que os fez divorciar, senão a nenhuma estima que tinham uns pelos outros.

É completo ainda o desconhecimento do autor ao declarar, que o divórcio é o "adaptar a lei à conveniência dos pecadores."

Ora, o que se procura é dar remédio à situação do ofendido, geralmente a parte mais fraca, que é a mulher. O mau marido faz o que quer e infringe a lei matrimonial como entende. A mulher séria não pode fazer o mesmo. Procura-se, então, para ela uma situação legal, onde possa encontrar, num segundo marido, o que não encontrou com o primeiro. Onde se ofende aí o pudor é que eu não sei.

Enfim, apela o autor para o Evangelho: - Não separeis o que Deus ajuntou.

Deus não ajunta corpos, ajunta Espíritos, pelo amor que se dedicam.

Ninguém de bom senso acreditará que Deus apanhasse um perverso, um assassino, um viciado, um pecador, o juntasse a uma inocente, a uma vítima e declarasse: - ninguém mais os separe!..

Ninguém pode aceitar que sejamos impedidos, por uma lei, de reparar injustiças, de remediar um mal, de proporcionar a felicidade a uma pessoa infeliz.

O que Deus proibia que se separassem eram os seres Irmanados pelo amor, a fim de que se não cometesse a indignidade, tantas vezes cometida, dos casamentos ou das uniões por interesse ou qualquer motivo subalterno, em detrimento dos direitos do coração.

A indissolubilidade do vínculo é mais do que uma estupidez, porque é uma perversidade; é a união heterogênea, é o adultério de espírito, é a escravização, é a impunidade dos algozes, é a eterna desgraça das vítimas.

A lei que veda o divórcio só teve raízes no obscurantismo e na imposição da Igreja.

Há agora uma pergunta ingênua do autor: "Ora, se a união antipática, como ensinam os mestres do Espiritismo, é uma expiação, como pretendem evitá-la pelo divórcio?"

É... Está. Ali um sujeito maltratando o outro, espoliando-o, ofendendo-o, ferindo-o, tentando assassiná-lo. Parece que seria curial, ou que estivesse em nosso dever, como impositivo categórico, correr em auxílio do maltratado, do espoliado, do ofendido, do prestes a ser assassinado.

Pois não! Como é prova para a vítima, o que devemos é ficar quietinhos, deixando que o outro se arranje como puder!..

Era o caso de pedir ao autor que nunca apresente esta doutrina de comodismo, de fatalismo, ou de iniquidade como doutrina espírita.

A sétima contradição está enunciada de maneira vaga e pouco compreensível. A exposição não peca pela clareza. Parece que o autor trata do ensino evangélico de que é difícil a um rico entrar no reino dos Céus, e que o Espiritismo teria o versículo como a eterna condenação dos ricos. Onde o Espiritismo diz isto é que eu não sei nem o aponta o autor.

Aqui param as contradições e eu também.

Se me fosse dada a ousadia de um conselho ao velho cultor do Espiritismo, eu lhe diria que o estudasse outros vinte e cinco anos.

Tão amigo dos textos bíblicos, deixaria assim muito aquém o pai Jacó, em matéria de persistência.

Antes que um velho cultor do Espiritismo, o autor parece mais um velhíssimo cultor dos cânones eclesiásticos.


A Grande Renovação


A grande renovação
por Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Janeiro 1943

Em uma de suas vibrantes Epístolas, o apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, disse que o Cristianismo veio para renovar todas as coisas. Realmente assim é, pois que veio renovar o homem, sua mentalidade, suas aspirações, dando-lhe novas finalidades e demonstrando a sem-razão de muitas coisas que constituíam fundamento mesmo da civilização daqueles tempos.

Hoje os Espíritos voltam a repetir-nos as palavras do grande apóstolo. O Cristianismo revive com a Terceira Revelação para renovar todas as coisas. Projeta-se nova luz sobre os caminhos da humanidade, muda-se a mentalidade de quantos tomam conhecimento da revelação espírita, todos os valores mudam de base: o que parecia grande e digno de todos os sacrifícios transforma-se em pequeno, de valor muito passageiro; o que parecia demasiado abstrato para merecer nossa dedicação passa a constituir a razão mesma de ser da vida. O mundo material perde em significação e o mundo moral vem a significar tudo. Novos ideais, novas esperanças, nova segurança vêm amparar o homem em sua penosa jornada sobre a Terra. Ninguém fica excluído da grande família humana à luz da Nova Revelação. Mesmo o mais renitente inimigo do Espiritismo está incluído entre os que terão de ser salvos por ele, mais cedo ou mais tarde. É uma ideia nova, diz Carlos Richet, e por isso tem inimigos. Todas as ideias novas têm contra si a maioria dos homens, porque todos são apegados às ideias velhas e se opõem às novas, até serem vencidos por estas últimas. Nenhuma outra razão existe para hostilizarem o Espiritismo, senão ser coisa nova; mas, o tempo se encarrega de fazer que todas as coisas novas um dia venham a ser velhas e aceitas por todos. Basta que os homens se acostumem com uma ideia, para a aceitarem sem relutância. Logo, virá o tempo em que todos aceitarão o Espiritismo, como ideia madura, bem demonstrada, fora de todas as dúvidas. Tudo é questão só de tempo, porque os propagandistas não se cansam, são os Espíritos que se comunicam por toda a parte e ditam livros, inspiram oradores, manifestam-se por muitas formas convincentes, acumulando afinal uma multiplicidade variadíssima de provas desde as mais materiais até ás mais intelectuais.

Logo, o Espiritismo virá a ser aceito por todos os homens e só isso seria uma grande e fundamental renovação da humanidade; porém, não é só a ideologia que se renova. O progresso físico igualmente renova o mundo com suas descobertas de novas energias, novas máquinas, novos processos de trabalho e arranca o homem do seu comodismo oportunista, das suas velhas rotinas. Nessa transformação material do mundo, por vezes o homem é violentamente lançado na corrente do progresso, apesar de todos os seus protestos, choros e gemidos. Vêm forças maiores arranca-lo de suas rotinas. São os poderes públicos que lhe desapropriam as mansardas infectas e as deitam abaixo para abrir novas avenidas arejadas. São os grandes proprietários que compram casas velhas para demolir e aproveitar somente o terreno em construções melhores, mais confortáveis. É a guerra que arrasa cidades inteiras, afunda navios, forçando o homem a construir de novo, a renovar velhas obras.

Por toda parte corre esse vendaval da demolição para reconstrução. Ora tudo se faz pacificamente, com planos humanitários bem estabelecidos, como nas demolições que se estão processando em nossa velha Capital para a renovar, modernizar, sanear; ora a demolição é feita inconscientemente pelo ódio, como na velha Europa vem ocorrendo. De todas as formas, porém, há demolição em grande escala para renovação.

Paralelamente com a renovação material, vão surgindo as necessidades de reformas no direito e novas leis, novos sistemas de regular as relações dos homens entre si aparecem em todos os países. São legislações novas que se impõem, por se haverem tornado obsoletas e desumanas as velhas ideias de direito e dever.

Toda essa renovação poderia realizar-se sem dores harmonicamente se os homens houvessem aceitado o Cristianismo do Cristo, a lei moral eterna. Em certos casos, assim é e tudo se processa sem sofrimentos, para bem de todos. Noutros casos, porém, os homens se afastaram da lei moral e tentaram resolver seus problemas pela violência; vêm então as grandes calamidades e loucos de ódio e de dor, fazem eles aquelas mesmas coisas que deveriam ter feito com amor, cheios de alegria e felicidade. Desaparece a razão e domina a força. De qualquer sorte, no entanto, os planos divinos de progresso não se deixam prejudicar pelos erros, pela incompreensão dos homens. Fazemos pela dor, com sangue e lágrimas, o que deveríamos ter feito por prazer, por amor a Deus e às suas criaturas. O homem é demasiado pequeno para impedir que se cumpra a vontade de Deus e na vontade de Deus está o progresso, o aperfeiçoamento de todas as coisas, de todos os seres, através de renovações constantes, sempre para melhor. Nada fica estacionado eternamente. Tudo cumpre sua missão e tem que ser substituído: ferramentas, armas, meios de transporte, processos de produção, instituições, conhecimentos tudo envelhece e se torna anacrônico e tem que ser renovado. Nossas ideias igualmente são passageiras, podem durar milênios, mas terão que ser substituídas por outras melhores. Só o que é divino é eterno. A única lei que não tem que ser revogada é a de Deus em sua essência, despida da roupagem humana.

A renovação não cessa nunca. Sempre e a todos os momentos estão sendo renovadas as nossas concepções e nós mesmos, os homens, estamos sendo substituídos, por meio da morte e dos renascimentos a todo instante. Em cada renascimento trazemos novas ideias, novas experiências, para um ambiente novo, e vimos constituir uma personalidade renovada; já não somos precisamente o que fomos em anterior encarnação. No curso mesmo tão breve de uma encarnação, passamos por várias transformações, tornamo-nos dia a dia diferentes de nós mesmos pelas novas experiências, pelas novas observações, pelos novos conhecimentos que vamos adquirindo. Não ficamos estacionários, mesmo que o quiséssemos, com as ideias e aspirações que tínhamos na infância, na adolescência, na juventude, na idade madura. Tudo se transforma em volta de nós e nós também nos transformamos. Em certos momentos, porém, essas renovações se precipitam quais verdadeiras tempestades, como se dá em nossos dias apocalípticos. As nações mais rotineiras do planeta são compelidas a aliar-se às mais progressistas, para a renovação comum. Vemos os países mais novos e progressistas do mundo aliados aos mais velhos, numa luta comum, de que resultará o progresso de todos. A China milenária e os Estados Unidos moderníssimos são frações do todo que se defende, como nós brasileiros, contra as forças tenebrosas do Anticristo. A defesa comum força a colaboração, a interdependência e é evidente que a marcha do progresso tem que ser para a frente. Não serão os Estados Unidos que terão de adotar a velha civilização chinesa, mas a velha China que terá de modernizar-se, como os Estados Unidos, e esta mesma imensa nação moderna tem que modernizar-se dia a dia em seu esforço de guerra, para estar na altura de abater o adversário.

Assim, a atual guerra força todos os povos do planeta a grandes progressos materiais, à renovação de suas indústrias, às pesquisas científicas, ao desenvolvimento de energias latentes.


            É o progresso doloroso da renovação, que poderia ter-se realizado harmonicamente, se os homens não houvessem desprezado o Evangelho. De qualquer sorte, porém, tudo se renovará e o mundo de após guerra será completamente outro. 

Da Intolerância Religiosa


Da Intolerância Religiosa
por Solimar de Oliveira
Reformador (FEB) Março 1944

Que é intolerância religiosa?

É a guerra espiritual, nunca dirigida pela razão e pelo coração, nunca inspirada pelo sentimento de verdadeira fé, que reina nas instituições e nas almas, dividindo-as e quebrando os laços de fraternidade que unem os homens, atirando uns contra os outros na mais absoluta negação da caridade cristã, que é a base e o coroamento de todas as religiões.

Quando esse monstro, devorador dos bons sentimentos e da inteligência, for banido das sociedades religiosas e os homens não abrirem mais as portas de seu coração aos elementos da inveja, da intriga e do egoísmo, chagas que conduzem as criaturas ao obscurecimento e que retardam a sua evolução espiritual, será então possível estabelecer-se na Terra a idade verdadeiramente cristã, que será o reino da paz e da inteligência, do Evangelho, portanto dignificando a família humana.

Qual a razão por que aqueles que têm diariamente, do Divino Código da mais pura moral, a Mensagem do Amor diante dos olhos, diante do coração e diante da alma, não exemplificam pela palavra sincera, persuasiva, cristã, convincente, sábia, repassada da mais perfeita lógica, com as luzes sublimes que o Evangelho derrama em todas as inteligências, ao invés de se utilizarem de escabroso ardis, adredes preparados pela má fé e pela precipitação de julgamento de uma coisa que desconhecem, logo pela falta de vigilância, de caridade, dando dessa maneira ingresso à inspiração do gênio da maledicência em todos os seus atos?

A intolerância religiosa é o enorme obstáculo encontrado pelos homens de boa vontade e pelos Espíritos superiores, que orientam a humanidade para que as religiões dos homens cheguem a acordo que permitirá baixar à Terra o Espírito de verdadeira Religião, a Religião de Verdade e de Amor, que unificará os corações não apenas pela Crença pura, pela Fé viva; não apenas os Espíritos, pela sua origem divina, mas igualmente as próprias criaturas terrenas, como Espíritos encarnados.

É ainda a intolerância religiosa a geratriz de fortes contendas, de ódios ferventes, de lutas militas vezes sangrentas, que não apenas projeta as religiões à novas cruzadas, a novos Bartolomeus, a novas inquisições intelectuais e morais, como atua poderosamente sobre a consciência, porque aconselha as almas a desconhecerem mesmo aquilo que condenam, baseada que está na crítica partidarista. O que, em verdade, além de fugir ao bom senso aconselhado pelos espíritos equilibrados, é falta de caridade.

E a pior das intolerâncias é precisamente a religiosa, porque não se reflete unicamente na vida presente. Estende-se muita vez à vida futura e poderá prolongar-se por muitas idades, pois desencaminha os Espíritos da luminosa rota da fraternidade, do Amor, da Solidariedade que é a grande Lei da Vida. O que, em verdade, ainda é falta de caridade.

O pior ainda é que a intolerância, quando fruto de nossa ignorância, pois dela nos fazemos escravos pelo espírito de prevenção que nos obscurece a razão, além de nos colocar em má situação, é tristíssimo veículo de incompreensões, meio ingrato com que roubamos aos nossos semelhantes as mais caras e nobres convicções, para atirá-los às trevas de uma existência muita vez repleta de dolorosas dúvidas, de sérias vacilações, de cegueira completa.

Quem pode dizer, em sã consciência: Eu sou a Verdade?

Instruir e educar, eis duas tarefas que realizadas sem o tradicional e sempre utilitarista espírito de seita, conduziria os homens e as religiões à prática da verdadeira tolerância.

Lembra-nos a intolerância, já não me refiro dos homens como adeptos de doutrinas religiosas, mas dos sacerdotes, dos pregadores, dos evangelizadores, de todos os responsáveis pela orientação moral e espiritual das sociedades, pelo poder que lhes conferiram as instituições a que servem, lembra-nos a intolerância, que é sempre mais o cuidado do proselitismo que a defesa sadia das religiões, a sentença de Jesus: - "Ai de vós os que, levados pela preocupação de fazer um prosélito, depois de o haverdes conseguido transformai-o em filho da iniquidade duas vezes mais do que vós mesmos." Porque, geralmente, é pelas invectivas difamantes, pelos libelos, pelas críticas malévolas, atirados contra as instituições, no desespero de provar seus possíveis erros, que os pregadores conseguem realizar prosélitos para as seitas de que são porta vozes. Há raríssimas exceções. Já não é mais pelo sentimento cristão, pela sinceridade de iluminação das almas, pela verdadeira virtude da Fé, que, como centelha divina, entram nos corações, despertam o sentimento de amor e de piedade, e falam à inteligência.

Pela doutrina de intolerância que praticamos, quase sempre jogamos, obsidiados pelo espírito sectarista, irmãos contra irmãos, pais contra filhos, filhos contra pais. Ao invés de prepararmos almas para o Céu, para o Bem, para a prática do Amor Cristão, preparamo-las para o inferno, isto é, para as discórdias, para as guerras, para as lutas conduzentes aos grandes remorsos e sofrimentos futuros, para a prática de atos completamente opostos ao ensinamento: "Amai-vos. Instruí-vos"; com mansidão, tolerância, raciocínio, inteligência, e nunca, inspirando ofensas, e, nunca, alimentando a má fé, nem fomentando discórdias. Pois, quando há sinceridade, fé, cristianismo, virtude, caridade, já não é unicamente o homem carnal que fala, mas também a alma, o Espirito que compreendeu a Deus, pela prática dos ensinamentos de Jesus, e sabe que Deus é Amor, Caridade, Justiça.