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domingo, 29 de março de 2015

Escolas de Espiritismo

Escolas de Espiritismo

por Roque Jacintho


Reformador (FEB) Maio 1971

            Cada reencarnação representa, para a alma, parte de um longo e laborioso curso de sabedoria, na Universidade da Vida. No espaço que medeia entre o berço e o túmulo, estaremos submetidos a um bombardeio de estímulos, organizado pelos Planos Superiores, a fim de que, a pouco e pouco, atinjamos a maturação do senso intelectivo e do senso moral.

            Trazemos, em decorrência, de acordo com as experiências a que nos submeteremos, uma bagagem de interesses inatos, que sempre nos conduzirão a fechar o circuito da atenção com a aprendizagem programada e, quase sempre, nunca além desse programa. Evidentemente que, pelo exercício de nosso livre arbítrio, poderemos alterar de modo substancial o rumo de nossas lições, quer incorporando-as de modo substancial, quer adiando e transferindo aulas inestimáveis.

            No campo religioso, essa disposição é notável.

            Conserva paridade, em alguns ângulos, com a aprendizagem intelectual ou manual a que nos adestramos, para definir uma profissão.

* * *

            Na área de conhecimentos de fenômenos palpáveis, visíveis, chamados materiais por impressionar-nos os sentidos comuns, ninguém se atreveria, na atualidade, a programar um curso integral de todos os ramos do saber, ali colocando criaturas medianas ou inframedianas, como somos.

            Pela complexidade da cultura, amiúde frequentamos cursos de especialização, preferentemente seguindo a linha de nossos impulsos ou tendências naturais.

            Impossível ser músico, poeta, compositor, matemático, químico, biólogo, poliglota, astrofísico, pedreiro, torneiro, mecânico, tipógrafo, tecelão, médico, psicólogo, padeiro, sociólogo... ao mesmo tempo!

            Seria atingir as raias do absurdo!

* * *

            No campo moral, a complexidade não é menor.

            Impossível voltar-nos integralmente para vencer, duma só vez, a rapina, a avareza, o egoísmo, o orgulho, a vaidade, a preguiça, o desânimo, a maledicência... e adquirir a fraternidade, o amor ao trabalho, a dedicação às tarefas, a humildade legítima, a intuição ampla da imortalidade, a fé religiosa, a penetração dos segredos das leis espirituais, a mediunidade, a bondade, a gentileza, a ternura, a renúncia, o amor ao próximo, o amor ao Pai... numa única reencarnação!

            Assim como trazemos ideias inatas, que nos definem a preferência por esta ou aquela atividade profissional, transportamos no íntimo os impulsos que nos colocam frente a frente com expiações e provações capazes de arejar e enriquecer o mundo espiritual, levando-nos a vencer, um a um, os degraus de nossa imperfeição anímica.

* * *

            É mais do que comprovado, pela Ciência, que duas ou mais criaturas colocadas diante da mesma situação, recolhem experiências e conclusões diferentes. Vemos o mundo pelos nossos olhos. A coleta de dados, a sua computação nos departamentos de nossa alma, a elaboração de respostas aos estímulos externos, estão condicionados à maturidade de nosso senso moral.

            Observemos no cotidiano:

            - no anúncio de uma calamidade pública, uns ficam indiferentes, outros se regozijam pela dor alheia, alguns choram desesperados e outros auxiliam;

            - na ocorrência de pequeno desastre familiar, cada componente do círculo consanguíneo reage em comportamento diferenciado;

            - em resposta a um apelo de caridade, poderemos anotar o espocar da ironia, a indiferença ao chamamento maior, a preguiça de vencer os compromissos rotineiros, a surdez súbita e conveniente e a adesão incondicional.

            O Evangelho do Senhor, a exemplo, é um roteiro de luz, igual para todos e decantado por todos nós. Penetrar-lhe o sentido singelo de imortal verdade,  aceitá-lo por único caminho, descobrir o espírito que se encontra sob a letra, no entanto, é uma questão de maior ou de menor amadurecimento nas coisas da Vida Eterna.

***

            O Espiritismo, corporificando-se entre os homens através da genialidade de um Allan Kardec, encontrou um mundo que se caracteriza pela disparidade e até pelo conflito evolutivo. Almas iluminadas misturam-se conosco, criaturas que nos arrastamos penosamente pelas aleias da existência. Grandes rasgos de amor ao próximo são enxovalhados pelo egoísmo avassalante. O orgulho que campeia à solta ombreia, repetidamente, com a humildade que constrói a pedra angular do mundo novo. Nesse panorama, a Doutrina surgiu para renovar a criatura. Longe, porém, de ser uma ginástica mental, à semelhança de credos e seitas seculares, aparece-nos como um exercício espiritual vivo, autêntico. Sem criar um modelo artificioso de comportamento para o homem, exigindo que cada um se ajuste ao inusitado figurino, procura desenvolver as qualidades profundas de cada um de nós, assegurando-nos que em cada pecador existe um santo.  É o método de Jesus que se revive.

* * *

            Pela disparidade evolutiva que nos caracteriza e por destinar-se a todos, sem exclusão de ninguém, a Doutrina Espírita traz uma dinâmica diferente para a sua aprendizagem, muito diversa das habituais. Cada um deve aprender por si. Não que se dispense, é claro e evidente, a permuta de experiências, que recolhemos nos estudos coletivos. Essas reuniões, contudo, não substituem a vivência pessoal e própria.

            Assim é que escolas e cursos formais de Espiritismo são inviáveis. O autodidatismo moral não é um mal. É insubstituível!

            A maior aquisição espírita, hoje e sempre, é a reforma íntima. Sem ela, todos os conhecimentos de Doutrina não passariam de meros exercícios de inteligência, ilustrando-nos a mente, sem iluminar o coração.

            Se frequentássemos um curso de Espiritismo, decorando regras morais, memorizando a mecânica de leis, devorando pontos e apostilas, respondendo presente a cada aula, não estaríamos autorizados a exigir ou receber um certificado de conclusão do curso.

            O Espírito da Verdade, em "O Evangelho segundo o Espiritismo", remete-nos um conceito que invalida qualquer pretensão nesse campo: "Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más".

* * *
            Nos cursos comuns de nossas escolas, hoje, procuram agrupar alunos pelo seu quociente intelectual, a fim de tentar dinamizar e tornar mais econômica a aprendizagem.

            Numa escola de Espiritismo, teríamos de estabelecer uma seleção de quociente espiritual classificando os mais virtuosos ou com mais condições de interiorizar ensinamentos.

            Quem se atreveria a tal seleção?

            Quem nos asseguraria - se pusermos de lado a vaidade e o orgulho - que não rejeitaríamos, nesse inusitado vestibular, uma aluna chamada Maria Madalena, por falta de dotes morais; um Simão Pedro, por ser iletrado e pela vulgaridade de suas explosões; um Saulo de Tarso, por estar cego de paixão no exigir o cumprimento de leis ultrapassadas?

            Chico Xavier, de há quarenta anos, seria reprovado. Era um mero caixeirinho de armazém, sem curso médio.

            E onde ficaria um Arigó, com sua rudeza?

            E nosso Batuíra, dono de casas de aluguel, metido a jornalista, enterrado num porão escuro a compor artigos "sem nenhum gosto refinado"?

            Bezerra de Menezes já haveria passado da idade.

* * *

            Espiritismo é bom, por ser dos Espíritos.

            Somos coadjuvantes e não o papel central na peça.

            Se tentarmos sistematizá-lo, condicioná-lo a programas didáticos, organizá-lo em moldes imediatistas ou pelos padrões vigentes em nós mesmos, transformá-lo em mais uma seita ou igreja a disputar a direção de nosso mundo - a limitação
 imensurável de nossa evolução- terminará por inaugurar uma nova e dolorosa fase de profissionais do Espiritismo, vivendo da Doutrina e não para a Doutrina, liquidando uma de suas mais belas e profundas expressões que é o trabalho gratuito e a condição de sacerdotes no altar de nossa consciência.


sábado, 28 de março de 2015

O Evangelho Redivivo

O Evangelho Redivivo
por Francisco Thiesen
Reformador (FEB) Março 1971

            Pergunta: Apresentando o Espiritismo, na sua feição de Consolador prometido pelo Cristo, três aspectos diferentes: cientifico, filosófico e religioso, qual desses aspectos é o maior?

            Resposta: Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado desse modo, como um triângulo de forças espirituais. A Ciência e a Filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a Religião é o ângulo divino que a liga ao Céu. No seu aspecto cientifico e filosófico a doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas, como outros movimentos coletivos, de natureza intelectual, que visam ao aperfeiçoamento da Humanidade. No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus-Cristo, estabelecendo a renovação definitiva do homem para a grandeza do seu imenso futuro espiritual. (Emmanuel – “O Consolador”, Francisco Cândido Xavier, 5ª ed., 1970, FEB, pág. 15).

            Dissertando sobre a historicidade das letras evangélicas com a tranquila serenidade dos espíritos que conhecem os fatos, Emmanuel, na obra "A Caminho da Luz", de Francisco Cândido Xavier, págs. 112-3, diz-nos que "os mensageiros do Cristo presidem à redação dos textos definitivos, com vistas ao futuro, não somente junto aos Apóstolos e seus discípulos, mas igualmente junto aos núcleos das tradições". "A grandeza da doutrina (cristã) não reside na circunstância de o Evangelho ser de Marcos ou de Mateus, de Lucas ou de João; está na beleza imortal que se irradia de suas lições divinas, atravessando as idades e os corações". Depois de aduzir outras considerações, assim conclui o seu pensamento: "Portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as almas e, em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos".

            Em trabalho anterior ("As Minhas Palavras não Passarão", "Reformador" de fevereiro de 1971) (já divulgado neste blog) evidenciáramos a enérgica determinação de Paulo de Tarso quanto à redação do maior número possível de anotações sobre a Doutrina e a Obra de Jesus por quantos conhecessem situações e fatos não registrados por Levi (Mateus), convicto de nisso insistir por inspiração do Alto. O seu esforço alcançou a superior finalidade programada, já que os textos definitivos, grafados sob as vistas dos Enviados do Senhor, relatando os ensinos e os fatos identificados em núcleos de tradições orientados de igual modo pelos Arautos do Céu, chegaram até nós para ficarem como eterna e serena Luz, clareando e suavizando os destinos humanos.

            Sabendo que os homens não podiam assimilar-lhe os ensinamentos numa só reencarnação, o Divino Mestre dosou-os de sorte a que o Consolador, no século propício do seu evolver, viesse tornar claras as palavras recolhidas pelos evangelistas. E o Consolador veio, no século XIX, quando o admirável apóstolo Allan Kardec,  guiado pelo Espírito da Verdade, lançou na Terra a Codificação do Espiritismo - a Doutrina dos Espíritos, de que as obras "O Livro dos Espíritos", "O Livro dos Médiuns", "O Evangelho segundo o Espiritismo", "O Céu e o Inferno", "A Gênese", afora outras, constituem lhe a base e a estrutura, numa afirmação de perenidade da maior e mais firme edificação de todos os tempos.

            A Doutrina do Espírito da Verdade, restaurando e desenvolvendo o Cristianismo do Cristo, por ordem sua e sob sua misericordiosa direção, na conformidade de esquema vinculado à evolução dos espíritos, desencarnados ou reencarnados, é por excelência aberta e vai-se ampliando, completando ao longo dos séculos, na busca incessante dos corações, onde quer que se encontrem. Como prolongamento ideal das linhas da cruz, no alto do Calvário, dirige-se horizontal e verticalmente ao Infinito, em demanda das muitas moradas do espírito na casa do Pai.

            E, em sendo ela de tal grandeza e excelsitude, jamais esteve ou estará na arbitrária dependência de um homem ou grupamento humano, consoante claro e oportuno ensinamento do próprio missionário de Lyon.

            O Espírito Humberto de Campos, no livro "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", à pág, 137 (médium Francisco Cândido Xavier, 8ª edição da FEB) nos informa que "segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário (Allan Kardec), no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé".

            Sendo ininterrupto o fluxo da Revelação, a codificação da Doutrina Espírita receberia, como recebeu, a valiosa contribuição de outros espíritos reencarnados, capacitados e inspirados, na desincumbência de desenvolver com abundância de detalhes, analiticamente, cada um dos aspectos do Espiritismo, todos eles apreciados com sabedoria por Allan Kardec que, no entanto, não os detalhou, face à natureza específica de sua gigantesca missão.

            Coube a J. B. Roustaing a penetração analítica no aspecto religioso do Espiritismo e, para bem desempenhar-se de tão sublime quão honrosa tarefa, buscou o conhecimento necessário ao intercâmbio com o Invisível nas obras de Allan Kardec.

            O Codificador, que legou ao mundo "O Evangelho segundo o Espiritismo", sob a orientação e com a colaboração dos Espíritos Superiores, não se pronunciou a respeito da totalidade dos textos evangélicos, detendo-se, como ele próprio o advertira, tão-só nos ensinos morais, incontroversos, fundamentais para a vivência do Cristianismo e a transformação moral dos homens. E através dos séculos será essa obra um bendito farol deitando claridades celestes no mar tempestuoso dos testemunhos humanos.

            O Cristo, todavia, cujas palavras não passariam, não nos legou a sua Doutrina para que grande parte dela ficasse indefinidamente encoberta sob o véu da letra, impermeável às incursões do pensamento sequioso da linfa pura da eterna Fonte da Vida. "Batei e abrir-se-vos-á", disse-nos Ele.'

            A "Revelação da Revelação", ou "Os Quatro Evangelhos", é a obra monumental que aborda, na sua inteireza, o aspecto religioso do Espiritismo, a organização do trabalho da fé iniciada por vontade soberana do Alto e que teve em Roustaing o instrumento humano qualificado, como a Codificação teve em Allan Kardec o instrumento preciso ao trabalho de síntese.

            Os textos integrais, definitivos, insuscetíveis de alterações, preservados e disponíveis na atualidade, segundo ordenação sábia e amorosa de eterna unidade e infinita universalidade, foram em minúcia explicados, interpretados, conciliados por aqueles mesmos Espíritos que na Terra acompanharam o Divino Mestre, participando das pregações evangélicas - os apóstolos; ou recolhendo em pergaminhos e peles os seus ensinos - os evangelistas; além de Moisés, que no Sinai obteve do Senhor as Tábuas da Lei, e que em reencarnações sucessivas foi Elias e João Batista, este último contemporâneo e precursor do Messias.

            Com a "Revelação da Revelação", o Evangelho segundo Mateus, Evangelho segundo Lucas e Evangelho segundo Marcos - denominados sinóticos ou concordantes - e o Evangelho segundo, João, passam a integrar, efetivamente, em espírito e verdade, o Evangelho Redivivo, que é um e único, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo, no qual não há substancialmente contradições, incorreções ou impropriedades mas somente Luz intensíssima irradiando sem cessar em todas as direções conscienciais do evolutir dos espíritos, por veicular o Cristianismo do Cristo, restaurado em sua majestosa simplicidade e pureza pela Doutrina dos Espíritos.

            Ainda assim, porém, a obra empreendida por Roustaing - e é ele quem no-lo diz - "é apenas um introito destinado a preparar a unidade de crença entre os homens", donde se infere que a "organização do trabalho da fé" referida pelo Espírito Humberto de Campos: foi iniciada mas não concluída, sendo lícito admitir-se a ideia de que o aspecto religioso do Espiritismo é suscetível de novas,  contínuas e mais avançadas revelações, na exata medida em que os espíritos forem evoluindo. Desencarnados ou reencarnados, todos têm, no nível do progresso espiritual alcançado pela coletividade. Inclusive, por certo, no seio da coletividade espírita, como indivíduos, a sua própria "zona de compreensão , como diz Emmanuel, ou "zona lúcida" como a denominou Paul Gibier.

            A Federação Espírita Brasileira, desde o início de suas atividades, em 1884, empreendeu o estudo e a divulgação da obra "Os Quatro Evangelhos", estudo que leva a efeito em razão do programa consubstanciado em seus próprios estatutos. Em 1938, com a publicação do livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", o Mundo Invisível referendou o seu programa inclusive e explicitamente nesse ponto. Mas não ficou aí. Revelou a responsabilidade do nosso País em relação à cristianização da Humanidade ao proclamá-lo Pátria do Evangelho. E mais: ao longo dos últimos quarenta anos confiou-nos valiosíssimas obras doutrinárias em número que ascende a mais de uma centena versando sobre todos os aspectos da Codificação do Espiritismo e mui especialmente com pertinência ao Evangelho, ao trabalho da fé cuja organização, com Roustaing, se iniciara, e com outros obreiros, pelo profetismo ou via medianímica, prosseguirá sem solução de continuidade, realizando a lenta e progressiva unidade de crença entre os homens, oferecendo a cada um deles uma mensagem compatível com a "zona de compreensão" individualmente alcançada.

            "Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; Instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo se encontram todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram". (O Espírito da Verdade, Paris, 1860, pág. 124, de         "O Evangelho segundo o Espiritismo", Allan Kardec, 57ª edição da FEB, 1970).

            A FEB, preparando para o 1º quadrimestre de 1971 a 5ª edição da obra de Roustaing (útil inclusive a consultas, por conter diversos e riquíssimos índices elaborados por seu erudito tradutor, o Dr. Guillon Ribeiro), satisfaz a justa expectativa dos espíritas estudiosos do Brasil e prossegue no cumprimento do seu programa, o programa da Casa de Ismael no coração do mundo.

            Tornando possível aos estudiosos e aos espíritas responsáveis por trabalhos de direção nas casas e centros da Doutrina o acesso a esse verdadeiro "curso superior de Espiritismo" a FEB não ignora os riscos editoriais face ao investimento numa edição de obra contendo 2.200 páginas em 4 volumes, e os assume na certeza de ser o sacrifício material altamente compensador em termos de semeadura espiritual.

            Coerentes com as lições do Evangelho, somos de opinião que a obra de Roustaing ainda não pode ser endereçada a todos os espíritas, pois o seu estudo requer o prévio conhecimento das obras básicas da Codificação e de outras subsidiárias, ainda não suficientemente estudadas por muitos dos nossos companheiros (todas as de Allan Kardec, de Léon Denis, de Gabriel Delanne, de Camille Flammarion e outros). De outro lado, cumpre-nos reconhecer que razões econômicas são muita vez impeditivas de sua aquisição, pois apesar de calculado pela editora com base no mínimo possível, o seu preço não é baixo.

            Mas, nem por isso ficarão os espíritas privados do conhecimento da obra. Os residentes na Guanabara ou adjacências poderão acompanhar-lhe os estudos semanais, às terças-feiras, na FEB. E todos encontrarão a "Revelação da Revelação" resumida num único volume na obra magistral de Antônio Luiz Sayão, "Elucidações Evangélicas", prestes a esgotar-se, mas com a 5ª edição já em preparo. É livro de grande mérito, por apresentar em linguagem concisa a interpretação dos Evangelhos sinóticos. Igualmente em um só tomo, breve todos poderão edificar-se com a leitura da "Divina Epopeia" de Bittencourt Sampaio. "Trasladando para versos heroicos o Evangelho segundo João, não tive outro fim senão o de elevar a Deus o meu espírito, pedindo ao Vidente do Apocalipse as asas de sua águia de Patmos para remontar num voo aos pés da Divindade" (palavras do autor na Advertência,  à pág. 15, cuja 3ª edição está em estudo. É livro baseado em Roustaing, o qual, com “Elucidacões Evangélicas" constitui satisfatório resumo de "Os Quatro Evangelhos".

            Finalizando, queremos informar que não discutiremos aqueles pontos em razão dos quais alguns espíritas discordam da obra em exame, mormente o do corpo fluídico, pois, estribados na erudição e clarividência que nos faltam, muitos já o fizeram, inclusive Emmanuel ("Os homens devem saber que o Missionário Divino não viveu a mesma lama de suas existências". "Fora ridículo proibir-se a elucidação. O que será de evitar-se, zelosamente, é a azedia da polêmica". "Os homens ainda não atingiram o estado de renúncia pessoal para lucrarem, espiritualmente, com as discussões acaloradas". "Infenso, pois, a qualquer dissensão, nesse sentido, venho falar dele, no limiar deste livro, como os astrônomos que vão estudar no livro imenso da natureza celeste". "Tentando aprofundar a questão da personalidade do Divino Mestre, sinto meus pobres olhos confundidos numa vaga imensa de relâmpagos ofuscadores" - do prefácio à "Vida de Jesus", de Antônio Lima, edição FEB). Confiamos no Senhor, porém, em que os espíritas que aceitam o "amai-vos", como o primeiro ensinamento do Espírito da Verdade, não contestarão a legitimidade do estudo e da divulgação da obra de Roustaing: e os que obedecem também ao segundo, "instruí-vos", não lhe recusarão o mérito. 

Protetores Terrestres

Protetores terrestres
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Maio 1956

            Em nos reportando aos benfeitores celestiais, não nos esqueçamos dos protetores terrestres.

            Muita gente espera levianamente a proteção dos anjos, quando ainda não sabe nem mesmo apreciar o esforço enobrecente dos homens de bem.
           
Sem dúvida, mais tarde alcançaremos o paraíso...

            Todavia, por agora, é preciso vencer os degraus que nos separam da glória divina.
            
           Esses degraus jazem colocados à disposição dos nossos impulsos de melhoria, de regeneração, de auto aprimoramento.

            Aqui, permanece simbolizado num pai afetuoso, que nos convida ao altar da consciência reta, além, é um coração maternal, que nos induz à bênção da sublimação pelo amor e pelo sacrifício... Acolá, é um diretor de trabalho, aparentemente austero, que nos conclama, pelo exemplo, ao soerguimento de nossa dignidade pessoal no dever bem cumprido, mais além, é um amigo, supostamente áspero, que nos compele ao desempenho das obrigações contraídas.

            Subir ao Céu não representa caminhar sob chuvas de flores.

            O trilho do próprio Cristo para o Alto terminou na cruz que lhe antecipou a imperecível ressurreição.

            Não te imobilizes, desse modo, na oração ociosa ou na fé inoperante, acreditando que os Mensageiros do Amor te assinalem as rogativas nascidas, muita vez, do propósito de conforto prematuro ou de lamentável insubmissão.

            Lembra-te de que as Leis do Senhor estão refletidas, tanto quanto nos permite a evolução já alcançada, nas leis humanas que nos dirigem os movimentos, e aprendamos a reconhecer nos lidadores do trabalho construtivo e nos missionários do bem os respeitáveis instrutores que nos compete não somente admirar, mas assimilar e seguir.

            Recordemos que, na hierarquia real da vida, jamais inverteremos a ordem que nos rege os destinos.

            Ouçamos, atenciosamente, os benfeitores terrestres a fim de merecermos contato com os orientadores celestiais.

            Sem dever corretamente atendido, não há direito consolidado.

            Sem criaturas de bem, não há bem para as criaturas.


            O primeiro passo para a conquista do Céu há de ser dado por nós na Terra, e, por isso, antes de reclamar o socorro dos anjos, imitemos cada dia os grandes trabalhadores da prosperidade comum que formam na Humanidade os padrões vivos do bem, na vanguarda do progresso e da luz. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Espiritismo e Espíritas

Já foi postado mas não custa reler...





Espiritismo
e Espíritas

Martins Peralva

Reformador (FEB) Fev 1962

            Qualquer movimento que possa constituir ameaça à integridade doutrinária e moral do Espiritismo encontra sempre os espíritas unidos, coesos, pensando em termos de homogeneidade, firmes, afinal, na defesa e na preservação dos seus augustos princípios.

            Toda vez que irmãos nossos, operosos e cultos e de cuja boa intenção e bons propósitos não temos o direito de duvidar, tentam introduzir na seara espírita certas inovações que estão em desacordo com os seus fundamentos, que, para todos nós, devem ter um sentido sagrado, porque divino, inclusive procurando misturar dois ingredientes que reputamos inconciliáveis, incompatíveis - Espiritismo e Política - a reação se faz, pronta, inevitável, imediata.

            Allan Kardec e quantos lhe seguem a orientação superior, sábia e ponderada, bem assim os legítimos Instrutores da Vida Mais Alta, são incansáveis em reiteradas afirmativas de que o Espiritismo é movimento espiritual.

            Doutrina essencialmente espiritualizante.

            O insigne mestre lionês define-o por filosofia que estuda as leis que regem o intercâmbio entre o mundo físico e o extra físico.

            Amigos espirituais categorizados conceituam-no como revelação divina para a renovação fundamental dos homens.

            Obreiros do campo terrestre, encarnados, apontam-no como doutrina iluminativa, destinada a encaminhar as criaturas para o Bem, para a Moral, para a Cultura superior, para os misteres da Fraternidade.

            Léon Denis declara que o Espiritismo abre perspectivas novas à Humanidade, iniciando-a nos mistérios da vida futura e do mundo invisível.

            Apesar disso, de vez em quando despontam iniciativas, que pessoalmente consideramos menos inspiradas, insinuando movimentos não só desnecessários, mas, sobretudo, inconvenientes, por sua manifesta e inequívoca incompatibilidade com o espírito da Doutrina.

            Tais iniciativas, esposadas, via de regra, por minoria aritmeticamente inexpressiva, são fatalmente rechaçadas, pelo menos assim o têm sido até hoje, nada restando aos seus propugnadores senão o retraimento, não sabemos nós se em recuo estratégico ou definitivo.

            Toda a família espírita levanta-se, altaneira e esclarecida, consciente e firme, para a decidida reação que repercute, vigorosa, por todos os rincões da Pátria do Evangelho.

            E a iniciativa, muita vez convertida em teses, é unanimemente rejeitada em congressos, concentrações, etc.

*

            Nessas horas de extrema gravidade para o Espiritismo e de indisfarçável responsabilidade para os espíritas, todos se unem.

            Todos se entendem, se harmonizam, se articulam para a negação in limine da ideia. A família espírita brasileira se manifesta como se fora uma orquestra muito bem ensaiada, onde cada músico, sob a batuta do maestro, desempenha o seu papel com engenho e arte, com aprumo e beleza.

            A orquestra é a Codificação, austera e respeitável.

            O maestro é Allan Kardec, o inconfundível discípulo de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Os músicos somos nós, os espíritas, herdeiros do magnífico patrimônio.

            Numerosos companheiros comparecem às tribunas ou escrevem crônicas e artigos, moderados mas incisivos, nos quais proclamam, alto e bom som, que o Espiritismo e as instituições espíritas devem ficar à margem das organizações políticas, fora das atribuições  que competem a César, afastados de atividades que se não integram no corpo da Doutrina.

            A função do Espiritismo e dos Centros Espíritas é encaminhar as criaturas para Deus. Educá-las para a vida superior.

            Amparar-lhes o coração nas provas rudes, nos sofrimentos morais e físicos.

            Esclarecê-las, afinal, convenientemente, com base no Evangelho do Mestre, a fim de que possam elas dirigir seus próprios passos; proceder corretamente; disciplinar os sentimentos; conduzir-se dignamente na sociedade inclusive na esfera das atividades políticas.

*

            Em hipótese alguma devemos colaborar para a aproximação do Espiritismo com a Política, o que, a nosso ver, poderia representar um começo, sutil é bem verdade, de constantinização da Doutrina.

            Qualquer tentativa nesse sentido, agora ou mais tarde, deverá encontrar a coletividade espírita em posição de alerta, em fraterna observação.

            Movimentos dessa natureza, objetivando o matrimônio de elementos tão opostos, caracteristicamente antagônicos, deverão encontrar a família espírita sempre unida, solidamente congregada, não para condenar ou ferir o irmão que os aceita, mas, sim, para, estreitando-o ao peito, reconduzi-lo amorosamente ao pensamento justo, ao raciocínio adequado.

            Nessas horas, sabem os espíritas entender-se.

            Calam-se, de improviso, os pruridos pessoais.

            Cessam as divergências.

            Dissipam-se possíveis mal-entendidos, olvidam-se diversidades de interpretação doutrinária.

            Formam um só bloco, expressam um só pensamento, tomam a mesma atitude, o espírita religioso, o filosófico, o científico.

            Allan Kardec é o denominador comum.

            Jesus-Cristo é o Supremo Guia.

            Erguem a voz, todos, do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, para o não definitivo, embora fraterno.

            E completam: No Espiritismo não deve haver, jamais, lugar para movimentos que se assemelhem a ligas eleitorais.

            A Doutrina, que o missionário de Lyon codificou, sob o comando e supervisão dos Espíritos Superiores, prepostos do Cristo, é, substancialmente, de libertação individual.

            Sua finalidade, precípua, inconfundível, é quebrar os grilhões da ignorância e do atraso moral da Humanidade terrestre.

            Seu objetivo, indisfarçável, é destruir o formalismo, em qualquer de suas expressões e significados.

            O papel da Doutrina Espírita é operar, junto à inteligência e ao coração das criaturas humanas, no sentido de reconduzi-las ao Pai, pela superação de suas fraquezas.

*

            Aquele que deseje participar de atividades políticas, que o faça como cidadão comum, com a sua inteira e exclusiva responsabilidade pessoal.

            Todo brasileiro, inclusive o espírita, tem o dever de votar e o direito de ser votado. Dever e direito absolutamente pacíficos, porque constitucionais.

            Que exerça, no entanto, esse dever, e desfrute, igualmente, desse direito, por sua conta e risco.

            Filie-se ao partido que mais lhe convier, porém exclua o Espiritismo e suas instituições de qualquer participação no assunto.

            Inegavelmente, temos admiráveis companheiros em atividades parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal, nas quais ressalte-se, a bem da verdade - se comportam com dignidade, com bravura moral e com decência.

            Coerentes e sinceros no testemunho da fé espírita-cristã, proclamam-na, corajosamente, sempre que necessário.

            Engrandecem, por seu trabalho, por sua conduta, por seu idealismo em prol das causas nobres, o ideal que cultivam; todavia, nem por isso representam as instituições, nem traduzem o pensamento do Espiritismo, que é impessoal, divino, transcendente, sobrepondo-se, destarte, a pessoas, partidos e acontecimentos.

            Convém não confundir Espiritismo com espíritas.

            Assim sendo, não devem vicejar entre nós movimentos que visem, sutilmente, a comprometer a Doutrina Espírita.

*

            A autoridade moral de uma religião - é interessante nunca esquecer esta verdade histórica! - está na razão direta do seu distanciamento das vantagens humanas.

            Sua respeitabilidade é tanto maior quanto maior for a sua desvinculação dos interesses meramente terrestres, transitórios e perecíveis, em sua feição política ou financeira.

            Seu acatamento é tanto maior quanto mais ausente venha ela a encontrar-se dos banquetes de César.

            Essa autoridade, essa respeitabilidade e esse acatamento começariam a decrescer, a declinar, a empobrecer-se, a cadaverizar-se, a decompor-se, à medida que se fossem tornando comuns os interesses, que se tentasse amplexar César e Deus, num conúbio absurdo e detestável, num consórcio tão impossível, no atual estágio evolutivo da Humanidade, quanto a mistura da água ao óleo.

            Semelhante matrimônio - estranho, impossível mesmo de produzir bons frutos - assinalaria na história do Espiritismo uma página realmente lastimável, sob todos os aspectos. Um capítulo não só de angústia e tristeza, de mácula e retrocesso moral, mas, sobretudo, de desvirtuamento, de dissensões, de inevitáveis desavenças geradas pela paixão política, que os prélios eleitorais exacerbam, ampliam, cavando abismos entre os homens.

            Seria o melancólico começo do fim de um movimento espiritualista glorioso e respeitável, austero e acatado, como tem sido o Espiritismo, que há esparzido sobre a Humanidade, num mundo de incertezas e descrenças, de temores e lágrimas, as mais fecundas sementes de consolação e amor, de solidariedade e cultura.

            Seria, finalmente, a conspurcação da água cristalina que a Doutrina Espírita, nestes cento e quatro anos de Codificação, tem ofertado a todos os sedentos do caminho, encaminhando-lhes o pensamento, com segurança e lógica, para elevadas concepções de felicidade e progresso.

24 de Março -do 'Calendário'



24 Março

Vale sempre o conteúdo,
não a flor, mas o perfume;
não o corpo, mas a alma;
não o lenho, mas o lume.

 Cornélio Pires 
por Clovis H R Coelho 
in ‘Cornélio Pires no Rio Grande” 
(G E Messe de Amor  1ª Edição 1992)