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sábado, 29 de abril de 2017

Vigilância Evangélica


Vigilância Evangélica
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Março 1954

Depois de duas guerras tremendas, forgicadas (fraldadas) pela má política internacional, sofre hoje a Humanidade às tristes consequências da falta de educação evangélica daqueles que galgaram as posições do poder, movidos por ambições pessoais e impulsionados pelo egoísmo fratricida. Povos amigos e pacíficos foram iludidos, envenenados pela intriga e deixados ao abandono nos vendavais do ódio. Manejados por minorias políticas viciadas em práticas incompatíveis com os deveres cristãos, tais povos se afogaram em sangue, viram seus lares destruídos, suas famílias dizimadas e as nações, outrora alegres e felizes, caíram prisioneiras da miséria, escravas da dor, envoltas no negrume do ceticismo que corrói as almas e as induz a novas e duras provações.

A Humanidade está pagando pesadíssimo tributo por suas convicções materialistas. Quanto mais divorciada do Evangelho do Cristo, mais sofrerá, porque ninguém pode colher senão o resultado do que semeia. Quem semear amor, colherá amor; quem semear paz, colherá paz, quem semear entendimento, só entendimento poderá colher. Entretanto, aquele que semeia ventos, colhe tempestades, A "pena de talião" é uma ordem que nenhum ser humano pode alterar, de vez que ela significa simplesmente que a lei de causa e de efeito se encontra em plena ação. Se todos procurassem dar boa-vontade e consciente tolerância aos seus semelhantes, acabariam por estar rodeados também de boa-vontade e tolerância. Infelizmente, o revide substitui a ponderação; o orgulho ferido não se compadece com a necessidade da indulgência bem conduzida; a humildade sem vileza nem sempre encontra corações onde repousar. E assim vão os homens, assim vai a Humanidade, lutando e sofrendo, desesperada, procurando soluções erradas para resolver conflitos que poderiam ser amenizados e eliminados com a só compreensão dos princípios evangélicos. Não há fé, não há caridade, não há esperança, na maioria dos seres humanos. Todos querem gozar os prazeres que a vida oferece, sem pensar na necessidade de dar ao espírito a tranquilidade que ele pode encontrar na vida simples, devotada à esposa e aos filhos, em plena comunhão fraterna com os semelhantes. O imediatismo, filho natural do materialismo sórdido que domina o mundo, reflete as condições mentais e a pobreza moral em que tantos seres humanos se debatem. O pudor mingua cada vez mais. Consequentemente, a sociedade se dilui, corrompendo o sentido tradicional da família; as relações entre as criaturas se fazem sem as indispensáveis fronteiras do respeito e do cavalheirismo. A desintegração das coletividades se opera rapidamente, pelo desaprimoramento dos costumes, pelo descaso com o idioma pátrio, pelo desamor às tradições. Hoje, a mocidade se desenvolve sem o freio salutar da disciplina, desde o lar que nem sempre os pais resguardam convenientemente. Os compromissos morais se afrouxam e se vai formando, num ritmo exacerbado, a mentalidade volúvel de homens e mulheres que nem sequer se preocupam com as pesadas responsabilidades do futuro.
*

Muito se sofre nos dias que correm. Mais se sofrerá ainda, porquanto a incredulidade se expande sob a capa de pseudo-esclarecimento científico e o intelectualismo frívolo se refocila(reforça) no cinismo das atitudes artificiais. Falar em Jesus é tão vergonhoso quanto crer em Deus. É falta de virilidade o confessar espírito religioso. Escudar-se na prece é ganhar fama e pusilânime... Evidentemente, a beatice é perigosa, porque vizinha da hipocrisia e do fanatismo. Para assegurar a graça divina, nada melhor que a exemplificação das verdades evangélicas. Exemplificar é o caminho mais curto, embora o mais difícil. Em nossa peregrinação terrena atual, realizamos esforços para seguir as pegadas daqueles que, melhor do que nós e com maior propriedade, já se assenhorearam dos princípios evangélicos. Nossas quedas são muitas, porque o nosso espírito ainda está sobrecarregado de defeitos e fraquezas. Somas dos últimos, na caravana dos que buscam iluminar-se nas refulgências(no brilho) do Espiritismo cristão, bem o sabemos. Todavia, ainda que convencidos da nossa insignificância, ainda que a nossa desvalia seja fardo incômodo em nossa consciência,
tivemos a felicidade de encontrar a trilha da Verdade. Algum dia haveremos de alcançá-la, se não nos faltar, como estamos certos de que não nos faltará jamais, a misericórdia do Alto. ÀS vezes, em solilóquios breves, perguntamos a nós mesmos: para ande iremos? para onde se encaminha a Humanidade contemporânea, empolgada pela concupiscência, seduzida pelos gozos fáceis e impuros, traída pela ambição de fortuna rápida e de qualquer origem? Consultemos a História, perlustremos o passado, investiguemos os dias da nossa meninice, ainda vivos na memória, e estabeleçamos sincero e mesmo benévolo confronto com o que foi e com o que é. Encontraremos a desoladora resposta acerca do futuro que espera a Humanidade destes dias atribulados. Ainda se respira o odor de sangue de duas guerras pavorosas e já se sente o cheiro de pólvora dos conflitos que se armam nos gabinetes secretos. Mal refeita ainda da experiência assustadora das bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, vivem as populações do mundo intranquilas, sob a ameaça de outros meios de destruição, como as bombas de hidrogênio, porque a ciência, que tanto tem trabalhado pelo bem da Humanidade, mostra igualmente duas faces: uma, benéfica, abençoada, porque positiva; outra, maléfica, apavorante, porque negativa. A insegurança do mundo gerou a intranquilidade. Se os povos tivessem fé, confiança nos desígnios do Mestre, as vicissitudes passariam sem deixar marcas indeléveis na formação moral dos homens. Mas, infelizmente, o ceticismo ganhou forças, alimentando-se nos erros daqueles que, no passado, se inculcaram herdeiros do Cristo, sem, no entanto, salvaguardarem devidamente os tesouros portentosos do Evangelho, através da exemplificação fiel. Estamos sofrendo hoje os desvios de ontem, como a Humanidade de amanhã virá a sofrer as consequências da má orientação contemporânea.

*

Não se mitiga a fome com arengas filosóficas ou religiosas, porque são diferentes as necessidades do corpo e as necessidades do espírito. Todavia, é preciso, quando se atende a umas não se deixar sejam as outras esquecidas. Entretanto, quando se está espiritualmente preparado para a vida terrena, nunca se abandona a esperança de salvamento. O Espiritismo cristão esclarece o homem sobre a sua legítima posição na vida terrena. Muitas vezes, as provações de hoje nada mais são do que o resultado de débitos contraídos em vidas anteriores. Isto demonstra que há necessidade de calma e resignação, porque não há causa sem efeito, assim como não há efeito sem causa. A preparação espírita do homem lhe dá uma sensação de segurança extraordinária. Ele se sente com forças para suportar os contratempos da vida, porque confia em Jesus e a fé lhe nutre o espírito. Mais do que nunca as palavras do admirável apóstolo Paulo, na sua Epístola aos Coríntios (4:8-10), devem ser lembradas e retidas: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre, por toda parte, a mortificação do Senhor Jesus em nosso corpo, para que a sua gloriosa vida se manifeste igualmente em nós."

Mas, convenhamos, é bem amargo o cálice do sacrifício. É preciso que o espírito esteja imerso na fé sincera, para compreender e exemplificar as lições contidas nas palavras de Paulo. Nessas horas, sentimo-nos menos que pigmeus diante da grandeza sem par do Evangelho. Quem somos nós, Senhor, para resistir galhardamente às solicitações da covardia espiritual? Enriquece-nos com a Tua misericórdia, para que a nossa miserabilidade moral possa adquirir um muito pouco que seja das virtudes evangélicas! Que o quase nada que já beneficia o nosso espirito possa quebrar as resistências da nossa imperfeição, para que melhor sintamos os efeitos renovadores da palavra de Jesus e das mensagens psíquicas de seus operosos e beneméritos mensageiros! Que saibamos sempre compreender a função educativa e regeneradora do sofrimento, aceitando-o de ânimo forte e resignação ativa. Que nunca nos falte a capacidade da reação moral, porque ao Mestre não agrada a passividade negativa e estéril. O homem foi feito para lutar e é pela luta que seu espírito se engrandece. A resignação consciente não deixa de ser uma forma de luta, porque se escuda na fé. Ela representa uma atitude de resistência contra o desânimo e a descrença, assim como pode constituir o ponto de partida para a reconstrução que glorifica os esforços do espírito! A resignação negativa é como uma morte aparente, enquanto que a resignação ativa revitaliza o espírito, dá-lhe ânimo para resistir contra o desespero e oferece-lhe oportunidades magníficas para se reerguer moralmente, justificando o prêmio da ascensão na escala evolutiva. De certo modo, somos os obreiros do nosso destino, porque de nossa conduta atual dependerá o rumo que seguiremos no futuro, nesta ou na próxima peregrinação terrena.

Em face da confusão que domina o mundo, os espíritas temos todos um programa a seguir. Esse programa não foi traçado pelos homens: está no Evangelho. Sem ele, todos os esforços resultarão nulos, todas as tentativas de salvação moral estarão condenadas ao malogro. O homem precisa compreender que, embora com deveres importantes na vida material, seu destino é espiritual. Através do Evangelho, encontrará a tranquilidade interior de que necessita na hora atribulada em que vivemos. Exemplificando quanto possa na obediência ao itinerário evangélico estará, simultaneamente, trabalhando para si e para o próximo, porque não se pode conceber, dentro do Espiritismo cristão, nenhuma obra com objetivos egoísticos. Servir é o dever que a todos nos assiste, sem, no entanto, esperarmos retribuição. Nosso salário não se perderá jamais, porque, consoante a lei de causa e de efeito, cada qual colherá o fruto correspondente à semente que plantou. Em outras palavras, conforme o Cristo: “a cada um, segundo suas obras".


            O recurso da prece nunca foi tão oportuno quanto nestes dias incertos. Jamais foi tão necessária a vigilância em torno dos nossos pensamentos e dos nossos atos, como nas horas agitadas do mundo hodierno. Preocupemo-nos mais em vigiar a nós mesmos, do que aos nossos semelhantes e sentiremos, ao fim de cada tarefa, a consciência repousada na confiança de que cumprimos o nosso dever perante Deus, perante Jesus, perante os homens.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mensageiros da Esperança


Mensageiros da Esperança 
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Setembro 1954

            Digno de todas as bênçãos é o serviço de beneficiência realizado pelos espíritas, em favor dos deserdados da fortuna e dos enfermos da alma e do corpo. Obra santificada, essa, que muitas vezes exige grande e enobrecedor espírito de renúncia dos que a praticam. Aqueles que se entregam à faina de ir visitar a miséria em sua intimidade, tomando contato direto com a dor alheia, sem se preocupar com a posição religiosa dos necessitados, levam aos infelizes o pão que acalma a revolta das vísceras famintas, a coberta que atenua os rigores do frio, a veste que retarda a nudez enxovalhante, o medicamento que contribui para restabelecer o equilíbrio orgânico, dando ensanchas(oportunidades) a que se estabilize a saúde indispensável ao cumprimento das obrigações inerentes à vida terrena. A par disso, leva ainda palavra amiga, o esclarecimento que pode transferir aos corações sofredores o conforto espiritual imprescindível à integral recomposição da criatura necessitada. São numerosos os serviços de caridade instituídos pelo Espiritismo para atender as dores do mundo, sem qualquer retribuição, assim como sem distinção de raças e de credos, tal como Jesus exemplificou e consta do Evangelho. Sem vacilarem ante obstáculos quase insuperáveis, desdenhando das imposições da fadiga, sacrificando mesmo interesses e conveniências particulares, mas compenetrados da nobilitante missão que lhes cabe cumprir, os espíritas percorrem longas distâncias, sobem morros íngremes, de difícil acesso, enfrentam circunstâncias muitas vezes desagradáveis, sob o sol, sob a chuva, pisando a lama ou respirando o pó das estradas, sem outro fim que não seja o de servir, de fazer o bem, consoante o rumo evangélico. Assim, iluminam sua rota com a luz imperecível do Evangelho de Jesus e executam seus programas de assistência.

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            Quantas vezes, no esforço seletivo da sindicância, acolhem conceitos inadequados e imerecidos! No entanto, fiéis às normas de trabalho prefixadas, procuram, escudados na fé e fortalecidos pela tolerância, apanágio da religião espírita, dissolver pacientemente as incompreensões, com a elucidação ponderada; responder, com o silêncio ungido de vigilância, às imprecações(maldições) geradas pela cólera de indivíduos perturbados espiritualmente; transformar conceitos pejorativos em bênçãos sobre os que, coitados, ainda não se encontram em condições de avaliar os esplendores da luz nem os perigos da escuridão. Nessa luta gigantesca, que não repercute em outros ambientes porque é guardada no âmago do coração, os espíritas acabam por firmar pé e triunfar, porquanto são acompanhados, nessas peregrinações cristãs, pela advertência de Jesus a Paulo: “Tem bom ânimo; pois assim com deste testemunho de mim em Jerusalém, assim Importa também que o dês em Roma.

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            É possível que, entre tantos dedicados obreiros do Espiritismo, algum se detenha, às vezes, para considerar o peso do fardo que carrega e, em tais momentos, que Espíritos inferiores acoroçoam, faz-se mister a reflexão serena, pois é preferível ceder à tarefa a quem a possa executar de boa-vontade, do que insistir que alguém a realize sem entusiasmo. A atitude mental que adotamos pode facilitar o ato que pretendemos consumar. Há sempre uma efusão fluídica quando pensamos ou agimos. Muitas vezes um ato não chega a concretizar-se mas fica marcado em nossa subconsciência. Todo trabalho feito com desânimo dá resultados deficientes. Pelo menos, disse o Mestre: “fazei o bem e emprestai, sem nada esperardes, e será grande a vossa recompensa, e sereis filho do Altíssimo; porque Ele é benigno até para com os ingratos e maus.” Eis porque o serviço de caridade tem de ser feito com alegria no coração, com sentimento amoroso, para que seus efeitos sejam realmente benéficos. A esmola dada friamente, sem vibração amorosa, não encontra eco na senda espiritual, é semente desperdiçada em terreno sáfaro(árido). Caridade não se faz com o coração vazio de amor, porque, então, não será caridade, uma vez que lhe falta o complemento valioso. Por isso, o serviço de assistência a enfermos do corpo e da alma, aos que são atingidos também pela provação econômica, é de extraordinário alcance social e altruístico. Não se trata de amparar e estimular a ociosidade nem a mendicância profissional, mas de prover aos que são realmente necessitados e não têm meios de tirar do trabalho o suficiente para a sua subsistência ou o seu amparo. Daí a imensa responsabilidade moral do serviço de sindicância, destinado a separar o joio do trigo, a resguardar os que são verdadeiramente necessitados. Avulta de importância a tarefa dos trabalhadores espíritas nesse setor, e eles a realizam com o mais puro sentimento de paz, compreensão e amor. Caridade seca, orgulhosa, indiferente, humilhante ou espalhafatosa, não é rigorosamente caridade. Herdeiros do Cristianismo primitivo, os espíritos continuam hoje a cumprir sua abençoada missão, que ainda mais se desenvolverá no futuro. Seu benemérito trabalho se expande dia a dia por não lhe faltar a ajuda preciosa do plano invisível. Criaturas bem intencionadas colaboram com essa obra grandiosa, fazendo donativos de toda sorte, sem resvalarem para a propaganda das boas ações que praticam. O espírita consciencioso, de que nos fala Kardec, trabalha sem alarde, anonimamente, se possível. O que vale para Deus não é a caridade insincera, que objetiva laurear quem a faz, mas a caridade simples e modesta, na qual não sabe a mão esquerda o que a direita faz. A não ser assim, a caridade se torna conspurcada pela vaidade e envilecida pela hipocrisia, humilhando, não raro, quem a recebe. Os que assim procedem, não são caridosos, mas egoístas, porquanto beneficiam seu orgulho, em detrimento da infelicidade de seus semelhantes. “Praticam, porém, todas as obras para serem vistos pelos homens.”

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É mais frequente e bem mais fácil, decorar e repetir os versículos do Evangelho, do que seguir-lhes o escarpado curso da exemplificação. O melhor crente não é o que sabe recitar preces e provar a memória na citação calorosa das passagens da Boa Nova, mas aquele que, humilde, afina os sentimentos na prática das boas ações, que sabe transformar o mal em benesses e adubar o coração para produzir frutos santificados. Qualquer ato de caridade deve ser iniciado com o pensamento puro, para que se envolva em fluidos positivos e revigorantes, capazes de transmitir aos que sofrem o desejado alivio. Na medida do amor posto no ato de caridade, o que o pratica será igualmente beneficiado, consoante a Lei da Retribuição ou Lei da Causa e do Efeito. Todos somos necessitados de caridade, muitas vezes ainda mais do que aqueles que presumimos em piores condições do que nós, tanto assim que nos cumpre servir e a eles, serem servidos. A riqueza material jamais poderá suplantar em valia a riqueza espiritual. No entanto, quando a riqueza material é também utilizada em obras de benemerência, deve ser abençoada. Nem sempre o egoísmo humano se liberta facilmente de preconceitos desenvolvidos e mantidos pela ausência ou pelos defeitos de educação. Para sermos realmente caridosos com os nossos semelhantes, devemos enriquecer-nos de humildade, tolerância e amor. Perante o mundo, a felicidade é geralmente condicionada a maior ou menor posse de haveres. Perante o Altíssimo, a felicidade somente pode ser encontrada através da exemplificação do bem, no exercício da caridade sincera, no testemunho permanente do amor elevado. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens; em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te retribuirá.

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Os abnegados obreiros espíritas, que se entregam, cheios de ânimo e zelo evangélicos, aos trabalhos de assistência aos necessitados, são legítimos Mensageiros da Esperança. Dão aos abandonados a certeza de que não se encontram sós; mostram aos aflitos que poderão fazer jus ao bálsamo da tranquilidade, desde que não percam a fé ou se esforcem para recuperá-la; transmitem, àqueles que se debatem na dor física, a confiança em dias menos angustiosos, assim como levam, aos que são acicatados pelo sofrimento moral, o sedativo da paz, através da palavra oportuna e da caridade que, a mancheias, derramam sobre a Terra os trabalhadores invisíveis, que nunca faltam, que jamais deixam de lutar pela libertação dos que ainda se achem enclausurados em pensamentos negros e obsidientes.

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“Fora da caridade não há salvação” - sentenciou Allan Kardec. O Espiritismo é fundamentalmente caridoso e os espíritas, integrados na Doutrina que nos legou o Codificador, devem palmilhar atentamente o rumo evangélico. Podemos todos cumprir nossos deveres de espíritas cristãos, ainda que tenhamos as mãos vazias, desde que nos apresentemos com o coração cheio de bondade, o pensamento inundado de perfeita compreensão evangélica. A boa-vontade opera prodígios. O Espiritismo dá o pão do Espírito e também dá o pão da carne. Sua obra humanitária cresce a todo instante, agiganta-se e há de abarcar toda a Terra. É a Religião que está triunfando sem violência, por força mesma da sua expressão divina. Todos os trabalhadores da Seara de Jesus, no plano da caridade objetiva e subjetiva, os obreiros visíveis e os obreiros invisíveis são amparados pelas bênçãos do Mestre, Paradigma de Caridade, que é expressão pura do Amor.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fatalidade e Livre Arbítrio


   Fatalidade e livre arbítrio
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Abril 1954

            Antes do regresso à experiência na carne, nossa alma em prece roga ao Senhor a concessão da luta para a obra sublime de nosso próprio reajustamento.

            Solicitamos a reaproximação de antigos desafetos...

            Imploramos o retorno ao círculo de obstáculos que nos presenciou a derrota em romagens mal vividas...

            Suplicamos a presença de verdugos com quem cultiváramos o ódio, para tentar a cultura santificante do amor ...

            Pedimos seja levado de novo aos nossos lábios o cálice das provas em que fracassamos, esperando exercitar a fé e a resignação, a paciência e o valor...

            E com a intercessão de variados amigos que se transformam em confiantes avalistas de nossas promessas, obtemos a bênção da volta.

            Efetivamente, em tais circunstâncias, o programa de trabalho surge traçado.

            Somos herdeiros do nosso pretérito e, nessa condição, arquitetamos nossos próprios destinos. Entretanto, imantamos temporariamente ao veículo terrestre, acariciamos nossas velhas tendências de fuga ao dever nobilitante.

            Instintivamente, tornamos, despreocupados, à caça de vantagens físicas de caprichos perniciosos, de mentiroso domínio e de nefasto prazer.

            O egoísmo e a vaidade costumam retomar o leme de nosso destino e abominamos o sofrimento e o trabalho, quais se fossem duros algozes de nossa alma, quando somente com o auxílio deles conseguimos soerguer o coração para a glória suprema a que somos endereçados.

            É, por isso, que fatalidade e livre arbítrio coexistem nos mínimos ângulos de nossa jornada planetária.

            Geramos causas de dor ou alegria, de saúde ou enfermidade em todos os momentos de nossa vida.

            O programa de regeneração volta conosco ao mundo consoante as responsabilidades por nós mesmos assumidas no pretérito remoto e próximo; contudo, o modo pelo qual nos desvencilhamos dos efeitos de nossas próprias obras facilita ou dificulta a nossa marcha   redentora da estrada obscura que a carne nos oferece.

            Aceitemos, pois, os problemas e as aflições que a Terra nos Impõe agora, atendendo aos nossos próprios desejos, na planificação que ontem organizamos, fora do corpo denso, e tenhamos cautela com o modo de nossa movimentação no campo de nossas tarefas, porque conforme as nossas diretrizes de hoje, na preparação do futuro, a vida nos oferecerá amanhã paz ou guerra, felicidade ou provação, luz ou treva, bem ou mal.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Nótulas Espiritualistas XXII


  Nótulas Espíritas - XXII
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB)  Novembro  1956

            Como dissemos anteriormente, só poderá ser compreendida a Vida no seu íntimo mecanismo e inicial impulso ascensional de perfectibilidade, quando se souber analisar, em superfície e profundidade, a divina e redentora Lei da Evolução no seu pleno sentido integral: físico e psíquico, orgânico e espiritual.

            A grandiosa Lei da Evolução é, dentro do Cosmos, a lei fundamental e dominante, abrangendo universos, coisas e pessoas, donde se pode deduzir que todas as Leis naturais convergem harmonicamente para o seu pleno dinamismo e finalidade.

            Há, porém, duas leis complementares e subsidiárias, intimamente ligadas à Lei da Evolução - seu fundamento, trajetória e diretriz: a Lei reencarnacionista ou das vidas sucessivas e pregressas, e a Lei cármica ou  da causalidade psíquica, fidelíssimo e ativo executor da Justiça imanente e do progresso moral.

            Do estudo aprofundado e refletido destas três leis - evolucionista, reencarnacionista e cármica - no seu mútuo entrelaçamento, interdependência, mecanismo, ação e reação, pode, talvez, extrair-se o sentido da Vida e o alto significado dos valores morais para a feliz consecução do seu finalismo glorioso e triunfante para a Humanidade, na sua extensão e perenidade, no seu rotativismo alternante através dos variados  mundos extraterrestres.

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            Por agora, ocupar-nos-emos, sumariamente, da Lei cármica, reservando para mais tarde um estudo mais profundo e respectiva classificação das suas complexas e múltiplas variedades, entre as quais uma da nossa autoria, assunto que até agora tem sido deficientemente estudado dentro do neo-espiritualismo. No entanto, o carma representa a diretriz determinante de toda a evolução, tanto física e moral,  como psíquica, através das vidas sucessivas, da pluralidade das existências, das volutas palingenésicas. Merece, pois, o seu estudo aprofundada reflexão e meditação e pleno conhecimento teórico e prático dos seus métodos experimentais, particularmente o processo da "regressão da memória".

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            A Lei cármica, expoente máximo da indefectível Justiça Divina, fiel executor da Justiça lmanente, perante as almas evolucionantes de toda a Humanidade, tem plena realização e atualidade em todos os Planos da Natureza, em todos os Mundos cósmicos, dominando toda a energia da matéria, como toda a atividade espiritual. Todos os desequilíbrios da matéria, assim como todas as desarmonias do sentimento e da inteligência, hão de ser, necessária e fatalmente, expiadas e reparadas dentro da justiça e determinismo que prendem indissoluvelmente a causa ao efeito, à face da eterna Lei Moral, reguladora do Bem e do Mal, inata em todas as consciências humanas, como reflexos redentores das suas almas divinas, criadas no sentido do Bem e do Amor.          

            O criminoso poderá escapar à justiça e castigo dos homens, mas o carma vigilante, oportuno e inexorável, radicado no seu perispírito, será implacável e justiceiro até à equitativa expiação e reparação dos prejuízos morais e materiais infligidos à sua vítima.

            O criminoso só pelo arrependimento e reparação dos malefícios praticados poderá vencer o torturante remorso, reabilitando-se pela sua regeneração moral, modificando, assim, as baixas e lentas vibrações do seu mau e pesado carma até à sua extinção completa: Depois de saldar as dívidas, em má hora contraídas perante o seu semelhante – seu irmão solidário no mesmo Destino evolucionante e divino – restabelecendo pelo seu esforço próprio o ritmo vibratório que perturbou no seu Universo, tecido pelo Supremo Criador da Luz e do Amor, o criminoso, o pecador, só então poderá conquistar a almejada “paz de consciência”.

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            É o carma que determina e orienta as trajetórias de todas as reencarnações numa linha diretriz essencialmente conduzida para o progresso, expiação e reparação, resultantes dos atos praticados nas vidas passadas, particularmente na vida terrestre anterior.

            Mas a expiação não significa castigo por mais dolorosa que seja para os reincidentes e obstinados no Mal. A expiação, provocando o remorso como meio preventivo e redentor inerente ao arrependimento libertador, representa apenas uma lição disciplinar para que o criminoso compreenda a Lei de fraternidade e de amor em que prevaricou, lei base da nossa evolução espiritual e divina.

                                                                       *

            As leis concernentes ao progresso humano são paralelas e harmônicas tanto no plano físico como no plano mental e moral, sejam quais forem os desígnios do homem na sua perversidade para tudo falsificar, complicar e obscurecer.

            Nem o mais insignificante ato, nem o mais leve pensamento, nem  mais recôndita intenção, deixam de ficar vincados em nossos corpos psíquicos, nas superestruturas do nosso perispírito.

            Esta mecânica psíquica é toda feita de luz, cores e vibrações, das mais variadas categorias, determinadas e visíveis à clarividência, nas irradiações da aura humana, representativa do grau evolutivo, para cada alma.

            Perante a alma não há disfarces ou hipocrisias que valham. A nossa aura é o mais fiel atestado do nosso comportamento mental e moral. Todos os Espíritos desencarnados medianamente evoluídos podem ler e apreciar todas as auras.

                                                                       *

            No dia em que a Humanidade queira estudar e compreender o mecanismo e reciprocidade das Lei reencarnacionista e cármica, através da grandiosa e excelsa Lei da Evolução espiritual, a Humanidade encurtará a sua curva ascensional de progresso, e acabará por conquistar, refletida, serena e conscientemente, o Reino supra-humano, seguindo, de alma e coração, a divina Linha Cristã.

            Só pelas redentoras Leis da caridade, do amor, da fraternidade, podemos libertar-nos deste estendal pavoroso de misérias e traições, de violências e egoísmos, que envolve toda a desvairada Humanidade.

            Proclamemos a salvação em Jesus Cristo, através das redentoras Leis de resgate e de salvação expressas no Reencarnacionismo e no Carma, leis de apoio e de direção da suprema Lei da Evolução espiritual.


            Que linda e radiosa cruzada os neo-espiritualistas poderiam realizar para tentar suster o pavoroso cataclismo que pende sobre a Humanidade.

Nótulas Espiritualistas XXI


  Nótulas Espiritualistas - XXI
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB)  Outubro 1956



            O estudo e a prática do Espiritismo constituem meios fecundos e conducentes para  esclarecer e acelerar  a Evolução espiritual da Humanidade. Para a sua compreensão, é muito conveniente libertar-nos de todos os falsos preconceitos, de todos os dogmatismos, provenham de religiões ou mesmo dos sistemas científicos e escolas filosóficas, quando eivados de falsa e perigosa orientação materialista  e agnóstica, que o experimentalismo espírita destrói, “in totum”, no seu campo experimental e científico (a mediunidade).

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            O Espiritismo tem uma estrutura essencialmente positiva, moralizadora, humanitária, radicada na unidade em Deus, fonte germinal da Vida, - nos seus múltiplos aspectos e diferenciações - origem e finalidade de todos os Universos, de todas as Humanidades, de todos os planos terrestres e extraterrestres, onde germinam, progridem e perpassam todas as vivências cósmicas do Macrocosmos no Microcosmos.

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            Todos os progressos inerentes à Humanidade, considerados, quer individual, quer coletivamente, só podem realizar-se dentro de inumeráveis e repetidos ciclos reencarnacionistas, regidos e determinados pela inexorável Lei Cármica (Lei de causalidade física e moral), como fiel e justa expressão da Justiça eterna, da Justiça imanente. Sem os seus complementares - o Reencarnacionismo e o Carma - a divina Lei da Evolução, dominando e impulsionando todas as atividades cósmicas e humanas, nos seus múltiplos e variadíssimos aspectos intelectuais, morais e espirituais, seria incompreensível  e irrealizável, oscilando no vazio, no vácuo, sem elementos de suporte e de direção.

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            Só pelo pleno conhecimento da estrutura, interdependência e recíproco mecanismo do incoercível trinômio – Evolução, Reencarnacionismo e Carma - num mesmo ritmo justo e harmônico, variável de um indivíduo para indivíduo, como função do seu comportamento moral e intelectual,  a Humanidade poderá obter o conhecimento integral da marcha do seu progresso espiritual e da ascese para a Divindade – o seu excelso e glorioso destino.  

            É esta, sem dúvida, uma das mais valiosas e fecundas mensagens que o Espiritismo oferece à Humanidade. Impõe-se, pois, o sagrado dever de todos nós espíritas envidarmos os melhores esforços, com método, inteligência e persistência, repetindo neste sentido toda nossas propaganda, aqui, acolá e além – hoje, amanhã e sempre – sob o signo luminoso do Salvador do Mundo – Jesus, o Cristo redentor - proclamando, dentro da Unidade Espiritual, a Fraternidade cristã e o Amor do próximo como base fundamental da evolução espiritual.

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            Como opera a maravilhosa e salvadora Lei da Evolução, envolvendo todo o Universo, impelindo todas as essências espirituais, numa curva ascensionalmente progressiva, à mais bela e radiosa florescência das potencialidades divinas que trazemos todos nós em nossas almas eternas, em nossos espíritos imortais, ainda que, pelo nosso criminoso atraso, ainda virtuais?
            
            Embora esta pergunta seja da máxima transcendência, representando um dos mais complexos temas concernentes à Vida e ao finalismo humano, fornecendo em bases seguras a completa dinamização dos seus potencias divinos, - a verdade é que dentro do Espiritismo se encontra a resposta, demonstrável pela  ciência experimental: - a regressão da memória - e pelas inúmeras e autenticadas - mensagens supranormais - que ainda não mereceram da parte da Ciência, o estudo e as luminosas consequências que desse estudo, por mais árduo e difícil que seja, se podem deduzir, com altíssimo benefício para a linha de conduta humana, para o seu comportamento moral.


domingo, 16 de abril de 2017

Nótulas Espiritualistas XX


Nótulas Espiritualistas - XX
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB) Setembro 1956


            Perante as religiões tradicionais do Ocidente, o estudo da alma humana não tem avançado para além de ingênuas concepções abstratas, vagas, nebulosas, desfigurando todo o dinamismo anímico através duma dialética bizantina, de sofismas inconsistentes, duma imaterialidade irreal, sem estrutura objetiva, e, por vezes, sem a devida elevação religiosa e espiritual, soçobrando no favoritismo divino da graça e na predestinação.

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            A alma humana é um mero e insubsistente produto de especulações racionalistas e escolásticas, sem base científica ou experimental, quer para as Filosofias gnósticas, quer para as Religiões dogmáticas.

            Quanto às Ciências, que deveriam ser os expoentes máximos da mentalidade humana, encontram-se orientadas num falso e grosseiro monismo materialista, ateu e agnóstico integrado numa degradante teofobia, com o seu lúgubre cortejo de descrença e niilismo.

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            O Espiritismo, surgindo no meado do século p. passado, não só demonstrou, pelo método científico - observação e experimentação  - a existência objetiva da alma humana, mas ainda a sua preexistência e sobrevivência dentro do ternário - corpo orgânico, perispírito e espírito - ao ritmo das vidas sucessivas, alternantes de Mundo para Mundo, expressas na Palingenesia (Reencarnacionismo), ao comando do infalível e justiceiro Carma.

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            O Espiritismo estabeleceu em bases experimentais a linha de continuidade causal de cada vivência com um passado multimilenário e também com um futuro sem limites, regidos e impostos pela Justiça lmanente ao impulso da casualidade cármica e das divinas leis da Evolução, quer físicas e psíquicas, quer espirituais.

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            Para a Ciência, na sua cegueira de descrença e negação, todo o psiquismo humano é função exclusiva do cérebro e do sistema nervoso; toda a Vida, para cada vivente, está limitada ao espaço que vai dum berço a um túmulo, despida de toda a ligação preexistente e sobrevivente. A sanção moral seria uma utopia, uma quimera, com o predomínio do mais forte ou do mais astuto.

            Este falso conceito materialista seria trágico se não fosse infundamentado e absurdo à face do experimentalismo supranormal do Espiritismo desde a telestesia às bilocações e aos organismos ectoplasmáticos (materializações: Katie King a Estela Livermore).

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            A Humanidade deve ao Espiritismo a sua carta de alforria espiritual, libertando-a do obscurantismo que a escravizava ao mais negregado e anti-progressivo materialismo, proclamado pela Ciência oficial.

            Quanto às Religiões dogmáticas, o Espiritismo libertou a Humanidade dos falsos conceitos do inferno, do antropomorfismo e do geocentrismo, da graça e da predestinação teológica.

            À luz do Espiritismo o homem pode desfraldar as asas do anjo que contém, em potência, no seu espírito divino, na sua alma imortal.

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            Anteriormente ao Espiritismo, toda a crença na alma humana era fundada numa titubeante e frágil fé passiva, rebaixado, por vezes, a um impiedoso e perverso fanatismo, donde promanavam as mais sangrentas e odiosas guerras religiosas, e onde se alicerçou a nefasta e desalmada lnquisição de tristíssima e arrepiante memória.

            Outras vezes, escondendo por detrás de sacristias e altares os mais sórdidos interesses temporais e monetários, através de burlescos ritualismos, de apologéticas mais que suspeitas, sem profundeza moral, sem elegância espiritual, orientados num aviltante e interesseiro pragmatismo, os chefes de tal crença contribuíram para a difusão do materialismo.

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            Foi neste sacrílego malabarismo de ciências e religiões, negando aprioristicamente ou deturpando o valor da alma humana e do seu Divino Criador, que se consumiram os últimos séculos, com manifesto e retumbante triunfo para o materialismo e ateísmo.

            A indiferença religiosa e a perversão moral daí provenientes são os fatores determinantes do estado calamitoso em que nos encontramos e os mais poderosos entraves para o aperfeiçoamento moral e para progresso espiritual da Humanidade.


Nótulas Espiritualistas XIX


Nótulas Espiritualistas - XIX
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB)  Agosto  1956

            Quanto mais estudamos, refletimos e meditamos,  melhor conhecemos a extensão da nossa ignorância.

            O sábio é o maior ignorante consciente.

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            O progresso é como o oceano no seu eterno fluxo e refluxo. Cada onda recua agora, para logo ir mais longe.

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            A Ciência dos homens é constituída sobre a matéria; a Sabedoria Divina é  tecida de Luz, de Espírito e de Amor.

            A ciência humana é efêmera, contingente e transitória, limitada e incongruente, - “o evidente de hoje pode ser o absurdo de amanhã” -; a Sabedoria Divina é infalível e eterna, onipotente e oniciente.

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            A ciência humana nem sequer produz um átomo; a Sabedoria Divina cria almas, gênios, santos, fazendo surgir Mundos e florir Universos.

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            A ciência aliada a Deus não tem incógnita sem solução.

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            Não há crime, por maior que seja, sem remissão.

            O Infinito Amor e Misericórdia de Deus dominam todos as misérias morais humanas, proporcionando-lhes, pelas redentoras Leis reencarnacionista e cármica, - o arrependimento, a regeneração espiritual e a reparação.

            É neste purificador cadinho que se volatilizam os crimes mais ascorosos, as traições mais repugnantes, as crueldades mais torturantes.

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            A prece feita pelos lábios, dos lábios não passa.  A do fonógrafo vai mais longe ainda desde que o aparelho seja de boa marca.

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            As lágrimas dum arrependimento profundo e sincero, por maior que seja o pecado cometido, cristalizam no Perdão Divino.

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            A responsabilidade moral é diretamente proporcional ao conhecimento do Bem e do Mal.

            O mesmo crime cometido por um civilizado e por um selvagem tem perante a Justiça imanente diversas sanções.

            Sejamos compassivos com os nossos irmãos mais atrasados.

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            O arrependimento, vibrando pelo coração e pela inteligência, com sinceridade, compreensão e humildade, é o melhor antídoto para as dolorosas torturas do remorso e um renovador impulso para a nossa evolução espiritual.

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            Da lama também Deus faz brotar as mais lindas e odoríferas flores.

            Madalena é uma estrela cintilante que subiu, da Terra aos Céus, nas benditas e redentoras asas do arrependimento e do amor.


Lisboa 1955

Nótulas Espiritualistas XVIII


Nótulas Espiritualistas - XVIII
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB) Julho  1956


            O Espiritismo - uma das mais fecundas e promissoras conquistas do pensamento contemporâneo no estudo experimental da alma humana - só pode ser devidamente compreendido e apreciado quando analisado no conjunto e interdependência das suas leis fundamentais.  Este critério tanto é aplicável à sua parte doutrinária, como à mediunidade, tal é a harmonia de lógica solidariedade e recíproca cooperação da sua orgânica e estruturas. Se o Espiritismo vale muito pelo seu estudo analítico e experimental, vale incomparavelmente mais no seu estudo sintético, na sua conclusiva filosofia inerente ao destino humano, base do seu comportamento individual, coletivo e sociológico.

            Até agora, sistema algum científico ou filosófico penetrou, mais íntima e profundamente nos mistérios da alma humana do que o Espiritismo, embora reconhecendo que existem ainda nesta transcendência e novel "ciência da alma humana" algumas equações a resolver e profundos mistérios a desvendar.

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            A análise é sempre superficial, perdendo-se numa infinidade de pormenores, decompondo e deformando o objetivo do conhecimento; enquanto que a síntese ganha em profundidade e em generalização.  É precisamente uma das características diferenciais entre a Ciência contemporânea, essencialmente analítica e por este motivo materialista e agnóstica, e a Sabedoria antiga, fundamentalmente sintética, orientada numa alta e nobre espiritualidade, conduzindo ao apogeu da glória as velhas civilizações orientais, desde as criptas do Himalaia aos hipogeus egípcios e oráculos gregos, assombros da moderna civilização, onde sábios, filósofos e artistas vão inspirar-se para novos cometimentos e inovações dentro da ciência e da filosofia mas obliterando o seu significado espiritual.

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            A nova falsa Civilização, sejam quais forem as maravilhosas descobertas e assombrosas inovações que tenha no seu ativo, dominando, talvez, a força mais portentosa do Universo, expressa na desintegração do átomo, não pode subsistir por carência espiritual.

            A nossa Humanidade atravessa a mais pavorosa crise moral que a História nos aponta.

            O materialismo, altar onde pontificam ciências, filosofias e literaturas - com raras exceções - com o seu perverso e satânico cortejo de vícios e paixões dissolutas, sem o mais leve respeito pelo decoro e dignidade humana, vai impelindo a desvairada Humanidade para um cataclismo abissal que tragará brutalmente a nossa Civilização cristã, duas vezes milenária.

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            Depois da falência imperdoável das Religiões sacrificando, de longa data, o espiritual ao temporal, devemos reconhecer que só o Neo-espiritualismo poderá opor rigoroso dique à derrocada e ao descalabro moral que invadem todas as classes sociais, quer no Ocidente, quer no Oriente.

            Só o Neo-espiritualismo poderá salvar a Humanidade oferecendo-lhe uma norma espiritual que lhe esclareça o entendimento, seu sentido científico e experimental, e santifique o sentimento pela fraternidade cristã, comprovando-lhe que todos temos a mesma origem e finalidade divinas.

            À mentalidade satânica e descrente que domina e perverte a Humanidade através dos seus refalsados e astuciosos mentores, desde os materialistas aos comunistas, devem os neo-espiritualistas fazer convergir todas as suas forças para que se restabeleça com a devida Luz e Verdade, em toda a parte, uma  mentalidade neo-espiritualista, demonstrando a unidade pela fraternidade,  tecida de Amor, Perdão e Caridade - a luminosa trilogia cristã - e fazendo salientar o alto significado das Leis básicas do Espiritismo - Evolução, Reencarnacionismo e Carma - para a compreensão do destino humano, e daí deduzirem o melhor comportamento individual e coletivo, baseado no finalismo humano, ultrapassando  espaço e o tempo.

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            Dentro das estruturas do Espiritismo, um dos fatores determinante da regeneração social é, com toda a evidência,  o pleno conhecimento do mecanismo da grandiosa, magnânima e providencial Lei da Evolução (morfológica e espiritual), emanando da Vida infinita e eterna, "alma-mater" de todos os progressos, no seu sentido mais lato, pela dinamização, devido ao nosso esforço próprio, das virtualidades divinas potencializadas na alma humana.

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            A Ciência, na sua miopia espiritual, que tão prejudicial tem sido para a Humanidade, só estuda a parte mais grosseira e material da evolução - a parte morfológica; o Espiritismo estuda a Lei da evolução no seu ponto de vista espiritual, e no seu transcendente mecanismo, tendo por lei de apoio - a Lei reencarnacionista ou das vidas sucessivas - e por lei diretriz - a Lei Cármica. O Carma é o idealíssimo executor da Justiça lmanente: - "pagarás até o último ceitil". É uma lei digna de profundas e repetidas meditações no seu transcendente mecanismo e complexidade. O seu conhecimento evitará muitos desânimos e revoltas.

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            Como dissemos,  a Evolução no seu significado integral apresenta um duplo aspecto: espiritual e morfológico, abrangendo a parte material da forma.

            No seu primeiro aspecto - o espiritual -, a Evolução atua numa linha continua e progressiva através da alma, desafiando o infinito e a eternidade; enquanto que a Evolução, no seu segundo aspecto - morfológico e material - atua numa linha descontinua, limitada à forma e à transformação das espécies, efêmeras e transitórias, limitadas no tempo e no espaço.

            A primeira, de essência espiritual, penetra no Absoluto; a segunda mergulha na matéria. Por este motivo, a primeira age no infinito do espaço e na eternidade do tempo; enquanto que a segunda é limitada no espaço e no tempo, ainda que subsidiária da primeira, seu instrumento de trabalho, para os Mundos terrestres e materiais.

            Neste formidável e incoercível rotativismo evolucionante, alternando de Mundo para Mundo, abrangendo Universos e Humanidades, a matéria tende a eterizar-se ao impulso providencial do espírito, como comprova a radioatividade.

            No ponto de vista humano, tanto o espírito como a matéria são solidários no seu evolucionismo, e a matéria subsistirá até que a alma humana atinja a divindade,  como é o seu destino último pela sua origem e finalidade expressas na mônada divina.

            O Homem é um deus em potência. Todas as dores e sofrimentos se diluem neste fim glorioso e triunfante.


            Mas o homem tem de conquistar a sua Divindade pelo seu esforço próprio, dinamizando, pela inteligência e pelo Amor, pelo sacrifício e pela renúncia os germes divinos contidos no seu Cristo interior. 

Lisboa 1955

Nótulas Espiritualistas XII


Nótulas Espiritualistas - XVII
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB)  Abril  1956


            A pureza de sentimentos e de ação na prática fervorosa e ardente do Bem-geral, expressos nos Evangelhos, é a fórmula ideal da Beleza espiritual. Marca o triunfo e domínio da Vida sobre a forma; da Consciência sobre o atavismo animal; do Espírito sobre a ganga material, representada pelo corpo somático, transformado agora num instrumento dócil e flexível.

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            Da plena florescência das virtudes cristãs surge a almejada Intuição que supera as inteligências mais lúcidas e brilhantes para a resolução das grandes incógnitas da Vida e do Espírito, inerentes à Biologia e ao Psiquismo humano.

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            A Intuição espiritual, tantas vezes deformada e confundida dentro do problema do conhecimento, só é apanágio do Homem superiormente evolucionado, a finalizar o seu estágio terrestre, prestes a ascender ao batismo da Luz incriada - ao despertar do seu Cristo interior.

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            No estado atual do nosso temeroso atraso moral, mal sabemos distinguir o Bem do Mal, o Justo do Injusto, a Virtude do Vício, no turbilhão envolvente das nossas perniciosas paixões egocêntricas dum individualismo irredutível, impregnado de autolatria.

            No entanto, temos, todos nós, um grande amigo e conselheiro infalível dentro do homem interior, graças à Providência divina.

            O Espírito, oculto por detrás da forma grosseira e opaca do seu invólucro e instrumento terrestre, é o supremo conselheiro e orientador de toda a atividade psíquica à voz e comando da Consciência moral. O essencial é saber consultá-la, ouvi-la e seguir o seu sábio conselho em todos os transes da Vida, por mais amargurados e angustiosos que sejam.

            O método é simples no tempo e no espaço: meditação e prece.

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            O renascimento para a vida terrestre, através da pluralidade das existências, das vidas sucessivas (Palingenesia), é incomparavelmente mais difícil, doloroso e demorado do que a morte, fonte-germinal dum novo renascimento astral.
Por outro lado, a evolução moral terrestre, pelos obstáculos que enfrenta para a reparação cármica resultantes das vidas pregressas anteriores, tem uma importância muitíssimo superior aos progressos que se podem obter no Mundo Astral. Há mesmo contas cármicas morais e materiais que só se podem liquidar nas existências terrestres. Donde se conclui a tremenda responsabilidade das reencarnações planetárias, e extremo cuidado e vigilância que devemos ter com todo o nosso comportamento terrestre onde as ruins tentações são sem conta. Donde deriva o indeclinável dever de defesa e de progresso das consultas amiudadas com a nossa indefectível Consciência-moral, porta-voz da nossa alma divina, do nosso espírito imortal.

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            Só um coração puro, animado do melhor desejo de seguir a Jesus, nosso Redentor e Salvador, vendo em cada criatura um irmão pela mesma origem e finalidade divinas, pode receber através da prece, a Lei das afinidades psíquicas, a Luz e os eflúvios confortativos que descendem das Hierarquias angélicas, para tonificar e impulsionar o esforço redentor e reparador de todos aqueles que saibam sacrificar-se mais pelos outros de que por si próprios.

            Agora e sempre o mandamento de Jesus "amar o próximo como a nós próprios".

Lisboa, 1955.

 Do Blog: Os artigos de número XIV, XV e XVI não foram encontrados nas anteriores edições de 'Reformador'.