Translate

domingo, 26 de janeiro de 2014

Século agonizante



Mais atual?
Impossível!
Do Blog.
Século Agonizante

Indalício Mendes
Reformador (FEB) Outubro 1961

            Cada ano que se completa assinala mais um ciclo da vitoriosa evolução do Espiritismo no Brasil e, naturalmente, o pensamento de todos os espíritas se volta para o Codificador Allan Kardec, missionário do Cristo que veio ao mundo com a tarefa sobre-humana de lançar as sementes da ressurreição do Cristianismo, desaparecido entre as pompas e as preocupações políticas de igrejas espiritualmente declinantes.

            Outubro é, para os espíritas, não apenas um mês de recordação da figura extraordinária de Kardec, mas, principalmente, um mês em que todos devemos realizar um exame íntimo de consciência, a fim de nos certificarmos dos erros cometidos, das omissões perpetradas, cotejando-os com os acertos do nosso trabalho de todos os dias.

            Mais do que nunca, a Doutrina se torna a tábua de salvação dos náufragos da vida terrena, a luz salvadora daqueles que, desiludidos e descrentes de outras religiões, correm para o Espiritismo como sua derradeira esperança. Felizmente, este cresce, desenvolve-se, fortalece-se, consolida-se, ampliando o seu raio de ação, pois realiza objetivamente o Cristianismo do Cristo, nada mais sendo do que uma alta expressão da obra legitimamente cristã.

            Nas condições anômalas em que se acha o mundo, enfraquecido, sobressaltado, iludido e desesperado pelo materialismo, que recorre a todos os processos para não se deixar substituir pelo reinado do Espírito, não é inoportuno repetir as palavras do Mestre: "Orai e vigiai!" A Terra está convulsionada, a Humanidade se contorce em ânsias indomináveis, presa do medo, vítima do ateísmo que subverte a razão e o sentimento. Enquanto se procurar combater o mal com o mal, nenhum progresso real será alcançado. E a prova, temo-la nas guerras que se sucederam e na guerra terrível que a todos ameaça.

            As comunicações que aludem ao Terceiro Milênio e à hora de debulhar, de limpar o grão da casca suja e imprestável que, em vez de o proteger, lhe rouba o benefício da luz, estão sendo inexoravelmente cumpridas. O homem mau, o homem tíbio, aparentemente bom, que não luta contra o mal, e o homem indiferente, que cuida de si, pouco se importando do que sucede com os seus semelhantes, esses, todos eles, estão marcados para a dolorosa transição do século. E, então, o que está apenas começando adquirirá cores mais vivas na desgraça, tons muito mais negros nas horas incertas da divisão esperada.

            Não temos vocação para Cassandra, mas é fato que a realidade da vida atual exige dos crentes, sinceramente bons, claramente tolerantes, positivamente decididos a enfrentar com coragem os ônus do bem, na luta contra os disseminadores da inveja, da intriga, do egoísmo, da calúnia, do orgulho, do ódio e da mentira, uma soma de sacrifícios bem maiores de quantos já suportaram. Foram feitas duas tremendas guerras mundiais em nome do "mundo livre", da "liberdade", "dos direitos humanos", do respeito à Humanidade. De ambas a Humanidade saiu mais ferida e mais aflita, mais pobre e mais infeliz, mais sacrificada e menos liberta.

            E assim sucederá enquanto os homens que dirigem as nações e aqueles que os acompanham não se convencerem de que o único programa de trabalho, ordem, paz e felicidade é aquele que se subordinar ao espírito do Evangelho do Cristo, sem preconceitos religiosos, sem prevenções dogmáticas nem restrições inumanas. Novos países têm surgido, na luta entre o nativismo e o colonialismo. Infelizmente, porém, todos trazem a marca original da inquietude, porque se apoiam em ideologias desfraternas e as defendem com ódio, sangue e dores.

            A Humanidade não será salva enquanto o Direito das gentes se escorar nas armas que matam, sem levar na devida conta o Amor Universal pregado e exemplificado por grandiosos missionários do Bem, dos quais sobressai a figura ímpar de Jesus. A inteligência pouco ajudará a Humanidade, sem o sentimento. Religiões seculares são religiões sem vida, porque perderam a alma quando se distanciaram das coisas do espírito. Falam em Cristo, em Buda, em Moisés, em Maomé, mas não os sentem no coração.

            A indisciplina, o desregramento, o despudor, o desrespeito, a desordem e a desorientação que lavra no mundo, desde a juventude abandonada, sem guia nem rumo certo, são frutos do materialismo consorciado a religiões falidas em sua nobre e elevada missão educativa. O Espiritismo, lutando com todos os obstáculos imagináveis, está, porém, cumprindo a sua missão cristã, coerente consigo mesmo, identificado com o Mestre dos mestres, levando aos lares a orientação retificadora, espalhando por toda a parte os benefícios do Evangelho, que, à luz da Doutrina Espírita, é a palavra de ordem e salvação, nesta hora angustiosa para a Humanidade entregue à mais dura provação.


            Ao relembrarmos o mês de Kardec, reafirmamos a confiança que todos temos no futuro do Espiritismo, como norma de recuperação do homem, perdido na confusão do século que agoniza.

O Pensamento de Hermínio de Miranda



              " ....Jesus não foi, assim, um mero profeta de um novo credo religioso: é, antes de tudo e acima de tudo, o Guia Máximo da Humanidade, que, antes de vir, enviou seus mensageiros escolhidos para preparar-lhe as veredas. Que adiantaria pregar a lei suprema do amor e da caridade na época da pedra lascada, quando predominava o sentimento bárbaro da mais grosseira materialidade? Era preciso um trabalho longo e meditado de desbravamento. Mesmo assim, vemos frequentes vezes, no Evangelho, a advertência amiga e carinhosa de que muito mais tinha ele a revelar, mas que a Humanidade de então não estava preparada para aceitar e compreender as grandes revelações. (Estaremos hoje?) Não nos deixou porém mergulhados na dúvida ou na inquietação, pois anunciou que um dia viria o Espírito de Verdade, que, então sim, descerraria o véu do mistério. E cumpriu o prometido."

Reformador (FEB) Novembro 1961 

O Pensamento de Hermínio Miranda



              Em suma, o Sr. .... é de opinião que o Espiritismo não precisa e não deve procurar apoio no Cristianismo, com o que estamos totalmente em desacordo. Entendemos que o Espiritismo, sem a moral religiosa do Cristianismo, é apenas fenômeno psíquico mais ou menos estéril. Allan Kardec, Espírito de milenar experiência, amadurecido ao calor de muitas e muitas encarnações e que certamente passou, no decorrer de suas vidas, por várias formas de manifestação religiosa, acabou por fixar sua preferência indiscutível no Evangelho de Jesus. Isso não foi mera coincidência. Se até mesmo na insignificância de nossa vida diária, poucas coisas acontecem por simples acaso, como é que um dos maiores movimentos do espírito humano ficaria deixado ao acaso? Ao contrário, pelo que sabemos da evolução espiritual da criatura na Terra, existe atrás de tudo isso um plano maravilhoso que se desdobra lentamente diante dos nossos olhos. Sem desejar reduzir a importância e o conteúdo espiritual das grandes religiões do mundo, sabemos hoje, de fontes reveladoras dignas de maior fé, que os maiores profetas do passado, fundadores de novas crenças, não foram senão precursores abençoados d'Aquele que depois viria e do qual o Batista dizia não ser digno de desatar as sandálias.

Reformador (FEB) Novembro 1961


O Pensamento de Hermínio Miranda




                       Na realidade, os fenômenos psíquicos, isto é, espíritas, provam as crenças e teorias cristãs, explicando outras que, sem eles, eram obscuros, incompreensíveis, e tidos por supernaturais e milagrosos. Mas é preciso atentar bem para um ponto: não basta o fenômeno. Este é apenas uma parte da verdade e a verdade é um todo indivisível; a sua compreensão integral exige o conhecimento doutrinário, ao lado do fenômeno. De que serviria a manifestação espírita sem a consequência filosófica que se lhe segue? Serviria, quando muito, de objeto de curiosidade, chamariz a exigir a atenção passageira dos incrédulos. Não que desejemos reduzir a importância do fenômeno à sua expressão mais simples; ele é importante, necessário e útil, mas queremos deixar bem claro que, sendo mero suporte de uma realidade superior, é preciso que alcemos nossa inteligência na busca dessa realidade que é o espírito, centelha imortal emanada do poder criador de Deus.

Reformador (FEB) Novembro 1961

O pensamento de Hermínio Miranda


        

           "Saber que a morte não existe não é um mero consolo; é, de fato, uma diretriz para a vida, e atingir o conhecimento das leis espirituais - mesmo neste jardim da infância da vida terrena - é receber um tesouro permanente, se compreendermos sempre que o uso que fazemos desse conhecimento é que o torna valioso." 

Reformador (FEB) Novembro 1961

O pensamento de Hermínio Miranda



            -, a compreensão das leis espirituais que nos governam, e ao mundo que nos cerca, nos leva a "respeitar o espírito que há em cada pessoa - gostemos ou não delas. Com isso, conseguimos viver melhor com o nosso semelhante, de maneira muito mais satisfatória que numa fraternidade insincera". "Estamos aqui, ... para levar uma vida plena e útil, não para deixar o tempo passar, suspirando por viver numa outra dimensão." 


                                                                                                                                          Reformador (FEB) Novembro 1961

Frederico apareceu a Goethe em espírito

Goethe

Frederico apareceu a Goethe em Espírito


Boanerges da Rocha / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Novembro 1961

            Muitos, muitíssimos fatos curiosos ocorrem no ambiente espírita, demonstrando a inutilidade dos esforços daqueles que, por motivos religiosos ou pseudocientíficos, se entregam ao mister de anunciar a improcedência de tais fenômenos.

            Quando lemos que qualquer indivíduo quer ter a "boa ventura" de provar a impossibilidade dos fatos espíritas ou tentar a "explicação" que mais convenha aos discutíveis interesses de sua grei, sorrimos piedosamente de tanto tempo perdido, de tanta insinceridade, de tanta hipocrisia e, porque não dizê-lo, de tanto caradurismo.

            Se semelhante procedimento é incompatível com a ética da Ciência, não o é menos quanto à da Religião, porquanto esta impõe sempre o respeito à verdade e, para contestarem os fenômenos espíritas, os que a isso se dedicam começam por recusar a verdade e, consequentemente, por fugirem ao princípio primário e fundamental de qualquer religião que se preze de o ser: a honestidade de opinião em qualquer circunstância.

            Acontece, porém, que o Espiritismo é eterno e não tem pressa. Paciente, espera que os seus detratores de hoje se tornem, um dia, seus devotados propagadores. A lei reencarnacionista lhe assegura plena confiança no futuro. Entrementes, passemos a relatar mais um episódio curiosíssimo, ocorrido com pessoa de cuja idoneidade não é lícito duvidar - Goethe, o grande e famoso poeta alemão.

            Wolfgang von Goethe passeava, numa noite chuvosa de verão, com o seu amigo K ... , voltando com ele do Belvedere para Weimar. De repente, o poeta estacou, como se enfrentasse um fantasma que lhe fosse falar.

            K ... não desconfiava de coisa alguma. Subitamente, Goethe exclamou: "Meu Deus! Se eu não tivesse certeza de que o meu amigo Frederico está nessa momento em Frankfurt, juraria que era ele! "Em seguida, deu uma gargalhada: "Mas sois efetivamente vós... meu amigo Frederico! Como é que vos achais aqui em Weimar? Mas, por Deus, meu caro, de que maneira estais vestido, com o meu robe-de-chambre, com o meu barrete de dormir, calçado de chinelos em plena rua?"

            K ... , como acabei de dizer, não via absolutamente nada de tudo isso e amedrontou-se, acreditando que o poeta enlouquecera subitamente. Mas Goethe, inteiramente preocupado com a sua visão, exclamou, abrindo os braços: "Frederico! Por onde passastes?"

             "- Por Deus! dizei-me amigo K.... não vistes por onde passou a pessoa que acabámos de encontrar?"

            K... , estupefato, nada respondia. O poeta, voltando, então, o rosto para todos os lados, proferiu, com ar de quem sai de um sonho, estas palavras: "Sim, compreendo... é uma visão...  entretanto, que significação pode ter tudo isso? Teria o meu amigo morrido repentinamente?

            Seria o seu Espírito que aqui esteve? Dado o fato, Goethe foi para casa e lá encontrou Frederico. Seus cabelos eriçaram-se:

            "- Para trás, fantasma!" - exclamou ele, recuando, pálido como um cadáver.

            "- Mas, meu caro, acolhes, então, desse modo o teu mais leal amigo?" - tornou Frederico.

            Rindo e chorando ao mesmo tempo, o poeta considerou:

            "- Ah! Desta vez não é um Espírito, mas um vivente de carne e osso."

            E os dois amigos abraçaram-se com efusão.

            Frederico chegara ao aposento de Goethe, inteiramente molhado pela chuva, e tinha trocado as suas roupas pelas do poeta, que estavam secas.

            Em seguida, adormecendo em sua poltrona, sonhou que tinha saído ao encontro do amigo, que o tinha interpelado com estas palavras: "Como é que vos achais aqui em Weimar? de que modo... com o meu robe-de-chambre, meu barrete de dormir e meus chinelos, em plena rua?.."

            Desde esse dia, o poeta acreditou numa outra vida depois da morte.

            O episódio foi narrado pelo "Psichische Studien", de Leipzig, de Março de 1897, e publicado em "A Alma é Imortal", de Gabriel Delanne, que faz, por sua vez, o seguinte comentário:

            "Este caso é interessante por mais de uma razão, pois estabelece que uma aparição, mesmo invisível para um terceiro, pode, entretanto, não ser uma alucinação telepática, pelo menos no sentido que se tem aplicado a esta palavra.

            "Assistimos efetivamente, nesse fenômeno, a uma espécie de alucinação telepática, por isso que só Goethe vê o fantasma, mas essa imagem é exterior, não se acha alojada em seu cérebro, como sê-lo-ia uma verdadeira alucinação, pois resulta do testemunho de Frederico, que ele fora, em sonho, ao encontro do seu amigo; e o que estabelece a objetividade da sua exteriorização é que as palavras que ouviu são exatamente as pronunciadas pelo ilustre poeta, Vemos que aquilo que Frederico toma por sonho é a recordação de um ato real passado durante o seu sono. Foi o seu Espírito que se desprendeu, enquanto seu corpo repousava, e ouviu, retendo-as, as palavras de Goethe.

            "Façamos, aproveitando-nos da oportunidade, uma observação muito importante. Se Frederico não se tivesse lembrado dos acontecimentos que se deram quando ele dormia, os membros da sociedade de investigações psíquicas teriam concluído por uma ação da consciência subliminal de Frederico, isto é, pela representação de uma "personalidade segunda" deste indivíduo;' Ora, parece evidente, neste caso, que é sempre a mesma personalidade que age, pois tem consciência do que se passou. Somente pode acontecer que nem sempre se lembre do que praticou durante o repouso do corpo. Essa perda de lembrança não é bastante para autorizar os psicólogos ingleses e franceses a dizerem que há em nós personalidades que coexistem e se ignoram mutuamente (ver W. H. Myers, Proceedings, La Conscience subliminal. Consultar também: P. Janet, L'Automatisme psychologique; Binet: Les Altérations de la personnalité.

            A única indução que logicamente parece-nos ser permitida é a que admite que a nossa personalidade comum - a do estado de vigília - está separada da personalidade durante o sono, por uma categoria de lembranças que não são mais conscientes ao despertar, Não há duas individualidades no mesmo ser, mas tão somente dois estados diferentes dessa individualidade.
 
            Gabriel Delanne, que se dedicou ao estudo científico dos fenômenos espíritas, é um dos nomes de maior prestígio, por sua cultura sólida e por sua integridade moral e científica. Suas se incluem entre as que a Federação Espírita Brasileira tem editado. Constituem preciosa contribuição para o conhecimento do Espiritismo científico. Devem ser lidas. Lidas e meditadas.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

XXVIa. XXVIb. et XXVIc. 'Apreciando a Paulo'


XXVI a
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec – 1958

Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais
 estiveram debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar.
E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar.
E todos comeram dum mesmo manjar espiritual.
E beberam todos de uma mesma bebida espiritual,
porque bebiam da pedra espiritual que os seguia;
E A PEDRA ERA CRISTO”.
 (Paulo 1ª Epístola aos Coríntios, 10:1 a 4).

            Paulo de Tarso alude aqui à passagem do povo hebreu pelo Mar Vermelho e ainda ao “maná do deserto”, a que o Velho Testamento se refere, respectivamente, nos capítulos 14 e 16 de Êxodo, o segundo livro do Pentateuco. Ele considera esse manjar como sendo espiritual, cujo conceito assim é mais conforme com a natureza do fenômeno. Diz ainda que todos os judeus que fugiram da escravidão do Egito beberam também da mesma bebida espiritual, “porque bebiam da pedra espiritual que os seguia: e a pedra era Cristo”.

            A verdade é que, constantemente, quer pelas palavras de Jesus como pelas de seus apóstolos, vê-se a correlação, a entrosagem, do Novo com o Antigo Testamento. Portanto, ninguém deve - dizendo-se espírita cristão - negar valor à Bíblia, pois que aí se fundamentam as três revelações de Deus.

            São Paulo afirma, em um dos versículos supra transcritos, que o Espírito do Cristo já seguia o povo hebreu em seu êxodo, presidindo sempre os destinos da Humanidade e orientando mesmo aquela nação, à qual fora dada a incumbência de divulgar ao mundo a primeira revelação divina, o monoteísmo, de vez que os outros povos, até então, eram politeístas. Jeová teria sido o Espírito encarregado de falar àquele povo em nome de Deus. Conforme lição de Ernesto Renan, “imaginava-se que não fora propriamente Deus que se mostrara nas teofanias da antiga Lei, mas que se tinha substituído por uma espécie de medianeiro, o maleak Jehovah”.

            Mas a ideia do Deus único e verdadeiro acabou por se impor à aceitação dos povos cultos, sendo os deuses do Olimpo derribados de seus pedestais, em face da recomendação bíblica: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na Terra, nem nas águas, debaixo da terra; Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais sobre os filhos até na terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Deut., 5:6 a 10).

            Apesar de afirmativas tão categóricas, proibindo o culto das imagens, “seja do que há em cima no céu, como embaixo na Terra”, o que não podia deixar lugar a dúvidas, nem a exceções, a Igreja Católica Romana, desrespeitando o Velho Testamento e um dos mandamentos da lei de Deus, restabeleceu, em 787, aquele culto pagão, cuja heresia transformou em dogma de fé, no 2º Concílio de Niceia. E permitiu ainda a venda de imagens, de estampas e de terços, até no interior de suas catedrais, como vimos na célebre igreja de N. S. do Rocio, em Paranaguá. ao lado da sacristia, e consoante se verifica até na basílica de São Pedro, em Roma, onde esse comércio é praticado nos cômodos existentes em torno de sua cúpula, sendo que ali se vendem também souvenires para os turistas...



XXV b
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec – 1958

            Jesus expulsou os vendilhões que se achavam no átrio ou à porta do templo de Jerusalém (Marcos, 11:15 a 17), mas eles hoje passaram para dentro das igrejas, com o apoio dos sacerdotes católicos que, por sua vez, cobram preço avultado pelos sacramentos, não vendo nesse negócio nada de abominável, apesar da condenação de Jesus, que jamais devia ser sofismada.

            Dizer que o Espírito-Santo assiste o papa para permitir esse negócio de “coisas sagradas” no interior das igrejas, é o cúmulo da irreverência, mas tal não surpreende, porque o Vaticano possui, para multiplicar sua riqueza nababesca, o “Banco DeI Santo Espirito”, que funciona regularmente, há muitos anos, com ótimos lucros...

            O certo é que, uma das maiores rendas do Vaticano é a bênção papal, cujo preço varia conforme a qualidade do papel, e que já se encontra impressa e assinada, às centenas, bastando pagar para que o nome do beneficiado seja preenchido! Não escrevemos isto pelo prazer de censurar, mas pelo dever que temos, como cristão, de mostrar quanto a Igreja de Roma se tem distanciado dos ensinamentos de Jesus, mercantilizando a fé e até infundindo terror nas consciências, com o dogma do inferno, que bem satisfaz seus propósitos de dominação temporal... É mesmo com tristeza que escrevemos isto, porque melhor seria que não existir tal desvirtuamento do Cristianismo, mas o certo é que, vulgarizando esses fatos, achamos estar prestando um serviço à verdade e à pureza da religião, em prol da qual pelejamos com fundamentos bíblicos e com firmeza de convicção, condenando a simonia.

            Eis porque os Mensageiros do Senhor se esforçam agora para fazer restabelecer o culto a Deus, “em espírito e verdade”, praticado sinceramente, isto é, sem interesses pecuniários ou de dominação política, tal como se verificava entre os primeiros cristãos. Eles davam-se ainda às práticas mediúnicas, estabelecendo o intercâmbio com o Espírito-Santo, como São Paulo mesmo esclarece no capítulo 12 dessa Primeira Epístola aos Coríntios. Tal a razão por que se diz, com muito acerto, que “o Espiritismo é o Cristianismo redivivo em toda a sua pureza primitiva” ,quando era praticado sem imagens, sem preconceitos dogmáticos e sem rituais, sendo dado de graça aquilo que do Senhor se recebia, conforme o ensino de Jesus (Mateus, 10:8 in fine).

            Nossos prezados irmãos protestantes também procuram adorar a Deus sem imagens, mas aceitam ainda alguns dogmas do Catolicismo romano, como o da Santíssima Trindade etc., e não exercitam os dons espirituais, a que Paulo faz menção e que foram praticados pelos primeiros cristãos. Além disto, embora não haja entre os protestantes tanta preocupação com o dinheiro, como entre os dirigentes católicos, há, todavia, uma cobrança de dízimos, à moda dos judeus... O fato é que o “dai de graça o que de graça recebestes”, que Jesus recomendou em matéria religiosa, também não é observado ali com o necessário rigor. Não estamos julgando, mas apenas assinalando fatos, repetimos, a bem da verdade.

            Tanto é certo que na época apostólica os discípulos do Senhor se davam às práticas espiríticas, que os mais imparciais historiadores, como Ernesto Renan, a isto se referem. Renan foi livre pensador, não filiado a qualquer igreja, por vezes irreverente, e até céptico com relação aos fenômenos espiríticos, cuja verdade nega, por serem contrários à Ciência, como ele diz. Mas ninguém lhe pode contestar o profundo conhecimento das origens do Crístianismo, cuja história estudou apaixonadamente, durante vinte anos (“Marco Aurélio e o Fim do Mundo Antigo), introd., pág. VIII), visitando, no século passado, quando viveu na Terra, a Palestina, em todos os lugares palmilhados por Jesus. Por isto mesmo, o testemunho de Ernesto Renan é insuspeito, a propósito de certos assuntos (como o da prática espírita entre os primeiros cristãos), consoante se lê em sua obra “Os Apóstolos” (tradução de E. A. Salgado, Porto, 1945), pág. 46:

            “O pensamento dominante na comunidade cristã, depois que cessaram as aparições, era a vinda do Espírito-Santo. Julgavam recebê-lo sob a forma de um sopro misterioso, que deslizava por cima das pessoas reunidas. Imaginavam muitos que era o próprio sopro de Jesus (João, 20:22). Uma consolação íntima, um movimento de coragem, um impulso de entusiasmo, um sentimento de alegria viva e deleitosa que não sabiam de que procedia, tudo era obra do Espírito. Aquelas boas consciências atribuíam, como sempre, a uma causa externa os sentimentos singulares que nelas desabrochavam. Era um particular nos ajuntamentos que se realizavam esses estranhos fenômenos de iluminismo. Quando todos estavam reunidos e se esperava em silêncio a inspiração de cima, um murmúrio, qualquer rumor, fazia crer na vinda do Espírito. Nos primeiros tempos eram as aparições de Jesus que se realizavam do mesmo modo. Agora estava mudado o curso das ideias. Era o hálito divino que corria sobre a pequena Igreja e a enchia de celestes eflúvios.

            “Estas crenças se prendiam com concepções bebidas no Antigo Testamento. O espírito profético é mostrado nos livros hebreus como um sopro que traspassa o homem e o exalta. Na bela visão de Elias (1 Reis, 19:11-12), Deus passa figurado em leve vento, que produz leve sussurro. Essas antigas imagens tinham produzido, nas épocas baixas, crenças muito análogas às dos espiritistas de hoje. (O grifo é nosso.) Na ascensão de Isaías (Ascensão de Isaías, 6:6 e seguintes - versão etíope) a vinda do Espírito é acompanhada de certos ruídos nas portas. Todavia, o mais das vezes, concebia-se essa vinda como um outro batismo, isto é, “o batismo do Espírito”, muito superior ao de João”. (Mateus, 3:11; Marcos, 1:8; Lucas, 3:16; Atos, 1:5; 11:16; 19:6 e I João, 5:6 e seguintes).

            Tais afirmativas, que são semelhantes a de todos os estudiosos das origens do Cristianismo, correspondem aos esclarecimentos de Paulo sobre os dons espirituais (I Cor., 12), confirmando sua prática pelos primitivos cristãos.

            Tudo isto comprova que o Espiritismo cristão nada mais é, conforme os Mensageiros do Senhor hoje confirmam, do que o Cristianismo verdadeiro, tal e qual era praticado pelos apóstolos do Senhor Jesus e pelos primeiros discípulos, que as igrejas ortodoxas desviaram mais tarde de sua rota genuína, enxertando-a de dogmas, mas que o Espírito Santo agora procura restaurar, em toda a sua pureza primitiva, cumprindo as promessas do Cristo de Deus (João, 14:26 e 16:12 a 14).

            Já Paulo de Tarso dizia: “Não extingais o Espírito” I Tess., 5:19). Aquelas igrejas, infelizmente, tem procurado extinguir ou sufocar o Espírito, proibindo as comunicações com ele, esquecidas do ensinamento de outro apóstolo, João Evangelista, que também declara:
O Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (I João, 5:6, in fine)

            Todavia, o que há de mais digno de realce nesses versículos de Paulo, que ora procuramos comentar, é a assertiva categórica do apóstolo dos gentios de que a pedra era Cristo.

            Portanto, para terminar este artigo, passemos a outra ordem de considerações.

            Com efeito, Jesus Cristo é o fundamento, a essência, a pedra básica de sua Igreja, que é espiritual, porque composta de todos aqueles (não importa o credo, nem o plano da vida) que tenham instalado o reino de Deus dentro de si mesmos. Esses são cristãos, porque creem e praticam, dando testemunho de sua fé, através de obras que a demonstram ou que a comprovam.

            Realmente, se as leis e os profetas se resumem no amor (Mateus, 22 :40); se os próprios mandamentos da lei de Deus foram sintetizados em tão nobre sentimento (idem, 22:37 a 39); se Deus, Ele próprio, é amor (I João, 4:8), quem pauta seus atos pela caridade é cristão, pouco importando a religião a que esteja filiado.

            É claro que o Espiritismo dá melhor entendimento, mais esclarecimentos e compreensão a quem o adota, e a possibilidade de conduzir-se com mais acerto, porque “conhece-se o espírita pela sua transformação moral”, que se objetiva ainda em atos de caridade. Mas isto não quer dizer que monopolizemos a Jesus, pois que ele pertence a toda a Humanidade, isto é, a todos os que procuram cumprir com boa vontade os seus mandamentos. E, assim, o que salva não é somente a fé, mas sobretudo as obras que a testificam.



XXV c
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec – 1958


            Nossos prezados irmãos católicos pensam que São Pedro é a pedra fundamental da Igreja do Cristo. Baseiam-se em Mateus, 16:18 para assim entenderem.
           
            Seria estranho que Jesus, o Cristo, o Messias prometido à Humanidade, Salvador e Redentor nosso (porque nos indica o verdadeiro caminho para tal), fundasse uma religião e desse como base da mesma um seu inferior, um subalterno, isto é, a pessoa de um seu apóstolo, o qual, por mais puro que fosse, a ele não se poderia comparar, nem em virtudes, nem tão pouco em conhecimentos.

            Mas temos a recordar que o próprio Pedro reconhece no capítulo segundo, versículo quarto, de sua Primeira Epístola, que Jesus é a PEDRA VIVA, “para com ??? Deus eleita e preciosa”.

            Bastariam as opiniões categorizadas dos dois apóstolos, Paulo de Tarso e Simão Pedro, sobretudo a deste, que não se considera, mas ao Cristo, como a PEDRA fundamental de sua Igreja, para procurarmos descobrir outra interpretação ao Evangelho segundo Mateus, no texto citado, mais conforme com a verdade. É o que procuraremos fazer, comentando agora o capítulo dezesseis de Mateus, versículos 13 a 20, que dizem:

            “E chegando Jesus às portas de Cesareia de Filipo, interrogou aos seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens ser o filho do homem?
            E eles disseram: Uns João Batista, outros Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou?
             E Simão Pedro, respondendo, disse: TU ÉS O CRISTO, o FILHO DE DEUS VIVO.
            E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai que está nos céus.
            Pois também te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
            E eu te darei as chaves do reino dos céus.
            Então mandou a seus discípulos que a ninguém dissesse que ele era o Cristo.”

            Diga-se de passagem que, se os judeus pensavam que Jesus era Elias, Jeremias ou um dos profetas, falecidos há séculos, é porque achavam possível a reencarnação, já admitida por muitos...

            Mas foi Simão Pedro quem dera a resposta exata, fazendo a revelação: Jesus era o Cristo, o filho de Deus vivo!

            “E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não REVELOU a carne ou o sangue, mas meu Pai que está nos céus.
           
            Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei minha igreja.”

            A PEDRA em que Jesus edificou sua igreja, portanto, não foi Pedro, mas A REVELAÇÃO ou a confissão feita por Pedro, de que Jesus era o Cristo, o filho de Deus vivo. O texto da Vulgata fala em super petram e não em super Petrum. “Sobre a pedra” e não “sobre Pedro”, foi que ele edificou sua Igreja. E A PEDRA ERA CRISTO, conforme São Paulo nos afirma, secundado ainda por São Pedro, consoante já demonstramos.

            Assim, Jesus fundou sua religião sobre aquela revelação de Pedra???, de que ele era o Cristo, o filho de Deus vivo, tanto que mais tarde o confirmou em João, 14:6, dizendo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” Se a PEDRA fosse Pedro, alguém poderia ir ao Pai por seu intermédio. Mas Jesus frisou, como vimos acima: “NINGUÉM VEM AO PAI, SENÃO POR MIM”.

            A interpretação supra é também a dos primeiros e mais abalizados doutores da Igreja Apostólica Romana. É o que afirma Huberto Rohden, em seu livro “Agostinho”, em longa nota à pág. 292, de sua segunda edição.

            Diz aquele culto escritor que Santo Agostinho também entendia que “a pedra é Cristo”, e não Pedro, opinião essa seguida por dezesseis teólogos, “antigos padres e escritores eclesiásticos”. Afirma ainda que quarenta e quatro doutores da Igreja Romana consideram a confissão de Pedro (ou a revelação) como sendo a rocha (ou a pedra), o que vem a dar na mesma coisa, pois que tal confissão é de que “Jesus é o Cristo, filho de Deus vivo”, como se vê em Mateus, 16:16. E que somente dezessete teólogos católicos sustentam que “a pedra é Pedro”.

            O assunto também se acha bem esclarecido no célebre discurso do bispo Strossmayer, pronunciado no Concílio Ecumênico de 1870, quando foi decretado o dogma da infalibilidade do papa, que é talvez o maior disparate da Igreja Romana, legítima heresia, pois infalível só Deus o é. Aquela notável peça oratória, publicada em “Roma e o Evangelho”, edição da Federação Espirita Brasileira, merece ser divulgada e conhecida por todos os que se interessam pela pesquisa da verdade, sem tabus ou receios infundados, pois Jesus jamais excomungou, e ninguém tem o direito de fazê-lo em seu nome, de vez que sua doutrina é de perdão e de amor.

            Assim, lutar pelo bem e pela verdade é dever de todo cristão, que precisa ter a coragem necessária para buscar o esclarecimento de seu espírito, embora evitando discussões ou polêmicas, mas examinando tudo e escolhendo o que for melhor, como Paulo recomenda ainda em I Tess., 4:21.

            Ele foi o vaso ou o aparelho mediúnico escolhido por Jesus para vulgarizar o Cristianismo, e suas epístolas merecem meditadas, porque nelas existe a água pura que dessedenta, esclarece e redime.

            Fácil é concluir daí que o Senhor deu a Pedro as chaves do reino dos céus, que é a sua doutrina, mas que este não a monopoliza. São Pedro, como qualquer cristão sincero, tem as chaves do reino dos céus, que é o amor. E o que Pedro ligasse na Terra seria ligado nos Céus, assim como tudo o que fazemos na Terra é ligado nos Céus, pois, “a cada um será dado segundo as suas obras”. (Mateus, 16:27)

            Embora os apóstolos fossem evidentemente Espíritos de luz, em missão, nenhum na Terra foi maior do que outro, e Jesus mesmo assim o considerou: “O maior entre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado”. (Mateus, 23:11, 12.)

            São Pedro nunca foi papa, figura que não existiu entre os primeiros cristãos, como está historicamente provado, conforme Rui Barbosa bem o esclarece, em “O Papa e o Concílio”. Se o tivesse sido, os “Atos dos Apóstolos” o teriam registrado. Bem ao contrário, Paulo de uma feita repreendeu a Pedro, como se vê em Epístola aos Gálatas, 2 :11, o que comprova que este não era o chefe da Cristandade, cujo dirigente é Jesus, a verdadeira pedra em que sua Igreja se alicerça.


            Assim, repitamos com Paulo: A PEDRA É CRISTO, rocha viva de nossa fé e de nossa esperança! 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Importância experiência de desdobramento voluntário


Importante experiência
de desdobramento voluntário
Boanerges da Rocha / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Julho 1961

            Um dos fatos extraordinários do Espiritismo foi o oferecido pela médium Sra. Vlasek, num caso de voluntário desdobramento ou bilocação, ocorrido na Califórnia, Estados Unidos, cujo amplo relato encontramos em “Maisons et Lieux Hantés”, de Raoul Montandon.

            A Sra. Vlasek desenvolvia, a esse tempo, dinâmica atividade espirítica, desempenhando cargos de grande responsabilidade em centros e associações espíritas norte-americanas. Mulher de grande prestígio, por sua autoridade moral e sua cultura, conferencista muito apreciada, conhecia a Doutrina e exercia com êxito as faculdades pessoais que possuía. 

            O caso que vamos oferecer aos leitores constitui um dos mais expressivos documentos comprobatórios do chamado “desdobramento voluntário”, que ela conseguiu após longo e paciente treinamento, que culminou com a famosa experiência mencionada por Montandon.

            “Em 1926, a Sra. Vlasek, designada para representar as Associações espíritas dos Estados Unidos em importante conclave de Toledo, Ohio, foi insistentemente solicitada para repetir uma experiência já tentada e parcialmente bem sucedida no ano anterior, por ocasião do Congresso de Milwaukee.

            Partindo, pela manhã, de Los Angeles, no trem da “Union Pacific”, a Sra. Vlasek preparou-se para a experiência da tarde, apenas reduzindo sua alimentação ao mínimo. Deveria seu Espírito, de acordo com o convencionado, desprender-se no curso da viagem e produzir uma manifestação em uma das reuniões do grupo a que pertenciam os solicitantes da prova, realizada a muitos quilômetros de distância. Essas reuniões contavam com um médium que promovia a fala direta de Espíritos através de porta-vozes, e de um médium de materializações. A primeira manifestação da Sra. Vlasek deveria ocorrer ao fim do dia de sua partida, a 27 de Setembro, na sessão da Sra. Webb, médium de vozes diretas, e a segunda, no dia imediato, na sessão da Sra. Allyn, médium de materializações.      

            No momento da sessão (tendo-se em conta a diferença de horas já estabelecida pela marcha do trem), a Sra. Vlasek retirou-se para a sua cabina, seguindo o seu método habitual de concentração, tendo como objetivo a sessão da médium de vozes diretas. A primeira experiência foi coroada de êxito. Na segunda, a Sra. Vlasek, concentrando toda a sua vontade, compareceu à sessão combinada. Ao entrar no Centro Espírita, ela teve a impressão de haver chegado atrasada. Efetivamente, a sessão já ia bem adiantada. Passando para o gabinete mediúnico, ela viu, segundo declarou, grande número de Espíritos, alguns em cima e outros fora das cortinas, à espera do momento de se materializarem.

            Entre os Espíritos ali reunidos, um, feminino, que parecia ser o “Espírito-Guia”, desejou dar-lhe boas-vindas, acrescentando: “Mas, você é uma mortal, não poderá senão assistir aos trabalhos.”

            A Sra. Vlasek, então, examinou a médium, Sra. Allyn; viu-a profundamente caída em transe; o corpo inteiriçado, meio-deitado na poltrona. Depois, seu interesse se fixou nas fases sucessivas dos trabalhos em curso. Três Espíritos, que ela denomina de “Espíritos Químicos”, trabalham ativamente: um, de porte elevado e pele escura; outro, pequeno e idoso, mas de pele branca, e o terceiro, igualmente pequeno, mas de tez escura como o primeiro.

            O trabalho do primeiro Espírito consiste, antes de tudo, em concentrar a própria atenção. Conservando-se à entrada do gabinete, ele agita os braços constantemente, parecendo recolher uma substância cinzento-azulada, vibrante, que se semelhava um pouco com as ondas de vapor, e produzida pelos assistentes humanos presentes à reunião. Mas, posto que essa substância contornasse todo o grupo de espectadores, como se fosse uma cinta, a contribuição dada por cada um dos assistentes era desigual. Alguns até não forneciam nada.

            A cinta partia da Sra. Allyn, sentada à direita do gabinete, e, seguindo o grupo, chegava à esquerda do mesmo gabinete, aumentando progressivamente de volume “pro-rata” da contribuição de cada um dos espectadores. Ao se formar, debaixo do joelho direito da Sra. Allyn, a cinta não tinha mais que 5 centímetros de largura por 15 de espessura, e, em sua supuração, alcançava, aproximadamente, 30 por 45 centímetros. Essa cinta era de substância que, penetrando no gabinete mediúnico, a cerca de 60 centímetros do chão, ia sendo recolhida pelo primeiro “Espírito químico”.

            A observadora assinala que, junto ao grupo humano presente, vários Espíritos trabalhavam para regularizar a produção recebida dos assistentes encarnados, de maneira a manter uma espécie de “constante” na corrente vibratória.

            Quando o primeiro “Químico” acumulava a quantidade desejada de substância passava-a ao segundo, que a espalhava sobre a base do crânio e sobre a nuca do médium, onde ela penetrava. E, correspondendo a essa penetração, uma matéria branca emanava do queixo, da garganta e do peito da médium. Essa emanação, que parecia uma substância mais condensada, era, então, empregada pelo terceiro “Químico” para recobrir o Espírito que ia materializar-se. À medida que o operador realizava esse trabalho de “revestimento” sob a forma fluídica, recomendava imperativamente que o paciente concentrasse seu pensamento sobre a parte a materializar: “Pense em seus traços. fisionômicos! Em seu rosto! Pense em seus olhos! Pense na forma que você tinha na Terra! Pense com clareza e precisão! Pense em seus braços, etc.”

            E, a pouco e pouco, segundo a concentração se fizesse sobre tal ou qual parte do corpo, este se ia formando, construindo, e ficando material.”

            Podem os leitores observar bem essa particularidade narrada pelo Espírito da Sra. Vlasek, graças ao desdobramento espiritual que voluntariamente ela provocara. Enquanto seu corpo permanecia no trem que a levava a Ohio, seu Espírito comparecia à sessão que se realizava nessa cidade, e via e era visto ali, comprovando o extraordinário fenômeno de bilocação. Mas, continuemos o seu instrutivo relato:

            “Enquanto a realização do fenômeno prosseguia, os assistentes cantavam uma velha melodia dos negros americanos: “Old Black Joe”. Mas, subitamente, eles a interromperam e um deles passou a entoar, então, a marcha da Guerra da Secessão: “Marching through Georgia”. Essa mudança brusca do ritmo das vibrações teve deplorável efeito na formação que se fazia: a substância já organizada se desintegrou, tornando-se amorfa. Era preciso, então, recomeçar o trabalho.

            O “Químico” fez sinal a outro Espírito candidato à materialização para se aproximar e retomou sua tarefa. Mas outra mudança do canto ocasionou novo contratempo.

            Entrementes, observando esses insucessos, a Sra. Vlasek permanecia no gabinete mediúnico como que flutuando acima do chão. Era impossível, disse ela, ficar em pé no gabinete mediúnico. Depois de uma pausa da cantoria, alguém começou a cantar “Shall we gather at the river”. Ela verificou que se tornara mais pesada. Aproximando-se do “Químico”, este quis afastar-se; dizendo: “Você é uma mortal... Não tem nada que fazer aqui.” Em seguida, arrependendo-se, perguntou-lhe porque ela deseja materializar-se Quando ele soube que a “mortal” acreditava que uma manifestação dessa natureza seria muito instrutiva para os espectadores, seus amigos, e prodigiosamente valiosa para a Causa, consentiu em satisfaze-la. Dizendo-lhe para retornar de costas, ele apanhou a substância emanada da médium e, recobrindo seu corpo fluídico, ordenou-lhe: “Pense nos seus traços fisionômicos, com precisão... Pense no que você era, exatamente... Pense nos seus cabelos! Em seus olhos! Pense em sua forma! Pense em seus braços! Em suas mãos, em seus pés, etc...

            Apanhando ainda mais substância, o “Espírito químico” passou a se ocupar com as roupas e, por uma espécie de fantasia galante, imaginou para a Sra. Vlasek excelente vestido de rendas brancas.

            Finalmente, quando a Sra. Vlasek acreditou já estivesse bastante materializada para se mostrar aos espectadores, dirigiu-se para a entrada das cortinas, no meio do grupo. Mas, para grande surpresa sua, nada pode ver, absolutamente nada: era como se estivesse cega. Tal situação durou apenas alguns instantes, mas, concentrando toda a sua vontade, pode ela, a pouco e pouco, ir adquirindo a visão. De início, distinguiu apenas a filhinha da médium; depois, os outros assistentes. E da mesma forma, segundo suas palavras, nenhum nome foi proferido, apesar de seus esforços, até o momento em que ela recebeu dum membro da assistência uma vibração fortificante que lhe permitiu falar. Pode, então, dizer: “Eis-me aqui... Eu sou a Sra. Vlasek.”

            Os espectadores, entusiasmados, cercaram--na, certificando-se de que se tratava, efetivamente, de sua estimada presidente e todos a ouviram dizer: “Verifiquem a hora; olhem bem a hora ... eu os saúdo a todos... Sou feliz por ter merecido o privilégio de me materializar... Continuem a boa tarefa ...”

            Bruscamente, um choque a atingiu: a impressão de um golpe no peito corta a sua respiração e ela, com muita dificuldade, conseguiu murmurar: “Estou sem ar... Adeus...” Tudo fora desagradável consequência do gesto de um dos espectadores, o Dr. H. Turner, que, desejando obedecer à recomendação da Sra. Vlasek, de marcar a hora com muita exatidão, aumentou inesperadamente a luz da sala para poder escrever melhor.

            O choque tinha sido tão violento que ela perdeu os sentidos e, infelizmente para nós, não pode seguir o mecanismo, de sua desmaterialização.

            Entretanto, voltando ao estado de “duplo fluídico”, pode ainda observar algumas fases ulteriores da sessão. A substância emanada do médium, depois de ter servido à materialização, retomou sua primitiva densidade e retornou ao anel cinza-azulado fornecido pelos assistentes.

            As materializações começaram a dissolver-se antes que ela voltasse ao gabinete mediúnico e, no curto instante necessário para a sua passagem, a maior parte da substância já havia desaparecido. O restante rastejava sobre o chão e foi reunir-se à cinta cinzenta e vibrante.

            Depois dessa extraordinária experiência, a Sra. Vlasek retomou seu corpo físico, suportou toda uma série de provas de reconhecimento e de reverente exaltação de parte da pessoa que a acompanhou em sua viagem, escutando o seu relato.

            Por outro lado, os testemunhos desse prodigioso fenômeno foram tão entusiásticos por seu êxito, que lhe enviaram numerosas cartas e telegramas exprimindo sentimentos de admiração. Os testemunhos prestados pelos assistentes vieram, não apenas corroborar o relato feito pela Sra. Vlasek, mas ajuntar ainda, em diversas frases pronunciadas, várias palavras esquecidas por ela na ata publicada.”


Servir mais


Servir Mais

Irmão X
por Chico Xavier


Reformador (FEB) Agosto 1961

            Efraim ben Assef, caudilho de Israel contra o poderio romano, viera a Jerusalém para levantar as forças da resistência, e, informado de que Jesus, o profeta, fora recebido festivamente na cidade, resolveu procurá-lo, na casa de Obede, o guardador de cabras, a fim de ouvi-lo.

            - Mestre - falou o guerreiro -, não te procuro como quem desconhece a justiça de Deus, que corrige os erros do mundo, todos os dias... Tenho necessidade de instrução para a minha conduta pessoal no auxílio ao povo. Como agir, quando o orgulho dos outros se agiganta e nos entrava o caminho?.. quando a vaidade ostenta o poder e multiplica as lágrimas de quem chora ?

            - É preciso ser mais humilde e servir mais - respondeu o Senhor, fixando nele o olhar translúcido.

            - Mas... e quando a maldade se ergue, espreitando-nos a porta? que fazer, quando os ímpios nos caluniam à feição de verdugos?

            E Jesus:

            - É preciso mais amor e servir mais.

            - Senhor, e a palavra feroz? que medidas tomar para coibi-La? como proceder, quando a boca do ofensor cospe fogo de violência, qual nuvem de tempestade, arremessando raios de morte?

            - É preciso mais brandura e servir mais.

            - E diante dos golpes? há criaturas que se esmeram na crueldade, ferindo-nos até o sangue... De que modo conduzir nosso passo, à frente dos que nos perseguem sem motivo e odeiam sem razão?

            - É preciso mais paciência e servir mais.

            - E a pilhagem, Senhor? que diretrizes buscar, perante aqueles que furtam, desapiedados e poderosos, assegurando a própria impunidade à custa do ouro que ajuntam sobre o pranto dos semelhantes?     

            - É preciso mais renúncia e servir mais.

            - E os assassinos? que comportamento adotar, junto daqueles que incendeiam campos e lares, exterminando mulheres e crianças?

            - É preciso mais perdão e servir mais.

            Exasperado, por não encontrar alicerces ao revide político que aspirava a empreender em mais larga escala, indagou Efraim:

            - Mestre, que pretendes dizer por “servir mais”?

            Jesus afagou uma das crianças que o procurava e replicou, sem afetação:

            - Convencidos de que a justiça de Deus está regendo a vida, a nossa obrigação, no mundo íntimo, é viver retamente na prática do bem, com a certeza de que a Lei cuidará de todos. Não temos, desse modo, outro caminho mais alto senão servir ao bem dos semelhantes, sempre mais...

            O chefe israelita, manifestando imenso desprezo, abandonou a pequena sala, sem despedir-se.

            Decorridos dois dias, quando os esbirros do Sinédrio chegaram, em companhia de Judas, para deter o Messias, Efraim ben Assef estava à frente. E, sorrindo, ao algemar lhe o pulso, qual se prendesse temível salteador, perguntou, sarcástico:

            - Não reages, galileu?

            Mas o Cristo pousou nele, de novo, o olhar tranquilo e disse apenas:

            - É preciso compreender e servir mais.