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domingo, 31 de maio de 2015

Maravilhas do Evangelho

               Em suas peregrinações pela Galileia, era hábito de Jesus pregar nas sinagogas e curar, com a força magnética de seus fluidos, muitos dos chamados endemoninhados, isto é, criaturas sujeitas à vontade de Espíritos maléficos.

            Certo dia, um jovem, então empolgado com a pregação do Mestre e com os prodígios que operava, não mais pode sopitar os anseios de sua alma e, por isso, dirigiu-se a Jesus, dizendo-lhe resolutamente: - Seguir-te-ei, Senhor!

            A verdade, porém, é que os homens, mesmo nos momentos de arrebatamento, têm sempre na vida um "mas", uma restrição, e isto porque ainda se conservam escravizados às coisas do mundo!

            Esse mancebo, após prometer ao Divino Mestre que o acompanharia em sua jornada de amor e luz, acrescentou, apressado, um "mas", isto é, que Jesus lhe permitisse ir antes despedir-se dos que se encontravam em casa:

            A resposta de Jesus há de causar surpresa aos espíritos pouco afeitos às sutilezas das palavras, que bem representam um símile perfeito das criaturas. Quem vê um homem finamente vestido, de maneiras delicadas, não acredita que seu coração seja uma usina de ódios, intemperanças e imoralidades. E quantas vezes nos enganamos nós, presumindo que este ou aquele maltrapilho é um vagabundo, um malfeitor vulgar, quando, em verdade, em sua alma rebrilha a luz encantadora do amor e da honestidade!

            Muita gente tem lido e relido as palavras constitutivas da resposta de Jesus, sem atinar com o seu conteúdo espiritual, com a beleza de seus ensinamentos.

            Mas qual foi a resposta do Messias a que estamos aludindo? Apenas esta: - Quem empunha o arado e torna a olhar para trás, não é apto para o reino de Deus.

            É bem certo que escritores mal avisados, levianos em suas apreciações apressadas, têm feito reparos a essa resposta, porque, dizem eles, Jesus, assim falando, está implicitamente pregando a secura de coração, despedaçando os ternos laços da família.

            Ora, não é crível, absolutamente, que o Divino Enviado tivesse o propósito de aconselhar tamanho absurdo. O espírito dessas suas palavras é outro bem diverso. Faz-nos sentir ser necessário não olhar para trás quando nos encontremos na estrada do bem, evitando, destarte, que algo nos possa despertar desejos menos dignos, retendo-nos em suas malhas traiçoeiras.

            Quem põe a mão no arado para remover as suas inferioridades, não pode dele retirá-la, sob pena de perder o esforço até então despendido.

            Um arado, disse culto irmão da Espiritualidade, promete serviço, disciplina, aflição e cansaço, no entanto, não se deve esquecer que, depois dele, chegam as semeaduras e colheitas, pão no prato e celeiros guarnecidos."

            Portanto, meu irmão ou minha irmã, se te não só atende de pronto, como ainda o elogia, dizendo: “Em verdade vos afirmo que não encontrei tão grande fé, nem mesmo em Israel.”

            Em colóquio com uma samaritana de má vida, junto ao poço de Jacó, revela, pela vez primeira, ser o Messias prometido.

            Aos apóstolos, ainda demasiadamente intolerantes, que lhe fazem esta queixa: “Mestre, encontramos um homem que expulsava demônios em teu nome, mas não é do número dos nossos; e nós lho proibimos”, responde: “Não lho proibais; quem expulsa demônios em meu nome não é meu inimigo”, provando, uma vez mais, que o seu espírito universalista aceita, de bom grado, as manifestações de fé e de bondade, venham elas de onde vierem!

            Nem foi outra a razão por que Pedro, sob a inspiração do Alto, houve por bem proclamar:  “Tenho na verdade alcançado que DEUS NÃO FAZ DISTINÇÃO DE PESSOAS; EM TODA NAÇÃO, AQUELE QUE O TEME E OBRA O QUE É JUSTO, ESSE LHE É ACEITO.”

            Vem de longe, em dano para a cristandade, a funestíssima ideia de que o reino de Deus seja uma espécie de sociedade eclesiástica, organizada segundo os padrões hierárquicos do império romano, e que, para ingressar nesse reino, o que se tem a fazer é ser batizado, mesmo inconsciente, aceitar meia dúzia de dogmas teológicos e participar, vez por outra, de determinadas cerimônias e rituais. Quem satisfaça essas formalidades burocráticas, pode considerar-se perfeitamente quite com seus deveres religiosos, e, quando lhe chegue a morte, terá a alegria de ver o Senhor vir pegá-lo pela mão, para introduzi-lo, com as honras de estilo, na mansão celestial.

            Não é isso, todavia, o que o Cristo nos ensina em seu Evangelho.

            Declara ele, claramente, que o reino de Deus não tem aparência exterior, não é um lugar no espaço que alguém possa apontar e dizer: ei-lo aqui ou ei-lo acolá. E acrescenta: “O reino de Deus está dentro de vós”, deixando bem claro que é um estado íntimo, de justiça (retidão de caráter), paz e alegria espiritual, como o interpretou o Apóstolo dos gentios.

            Esse estado de felicidade se acha latente em todos os homens e se vai desenvolvendo, crescendo, integrando-se, à medida que aprendam a cumprir a vontade de Deus, aplicando suas melhores forças morais, intelectuais e afetivas na produção do Bem, na prática do Amor Universal.

            Ora, sendo as almas humanas “imagem e semelhança” do Criador, ao influxo da lei do progresso e por via do processo reencarnatório, todas hão de alcançar um dia a perfeição, e esse ascenso universal, que é absolutamente certo, significa, em última análise, a derrota final de Satanás (egoísmo personalista) diante do Supremo Bem, que é DE

Maravilhas do Evangelho
Sylvio Brto Soares

Reformador (FEB) Junho 1962

sábado, 30 de maio de 2015

Perante os Mortos

             Quando visites o campo convertido em relicário da cinza dos mortos, procurando tatear a lembrança dos seres queridos que o sepulcro recobre, endereça-lhas a própria alma, em forma de amor,  porque eles vivem. 

            Pensa neles com o enternecimento de quem reencontra velhos amigos, apartados de ti por temporária separação.

            Qual se estivessem, involuntariamente, numa parada expectante, falam-te, em silêncio, a verdade que o verbo humano não articula. Basta medites para que lhes recolhas a voz...

            Poderosos de ontem, que abusavam da autoridade, lamentam o capacete esbraseado de angústia e remorso que lhes envolveu as consciências; déspotas de variados matizes, que zombaram da fraqueza ou da ignorância do próximo, conservam enterradas, no próprio peito, as lâminas repulsivas com que desataram as lágrimas alheias; juízes, que leiloaram a dignidade dos tribunais, suportam as consequências do arrazoado precioso com que vestiram sentenças ímpias; intelectuais que encharcaram a pena em lodo mental, assalariando a própria inteligência no artesanato do crime, clamam contra o nevoeiro que lhes entenebrece os pensamentos; tribunos, que esconderam propósitos sombrios em frases fulgurantes, ouvem, no ádito de si mesmos, as doridas exprobrações de quantos lhes caíram na vasa das intenções subalternas; artistas, que injuriaram a Natureza, senhoreando-Ihe os recursos para suscitarem nos outros a delinquência emotiva, arrastam-se, obsessos e infelizes, nos torvelinhos da insanidade; pessoas dinheirosas, que fizeram do ouro e da prata incenso constante à própria vaidade, buscam, em vão, apagar a mentira das pomposas legendas que lhes marcam os restos ...

            Junto deles, porém, surge a caravana dos que chegam dos cimos, a entremostrarem o próprio rasto por mensagem de luz.

            São aqueles que sobrenadaram a onda móvel e traiçoeira das ilusões humanas, desvelando os próprios corações por lábaros esplendentes...

            Ostentavam nomes admirados, mas souberam transfigurar a própria grandeza no trabalho em que se tornavam pessoalmente humildes e pequeninos; foram titulados, na culminância das profissões, entretanto, colocaram o serviço aos semelhantes acima das honrarias; desempenharam comandos sociais em gabinetes governativos, contudo, transformaram a liderança em exemplo de sinceridade e desinteresse, nas causas justas; eram renomados artífices da ideia e do sentimento, no entanto, manejavam a palavra falada ou escrita por enxada solar nas glebas: do espírito; foram mordomos da finança e da economia, mas converteram a fortuna amoedada em sustentáculos do progresso e em fontes da beneficência fecunda; suaram, valorosos e desvalidos, na condição de heróis anônimos que a Terra desconheceu, todavia, passaram entre os homens, extravasando a própria dor, em cânticos de alegria e esperança, nos quais honorificaram o eterno bem ...

*

            Recordando, pois, os entes amados que te antecederam no rumo de realidades excelsas, busca a inspiração dos que conheceste retos e bons e envolve no bálsamo da prece os que tombaram sob a névoa de clamorosos enganos.

            Reflete em todos eles, enviando-lhes a simpatia de tua bênção, porquanto as criaturas de quem te despediste na morte, acreditando em separação eterna, são simplesmente os companheiros desencarnados, componentes da família maior, a cujo seio também chegarás.
Perante os Mortos
Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Nov 1962

A Grande Molécula


            Depois que o Cristo exortou o homem à vigilância e à oração, este não se deveria permitir mais o direito de despencar nos desfiladeiros dos grandes equívocos mundanos, forrando-se, pelo menos, do tropeço no pior de todos: o desrespeito à liberdade. Durante muitos séculos, através da fieira das vidas sucessivas, viveu o homem ora sujeito ao tacão da coação, ora como agente dela.

            A doutrina católica, depois de codificada por São Jerônimo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e o Concílio de Trento, pretendeu “melhorar” o Cristianismo primitivo e, dentre outras aberrações, promulgou a mais grave e ominosa: o cerceamento da liberdade de se pensar livremente. O “magister dixit” de Roma substituiu o “examinai tudo” do Evangelho e, necessitado de enquadrar o fiel nos rigores dos mandamentos, o Catolicismo acabou tornando-se um mostrengo estrutural, igrejificado na forma e na pedra. Costurou para as consciências a mais encolhida camisa de força, utilizando-se dos aguilhões da Inquisição e duma linha doutrinária cinzenta, embaraçada nos rolos da fumaçada infernal.

            Felizmente, o desgaste obrigou-a a contentar-se com o consenso tácito do sofrido rebanho ao ritual dos mandamentos. Mas, se, com o escorrer do tempo, arrancou-se-lhe a liberdade de ação, nem por isso se logrou, até hoje, por culpa dos formalismos nefastos, a completa liberdade consciencial.

            O Espiritismo, vindo para pulverizar qualquer estrutura religiosa, não podia incorrer nos mesmos erros, embora os condicionamentos de um passado culposo que a todos tenta arrastar. É preciso, pois, vigilância e oração permanentes para que se não restaure aquilo que a Revelação Espírita veio repudiar. Nessa vigilância, nessa oração tem permanecido a. Federação Espírita Brasileira. Montesquieu achava que “a liberdade é um bem tão apreciado, que cada qual quer ser dono até da alheia”. Não é caso da FEB, de onde jamais promanarão ordens, decretos, editos, bulas papais. Em relação aos homens, ela não manda nada e, ao ser mandada, só o é pelo Alto; não está nem abaixo nem acima de ninguém. Está e quer ficar apenas no centro. À sua volta, por adesão espontânea e sem outro motivo senão o do congraçamento, o da união solidária, estão as entidades espíritas do mundo inteiro. (Não esqueçamos que o Brasil é o Coração do Mundo.) Em Espiritismo, portanto, não existem hierarquias organográficas e, por isso mesmo, tendo de definir a sua posição e o seu papel na Terra em relação às demais organizações espíritas, a FEB prefere imaginar uma grande molécula em cujo núcleo ela se situa e onde, logo na primeira órbita, giram as entidades federadas estaduais, por sua vez rodeadas pelas sociedades espíritas locais. Todos correm centrípeta e centrifugamente, É o protótipo, em escala reduzida, da mecânica do Universo de Deus.

            Mas, impõe-se a vigilância para que se não caminhe, inconscientemente, na direção de uma nova estrutura formalística, de uma nova igreja exterior, comprometendo-se outra vez os ideais do Cristo. Em termos de Espiritismo, é sempre bom o rebate clangoroso: ninguém obriga ninguém a coisa alguma. A FEB pode discordar de muitas ideias, de muitas iniciativas, de muitos programas. Mas não impede a ninguém de propalá-los ou executá-los, assumindo cada um a responsabilidade do que diz e faz. Limita-se, como é do seu estrito dever e direito, a não emprestar o seu apoio. Todos são livres. Cada qual pensa e age como
bem lhe apraze.  A coesão da grande molécula é perfeita, porque natural. Mantém-na a própria Lei. Seu turbilhão é harmônico, preciso, sábio. Qualquer aceleração imprópria ou imprudente, originada de fora, pode fazer saltar, quanticamente, uma partícula. Ela se perderá no espaço ou se agregará a outro sistema fora do Cristo. Mas a grande molécula permanecerá estável; apenas, é claro, ressentindo a fuga do satélite, para cuja órbita um outro será naturalmente atraído.

            Essa estabilidade decorre da configuração preternatural de sua razão de ser, na qual a liberdade é o vector espiritual. Daí a sabedoria evangélica: “O Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade”.

A Grande Molécula
Editorial

Reformador (FEB) Julho 1972

Considerações sobre a Humildade



            Como a maioria dos conceitos abstratos, o de humildade empreste-se a muitas interpretações disparatadas, sendo que, na maioria das vezes, isso acontece na razão direta do orgulho ou da vaidade de cada um.

            Através do Sermão da Montanha, foi lançada sobre os séculos a voz da esperança e da consolação. A todos, de todas as partes do mundo, foram anunciadas as bem-aventuranças. E uma delas referia-se à humildade: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus."

            Mas, se estas palavras são de molde a sobrepairarem ao tempo, também o seu significado tem sido deturpado através do perpassar dele. Os materialistas, os negativistas, chegaram a explicá-las como uma bênção dada aos carentes de inteligência. Assim, justificavam o seu orgulho, a sua vaidade, de um modo tranquilo, porque amparados em um "erro" dos Evangelhos.

            Muito pelo contrário, Jesus, nesta passagem, abençoou os ricos de humildade, "pobres de espírito" para o vão conceito humano. Deu sua bênção aos inteligentes em espírito e verdade, e que são capazes de conceber Deus em toda a Sua grandeza e em todo o Seu poder.

            Possuem eles a simplicidade de coração e a humildade de espírito.

            Têm-nas em seu verdadeiro e lato conceito e para eles tais atitudes são fontes inesgotáveis de resignação, de amor, de tolerância, de perdão, de brandura. Não confundamos, todavia, resignação com um conformismo estéril, que não leva a nada positivo, senão à inércia e ao mau uso de energias. Ao contrário, quem é resignado verdadeiramente possui o entendimento claro e sadio das leis, máxime as do livre arbítrio e de causa e efeito. Dessa forma, aceita os padecimentos que lhe advêm, porque sabe que muito já fez em outras existências para merecê-las. Nesta certeza, ele se resigna por saber que tudo tem uma finalidade e que esta terá como consequência a evolução para mundos melhores.

            Igualmente, sabemos também que o amor abrange um entendimento mais espiritual e não se prende exclusivamente aos liames passageiros da paixão desenfreada. Assim, amar é tolerar e relevar o erro alheio, mas é preciso também empregarmos todo o nosso discernimento para que não nos façamos coniventes e acordes com o erro. O Evangelho nos pede tolerância, perdão e indulgência com as falhas do nosso próximo, mas não nos pede que nos transformemos em cúmplices. O verdadeiro amor perdoa, mas, justamente por ser aquele amor em toda a sua extensão espiritual, não se coaduna com o escândalo, porque sabe que os seus artífices pagarão até o último ceitil a fraqueza, o orgulho, o seu egoísmo, que os tornaram ponto de atração para os espíritos menos esclarecidos.

            Aquele que ama verdadeiramente, quer ver o objeto de seu amor na senda da verdadeira evolução espiritual. Por isso, não se acumplicia e nem chama a si as consequências dos erros de outrem.

            Perdoa e tolera, porque sabe que se cumprem até o derradeiro parágrafo as leis do Todo-Poderoso.

            Preciso se faz, também, que distingamos a verdadeira humildade, a de espírito, daquela que visa a alcançar benefícios próprios. Para sermos humildes, não é preciso que nos apresentemos maltrapilhos, que nos utilizemos de um linguajar chulo. O meio termo é sempre a medida ideal. Quantas vezes, debaixo de tais características, jaz um espírito estreitamente ligado às trevas do mais ferrenho orgulho, da mais crassa vaidade espiritual. Quantas vezes, no dia-a-dia, deparamo-nos com mendigos que são o exemplo objetivo de tais qualidades negativas. E que surpresa não nos assoma quando topamos com pessoas que, momentaneamente, ocupam cargos de relevo e que exemplificam a mais sincera humildade.

            O verdadeiro atributo não se manifesta por exterioridades; ele se traduz por  aquele sentimento de afabilidade e doçura no trato com o próximo. Manifesta-se no verdadeiro perdoar, no verdadeiro amar a humanidade, na pessoa do irmão em erro. O pobre de espirito, a que se refere Jesus, não se faz juiz senão de si mesmo.

            Pobres de espirito são, portanto, aqueles suficientemente humildes para confiarem no Criador. São pobres, sim, porque carecem de orgulho, de vaidade. Por isso, são livres, pois não dependem de situações externas. A verdadeira liberdade insere-se em um contexto espiritual evoluído. Escravos há que gozam de plena liberdade, porque libertos estão das coisas materiais; senhores existem que arcam com as mais pesadas cadeias espirituais.

            Na amplitude moral do espírito contém-se toda a condição de ser livre. Sejamos humildes e nossas dores serão menos doloridas; nossas amarguras, menos amargas, e nossa liberdade será mais verdadeira. Se queremos fazer jus ao amor inesgotável do Mestre, cumpramos em espírito e verdade a máxima da mais bela página de consolação e amor até hoje escrita: "Bem-aventurados os pobres de espirito, porque deles será o Reino dos Céus."

Considerações sobre Humildade
por Maria Ocampo

Brasil-Espírita Maio 1972

Transição

A palavra morrera na garganta.
Alguém me estende o suco de uma pera.
Busco em vão engolir... Anoitecera...
E cresce a angústia imensa que me espanta.
Horas passam... A dor se me agiganta.
Não mais posso agitar as mãos de cera.
Recordo, em pranto, o tempo que perdera,
Arrimando-me à fé serena e santa.
    Mas surge doce estrela refulgindo,
                               E vejo o nosso Eurípedes sorrindo...
                                     Surpresa enorme o coração me invade
                                       Descansa agora o corpo em paz  segura 
                                    E, chorando de dor e de ventura,
                                   Vi-me, de novo, em plena liberdade...


Transição
Cornélio Pires
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Fevereiro 1959



Instituições em Crise

              A Doutrina Espírita provoca nos que lhe transpõem os umbrais imediato desejo de transformação. Isso é muito compreensível, já que este é o objetivo primordial da Doutrina: transformar o homem. Kardec, por isso mesmo, afirma: "Conhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral."

            Assim, com os primeiros adeptos que surgiram no nosso país, veio a ideia de que a Doutrina exige de todos a aplicação imediata de seus conceitos. Ainda mais que a bandeira do Espiritismo é a CARIDADE, a virtude por excelência, conforme Paulo.

            Surgiu daí, pois, a ideia da criação de casas assistenciais, com os mais diversos objetivos, para o amparo das criaturas necessitadas da Terra. Vieram os asilos, os lares, as creches, os orfanatos, as casas de saúde, os hospitais, os sanatórios, casas de sopa, casas de mãe pobre, educandários, etc ... Foi uma proliferação de entidades por todo o Brasil, fazendo com que o Espiritismo ficasse assentado sobre sólidas bases assistenciais. Era a manifestação patente de que o Espiritismo é Jesus de novo, o Consolador prometido, trazendo bálsamo para os humanos sofrimentos.

            Louve-se aqui o trabalho dos pioneiros da Doutrina, que se lançaram a esta faina, enfrentando tudo e todos, para introduzir o Espiritismo no Brasil. Achamos, mesmo, que de outra forma a Doutrina não se teria implantado em nossa nação.

            Passada esta fase, contudo, os pioneiros começaram a voltar ao plano espiritual, deixando na retaguarda os seus continuadores, para a conservação e ampliação do trabalho edificado.

            Com o surgimento das novas gerações de espíritas ocorreram, porém, os primeiros choques; os mesmos que explodiam entre as gerações da sociedade. E os choques surgiram porque os pioneiros construíram antes as obras de ação social, e deixaram para depois a edificação do novo homem recomendado pelo Codificador.

            Dizendo isto, não estamos criticando os precursores do atual movimento doutrinário, já que eles realizaram a sua missão aqui na face da Terra. Estamos tentando analisar a causa da crise que está rondando as nossas entidades assistenciais. Crise porque se cuidou de edificar as paredes, fizeram-se campanhas as mais diversas para colocar a cobertura, "bolaram-se" os planos mais diferentes para a pintura e para o acabamento, mas esqueceu-se do recheio que deve ser colocado dentro das entidades espíritas: exatamente o Espiritismo.

            Vemos, então, o presidente que briga com os novos profitentes por causa dos azulejos que "ele fez campanha para colocar". Vemos o dirigente do Centro que doou o terreno para a edificação da entidade e quer ser agora o presidente vitalício do grupo. Vemos o confrade que coloca a sua opinião acima da própria sociedade que o elegeu, ou o dirigente que faz questão do seu cargo, como autoridade máxima. Enfim, briga-se por tudo. Cada qual achando que é dono disso ou daquilo, quando não acha que é "dono" da Doutrina Espírita e que sua palavra é lei.

            Mas, não é o cúmulo?

            Vemos, pois, que a crise das entidades espíritas não é propriamente delas, isto é, não lhes falta o alimento, não lhes falta o remédio, não lhes faltam os recursos monetários; faltam-lhes os verdadeiros espíritas, que vivam o que ensinam.

            Achamos que já passou a hora de vivermos em choque, acreditando que algo que tenhamos edificado, reunido ou criado seja realmente nosso. Tudo vem de Deus, que nos deu as chances de trabalhar para o aprimoramento e adestramento espirituais.

            Quer dizer, não podemos esquecer-nos de que o principal de uma obra assistencial espírita é a Doutrina Espírita, sentida por todos os diretores, associados, participantes e beneficiados.

            Às vezes, um confrade nos mostra extensa lista de pessoas assistidas: 12.000 pessoas, 1.000 famílias, 20.000 quilos de arroz ... e tudo o mais. E nós perguntamos: e quanto de Espiritismo foi distribuído? Junto do pão material, quanto do pão espiritual foi ofertado?

            Enfim, precisamos nos preocupar com o principal de uma entidade assistencial espírita: a Doutrina Espírita. Seja exemplificando-a no exercício dos cargos para que fomos eleitos, seja mostrando-a aos que procuram a entidade como meio de salvação, isto é, como meio de redenção da criatura. Em suma: é a vivência do Evangelho, que tanto pregamos e que tão pouco exercitamos...

            Mesmo porque, podemos levantar inúmeras obras assistenciais espíritas, sem ter incutido o Espiritismo em nós mesmos.

            Afinal, de que nos adiantará construir uma obra espírita se ainda não vencemos os nossos maiores inimigos: o orgulho, a vaidade, o egoísmo, a presunção, o autoritarismo, a cólera, a inveja ... e tudo o mais?

Instituições em crise
Filipe Salomão

Reformador (FEB) Outubro 1972

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O pior cego é aquele que não quer ver


            Não é de hoje que o Espiritismo observa, de quando em quando, o irrompimento de tentativas divisionistas, partidas de elementos que nele ingressaram sem sinceridade no coração, mas com planos vastos no cérebro. Indivíduos provindos de outras crenças, onde também não se adaptaram, resolveram de um momento para outro tornar-se espíritas e como tal se intitulam, alguns deles até criando centros onde dominam e realizam uma misturada de catolicismo e espiritismo, comprometendo, por ignorância ou não, os altos objetivos morais do credo espírita.

Ninguém é verdadeiramente espírita sem o respeito às normas que Kardec codificou. Ser espírita por opinião, não é ser espírita, porque só o é aquele que se mostra empenhado em conhecer e seguir os preceitos doutrinários. Há pessoas que frequentam sessões espíritas como frequentam missas católicas, cultos protestantes, sessões do chamado esoterismo. Querem variar, percorrer lugares diferentes, para recreio de seu espírito volúvel. No fundo, não são de má fé. Todavia, entre essas, há as que andam à cata de algo que dê alguma vantagem, seja de que espécie for. Se material, melhor ainda, porque os tempos estão cada vez mais bicudos... Tentam imiscuir-se no ambiente que lhes parece mais fácil de penetrar e menos difícil de iludir as criaturas.

            Quando, há dias, uma senhora nos disse que gostava do Espiritismo, mas tinha medo de Espíritos, nós lhe dissemos que estudasse a Doutrina e nada temesse dos Espíritos desencarnados, mas se acautelasse dos encarnados e de outras cores... ideológicas, principalmente as furta-cores, porque fazem confusão e se assemelham com todas, acabando por não ser nenhuma ...

            O número de desiludidos vai aumentando na medida em que se desenvolve o trabalho de sedução. Tudo, porém, tem um motivo justificado. Quando se acusa a Federação de estar inativa, é porque não compreendem a natureza da atividade que ela desempenha. Essa inatividade parece real, porque a Federação não faz uso da propaganda, quer pela imprensa, quer pelos microfones, do que realiza. Trabalha, serve, de modo que não saiba a mão esquerda o que faz a direita, Demais, fiel aos princípios morais do Espiritismo Cristão, a Federação não é casa de negócio, não pertence a ninguém, mas a todos os espíritas que com ela comungam na propagação dos princípios da Codificação de Kardec. Não tem chefe perpétuo, o seu corpo diretivo é escolhido em assembleia, livremente, democraticamente, espiriticamente. A força da Federação está na sua fidelidade à Doutrina Espírita. Não explora a credulidade pública, mas esclarece, orienta, instrui o homem, para que ele saiba que há na vida terrena grandes riquezas morais e espirituais, às quais vale a pena sacrificar prazeres mundanos e vantagens de ordem material, que não sejam indispensáveis ao bem da família e ao equilíbrio social.

            Temos o dever de respeitar outros credos, assim como a liberdade de pensamento é sagrada para nós. "A cada um, segundo suas obras", diz o Evangelho. Nem por isto, porém, devemos ficar indiferentes à situação daqueles que, cegos e surdos ao bom-senso, se aproximam do perigo e se deixam arrastar por ele. Nosso dever de caridade é alertar o ameaçado, procurando salvá-lo, enquanto é tempo. Desde que nossa advertência seja desprezada, cumpra-se a vontade dos que preferem as aventuras arriscadas e contraproducentes ao viver tranquilo e consciente de quem sabe separar o joio e o trigo, pensando no futuro.

            O pior cego é ó que insiste em não querer enxergar. E ficamos penalizados com isso, porque, às vezes, uma criatura de boa-fé se deixa enlear de tal maneira que se vê dominada pelo farisaísmo irmanado a interesses que não se coadunam com os preceitos cristãos. Como cada qual é responsável pelos seus atos, nada há que fazer, senão prece pelos que erram e persistem no erro. Maior responsabilidade, sem dúvida, assumem os que tomam a si a tarefa de iludir o próximo em proveito de objetivos que não estão de acordo com as lições do Mestre. "Nem todos os que dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, nesse dia, me dirão: Senhor! Senhor! não profetizamos em teu nome? Não expulsamos em teu nome o demônio? Não fizemos muitos milagres em teu nome? Eu então lhes direi em altas vozes: Afastai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade." (Mateus, VII, v. 21-23.)

            Do mesmo modo, aqueles que a todo instante e sem motivo justificável repetem o nome de Deus, devem lembrar-se do que está em Êxodo, cap. 20, v. 7: "Não tomarás o nome de Jeová teu Deus em vão, porque Jeová não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão."

            Cedo ou tarde, os esforços da mistificação serão destruídos pela verdade, pois esta resiste a todas as simulações. Pode demorar, mas revive sempre, porque não há poder na Terra que a derrote.

O pior cego é aquele que não quer ver
Percival Antunes / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Junho 1957

Promessas

                                                               
                                             Ele, porém, respondendo, disse: Não quero.
   Mas, depois, arrependendo-se, foi" 
(Do Evangelho.)

             Declarou Jesus que passaria o Céu e passaria a Terra, mas suas palavras jamais passariam.

            Através de semelhante afirmativa, quis o Mestre assegurar que suas lições atravessariam os séculos e os milênios sem que os milênios e os séculos conseguissem desfigurar lhes o sentido de eternidade.

            Analisemos o trecho que serve de motivo à nossa página de hoje, extraído da "Parábola dos dois filhos", bem conhecida de quantos se dedicam a leituras evangélicas.

            Um homem tinha dois filhos. A um deles, disse: "Filho, vai trabalhar, hoje, na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas, depois, arrependendo-se, foi."

            O segundo, também instado ao trabalho, disse: “Eu vou senhor." Mas não foi. Perguntou Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do Pai?" - E os príncipes dos sacerdotes e anciães do povo que ensinavam no Templo, aquela hora, responderam: o primeiro. Também nós daríamos ao Mestre, sem dúvida, a mesma resposta. Problema de raciocínio...
             
            Todavia, pouco temos aproveitado, no curso de renovadas experiências, da lição que a parábola encerra, em sua contextura simples, sugestiva e profunda. Problema de sentimento, de boa vontade...

            Não é necessário nos reportemos ao tempo em que, ensinando e exemplificando, Jesus transitou pelo Mundo. Fixemos a anotação evangélica, considerando nossas atuais cogitações fragilmente cultivadas, permanecendo, inclusive, no campo religioso que nos é próprio,  o do Espiritismo.

            Não há necessidade de invadir a seara alheia.

            É muito fácil prometer, muito difícil quase sempre, executar a promessa.

            Via de regra, quando entramos em contato com as belezas doutrinárias, tornamo-nos pródigos, fartos e exuberantes na promessa.

            Empolgados pelo sabor da novidade o nosso espírito se engalana e se ornamenta, jubiloso, inclinando-se para brilhantes promessas e exaustivos programas.

            No entanto, quando sobrevém a realidade, percebemos que a aceitação do Espiritismo nos sugere algo diferente: responsabilidades novas, realizações íntimas, substituição de hábitos que os milênios cristalizaram em nossa individualidade ainda defeituosa ...

            No Espiritismo é como se existissem namoro, noivado e casamento.

            Na terceira dessas fases, se o nosso entusiasmo não se baseia na convicção e na lealdade, retraímo-nos, distanciamo-nos da luminosa sementeira que nos daria, no futuro, o equilíbrio e a paz. O progresso, enfim.

            Jesus não podia, nem pode, evidentemente, enganar-se.

            Mais vale dizer "não" e, depois, arrependendo-se, realizar a tarefa, do que dizer “sim" e, depois, insensatamente, fugir ao esforço renovativo.

            Vale menos, na aferição dos valores eternos, o entusiasmo excessivo, que propicia exageradas promessas, do que a firmeza doutrinária, que pontilha de trabalho efetivo e substancial o caminho do servidor bem intencionado.     

            Promessa não cumprida indica, em qualquer parte, leviandade.

            Quem nada promete, mas, depois, refletindo, coloca o coração a serviço do Bem, revela bom senso. E nunca é tarde para agirmos desta maneira, isto é, retificando atitudes inadequadas.

            A "Parábola dos dois filhos" deve ser, necessariamente, objeto da mais acurada meditação.

            Em particular, para nós, espiritistas, porque muito temos recebido do Senhor.

Promessas
Martins Peralva
Reformador (FEB) Junho 1957

Fidelidade à Doutrina Espírita


           

          O Espiritismo, Com a passagem do primeiro Centenário de “O Livro dos Espíritos", obra que iniciou a ciclópica tarefa apostolar de Allan Kardec para a Codificação, entrou numa fase nova, iniciada em 18 de Abril de 1957, com o lançamento do primeiro selo postal espírita no mundo.

            Mais do que nunca, devem os espíritas manter-se unidos em torno da Doutrina, reafirmando pelo trabalho sua fidelidade a Kardec e sua fé inquebrantável no futuro espiritual da Humanidade, através dos ensinamentos da Terceira Revelação. Este é o dever dos que são íntima e substancialmente espíritas, por prezarem os princípios doutrinários e defendê-los através da exemplificação constante. -

            O espírita revela sua condição pelas ações que pratica e também pela involubilidade de suas atitudes. Empresta sua decidida colaboração à obra comum do Espiritismo, não desertando do posto que aceitou, por ter sempre vivas na lembrança estas palavras de Jesus: “A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos." Dado o desenvolvimento extraordinário do Espiritismo, as tarefas de assistência espiritual, moral e material à Humanidade crescem muito depressa, exigindo mais trabalhadores, que se lembrem menos de si mesmos do que do próximo, alimentando o ideal espírita com o altruísmo, sem permitir que a vaidade e o egoísmo empecem o trabalho que devem efetuar.

            A ação espírita, quando perfeitamente subordinada às normas doutrinárias, exerce-se sem bulha, porque os espiritistas devem sempre fazer o bem sem se preocuparem com os agradecimentos dos beneficiados nem com a divulgação de seus esforços nesse sentido. Só assim o trabalho espírita será conforme à Doutrina, pois não há lugar para a egolatria dentro do Espiritismo, nem tão pouco deve haver oportunidade para o endeusamento pessoal.

            Respeitando embora o livre arbítrio de cada um, a Terceira Revelação esclarece e fixa a responsabilidade individual nas tarefas realizadas ou em curso de realização. Há quem goste de chamar a atenção de terceiros para o que faz, a fim de que todos saibam da sua bondade e do seu espírito caritativo, da sua dedicação e do seu pendor para o bem. Quem assim procede não está de acordo com estas palavras do Evangelho: "lgnore a vossa mão esquerda o que a direita der." O orador que ocupa a tribuna espírita mais preocupado com os aplausos do que com a substância de seu arrazoado, é um pobre servo da vaidade. Necessita de amparo espiritual. O esmoler que socorre a miséria, mas deseja testemunhas para o seu ato, é mais infeliz do que o desgraçado a quem socorre. Do mesmo modo, o escritor que se esmera na divulgação de textos escorreitos, sem eximir-se da ânsia de ouvir louvaminhas à sua obra e ditirambos ao seu talento perde seu esforço, imolando-o ao Moloque do orgulho e da presunção.

            O trabalho espírita, seja onde e quando for, exige eficiência, continuidade, discrição e sinoeridade. Sem esses atributos, a ação espírita se dilui, anulando-se no personalismo negativo. O Centenário da Codificação deve sugerir a cada um de nós severa revisão da conduta que vimos tendo na vida. Precisamos reexaminar nossos pensamentos e a diretriz que seguimos. Pode suceder que não estejamos sendo realmente fiéis à Doutrina, desviados em atalhos aparentemente insignificantes. O frequente exame de consciência nos poderá dar uma ideia da fidelidade que supomos guardar à nossa religião, que é a legítima religião cristã, por ser a mais obediente aos ditames de Jesus. Se nos mantivermos estreitamente ligados às lições doutrinárias que nos legou Allan Kardec, então, sim, poderemos ficar tranquilos porque estaremos cumprindo nossos deveres.

            Fidelidade à Doutrina Espírita
F. Salústio

Reformador (FEB) Junho 1957

domingo, 24 de maio de 2015

Cristo em casa

Se desejas extinguir
A sombra que aflige e atrasa,
Não olvides acender
A luz do Evangelho em casa.

Quanto possível, nas horas
De doce união no lar,
Estende a Lição Divina
Ao grupo familiar.

Na chama viva da prece,
O culto nobre inicia,
Rogando discernimento
À Eterna Sabedoria.
Logo após lê meditando
O Texto Renovador
Da Boa Nova sublime,
Que é fonte de todo amor.

Verás a tranquilidade,
Vestida em suave brilho,
Irradiando esperança
Em todo o teu domicílio.

Ante a palavra do Mestre,
Generosa, clara e boa,
A experiência na Terra
É luta que aperfeiçoa.

                                         
Mentiras da vaidade,
Velhos crimes da avidez,
Calúnia e maledicência
Desaparecem de vez...

Serpentes envenenadas
Do orgulho torvo e escarninho,
Sob o clarão da verdade,
Esquecem-nos o caminho.

Dificuldades e provas,
Na dor amargosa e lenta,
São recursos salvadores
Com que o Céu nos apascenta.

E o trabalho por mais rude,
No campo de cada dia,
É dádiva edificante
Do bem que nos alivia.


É que, na Bênção do Cristo,
Clareia-se-nos a estrada
E a nossa vida ressurge,
Luminosa e transformada.


Conduze, pois, tua casa
À inspiração de Jesus.
O Evangelho em tua mesa
É pão da Divina Luz.

Cristo em casa
Casimiro Cunha
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1957


Dívida e Resgate

                Na antevéspera do Natal de 1856 dona Maria Augusta Correia da Silva, senhora de extensos haveres, retomara à fazenda, às margens do Paraíba, após quase um ano de passeio repousante na Corte.

            Acompanhada de numerosos amigos que lhe desfrutariam a festiva hospitalidade, a orgulhosa matrona, na tarde chuvosa e escura, recebia os sessenta e dois cativos de sua casa que, sorridentes e humildes, lhe pediam a bênção.

            Na sala grande, nobremente assentada em velha poltrona sobre largo estrado que lhe permitisse mais amplo golpe de vista, fazia um gesto de complacência, a distância, para cada servidor que exclamava de joelhos:

            - Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Cristo, “sinhá”!

            - Louvado seja! - acentuava dona Maria com terrível severidade a transparecer-lhe da voz.

            Velhinhos de cabeça branca, homens rudes do campo, mulheres desfiguradas pelo sofrimento, moços e crianças desfilavam nas boas vindas.

            Contudo, em ângulo recuado, pobre moça mestiça, sustentando nos braços duas crianças recém-nascidas, sob a feroz atenção de capataz desalmado, esperava a sua vez.

            Foi a última que se aproximou para a saudação.

            A fazendeira soberana levantou-se, empertigada, chamou para junto de si o cérbero humano que seguia de perto a jovem escrava, e, antes que a pobrezinha lhe dirigisse a palavra, falou-lhe, duramente:

            - Matilde, guarde as crias na senzala e encontre-me no terreiro: Precisamos conversar.

            A interpelada obedeceu sem hesitação.

            E afastando-se do recinto, na direção do quintal, dona Maria Augusta e o assessor de azorraque em punho cochichavam entre si.

            No grande pátio que a noite agora amortalhava em sombra espessa, a mãezinha infortunada veio atender à ordenação recebida.

            - Acompanhe-nos! - determinou dona Maria, austeramente.

            Guiadas pelo rude capitão do mato, as duas mulheres abordaram a margem do rio transbordante.

            Nuvens formidandas coavam no céu os medonhos rugidos de trovões remotos...

            Derramava-se o Paraíba, em soberbo espetáculo de grandeza, dominando o vale extenso.

            Dona Maria pousou o olhar coruscante na mestiça humilhada e falou:

            - Diga de quem são essas duas “crias" nascidas em minha ausência!

            - De “Nhô” Zico, "sinhá"!

            - Miserável! - bradou a proprietária poderosa - meu filho não me daria semelhante desgosto. Negue essa infâmia!

            - Não posso! não posso!

            A patroa encolerizada relanceou o olhar pela paisagem deserta e bramiu, rouquenha:

            - Nunca mais verá você essas crianças que odeio...

            - Ah! “sinhá” - soluçou a infeliz - não me separe dos meninos! não me separe dos meninos! pelo amor de Deus!..

            - Não quero você mais aqui e essas crias serão entregues à venda.

            - Não me expulse, "sinhá"! não me expulse!

            - Desavergonhada, de hoje em diante você é livre!

            E depois de expressivo gesto para o companheiro, acentuou, irônica:

            - Livre, poderá você trabalhar noutra parte para comprar esses rebentos malditos.

            Matilde sorriu, em meio do pranto copioso, e exclamou:

            - Ajude-me, “sinhá” ... Se é assim, darei meu sangue para reaver meus filhinhos...    
        
            Dona Maria Augusta indicou-lhe o Paraíba enorme e sentenciou:

            - Você está livre, mas fuja de minha presença. Atravesse o rio e desapareça!

            - "Sinhá", assim não! Tenha piedade de sua cativa! Ai, Jesus! Não posso morrer..

            Mas, a um sinal da patroa, o capataz envilecido estalou o chicote no dorso da jovem que oscilou, indefesa, caindo na corrente profunda.

            Socorro! Socorro, meu Deus! Valei-me! Nosso Senhor! - gritou a mísera, debatendo-se nas águas.

            Todavia, daí a instantes, apenas um cadáver de mulher descia rio abaixo, ante o silêncio da noite...

*

            Cem anos passaram...

            Na antevéspera do Natal de 1956, dona Maria Augusta Correia da Silva, reencarnada, estava na cidade de Passa-Quatro, no sul de Minas Gerais.

            Mostrava-se noutro corpo de carne, como quem mudara de vestimenta, mas era ela mesma, com a diferença de que, ao invés de rica latifundiária, era agora apagada mulher, em rigorosa luta para ajudar ao marido na defesa do pão.

            Sofria no lar as privações dos escravos de outro tempo.

            Era mãe, padecendo aflições e sonhos... Meditava nos filhinhos, ante a expectação do Natal, quando a chuva, sobre o telhado, se fez mais intensa.

            Horrível temporal desabava na região.

            Alagara-se tudo em derredor da casa singela. A pobre senhora,' vendo a água invadir-lhe o reduto doméstico, avançou para fora, seguida do esposo e das crianças. 

            As águas, porém, subiam sempre em turbilhão envolvente e destruidor, arrastando o que se lhes opusesse à passagem.

            Diante da ex-fazendeira erguia-se um rio inesperado e imenso e, em dado instante, esmagada de dor, ante a violenta separação do companheiro e dos pequeninos, tombou na caudal, gritando em desespero: 

            - Socorro! Socorro, meu Deus! Valei-me Nosso Senhor!

            Todavia, decorridos alguns momentos, apenas um cadáver de mulher descia corrente abaixo, ante o silêncio da noite ...

*

            A antiga situante do Vale do Paraíba resgatou o débito que contraíra perante a Lei.

Dívida e Resgate

Irmão X
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Junho 1957