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domingo, 27 de novembro de 2016

Entre Magos e Feiticeiros


Entre Magos e Feiticeiros 
Tobias Mirco / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Julho 1971

            A recente desencarnação do médium José Pedro de Freitas, o “Arigó”, deu margem a contraditórios depoimentos acerca da personalidade desse famoso homem de Congonhas do Campo. Ouviu-se a “voz do bonzo”, solene, a decretar a inexistência da mediunidade de “Arigó”, numa espécie de ridícula sentença “post mortem”. Não se poderia esperar da parte de um natural e sistemático adversário do Espiritismo qualquer palavra criteriosa a respeito de um médium que se fizera célebre, não por dispor de recursos milagreiros, como outrora sucedia na ambiência dos detentores do “poder sobrenatural”, dos detentores da verdade e representantes exclusivos e eternos, na Terra, do nosso bom Deus... Os que conseguiram ser curados de suas enfermidades pela mediunidade de “Arigó” abençoam-no, ainda hoje; os que, por qualquer circunstância, inclusive as de caráter cármico, ficaram desiludidos, surgem, agora, corajosamente, a acusá-lo de explorador da credulidade pública... Isso foi assim, antes e depois do Cristo, porque o homem é o homem, sujeito a influências do meio e das paixões que o dominam, quando não possui um caráter forte e suficientemente lúcido para permanecer incólume a tais sugestões.

            Alguns parapsicólogos vieram dizer tolices a respeito das curas alcançadas através da mediunidade de José “Arigó”. Pretendem descobrir a América, depois da façanha de Colombo... Para os bonzos, os médiuns não passam de magos ou feiticeiros... Já Horácio se ocupara dos malefícios de Medéia.

            O poeta Ovídio referiu-se às feiticeiras Canídia e Sagana, ocupando-se de suas práticas. Mas, se o papa João XXlI, em numerosas bulas, perseguiu os chamados feiticeiros, açulando contra eles os métodos da Inquisição, de quando em quando surgia, também, no seio da Igreja, algum feiticeiro de categoria, como Pierre de LatilIy, bispo de Châlons, acusado de haver causado a morte de Felipe, o Belo, e de Luís X.

            Na maioria dos casos, os feiticeiros nada mais eram do que pobres indivíduos dotados de mediunidade, que a ignorância da Igreja, evidentemente maior no passado do que nos dias em que vivemos, considerava coisas do diabo. Embora o diabo já esteja definitivamente aposentado por tempo de serviço, há ainda aqueles que, vez por outra, não deixam de perturbá-lo, invocando seus já desmoralizados préstimos para nele estribarem argumentos prefalidos. Não é que ignorem, os piedosos diabolistas, o que disse Giovanni Papini a respeito das excelentes relações entre pretensos representantes do Cristo e o diabo, a ponto de se haverem confundido e tornado participantes, durante séculos e séculos, duma sociedade que resistiu muito tempo à ação destruidora da verdade.

            Disse Papini: “Muitos amigos tem tido o diabo, em todos os tempos, entre os homens. E entre eles se incluem, se devemos dar crédito a antigos testemunhos, nada menos que dois pontífices da Igreja Católica. O primeiro é João XII, filho de Alberico II e neto da famigerada Marozia, o qual foi papa de 954 a 964. Subiu à sege de Pedro ainda muito jovem, e a sua vida pouco teve de exemplar. Na Intimatio que o Sínodo romano de 963, convocado pelo imperador Otão, enviou para que comparecesse a justificar-se, leem-se, entre outras, estas palavras: “Deveis saber, portanto, que não alguns poucos, mas todos, leigos e clérigos, vos acusaram de assassínio, de perjuro, de profanação de igrejas, de incesto com parentes vossos e com duas irmãs. Outras coisas eles declaram, que ao ouvido repugna escutar, isto é, que vós, bebendo, fizestes brindes ao Diabo (diaboli in amorem), e, jogando, invocastes Júpiter, Vênus e outros demônios (ceterorumque deamonorum).” As acusações são graves e provêm dos inimigos de João XII, mas há que reconhecer que nem tudo podia ser inventado, tratando-se de um documento redigido por um Sínodo do qual faziam parte cardeais e bispos e que é referido por Liutprando, homem douto e bispo de Cremona.” “De um outro papa, posterior e mais célebre, Silvestre lI, se disse ter comércio com Satã. Gerberto d'Aurillac vivera e estudara longos anos em Espanha, e em Toledo floresciam, na Idade Média, as ciências mágicas. Silvestre II, papa de 999 a 1003, foi certamente homem doutíssimo, e não só em teologia, sendo possível que a sua perícia em muitas ciências, algumas profanas, lhe tenha granjeado a fama de mago. Uma alusão à magia de Silvestre II encontra-se já num poema, escrito em 1006, de um seu contemporâneo, o famoso Adalberão, bispo de Laon. Mas, o primeiro que discorre amplamente acerca das relações de Gerberto (Silvestre II) com o diabo é Beno, ou Benone, que Estêvão IX fez cardeal em 1058”.

            Poderíamos mencionar outros papas que fizeram pacto com o diabo, Esse infeliz que teve a desgraça de se meter com teólogos e acabou, como seria de esperar, em desgraça ... A verdade é que o diabo ajudou muito, principalmente na Inquisição. Às vezes até levou culpa sem proveito, porque seus aliados se mostraram muito mais diabólicos do que ele... Exageramos? Não. Em “O Papa e o Concílio», edição brasileira de Ruy Barbosa, lê-se: “...Agora, porém, eram os papas que constrangiam os bispos a submeter à tortura os que professassem opinião dissidente; era o vigário de Cristo que forçava o clero a sentenciar a cárcere e a morte; era o bispo de Roma que, sob pena de excomunhão, coagia as autoridades civis a que lhe executassem condenações dessas.” E na mesma obra: “Talvez se represente paradoxo afirmar que toda a feitiçaria dos séculos XIII s XVII foi consequência, ora imediata, ora mediata, da crença na autoridade absoluta do papa; e, contudo, não é custoso demonstrar a exação deste asserto.”

            Conta a História que o papa João XXII foi um dos mais tenazes perseguidores dos que denominavam, naquela época, “feiticeiros” e “mágicos”. No século XII, João de Salisbury nomeia todas as crenças entre as fábulas, enganos e sortilégios. Dentro em pouco, se disseminou a ideia de que certas seitas heréticas faziam milagres por obra e graça do diabo. Iríamos longe se desfilássemos os pontífices que encheram o mundo de pungentes gemidos, lancinantes gritos de dor, quer nas torturas terríveis, quer nas chamas das fogueiras da Inquisição, como o papa Inocêncio VIII que, em 1484, confessara publicamente a crença na feitiçaria (pág. 534, ob. clt.).

            Descobrir feiticeiros tornou-se rendoso negócio. Na Alemanha, por exemplo, Spranger foi tido como o mais eficiente descobridor de feiticeiros e bruxas, destinados às fogueiras da Inquisição. Foi responsável por cerca de 500 vítimas anuais! «No espaço de três meses, 900 pereceram em Würzburg, 600 em Bamberg e 500 em Genebra. Um juiz da Lorena vangloriava-se de ter condenado 900, pessoalmente, e o arcebispo de Treves, culpando a feitiçaria nela primavera hibernal de 1586, queimou 118 mulheres de uma só vez. As alfinetadas eram o processo favorito empregado pelo descobridor de bruxas, a fim de apurar se a pessoa suspeita pertencia a Satã, e a absolvição de catorze acusadas pelo Parlamento de Paris parece ser o único exemplo notável de clemência em toda a crônica dos processos de feitiçaria. Nessa ocasião, quatro entendidos - Pedro Pigray, cirurgião do rei, e MM. Leroi, Renard e Falaiseau, físicos do rei - foram nomeados para examinarem as suspeitas, à procura da marca do diabo.

            Relata Pedro Pigray o exame que foi feito em presença de dois conselheiros da Corte. Todas as feiticeiras foram despidas e os médicos examinaram os seus corpos com o máximo cuidado, picando-as em todos os sinais que encontravam para ver se estes eram insensíveis à dor - prova cabal de culpa. As pobres mulheres, todavia, foram muito sensíveis às picadas, lançando gritos quando lhes enterravam os aIfinetes. “Muitas delas mostram desprezo pela vida, e uma ou duas desejaram a morte como alívio aos seus sofrimentos. Foram soltas, no entanto”. (*)

            (*) - Obras consultadas: "O Diabo", de Giovanni Papini; "O Papa e o Concilio", de Janus e Ruy Barbosa; "O Romance da Feitiçaria" de Sax Romer; "Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguêsa", de Antônio Baião; "Le Dieu des Sorciêres", de Margaret Murray; "La Prohibition de l'Occulte", de Émile Caillet; "Histoire de Ia Sorcellerie", de Paul Morelle; "A Questão Social e o Catolicismo" de Joaquim Pimenta.

            Hoje, como ontem, a mentalidade dos bonzos é a mesma. Somente os tempos mudaram, tanto que não podem repetir o que faziam outrora. Alcunhar médiuns de feiticeiros é recurso fácil. Afirmar que os médiuns de cura são embusteiros, exploradores, mistificadores, etc., tudo é fácil, mesmo no século da eletrônica. E há sempre quem se preste ao papel de gato morto, nas mãos dos bonzos. O episódio da morte de “Arigó” comprova-o, de novo. A verdade, entretanto, é que mágicos e feiticeiros, quase tanto como o pobre diabo, hoje arrependido das farsas que representou na Terra, não metem mais medo a ninguém, porque a difusão da instrução e a alfabetização, cada vez em escala maior, vão dando a todos os homens, por, mais humildes que sejam, elementos para pensar e refletir, analisar e examinar, chegando a conclusões que não ofendam a lógica nem desmintam a razão.

            O Espiritismo tem crescido com o progresso do mundo, porque não é uma superstição, mas inconcussa verdade. Tem aumentado o número daqueles que, mesmo partilhando convencionalmente de cerimônias católicas, não deixam de ir aos médiuns espíritas solicitar passes e alívio para as suas tribulações, para os problemas que os afligem, na ânsia muito humana de alcançarem graças, cada vez mais raras na religião que parecem professar, já sem o diabo que tanto a ajudava, já sem os milagres que serviam para seduzir a imaginação dos simples.

            José “Arigó” pode ter cometido erros, mas foi instrumento para maravilhosos trabalhos de Espíritos devotados ao bem, entregues ao serviço abençoado do Cristo de Deus. Não é o Espiritismo religião criada pelos homens, não tem nada que o desprimore no passado e no presente. Não vive, por isso, com o remorso que tortura aqueles que, em todos os tempos, se serviram da religião para consumarem atos incompatíveis com a doutrina verdadeira de Jesus, hoje identificada no Espiritismo evangélico, do qual a caridade é a alma. 

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