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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Auxílio a nós mesmos



Auxílio a nós mesmos
Casimiro Cunha
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Fevereiro 1962

            Pedes conforto aos achaques
            Do sentimento enfermiço;
            Contudo, o nosso remédio
            É o coração no serviço.

                        Mostras largo desalento
                        Parado no olhar mortiço...
                        Isso, porém, muitas vezes,
                        É negação de serviço.

            Carregas irritações
            E espinhos de grande ouriço;
            No entanto, a tranquilidade
            Mora, calma, no serviço.

                        Afirmas que a fé morreu,
                        Que todo amor é postiço;
                        Entretanto, a fé e o amor
                        Vibram, puros, no serviço.

            Declaras-te ignorante,
            De espírito agastadiço,
            Mas o estudo aberto a todos
            É perfeição no serviço.

                        Dizes que nada consegues,
                        Que teu chão é movediço...
                        Experimenta avançar,
                        De braço dado ao serviço.

            Conservas desilusões,
            Nascidas daquilo ou disso;
            No entanto, a tristeza inútil
            É deserção do serviço.

                        Lamentas-te em solidão,
                        Amigos deram sumiço.
                        Mas ninguém caminha a sós,
                        Na devoção do serviço.

            Recorda as lições do mundo...
            Quando a flor é luz e viço,
            É que a planta não se esquece
            De sustentar-se em serviço.

                        Se o carro estaca de pronto,
                        Motor inerte no enguiço,
                        O conserto surge logo
                        Se alguém procura o serviço.

            Oficina em desgoverno,
            Residência em reboliço,
            Ajustam-se de repente,
            Se há direção de serviço.

                        O Espiritismo que abraças,
                        Por divino compromisso,
                        É Jesus pedindo à Terra
                        Mais serviço e mais serviço.




sábado, 28 de junho de 2014

Um médium chamado Gandhi



Um médium chamado Gandhi
José Brígido  /   (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Maio 1962


            Este século teve a glória de possuir, entre os seus homens mais ilustres, a figura quase lendária de Mohandas Karamchand Gandhi, nascido no século anterior, em Porbamdar, Índia, a 2 de Outubro de 1869.

            Sua vida foi extraordinária e mais extraordinária ainda a sua pureza de sentimentos, seu amor extremado à verdade, seu horror à mentira sob qualquer forma e à violência direta ou indireta, clara ou dissimulada.

            Desde cedo, Gandhi sentiu manifestações de mediunidade e, cedendo à «pequena voz interior" que falava a seu espírito (assim ele a denominou}, tornou-se o Guia de milhões de hindus e muçulmanos e a maior força espiritual do século XX. Suas ideias, perfeitamente compatíveis com as do Espiritismo, apontam-no como um dos Espíritos superiores destinados à Terra para a grande e áspera missão de Paz. Foi ele, efetivamente, um "Mahatma" (Alma Grande), pela bondade inata de sua personalidade, assim como pelo profundo senso de justiça verdadeira e de fraternidade geral.

            Como não é nosso objetivo, aqui, oferecer ao leitor largos traços biográficos de Gandhi, trataremos de expor alguns fatos positivos da mediunidade desse homem notável. Em suas confissões, disse que esteve muito longe de ser um menino modelo. Envolveu-se em complicações criadas por um mau companheiro, que ele, jovem franzino, admirava por ser robusto e audaz. Pode, contudo, como se verá adiante, superar o obstáculo. A "voz interior” advertia-o ou estimulava-o,  de quando em quando, porque sua alma era terreno adubado e apto a acolher as sementes prodigiosas lançadas pela “pequena voz interior",  que outra coisa não era senão a voz do Espírito que o assistia, lembrando-lhe, nos primeiros anos da nova encarnação, os compromissos naturalmente assumidos antes, quando ainda no mundo espiritual.

            Desde pequenino, Gandhi recebia de sua mãe, Putlibai, uma orientação espiritualmente acertada, e seu pai, Kaba Gandhi, também tinha exemplos dignos de serem por ele imitados. Foi homem caridoso, solícito e servia de conselheiro a quantos, em dificuldade, necessitavam também de uma palavra serena, justa e adequada a cada caso. Gandhi considerava seu pai um sábio. Tinha razões ponderáveis para isso.

            Putlibai, cheia de doçura, incutia nos filhos os melhores sentimentos.

            - Eu tinha apenas quatro anos - relembrava o Mahatma - e já sabia repetir estas palavras, que minha mãe me ensinava, fazendo repeti-las: “Serei livre, serei corajoso, direi sempre a verdade! Não farei mal a quem quer que seja. Farei sempre o bem!"

            - Assim, afirmava ela, vocês aprenderão, meus filhos, a arte de se governarem a si mesmos.

*

            Muito tímido e frágil, Gandhi tinha medo dos outros meninos. Era dominado por um acanhamento invencível diante de qualquer pessoa.

            Foi nessa época que a sua mediunidade surgiu.  E ele esclarece:

            - A pequena voz interior começara a se fazer ouvir.

            Pôs-se a indagar as razões que proibiam contato com os párias, os “intocáveis”. Considerava absurda a discriminação e ouviu da “pequena voz interior" palavras de reprovação enérgica ao tratamento desigual dispensado a esses pobres seres humanos, vítimas de tremendos preconceitos.        

            Cada vez mais “a voz" se impunha. Na escola havia alguns “intocáveis". Um dia, ele se aproximou furtivamente dum rapazinho pária, que lhe parecia o mais amável de todos, e encostou a medo o dedo em seu braço.

            - Como o meu coração pulsou forte! Acreditei haver praticado um ato de bravura, pois a proibição era terrível. Sentia, porém, como se houvesse reparado uma injustiça - disse o famoso Mahatma.

            Certa vez, pôs os olhos sobre um livro que seu pai deixara sobre a mesa. Folheou-o e, depois, leu-o. Sentiu imensa alegria. Era a história de um grande herói, a história de Shrawana.

            Ela exerceu marcante influência em seu destino, daí por diante. Achava-se empolgado pelas aventuras de Shrawana, quando ouviu de novo a “pequena voz interior" manifestar-se:

            - Eis aí um exemplo que deves seguir! - murmurou ela. Eis um exemplo a seguir! Que herói! Que devotamento a seus pais! Você será capaz de fazer a mesma coisa?

            Mais tarde, o pai levou-o ao teatro e Gandhi viu um drama que envolvia a vida de outro herói: Harichandra.

            A "pequena voz interior" fê-lo ouvir outra vez:

            - Por que todos os seres não são também tão direitos quanto Harichandra? Por que você mesmo não se torna qual Harichandra?

            E acrescenta Gandhi, comovido pela reminiscência: “Noite e dia a pequena voz interior insistia em fazer de mim um herói."

*

            Em determinada ocasião, o menino Gandhi, dominado pelo mau amigo a que acima nos referimos, furtou de um seu tio pequena quantidade de fumo. Ficou decepcionado ao fumar, declarando-o ao amigo. Depois, entretanto, perguntou a si memo:

            - Pobre pequena voz interior, por que não te obedeci?

            Durante um dia inteiro ouviu desta severas recriminações:

            - Que vergonha, que vergonha para ti, Mouhen!

            - Que fazer, pequena voz - respondeu ele. Que fazer?

            Chegou, com o amigo, ambos desesperados, a pensar no suicídio,.

            Em outra ocasião, desejando salvar o mau amigo, que contraíra um débito de vinte e cinco rúpias, apossou-se de um bracelete de ouro maciço, pertencente a seu irmão. E correu a saldar a dívida. Em suas memórias, com admirável sinceridade, diz Gandhi: “Essa ação vil exasperou a voz interior, que não mais me deixou em repouso.

            - Como é que você, você que ama de tal maneira a verdade, se tornou um ladrão? Como poderá doravante ver seus pais sem corar? Como poderá entregar-lhes a fronte para beijar, todas as tardes? Que vergonha, que vergonha para você!"

            - Que devo fazer, pequena voz, que devo fazer? - indagou, aflito. Tu tens razão, eu me sinto humilhado.

            É fácil perceber-se a luta que “a pequena voz" sustentava para evitar a queda irremediável ao inexperiente garoto. Gandhi, envergonhado com seus deslizes, escreveu longa confissão e entregou-a ao pai, certo de que seria por ele amaldiçoado. Mas tal não se deu. Kaba Gandhi compreendeu que aquelas lágrimas que se despejavam dos olhos tementes do filho eram honestas. Em vez de esmagá-lo com críticas ferinas, aconchegou-o ao peito, curando-lhe as chagas da alma com o bálsamo do amor, dando-lhe o estímulo de que precisava para tornar fecundo o arrependimento. Seu pranto caíra sobre a carta do filho amado.

            - Depois disso, confessou Gandhi, certifiquei-me de que o amor é arma mais possante do que a cólera. Isso jamais esqueci...

*

            Poderíamos ir mais longe, demonstrando a ação benéfica da “pequena voz interior", do Espírito amigo que acompanhava os passos daquele que seria, em futuro não muito remoto, o símbolo da Paz, do Amor e da Fraternidade, pregando, com risco da própria vida, a “doutrina da não-violência", que não é uma doutrina banal, mas um compromisso sério e difícil, que exige imenso sacrifício, excepcional coragem e fibra fora do comum.


            - A pequena voz interior havia vencido... concluiu Gandhi - e me restituiu a paz de que eu tanto necessitava! 

'Almas em Desfile'


Almas em Desfile
Vinélius di Marco / Indalício Mendes
Reformador (FEB) Maio 1962

            Entre os livros mais belos e edificantes da literatura espírita, surgidos nestes últimos tempos, apontamos “Almas em Desfile”, do Espírito Hilário Silva, trazido à divulgação através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.

            Emmanuel, com aquele poder de síntese que possui, definiu a obra magistralmente:

            “...Hilário Silva, neste livro, é um retratista de corações, conclamando-nos a sentir e refletir”, “...o que ressalta de cada página é o imperativo da compreensão fraterna para que não venhamos a tombar em nossas próprias deficiências. Hilário, pois, trazendo a lume os episódios que arranca ao livro da vida, não tem outro intuito senão o de afirmar que todos nós - os viajores da experiência - precisamos do alimento amor, no prato da compaixão.”

            Se é muito difícil, na estupenda literatura mediúnica, destacar este ou aquele livro, porque todos contêm em suas páginas maravilhosos exemplos que nos indicam o acerto do rumo doutrinário, é também profundamente confortante reconhecer a excelência dos ensinamentos contidos nessas obras feitas com elementos da vida terrena, observada e colhida “ao vivo”, sem retoques nem fantasias, objetivando, sempre e sempre, mostrar à criatura humana os meios a seu alcance para compreender melhor a vida e, consequentemente, vivê-la cada vez melhor, se possível, do que a tem vivido até agora.

            Logo no início do livro “Almas em Desfile” há um episódio de notável expressão evangélica, sob o título “A fama de rico”. Quanta gente há que goza dessa fama, às vezes até sem razão sólida, mas por causa das aparências. Quanta gente, porém, há que, sendo rica de haveres, é paupérrima de qualidades morais, desinteressando-se pela vida daqueles que sofrem, que enfrentam a miséria ou se perdem nos labirintos escuros do vício.

            Outra maravilha é o conto “A evocação do Comendador”. O que aconteceu a Jorge Sales tem acontecido a muitos, pode acontecer a qualquer um de nós, que, vivendo no meio espírita, pensamos ser bons espíritas e nos equivocamos diante de problemas que não podemos equacionar devidamente, por sermos parte da operação.

            Se você, leitor, ainda não leu “Almas em Desfile”, faça-o na primeira oportunidade, a fim de não perder os exemplos instrutivos que o inspirado Espírito Hilário Silva oferece em suas páginas.

            Querem saber de outro conto magnífico? “Falta de caridade” é o seu título. Que profundeza na tessitura desse trabalho! A lição é de grande alcance e deve servir a muita gente que se supõe caridoso... às vezes.

            Neste momento, sob a influência comovedora de “Pica-pau”, outro ponto que enriquece as páginas de “Almas em Desfile”, sentimos os olhos umedecidos. Tanta vida, tanta realidade há nesse conto humaníssimo, que, só ele, justificaria o livro. Entretanto, são cinquenta e dois contos soberbos. Os primeiros vinte e seis, recebidos por Waldo Vieira; os outros, por Chico Xavier.

            Vamos concluir este artiguete, que poderia estender-se muito, com algumas palavras de Hilário Silva: “...em toda parte e em todos os dias há desfile de almas. Almas que se arrastam. Almas que lutam. Almas que riem. Almas que choram. Partilhando igualmente a marcha, caminha corretamente. Não recues, nem te apresses. Observa os companheiros, sem espanto e sem crítica, a fim de que a lição de cada um te sirva de aprendizado.”

            E compreendamos também que nós, os ainda encarnados, também somos “almas em desfile”. “Sim, em toda parte e em todos os dias há desfile de almas.”  

            Bem diz Emmanuel: “Há Espíritos que caem, ao lado de Espíritos que se levantam. É a trilha humana com os seus sonhos e esperanças, flores e espinhos, alegrias e sofrimentos. Mas por farol bendito fulgura a Doutrina Espírita, amparando e educando os caminheiros, em nome de Jesus.”

            Amparemo-nos na Doutrina Espírita, iluminando-nos em “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Mas sejamos práticos, exemplificando aquilo que lemos e ouvimos de bom e altruístico. A vida humana, sem frutos, de nada vale. “Almas em Desfile” prova-nos isto e nos convida a viver o Espiritismo, de corpo e alma.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

'Coma, beba e seja feliz quanto possa, porque amanhã você morrerá.'


"Coma, beba
e seja tão feliz quanto possa,
porque amanhã você morrerá."
           
Hermínio Miranda

No artigo sob título ‘Lendo e Comentando’
o autor transcreve parte de outro artigo de autoria do Rev. Woods,
publicado na revista ‘Methodist Recorder’
e transcrito para a ‘Two Worlds’ de Setembro de 1961.
(Reformador (FEB) Fevereiro 1962)

"O homem moderno é prisioneiro de um materialismo mais completo e aparentemente mais convincente que nunca. Até a Ciência parece confirmar essa concepção da vida. A ciência ortodoxa de hoje, sendo materialista em sua conceituação, não tem lugar para a sobrevivência. Ela conduz muitos a uma filosofia materialista da vida, que tem sido expressa simplesmente na seguinte exortação: "Coma, beba e seja tão feliz quanto possa, porque amanhã você morrerá."

            Os valores do homem comum, seus interesses, objetivos e ideais são ditados pelo seu materialismo. Parece não existir nenhuma saída dessa prisão em que ele se encontra. A Igreja parece impotente para libertá-lo, não porque ela "falhou", mas porque as ideias que ela defende e prega não têm sentido para o prisioneiro. Realidade espiritual e verdade nada significam para aquele cuja filosofia da vida é materialista.

            A separação entre a Igreja e as massas é fixada pelas estranhas e contrastantes filosofias abraçadas pelo materialista e pelo cristão. A Igreja, de um lado, está assustada diante da firmeza com que o materialismo agarrou o mundo, e as massas, do outro lado, colocam a Igreja à parte, como irrelevante e completamente divorciada da vida.

            Não há como possa o homem atravessar o espaço entre o materialismo e a espiritualidade. A única "autoridade" que ele parece inclinado a aceitar hoje em dia é a da Ciência e esta é justamente a que o tranca em sua prisão. Alguma coisa é necessário fazer para mostrar-lhe a falsidade da hipótese materialista. É preciso apresentar-lhe um nível de realidade objetiva que esteja acima e além da matéria e que esteja suficientemente perto da matéria que o habilite a alcançar a natureza dessa realidade superior. A realidade espiritual está muito além. Acredito que o psiquismo poderá muito bem ser a ponte sobre a qual ele encontrará novamente a sua libertação das grades que ora o retêm cativo.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

O pensamento de Hermínio Miranda



                 "...Entendo que sobrevivência e comunicação são aspectos parciais da verdade espírita, são fatos observados e observáveis. Mas, o que nos deve interessar, acima de tudo, é o seguinte: Que existe atrás, acima e além desses fatos? Qual a doutrina moral, religiosa e filosófica que esses aspectos revelam? Sem essas conclusões, para que servem os fatos? Sem a doutrina, para que o fenômeno? Não nos cansaremos de repetir que o fenômeno é importante e necessário, mas que é estéril sem uma conceituação filosófica racional que o explique e evidencie as implicações morais e religiosas decorrentes. Caso contrário, ficaríamos durante milênios a observar fenômenos psíquicos, sem dar jamais um passo na direção de Deus. Afinal de contas, o objetivo da vida é caminhar para Deus."

Hermínio Miranda
in Reformador (FEB) Maio 1962
artigo 'Lendo e Comentando' (trecho)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Construir e Destruir


Construir e Destruir

André Luiz
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Fevereiro 1962


            Para construir a floresta, a Natureza gasta séculos de serviço.
            Para destruí-la, basta uma chispa de fogo.

*

            Para construir a casa, grande turma de obreiros despende longos dias.
            Para destruí-la, basta um só homem, de picareta, no espaço de algumas horas.

*

            Para construir o jarro de legítima porcelana, o ceramista utiliza tempo enorme de vigília e preparação.
            Para destruí-lo, basta um martelo.

*

            Para construir o avião, primorosa equipe de técnicos associa prodígios de inteligência, na ação de conjunto.
            Para destruí-lo, basta um erro de cálculo.

*

            Para construir o depósito de combustíveis, o homem é constrangido a providências numerosas, alusivas à edificação e à preservação.
            Para destruí-lo, basta um fósforo aceso.

*

            Para construir a cidade, o povo emprega anos e anos de sacrifício.
            Para destruí-la, basta hoje uma bomba.

* * *

            Irmãos, sempre que chamados à crítica, respeitemos o esforço nobre dos semelhantes.
            Para construir, são necessários amor e trabalho, estudo e competência, compreensão e serenidade, disciplina e devotamento.
            Para destruir, porém, basta, às vezes, uma só palavra. 

domingo, 22 de junho de 2014

Henry Ford e a reencarnação

Henry Ford c. 1919

Henry Ford e a reencarnação
Direção
“Reformador” Fevereiro 1962

            Henry Ford, industrial norte-americano mundialmente famoso, desencarnou em 1947, com 84 anos de idade.
            Afirmando que na vida nada há de mais belo que o trabalho, a ele dedicou toda a sua
existência, constituindo um alto exemplo para os 150000 operários de suas fábricas, dos quais foi mais amigo que patrão.
            Transcrevemos abaixo um artigo publicado na revista "Sophia" de Outubro de 1956 e reproduzido no mensário "O Médium", em seu número 257.
            Igualmente saiu ele no "Correio Paulistano" de 21 de Julho de 1936, conforme tradução de Cairbar Schutel da revista americana "Nash Magazine".

            Pouco antes de falecer, Henry Ford foi entrevistado pelo jornalista norte-americano Frazier Hunt. O jornalista referiu-se às dificuldades da Inglaterra.

            - Eu lhe expliquei - diz Mr. Hunt - que me parecia serem as condições ali bastante difíceis, especialmente para os operários. A classe operária se encontra em muito má situação.

            - "Bom, eu não creio que deva ser muito brando - respondeu-me. - Os homens vieram a este mundo para adquirir experiência. Isto é o que mais importa: experiências; mas não creio que se deva pôr a gente empacotada em caixas, como se faz com o algodão. Deus fez as pulgas para dar ocupação aos cachorros e as dificuldades e penas para dar trabalho ao homem. Mas, tudo se resume em obter experiências nesta vida."  

            Eu não entendia o que ele me queria dizer com isso de "experiências".

            - "Bem, experiências para a próxima vida - continuou Mr. Ford. - Todo homem se encontra aqui para adquirir experiência e assim prosseguir para diante."

            - Quer dizer, para outra vida depois desta? - perguntei.

            - "Exatamente."

            - Então, o senhor fala sobre a reencarnação. Permita-me esclarecer bem isto: o senhor crê na reencarnação?

            - "Certamente que sim. Cada vida que vivemos aumenta o total de nossas experiências. Tudo o que se encontra na Terra foi nela posto para o nosso bem, para conseguirmos experiências que hão de ser armazenadas com uma finalidade futura. Não há uma partícula do homem, um pensamento, uma experiência, uma gota, que não subsista. A vida é eterna; não existe a morte."

            - Isso é ir além dos nossos ensinamentos da religião cristã - aventurei-me a replicar.

            "Bem, assim será; mas isso é o que eu creio. E creio, como se acreditava em épocas muito anteriores, em tempos bem remotos, nos quais se sabia algo que nós já perdemos; algo do misterioso enigma da vida. E estou inteiramente certo de tudo isso... Eu creio que o que chamamos religião, e de que falamos em termos de tanta crença, foi há tempos uma ciência bem exata, enunciada em conceitos baseados em fatos e conhecimentos. As coisas que constituem agora mistérios sem solução, como: "de onde viemos antes de nascer" e "para onde vamos depois de morrer", eram conhecidas, então, por todo o mundo. Conhecia-se bem tudo o que concernia ao segredo da existência."

            Eu me achava desconcertado.

            - Quer dizer, Mr. Ford, que antigamente se sabia o que sobreviria à alma ou espírito, e que não eram conjecturas, mas que se sabia bem o que dizer a respeito da religião? 

            - "Isso mesmo. Algum dia nós seremos bastante sagazes para ver e compreender a vida toda do universo; o que se está passando em outros planetas e muitas outras coisas do mesmo estilo."

            Eu o interrompi:

           - Então, o senhor crê que haja vida em outros planetas e que nos transladamos de uns aos outros?

            Ele inclinou a cabeça em sinal afirmativo e disse:

            - "A Terra não passa de uma estação entre vidas passadas e futuras. Nada sabemos do que se passa em outros planetas, a não ser que têm vida. Estou seguro de que há neles vida."

            - E não me poderia dizer, Mr. Ford, como chegou a essas conclusões?  

            - "Todo homem, certamente, tem que resolver estes grandes problemas antes de estar capacitado a fazer algo que seja de valor real, durante seus anos de permanência aqui. Recordo-me de que quando era moço já havia começado a fazer certas perguntas relativas à religião, à vida e à morte; mas me calavam com um psiu!..
            Assim foi que tive de começar por perguntar a mim mesmo. Passei anos estudando-as até que afinal eu mesmo respondi a elas, inteiramente a meu contento. Agora, nada disto me preocupa."

            - Sabe o que o senhor é, Mr. Ford? O senhor é um místico - disse-lhe -, quase tão místico como os indianos.

            - "Está bem; pouco importa o que possa o senhor me chamar mas isso é o que eu creio.”

            E com o mesmo tom de voz com que me falou da reencarnação, falou também do "serviço."

            "Serviço é o que o homem tem que dar ao mundo. Servir à Humanidade, fazer algo por ela, e assim tudo lhe sairá bem. Eu creio que há certas entidades ou pequenas vidas auxiliares de átomos, ou o que o senhor lhes queira chamar, que flutuam em derredor de nós, e quando uma pessoa faz algo para ajudar alguém, algo por um semelhante e não para si mesmo, estas entidades voam até ela e a ajudam. O elemento vital que nos faz falta contorna a todos, alimenta e revigora nosso espírito. Tudo o de que necessitamos é dirigir nossas vidas pela estrada reta, pois o mais nos há de vir.

O pensamento de Hermínio Miranda



Hermínio Miranda
Reformador (FEB) Fevereiro 1962
in 'Lendo e Comentando'

         " ... Frequentemente tenho insistido, nos comentários subscritos para "Reformador", em como seria do interesse de todos nós; espíritas, ortodoxos ou materialistas, que as igrejas organizadas se empenhassem na pesquisa do fenômeno mediúnico. Mas pesquisa mesmo, sem ideias preconcebidas, sem espírito partidário, sem olhar conveniências pessoais de cada uma das organizações interessadas. Isto seria útil sob vários aspectos. Muitos de nós somente aceitamos como verdade incontestável aquilo que nos é afirmado pelas pessoas ou pelos grupos que respeitamos e admiramos. Quando somos crianças, é a palavra dos pais, mestres, superiores enfim. Recorremos a eles como a um Supremo Tribunal particular para dirimir dúvidas e incertezas. Mais tarde, quando nos tornamos adultos, procuramos esclarecer nossas indagações junto ao grupo religioso ou científico que nos merece maior acatamento. Os religiosos socorrem-se da autoridade de sua igreja, como há os que aguardam sempre, em qualquer pendência filosófica, o parecer da Ciência. Em vez de procurar atender a essa universal expectativa, as igrejas organizadas, numa perigosa tentativa de manter suas posições, combatem em dois "fronts" distintos, tanto o Materialismo como o Espiritismo. A questão fundamental, porém, e que parece tão relegada e esquecida, é que as religiões, ortodoxas ou não, se fundam no Espiritualismo, isto é, na existência do espírito humano e sua sobrevivência à morte física.

            Parece-nos, pois, sumamente irracional dar combate a um conjunto doutrinário que se propõe exatamente a demonstrar a veracidade daqueles princípios. Não seria mais lógico que as religiões ortodoxas procurassem valer-se do Espiritismo doutrinário, ou, pelo menos, dos métodos de trabalho que serviram de ponto de partida para o seu desenvolvimento científico? Acredito que nenhum espírita convicto, conhecedor de sua doutrina, terá receio da arguição. Acataríamos com serenidade total qualquer movimento no sentido de investigar com todo o rigor os fatos que proclamamos como autênticos, pois sabemos seguramente que eles são realmente genuínos. Estão aí para quem quiser ver. Enquanto se conservarem nessa atitude negativa, as religiões ortodoxas não terão muito que dizer aos seus fiéis, salvo as usadíssimas e gastas advertências infundadas de que os fenômenos mediúnicos são coisas "do diabo, de que é pecado manter qualquer espécie de ligação com os chamados "mortos" e outras.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

3 x Ruy Barbosa



3 x Ruy Barbosa

pgs 239-240 de
‘Grandes Vultos da Humanidade e o Espiritismo’
3ª Edição FEB - 1992
por Sylvio Brito Soares

1.3.  A súmula de sua religião

            Extraído de uma conferência no Asilo N.S. de Lourdes em Feira de Santana (Bahia)

“... religião, não sepultada no mistério de uma língua morta; não a desses pseudo apóstolos do paganismo infantilista, caluniadores do Evangelho, pregadores hipócritas e mentirosos da opressão sacerdotal, com a boca cheia de Deus e a consciência cauterizada de interesses mundanos; não a das diatribes no púlpito, na imprensa, nas pastorais, nas letras apostólicas; não a do ódio, da cisão entre os homens, da desconfiança no lar doméstico, da separação entre os mortos, do privilégio, do amordaçamento das almas, da tortura, da ignorância, da indigência no espírito e no corpo, do cativeiro moral e social; mas a do "homem novo", nascido sob a cruz; do espírito que vivifica, e não da letra que mata; da comunicação interior entre o coração e Deus; da caridade brandura para com todos os homens; religião de luz, que se alimenta de luz, e que na luz se desenvolve; religião cujo pontífice é o Cristo, religião de igualdade, fraternidade, justiça e paz; religião em cujas entranhas se formou a Civilização moderna, em cujos seios sugou o leite de suas liberdades e de suas instituições, e a cuja sombra amadurecerá e frutificará a sua virilidade; religião de tudo quanto o ultramontanismo nega, amaldiçoa e inferna. Por ela o altar algum dia, e não longe, não será mais uma especulação; por ela as consciências não terão mais contas que dar de si senão ao Onipotente; por ela todas as crenças serão iguais perante a lei, todas as convicções igualmente respeitáveis perante os homens. Em que pese ao Vaticano, aos partidos reatores, às transações políticas e às realezas impopulares!"
                                                                                             2.3.  Ruy Barbosa e a ‘Sessão’


pgs 239-240 de
‘Grandes Vultos da Humanidade e o Espiritismo’
3ª Edição FEB - 1992
por Sylvio Brito Soares

            "Reformador", em seu número de abril de 1951, transcreve um artigo intitulado "Ruy, um Universo", publicado na "Revista Brasileira de Panificação", e que, data vênia, reproduziremos aqui:

            2.3. "Na imensa comemoração de Ruy Barbosa, toda a sua vida pública e particular foi examinada, e aclamada a sua figura apostolar do Direito. Nenhum detalhe do seu talento deixou de ser examinado. Ruy estudante, sabendo aos cinco anos de idade conjugar todos os verbos regulares; Ruy sem idade para matricular-se na Faculdade, dedicando-se, durante um ano, ao estudo do alemão; Ruy, orador desde moço; escritor primoroso, enriquecendo a língua portuguesa; advogado de todos os perseguidos, jornalista insigne, parlamentar, diplomata, internacionalista; Ruy, poeta, religioso e crente no Espiritismo, e Ruy com conhecimentos de Medicina. Espanta realmente caber numa cabeça tanta inteligência e num coração tanta bondade!

            Falaram do seu amor às rezas, mas nada disseram do seu interesse pela pintura e pela música. Na "Oração aos Moços", Ruy falou nas relações humanas com os nossos amigos de "além-vida".

            O Deputado Ataliba Nogueira, na conferência feita sobre "Ruy Barbosa em Campinas", publicada no "Jornal do Comércio" de 8 de novembro p. p., contou o seguinte:

            Ainda na aprazível estância hidromineral, ocorreu fato curioso, recordado pelos íntimos com certo acento de graça. Estava em voga, àquele tempo, uma espécie de distração à noite, de modo algum consoante com as leis religiosas, porém que as senhoras praticavam como se fosse inocente jogo de damas. Consistia em colocar sobre uma mesinha de três pés um grande circulo de papelão com as letras do alfabeto escritas, uma a uma, em recorte dentado. Lalá, Úrsula, Carlota, Baby Ruy Barbosa e a filha dum redator do "Jornal do Comércio", do Rio, sentavam-se em redor da mesa e colocavam a ponta dos dedos sobre um cálice que, por ação misteriosa - segundo diziam - parava ante esta e aquela letra. Alguém ia anotando as letras num papel. Formavam-se, assim, palavras e frases, avidamente lidas pelos circunstantes. Resta lembrar que tudo correspondia às perguntas formuladas por alguma das moças presentes, quase todas versando sobre qual delas se casaria primeiro, as iniciais do noivo, seus traços fisionômicos, se era louro ou moreno, se era solteiro ou viúvo, fazendeiro ou não. No geral as respostas não provocavam mais que risos, gargalhadas e comentários alegres.

            Certa noite, porém, Batista Pereira, que assistia à "sessão", de pé, disse que o cálice estava denotando alguma inquietação, manifestando com isto ter que revelar algum segredo. Sentou-se à mesa e também colocou a ponta do dedo sobre o cálice de cristal, o qual, de maneira rápida, começou a percorrer o alfabeto, com algo de nervosismo por parte das moças e senhoras que participavam da operação. Ao lado, outra moça apontava letra por letra, dizendo nada entender, porém várias vezes havia o nome de Ruy, no apanhado gráfico.

            O Conselheiro já se havia recolhido muito cedo, feito a leitura dos jornais de São Paulo, que chegavam após o jantar.

            Terminado o escrito, verificou-se que era uma mensagem em inglês, dirigida por algum "Espirito" ao ilustre hóspede. Ficaram todos estarrecidos e, diante da indecisão geral, Batista Pereira opinou que deviam levá-la incontinenti a Ruy. Batem à porta, o Conselheiro de pijama recebe o papel e fica emocionado:

            - É o estilo dele, o estilo perfeito. E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia. Mas, é possível... Trata-se de William Stead - explica Ruy -, o meu amigo e grande jornalista inglês, cuja morte os periódicos noticiam, hoje, no afundamento do "Titanic". E ele acreditava nestas histórias de Espiritismo!”

 


3.3.  Ruy Barbosa ora a Deus

pgs 242-243 de
‘Grandes Vultos da Humanidade e o Espiritismo’
3ª Edição FEB - 1992
por Sylvio Brito Soares


            E, para finalizarmos, oferecemos aos nossos leitores a peroração de um discurso proferido, em 1903, por esse gigante da inteligência, pelo trabalho e pelo ideal que acalentou em Espírito:

            "Deus, que me infundistes o amor da beleza, da verdade e da justiça; que povoais da vossa presença as minhas horas de arrependimento, de perdão e de segurança na vossa misericórdia; que há dezenas de anos me descobris os meus erros, me reergueis dos meus desalentos, me conduzis pelo vosso caminho: dai-me, agora mais do que nunca, o ânimo de não mentir aos meus semelhantes, de me não corromper nos meus interesses, de não temer ameaças, não me irritar de injúrias, não fugir a responsabilidades. Se a mercê da salvação da nossa honra, posta nas vossas mãos onipotentes, exigir o sacrifício de um em satisfação das culpas de todos, não vos detenha, Senhor, a miséria do resto dos meus dias, cansados e inúteis. Mas não permitais que as maquinações do egoísmo de alguns prevaleçam ao bem de um povo inteiro, que a barbária senhoreie de novo a nossa Pátria, que os semeadores de violências e desunião vejam prosperar outra vez a sua funesta sementeira nas regiões benditas, sobre cujos céus acendestes a constelação da Vossa Cruz."