Translate

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Oração da Migalha

Oração
da Migalha

Senhor,
            Quando alguém estiver em oração, referindo-se à caridade, faze que esse alguém me recorde, para que eu consiga igualmente ajudar em teu nome.
            Quantas criaturas me fitam, indiferentes, e quantas me abandonam por lixo imprestável!...
            Dizem que sou moeda insignificante, sem utilidade para ninguém; contudo, desejo transformar-me na gota de remédio para a criança doente. Atiram-me à distância, quando surjo na forma de pedaço de pão que sobra à mesa; no entanto, aspiro  fazer, ainda, a alegria dos que choram de fome. Muita gente considera que sou trapo velho para o esfregão, mas anseio agasalhar os que atravessam a noite, de pele ao vento... Outros alegam que sou resto de prato para a calha do esgoto, mas, encontrando mãos fraternas que me auxiliem, posso converter-me na sopa generosa, para alimento e consolo dos que jazem sozinhos, no catre do infortúnio, refletindo na morte.
            Afirmam que sou apenas migalha e, por isso, me desprezam... Talvez não saibam que, certa vez, quando quiseste falar em amor, narraste a história da dracma perdida e, reportando-te ao reino de Deus, tomaste uma semente de mostarda por base de teus ensinos.
            Faze, Senhor, que os homens me aproveitem nas obras do bem eterno!... E, para que me compreendam a capacidade de trabalhar, dize-lhes que, um dia, estivemos juntos, em Jerusalém, no templo de Salomão, entre a riqueza dos poderosos e as jóias faiscantes do santuário, e conta-lhes que me viste e me abençoaste, nos dedos mirrados de pobre viúva, na feição de um vintém.
                        Meimei
 por Chico Xavier

Reformador (FEB)   pág. 89  em  Abril de 1961

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Estudos Bíblicos


Estudos Bíblicos
Almerindo Martins de Castro
Reformador (FEB) Janeiro 1940

Tema:  Renascimento e Reencarnação

Disse Jesus a Nicodemos: "Em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo não pode ver o reino de Deus." Perguntou Nicodemos: "Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, entrar novamente no ventre de sua mãe?" Respondeu Jesus; "Em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espirito. Não te maravilhes de eu te dizer: É-vos necessário nascer de novo. O Espirito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do Espírito." - Como pode ser isso? perguntou Nicodemos, Respondeu Jesus: "Tu és mestre em Israel e não entendes estas coisas?" (João, III, 1-10.)

A estranheza de Jesus estava em que Nicodemos não devia ignorar o sentido das palavras de que Ele, o Cristo, usava. Segundo as crenças transmitidas nas Escrituras Sagradas, sabia-se que o Espírito (sopro divino dado às criaturas) era imortal, imperecível. Não era, pois, natural que Nicodemos, grande entre os Fariseus, se admirasse de poder um Espírito voltar à Terra, nascendo de novo por um corpo-carne, Visto que este constitui o veículo do Espírito, como está demonstrado em João I, 14, onde se diz: "O verbo se fez CARNE (tomou a forma corpórea) e habitou entre nós." Segundo também essas crenças e conhecimentos, que vinham de tempos imemoriais, quatro eram os elementos que dominavam no mundo e resumiam as fontes da vida e das transformações de todas as coisas vivas: ÁGUA, TERRA, FOGO e AR. '

A ÁGUA, por essas noções, era o princípio gerador de todos os seres, fonte originária dos corpos vivos. Tal se encontra na Gênese (I, 1, 2, 6, 7, 20 e 21): "No princípio criou Deus o céu e a terra e o espírito de Deus era levado sobre AS ÁGUAS. E disse Deus: Faça-se o firmamento e dividiu as águas que estavam por baixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. Disse também Deus: Produzam AS ÁGUAS répteis de alma vivente e aves que voem sobre a terra. Criou Deus os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, os quais FORAM: PRODUZIDOS PELAS ÁGUAS, cada um segundo suas espécies."

Por isso, Jesus disse que era preciso nascer de novo da ÁGUA e do Espírito, considerando a água como o elemento gerador de todo corpo "que tem vida e movimento", e do Espírito (porque este não pode vir das ÁGUAS, mas de Deus, CUJO ESPÍRITO PAIRA SOBRE AS AGUAS), o que tudo significa, em resumo que o ESPIRITO (oriundo de Deus e Fonte Suprema) nasce de novo - tomando DAS ÁGUAS um corpo que tem vida e movimento.

E esse foi o ensinamento que Jesus transmitiu aos Apóstolos e estes pregaram sem restrições, como se vê da 1ª Epístola de João, cap. V, onde está afirmado que o Cristo "veio com ÁGUA e com o sangue; não com a água tão somente, senão com a água e com o sangue. E o ESPÍRITO é que dá testemunho de que o Cristo é a verdade."

Sabendo-se que o SANGUE era o símbolo da Vida animal, o ensinamento se completa nesse mesmo trecho, quando o Apóstolo diz, no vers. 8: "Três são os que dão testemunho na Terra: o ESPÍRITO e a ÁGUA e o SANGUE; e estes três SÃO UMA MESMA COISA."

E quem nos confirma que esse ensinamento foi dado a todos os Apóstolos, isto é, que SANGUE é símbolo ou sinônimo de VIDA, é aquela passagem de Atos (XVIII, 26): Deus de um sangue fez todo o gênero humano."

Muitos outros ensinamentos complementares confirmam e ilustram essa doutrina, pela qual o Mestre quis esboçar a finalidade do Espírito no caminho da perfeição.

Diz a 1ª Epístola aos Coríntios, VI, 19: "Acaso não sabeis que os vossos corpos são templo do Espírito Santo QUE HABITA EM VÓS, o qual tendes por VO-LO HAVER DADO DEUS e que não sois mais de vós mesmos?"

E, para que não houvesse dúvida, explica no cap. XV, 39 a 49, que não se deve confundir a forma corpórea terrestre, com a forma do Espírito, porque "corpos há celestes e corpos terrestres". O Espírito é semeado em corpo corruptível, mas ressurge em corpo incorruptível, pois, "se há corpo animal, também o há espiritual"; Deus fez primeiro o animal e depois o espiritual.

Que concluir de tais ensinamentos? Que os Espíritos, desconhecedores ou adversos da Verdade, que está no Evangelho do Cristo, precisam voltar á Terra. Porque? Porque a lei que será aplicada a todas as criaturas, diz assim: A cada um se paga segundo as suas obras (Mat., XVI, 27).

Mas, os Espíritos não têm, pelas religiões, apenas a salvação eterna ou a condenação eterna? Não, porque Jesus disse estas palavras (João, VIII, 58): "Em verdade, em verdade vos digo, que se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente."

Como explicar que, guardando a palavra do Cristo, a criatura não tem - morte eterna e sim transitória? Será por estar ensinado que Deus não quer o perecimento do pecador, mas o seu arrependimento e a sua salvação, em qualquer tempo?

Já no Velho Testamento havia esta promessa de Deus, em favor do pecaminoso (Jó, XXXIII, 23-24): "Se houver algum anjo (Espírito) , um entre milhares, que fale a seu favor, e instrua o homem no seu dever, se compadecerá dele e dirá: Livra-o, para que não desça à corrução; eu achei por lhe fazer graça." E como podiam os anjos (Espíritos puros) descer até as criaturas, uma vez que as religiões isolam o Céu da Terra?

A explicação de que Deus fala às criaturas (de certo por intermédio desses anjos) está nesse mesmo capitulo, vers. 15 – 16: "Por sonho de visão noturna, quando cai sono sobre os homens, e estão dormindo no seu leito; então abre os ouvidos dos homens e, admoestando-os, lhes adverte o que devem fazer."

Mas, os anjos terão a sua ação limitada à vida terrena da criatura, ou Deus consente que protejam o pecador e por ele peçam, mesmo depois que o Espírito deixa o corpo carnal? Quem poderá fazer a restrição, uma vez que tal limite não está nas Sagradas Escrituras? É certo que a Escritura diz (Hebr. IX, 27 - 28; X, 26 - 27): "Assim como está decretado que o homem morra só uma vez, seguindo-se o juízo - assim só passa pelo horror do sofrimento o que pecou voluntariamente, depois de haver conhecido a verdade."

Esta morte é a do pecado, a morte espiritual. O que peca morre espiritualmente, porque decai da condição em que foi criado, contrai culpa e, por isso, fica sujeito à reparação, diante da lei do Juízo Supremo, conforme disse o Cristo, figuradamente, em Mat., V, 25 - 26: "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juízo e o juízo te entregue ao oficial e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali, enquanto não pagares o ultimo ceitil."

Deus não cria Espíritos culpados; nós é que adquirimos um inimigo e nos tornamos adversários - no caminho a percorrer - da Lei fraudada, o que nos conduz à prisão do pecado, onde há sofrimento para o Espírito, "fogo e ranger de dentes". E vamos a essa prisão pelo esquecimento da Palavra de Deus, ensinada desde Moisés. Mas, mesmo no cárcere do sofrimento, a nossa vida prossegue e os Espíritos se avistam e recebem ensinamentos, conhecem em plenitude suas culpas, aprendem a necessidade de reparar os crimes praticados contra a Lei de Deus, percebem a diferença entre os que já sofreram e os que vivem esquecidos dos Mandamentos, mergulhados no egoísmo dos prazeres materiais - o que está comprovado na parábola do rico e do lázaro (Lucas, XIV, 19 - 31 .) O rico, sepultado no Hades (lugar inferior), viu a Lázaro e Abraão e ouviu a voz deste, apesar da distância, o que significa que os Espíritos se falam do "céu para o inferno", e Deus o permite.

E porque Jesus não podia ter dito apenas uma fantasia ou uma calva mentira, aí se compreende que os Espíritos culpados não podem passar - diretamente - da região dos pecaminosos para as moradas superiores, sem pagar o último ceitil das suas dívidas de culpa, enquanto não conhecerem, aceitarem e cumprirem o Evangelho, por isso que o Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Os que não aceitam a doutrina, nem a praticam, são iguais aos que não ouviram a palavra de Moisés: a esses não adianta que os Espíritos lhes falem, porque - a Salvação não vem por acreditar na pessoa do Cristo, mas por praticar a doutrina, seguir-lhe os exemplos da vida que viveu -- para nosso modelo e legado.

            "Aquele que fizer a vontade de Deus (cumprir a Lei)" esse é minha irmã, minha mãe, meu irmão", disse Jesus (Mat. XII, 50).

Assim é que foi ensinado nestas passagens do Novo Testamento: "Morreu o Cristo por nós; pois, muito mais agora que somos justificados pelo sangue (Rom. V, 9); "o sangue do Cristo limpará a nossa consciência das obras da morte (Hebr. IX, 14). Nesses trechos e, mais, na 1ª Epístola de João (I, 7) onde se dia: "o Sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado" - a expressão Sangue do Cristo significa sua obediência até à morte; elucidação adotada por eminentes exegetas.

Aí está, pois, o fundamento da Lei da Salvação, pela perfeição da vida, dentro dessa Lei exemplificada e vivida por Jesus.

E se a criatura só lhe for possível conhecer o Evangelho, a Lei, nas derradeiras horas, sem tempo para reconciliar-se - enquanto no caminho - ficará por isso fora do caminho de que falava Jesus? "

Como reencetar o caminho, em busca da verdade, para conquistar verdadeira vida? Voltando ao - caminho; nascendo de NOVO da ÁGUA e do ESPÍRITO.

É o que decorre dos ensinamentos bíblicos sobre a reencarnação.  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Histórias erradas


Histórias erradas
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Janeiro 1943

O honrado padre Zioni, no livro que vimos comentando, precede as suas considerações com a "história do espiritismo moderno".

Nessa história aparece o caso das irmãs Fox, que S. R. relata com muitas omissões e várias interpolações. Não se esquece das fraudes que elas "confessaram", e depois retrataram, "da negação do indigitado criminoso", "da ausência de provas, no que toca às afirmativas do morto que se manifestava", e, finalmente, "do estado miserável em que acabaram essas médiuns".

Todo esse material achou-o o digno escritor em vários outros padres, onde sobressaem o padre Valério e o padre Lacroix.

Reservo-me para voltar ao assunto num livro que estou principiando a escrever em resposta ao padre Lacroix, livro no qual o seu colega Zioni foi inspirar-se grandemente para a valiosa digressão histórica.

Não posso, porém, fugir à freima em que me acho, de tocar desde já em dois pontos dos feridos pelo escritor. Diz S. R.:

"Desta maneira veio a saber-se que o tal espírito era a alma de Carlos Ryan assassinado naquela casa em tempos idos e enterrado na dispensa. Divulgado o nome do assassino, esse apareceu perante a Justiça defendendo-se da calúnia que lhe fora
imputada. A polícia promoveu rigorosa investigação em todos os cômodos e não conseguiu descobrir os ossos do suposto Carlos Ryan, nem vestígio algum do crime cometido, donde se concluiu que a história do assassinato era uma fábula."

O que é uma fábula é isto que o padre Zioni está contando. É falso que não se tivesse encontrado vestígio de algum crime. Veremos isto, conforme prometi, e verá desde já quem folhear alguns livros onde se conta esta história mais bem contada.

O que não podemos deixar passar sem reparos, no momento, são dois fatos, para o reverendo Zioni, de grande valor probante, ou improbante.

O primeiro é o de não se terem achado ossos nos aposentos. Havia de ser interessante que o assassino guardasse o cadáver nos cômodos da casa. E ele ali ficasse até reduzir-se a ossos, sem que ninguém desse por isto, sem que se soubesse nada. Um pouco mais, seria de espantar que o matador não pregasse uma tabuleta na porta com estes sensacionais dizeres: - Venham todos com urgência, aqui dentro há um defunto.

O segundo caso é ter o assassino negado a autoria do crime. É fulminante! O curial seria que ele chegasse e fosse logo confessando que perpetrara o crime, e pedisse, até, que o metessem rapidamente na cadeia.

Se tal não se deu, está claro que não houve o homicídio; a fábula fica patente! É a lógica do reverendo, que vem modificar de fond en comble (para baixo) o capítulo das provas em matéria penal.

Maiores reparos, porém, nos estão a merecer as considerações do reverendo, no que toca à maneira miserável por que morreram as irmãs Fox.

Leiamo-las:

"Cinco anos mais tarde morreram estas duas pobres irmãs... numa verdadeira ruína mental e física ..." ( O grifo é meu).
“Só tinham apetite para os licores Intoxicantes. Morreram, assim, num estado de embriaguez, de sensualidade, de degenerescência moral, sob todas as formas.”(Pag. 19).

Esta descrição desanimadora foi buscá-la o reverendo em dois formidáveis esteios - o padre Lacroix e o padre Lucien Roure. Aquele inspirou-se nuns jornais ou revistas.

Deixemos de parte a miserabilidade daquelas criaturas, com a sua embriaguez, sensualidade e degenerescência - o que tanto penalizou o padre Zioni - e nos firmemos em sua conclusão, ou na ilação que ele tirou dali:

"Não obstante origem tão vergonhosa, o Espiritismo conseguiu vencer, em parte, a reação geral contra os embustes que ele explorava e apresentar-se ao mundo com a máscara de Ciência e Religião, mercê dos esforços titânicos dos seus codificadores." (Pag. 19).

Como se vê, para o padre Zioni, a origem do Espiritismo foram os fenômenos produzidos pelas irmãs Fox. Mas fenômenos sempre os houve. O ilustre padre, mesmo, parece conhece-los, visto que deles relata uma batelada no seu capitulo - Fundamento histórico do Espiritismo.

Fala na antiga magia, em persas, babilônios, etruscos, egípcios, gregos e romanos.

Acrescenta: "todos esses povos da antiguidade pagã comunicavam-se com os mortos e espíritos." Declara, ainda, que disto nos dão testemunho os historiadores e filósofos mais antigos. E cita 14 nomes.

Menciona, particularmente, as frequentes relações de Apio com os mortos, as evocações de Tibério, a queima de livros mágicos...

Reporta-se à Escritura, à alma de Samuel, à filosofia alexandrina, a Tertuliano, a Lactâncio, a Hilário, a Eusébio, a Gregório...

Vem pela Idade Média afora, e, diante de tudo isto, não acha estranhável "o orgulho com que os espíritas proclamavam e alardeiam, ainda em nossos dias os seus progressos sempre crescentes. "

Se o fundamento histórico do Espiritismo assenta nesse imponente acervo de fatos; se eles vêm já dos povos da antiguidade pagã, se a eles se referiram, em todos os tempos, historiadores e filósofos, e se eles servem de orgulho aos espíritas, que proclamavam, então, os seus progressos sempre crescentes, e ainda hoje o alardeiam, como poderia ter sido o Espiritismo iniciado pelos fenômenos das irmãs Fox e se haver conspurcado nessa origem vergonhosa?

Mais uma vez se atrapalha o reverendo nas suas ilações. Ora é o Espiritismo que começa com as Fox, ora o fundamento do Espiritismo surge com os povos da antiguidade.

Já existia a comunicação dos mortos com persas, babilônios, etruscos, romanos, mas a comunicabilidade dos mortos com as irmãs Fox é que deu "a vergonhosa origem do Espiritismo."

Não param as contradições do eminente professor, sem mesmo sair das malsinadas médiuns.

O esforço por mostrar que tais fenômenos foram fraudulentos é imenso por parte de Sua Reverendíssima.

"Não houve vestígio do crime... A história era uma fábula... Umas tantas profecias não se realizaram... Uma das Fox confessou a falsidade dos fenômenos... Numa entrevista, Margarida Fox se lembrou de declarar que ela e Katie tinham sido vítimas da esperteza da irmã mais velha e da idiotice da mãe... Catarina confirmou esta confissão... Finalmente, o Espiritismo explorava estes embustes..."

Mas ao mesmo tempo, o reverendo parece em dúvida sobre se os fatos existiram ou não, porque fala na retificação das médiuns, que se retrataram da afirmativa de fraude; diz, então: "Ou juraram falso da 1ª vez, para afirmar uma mentira, ou da 2ª, para retificar." Por maneira que ele não sabe bem.

Para reforçar-lhe a dúvida e aumentar a nossa perplexidade, transcreve o padre Thurston, com quem se diria estar de acordo:

"De tais contradições das irmãs Fox, o Padre Thurston S. J. conclui:

1) ................................
2) quando atribuíram tudo a uma fraude interessada e consciente, ainda mentiram, porquanto algumas vezes houve nas sessões intervenção de espíritos."

Assegurando que as Fox, ou mentiram, quando falavam em fraude, ou mentiram quando se retrataram; citando Thurston, quando afirma que algumas vezes houve intervenção de espíritos; referindo-se aos fenômenos congêneres que existiram por toda a antiguidade e de que dão testemunho historiadores e filósofos, é claro que o reverendo Zioni acha aceitável ou possível a manifestação mediúnica das Fox.

A que viriam, então, as suas páginas sobre fraudes e embustes, "que o Espiritismo explorava"?

Se não houve embustes nem fraudes, o Espiritismo não explorou coisa nenhuma, e a assertiva do professor do Seminário não é exata, entretanto que a palavra de um padre, e, sobretudo, padre mestre, deveria ser de inabalável segurança. Colocou-se, ainda, S. R., numa posição ambígua, talvez de grandes efeitos táticos, mas prejudicial à firmeza de um estudo. Porque, afinal, não sabemos em que pé ficou. Se quisermos demonstrar que não houve fraude nenhuma, - como o iremos fazer, - sai-se S. R. com as suas dúvidas ou com o padre Thurston, ou com a realidade dos fenômenos, que ele nunca negou e que já vinham de persas, babilônios, etruscos, romanos...

Se pedirmos o testemunho de S. R. para roborar a autenticidade dos fatos, ele nos apresentará as fraudes e os embustes "que o Espiritismo explorou."

Fica assim armado para o que elas derem. Posição é essa de equilíbrio instável, provavelmente digna de aplausos num circo, mas, inegavelmente, pouco elogiável na cátedra.

Uma dedução categórica, porém, ele estabelece: - Que as Fox foram "tristes iniciadoras de uma religião nova; que, por isto, os espiritistas não as querem por madrinhas, e que foi nessa fonte vergonhosa que teve origem o Espiritismo. "

Para os incultos a tirada é esplêndida. Os menos incientes sabem, porém, que a mediunidade é um dom, que se pode dizer de ordem fisiológica, e, consequentemente, poderá recair em qualquer pessoa, sem procurar certificados de boa conduta; que, conforme dizem os próprios Espíritos, o médium pode empunhar uma pena ou uma faca, que há médiuns de alta inspiração e médiuns obsessos; que, na produção de efeitos físicos, não só é desnecessária a elevação espiritual do médium, como nem sempre será dos mais adiantados o Espírito produtor dos fenômenos; que não podiam ser madrinhas do Espiritismo ou fontes dele aquelas produtoras de fenômenos, desde que os ditos já existiam de todos os tempos; que a verdadeira origem do Espiritismo data de sua codificação; que as mensagens de grande pulcritude, notáveis pelos seus ensinos, é que exigem, assim um aparelho físico especial, como uma organização moral privilegiada.

Pelos vistos, quer na sua dubiedade, quer nas suas asserções, errou o eminente padre. Os seus equívocos são em toda a linha.


E de tudo se percebe que, nem mesmo forçando as premissas, acertou nas conclusões. 

Coisas que não sabíamos


Coisas que não sabíamos
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Junho 1943

Não há dúvida de que o livro do padre Zioni foi um prestimoso trabalho, que não só veio ensinar muitas coisas aos seminaristas do Ipiranga como a nós mesmos, espiritistas.

Assim é que ele esclarece:

"Bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo. (Todos os grifos são do reverendo). A filosofia espiritualista crê na existência de um Deus todo poderoso, Criador e Providência do mundo, pessoal e absolutamente distinto de suas obras. O Espiritismo identifica o efeito com a causa. Deus com o mundo!"

E nós, espiritistas, a crer o contrário, visto que “bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo”. E nós, espiritistas, a crer que Deus não é poderoso, nem é Criador, nem é providência do mundo, nem é distinto de suas obras, e é impessoal. Pensamos, além de tudo, que efeito e causa, Deus e o mundo é tudo a mesma coisa.

(“O Espiritismo identifica o efeito com a causa.”)

“Nós, espiritistas, cremos nisto, disse-o o padre Zioni aos seus alunos e proclamou-o à face do Brasil, no seu famoso livro.

Bem é que nos viesse agora iluminar o entendimento, porque nós criamos que acreditávamos justamente no contrário do que afirma o padre que nós cremos.

Mas, quem nos enganou foi o Kardec. Diz ele, logo na 1ª linha, do 1º capítulo, como 1ª resposta dos Espíritos no Livro dos Espíritos: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Por isso não esperávamos. O Kardec a dizer que Deus é a suprema causa e a suprema inteligência, nós a crermos que era nisso que acreditávamos! Supúnhamos até hoje que tínhamos Deus como Criador, visto que é causa primária, e como causa não se podia confundir com o efeito, que é a sua obra, e como Inteligência Suprema é o todo poderoso ...

Nada! No que acreditamos quem o sabe, quem o diz, quem o ensina é o padre Zioni.

Ainda nos engana e atrapalha Allan Kardec, quando estabelece no nº 13, Livro dos Espíritos, que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
           
Mas que patranha!            

Dir-se-ia que isto é que é o ensino dos Espíritos, o que proclama o Espiritismo, aquilo em que cremos. Lá está que Deus é único, imutável, onipotente ...

Mas não importa. A verdade vive palpitando pela pena do reverendo: "São bem claras as diferenças." O Espiritualismo, de que ele é representante, crê num Deus poderoso, criador, pessoal, distinto de suas obras ...

Cá conosco é o contrário - cremos no oposto - o Kardec é p’ros tolos. E se não é a providencial interferência do padre. Iríamos por aí afora naquele engano d’alma.

No capítulo Panteísmo, Kardec para reforçar o engodo em que vivíamos, declara que Deus é um ser distinto, porque, se fosse a resultante de todas as forças e de todas as inteligências, não existiria, porquanto seria efeito e não causa. (LE, nº 14).

            Mas não é isso que cremos, di-lo o padre Zioni – nunca é demais repetir – em respeitável obra, que corre o Brasil inteiro, explicando o que é a infausta doutrina do Espiritismo. E entre o padre Zioni e o Kardec... “tollitur quaestio” (a questão é resolvida).

Outro esclarecimento e outra coisa que não sabíamos:

"O Espiritismo pretende possuir todos os segredos da natureza e julga-se capaz de explicar todos os mistérios."

Ainda aí, que ilusão a nossa! ...

Pensávamos, nós os espiritistas, que esbarrávamos em todas as causas primárias. Não há tal. O Espiritismo sabe tudo, explica todos os mistérios ou pretende isto.

Sabe de onde veio Deus, como é que veio, como é que se formou, onde acaba o Infinito, isto sem já falar em coisas mais próximas: - porque a água se solidifica a 0 grau, porque o mercúrio é liquido à temperatura normal e o ouro é solido, porque uns metais são duros e outros moles, porque há corpos que emitem irradiações, porque o ferro se magnetiza, porque as pontas atraem os raios e não as bolas, porque o coelho é manso e o tigre é bravo, porque a barriga das pernas está atrás, quando devia estar na frente para proteger as tíbias, porque os dentes só nascem duas vezes e as unhas crescem indefinidamente, porque... etc., etc.... etc...

Nós sabíamos tudo isto! Há muita gente que supõe saber o que não sabe. Em Espiritismo a cantiga é outra: - não sabemos o que sabemos! Desta vez, obrigado, padre!
Mais coisas que não sabíamos:

"O Espiritismo repousa nesta comunicação com os desencarnados e estabelece como base essencial a crença na sobrevivência dos espíritos e sua comunicação com os vivos, seja qual for a explicação, porquanto a filosofia espírita consiste em comparar todas as filosofias, já existentes, com a revelação espirita. "

Ah! consiste nisto?

Aí têm o que é a filosofia espírita - é uma comparação com todas as filosofias existentes.

Quem faz a revelação é o Arnauné, que eu não sei quem é; mas quem a endossa é o reverendo.

O trecho está claro como azeite: - a base do Espiritismo é a crença na sobrevivência, seja qual for a explicação.

E esta base é porque a filosofia espirita consiste em comparar a revelação espírita com as filosofias já existentes.

O Arnauné, com a aprovação, senão com a admiração de Zioni, levou a explicação aos maiores extremos: - a comparação é com as filosofias existentes. Não se fosse supor que se tratava de comparação com filosofias inexistentes.

E nós a crermos que a filosofia espírita versava sobre a origem, a dor, o destino dos homens!

Nada disso: - é uma comparação.

*

Não sabíamos, ainda, que Mateus, no capítulo XVIII, nº 17, se referia à Igreja Católica.

Elucida-nos, neste ponto, o padre Zioni:

"É pena que o Sr. Allan Kardec e seus discípulos nunca leram ou não querem ler na Sagrada Escritura os anátemas proferidos pejo mesmo nosso Senhor Jesus Cristo: - Aquele que não crer será condenado, porque já está julgado. Aquele que não ouve a Igreja (isto é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por ele fundada) esse tal deve ser reputado pagão ou publicano, isto é, apóstata, herege, excomungado ."

Apesar do muito que para mim vale a palavra do reverendo, fui dar uma espiadela em Mateus, e o que lá encontrei foi o seguinte:

"Se contra ti pecou o teu irmão, vai e o repreende, mas a sós com ele. Se te atender, te-lo-as ganhado, Se, porém, não te atender, faze-te acompanhar de uma ou duas pessoas, a fim de que tudo seja confirmado pela autoridade de duas ou três testemunhas. Se também não as atender, comunica-o à Igreja; e se também a Igreja não atender, trata-o como gentio e publicano." (Mateus, XVIII 35-17) .

Se meus olhos não me enganam, está diferente da citação do padre.

O que inferíamos do texto é que o Mestre, no seu amor às criaturas, nos ensinara a brandura, em vez de aconselhar-nos os anátemas, e, destarte, mandara que, quando tivéssemos de repreender ou censurar alguém, o fizéssemos em segredo, a sós com ele, com palavras persuasivas. Se ele nos não atendesse, buscássemos outros para reforçar nossos conselhos. Os espíritas pediriam o auxílio dos bons Espíritos. Não atendidos, ainda levariam o caso à Igreja, e a Igreja era a assembleia dos doutos, dos probos, era a Autoridade. No nosso caso seria a comunidade cristã.

O conselho do Divino Pastor visava - assim o supúnhamos - evitar a desonra do infrator, a publicidade do erro. Só em último caso, na impossibilidade da corrigenda, e corrigenda do pecado, seria considerado o pecador gentio e publicano, isto é, insuscetível de emenda, e, então, deixado à sua sorte, consequentemente ao desprezo público, como se ele fora publicano ou gentio.

Mas o padre ajeitou os textos. Em boa hora, porque ficamos sabendo assim que, se um chinês não ouvir a outro chinês, tem que rumar ambos à Igreja Católica. Se um japonês não atender a outro japonês, está perdido, a menos que não consiga romper o bloqueio da esquadra britânica e forçar o canal de Suez, em caminho de Roma.

E então, antes da fundação da Verdadeira Igreja, a Católica? Era ficar esperando num ponto azul da Eternidade!

Não se compreende, nem se sabe como, mas está bonito.

Não para aí ou não parava a nossa ignorância. Leiamos mais um lanço esclarecedor do reverendo Zioni:

"O Espiritismo Moderno, filho legítimo do Individualismo, Liberalismo e Racionalismo Protestantes, é, em si mesmo, falacioso e enganador, Pretende ser uma verdadeira Ciência, Filosofia e Religião, quando, na realidade, não é mais do que uma
pseudo-revelação dos princípios subversivos da ordem e da moral, sob a roupagem santa e ideal da verdadeira caridade."

Está injurioso. Mas em se tratando de Espíritos, Espiritismo e Espiritistas, o padre não tem muita cerimônias. Já vimos isto.

Todo o livro é uma como arcada de contrabaixo, vibrada por mão de mestre. Profunda e vigorosa.

Ora no Espiritismo, o que se ensina é o Evangelho do Senhor Kardec lhe dedica um livro inteiro. Roustaing apresenta, transcreve, estuda, comenta, versículo por versículo. A doutrina roustainiana se cifra em todo o Evangelho do Divino Mestre. Onde está a imoralidade, a desordem?..

O Evangelho, filtrado pela boca do reverendo iluminado pelas chamas do Inferno, apavorante pelos anátemas, anti-fraterno pelo predomínio exclusivo de uma Igreja, vingativo pela eternidade das penas, obscuro pela insondabilidade dos mistérios, impenetrável pela proibição do exame, da investigação, é que é a fonte da ordem e da moral, onde nós devemos todos abeberar.

Mas o Espiritismo, que nos apresenta Jesus cheio de bondade e de amor, que ensina a remissão do pecado pelo esforço próprio, que pregoa a bondade do Criador pela salvação de todos, que nos dá como lei suprema a da Justiça, como princípio geral a Equidade, que não proíbe o Conhecimento, nem estiola a Razão, este, sim, é um obstáculo à ordem, é um empeço à moral.

Num ponto, porém, acordamos com o ilustrado sacerdote. Convimos em que há ali uma doutrina funesta - é o dai de graça.

Imoral, não há dúvida, porque vai de encontro à moral consuetudinária, à moral de todos os tempos e de todos os homens, com raras exceções. Anárquica, porque foge à ordem estabelecida, pelo menos à ordem econômica.

E o Espiritismo prega essa perigosa doutrina. Tem razão o padre: - "Princípio subversivo da ordem e da moral!". Acabamos por uma conciliação.




As perguntas de um Pastor


As perguntas de um Pastor
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Dezembro 1943


Um pastor protestante, em S. João da Boa Vista, S. Paulo, lança-nos 8 perguntas, que tem como irrespondíveis.

Elas vêm ao pé de um longo artigo, como tiro de misericórdia. É para matar de vez. E assim diz: "Finalizando, ofereço aos curiosos umas perguntinhas práticas que devem ser feitas aos chefes espíritas idôneos.”

Não sei se as perguntas se dirigem aos chefes espíritas idôneos ou aos curiosos. Como quer que seja, são pontos que merecem ventilados, e embora não me inculque curioso ou chefe espírita idôneo, vou tentar responder-lhes, tão certo é também parecer impolidez deixar sem resposta uma pergunta.

Lá vai a primeira:

"1. Porque no Livro dos Espíritos resposta 625, se diz que Jesus é o mais perfeito guia e modelo, e o espiritismo desprezou o Evangelho de Cristo, para elaborar um Evangelho segundo o Espiritismo?...

Quem disse, a não ser o pastor, que o Espiritismo desprezou o Evangelho do Cristo? E como desprezou? E porque desprezou? E onde desprezou?

Quando se declara - o Evangelho segundo S. Lucas, ou S. Marcos, ou S. Mateus, ou S. João, pretenderá alguém que o Evangelho do Cristo foi desprezado?

O Evangelho segundo João, Mateus, Marcos ou Lucas é o Evangelho do Cristo, que eles escreveram; o Evangelho segundo o Espiritismo é o Evangelho do Cristo que os Espíritos interpretaram.

Nem ao menos o Evangelho conforme os Espíritos se desvia, se aparta ou difere daqueles apresentados pelos evangelistas. Os Espíritos aceitaram o espírito do Evangelho, de modo absoluto, e a letra, com poucas divergências. Como, porém, a letra mata e o espírito vivifica, trataram de vivificar os ensinos do Senhor para que os não matasse a letra obscura, que os exegetas não compreenderam e que as seitas do Cristianismo mantêm, em risco de prejudicar todo o monumental edifício que o Mestre erigiu.

Assim, por exemplo, no Velho e no Novo Testamento se declara que o Criador quer a salvação do ímpio, a regeneração do pecador, a remissão do pecado, a reunião das ovelhas sob um só pastor.

Mas no texto sagrado se fala do fogo eterno. Logo daí inferiram a existência do inferno. E ficou o Pai, cheio de infinita bondade, a criar um instituto de infinito horror; e ficou o onisciente, o onipotente, desejando e prescrevendo umas tantas ordenanças que não se obedecem; e estabelecendo umas tantas leis que não se cumprem.

Por obviar a este disparate, os Espíritos trouxeram à terra os necessários esclarecimentos sobre o que podia ser o fogo eterno, ou seja o fogo da purificação, que não se apaga.

Destarte, foram varrendo as nuvens que obumbravam os horizontes da palavra divina, e daí O Evangelho segundo o Espiritismo. Mas os Evangelhos são os mesmos, é o mesmo espírito das lições de Jesus: são os textos, como no-los referem os seus discípulos.

Donde sairia, portanto, o desprezo do Evangelho? Cabe, agora, ao pastor, a vez de responder.

A segunda pergunta é esta:

"Porque Jesus admitiu sofrimento sem culpa numa existência anterior (Evang. S. João 9:1-8) e o Espiritismo dogmatiza que o sofrimento tem sua explicação nos mates cometidos numa existência anterior.

Por mais que lêssemos e examinássemos os versículos apontados, não vimos onde Jesus admite "sofrimento sem culpa numa existência anterior" .

Dir-se-ia que o ilustre inquiridor está escrevendo para quem não conhece as Escrituras ou não as pode adquirir.

O que o texto diz é o seguinte:

"E ao passar viu Jesus um homem, que era cego de nascença, seus filhos lhe perguntaram: Mestre, que pecado cometeu este homem ou cometeram seus pais, para que nascesse cego? Respondeu-lhes Jesus: Nem ele pecou nem pecaram seus pais: isto assim é para que nele se manifestem as obras do poder de Deus."         

Quem nega ali a existência do sofrimento anterior?

Os discípulos só se poderiam referir à época presente, visto que nada conheciam de vidas pretéritas. Jesus lhes respondeu conforme à pergunta que fizeram, isto é, que, naquela vida, nem ele nem o pai pecaram.

As obras do poder de Deus podem ser interpretadas de diversos modos, se é que foi precisamente assim que falou Jesus.

Penso eu que estas obras seriam o poder de sua justiça, que seguia o seu curso. Era a dívida contraída que se saldava; era o final da expiação, - e tínhamos, então, nele, paciente, verificadas as obras do Criador.

Essa interpretação tem a vantagem de satisfazer a razão; por ela poderemos compreender a equidade de Deus. Por isso é que os Espíritos vieram elucidar os Evangelhos. O que não se compreenderia é que o Onipotente lançasse um cego no mundo, e o fizesse sofrer, só para que, a folhas tantas, tivesse o inefável prazer de operar um milagre, e mostrar aos discípulos, embasbacados, o seu formidando poder.

Esse procedimento estaria, por certo, muito de acordo com as mentes enfatuadas e pueris dos tiranetes deste mundo. Não se ajustaria, porém, à excelsa magnitude do Pai da Criação,

Isto posto, vamos à terceira pergunta:

"3. Porque o Espiritismo ensina a caridade, se ela atrasa o processo de purificação, por diminuir o sofrimento do padecente?"

Permita S. R. que lhe faça outra pergunta:

A cartilha, por onde reza o eminente pastor, diz o seguinte:

"Pelo decreto de Deus e para a manifestação de sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna." (Confissão de Fé e os Catecismos da Igreja Presbiteriana).

E mais:

"Segundo o inescrutável conselho de sua própria vontade, pela qual ele concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, o resto dos homens, para louvor de sua gloriosa justiça, foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados."

Das Sagradas Escrituras, conforme as entende e traduz o douto pastor, transparece que Deus cega e endurece suas criaturas, recusa-lhes a graça pela qual poderiam ser iluminadas em seus entendimentos e movidas em seus corações; tira-Ihes, ainda, os dons que já possuíam e as expõem a objetos que lhes propiciam os pecados; entrega-as às próprias paixões, às tentações do mundo, ao poder de Satanás. E, assim, o Senhor, enquanto emprega meios para o abrandamento de uns, trata de endurecer outros.

Tudo isto parece curial e deve ser de uma grande justiça, diante do nosso digno contestante. Mas o que eu tinha a perguntar era o seguinte: Se os indivíduos estão previamente fadados para a vida eterna e para a morte eterna; se o que impera e dirige o mundo é o arbítrio divino, que emprega meios para o abrandamento de uns e o endurecimento de outros; se tudo está preordenado, predestinado, preestabelecido, que adianta o pastoreio do eminente contraditor?

"Deus, para sua própria glória, predestinou tudo que acontece, especialmente com referência aos anjos e aos homens."

E ainda "para patentear sua gloriosa graça escolheu alguns homens para a vida eterna e os meios para consegui-la, e deixou e predestinou os mais à desonra e à ira." (O Catecismo Maior).

Entretanto continua o Sr. pastor o santo apostolado de encaminhar as almas, de dirigir o rebanho, e, perseverante no magistério, não se lembrou de que perde o tempo, visto que a vontade divina é um imperativo contra o qual de nada valem os trabalhos, as canseiras, as lutas do preclaro escritor.

Porque, ainda, faz uso da tribuna e da pena, porque não esmorece no seu poder combativo, porque ataca implacavelmente o Espiritismo, se lhe não cabe mover um grão de areia contra a ordem estabelecida pela providência, pela previdência, pela presciência pela vontade imutável do Criador?..

E enquanto fica o digno ministro protestante de S. João da Boa Vista a refletir nestas perguntas, passo eu a responder às suas.

A prescrição do Pai é que façamos a caridade. O Cristo só indagará, quando tiver que colocar uns à direita e outros à esquerda, se eles deram de comer, de beber, de vestir...   Desse modo, o Espiritismo estabeleceu que fora da Caridade não há salvação.

Os indivíduos, a quem estão reservadas as provas, passarão por elas infalivelmente. Teremos que lhes assistir ao sofrimento, de braços cruzados, como acontece agora diante das desgraças que assolam o mundo. Parecem sob o ferro, o fogo, as inundações, pela fome, pelo frio, pela tortura; passam por todas as dores possíveis, os nossos pobres irmãos, nos quatro cantos da Terra. Que lhes podemos fazer? Não nos é permitido minorar-lhes o sofrimento, anda que o queiramos. Cumpre-se, portanto, a lei, sem os receios que afligem Sua Reverendíssima, - o de que se atrase o processos de purificação.

A nossa caridade será, em alguns dos casos, em pura perda. Se ela, porém, se perde em relação àquele que dela é objeto, não se perderá nunca para quem a pratica.

É esta a principal razão da caridade, pastor amigo. E aí tem elucidada a sua terceira pergunta. Veremos as outras.


As perguntas de um Pastor – parte 2
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Fevereiro 1944



Estamos na 4ª pergunta do muito digno reverendo Zaqueu de Melo, pastor de S. João             da Boa Vista, em S. Paulo:          .

4ª - Porque há tantas revelações de "Espíritos superiores", e o avanço da civilização não deve nada de importante a essas pretensas revelações?"

Dois profundos enganos mostra nesta simples pergunta o honrado pastor de S. João. O primeiro é o de supor que o avanço da civilização tenha que ser ditado pelas revelações dos "espíritos superiores"; e o segundo é de crer que nada de importante se deva a essas "pretensas revelações".

De maneira que a prova da imortalidade da alma que essas "pretensas revelações" nos trazem, não tem importância nenhuma para o escritor, nem a civilização lucra qualquer coisa com isto!

A convicção na vida do além túmulo, a certeza da sobrevivência que é, para alguns filósofos e mesmo para muitos cientistas, o maior problema de todos os tempos, a mais profunda e mais séria das cogitações que jamais passaram pelo espírito humano, isso cá para o pastor de S. João não vale nada, nada é para a civilização!

O Espiritismo procura, com a demonstração de uma outra vida, e com a filosofia que a acompanha, regenerar a humanidade, fazer-lhe ver as dores que os seus desregramentos acarretam, norteá-la para o bem, conduzi-la para a felicidade. Certo de que toda a causa má produzirá um mau efeito, convicto de que uma ação má produzirá fatal, inexoravelmente um mau resultado, o pecador procurará emendar-se. Pois isto, para o pastor, é uma ninharia. 

Até hoje o Sr. pastor não provou coisa nenhuma do que tem pregado, e entre as pregações se acham os dogmas da existência de Deus, da vida post mortem, da imortalidade do ser, e muitos outros. Estes princípios que ele ensina e outros que não ensina, mas que vêm trazer uma formidável revolução no mundo moral, não têm a menor parcela de importância para o Sr. pastor. Bagatelas! ...

*

Outro engano de S. R. - o de ver no Espiritismo, ou em suas revelações, meios de avanços para a civilização.

Se ele veio trazer uma reforma completa na parte espiritual, nada lhe compete -no que toca à material, a não ser num ou noutro ponto, a fim de chamar a atenção dos homens para as coisas transcendentais. 

Não demonstrarei esses pontos por não me prolongar demasiado.

Conhecesse o eminente presbiteriano um pouco da doutrina que combate, e não faria aquela pergunta, que é já por si uma prova de que, ignora o ensino dos Espíritos.

Ora, eles nos dizem que a Evolução é regida por leis que a ninguém é dado obstar. Ela tem o seu ritmo, que não pode ser modificado nem pelos humanos nem pelos Espíritos. Dentro daquelas leis, o progresso tem que ser feito, paulatinamente, e por nosso esforço. Só aos homens compete esse progresso; só deles depende. Se os Espíritos se intrometessem nisso, se estivesse a seu cargo o avanço da civilização, se as revelações fossem fautor desse avanço, lá se ia a Evolução, lá se iam as leis, e, na torrente, afogar-se-ia o próprio Espiritismo, que, com as ditas revelações desmentir-se-ia a si próprio.

Numa revista psíquica, já Ernesto Bozzano estudou esse caso, visto que são muitos que o desconhecem. E assim dizia o grande pensador:

A evolução não poderia certamente realizar-se se os espíritos dos defuntos se metessem indevidamente nos acontecimentos humanos, com o fim, evidentemente altruístico mas errôneo, de poupar aos vivos o trabalho de descobrimentos, conhecimentos científicos de toda a sorte. É claro que, se assim fosse, essa intervenção imprudente constituiria desastrosa calamidade para a evolução psíquica do gênero humano. Este, em lugar de progredir e elevar-se espiritualmente, não tardaria a estagnar-se e a degenerar, terminando numa raça reduzida a condições de idiotia e atrofia, em vista falta de exercício das faculdades superiores, faculdades que a natureza tinha concedido à espécie, sob a forma de germes divinos destinados a manifestar-se e evolver, graças à sólida disciplina que se liga à luta pela vida, sob todas as formas."

            "Bozzano, apresenta, ainda a respeito, várias mensagens célebres, colhidas entre as melhores que nos tem aparecido. Uma delas é a personalidade mediunímica Julia, recebida pelo notável vulto que foi William Stead; esclareceu Júlia:

“É me facultado predizer-vos, eventualmente, acontecimentos futuros, a título de prova da minha presença, mas transformar-me-ia para vós em calamidade, se me propusesse a sugerir-vos as diretivas de vossa vida... Seria como se uma progenitora trouxesse sempre o filho nos braços. Este jamais poderia aprender a caminhar... O fim da vida é evocar e desenvolver o divino que reside em vós, e tal não sucederá se abandonardes a outrem a tarefa de dirigir os vossos passos."

Apresentaremos outra mensagem, esta extraída da obra As it is to be, que tanto impressionou Gladstone:

 "Sabei que não estamos aqui para revelar aos vivos as leis da Natureza ou grandes descobertas científicas, mas exclusivamente para transmitir-lhes as verdades espirituais que eles não poderiam penetrar com os próprios recursos. Sabei que Deus não tem a intenção de conceder aos vivos, como dons livremente outorgados, os segredos da Natureza que a inteligência humana é capaz de penetrar pela pesquisa e pelo estudo. No meio terreno, o que é necessário ao homem para elevar-se espiritual e materialmente pode e deve ser posto em valor pelo próprio homem...
Seria insensato que os Espíritos trabalhassem para reprimir e aniquilar, na humanidade, essas admiráveis aspirações ao saber e ascensão espiritual que a tornam pouco inferior à natureza angélica..."

Pascal Forthuny, respondendo a J. Douglas, dizia:

"Temos o encargo de assegurar nosso progresso com a colaboração do Além, mas o maior esforço nos pertence. É por nossa iniciativa, nosso labor, que devemos ganhar nossas vitórias. Senão, seria muito fácil. Newton, Darwin e os outros fariam tudo. Resolveriam todos os problemas, todas as dificuldades e nos só a dizer: - Obrigado!.. Bastaríamos tomar o lápis e deixar correr a mão para se ter a chave de todos os mistérios e a fórmula da panaceia. Não passaríamos de bonecas articuladas, sem a obrigação de pensar, deduzir, criar; receberíamos as rendas nos postigos do Além como foreiros muito resolvidos a nunca trabalhar, nem nada arriscar. Não é isso, Mr. Douglas, o que quer o Criador...  Se os Espíritos solucionassem todas as dificuldades, esse mundo tornar-se-ia perfeito, e nunca se disse que a perfeição é deste mundo. Todos os descobrimentos e aperfeiçoamentos virão à sua hora, segundo a regra, e gradualmente.”

Já vê o honrado ministro da Igreja Presbiteriana, que a questão, de há muito, já estava resolvida. E assim, à luz da lógica, dos fatos e dos ensinos dos Espíritos fica esclarecida a sua 4ª pergunta.



As perguntas de um Pastor
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Março 1944

Estamos, agora, na quinta pergunta do digníssimo reverendo Zaqueu de MeIo, pastor de São João da Boa Vista, em S. Paulo:

"5º - Se a memória é função de uma mente imaterial, como se explica que o Espírito não tenha consciência de suas experiências? Deus seria "um pai amoroso", pelo menos justo, em tirar a consciência do crime e lançar no sofrimento o criminoso? Se o sofrimento é corretivo, como explicar psicológica e eticamente essa correção, sem consciência do erro cometido?"

Parece-nos desde logo, que S. R. põe em dúvida que a memória seja função da mente imaterial. Não sabemos o que é a memória ou como será a memória na sua cartilha. A condicional faz-nos supor que tanto as santas almas dos justos como as indignas almas dos réprobos perdem a memória do que lhes sucedeu na Terra. Dar-se-ia, assim, a mesma injustiça do pai amoroso: os justos ficariam sem compreender porque estariam a gozar as delícias do paraíso e os condenados porque estariam a sofrer as torturas do inferno.

Não sabe o autor como se explica percam os Espíritos a consciência de suas preexistências, sendo a memória função da mente imaterial. Tirá-lo-ia da perplexidade qualquer manual que tratasse da memória, ou mesmo um pouco de raciocínio sobre o que é essa "função". Toda a gente sabe que a memória é susceptível de gradações, que passa por modificações diversas, que aumenta ou diminui. É intensa em uns, é, fraca em outros. Entorpece, gasta-se, obnubila-se. Enfraquece com a idade e com as doenças e vai até seu completo desaparecimento. Faculdade do espírito, sofre, entretanto, das condições da matéria. A matéria é o seu veículo, é o meio por que se manifesta; perturba-se, portanto, de acordo com as deficiências desse meio. Ninguém vê pelas janelas do quarto, mas com os próprios olhos. Se, entretanto, elas não dão luz bastante, já pouco se vê; e o indivíduo chegará à completa cegueira, se se fizer no quarto escuridão absoluta. Logo, porém, que se descerrem as persianas, tudo volta à primitiva normalidade.

Assim é com a memória... Constringida pelo cérebro, vai minguando à proporção que se lhe vão entupindo os canais por onde se escoa e manifesta; retomada a liberdade, volta a plenitude de suas forças. É isto o que se dá no mundo físico.

Essa liberdade da memória, plena, integral, brilhante, é, ainda, privilégio de Espíritos superiores, porque, mesmo fora do corpo, ela continua contrafeita, diminuída ou apagada, tais sejam as nuvens que encubram o Espírito. O criminoso, a entidade coberta de culpas, cobre-se de negrume; esse negrume envolve toda a entidade espiritual, de sorte que a memória dele participa, e o infeliz vagueia no Espaço sem perceber a sua situação, sem saber para onde vai, e, muitas vezes, o que foi; ignora, até, nos casos mais graves, quem é; fica inteiramente esquecido de sua personalidade.

Como vê, o reverendo, nada há que espantar em ter o reencarnado perdido a memória de suas vidas pretéritas, já que nós não nos espantamos que o ser a perca na própria existência terrena, Ora, se o indivíduo pode deslembrar-se do passado, simplesmente, porque lhe envelheceu o cérebro, muito mais compreensível é a deslembrança, quando já não se trata de um cérebro velho, mas de um cérebro desaparecido; quando há outro cérebro, outras células, outro veículo...      .

Parece que fica explicado, justificado ou esclarecido esse ponto do esquecimento das existências passadas. Vamos a outro.

Malgré tout, (não obstante) e como para demonstrar que a memória é do Espírito, e que a reencarnação é um fato, quaisquer que sejam as noções que as cartilhas religiosas nos ministrem, existe a inesgotável série dos fenômenos psíquicos, que nos estão a trazer, todos os dias, as mais sensacionais revelações.

Elas nos chegam pelos cinco sentidos conhecidos, ou pelo 6º, de que nos fala Richet, pelos caminhos normais, ou anormais; pelas sensações de toda a ordem. Às vezes, na simples meditação, abrem-se rasgões em nosso entendimento, e por eles penetra a luz do passado; nos sonhos, nessas viagens do Espírito, recebemos inúmeros quadros; os desencarnados nos fazem ver as culpas que tivemos, e diante delas, fácil nos é perceber as provas por que passamos. É muito comum àqueles que estudam estes assuntos terem inesperados esclarecimentos por médium, que não nos conhece, aponta-nos o Espírito grande número de faltas cometidas, seja por exemplo, a da impiedade, do egoísmo, do vício, do adultério... E então, o indivíduo que sofre pela maldade ou pelo egoísmo dos outros, que tem o físico depauperado, que foi enganado no lar, compreende que está passando pelas dores que fez o semelhante curtir. É a lei de causas e efeito.

Como se não bastassem essas provas, há outras muito comuns, - da criança que se lembra da vida anterior, e diz a casa em que viveu, os lugares em que esteve, os parentes que possuiu, os acontecimentos que lhe sobrevieram, e tudo se descobre como absolutamente exato.

Há as recordações repentinas, à vista de uma pessoa ou de um lugar. É o que se conhece em ciência sem explicação plausível, pelo nome de já visto; já sentido, já percebido... Até línguas estranhas são mencionadas, pondo-se o indivíduo a falar nas mesmas, sem nunca as ter aprendido.            

É conhecido o fato de certos viandantes se lembrarem instantaneamente de regiões que estão visitando e onde nunca estiveram, e vão descrevendo as paisagens, as situações, as minudências, antes de lá chegarem, numa antevisão que os outros não compreendem, nem ele sabe explicar.

Há mais as provas experimentais da regressão da memória, a que se dedicam os psiquistas modernos, e das quais as mais célebres, ou, pelo menos, as mais conhecidas, são as do eminente engenheiro Rochas...

Há, ainda, as justificações de ordem moral e intelectual, como as razões da imensa variedade da sorte humana, como o fato da genialidade, do aprendizado fácil ou difícil, da maior ou menor aptidão às artes, à filosofia, à ciência, aos misteres manuais, aos ofícios...

Há as simpatias e antipatias inexplicáveis pelo nosso senso comum; há as afinidades, o prazer ou desprazer na convivência de certas pessoas, sem que haja motivo apreciável para isso.

São fatos, senhor Pastor, diante dos quais a nossa razão se inclina e contra os quais de nada valem os textos. Não são eles, os fatos, que devem desaparecer diante dos nossos postulados, nem diante das nossas frágeis construções, mas estas é que cederão o passo àqueles. É inútil levantar preceitos, se a natureza os está a desmentir.

Nada mais teria a acrescentar, visto que os nossos fundamentos, movediços, instáveis, não podem resistir à demonstração cientifica. E o pensador, o filósofo, o estudioso terá que ser levado para onde o dirigirem os fatos. Só a intolerância religiosa, senão o fanatismo, é que poderão ficar emperrados, a lutar contra a correnteza, que a civilização e os conhecimentos vão avolumando cada vez mais.

O reverendo, porém, diz que o pai amoroso não seria justo em nos tirar a consciência do crime; nem Sua Senhoria sabe como se explica, psicológica e eticamente, uma correção, sem aquela consciência.

Interessante essa dúvida em quem subscreve o dogma da predestinação. Não se sabe como um pai amoroso castigaria sem a consciência do crime, no delinquente; mas compreende-se que ele crie umas tantas almas, de antemão fadadas ao inferno. Aqui, sim, é que se percebe a amorosidade do Pai!

No sofrimento humano, como o entendem os espiritistas, há uma razão. Com consciência ou sem consciência atual, o indivíduo a tinha quando praticou o delito. Houve um delito, cuja falta se expunge pela dor. Na cartilha protestante, não houve delito nenhum. O cidadão sofre sem saber porque; não cometeu falta, não cometeu pecado, não cometeu causa que lhe justificasse as angústias. Mas sofre. Sua dor é incompreensível, é injustificável; não se lhe imputa qualquer causa. Puro regime do arbítrio, ou duras consequências do acaso.

Pois isto é que claríssimo para o nosso antagonista este sofrimento sem motivo é que nos demonstra como é amoroso o Pai. Diante daquele sofrimento sem motivo fica tudo ética e psicologicamente explicado! ...

*

Teria alguém se lembrado, algum dia, de tirar o criminoso da cadeia porque se esquecera ele do crime que praticou?

Provavelmente, ainda ninguém se lembrou disso, o que deve ser uma lamentável lacuna na nossa legislação penal.

O que convém, porém, se diga, para maior explicação do caso, é que o sofrimento é processo de evolução, e não é injusto, porque nasce de uma lei justa, a da falta do sofredor.


O Pai não tem em vista punir, senão melhorar. Não sabemos porque escolheu esse processo, mas o que não pode restar dúvida aos que não perderam o senso filosófico, é que há mais bondade, há uma bondade infinitamente maior no sofrimento que resgata, do que nas chamas inapagáveis que devoram o desgraçado, na maior das angústias, e isso por toda a Eternidade!..