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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VII 'Apreciando a Paulo'


VII
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec - 1958


“Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão
grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço e o pecado
que tão de perto nos rodeiam, e corramos com paciência
 a carreira que nos está proposta.
Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual pelo gozo
que lhe estava proposto suportou a cruz, desprezando a afronta,
e assentou-se à destra do trono de Deus.
Considerai pois aquele que suportou tais contradições dos pecadores
contra si mesmo, para que não enfraqueçais,
desfalecendo em vossos ânimos.
Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado.
E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como
filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor,
e não desmaies quando por ele fores repreendido;
Porque o Senhor corrige o que ama,
e açoita a qualquer que recebe como filho.
Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos;
porque, que filho há a quem o pai não corrija?
Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes,
sois então bastardos, e não filhos.
Além do que tivemos nossos pais segundo a carne,
para nos corrigirem, e nós os reverenciamos;
não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos,
 para vivermos?”  Hebreus, 12:1 a 9.

            “Deixemos todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeiam”, diz o apóstolo Paulo. Deixemos toda a dúvida, todo o preconceito, para nos entregarmos, como cristãos, ao serviço do Senhor Jesus; mas, por outro lado, abandonemos o pecado, isto é, esqueçamos nossos erros, modifiquemos nossa personalidade, corrijamos o “homem velho”, para que, renovados pela fé, possamos pelejar em prol da verdade e do bem, “olhando para Jesus, autor e consumador da fé”.

            O Divino Mestre é o caminho, a verdade e a vida, como ele mesmo frisou. Além disto, é a luz do mundo; quem o seguir, não andará em trevas, mas terá a luz da vida (João, 8:12). Desde que temos ciência e convicção dessa verdade, por que hesitar?

            Então, cumpre-nos trabalhar pelo bem, sem embaraços, distanciando-nos cada vez mais do pecado que nos rodeia, mas sem fugirmos do ambiente social em que lutamos, pois “é em contato com os vícios que se retemperam as virtudes”.

            Jesus deu o exemplo dessa vida ativa, não se afastando dos homens, mas “suportando as contradições dos pecadores contra si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos”.

            Assim, sejam quais forem as circunstâncias da vida, tenhamos coragem, fé e confiança em Deus! Ele a ninguém desampara, mas está sempre pronto a atender ao apelo de um coração aflito, que o procure com humildade ou que implore seu auxílio, confiadamente.

            “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim”, disse Jesus (João, 14:1).

            Quem crer em Deus, deve crer também nas promessas de seu Filho, não perder o ânimo, a coragem para a vida, nem se perturbar intimamente, pois Deus não dá uma cruz superior às forças de suas criaturas (I Cor, 10:13) . Se permite o sofrimento, é porque tal é necessário para nos corrigir, para nos dar o conhecimento ou a experiência da vida. Destarte, não nos devemos revoltar contra os Seus desígnios, que são sempre sábios e justos.

            Mas nossa fé às vezes vacila na hora do testemunho, no momento das provações. Contudo, elas são como um exame, para experimentar nossa paciência e nossa resignação, virtudes evangélicas, necessárias à própria evolução.

            Todavia, é comum acharmos que não devíamos sofrer assim, mas de outra maneira, como se nos fosse dado o direito de escolher a provação ou como se pudéssemos estabelecer condições ao nosso aperfeiçoamento.

            “Não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por ele repreendido, diz o apóstolo; porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe como filho.”

            Se assim o faz, é por amor, e porque assim é necessário para nosso aperfeiçoamento moral, para a felicidade futura. Temos a eternidade na frente. Nada de angústias, nem de desesperos; TUDO PASSA, e o amanhã será radioso para aquele que crê!

            Deus é quem sabe a correção que nos convém ou o ponto onde nosso orgulho precisa ser ferido.

            Se não encontrarmos explicação nesta vida, para determinado sofrimentos, teremos de admiti-lo como consequência dos erros de nosso Espírito em vidas anteriores, que agora precisa ser forte para redimir-se, pois feliz é aquele que paga seus débitos sem sentimento de revolta ou sem lamentações, já que a tristeza é contraproducente e funesta, como turbação desnecessária do Espírito, que precisa confiar mais em Deus.

            “Se suportais a correção, diz ainda o apóstolo, Deus vos trata como filho; porque, que filho há a quem o pai não corrija?”

            Paulo, o iluminado apóstolo dos gentios, tem em suas epístolas conselhos admiráveis, que decorrem da essência do Cristianismo, que ele compreendeu, sentiu e praticou, exemplificando com o próprio sofrimento, que suportou ate com alegria, escudado na couraça férrea de sua fé gigantesca. Foi “vaso escolhido” ao serviço de Jesus, de maneira que suas palavras merecem ser relidas, ponderadas e seguidas, porque contêm algo daquele “espírito e vida” que deflui das lições do Cordeiro de Deus, seu Mestre e nosso, Mestre, seu Senhor e nosso Senhor. São parte da luz que os Mensageiros também projetam à Terra, em nossos dias, iluminando a existência e o caminho dos homens de boa vontade, e que tenham, ao menos, um pouco de fé, mesmo que seja “do tamanho de um grão de mostarda”, pois, mesmo assim, tornar-se-á suficiente para remover “as montanhas”, que são as dificuldades da vida.

            “Tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao PAI DOS ESPÍRITOS, para vivermos?”

            Note-se que Paulo de Tarso, em suas Epístolas, de vez em quando fala em Espíritos.

            Quando tratou, na Primeira Epístola aos Coríntios, das faculdades espirituais, Ele chegou a se referir ao dom “de discernir os Espíritos” (I Cor., 12:10). Enquanto que João, outro apóstolo do Senhor, em sua Primeira Epístola (4:1), ao seu turno, confirmando tal faculdade, adverte: «Amados, não creiais a todo o Espírito, mas provai se os Espíritos são de Deus.”

            Conclui-se daí que, se há o dom “de discernir os Espíritos”, como disse Paulo, é porque eles se comunicam livremente conosco. E entre estes, como João Evangelista confirmou, há os que são de Deus e os que não o são, isto é, os que ainda perseveram no erro, cujas doutrinas devemos examinar com cautela. Mas o farol está nos ensinos do Cristo, pois, conforme o Divino Mestre, “pela árvore se conhece o fruto.” (Lucas, 6:44).

            A proibição do Velho Testamento, de estabelecer o comércio com o plano espiritual, feita aos homens atrasados de seu tempo (Deut., 18:11), já foi revogada, de vez que “as leis e os profetas duraram até João” (Lucas, 16 :16). Após Jesus, não se guarda mais o sábado, desapareceu a poligamia e não se pratica mais a circuncisão. Por que somente aquela proibição teria de ficar de pé? Ademais, são os próprios apóstolos que se referem à possibilidade de tais comunicações, ora dizendo que é dom saber discernir os Espíritos, ora nos advertindo que não creiamos em todos, o que vale dizer que devemos crer em alguns, que são de Deus. O trabalho está em discerni-los, aplicando nesse intercâmbio as regras que Jesus nos deu, para tal.

            Acresce que o Divino Mestre, ele mesmo, transfigurou-se no Monte Tabor, e ao seu lado apareceram Moisés e Elias, que já eram mortos, mas falavam com Jesus (Marcos, 9:4). O meigo Nazareno, depois de ressurgir (e a ressurreição é na vida espiritual), apareceu à Madalena e aos apóstolos. O Novo Testamento está repleto de fatos e de narrações de fenômenos espíritas. Portanto, negá-los, é desconhecer a Bíblia.

            Destarte, que os ensinamentos de Paulo, aqui apreciados, nos sirvam de roteiro, de luz e de progresso ao nosso entendimento, que precisa evolver, compreendendo os dons do Espírito Santo e descobrindo “a verdade maior”, que é o Espiritismo cristão.

            As coisas de Deus têm que se harmonizar à lógica dos fatos e à nossa necessidade de progredir em amor e em compreensão, a fim de que, algum dia, sejamos um com o Pai, como o é Jesus. E se o dogma da Santíssima Trindade não existe, de conformidade com esse e com outros ensinamentos bíblicos, a Unidade com o Criador é o supremo anseio do Espírito, para cuja síntese todos caminhamos, sobraçando nossa cruz.

            Deus é um só. “O Pai é maior do que eu”, confessou Jesus (João, 14:28). Mas a Ele nos harmonizaremos, em Espírito e Verdade, através dos séculos, sendo também “consumados na unidade”, por força da lei da evolução. 

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