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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

7e. AntiCristo senhor do mundo

7e

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            Transitoriamente, sim; porque o mundo, em meio dos formidáveis desmoronamentos a que, de dezesseis anos para cá, vimos assistindo, característicos da terminação de um ciclo evolutivo e histórico, está sendo preparado para um fecundo e definitivo renascimento espiritual, que só pode e só há de operar-se, consoante vozes proféticas o têm anunciado, com a eloquente confirmação dos fatos de que mais adiante falaremos, pela restauração da doutrina de Jesus em espírito e verdade.

            Sente-se, com efeito, ou melhor, sentia-se na fase precedente a que nos temos reportado, um anseio, de ano para ano acentuado, pelo advento de uma Era Nova. Ao mesmo tempo que as almas generosas, a que aludíamos há pouco, tornando-se eco das aspirações gerais, multiplicavam esforços na cogitação de medidas convergentes para a consecução da paz universal, nos círculos espiritualistas ganhava corpo a ideia de uma próxima renovação. Estimulava-se mediante o estudo comparativo de religiões, a tendência conciliadora no sentido de uma unificação religiosa, para a qual, esperava-se, contribuiria, mais que a simples divulgação, a propaganda intensa das doutrinas orientais, com o objetivo de uma aproximação preparatória. Anunciava-se a segunda vinda do Cristo, empenhando-se os fundadores da Ordem da Estrela do Oriente em preconizar a sua manifestação por um "veículo" adequado - um moço indiano, que estava sendo adestrado para essa mística investidura (1) - tendo, por seu lado, um eloquente orador e sacerdote católico - o padre Júlio Maria - realizado aqui no Rio uma série de conferências sobre o assunto de atualidade, que era aquele próximo advento, e "o fim do mundo", tomando por tema impressionantes passagens do Apocalipse.

            (1) Apreciaremos oportunamente a significação desse fato em nosso ponto de vista.

            Quaisquer que fossem os intuitos particularistas, os motivos tendenciosos ou as origens ocultas, de varia natureza, a que o movimento se prendia, certo é que, como um sinal dos tempos, acentuava-se desse modo a rumorosa expectativa da Era Nova, que viesse mudar a face do mundo e pôr termo às iniquidades pluriseculares, que o têm infelicitado.

            Mas sobreveio a grande conflagração, com os seus gigantescos esboroamentos, o colapso vital e financeiro das nações nela empenhadas e a considerável modificação do mapa politico da Europa, desviando, por força do imediatismo dos problemas postos em equação, a atenção de tudo o que não fosse a reparação dos calamitosos efeitos da catástrofe. A partir daí um precipitar de sucessivas crises não tem cessado de abalar os fundamentos da velha ordem político-social em que assentava a existência dos povos. A implantação do regime soviético na Rússia, cuja influência contagiosa não pretendeu atingir somente a remota China, tentando propagar ao Oriente, mediante repetidas guerras civis, a mesma violenta subversão dos valores humanos que inclui no seu programa de governo, mas tem procurado insinuar-se no ocidente, com idêntico objetivo; a tentativa republicana posta em prática na Alemanha, como um derivativo à formidável desorganização causada pela guerra, cujo desfecho acelerou; a transformação da mentalidade otomana, expressa no banimento de algumas das tradições, usos e costumes nacionais, como um índice de adaptação às tendências renovadoras de que a grande conflagração foi, por excelência, a geratriz ; esses e outros vertiginosos sucessos, mais tarde seguidos de outros, como a recente “desobediência civil" na Índia, em que o Mahatma Gandhi, interrompendo momentaneamente a sua função de líder religioso, se tem convertido em agitador político, para promover a emancipação de sua pátria e de sua raça do secular domínio britânico, de tal modo têm absorvido as atividades no velho mundo, asiático e europeu, como uma necessidade imediata e preparatória de outros sucessos de mais elevada significação e importância, que o problema da renovação espiritualista teve que ser, forçosa e temporariamente, posto de lado.

            Complicando as subversões e tentativas de subversão politica, senão constituindo, sob determinado aspecto, o seu fator primacial, os interesses econômicos têm determinado um retrocesso nas tendências e aspirações de certos povos, como sucedeu na Itália, em que o fascismo, instituído num rasgo de audácia, para salva-la da anarquia, e seguido da implantação do regime ditatorial em outras nações latinas, vítimas da mesma inquietude e desorganização suscitadas pela guerra, outra coisa não fez senão abrir caminho para o que um estadista inglês denominou "a crise do liberalismo", e restaurar, como nas sociedades semibárbaras do passado, a supremacia da força no governo dos povos, com proscrição de todo idealismo, sobre o qual pretende consolidar o seu triunfo, assegurando a ordem material, sim, mas cometendo o grave erro de fazer consistir no bem estar dessa natureza, de resto só transitoriamente conseguido, o supremo objetivo da nacionalidade a cujos destinos vem presidindo.

            Sem duvida a vida material tem para o homem implacáveis exigências que o arrastam, quando não satisfeitas, à prática de desvarios, imposta pela natureza animal nele preponderante. E é por isso que a generalização, verdadeiramente mundial, da crise econômica nos últimos, recentes anos, gerada pela superprodução, avolumando de modo assustador o exército internacional dos "sem trabalho", vem constituindo a absorvente e, por assim dizer, exclusiva preocupação dos estadistas de todas as latitudes, obrigados a procurar-lhe urgente solução, antes que as graves e ameaçadoras perturbações, que traz no bojo, se convertam em realidade. Quando, pois, o instinto de conservação, imperioso no individuo como nos conglomerados humanos, formula por tantos rugidos surdos as suas exigências, perder-se-iam no vácuo as vozes que falam de espiritualidade.

            E, todavia, são esses mesmos pródromos da grande crise final que se avizinha, agravados pelas calamidades que lhes farão cortejo - convulsões da natureza física, peste, fome, possivelmente a "guerra química" em diabólico preparativo - que hão de compelir o mundo à cogitação do magno problema.

            Queiram, com efeito, ou não queiram os materialistas de todos os matizes, "nem só de pão vive o homem", segundo a palavra da Escritura. Vive, e deve sobretudo viver, "de toda palavra divina". Porque essa palavra tem sido sonegada ao povo, em sua clara e verídica expressão, e feito objeto de exploração das castas sacerdotais em todo o mundo, é que a humanidade se vê, de todos os lados, premida de males que os seus responsáveis visíveis se tornaram incapazes de remediar.

            Crises politicas, crise econômica e financeira, crise religiosa - porque ela aí está também visível no desprestígio e impotência das religiões para restabelecer a confiança, a paz e a harmonia entre os homens - são modalidades várias de uma crise única, isto é, crise espiritual, que se traduz pela depressão do caráter, nas classes intelectualmente superiores, e em todas as camadas sociais pela dissolução de costumes, a hipertrofia do egoísmo e o culto excessivo da matéria. Quando essa crise atingir o apogeu, a que rapidamente se encaminha, e as calamidades de toda ordem lançarem a humanidade na anarquia e desespero, será forçoso procurar a salvação.

            De onde virá ela? Da ciência? - Mas a ciência humana, fragmentaria, materialista e orgulhosa, cuja falência, de resto, já foi, há meio século, proclamada por Brunetière, será capaz de realizar esse prodígio? Poderá vir de uma nova religião a salvação para a humanidade?

            Numa época menos angustiosa que a nossa, pelo menos em seus caracteres universais, um clarividente sacerdote cristão - e dizemos propositadamente cristão e não católico - o abade Lamennais, golpeado de decepções pelo partido politico do Vaticano, formulou no livro ‘Affaires de Rome’, em que teve necessidade de lançar a público a odisseia do seu ministério na França, historiando com vivacidade e intrepidez, não destituídas contudo de humildade, da qual jamais se apartou, o malogro de seus esforços no sentido de reconciliar a igreja com o espirito do Cristianismo, formulou - dizemos - uma admirável profecia, com que nos apraz encerrar esta primeira parte do nosso trabalho.

            Precedeu-a de uma síntese expressiva da situação geral dos espíritos e das aspirações e necessidades do seu tempo, nestes termos, que convém reproduzir para mais clara e coordenada compreensão do vaticínio que pôs, como, remate, no seu livro:

            "Observai - disse ele - o estado dos espíritos: após uma época de dúvida, efeito inevitável de causas de ora em diante suficientemente conhecidas, sentiram-se eles mal no vácuo produzido. Ao homem é necessária alguma coisa mais que a mera ciência circunscrita em limites que tão rapidamente são alcançados. Uma eterna aspiração rumo do infinito, isto é, da causa perpetuamente incompreensível de tudo o que existe, constitui o instinto religioso nele imperecível. Despertado, em nossos dias, no recesso das almas, onde se havia como, transitoriamente adormecido, esse instinto as inquieta e atormenta, fazendo-as experimentar, no que de mais elevado e íntimo possuem, uma d'essas dores, inexprimíveis que empolgam as criaturas, ao ser violada uma das leis primordiais de sua natureza. Daí essas tentativas tão veementes quão frustrâneas, esses esforços inauditos empenhados em criar uma religião, como se tal coisa se criasse, como se a religião não fosse, de par e simultaneamente, a lei invariável e a palpitante energia que une entre si os seres criados, unindo-os ao seu autor. Falhou e devia falhar a tentativa, porque o Cristianismo, quaisquer que sejam as aparências contrárias, não tem cessado de dominar os povos, nem dele se podem estes separar mais do que poderiam separar-se de si mesmos, pois que que ele, e somente ele, encerra o que lhes há a de satisfazer os desejos que os agitam, possui em si o principio real de seu desenvolvimento futuro; tanto como o de seu desenvolvimento passado. Em sua essência, expressão perfeita das leis da humanidade, não será jamais esgotado pela humanidade. O mundo, que o parece desconhecer atualmente, a ele tornará, porque é ele que impulsiona o mundo: Mens agitat molem..."
           
            "Mas, se os homens - continua - premidos pela imperiosa necessidade de reconciliar-se, por assim dizer, com Deus, de preencher o vácuo imenso neles produzido pela ausência da religião, se tornarem novamente cristãos, não se suponha que o Cristianismo, a que se hão de apegar, possa jamais ser o que lhes é apresentado sob o nome de catolicismo. Já o explicamos porque, mostrando em um futuro inevitável e próximo o Cristianismo concebido e o Evangelho interpretado de um modo pelos povos e do outro pelo entendimento de Roma; de um lado o pontificado e do outro a raça humana: está dito tudo. Não será, menos ainda, coisa alguma que se assemelhe ao protestantismo, sistema espúrio, inconsequente, estreito, que, sob uma falaciosa aparência de liberdade, se resolve, para as nações, no brutal despotismo da força e, no que respeita aos indivíduos, no egoísmo."

            E aqui vem, positivo, clarividente, o vaticínio:

            "Ninguém poderá prever como se há de operar essa transformação ou, se o preferirem assim denominar, esse movimento novo do Cristianismo no seio da humanidade; mas há de, sem a mínima dúvida, operar-se, e grandes massas de homens serão atraídas para a sua órbita, não por um repentino impulso, o que significaria não mais que uma transitória perturbação. Há de ser, ao começo, como um ponto apenas perceptível, uma diminuta agregação, de que se hão de rir talvez. Pouco a pouco esse ponto crescerá, essa agregação se há de ampliar, para ela hão de os homens afluir de toda parte, porque será um refúgio para quem padece na alma e no corpo. E a humilde planta se converterá numa árvore cujos ramos cobrirão a terra, e sob a sua fronde virão abrigar-se os pássaros do céu. É o que não vacilamos em anunciar com profunda convicção. Os que se ufanam de conduzir o gênero humano por caminhos que o extraviam de seu objetivo, perigosamente se equivocam. Mas é necessário que aconteça o que deve acontecer e que cada qual vá para onde deve ir. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade!"

            Essa resoluta profecia, feita "com profunda convicção" e rematada, como se vê, com o mesmo hino de glorificação entoado pela "multidão da milícia celestial" que aos humildes pastores, nas montanhas da Judeia, viera anunciar o nascimento do Salvador do mundo - cumpre assignalar - foi estampada na edição de 1836-1837 do mencionado livro Affaires de Rome (páginas 301 a 303), formulada, portanto, muitos anos antes de esboçar-se o movimento de renovação espiritualista contemporâneo, cujas primeiras, indecisas manifestações, mais tarde contudo acentuadas no sentido de restabelecer, em espírito e verdade, o Evangelho, não vieram a público senão depois da segunda metade do século passado. Nas páginas subsequentes às considerações que nos parece oportuno, como esclarecedor intermédio, aduzir em seguida, ver-se-á com que surpreendente exatidão essa profecia se realizou, pelo menos em sua primeira parte.

            Mas o que não pode o abade Lamennais prever - e é essa a tarefa que nos temos, penosa e voluntariamente, imposto - foram as obstinadas investidas que mais uma vez lançaria o AntiCristo contra a humilde planta renascida, para impedir-lhe o crescimento e sufocar lhe a expansão.

            Por quanto tempo? - Ao Senhor pertence abrevia-lo, a nós, homens, cooperar com Ele, orando, vigiando e agindo, a fim de que a segunda parte da profecia e sua radiosa culminância tenham também completa realização.

            Antes que este século haja terminado.

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            Como informamos, pararemos aqui a postagem desse livro raro. A partir daqui, sua temática passaria a abordar uma difícil situação acontecida a 100 anos atrás que deve ficar guardada no passado. O Blog 

7d. AntiCristo senhor do mundo


7d

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            Mas já ressuscitou. Oportunamente diremos quando e de que modo. Antes de o fazer, cumpre lançarmos ainda um rápido golpe de vista sobre os pródromos e o desenvolvimento do que se pode considerar a crise contemporânea, remontando não mais que vinte anos o curso da historia.

            Nas vésperas de estalar a grande conflagração, quando as nações europeias vergavam sob o peso de formidáveis contribuições para manter os gastos da paz armada, isto é, um gigantesco preparo bélico que devorava as economias dos povos, esmagando-os, havia não obstante, ou por isso mesmo, um anseio geral pela paz, e não foram poucas as vozes generosas que se elevaram - espécie de pressentimento do que seria a tremenda catástrofe em preparativo - clamando por uma conciliação, de que a mais alta expressão organizada, no ponto de vista das relações internacionais, foi o Tribunal de Haia.

            Tentava-se ao mesmo tempo construir uma nova ordem de coisas que satisfizesse as aspirações, mais que isso, as exigências das classes oprimidas e insatisfeitas com a remuneração do trabalho e a iniqua distribuição das riquezas, sem contudo alterar a composição do estado social, solapado em seus fundamentos por muitos séculos de mentira religiosa e de mistificação politica. Solução de resto impossível, dado o antagonismo cada vez mais acentuado entre os dois grandes agrupamentos em que se achavam divididas as sociedades ocidentais, o proletariado e a burguesia, detentora esta última, até certo ponto, das prerrogativas e vantagens da nobreza feudal desaparecida, a que, sob nova e atenuada modalidade, havia sucedido.

            Porque na consciência das massas, que constituíam o primeiro desses agrupamentos e a elevação do nível da instrução tornara receptivas às predicas do radicalismo socialista, adquirira foros de convicção o postulado revolucionário de que "a propriedade é um roubo". O que urgia, portanto, a seu ver, era socializar a riqueza, não apenas tornando extensivos à classe proletária o conforto e as comodidades que o "capitalismo", numa sorte de desafio à miséria em que a via debater-se, reservava exclusivamente para si, mas sobretudo transferir às suas mãos, arrebatando-o às da burguesia, o governo das nações. Era, numa palavra, a subversão do estado social existente o que fazia objeto das reivindicações inseridas no programa do radicalismo socialista, daí resultando extremarem-se as posições e tornar-se de ano para ano mais intenso e ameaçador o conflito latente, de que as manifestações do 1º de maio, por ocasião da celebração anual da festa do trabalho, eram apenas superficiais e transitórias explosões.

            Do estado de latência no terreno econômico e doutrinário, com frequente repercussão no domínio da realidade prática pelas repetidas greves que se declaravam, num entendimento internacional, ora na Europa, ora na própria América do Norte, não tardaria porventura muitos anos a passar o conflito à esfera política, transformado na grande e anunciada revolução social, quando o atentado de Sarajevo, como uma corrente de ar frio em atmosfera carregada de eletricidade, precipitando a catástrofe europeia, serviu de pretexto à declaração de guerra.

            Entrechocaram-se as massas humanas, silenciaram as vozes doutrinárias, fez-se por toda parte a "união sagrada" e durante quatro angustiosos anos o sangue  fratricida derramado, ensopou o solo da Europa, convertido em alucinante anfiteatro de extermínio, a que todos os aperfeiçoamentos da ciência especializada, particularmente na mecânica e na química, ofereceram, em diabólico requinte, os mais eficazes instrumentos.

            Terminada a carnificina, uma estatística anos depois organizada, sobre dados oficiais, pela Liga das Nações apresentava estes espantosos resultados: - mortos (conhecidos e presumíveis) 12 milhões, 990 mil 571; - feridos 20 milhões, 297 mil 551 representando um total de 33 milhões e perto de 300 mil vítimas, a maior destruição de vidas e mutilação de seres humanos que a história jamais registrara numa guerra, sem falar no valor das propriedades destruídas, fruto do penoso labor de sucessivas gerações.

            Dessa gigantesca tragédia, preparada no plano material, ou dos efeitos, em que vivemos, pela ambição de predomínio político de uns e fomentada pelas rivalidades comerciais de outros, mas urdida no plano espiritual, ou das causas, em que todos os sucessos humanos são previamente elaborados, pelas forças inteligentes que os dirigem, muitos foram os ensinamentos resultantes, não sendo o menor deles a demonstração da falência religiosa do ocidente.

            Qual deve ser, com efeito, o papel das religiões na educação, preparo e direção superior dos povos, senão incutir-lhes como regra absoluta, a que se devem subordinar todos os seus atos, a obediência aos imperiosos ditames da Lei de Deus e a prática da fraternidade - princípios básicos que em todas elas se contêm?1

            Ora, dentre as nações que se empenharam na carnificina de 1914 a 1918 somente uma, a Turquia, aliada a esse tempo dos impérios centrais, adota um código religioso diferente, o maometano. Todas as outras se ornam com o título de cristãs.

            Mas o Cristianismo, que, segundo a palavra do seu Divino Instituidor, não viera destruir a lei antiga, no que, evidentemente, ela encerrava de imutável, como preceitos de moral eterna, isto é, o Decálogo, não somente manteve o imperativo insofismável - "não matarás" - senão que o ampliou, sublimando-o na persuasiva recomendação: "Amai-vos uns aos outros."

            Que fizeram desses princípios basilares as nações do ocidente, desde tantos séculos beneficiadas com a Boa Nova? É verdade que não foi apenas a deflagração dessa última guerra e em todas as fases do seu desenvolvimento que foram brutalmente desrespeitados: excetuadas as gerações cristãs dos três primeiros séculos - essas legitimamente portadoras da excelsa denominação - que se deixavam heroica e voluntariamente matar, reproduzindo, para o triunfo, a que serviam, do seu altíssimo ideal, o sacrifício do Cordeiro, não cessaram os povos do ocidente de praticar o morticínio organizado, em guerras de conquista, sob a direção de príncipes que se intitulavam cristãos e até - como o tivemos precedentemente ocasião de assinalar - por instigação, quando não por iniciativa pessoal de papas, divorciados de sua função puramente espiritual e das preocupações, que deveram ser exclusivas, do seu ministério sagrado.

            Desse erro inicial ter-se-ia contudo até certo ponto redimido a igreja, se, transcorridos os primeiros séculos, após a queda do império romano, em que, para substituir o seu poderio politico, era a única instituição organizada, capaz de  assumir a direção dos povos, se houvesse gradualmente retrotraído, renunciando a toda interferência direta nos negócios do século e pairando assim na atmosfera serena da influência exclusivamente espiritual. O contrario, porém, foi o que temos visto. Obsidiada pela tentação do poderio mundano, causa, entretanto, da ruína moral e do crescente desprestígio que a vem debilitando, não cessou a igreja de obstinar-se na posse de um reino, que jamais deveria pretender na terra, para ser fiel à palavra e ao plano traçado pelo Mestre para a fundação da verdadeira Igreja Cristã.

            Obliterado, em tais condições - cumpre insistir – o senso de sua missão, rebelde às próprias lições da história, que lhe mostraram, logo em seguida à perda completa do poder temporal e durante o longo e tranquilo pontificado de Leão XIII, verdadeiro apóstolo, diplomata e humanista, qual o rumo a seguir, pelo menos daí em diante, para reconquistar a estima e o respeito, que viessem de futuro a reintegra-la em sua função legitima, não soube ou não pode a igreja de Roma permanecer na obediência a essa diretriz, que a experiência lhe indicava. O resultado foi continuar meramente convencional, de fato inexistente, a autoridade do pretendido chefe espiritual da cristandade.

            Exageramos? - A primeira condição para um chefe e que melhor caracteriza a sua supremacia é ser obedecido. Qual foi, entretanto, nesse caso da conflagração europeia, a ação do pontífice romano? Fosse ele depositário realmente da suprema autoridade sobre os povos e sobre os dirigentes dos povos, e a sua palavra serena e pacificadora, dominando o tumulto das paixões desenfreadas, teria sido filialmente obedecida e a catástrofe seria conjurada.

            Como, porém, fulminar de reprovação a guerra e impor aos homens a paz o chefe de uma igreja que, em toda a sua historia, não se limitara a envolver-se nas contendas do século, disputando a sua parte, que pretendeu fosse a maior, no poderio mundano, mas fizera tantas vezes ela própria a guerra, maculando-se de sangue? Ah! Quando o AntiCristo induziu os apóstatas da doutrina do Cristo, rotulados de seus legítimos depositários e representantes, a enveredar por esse funesto resvaladouro, bem sabia até que ponto os invalidava para a obra de paz e de confraternidade humana, em que devera consistir primordialmente o seu apostolado.

            E, se resultou nula a intervenção pessoal do pontífice romano para evitar a conflagração e até mesmo, posteriormente, para mitigar lhe os horrores, a ação do clero de todas as nações nela envolvidas não foi, no mesmo sentido, somente negativa. Viram-se, com efeito, os sacerdotes, de um e outro lado, deprecar à Divindade não o restabelecimento da paz sem efusão de sangue, mas a vitória para as armas e as bandeiras sob que, respectivamente, se alistavam. Mais ainda: nos campos de batalha não se limitou a ação desses ministros do altar a levar o conforto religioso aos moribundos e feridos; muitos deles, incorporados às fileiras como simples combatentes, empunharam as mesmas armas homicidas que os seus concidadãos, tomando ativa parte na peleja, distinguindo-se por "atos de bravura" e até procurando, como sucedeu com o clero da França, inintencionalmente, é de crer, nos impulsos individuais, mas com indubitável aplauso do partido político romano, reconquistar o apreço de que ali decaíra a igreja nos anos precedentes, depois da revogação da Concordata. Teriam do mesmo modo - esta consideração lhes não ocorreu de certo - feito jus à aprovação daquele em cujo nome se haviam comprometido a apascentar os homens, não empunhando mortíferos fuzis, mas a cruz da redenção?

            Há um outro fato, verificado durante a grande guerra, não menos demonstrativo da falência religiosa do ocidente e que o cronista internacional de importante diário assinalava, há alguns anos, apreciando a diminuição moral das nações europeias no conceito dos povos orientais. “O mundo islâmico - dizia ele - perdeu completamente o respeito pela moral e pela civilização do cristianismo. Os muçulmanos viram que, enquanto todos os beligerantes cristãos violavam os compromissos assinados poucos anos antes na Conferência de Haia e, não raro, cometeram atrocidades, a única potência que observou os tratados e cumpriu as estipulações das convenções internacionais, que soube amenizar os horrores da luta, sendo compassiva para com os seus prisioneiros e dispensando aos oficiais inimigos, que lhe caiam nas mãos, as considerações devidas a sua posição, foi uma nação maometana, a Turquia."

            Outro não tem sido o sistemático objetivo do AntiCristo senão desprestigiar e tornar mesmo odiosa a religião cristã, fomentando tais atitudes, contraditórias de seus preceitos básicos, nos indivíduos e nos povos que se dizem a ela filiados, estabelecendo e entretendo intencionalmente a confusão entre o Cristianismo e o catholicismo romano, que é de fato a sua desfiguração.

            Prova disso teve o mundo há poucos anos, corporificada na campanha levada a efeito pelo governo soviético da Rússia, quando, por ocasião do Natal de 1925, o presidente dessa República iniciou um "tríduo anti-religioso", fazendo publicar em seus jornais artigos de combate a todas as religiões, especialmente ao Cristianismo, ora assim, ora indiferentemente designado "catolicismo", promovendo além disso, nos institutos científicos e nas escolas, assim como por meio da radiotelefonia, conferencias apologéticas do ateísmo e "atacando rudemente o catolicismo ."

            Não foi sem doloroso confrangimento que num diário desta capital lemos, a esse tempo, o telegrama do seu correspondente em Moscou, que tal noticiava, acrescentando que, além da publicação de artigos violentos no Pravda e no Investia, em que eram ridicularizadas as cerimônias do culto "cristão" que se celebra "por ocasião da Natividade de Jesus Cristo", o presidente Rykoff lançara, "um manifesto ao povo, atribuindo ao Cristianismo - note-se bem, ao Cristianismo - os grandes males dos tempos atuais ", pois, acentuava - "dele nasceu o capitalismo, a plutocracia, a divisão dos povos em oprimidos e opressores."

            Dolorosa, com efeito, essa caluniosa e deplorável confusão, para quem sabe, como o assinalamos num dos primeiros capítulos, que os primitivos cristãos, observando fielmente os preceitos do Mestre, praticavam singelamente o comunismo, o verdadeiro comunismo, fraternista e igualitário, fundado no amor e não em odiosos antagonismos de classes, e que as deturpações, que desfiguraram a doutrina e perverteram os costumes, vieram posteriormente pela mão dos infiéis depositários, vítimas das malévolas e subjugadoras insinuações do AntiCristo. Com que júbilo teria este observado, senão ainda sugerido, que os ignorantes da história evangélica, obnubilados pelo sectarismo politico, atribuíam à doutrina daquele que viera libertar os homens, sem distinção de classes, nem raças ou nacionalidades, de todas as opressões morais, sociais e espirituais, atribuíam - dizemos - os males que, dezenove séculos depois, ainda afligem esses mesmos homens e os tornam infelizes, precisamente por haverem menosprezado os seus ensinamentos! Júbilo diabolicamente vitorioso do responsável autor dessa obra transitoriamente aniquiladora.


7c. AntiCristo senhor do mundo

7c

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            "Voltemos a Roma e visitemo-la de novo. Ela é estreita no espaço, mas infinita no tempo. Não se acaba jamais de percorrer e meditar. Ponhamos ponto nesse capitulo de Pompéia, desdobramento da Roma dos Césares, e, volvidas as idades, entremos agora na Roma católica.
            É a Roma cristã! - Dessa restam apenas alguns quilômetros de catacumbas e as piedosas lembranças de uma remota cristandade, hoje guardadas em alguns museus. Embalde procurareis aqui o sorriso doce do Galileu. Roma adora sempre e por demais a grandeza, a força, a alegria e a violência, para abraçar sinceramente uma religião de humildade. Também era demasiado prematura, para poder frutificar, essa tentativa de espiritualizar a vida, em meio de uma humanidade de tão estreitos apetites. Sim, Roma abraçou o Cristianismo, mas para o afogar nos braços. É isso, aliás, o que sucede sempre em todas as sociedades que adotam uma ideia nova superior a sua índole e educação. Essa religião de um povo de videntes e profetas era tão incompatível com o gênio realista dos romanos que fatalmente havia de morrer ali e tornar-se, em suas mãos, mais um instrumento de domínio. Os vendilhões do templo fraternizaram com o Mestre, para lhe roubar o açoite e chicoteá-lo por sua vez.
            Essa vingança dos deuses, chamada o catolicismo, é que explica como o paganismo irrompe de novo por toda a Roma, que pretende ser cristã. Por isso em toda ela o que há de mais profunda e expressivamente católico é a Basílica de S. Pedro e o Vaticano.
            Esse mundo novo, onde vamos agora penetrar, abre na praça de São Pedro, vasto recinto de clássico e romano sabor, semi circundada como é pelo bosque das centenas de colunas bordando galerias, com o centro marcado pelo fino obelisco de sienite, a cujos lados jorram cataratas as duas grandes fontes de Maderna. Ao fundo o templo enorme e, por de trás, sumindo-se, entrevendo-se, desdobrando-se, imenso e descomunal - o Vaticano.
            Ora, esse templo, a Basílica de S. Pedro, é a mais alta expressão formal do catolicismo. Sendo o maior e mais rico templo do mundo, é também o mais pesado, desgracioso e desconforme. A grandeza maciça das colunas, que dividem as naves, causa uma impressão brutal de esmagamento; o estadear das pompas e riquezas, de grosseiro e profundo, afasta e hostiliza o visitante desprevenido, e a incoerência da sua fachada, recoberta de estátuas descomunais, quase provoca, por grotesca, a hilaridade. Para tornar grandioso aquele templo, Bramante foi aos palácios dos Césares buscar as suas abóbadas, e Miguel Angelo ao Panteão de Agripa a cúpula majestosa. Mas esse mesmo realçar espantoso da cúpula, obra de gênio isolada, porque não joga com o resto e foi mascarada com as piores deformações arquitetônicas, torna o edifício mais abortivo, desmesurado e monstruoso.
            Eis também porque a Basílica de S. Pedro é o coval do Cristianismo...  Quanto mais lhe querem dar a ilusão de vida, mais representam a sua morte. Ele falava de amor - o Cristo - e de humildade e de resignação. Ele exaltava, com o verbo e o ato, os pobres, os fracos, os pequenos. Ali tudo é exibição, vaidade, soberba; tudo a ideia de império e de grandeza, um lisonjear o gosto do fausto e das riquezas. Cantam-no, louvam-no, glorificam-no, mas desmentem-no. E o pobre dos pobres ali jaz, sepulto sob a avalanche dos brocados e diamantes.
            À volta, o Vaticano, com os seus palácios, os seus museus, as suas galerias, é o monumento fúnebre erigido à memória do Cristianismo.
            Sarcófago imenso, lavrado de alegorias, à maneira romana, e qual delas a mais irônica e profunda, O museu egípcio, o museu etrusco, o museu antigo, cheios de estátuas, de vasos e de frisos. Esses são o cortejo dos deuses, desde Isis e Osíris a Apolo Musaxeto e Vênus-Afrodite, que vieram ao grande saimento e cantam a alegria eterna da vida, a glória da Beleza e do Amor sobre o túmulo do Profeta e da  Ideia de renúncia. De galeria a galeria desenrola-se a imensa teoria pagã dos deuses do Olimpo estão ali, palpitando no mármore, os mais belos deuses que é possível sonharem-se. O Júpiter de Otricoli sorri com majestosa onipotência, o Apolo de Belvedere, graça luminosa da vida, paira com a suprema expressão da nobreza máscula; a Vênus de Milo, a curvada, a anadiomenia, fingem com gestos esconder, para maior incêndio do desejo, as maravilhas do corpo desejoso. Depois, na cauda do cortejo, o Mercúrio, o Hercules, o Meleagro, o bando dos faunos e bachantes, ou as caneforas do friso esbelto das ranateneas, harmoniosos, perfeitos, desnudados, celebram o mesmo riso de vitória. Embalde a hipocrisia católica selou com a folha de vinha a nudez divina das Estatuas. Todas elas proclamam, com a beleza das formas; desveladas, os direitos plenos da vida.
            Depois vem a "Stanze", as "Loge", as madonas, a Ressurreição de Rafael. Tentou o grande Pintor fundir a graça e beleza pagãs na idealidade do Cristianismo. E aí tendes esse mundo de visões teológicas de carnações formosas, realizadas com um poder genial de execução, mas tão fantásticas e irreais, umas vezes, que são de uma beleza fria, outras tão reais e humanas, que inspiram apenas voluptuosidade pagã. Rafael é um contemporâneo e um acomodatício, representando uma arte e uma ideia de compromisso.
            Só Miguel Angelo tem um grito profundo de alma religiosa. O sombrio e rude irmão de Dante e Savonarola, que amou Vitoria Colona numa idealização platônica, sempre arredio, casto, sóbrio e revoltado, fala em nome dos puros e dos iluminados.
            A sua voz clama e esbraveja pelas figuras gigantescas do Velho Testamento,
            Os afrescos da Capela Sistina são o único protesto que os homens puderam gravar sobre o grande sarcófago do profeta vencido.
            Desde as cenas até aos atores o gênio de Miguel Angelo increpa e ameaça surdamente a sua época e os seus contemporâneos. Pintando o Gênesis e o Juízo Final, clama a necessidade de voltar às origens, ameaça os homens com a visão dos castigos eternos, refugia-se nos extremos do tempo, como uma reprovação aqueles em que vivia.  E criando uma raça nunca vista de Profetas e Sibilas, de Gênios e Titãs, irosos, pensativos, embotados, dando origem, pelo poder do gênio, a uma nova espécie super-humana, implicitamente condena o seu mísero e degradado semelhante.
            Se ele escolhe, para motivos de arte, a formação do mundo, a criação do homem e da mulher, a expulsão do Paraíso, a embriaguez de Noé e o Dilúvio, é para viver nos profundos símbolos do Gêneses as verdades primaciais e eternas, aborrido pela mentira soberana que o assalta, pela deformação consciente do que há de mais belo no Cristianismo. E, se rodeia depois aquelas cenas de um círculo arrebatado de pitonisas, videntes e cariatides, corpos de gigantes acometidos de cóleras, frontes alumiadas pela visão do futuro, faces sombrias, cheias de mágoa e pensamentos, foi para os fazer esquecer e delirar com a sua dor e indignação.
            O próprio Cristo do Juízo Final é um moço herói, nu e imberbe. Hércules irado que, num gesto sacudido, condena e precipita os maus e os ímpios.
            Eis a alegoria do Passado, a do Presente e a do Futuro.
            A volta do imenso sepulcro, lavrando as paredes da urna funerária, os deuses ou riem as claras nas estátuas da antiguidade, ou as ocultas no mundo de beldades angélicas e bailarinos dolentes e elegantes em que Raphael os disfarçou. Só ali a velha raça semítica, ardorosa e trágica, chora a sorte do mais puro dos seus filhos e parece anunciar ainda na alucinação dos Profetas para algum tempo remoto a vinda de outro iluminado, capaz de abalar com a Ideia Nova os alicerces do velho mundo.
            É a única voz de acento bíblico que ressoa no imenso aglomerado dos palácios. E essa pela boca das imagens e das tintas para os poucos capazes de a entender. Relíquias cristãs propriamente ditas, dentro do Vaticano, existem apenas os restos dos objetos votivos, emblemas, alfaias e adornos encontrados nas catacumbas. Mas - pormenor eloquente - o pequeno museu que os guarda é uma dependência quase ignorada da Biblioteca onde se colecionavam, junto aos velhos papiros, como coisas somente adequadas às escavações dos eruditos.
            E lá no extremo, ao fundo das galerias, no último lanço dos palácios, sobranceiros à Basílica, são os aposentos do Pontífice. Das suas janelas vê a praça e vê o templo. Não sai dali. Última sentinela romana de guarda ao sepulcro, desde que lhe coube a hora de vigia, não mais abandona o posto, até que outro o venha render enfim. É certo que eles empalharam o cada ver e lhe puseram desta vez uma tampa mais pesada que nunca.  Deixa-o . Revezam-se toda a vida naquele alerta.
            Não vá ele ressuscitar segunda vez..."


7b. AntiCristo senhor do mundo


 7b

*

            Desses lamentáveis excessos, a que toda convulsão no organismo social, desaçaimando as paixões populares, semelhantemente dá lugar, é certo que a França retrocederia até a normalidade de sua vida politica, não somente para consolidação de suas novas instituições, mas para restauração oficial do catolicismo, a cujo serviço tantos prelados ilustres, reatando a tradição dos Bossuet e Fenelon, haviam de por os seus dons de eloquência e de persuasão. Não é menos certo, contudo, que os germens de irreligiosidade, postos em circulação pelas doutrinas dos enciclopedistas, não obstante o teísmo fundamental dos seus principais autores, continuariam, favorecidos pela atitude incorrigivelmente reacionária e intolerante da igreja, a produzir os seus frutos nas inteligências, que os estudos científicos e as especulações filosóficas de Kant, Saint-Simon, Charles Fourier, Victor Cousin e outros, culminando nas audaciosas concepções de Augusto Comte, iam divorciando cada vez mais da ortodoxia dogmática.

            A anarquia mental, desenvolvida nessa época de demolição e de frágil reconstrução doutrinária, embalde tentaria o último desses pensadores opor um corretivo com a sua genial sistematização científica e a malograda pretensão de fundar uma nova religião - a religião da humanidade, produto abortivo do que, a seu ver, corresponderia ao último termo da sua denominada "lei dos três estados", mas que de fato não passou de uma grotesca adaptação do catolicismo romano em sua feição inferior, isto é, do culto idolatra individual e, portanto, fetichista. O materialismo, expressão imediata e grosseira da incredulidade, prosseguiu em sua obra de dissolução, transpondo a órbita dos costumes para a das inteligências.

            Surgiram então, prestigiadas por nomes em pouco aureolados de fama, as teorias puramente mecanicistas e organísticas, interpretativas do universo e da vida, e as próprias investigações de Darwin, expostas em sua Origem das Espécies, pondo em relevo a lei natural da seleção dos seres por via de evolução, foram entendidas no sentido da exclusão de uma Causa suprema na ordem geral da natureza, isto é, no de um ateísmo que nunca esteve no pensamento do seu autor. Abolida assim, para quantos se pretendiam o direito exclusivo de pensar, a ideia de Deus, a "força e matéria" de Büchner e o "monismo" de Hoeckel adquiriram foros de razão suficiente para substituir a Soberana Inteligência na criação, governo e harmonia do Cosmos e na orientação da humanidade a seus destinos, subordinados em tal caso ao arbítrio de forças inconscientes e cegas. O ser pensante, no conjunto de suas admiráveis faculdades superiores, passou a ser considerado mero produto das funções do cérebro, sem responsabilidade moral, portanto, e sem nenhum estímulo enobrecedor de suas ações, rebaixado, numa palavra, à mesma condição do bruto.

            Do cimo das inteligências cultas, obnubiladas pelo orgulho do saber e, em tais condições, inconscientes instrumentos do AntiCristo, que as propelia nesse desvairado rumo, era fatal que semelhantes aberrações, circulando com o prestigioso rótulo de verdades científicas apoiadas na experimentação, se propagassem pelas camadas sociais subjacentes, gerando, com o morbus da irreligiosidade absoluta, os sentimentos de revolta, que se não exprimiriam apenas nas várias formas teóricas do anarquismo, preconizadas pelos revolucionários apóstolos e pregoeiros da Reforma Social, senão que seriam levados à prática nos repetidos atentados contra a vida de soberanos e chefes de Estado, em que se celebrizariam, numa sanguinolenta explosão de ódio sectário, os Ravachol, Caserio Santo e tantos outros.

            Mais que nunca ficou então provada a incapacidade da igreja para esclarecer e orientar as multidões, sobre as quais, excetuadas as pessoas que um irresistível pendor devocional encaminhava para a religião, perdera totalmente a autoridade espiritual, outrora incontrastável.

            Não foi, de resto, somente nessa esfera, em que se devera ter superiormente conservado sempre, que o declínio da igreja se patenteou. O seu mesmo prestigio politico, em má hora cobiçado e obtido ao preço de tão graves mutilações no depósito sagrado que lhe fora primitivamente confiado, já havia padecido violento soçobro na Itália, desde que, sob a influencia de Cavour, o estadista de largo descortino que se constituíra preeminente fator da unificação italiana (1852-1861), teve que submeter-se a medidas radicais por ele decretadas, como a liberdade de cultos, a venda dos bens de mão morta e a extinção do monopólio do ensino pelas corporações religiosas. Esse desprestígio atingiu em 1867 o seu ponto culminante, quando a Itália, prosseguindo naquela obra de unificação, se apoderou dos Estados pontifícios, expropriação consumada em 1870 com a tomada de Roma pelas tropas garibaldinas, pondo termo definitivamente ao poder temporal do papa, que desde então, como platônico protesto, passou a ornar-se voluntariamente com o título de "prisioneiro do Vaticano".

            Em lugar de conformar-se com esse afastamento dos negócios do século, imposto pela força das armas, uma vez que não tivera a clarividência de o fazer séculos antes e espontaneamente, como lh 'o inspiraria o senso de sua missão divina, se há muito o não tivesse abandonado, para lançar-se no conflito das ambições mundanas, a igreja permaneceu obstinada em suas pretensões, para vir afinal a contentar-se, em nossos dias, com uma caricatura do seu antigo poderio, mediante o denominado "acordo de Latrão", feito com o primeiro ministro italiano, em virtude do qual a tão ambicionada soberania temporal do papa ficou reconhecida, mas circunscrita ao minúsculo território ocupado pela sede pontifícia. Em troca e como compensação dos territórios para sempre abandonados, recebeu ele a soma de 750 milhões de liras em dinheiro e um bilhão em títulos italianos de cinco por cento, o que em moeda brasileira representa cerca de novecentos mil contos de réis.

            Quando houvermos de apreciar a situação da igreja em face do movimento de renovação que se inicia para a humanidade e cujos lineamentos mal se percebem na confusão dos sucessos contemporâneos, voltaremos a fazer algumas oportunas considerações sobre essa transação, ajustada entre verdadeiros filhos do século e que revela a mentalidade puramente mercantil predominante nos que, por um supremo escárnio, se arrogam a investidura de representantes de Deus e sucessores do humilde pescador, que se ufanava, como digno continuador do Mestre, de não possuir ouro nem prata. Por agora, como remate das apreciações que vimos fazendo sobre o declínio dessa igreja, que, no dizer de um inspirado apóstolo do moderno espiritualismo, já não é mais que o cadáver de uma grande ideia, queremos deixar ainda assinalado que o eclipse, em que definitivamente mergulhou o seu prestígio, parece ter-se estendido ao mesmo esplendor artístico atingido, com o máximo domínio espiritual, na Idade Media e representado nesse eloquente monumento de pedra que foram as suas numerosas catedrais.

            Tal foi, por exemplo, e num sentido mais amplo a desolada impressão de um pensador e esteta - o Dr. Jayme Cortezão, antigo diretor da biblioteca pública de Lisboa - por ocasião de sua visita, há alguns anos, à "cidade eterna”, da qual traçou com raro vigor, em seu livro de viagens, a instantânea e decepcionante visão, falando-nos de "Roma católica - O túmulo do Cristianismo" e pondo em relevo o flagrante, ao mesmo tempo que pungente, contraste entre o idealismo doutrinário de Jesus, expresso em sua vida como na de seus apóstolos e discípulos, e a materialidade sensualista das representações objetivas - prolongamento das concepções; romanas e pagãs da mesma natureza - concretizadas simbolicamente no aglomerado monumental da sé de pontifícia.

            Julgamos, por isso, a título ilustrativo, dever aqui reproduzir essa página impressionista, a que o caráter leigo do autor, isento de espirito sectário, empresta um cunho de imparcialidade, que torna digno de apreço o seu depoimento. Não adota ele certamente o nosso ponto de vista da interferência de fatores ocultos na deturpação da obra eminentemente espiritualista do Cristianismo, tornando-o verdadeira, antítese, no fundo e na forma, do que foi em sua gloriosa fase inicial. Mas essa mesma circunstância, longe de prejudicar o valor das apreciações criticas do Dr. Jayme Cortezão, serve para conservar lhe toda a espontaneidade, inspirada em motivos exclusivamente racionais e estéticos, a que “Uns laivos ora de melancolia, ora de ironia amarga dão mais
acentuado relevo”.

            Julguem os leitores por si mesmos. 

7a. AntiCristo senhor do mundo


VII.  Crescente antagonismo entre a religião e a ciência.
– Anarquia do pensamento.
- Movimento libertário da Revolução Francesa levado ao desvario.
– Soçobro do prestígio político da Igreja.
– Perda do poder temporal.
– Roma, túmulo do Cristianismo.
– A crise contemporânea.
– O AntiCristo porfia em tornar odiosa a Religião do Cristo.
– Expectativa de uma Era Nova.


            Porque havia de o AntiCristo renunciar à sua presa? Ele não conseguira certamente obstar que as virtudes do Cordeiro brilhassem de novo, em dilatada escala, entre os escombros da Igreja, fundada outrora na humildade, no espírito de renúncia e caridade, e impedida agora de sucumbir, mercê dos Enviados que, segundo o acabamos de ver, o Senhor havia oportunamente suscitado para, de certo modo, recomeçarem a obra mutilada de Francisco de Assis. Esse reflorescimento valia sem dúvida por uma intrépida afirmação da vida imortal, penetrados de cuja radiosa certeza não hesitavam os seus arautos em desprezar as grosseiras seduções do mundo, para seguir a Jesus, obedecendo aos seus mandatos. Sim, os exemplos dos grandes santos, enfeixados alguns, no brevíssimo resumo que precede, tinham vindo reanimar a cristandade, aureolando de inusitado prestígio a igreja que o perdera e a cujo seio se haviam dignado eles acolher-se. Mas a afirmação de imortalidade e de espiritualidade, que tais exemplos implicitamente revestiam, significando embora uma vitoriosa réplica ao predomínio da incredulidade e do materialismo de que se achavam até então saturados os costumes nas próprias fileiras eclesiásticas, podia quando muito ser considerada um socorro de emergência, não indo a sua repercussão além da espera do sentimento, ao passo que no domínio do pensamento, como obstinada negação dos atributos daquele, em cujo nome eram praticadas tantas obras de amor e de misericórdia, as concepções doutrinárias da igreja, longe de satisfazerem os novos reclamos intelectuais, estimulados pelo movimento emancipador da Reforma, permaneciam estagnadas, negativas, refratárias a toda evolução.
           
            Não vimos, no concílio de Trento ser solenemente ratificado o dogma do pecado original, que torna todo o gênero humano responsável pela ficção da culpa do primeiro casal - outra ficção - e ser do mesmo modo sancionado o não menos iníquo dogma das penas eternas, um e outro blasfematórios e incompatíveis com a bondade e a justiça de Deus?

            Ora, a crítica racionalista, que falava em nome da liberdade, conculcada durante tantos séculos de opressão, formulara as suas exigências, a que os mesmos promotores da Reforma, penetrados de espírito dogmático e intolerante, não se tinham revelado capazes de dar cabal satisfação. Com a sua odiosa doutrina da predestinação e da graça e a negação do livre arbítrio, para contestarem a eficácia das boas obras e sustentarem a salvação exclusiva pela fé, não somente atribuíam a Deus uma clamorosa parcialidade, mas, de seu lado, o tornavam único responsável por todas as ações humanas.

            Essas mesquinhas concepções, que deixavam insolúvel o problema das desigualdades humanas, em face da justiça, da bondade e da sabedoria do Criador, se tinham sido toleradas nas épocas de passividade e de terror, já não podiam ser admitidas quando os estudos científicos, deslocados dos claustros, onde tinham sido exclusivamente cultivados, para as classes consideradas profanas, abriam novos horizontes ao conhecimento, ao mesmo tempo que a razão cada vez mais se emancipava do dogmatismo obsoleto e estacionário.

            Daí o antagonismo entre a religião, que se obstinava no seu erro geocêntrico e no antropomorfismo do Jeová bíblico, zeloso, parcial, vingativo, antitético do Pai misericordioso revelado por Jesus, simbolizado, entre tantos outros ensinos, na parábola do Filho Pródigo, e a ciência, cujas descobertas, que os séculos ulteriores ampliariam, falavam de uma criação infinita, submetida a leis de impecável sabedoria, tal como, por exemplo, pressentira e proclamara Giordano Bruno, condenado por isso a expiar na fogueira o crime de ensinar verdades que não convinham aos detentores da direção espiritual da cristandade. Nem ao AntiCristo, cujo interesse fundamental consiste em manter afastadas de Deus as suas criaturas, a fim de sobre elas exercer pela revolta, que provoca a injustiça, e até pelo terror, o seu implacável predomínio. 

            Se no concilio de Trento, como precedentemente o assinalamos, em lugar de se preocuparem com o fortalecimento da autoridade pontifícia e, portanto, com o aumento do poderio mundano, um largo programa de revisão dos ensinos ortodoxos houvesse prevalecido visando restaurar em sua simplicidade original os ensinos evangélicos, fonte de toda a verdade necessária aos homens, e, por essa forma, encaminha-los a Deus pelo conhecimento de suas leis de misericórdia e de justiça, entre as quais se destaca a da pluralidade de existências, que deixa sempre ao maior culpado a possibilidade de aperfeiçoamento indefinito, após sucessivas jornadas expiatórias e reparadoras, aquele objetivo satânico teria sido sumariamente burlado. Não podia, conseguintemente, o inimigo consentir nessa vitória doutrinaria do Cristianismo, que teria aberto para a humanidade uma nova era de verdadeiro renascimento espiritual. E como havia ele, desde séculos, assentado os seus arraiais na cidade de Roma e, pela tenacidade de suas dissimuladas sugestões, subjugado a mente dos sucessivos depositários do divino legado, não lhe foi difícil, operando sobretudo com a disciplinada falange dos jesuítas, por ele organizada, manter o status quo, ele que do próprio movimento libertário da Reforma se havia apoderado para o transformar num conflito de fanáticos, em que todos os sentimentos se agitaram, menos o da humildade e o do verdadeiro amor a Deus e às suas criaturas.

            Que lhe importava, pois, que algumas almas abrasadas de fé, escolhidas pelo Cristo, e transportadas nos estímulos transfigura dores da caridade viessem recordar aos homens, com a eloquência das obras, os ensinos do Mestre? Ele, que não pudera nem poderia em caso algum impedir essa boa semeadura do "trigo" amoravelmente feita pelo Senhor da messe, bem sabia que tais exemplos - alimento substancial das almas simples - não bastariam para mitigar a fome das inteligências exigentes, que se não resignavam a apagar o lume da razão, para ceder à necessidade puramente sentimental de crer, e era aí que se lhe deparava o propício campo em que semearia, como sempre, o "joio" da incredulidade, suscitada pelas concepções ora pueris, ora terroristas, patrocinadas pelos que se arrogavam a autoridade de exclusivos intérpretes da palavra divina.

            Assim, enquanto a igreja se petrificava na letra bíblica para defender a imobilidade da Terra como centro do universo e sustentar o princípio da criação em sete dias, desconhecendo o simbolismo da narrativa mosaica, os trabalhos de Kepler e Galileu, que seriam mais tarde completados pela hipótese cosmogônica de Laplace, desmoronavam essas teorias infantis, ao mesmo tempo que à pretensão da exclusiva habitabilidade da Terra não tardaria a ciência em opor a dos demais planetas, apoiada na verificação da existência do vapor d'água em sua atmosfera. E, como essa, todas as outras descobertas da ciência no domínio da física, da química e da biologia, penetrando cada vez mais longe nos arcanos da natureza, eram golpes repetidos e desmoralizadores vibrados no edifício dogmático da igreja, tornando-a incompatível com as inteligências cultas.

            Recordemos ainda o seu dogma, no fundo acentuadamente materialista, da "ressurreição da carne" - expressão que, de resto, se não encontra em nenhuma passagem das Escrituras, onde o que se lê é a "ressurreição dos mortos", o que é muito diferente - a qual, não obstante, fez ela inserir no denominado Símbolo dos Apóstolos, como um dos artigos do Credo. Pretendeu assim que, para o julgamento final, todas as almas retomariam posse de seus corpos materiais, a fim de neles sofrerem as penas e recompensas merecidas pelas suas obras, desse modo atribuindo à carne corruptível importância capital na vida eterna, com o que não somente se colocou em oposição à doutrina espiritualista de Paulo, que sustenta não poder a corrupção herdar a incorruptibilidade, mas condenou-se ao desmentido com que as observações da ciência respondem a essa grosseira concepção; provando a sua impossibilidade.

            É sabido, com efeito, que os elementos constitutivos do corpo humano não se dissociam apenas, transformados em gases, por ocasião da morte, para voltarem ao grande laboratório da natureza e entrarem na composição de novos corpos, nos reinos vegetal e animal -- processo que se vai indefinidamente repetindo na sucessão dos tempos e que torna irrealizável, no ponto de vista da identidade pessoal, a reintegração orgânica e histológica de um mesmo indivíduos mas essa mesma integridade e identidade de células componentes do corpo humano nem sequer se verifica para o mesmo indivíduo no curso da existência, pois que a todo momento, pelo trabalho de desassimilação e assimilação vital, o nosso corpo se vai constantemente renovando, de tal sorte que, ao fim de um período aproximadamente de sete anos, as suas células, desde as partes moles do cérebro até a estrutura óssea, foram totalmente substituídas. Como, pois, se reunirem, segundo a infantil concepção, no minúsculo vale de Josafá, as almas das humanidades, milenariamente desaparecidas, aos seus corpos, há tanto tempo dispersos no turbilhão universal, e como reintegrá-los nos seus elementos tantas vezes substituídos?

            Em presença de tais concepções, a ciência tinha o direito não apenas de sorrir, mas de insurgir-se.

            E não era somente no domínio intelectual que a igreja, por sua retrógrada obstinação, contribuía para o crescente antagonismo entre a religião e a ciência. Tendo na própria esfera da influência espiritual, com aplicação às relações sociais dos indivíduos, abandonado o ideal democrático e fraterno do Cristianismo, para fazer-se a aliada dos poderosos e dos reis e, em tais condições, tornar-se cúmplice da opressão por eles exercida sobre os pobres e os pequenos, forjou e meteu nas mãos dos pensadores a arma de combate que contra ela veio a representar o monumento filosófico da Enciclopédia, erigido por Diderot e d'Alembert, com a principal colaboração de Montesquieu, Voltaire e Rousseau, em meados do século XVIII, e que serviria de ponto de partida, ou, pelo menos, como fonte inspiradora do movimento libertário desencadeado pela Revolução Francesa.

            Que podia, com efeito, resultar da erupção de ideias novas sobre que parecia aqueles clarividentes pensadores deverem ser plasmados os destinos dos povos, senão a onda insurrecional que derrubou a dinastia dos Capeto e, subvertendo a ordem político-social, em cujos destroços arrastou os derradeiros vestígios do feudalismo, havia de ganhar foros de universalidade com a sua proclamação dos direitos não do cidadão francês, mas dos "direitos do homem?"

            Despedaçados os grilhões na órbita política, não foi de estranhar que, obedecendo ao irreprimível impulso inicial, a subversão se propagasse à própria esfera religiosa, E, pois, que a igreja, pretendendo representar o pensamento e a vontade de Deus na terra, o havia sacrilegamente associado a todas as tiranias, de que se fizera cúmplice, a lógica dos acontecimentos não tardou em conduzir os revolucionários aos extremos da consumação prática do lema, teoricamente iconoclasta, "Nem Deus nem rei", isto é, ao desvario de entronizar no lugar do primeiro a "Deusa Razão".


O Jesus dos Espíritas



O Jesus dos Espíritas
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Novembro 1965

            Entendemos o Espiritismo, segundo a Doutrina codificada por Allan Kardec, como uma norma, religio-filosófica, de dar à criatura humana todos os meios simples e práticos de alcançar a própria valorização moral. Através do estudo e da exemplificação da Doutrina cuja base evangélica é evidente, podem, o homem e a mulher, compreender a verdadeira significação da vida eterna, com todos os seus problemas, dores e aflições, ligando-a ao mundo espiritual, porque os dois mundos se interpenetram e se influenciam reciprocamente.

            A Lei de Causa e Efeito, o Carma como dizem os hindus, é inflexível e sua execução constitui, antes de simples castigo, uma imposição criada pelas ações do Espírito encarnado ou desencarnado para o seu necessário progresso, que pode ser mais lento ou mais rápido, conforme determinadas circunstâncias.

            Para nós, portanto, o Espiritismo tem extraordinária importância no desenvolvimento moral da Humanidade. Não se destina a fazer santos mas homens retos, dignos do respeito geral, úteis a si e ao próximo, capazes de, por seu comportamento e modo de pensar, imprimir ao Bem uma ação muito mais dinâmica do que tem sido, ao mesmo tempo transformando o Mal, neutralizando lhe os efeitos e aproveitando-lhe a energia, a fim de que se reduza e um dia fique extinto. Nada, porém, será obtido sem a educação individual, sem que se dê à pessoa humana a atenção imprescindível, desde a criança até o ancião. Essa a obra grandiosa do Espiritismo: modelar o caráter humano, fazendo cada um compreender o elevado papel que tem a desempenhar na vida terrena e em face de seus semelhantes e dos compromissos que traz do passado espiritual.

*

            Quando se alude a Jesus, alguns céticos sorriem “superiormente”. Consideram que o Cristianismo não forma homens, mas múmias, seres abúlicos, neutros, passivos, incapazes de ações energéticas, sempre choramingantes, de cabeça baixa, permitindo abusos e tolerando absurdos, em nome da humildade, da tolerância e do amor ao próximo . Ora, as coisas não devem ser olhadas dessa maneira. Se o misticismo tem proporcionado episódios que parecem justificar semelhante conceito, mais por imperfeição das criaturas humanas do que do legítimo espírito cristão, a vida  de Jesus oferece aspectos absolutamente contrários a  essa concepção sombria e negativa da personalidade humana.  

            Jesus foi humilde sem ser servil ou covarde. Foi bravo sem ser agressivo. A cena dos mercadores do templo, por ele expulsos, é prova eloquente de energia, de coragem, de intenção moralizadora. Enfrentou sozinho, bravamente, aqueles, que profanavam o lugar  sagrado.  Sua atitude de dar ao mundo uma  doutrina nova, mais humana, mais edificante, sem violência nem fanatismo, arrostando, como arrostou, todos os perigos, sofrendo humilhações, torturas e o fim material na cruz, dão conta, mais do que outro qualquer exemplo, da sua incomum bravura.

            Dele conhecemos somente o que nos contam os Evangelhos. É pena que não haja mais pormenores da sua passagem pela Terra, porquanto os fatos do seu itinerário humano não devem ter-se restringido apenas ao que nos relatam os Evangelhos, ressaltando mais a finalidade religiosa da sua peregrinação.

            Ninguém deu mais belas provas de sinceridade. Nada mais degradante do que a hipocrisia, que, ainda hoje, campeia por todos os cantos. Os hipócritas mostram sorrisos, abraçam, louvam, embora, intimamente, não experimentem satisfação alguma com o que fazem para iludir. Quando há sinceridade real, sentimos o calor espiritual das atitudes, a vibração benéfica das palavras de agrado ou louvor. Há gente assim, insincera, em toda parte. Nem foi por outro motivo que Jesus, tão doce e benévolo, tão tolerante e discreto, não se conteve ao repelir a hipocrisia: “Hipócritas, bem profetizou de vós Isaías: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Adoram-me, porém, em vão, ensinando doutrinas que são preceitos de homens...” E adverte: “Quando orardes, não sejais corno os hipócritas.

            Em Mateus, 6:1-2, 6:2-6, 6:16-18, 15:7-9 e 23:5:10,  ele condena a hipocrisia e os hipócritas.

            O mundo herdou-a por força daqueles que pretenderam, pela comoção, obter o que não alcançavam pelo entendimento claro, a ideia de um Jesus chagado, coberto de sangue, para sempre dependurado na cruz. O mundo mudou depois da noite negra da Idade Média e se libertou de concepções retrógradas, adquirindo plena consciência do seu direito de pensar e de dizer. Desde aí, muitas interpretações benéficas da personalidade de Jesus e do legítimo objetivo do verdadeiro Cristianismo contribuíram, e contribuem, para dar ã humanidade um retrato mais compatível coma dignidade do Cristo, retirando-o da cruz, que foi um episódio de sua vida terrena, episódio dramático mas apenas um episódio.

            Em vez de um Jesus morto e divinizado, temos, no Espiritismo, um Jesus vivo, glorificado por sua grandeza espiritual e por suas obras e ideias, pela ascendência espiritual de que desfruta, como Espírito puro, de altíssima hierarquia, a quem estão entregues os destinos deste planeta e consequentemente, os da Humanidade inteira.

            Em “Os Quatro Evangelhos” Roustaing nos permite ver como os Evangelistas e Aóstolos nos apresentam a grandeza do Mestre excelso e de sua magna doutrina, sem os macabros acessórios que o tem acompanhado nas apresentações de religiões ditas tradicionais: coroa de espinhos, cravos, sangue, sangue, sangue.

            Jesus não prega a tristeza, a dor, o desânimo. Pelo contrário, encontramos nos Evangelhos a prova de sua alegria, do seu amor à coragem, à iniciativa, ao trabalho. Sempre aconselhou àqueles que tangidos pelo sofrimento, pareciam derrotados, que tivessem ânimo. Nas horas mais amargas, revelou fé, bravura e firmeza. Sacrificaram-no mas não lhe quebraram a tenacidade. por conseguinte, devemos todos deixar de lado o que há de tétrico e sombrio em torno de Jesus, para nos identificarmos com os seus exemplos maravilhosos, contidos nos Evangelhos, os quais ajudam a formar homens de caráter forte, decididos, confiantes em si, destemerosos e persistentes.  

            Para nós, espíritas, jesus está, sempre esteve vivo. A cruz é um símbolo. Não nos preocupam símbolos, mas tudo quanto pode concorrer para dar à humanidade, dentro da razão esclarecida, a confiança que nasce do conhecimento sólido, a fé, que não prescinde do raciocínio, porque a fé viva é útil, fecunda, construtiva, enquanto que a fé inculcada por dogmas (perinde ac cadáver) faz autômatos, destrói a razão, corrompe o raciocínio e alimenta o fanatismo.

Indalício Mendes