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sábado, 31 de maio de 2014

12. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 67  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago

            De que bizarros sistemas religiosos não tem até agora a humanidade terrestre rodeado sua imaginação infecunda! O israelita, que supõe ser agradável a "Deus" praticando a circuncisão ou comprando uma faca nova para estar certo de que não a tocou a banha de porco; o cristão que imagina fazer com que "Deus" baixe sobre uma mesa, cristão esse a quem os predicadores contam que as preces e os jejuns têm influencia sobre a meteorologia e a agricultura (*); o muçulmano que vê a porta do paraíso de Maomé aberta diante dele quando apunhala um missionário; o fanático que se precipita sob as rodas do carro de Jaggernaut (ser lançado a Moloch – (ou demônio)); o budista que permanece fascinado na contemplação beata de seu umbigo ou põe em movimento um moinho de preces, para redimir-se de seus pecados, fazem certamente do desconhecido e incognoscível, a mais ridícula, a mais pueril das ideias.


            Todas essas ninharias do espírito estavam em correlação com a ilusão primitiva da pequenez do universo, considerado como uma espécie de escrínio revestido de pregos de ouro, encerrando a Terra em seu seio. Na verdade, se não tivesse tido astronomia outro resultado mais do que o de ampliar as nossas concepções gerais, e mostrar-nos a relatividade das coisas terrestres no seio do absoluto, libertando-nos daquela antiga escravidão, das ideias e, tornando-nos livres diante do infinito, mereceria ela, mesmo assim, a nossa veneração e o nosso reconhecimento eternos, porque sem ela seríamos ainda incapazes de pensar com exatidão”

11. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 67  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago


            “Que ingenuidade entre os teólogos sinceros!  que impostura a dos chefes de Estado. que ainda ousam investir-se do título de mandatários de Deus, para subjugar os povos! Os verdadeiros ateus não são esses homens, ignorantes ou mentirosos, que fazem da mais sublime das ideias a cúmplice de todas as suas mediocridades, e os verdadeiros deístas não são os pesquisadores independentes cuja única ambição consiste em remontar laboriosamente às causas, gradualmente aproximando-se da Verdade?”

sexta-feira, 30 de maio de 2014

10. O pensamento de Camille Flammarion


O pensamento de Camille Flammarion

pgs. 67  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago

            “Que ingenuidade entre os teólogos sinceros, que impostura a dos chefes de Estado, que ainda ousam investir-se do título de mandatários de Deus, para subjugar os povos! Os verdadeiros ateus não são esses homens, ignorantes ou mentirosos, que fazem da mais sublime das ideias a cúmplice de todas as suas mediocridades, e os verdadeiros deístas não são os pesquisadores independentes cuja única ambição consiste em remontar laboriosamente às causas, gradualmente aproximando-se da Verdade?”

9. O pensamento de Camille Flammarion


pgs. 66  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago


            “Assim, na economia geral da natureza, o nosso mundo todo não tem importância maior do que a de um pobre quarto no seio de uma casa considerável; essa casa, a seu turno, está perdida no meio de uma cidade imensa; e essa imensa cidade, que representa para nós o universo inteiro, não é, entretanto, em verdade, mais do que um universo, para além do qual, em todas as direções do espaço, existem outros universos.”

8. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 63  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago


            “Então, no seio da noite infinita, avistei, acima de mim, um outro universo que pairava no espaço como uma nebulosa pálida e longínqua, e compreendi que tudo o que vemos com os nossos olhos durante a noite mais profunda, e tudo o que a visão telescópica já nos permitiu descobrir, nada mais representa, no infinito, do que uma região local em uma imensidade sem limites, - e que há outros universos além deste de que o nosso sol é uma estrela.”

quinta-feira, 29 de maio de 2014

7. O pensamento de Camille Flammarion




pgs. 61  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago


            “Cada árvore produz o fruto correspondente à sua espécie: as tartarugas ou os ursos, não poderiam ambicionar as asas da andorinha ou o canto da toutinegra (pequeno pássaro de cor acinzentada) . A glória militar dos Alexandre, dos César, dos Carlos-Magno, dos Tamerlão, dos Napoleão, dos Bismarck, sendo da ordem dos instintos dos animais carnívoros, não dura quase nada mais que um banquete brutal, e alguns séculos bastam para tudo apagar na própria história do planeta.”


segunda-feira, 26 de maio de 2014

6. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 53  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago


            “Tudo o que poderíamos aprender, estudar, conhecer sobre a Terra não será jamais senão uma parte infinitesimal e absolutamente insuficiente da imensa realidade esparsa nas criações sem número do infinito.”

5. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 51-52  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
com tradução de Arnaldo S. Thiago

            “O nosso planeta, que nos parece tão importante, torna-se um ponto microscópico impossível de descobrir por sentidos tais como os nossos e sua historia parece, toda ela, de tão longe escutada, o voo de uma libélula, e menos ainda, pois que é preciso conhece-la para adivinhar que ela existe. É, então, sobretudo que as pretensões dos pontífices e a segurança dogmática de seus adeptos explode em todo o seu ridículo.”



4. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 47  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB – 1941)
-com tradução de Arnaldo S. Thiago-

            “Os falsos deuses inventados pelo homem, as lendas, as superstições, os erros, as hipocrisias, as mentiras, não são necessárias para assegurar na educação o sentimento da honra, do dever, da justiça, da consciência pessoal, e é isso que tem sido esquecido pelos educadores modernos que tudo suprimiram sem substituir coisa alguma.”

sábado, 24 de maio de 2014

3. O pensamento de Camille Flammarion



pgs. 47  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB – 1941)
-com tradução de Arnaldo S. Thiago-



            “O ideal e o sentimento fazem parte do domínio do pensamento, tanto quanto a razão.
           
            É fazer caminho errado suprimi-los e é ao mesmo tempo, fazer o jogo dos reacionários que aproveitam largamente desse erro. Pretender que a ciência demonstra a não existência de Deus e da alma, é fazer uma afirmativa anticientífica. A educação sem ideal, sem responsabilidade, desprezando a consciência, proclamando direitos sem deveres, é tão errônea como a do catecismo que ensina a criação de Adão e Eva, a tentação da serpente, o dilúvio universal, a encarnação de Deus, a Virgem-mãe, a ressurreição, a ascensão de Jesus à direita de Deus seu pai, a ressurreição de nossos corpos (artigos de fé que não podem, sem heresia, ser interpretados como símbolos e devem ser aceitos ao pé da letra)...”




quarta-feira, 21 de maio de 2014

2. O pensamento de Camille Flammarion







            pgs. 46/47  de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941) 
-com tradução de Arnaldo S. Thiago-


            Todas as religiões são santas e respeitáveis, quando elevam o pensamento para um ideal superior, quando consolam o aflito e suavizam as misérias; mas que se não as explorem e que não se mate em seu nome!

Respeito à diversidade religiosa




Federação Espírita Brasileira

Assunto: manifesto sobre decisão justiça sobre religiões de matriz africana.

A Federação Espírita Brasileira – FEB vem a público solidarizar-se com as religiões de matrizes africanas, em especial ao Candomblé e Umbanda, no reconhecimento de suas características religiosas e na necessidade de respeito à diversidade religiosa pelos poderes públicos constituídos no dever de garantia da laicidade do Estado. 
Em um momento que as diversas expressões religiosas se unem para um diálogo contra a intolerância, imprescindível se faz o repúdio às ações discriminatórias que ofendem os Direitos Humanos gerando preconceito e fanatismo. 
A lição de amor ao próximo conduz, necessariamente, à formação de uma sociedade que promova o respeito e o diálogo inter-religioso fomentando a fraternidade e solidariedade entre todos, bem como liberdade de consciência e de crença.

Assinou o Dr. Perri, Presidente da FEB, nesta data.

Hipotecamos nossa solidariedade aos irmãos das religiões de matrizes africanas.

terça-feira, 20 de maio de 2014

1. O pensamento de Camille Flammarion


pg. 35 e seguintes de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941 com tradução de Arnaldo S. Thiago)

           
            Os organismos que vivem na superfície das diversas moradas do espaço são a resultante das forças em atividade sobre cada mundo. A forma humana terrestre tem por origem as formas ancestrais da longa série animal, de que aquela forma gradualmente saiu e de que é a mais alta manifestação, e essas formas animais primitivas remontam sucessivamente, por elos ininterruptos, até os organismos rudimentares, desprovidos dos sentidos que são a glória do homem, pelos quais a vida inaugurou suas manifestações; organismos bem rudimentares, com efeito, aos quais hesitamos em dar o título de seres viventes, que não se podem chamar animais nem vegetais, que ainda não são nem uma nem outra coisa e que nos aparecem no estado de substâncias organizadas, já distintas do reino inorgânico, se bem que ainda simples combinações químicas trazendo em si uma espécie de vitalidade confusa, protoplasma elementar, gérmen de todos os desenvolvimentos futuros da vida terrestre, animal e vegetal. Os primeiros seres organizados formaram-se no seio das águas tépidas dos oceanos que cobriam toda a superfície do globo terrestre na origem dos períodos geológicos. Sua natureza intrínseca, suas propriedades, suas faculdades, eram já a resultante da composição química dessas águas, da densidade, da temperatura, do meio ambiente; as variações desse meio e das condições de existência produziram variações correlativas nos desenvolvimentos dessa árvore genealógica, e, segundo os organismos tenham habitado as regiões profundas, médias ou superficiais das águas, as praias, as planícies baixas e úmidas, as encostas ensolaradas ou as montanhas, a árvore genealógica desenvolveu-se, dando nascimento a organismos sempre e cada vez mais diversificados.

            A humanidade terrestre atual é a última flor, o último fruto dessa árvore. Mas essa vida toda é terrestre, desde suas raízes até as suas mais elevadas manifestações, e em cada mundo a árvore genealógica é diferente. A vida é netuniana em Netuno, uraniana em Urano, saturniana em Saturno, siriana no sistema de Sirius, arcturiana no de Arcturo, isto é, apropriada a cada meio ou, para dizer mais claramente, mais rigorosamente ainda, produzida e desenvolvida por este ou aquele mundo, segundo seu estado físico e mediante uma lei primordial a que obedece a natureza inteira: a lei do Progresso. 

            Essa imensa sinfonia da vida, adaptada a cada mundo, segundo as condições do espaço e do tempo, se desenvolve como um coro universal cujas vozes fossem separadas umas das outras por desertos de espaço e por eternidades de duração. Parece-nos ele descontinuo, porque não podemos ouvir-lhe senão uma nota de cada vez. Em realidade, porém, não há separação absoluta de espaço nem de tempo. Júpiter não será habitado por seres pensantes senão milhões de anos depois da Terra: sob o ponto de vista do absoluto, a diferença de data não é maior que o intervalo de tempo que separa o dia de ontem do de hoje.

            Tudo isso se passa, se efetua, executa-se naturalmente e como se Deus não existisse. E, com efeito, o ser definido pelos habitantes da Terra, até aqui, como deus, não existe. O Buda dos Chineses, o Osíris dos Egípcios, o Javé dos Hebreus, o Ormuzd e o Ahriman dos Persas, o Teutates dos Gauleses, o Júpiter dos Gregos, Deus-Pai ou Deus-Filho dos cristãos, ou grande Alá dos muçulmanos, são concepções humanas, personificações inventadas pelo homem e nas quais ele encarnou não somente suas aspirações mais elevadas e suas virtudes mais sublimes,  mas ainda e sobretudo suas prevaricações mais grosseiras e seus vícios mais perversos.

            O homem concebeu um deus à sua imagem. É em nome desse pretenso deus que monarcas e pontífices têm, em todos os séculos e sob a capa de todas as religiões, submetido a humanidade a uma servidão de que não pode ainda libertar-se: é em nome desse deus que "protege a Alemanha", que "protege a Inglaterra", que "protege a França", que "protege a Itália", que "protege a Rússia”, que "protege a Turquia", que protege todas as dissenções e todas as barbarias; é em nome dele que, ainda em nossos dias, os povos pseudocivilizados de nosso planeta, estão perpetuamente armados em guerra uns contra os outros e excitados como cães furiosos a se precipitarem em uma refrega, acima da qual a hipocrisia e a mentira, assentadas sobre os degraus dos tronos, fazem reinar o "deus dos exércitos" que benze os punhais e mergulha suas mãos no sangue fumegante das vitimas, para marcar com ele a fronte dos potentados coroados. É a esse deus que se elevam altares e cantam-se Te-deum. Foi em nome dos deuses do Olimpo que os Gregos condenaram Sócrates a beber cicuta; foi em nome de Javé que os príncipes dos sacerdotes e os fariseus crucificaram Jesus: foi em nome de Jesus, tornado deus a seu turno, que o fanatismo fez ignominiosamente subir à fogueira Giordano Bruno, Vanini (Lucilio Vanini (1585 – Fevereiro 9, 1619, morreu queimado por ser herético. Antes foi torturado e teve sua língua cortada) , Etienne Dolet (3 Agosto 1509 - 3 Agosto 1546 morreu queimado junto com seus livros. O motivo? heresia!), João Huss (vide Blog), SavonaroIa (vide Blog), e tantas outras heroicas vitimas; que a inquisição impôs a Galileu mentir à sua consciência; que milhares e milhares de desgraçados, acusados de feitiçaria, foram queimados vivos, em cerimônias populares; que Ravaillac (c. de 1577, Angoulême - 27 de Maio de 1610, Praça de Grève, Paris)    apunhalou Henrique IV. Foi com a bênção expressa do papa Gregorio XIII que as matanças da noite de São Bartolomeu ensanguentaram Paris e que os livres pensadores da Reforma foram expulsos de França; foi para abolir pretensas heresias que milhares e milhares de pessoas respeitáveis foram queimadas vivas. Empunhando a cruz foi como os Espanhóis massacraram selvagemente os pacíficos indígenas da América. Foi em nome dos deuses adorados em Roma, que os mártires cristãos sofreram os mais aterradores suplícios; foi em nome do deus cristão que os energúmenos do bispo São Cirilo lapidaram a bela e sabia Hipatia (ca. AD 350–370–8 de março de 415) foi uma filósofa do Egito Romano, morreu assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes na Alexandria) e que mais tarde o bispo de Beauvais conduziu à fogueira a virgem de Domrémy (Joana D’Arc); foi em nome da Bíblia que os reis do "povo de Deus" exterminaram ferozmente os seus vizinhos; foi em nome de Alá que os estandartes de Maomé cobriram a Europa de exércitos de assassinos e que ainda hoje milhões de fanáticos estão prontos a levantar-se contra os Europeus, ao grito da guerra santa; que Maomé II avermelhou as paredes de Santa Sofia com os peitos ensanguentados de seu cavalo; que Genghis Khan (1162 - 18 de agosto de 1227) e Tamerlão (Kesh, atual Shahrisabz, Uzbequistão, 8 de abril de 1336 – Otrar, perto da atual Shymkent, Cazaquistão, 18 de fevereiro de 1405) assinalaram os caminhos de suas conquistas por pirâmides de cabeças decepadas; é em nome de tais inspiradores imaginários que ainda atualmente tantas almas piedosas e inúteis se condenam a bizarras penitências nos conventos, que os stropzi  (assassinam) e mutilam, que os dervixes (praticante aderente ao islamismo sufista) girantes e uivantes agitam-se em contorções desordenadas que certas seitas estrangulam crianças e bebem-lhe o sangue. Fanatismo religioso leva à loucura. Mostra-nos a história que a dominação teocrática é a mais intolerante e a mais pesada de todas as tiranias. As guerras de, religião tem sido as mais horríveis e as mais odiosas de todas e também as mais insensatas: tem-se praticado assassínios por motivo de interpretações de palavras, por causa de simples adjetivos, pela "consubstancialidade" do Filho e do Pai, na Trindade, por "homoios" (similares) contra "homoousios" (da mesma substância, consubstancial ou de igual substância), por mil outras frivolidades postas acima da razão mais elementar e proclamadas artigos de fé em nome de um deus! Símbolo da opressão dos povos, do assassinato e do roubo, tal ser infame não existe, nunca existiu.

            Fazendo um deus à sua imagem, tão miserável como eles mesmos, os homens assemelham-se a macacos que, supondo elevar-se à ideia de Deus, tivessem feito dele um grande macaco - a cães que dele fizessem um grande cão - a pulgas que o representassem sob a forma de uma grande pulga.

            Mas, do fato de que esse deus minúsculo não existe, não se segue que o universo marcha sem desígnio, sem objetivo e sem leis. Se os crentes de todos os ritos estão em erro, os negadores de todo princípio intelectual não o estão menos.

            Sim, a evolução da natureza efetua-se sem os gestos de um deus antropomorfo, sem malignidade como sem milagres, O único nome que conviria a Deus é o de Incognoscível. Deus permanece oculto pela própria perfeição do mecanismo da natureza: em um corpo são, não se percebe a marcha do sangue no coração, nem a circulação no cérebro, nem o ar nos pulmões, nem o fígado, nem os rins, nem o estomago, nem as entranhas: a atenção não é solicitada para estes órgãos senão quando funcionam mal. O universo é organizado de tal sorte, que parece conduzir-se por si mesmo - e essa é a sua qualidade divina. Tudo funciona regularmente por uma construção perfeita, cujas engrenagens são invisíveis e silenciosas. construção que não podemos julgar pelo fragmento infinitesimal de que fazemos parte e cuja autoria cabe a um pensamento transcendente, impenetrável ao homem. A Força rege a matéria: Mens agitat molem; um Pensamento dirige a natureza.

            Sim. O Ser supremo é incognoscível. A mentalidade humana não pode compreender o espírito infinito, eterno, imutável, organizador de um Todo de que a Terra e o homem são partículas tão imperfeitas quanto medíocres... Esse Infinito é para o deus infantil imaginado pelo homem, o que o sol do meio dia é para a obscuridade lamacenta de um buraco de toupeira sob as raízes da erva de uma campina. Sua existência é demonstrada pela organização universal. Tudo é organizado desde a mais humilde das folhas até aos movimentos do sistema do mundo. Um elemento invisível, imaterial, de ordem psíquica, ainda insuficientemente determinado por nossos meios de investigação mostra-se em nós e ao redor de nós. Esse princípio espiritual deveria ser respeitado como envolvendo o mundo e contendo-nos em si. Mas a clerezia de todas as religiões, de todos os tempos e de todos os países, sempre monopolizou a ideia de Deus e apropriou à sua ambição dominadora, exclusivista e intolerante. Quando esses clérigos falam de Deus, referem-se ao deus deles: os espíritos livres que não admitem o personagem criado por eles, são tratados de ateus e perseguidos como tais pelos seus ódios. Não querem admitir que alguém possa ser deísta e anticlerical. Entretanto não são eles  assaz destituídos de inteligência para saberem que é uma injustiça, uma inépcia e uma mentira tratar de ateus os pensadores que negam a divindade de Jesus. Os homens que ousam tornar Deus bastante pequeno para amoldá-lo ao seu
proprio talhe (*) e mete-lo mesmo em seus bolsos. São os maiores blasfemadores.

            (*) Conheci um padre que se familiarizara a tal ponto com a ideia de Deus, que, ao passar diante do altar que continha o Santíssimo Sacramento, em lugar de se inclinar piedosamente, em genuflexão, perante Ele, chegara ao cúmulo de lhe não dirigir mais do que uma pequena saudação com a cabeça, parecendo tratá-lo de igual para igual, por pura cortesia. Era um prelado, camareiro de capa e espada do Santo Padre.  

            É singular que o homem, absolutamente grosseiro, selvagem, bárbaro, como ainda é, apenas saído da carapaça da ignorância primitiva, incapaz, como é, de conhecer mesmo o seu próprio corpo, tendo apenas começado a soletrar o grande livro do universo, tenha ousado, de boa fé, definir Deus. Não conhece o seu formigueiro e teve a pretensão de descobrir o Incognoscível.

            Em uma época em que não se sabia absolutamente nada; em que a astronomia, a física, a química, a historia natural, a antropologia não tinham ainda nascido; em que o espírito, fraco, soltando apenas os primeiros vagidos, era rodeado somente de ilusões e de erros, a audácia humana concebeu as pretensas religiões reveladas e os deuses colocados à sua frente!

            Que Confúcio, Buda, Moisés, Sócrates, Jesus ou Maomé tenham sonhado em dar aos homens um código de moral, destinado a desprendê-los da barbárie e a elevá-los na ideia do bem, tais tentativas, tais obras não podem receber senão as homenagens e admiração de todos os que se preocupam com o progresso intelectual e moral da humanidade. Que os fundadores e os organizadores dos ritos religiosos tenham colocado à frente de cada culto um Ser ideal inatacável, em nome do qual pretendiam exercer o mando, ainda nisso se pode reconhecer uma obra útil sob o ponto de vista social mas cujo valor não ultrapassa a ordem mundana e não tem outro objetivo além do interesse geral dos homens e das sociedades. Mas que esses deuses inventados pelos homens tenham sido considerados como existindo realmente - em um céu aliás absolutamente imaginário e que se desmoronou às primeiras conquistas da astronomia; - que tenham sido eles e ainda sejam adorados por uma parte do gênero humano, e que, mesmo em nossa época, legisladores de todos os países pretendam ainda fazer politica em nome do direito divino, mostrando o sinal do "dedo de Deus" sobre as chagas mais monstruosas do corpo social e decorando com a imagem de uma providencia local as suas bandeiras de guerra, como ao tempo de Joanna d'Arc, de Constantino ou de Davi - eis aí certamente um anacronismo chocante, um misto de impostura e de credulidade, de hipocrisia e de estupidez, indigno da era de estudo leal e positivo, na qual vivemos e que levaria ao desprezo de qualquer homem independente, todos os funcionários que vivem às expensas de um tal sistema.

            As definições são enganadoras. Dar-se-á que os pagãos Sócrates, Platão, Aristóteles, Marco_Aurélio, PIotino não foram mais puros espiritualistas do que o papa Alexandre VI e o cardeal-arcebispo Dubois, verdadeiros ateus?

            A pesquisa da natureza da causa primária - não digo o "conhecimento de Deus", pretensão digna de um teólogo e em si mesma absurda - mas unicamente a pesquisa do Ser absoluto, da origem da energia que sustém, anima e rege o universo, da força inteligente que age universalmente e perpetuamente através do infinito e da eternidade e dá nascimento às aparências que impressionam os nossos olhos e são estudadas pelas nossas ciências, essa pesquisa, digo, não podia ser empreendida, nem mesmo legitimamente concebida, antes das primeiras descobertas da astronomia e da física modernas, isto é, antes das investigações de Galileu, de Kepler e de Newton.

            Não há mais de dois séculos que a ideia religiosa pura, liberta das idolatrias, das mitologias de toda ordem, dos erros e das superstições produzidos pela ignorância primitiva; não há mais de dois séculos que essa ideia pode surgir da evolução científica moderna. Todas as religiões atualmente existentes foram fundadas nas épocas de ignorância, em que nada se sabia, nem a respeito do céu nem a respeito da terra. A verdadeira religião, isto é, a união dos espíritos livres na pesquisa da Verdade, não poderá ser senão a obra de uma época tal como a nossa, na qual alguns espíritos corajosos e desinteressados se terão desprendido da hipocrisia das falsas doutrinas, sem se deixarem por isso tombar no ateísmo pueril dos espíritos fúteis que não vêm mais longe do que a superfície, espíritos esses que aplicarão sinceramente e livremente todos os ramos da ciência na pesquisa da constituição íntima do universo e do ser humano. O futuro nos instruirá. Hoje, pouco sabemos: apenas começamos a aprender.

            O Deus desconhecido, adivinhado pelos pensadores, por Sócrates, por Platão, por Marco Aurélio (26 de abril de 121 — 17 de março de 180), foi imperador romano desde 161 até sua morte. Dedicou-se à filosofia, especialmente à corrente filosófica do estoicismo, e escreveu uma obra que até hoje é lida: Meditações (wikipedia.com), por Voltaire (tão ardente deísta como violento anticlericalista}, por Newton, por Descartes, por Linneu botânico, zoólogo e médico sueco. Nasc. 23 de maio de 1707 Morte: 10 de janeiro de 1778), por Euler (Basileia, 15 de abril de 1707 – S. Petersburgo, 18 de setembro de 1783) foi um grande matemático e físico suíço de língua alemã, por Spinoza, por Kant, por todos os deístas puros, domina imensamente por sua grandeza todas as pobres invenções das clerezias de todos os cultos. Não se vê o Criador dos cem milhões de sóis da Via láctea contemplando uma pequena aldeia da Judeia e inspirando a Judith a ideia de ir seduzir Holofernes, para cortar lhe traiçoeiramente a cabeça, após havê-lo embriagado com as suas carícias (Segundo relata a Biblia, o rei de Babilônia Nabucodonosor enviou Holofernes para vingar-se das nações que haviam prejudicado a seu reino. Durante o sítio a Betulia feita por Holofernes, Judith, uma bela viúva judia que se introduziu no acampamento de Holofernes, bebeu com o general e o embebedou, para então decapita-lo enquanto dormia. Após, ela regressou à Betulia com a cabeça do general e os judeus venceram o inimigo) ou conferindo a Josué o poder de deter a marcha do sistema do mundo, para lhe dar tempo de exterminar os sitiantes de Gabaon (cidade de Israel)! Que ideia então faziam semelhantes escritores do Ser Supremo; e que ideia continuam a fazer dele os predicadores que continuam a ensinar esta "Escritura santa"? (*)

            (*) A objurgatória de Flammarion deve ser aplicada aos que tomam à letra as passagens da Escritura, que, interpretadas em espíríto e verdade, constituem a fonte da eterna sabedoria. NOTA DO TRADUTOR.

            O Infinito não pôde ser compreendido pelo finito. Aquele que fez a volta ao mundo, que visitou a Europa, a Ásia, a África, as Américas, raciocina de um modo incomparavelmente mais amplo, do ponto de vista do estado da humanidade, do que quem jamais saiu de seu país. Entre as ideias estreitas, incompletas, ilusórias, falsas deste e as apreciações gerais, justas, judiciosas, exatas do primeiro, há a diferença da noite para o dia.

            Desgraçadamente, pregamos no deserto. Para um homem que raciocina, há cem que não raciocinam. As lutas contra a dominação dos diretores de consciência são, aliás, bastante platônicas e o clero as despreza, com autoridade. A Igreja organizou o casamento, o nascimento e a morte por meio de cerimonias que seduzem a imaginação e agradam às mulheres. Comparai o casamento civil e o casamento religioso, o primeiro frio, sem brilho, insípido, glacial; o segundo pomposo, elegante nas cerimonias do altar enfeitado de flores e no encanto da música fazendo descer o Criador para o seio da esposa "Veni Creator Spiritus!" (Vem Espírito Criador) é um hino da Igreja Católica. Levareis séculos para substituir o segundo casamento pelo primeiro. Tal pai de família, livre-pensador, não fez batizar seus filhos para lhes deixar inteira a liberdade de consciência. Tinha quatro rapazes. Os quatro filhos fizeram-se todos batizar na véspera de seu casamento, porque suas noivas desejavam casar-se na igreja. Fé ou convenção, é assim que o mundo marcha... E os padres sorriem da ingenuidade dos leigos.

            O que é o domingo, para a maior parte dos cristãos? Um dia de belas toaletes. As tradições criaram uma "sociedade distinta", quase sempre hipócrita, à qual é de bom tom pertencer. Entretêm-se erros seculares, sem neles, por isso, acreditar-se. As convenções dirigem as pessoas de "bom senso".

            Por outra parte, confessemo-lo, quantos vivem desses erros, desses prejuízos, que exploram de diversos modos e sobre os quais regulam os seus interesses, enganando uns, lisonjeando outros, bajulando os vaidosos, adaptando seu modo de existência às convenções vantajosas e continuando a sociedade burguesa muito simplesmente, porque isso é mais simples e mais vantajoso, sem nenhuma preocupação da verdade e sem independência de espírito! A Razão e a sabedoria, que deveriam ser a regra, são exceção e os extremos reinarão por muito tempo: crédulos de um lado, negadores radicais do outro, estando os sábios no centro, em minoria minúscula. - e o interesse pessoal tudo dominando!
           
           


domingo, 18 de maio de 2014

Setenta vezes sete


Setenta vezes sete

18,21 Então, Pedro aproximou-se Dele e disse: “Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele faltar para comigo? Até sete vezes?
18,22 Respondeu Jesus: “ -Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

          Para Mt (18,15 et 21-22), -Setenta vezes sete - leiamos “O Evangelho...” de Kardec:

            “...Ai daquele que diz: Eu não perdoarei jamais, porque, se não for condenado pelos homens, o será certamente por Deus; porque, com que direito reclamará o perdão das próprias faltas se ele mesmo não perdoa as dos outros ?  Jesus nos ensina que a misericórdia não deve ter limites, quando diz para perdoar ao seu irmão não sete vezes mas setenta vezes sete vezes...”

             Ainda Kardec, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” ,  em  seu  Cap. X,  onde reproduz  mensagem mediúnica recebida em 1861 e assinada por Paulo, Apóstolo. Dela, reproduzimos apenas seu último parágrafo:

            “Mas, há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem aos seus adversários: “Eu lhe perdoo”, enquanto que, interiormente, experimentam um secreto prazer do mal que lhe acontece, dizendo para si mesmas que não tem senão o que merece.

            Quantos dizem: “Eu perdoo” e que acrescentam: “mas não me reconciliarei nunca; não quero vê-lo para o resto da vida.  Está aí o perdão segundo o Evangelho?  Não; o verdadeiro perdão, o perdão cristão, é aquele que lança um véu sobre o passado; é o único que vos será contado, porque Deus não se contenta com a aparência; ele sonda o fundo dos corações e os mais secretos pensamentos; não se lhe engana com palavras e vãos simulacros.

            O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas; o rancor é sempre um sinal de rebaixamento e de inferioridade.

             Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece nos atos bem mais que nas palavras.”  


terça-feira, 6 de maio de 2014

O Fim do Mundo


trechos de...
O Fim do Mundo
(La Fin du Monde)
(pgs. 222 / 223  da 7ª Ed. FEB 1995)

            Senhores do mundo, de todos os seus valores e mobiliários, tudo possuindo, ei-los ambos mais pobres que os mais pobres mendigos do passado!

            De que serviu tudo isso? - dizia ela passeando os olhos por todas aquelas conquistas da humanidade extinta. Sim! - para que todo esse esforço, conquistas, descobertas, e crimes, e virtudes? Sucessivamente, cada povo havia crescido e desaparecido. Alternativamente, cada cidade brilhara na glória e no prazer, para acabar em pó. Ei-las, ali, patentes naquelas ruínas que cobriam o solo, amontoadas, superpostas, ruínas de ruínas, sobre ruínas. E as últimas teriam a mesma sorte. Dos bilhões de homens que aqui viveram, que resta? Nada!
           
            - Dize-me pois, meu bem-amado, tu que tudo sabes, porque, e para que teria Deus criado a Terra? E, porque a Humanidade? Não achas, meu querido, que esse Deus é um tanto louco? Todos esses bilhões de criaturas que vieram pulular e disputar sobre esta pequenina bola girante, de que e para que serviram, uma vez que nada resta? Dar-se-á não estejam agora, precisamente, como se nada houvera existido?

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            Diverte-se o Criador com os seus bonecos, ou apraz-lhe fazê-los sofrer? É idiota? Que me dizes, meu amor?
            - Para que indagar, oh! minha Eva? Que teus olhos não se turvem assim... Assenta-te aqui, nos meus joelhos, vem repousar a bela cabecinha junto do meu coração. Deus, crê, só fez o mundo para o amor. Esquece, pois, tudo o mais.

            - Mas, como esquecer, fechar os olhos, abafar a razão e o coração nestas horas tão solenes? Sim, nosso amor é tudo, absolutamente tudo. Mas, meu querido, como não pensar ainda que todos os casais que nos precederam, desde o princípio do mundo, desapareceram, também eles, e que todos esses amores que aureolaram de esperanças os votos humanos; todos esses ósculos divinais, de lábios nos quais dir-se-ia rescender um gozo eterno; todos esses arroubos se perderam, se diluíram em fumo; - sim, em fumo - e que de tudo não resta mais que nada, nada...

            .......a verdade é que a Humanidade viveu dez milhões de anos para acabar nada sabendo! A Ciência entre todas maravilhosa, a ciência do universo, a Astronomia, tudo nos ensinou, deu-nos a verdadeira religião, mas, não nos demonstrou a lógica de Deus!


            - Queres muito saber, Eva. Contudo, não ignoras que a humanidade terrestre flutuou no incognoscível e nós não podemos conhecer o incognoscível....