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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Kardec é (e) Jan Huss

Fonte: ‘Revista Espirita’- Setembro ,  Ano: 1869 Ed. FEB 2004
Acreditamos ter sido Leymarie o autor do texto abaixo uma vez que a direção 
da ‘Revue Spirite’ por Allan Kardec se encerra com a edição de Abril, 
face seu desencarne, tudo de acordo com nota que aparece no início do livro-fonte.

Precursores do Espiritismo

“Lemos no Siecle de 11 de julho de 1869:

Os quinhentos anos de João Huss

"Recentemente os jornais da Boêmia publicaram o seguinte apelo:

            "Neste ano se comemora o 5OOº aniversário de nascimento do grande reformador, do patriota e do sábio mestre João Huss. Esta data impõe, sobretudo ao povo boêmio, o dever de rememorar solenemente a época em que surgiu, em seu seio, o homem que tomara como objetivo de vida defender a liberdade de pensamento. Foi por esta ideia que ele viveu e sofreu; foi por esta ideia que ele morreu.

            "Seu nascimento fez luzir a aurora da liberdade no horizonte do nosso país; suas obras espargiram a luz no mundo e, por sua morte na fogueira, a verdade recebeu o seu batismo de fogo!

            "Estamos convictos de que temos não só as simpatias dos boêmios e dos eslavos, mas ainda a dos povos esclarecidos, e convidamos a festejar a lembrança deste grande espírito, que teve a coragem de sustentar sua convicção diante de um mundo escravo dos preconceitos e que, ao eletrizar o povo boêmio, o tornou capaz de uma luta heroica que ficará gravada na História.

            "Os séculos se escoaram; o progresso se realizou, as centelhas produziram chamas; a verdade penetrou milhões de corações. A luta continua, a nação pela qual o mártir imortal se sacrificou ainda não deixou o campo de batalha sobre o qual o havia chamado a palavra do mestre.

            "Conjuramos todos os admiradores de João Huss a se reunirem Praga, a fim de colherem, na lembrança dos sofrimentos do grande mártir, novas forças por meio de novos esforços.

            “Será em Praga, no dia 4 de Setembro próximo, e no dia 6, em Hussinecz, onde ele nasceu, que celebraemos a memória de João Huss.

             "Nesses dias todos os patriotas virão atestar que a nação boêmia ainda honra o heroico campeão de seus direitos, e que jamais esquecerá o herói que a elevou à altura das ideias que são ainda o farol para o qual marcha a Humanidade! 

            "Nosso apelo também se dirige a todos os que, fora da Boêmia, amam a verdade e honram os que morreram por ela. Que venham a nós, e que todas as nações civilizadas se unam para, conosco, aclamarem o nome imperecível de João Huss! 

"O presidente do comitê."

Dr. Sladkowsley

            "Seguem-se trinta assinaturas de membros do comitê, advogados, literatos, industriais.

            "O apelo dos patriotas boêmios não poderia deixar de suscitar viva simpatia entre os amigos da liberdade.

            "Um jornal de Praga tivera a desastrada ideia de propor uma petição ao futuro concílio para pedir a revisão do processo de João Huss. O jornal Norodni Listy refutou com vigor esta estranha proposição, dizendo que a revisão se efetuara perante o tribunal da civilização e da História, que julga os papas e os concílios.

            "A nação boêmia, acrescenta o Norodni, perseguiu esta revisão com a espada na mão, em cem batalhas, no dia seguinte mesmo da morte de João Huss."

            "A folha Tcheca tem razão: João Huss não precisa ser reabilitado, assim como Joana d'Arc não precisa ser canonizada pelos sucessores dos bispos e doutores que os queimaram.

            Por nosso lado, vimos juntar às homenagens prestadas à memória de João Huss o nosso testemunho de simpatia e de respeito pelos princípios de liberdade religiosa,  e de  solidariedade que ele popularizou em vida. Esse espírito eminente, esse inovador convicto, tem direito à primeira fila entre os precursores da nossa consoladora filosofia. Como tantos outros, tinha a sua missão providencial, que realizou até o martírio, e sua morte, como sua vida, foi um dos mais eloquentes protestos contra a crença num Deus mesquinho e cruel, bem como aos ensinos rotineiros, que deviam ceder ante o despertar do espírito humano e o exame aprofundado das leis naturais.

            Como todos os inovadores, João Huss foi incompreendido e perseguido; ele vinha corrigir abusos, modificar crenças que não mais podiam satisfazer às aspirações de Sua época. Necessariamente devia ter como adversários todos os interessados em conservar a antiga ordem das coisas. Como Wyclif, como Jacobel e Jerônimo de Praga, sucumbiu sob os esforços de seus inimigos coligados; mas as verdades que havia ensinado, fecundadas pela perseguição, serviram de base às novidades filosóficas dos tempos ulteriores e provocaram a era de renovação que devia dar origem à liberdade de consciência e à liberdade de pensar em matéria de fé.

            Não duvidamos que João Huss, como Espírito ou como encarnado, caso tenha voltado à nossa Terra como homem (1) , haja se consagrado constantemente ao desenvolvimento e à propagação de suas crenças sobre o futuro filosófico da Humanidade.

(1) Do Blog: Sim, ele retornou na personalidade de Allan Kardec!
Pesquise no 'mini' Gloogle do Blog o texto sob título  ‘As 5 (?) Encarnações de Allan Kardec’ de Luciano dos Anjos.

            Estamos autorizados a pensar que o apelo do povo boêmio será ouvido por todos os que apreciam e veneram os defensores da verdade. Os grandes filósofos não têm pátria. Se, pelo nascimento, pertencem a uma nacionalidade particular, por suas obras são os luminares da Humanidade inteira que, sob o seu impulso, marcha para a conquista do futuro.

            Persuadidos de satisfazer ao desejo da maioria dos nossos leitores breve nota, o que foi em toda a sua vida o homem eminente cujo 500º aniversário a Boêmia celebrará no próximo dia 4 de setembro:

            João Huss nasceu a 6 de julho de 1373 sob o reinado do imperador Carlos IV e sob o pontificado de Gregório XI, cerca de cinco anos antes do grande cisma do Ocidente, que se pode encarar como uma das sementes do hussitismo. A História nada nos ensina do pai e da mãe de João Huss, senão que eram criaturas probas, mas de origem obscura. Segundo o costume da Idade Média, João Huss ou melhor, João de Huss, foi assim chamado porque nasceu em Huissinecz, pequeno burgo situado ao sul da Boêmia, no distrito de Prachen, nas fronteiras da Baviera.

            Seus pais tiveram o maior cuidado com sua educação. Tendo perdido o pai na infância, sua mãe lhe ensinou os primeiros elementos de gramática em Hussinecz, onde havia uma escola. Depois o levou a Prachen, cidade do mesmo distrito, onde havia um colégio ilustre. Logo fez grandes progressos nas letras e atraiu a amizade dos mestres por sua modéstia e docilidade, conforme testemunho que a Universidade de Praga lhe prestou após sua morte. Quando estava bastante adiantado para ir a Praga, sua própria mãe o conduziu. Contam que esta pobre mulher, cheia de zelo pela educação do filho, levava consigo um ganso e um bolo, para presenteá-las ao seu regente. Mas, infelizmente, o ganso fugiu no caminho, de sorte que, para seu grande pesar, ela não tinha senão o bolo para dar de presente ao mestre. Magoada profundamente por este pequeno incidente, orou várias vezes, pedindo a Deus que se dignasse ser o pai e o preceptor de seu filho.

            Quando ele adquiriu em Praga sólidos conhecimentos em literatura, os professores, nele notando muita inteligência e vivacidade de espírito, bem como uma grande atividade pela Ciência, julgaram por bem matriculá-lo no capítulo Universidade que tinha sido fundada em 1247 pelo imperador Carlos VI, rei da Boêmia, e confirmada pelo papa Clemente VI.

            Afastado das diversões da juventude, João Huss empregava suas horas vagas para boas leituras. Lia com prazer sobretudo as dos antigos mártires, Conta-se que um dia, lendo a lenda de São Lourenço, quis experimentar se teria a mesma coragem desse mártir, pondo o dedo no fogo; mas acrescentam que logo o retirou, muito descontente com a sua fraqueza, ou que um de seus camaradas a isto se opôs.

            Seja como for, ao que parece ele não fazia mal em se preparar para o fogo. Aliás, quando quis fazer este ensaio, já estava bastante avançado em idade para que o edito de 1276, pelo qual Carlos VI condenava os heréticos ao fogo, de algum modo lhe desse o pressentimento do que devia acontecer com ele.

            Um grande obstáculo se opunha ao ardor que tinha João Huss de se instruir: a pobreza. Neste apuro, aceitou a oferta que lhe fez um professor, cujo nome é ignorado, de tomá-la ao seu serviço e de lhe fornecer os livros e tudo o que era necessário para prosseguir seus estudos. Embora essa situação fosse bastante humilhante, ele a achava feliz tendo em vista o seu objetivo, e a aproveitou tão bem que satisfez, ao mesmo tempo, seu mestre, cuja amizade ganhou, e sua paixão pelas letras.

            João Huss fez progressos consideráveis na Universidade; por seus livros, parece que era versado na leitura dos Pais gregos e latinos, pois que os cita muitas vezes. Pode-se julgar por seus comentários que sabia grego e tinha noções de hebreu. Com cerca de vinte anos, conquistou o titulo de bacharel e, dois anos depois, o de mestre em artes. Não se sabe quem foram seus mestres, salvo o que ele próprio diz de Stanislas Znoima, que, mais tarde, se tornou um de seus maiores adversários. Ordenou-se sacerdote em 1400 e, no mesmo ano, foi nomeado pregador da capela de Belém. Foi aí que teve oportunidade de exercitar os seus talentos, querido por uns, suspeito e odiado por outros, admirado por todos. Na mesma época foi nomeado confessor de Sofia da Baviera, rainha da Boêmia.

            Foi no período de 1403 a 1408 que João Huss juntamente com Jerônimo de Praga, estudou as obras de Wyclif e de Jacobel e começou a se separar do ensino ortodoxo. Desde o começo, um certo número de discípulos que sempre lhe foram fiéis, mantiveram-se ligados a ele.

            No dia 22 de outubro de 1409 foi nomeado reitor da Universidade de Praga, desobrigando-se desse novo encargo com os aplausos de todo o mundo. Até então, não havia aprovado as doutrinas de Wyclif senão em termos vagos e com cautela. Nessa época começou a falar mais abertamente de suas crenças pessoais.

            Entre suas obras anteriores ao concílio de Constança, nota-se o Tratado da Igreja, de onde foram tirados todos os argumentos para sua condenação. Durante o seu cativeiro, consagrou-se especial e inteiramente à execução de suas últimas obras filosóficas. Foi assim que fez os manuscritos do Tratado do casamento, do Decálogo, do amor e do conhecimento de Deus, da Penitência, dos três inimigos do homem, da ceia do Senhor, etc.

            Todos os historiadores contemporâneos, mesmo entre os seus adversários, rendem homenagem à pureza de sua vida: "Era, dizem, um filósofo, de grande reputação pela regularidade de seus costumes, sua vida rude, austera e inteiramente irrepreensível, sua doçura e sua afabilidade para com todos; era mais sutil que eloquente, mas sua modéstia e seu grande espírito conciliador persuadiam mais que a maior eloquência."

            Não nos permitindo a falta de espaço que nos estendamos tanto quanto desejaríamos, limitar-nos-emos a algumas citações características. Longe de temer a morte, por vezes parecia aguardá-la com impaciência, como o termo de seus trabalhos e o início da recompensa. Tinha o hábito de dizer: "Ninguém é recompensado na outra vida mais do que mereceu nesta, e que os modos e locais de recompensa variavam segundo os méritos." Aos que queriam convencê-lo a se retratar e abjurar, várias vezes deu esta resposta digna de nota: ''Abjurar é deixar um erro que se cometeu; se alguém me ensinar algo melhor do que avancei; estou pronto a fazer de bom grado o que exigis de mim.”

            Terminamos pelo testemunho da Universidade de Praga, dado em seu favor após a sua morte:

            "Dizem que ele tinha, neste terreno, um espírito superior, uma penetração viva e profunda; ninguém era mais apto para escrever de um jato, nem dar respostas mais contundentes às objeções. Ninguém tinha um zelo mais veemente, nem melhor discernimento; jamais o pilharam em erro, a não ser na opinião dos maus, que o atacaram ferozmente por causa de seu amor pela justiça. Ó homem de virtude inestimável, de brilhante santidade, de humilde e piedade inimitáveis, de desinteresse e de caridade inacreditáveis! Desprezava as riquezas no último grau, abria o coração aos pobres; muitas vezes era visto de joelhos, ao pé do leito dos doentes; vencia as naturezas mais indomáveis pela doçura e levava os impenitentes a se desfazerem em lágrimas; tirava das Santas Escrituras, sepultada no esquecimento, motivos novos e poderosos, a fim de exortar os eclesiásticos viciosos a voltarem atrás em seus desregramentos e a cumprirem os compromissos de seu caráter, e para reformar os costumes de todas as ordens com base na Igreja primitiva.

            "Os opróbrios, as calúnias, a fome, a infâmia, mil torturas cruéis e, enfim, a morte que padeceu, não só com paciência, mas mesmo com um semblante tranquilo e risonho, tudo isto é o testemunho autêntico de uma virtude a toda prova, de uma coragem, de uma fé e de uma piedade inabaláveis. Julgamos por bem expor todas estas coisas aos olhos da cristandade, a fim de impedir que os fiéis, enganados pelas falsas imputações, maculem o conceito deste homem justo, nem dos que seguem sua doutrina.”

            Evocado por um de nossos médiuns, o Espírito de João Huss deu a seguinte comunicação, que nos apressamos em mostrar aos nossos leitores, bem como uma instrução do Sr. Allan Kardec sobre o mesmo assunto, porque nos parecem bem caracteriza a natureza do homem eminente, que se ocupou com tanto ardor desde o século quinze, a preparar os elementos da emancipação e da regeneração filosóficos da Humanidade.



                                               (Paris, 14 de agosto de 1869)

            A opinião dos homens pode dispersar-se momentaneamente, mas a justiça de Deus, eterna e imutável, sabe recompensar, quando a justiça humana castiga, perdida pela iniquidade e pelo interesse pessoal. Apenas cinco séculos (um segundo na eternidade) se passaram desde o nascimento do obscuro e modesto trabalhador e já a glória humana, à qual ele não se prende mais, substituiu a sentença infamante e a morte ignominiosa, incapazes de abalar a firmeza de suas convicções.

          Como és grande, meu Deus, e como é infinita a tua sabedoria! Sob o teu sopro poderoso minha morte tornou-se um instrumento de progresso. A mão que me feriu alcançou, com o mesmo golpe, os terríveis erros seculares de que se encharcou o espírito humano. Minha voz encontrou eco nos corações indignados pela injustiça de meus algozes, e meu sangue, derramado como um orvalho benfazejo sobre um solo generoso, fecundou e desenvolveu nos espíritos adiantados de meu tempo os princípios da eterna verdade. Eles compreenderam, refletiram, analisaram, trabalharam e, sobre bases informes, rudimentares das primeiras crenças liberais, edificaram, na sucessão das eras, doutrinas filosóficas verdadeiramente generosas, profundamente religiosas e eternamente progressivas.

          Graças a eles, graças aos seus trabalhos perseverantes, o mundo sabe que João Huss viveu, sofreu e morreu por suas crenças; é muito, meu Deus, para os meus frágeIs esforços,  meu espírito reabilitado tem dificuldade em resistir aos sentimentos de reconhecimento e de amor que o arrebatam. Reconhecer que se enganaram ao me condenar, era justiça; as homenagens e os testemunhos de simpatia com que me glorificam são excessivos para os meus fracos méritos.

          O Espírito humano tem caminhado desde que o fogo consumiu meu corpo. Uma chama não mais destrutiva, mas regeneradora, abarca a Humanidade; seu contato purifica, seu calor faz crescer e vivifica. Nesse foco benfazejo vêm reanimar-se todos os feridos pela dor, todos os torturados pela provação da dúvida e da incredulidade. O sofredor se afasta consolado e forte; o indeciso, o incrédulo e o desesperado, cheios de ardor, de firmeza e de convicção, vêm engrossar o exército ativo e fecundo das falanges emancipadoras do futuro.
         
          Aos que me pediam uma retratação, respondi que só renunciaria às minhas crenças diante de uma doutrina mais completa, mais satisfatória, mais verdadeira. Pois bem! desde esse tempo meu Espírito se engrandeceu; encontrei algo melhor do que havia conquistado e, fiel aos meus princípios, repeli sucessivamente o que minhas antigas convicções tinham de errôneo, para acolher as verdades novas, mais largas, mais consentâneas com a ideia que eu fazia da natureza e dos atributos de Deus. Espírito, progredi no espaço; voltando à Terra, progredi também. Hoje, voltando novamente à pátria das almas, estou na fila da frente ao lado de dos os que, sob este ou aquele nome, marcham sincera e ativamente para a verdade e se dedicam, de coração e de espírito, ao desenvolvimento progressivo do espírito humano.

          Obrigado a todos os que reverenciam em minha personalidade terrestre a memória de um defensor da verdade; obrigado, sobretudo, aos que sabem que, acima do homem há o Espírito, libertado pela morte dos entraves materiais, a inteligência livre que trabalha em acordo com as inteligências exiladas, a alma que gravita incessantemente para o centro de atração de todas as criações: o infinito, Deus!

João Huss



(Paris, 17 de agosto de 1869)

            Analisando através das eras a História da Humanidade o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. - De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro. - A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.

            Tal foi João Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita.

            Semearam, laboraram e fizeram a primeira colheita; depois voltaram para semear ainda, esperando que o futuro e a intervenção providencial viessem fecundar sua obra.

            Feliz aquele que, do alto do espaço, pode contemplar as diversas etapas percorridas e os trabalhos realizados por amor à verdade e à justiça; o passado não lhe dá senão satisfação, e se suas tentativas foram incompletas e improdutivas no presente, se a perseguição e a ingratidão por vezes ainda vêm perturbar a sua tranquilidade, ele pressente as alegrias que lhe reserva o futuro.

            Glória na Terra e nos espaços a todos os que consagraram a existência inteira ao desenvolvimento do espírito humano. Os séculos futuros os veneram e os mundos superiores lhes reservam a recompensa devida aos benfeitores da Humanidade.

            João Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. - Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: "Fazei algo de melhor e me reunirei a vós."

            O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que João Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar.

Allan Kardec
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Discursos pronunciados junto ao Túmulo


Fonte: ‘Revista Espirita’- Setembro,  Ano: 1869
Ed. FEB 2004
Entendemos ter sido Leymarie quem juntou os discursos e notas da imprensa, como abaixo.


Discursos Pronunciados Junto ao Túmulo

Em nome da Sociedade Espírita de Paris
Pelo Vice-Presidente, Sr. Levent

            Senhores,

            Em nome da Sociedade Espírita de Paris, da qual tenho a honra de ser Vice-Presidente, venho exprimir seu pesar pela perda cruel que acaba de sofrer, na pessoa de seu venerado mestre, Sr. Allan Kardec, morto subitamente anteontem, quarta-feira, nos escritórios da Revista.

            A vós, senhores, que todas as sextas-feiras vos reuníeis na seda da Sociedade, não preciso lembrar essa fisionomia ao mesmo tempo benevolente e austera, esse tato perfeito, essa justeza de apreciação, essa lógica superior e incomparável que nos parecia inspirada.

            A vós, que todos os dias da semana partilháveis dos trabalhos do mestre, não retraçarei seus labores contínuos, sua correspondência com as quatro partes do mundo, que lhe enviavam documentos sérios, logo classificados em sua memória e
preciosamente recolhidos para serem submetidos ao cadinho de sua alta razão, e formar, depois de um trabalho escrupuloso de elaboração, os elementos dessas obras preciosas que todos conheceis.

            Ah! se, como a nós, vos fosse dado ver esta massa de materiais acumulados no gabinete de trabalho desse infatigável pensador; se, conosco, tivésseis penetrado no santuário de suas meditações, veríeis esses manuscritos, uns quase terminados, outros
em curso de execução, outros, enfim, apenas esboçados, espalhados aqui e ali, e que parecem dizer: Onde está, pois, o nosso mestre, tão madrugador no trabalho?

            Ah! mais do que nunca, também exclamaríeis, com inflexões tão pesarosas de amargura que seriam quase ímpias: Precisaria Deus ter chamado o homem, que ainda podia fazer tanto bem? a inteligência tão cheia de seiva, o farol, enfim, que nos tirou das trevas e nos fez entrever esse novo mundo, mais vasto e admirável do que o que imortalizou o gênio de Cristóvão Colombo? Ele apenas começara a fazer a descrição desse mundo, cujas leis fluídicas e espirituais já pressentíamos.

            Mas, tranquilizai-vos, senhores, por este pensamento tantas vezes demonstrado e lembrado pelo nosso presidente: "Nada é inútil em a Natureza, tudo tem sua razão de ser, e o que Deus faz é sempre bem-feito."

            Não nos assemelhemos a esses meninos indóceis que, não compreendendo as decisões dos pais, se permitem criticá-los e por vezes mesmo censurá-los.

            Sim, senhores, disto tenho a mais profunda convicção e vo-lo exprimo abertamente: a partida do nosso caro e venerado mestre era necessária!

            Aliás, não seríamos ingratos e egoístas se, não pensando senão no bem que ele nos fazia, esquecêssemos o direito que ele adquirira, de ir repousar um pouco na pátria celestial, onde tantos amigos, tantas almas de escol o esperavam e vieram recebê-lo, após uma ausência, que também para eles parecia bem longa?

            Oh! sim, há alegria, há grande festa no Alto, e essa festa, essa alegria, só se iguala à tristeza e ao luto causados por sua partida entre nós, pobres exilados, cujo tempo ainda não chegou! Sim, o mestre havia realizado a sua missão! Cabe a nós continuar a sua obra, com o auxílio dos documentos que ele nos deixou, e daqueles, ainda mais preciosos, que o futuro nos reserva. A tarefa será fácil, ficai certos, se cada um de nós ousar afirmar-se corajosamente; se cada um de nós tiver compreendido que a luz que recebeu deve ser propagada e comunicada aos seus irmãos; se cada um de nós, enfim, tiver a memória do coração para o nosso lamentado presidente e souber compreender o plano de organização que levou o último selo de sua obra.

            Continuaremos, pois, o teu trabalho, caro mestre, sob teu eflúvio benfazejo e inspirador. Recebe aqui a nossa promessa formal. É o melhor sinal de afeição que podemos te dar.

            Em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, não te dizemos adeus, mas até logo, até breve!



 O Espiritismo e a Ciência
Pelo Sr. C. Flammarion

            Depois que o Sr. Vice-Presidente da Sociedade, junto à tumba do mestre, proferiu a prece pelos mortos e, em nome da Sociedade, testemunhou os sentimentos de pesar que acompanham o Sr. Allan Kardec à sua partida desta vida, o Sr. Camille Flammarion pronunciou o discurso que vamos reproduzir em parte. De pé, numa elevação de onde dominava a assembleia, o Sr. Flammarion pôde ser ouvido por todos, afirmando publicamente realidade dos fatos espíritas, seu interesse geral na Ciência e sua importância futura. Esse discurso não é apenas um esboço do caráter do Sr. Allan Kardec e do papel de seus trabalhos no movimento contemporâneo, mas, ainda e sobretudo, uma exposição da situação atual das ciências físicas, do ponto de vista do mundo invisível, das forças naturais desconhecidas, da existência da alma e de sua indestrutibilidade.

            Falta-nos espaço para dar in extenso o discurso do Sr. Flammarion. Eis o que se liga diretamente ao Sr. Allan Kardec e ao Espiritismo, considerado em si mesmo. (O discurso inteiro será publicado em brochura).

            “Senhores,

            ''Aceitando com deferência o convite simpático dos amigos do pensador laborioso cujo corpo terreno jaz agora aos nossos pés, vem-me à mente um dia sombrio do mês de dezembro de 1865, em que pronunciei palavras de supremo adeus junto à tumba do fundador da Livraria Acadêmica, do honrado Didier, que, como editor, foi colaborador convicto de Allan Kardec, na publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe era cara. Também ele morreu subitamente, como se o céu houvesse querido poupar a esses dois Espíritos íntegros o embaraço fisiológico de sair desta vida por via diferente da comumente seguida. A mesma reflexão se aplica à morte do nosso ex-colega Jobard, de Bruxelas.

            "Hoje, maior ainda é a minha tarefa, porquanto eu desejara figurar à mente dos que me ouvem e à dos milhões de criaturas que na Europa inteira e no Novo Mundo se têm ocupado com o problema ainda misterioso dos fenômenos chamados espíritas; - eu quisera, digo, poder figurar-lhes o interesse científico e o porvir filosófico do estudo desses fenômenos, ao qual se hão consagrado, como ninguém ignora, homens eminentes dentre os nossos contemporâneos. Estimaria fazer-lhes entrever os horizontes desconhecidos que a mente humana verá rasgar-se diante de si, à medida que ela ampliar o conhecimento positivo das forças naturais que em torno de nós atuam; mostrar-lhes que essas comprovações constituem o mais eficaz antídoto para a lepra do ateísmo, de que parece atacada, principalmente, a nossa época de transição; dar, enfim, aqui, testemunho público do eminente serviço que o autor de O livro dos Espíritos prestou à filosofia, chamando a atenção e provocando discussões sobre fatos que até então pertenciam ao domínio mórbido e funesto das superstições religiosas.

            "Seria, com efeito, um ato importante firmar aqui, junto deste túmulo eloquente, que o metódico exame dos fenômenos erroneamente qualificados de sobrenaturais, longe de renovar o espírito de superstição e de enfraquecer a energia da razão, ao contrário, afasta os erros e as ilusões da ignorância e serve melhor ao progresso, do que as negações ilegítimas dos que não querem dar-se ao trabalho de ver.

            "Mas, este não é lugar apropriado a estabelecer uma arena às discussões desrespeitosas. Deixemos apenas que das nossas mentes desçam, sobre a face impassível do homem ora estendido diante de nós, testemunhos de afeição e sentimentos de pesar, que lhe permaneçam ao derredor em seu túmulo, qual embalsamamento do coração! E, pois que sabemos que sua alma eterna sobrevive a estes despojos mortais, do mesmo modo que a eles preexistiu; pois que sabemos que laços indestrutíveis unem o nosso mundo visível ao mundo invisível; pois que esta alma existe hoje tão bem como há três dias e que não é impossível se ache atualmente na minha presença. Digamos-lhe que não quisemos se desvanecesse a sua imagem terrena encerrada no sepulcro, sem unanimemente rendermos homenagem a seus trabalhos e à sua memória, sem pagar um tributo de reconhecimento à sua encarnação ter rena, tão útil e tão dignamente preenchida.

            "Traçarei, primeiro, num esboço rápido, as linhas principais da sua carreira literária.

            "Morto na idade de 65 anos, Allan Kardec consagrara a primeira parte de sua vida a escrever obras clássicas, elementares, destinadas, sobretudo, ao uso dos educadores da mocidade. Quando, pelo ano de 1850, as manifestações, novas na aparência, das mesas girantes, das pancadas sem causa ostensiva, dos movimentos insólitos de objetos e móveis começaram a prender a atenção pública, determinando mesmo, nos de imaginação aventureira, uma espécie de febre, devida à novidade de tais experiências, Al1an Kardec, estudando ao mesmo tempo o magnetismo e seus singulares efeitos, acompanhou com a maior paciência e clarividência judiciosa as experimentações e as tentativas numerosas que então se faziam em Paris.

            "Recolheu e pôs em ordem os resultados conseguidos dessa longa observação e com eles compôs o corpo de doutrina que publicou em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos. Todos sabeis que êxito alcançou essa obra, na França e no estrangeiro. Havendo atingido a 16ª edição, tem espalhado em todas as classes esse corpo de doutrina elementar que, na sua essência, não é absolutamente novo, porquanto a escola de Pitágoras, na Grécia, e a dos druidas, em nossa própria Gália, ensinavam os seus princípios fundamentais, mas que agora reveste uma forma de verdadeira atualidade, por corresponder aos fenômenos.

            "Depois dessa primeira obra apareceram, sucessivamente, O Livro dos Médiuns, ou Espiritismo experimental, - O que é o Espiritismo, ou resumo sob a forma de perguntas e respostas; - O Evangelho segundo o Espiritismo; - O Céu e o Inferno, - A Gênese. A morte o surpreendeu no momento em que, com a sua infatigável atividade, trabalhava noutra sobre as relações entre o Magnetismo e o Espiritismo.

            "Pela Revista Espírita e pela Sociedade de Paris, cujo presidente ele era, se constituíra, de certo modo, o centro a que tudo ia ter, o traço de união de todos os experimentadores. Faz alguns meses, sentindo próximo o seu fim, preparou as condições de vitalidade de tais estudos para depois de sua morte e instituiu a Comissão Central que lhe sucede.

            "Suscitou rivalidades; fez escola de feição um pouco pessoal, havendo ainda alguns dissídios entre os "espiritualistas" e os "espíritas". Doravante, senhores (tal, pelo menos, o voto que formulam os amigos da verdade), devemos unir-nos todos por uma solidariedade fraterna, pelos mesmos esforços em prol da elucidação do problema, pelo desejo geral e impessoal do verdadeiro e do bem.

            "Quantos corações foram consolados, de início, por esta crença religiosa! Quantas lágrimas foram enxutas! Quantas consciências abertas aos raios da beleza espiritual! Nem todos são felizes aqui na Terra. Muitas afeições foram destruídas! Muitas almas foram adormecidas no ceticismo. Não será nada ter trazido ao espiritualismo tantos seres que vacilavam na dúvida e que não mais amavam a vida física, nem a intelectual?

            ''Allan Kardec era o que eu denominarei simplesmente "o bom-senso encarnado." Razão reta e judiciosa, aplicava sem cessar à sua obra permanente as indicações íntimas do senso comum. Não era essa uma qualidade somenos, na ordem de coisas com que nos ocupamos. Era, ao contrário, pode-se afirmá-lo, a primeira de todas e a mais preciosa, sem a qual a obra não teria podido tornar-se popular, nem lançar pelo mundo suas raízes imensas. A maioria dos que se têm dado a estes estudos lembram-se de que na mocidade, ou em certas circunstâncias, foram testemunhas de manifestações inexplicadas. Poucas são as famílias que não contem na sua história provas desta natureza. O ponto de partida era aplicar-lhes a razão firme do simples bom-senso e examiná-las segundo os princípios do método positivo.

            "Conforme o próprio organizador deste estudo demorado e difícil previra, esta doutrina, até então filosófica, tem que entrar agora num período científico. Os fenômenos físicos, sobre os quais a princípio não se insistia, hão de tornar-se objeto da crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação séria é possível. Esse método experimental, a que devemos a glória dos progressos modernos e as maravilhas da eletricidade e do vapor, deve colher os fenômenos de ordem ainda misteriosa a que
assistimos para os dissecar, medir e definir.

            "Porque, meus Senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o abecê. Passou o tempo dos dogmas. A Natureza abrange o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, a moderna Metafísica não o pode considerar senão como um espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas com o auxilio dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural e devem ser severamente submetidas à verificação da experiência. Não há mais milagres. Assistimos ao alvorecer de uma ciência desconhecida, Quem poderá prever a que consequências conduzirá, no mundo do pensamento, o estudo positivo desta nova psicologia?

            "Doravante, o mundo é regido pela ciência e, Senhores, não virá fora de propósito, neste discurso fúnebre, assinalar lhe a obra atual e as induções novas que ela nos patenteia, precisamente do ponto de vista das nossas pesquisas."

            Aqui o Sr. Flammarion entra na parte científica de seu discurso. Expõe o estado atual da Astronomia e da Física, desenvolvendo particularmente as descobertas relativas à análise recente do espectro solar. Resulta dessas descobertas que não vemos quase nada do que se passa à nossa volta na Natureza. Os raios caloríficos, que evaporam a água, formam as nuvens, causam os ventos, as correntes, organizam a vida do globo, são invisíveis para a nossa retina. Os raios químicos que regem os movimentos das plantas e as transformações químicas do mundo inorgânico são igualmente invisíveis. A ciência contemporânea autoriza, pois, os pontos de vista revelados pelo Espiritismo e, por sua vez, nos abre um mundo invisível real, cujo conhecimento só pode esclarecer-nos quanto ao modo de produção dos fenômenos espíritas.

            Em seguida o jovem astrônomo apresentou o quadro das metamorfoses, do qual resulta que a existência e a imortalidade da alma se revelam pelas mesmas leis da vida. Não podemos aqui entrar nessa exposição, mas aconselhamos vivamente os nossos irmãos em doutrina a ler e estudar na íntegra o discurso do Sr. Flammarion.

            Após sua exposição científica, assim termina o autor:

            "Que os que têm a vista restringida pelo orgulho ou pelo preconceito não compreendam absolutamente os anseios de nossas mentes ávidas de conhecer e lancem sobre este gênero de estudos seus sarcasmos ou anátemas! Colocamos mais alto as nossas contemplações!.. Foste o primeiro, oh! mestre e amigo! foste o primeiro a dar, desde o princípio da minha carreira astronômica, testemunho de viva simpatia às minhas deduções relativas à existência das humanidades celestes, pois, tomando do livro sobre a Pluralidade dos mundos habitados, o puseste imediatamente na base do edifício doutrinário com que sonhavas. Muito amiúde conversávamos sobre essa vida celeste tão misteriosa; agora, oh! alma, sabes, por visão direta, em que consiste a vida espiritual a que voltaremos e que esquecemos durante a existência na Terra.

            "Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório, extinguiu-se o teu cérebro, fecharam-se te os olhos para não mais se abrirem, não mais ouvida será a tua palavra... Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao Espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado.

            "É-nos mais grato saber esta verdade, do que acreditar que jazes todo inteiro nesse cadáver e que tua alma se haja aniquilado com a cessação do funcionamento de um órgão. A imortalidade é a luz da vida, como este refulgente Sol é a luz da Natureza.

            ''Até à vista, meu caro Allan Kardec, até à vista!"




Em nome dos Espíritas dos Centros distantes

Pelo Sr. Alexandre Delanne


            Mui caro Mestre,

            Tantas vezes tive ocasião, nas minhas numerosas viagens, de ser junto a vós o intérprete dos sentimentos fraternos e reconhecidos de nossos irmãos da França e do estrangeiro, que julgaria faltar a um dever sagrado se, em nome deles, eu não viesse neste momento vos testemunhar o seu pesar.

            Eu não serei, ai! senão um eco bem fraco para vos descrever a felicidade daquelas almas tocadas pela fé espírita, que se abrigaram sob a bandeira de consolação e de esperança que tão corajosamente implantastes entre nós.

            Muitos dentre eles certamente desempenhariam, melhor que eu, essa tarefa do coração.

            Como a distância e o tempo não lhes permitem estar aqui, ouso fazê-lo, conhecedor que sou da vossa benevolência habitual a meu respeito e a de nossos bons irmãos que represento.

            Recebei, pois, caro mestre, em nome de todos, a expressão dos pesares sinceros e profundos que a vossa partida precipitada da Terra vai fazer nascer por todos os lados.

            Conheceis, melhor que ninguém, a natureza humana; sabeis que ela precisa de amparo. Ide, pois, até eles, derramar ainda esperança em seus corações.

            Provai-lhes, por vossos sábios conselhos e vossa lógica poderosa, que não os abandonais e que a obra a que vos dedicastes tão generosamente não perecerá, e nem poderia perecer, porque está assentada nas bases inabaláveis da fé raciocinada.

            Pioneiro emérito, soubestes coordenar a pura Filosofia dos Espíritos e pô-la ao alcance de todas as inteligências, desde as mais humildes, que elevastes, até as mais eruditas, que vieram até vós e que hoje se contam modestamente em nossas fileiras.

            Obrigado, nobre coração, pelo zelo e pela perseverança que pusestes em nos instruir.

            Obrigado por vossas vigílias e vossos labores, pela fé vigorosa que em nós inculcastes.

            Obrigado pela felicidade presente que desfrutamos, e pela felicidade futura, cuja certeza nos destes, quando nós, como vós, tivermos entrado na grande pátria dos Espíritos.

            Obrigado ainda pelas lágrimas que enxugastes, pelos desesperos que acalmastes e pela esperança que fizestes brotar nas almas abatidas e desalentadas.

            Obrigado! mil vezes obrigado, em nome de todos os nossos confrades da França e do estrangeiro! Até breve.




Em nome da família e dos amigos

Pelo Sr. E. Muller

            Caros aflitos,

            Falo por último junto a esta fossa aberta, que contém os despojos mortais daquele que, entre nós se chamava Allan Kardec.

            Falo em nome de sua viúva, daquela que foi sua companheira fiel e ditosa, durante trinta e sete anos de uma felicidade sem nuvens e sem mesclas, daquela que compartilhou de suas crenças e de seus trabalhos, bem como de suas vicissitudes e alegrias; que, hoje só, se orgulha da pureza dos costumes, da honestidade absoluta e do sublime desinteresse de seu esposo. É ela que nos dá a todos o exemplo de coragem, de tolerância, de perdão das injúrias e do dever cumprido escrupulosamente.

            Falo também em nome de todos os amigos, presentes ou ausentes, que seguiram passo a passo a carreira laboriosa que Allan Kardec sempre percorreu honradamente; daqueles que querem honrar sua memória, lembrando alguns traços de sua vida.

            Primeiramente quero dizer-vos por que seu envoltório mortal foi para aqui conduzido diretamente, sem pompa e sem outras preces senão as vossas! Precisaria de preces aquele cuja vida inteira não foi senão um longo ato de piedade, de amor a Deus e à Humanidade? Não bastaria que todos pudessem unir-se a nós nesta ação comum, que afirma a nossa estima e a nossa afeição?

            A tolerância absoluta era a regra de Allan Kardec. Seus amigos, seus discípulos pertenciam a todas as religiões: israelitas, maometanos, católicos e protestantes de todas as seitas; de todas as classes: ricos, pobres, sábios, livres-pensadores, artistas e operários, etc... Todos puderam vir aqui, graças a esta medida que não compromete nenhuma consciência e que será um bom exemplo.

            Mas, ao lado desta tolerância que nos reúne, devo citar uma intolerância, que admiro? Fá-lo-ei, porque, aos olhos de todos, ela deve legitimar esse título de mestre, que muitos dentre nós lhe atribuímos. Essa intolerância é um dos caracteres mais salientes de sua nobre existência. Ele tinha horror à preguiça e à ociosidade; e este grande trabalhador morreu de pé, após um labor imenso, que acabou ultrapassando as forças de seus órgãos, mas não as do seu espírito e do seu coração.

            Educado na Suíça, naquela escola patriótica em que se respira um ar livre e vivificante, ocupava seus lazeres, desde a idade de quatorze anos, a dar aulas aos seus camaradas que sabiam menos que ele.

            Vindo para Paris, e sabendo falar alemão tão bem quanto francês, traduziu para a Alemanha os livros da França que mais lhe tocavam o coração. Escolheu Fénelon para o tornar conhecido, e essa escolha denota a natureza benévola e elevada do tradutor. Depois, entregou-se à educação. Sua vocação era instruir. Seus sucessos foram grandes e as obras que publicou, gramática, aritmética e outras, tornaram popular o seu verdadeiro nome, o de Rivail.

            Não satisfeito em utilizar suas notáveis faculdades numa profissão que lhe assegurava uma tranquila comodidade, quis que aproveitassem os seus conhecimentos aqueles que não podiam pagar, e foi um dos primeiros a organizar, nesta época de sua vida, cursos gratuitos, ministrados na rua de Sèvres, nº 35, nos quais ensinava Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia, etc.

            É que havia tocado em todas as ciências e, tendo-as bem aprofundado, sabia transmitir aos outros o que ele mesmo conhecia, talento raro e sempre apreciado.

            Para este sábio dedicado, o trabalho parecia o elemento mesmo da vida. Por isso, mais que ninguém, não podia suportar a ideia da morte tal qual então a apresentavam, tendo como resultado um eterno sofrimento ou uma felicidade egoísta e eterna, mas sem
utilidade, nem para os outros nem para si mesmo.

            Era como predestinado, bem o vedes, para espalhar e vulgarizar esta admirável filosofia que nos faz esperar o trabalho no além-túmulo e o progresso indefinido de nossa individualidade, que se conserva melhorando-se.

            Soube tirar dos fatos, considerados ridículos e vulgares, admiráveis consequências filosóficas e toda uma doutrina de esperança, de trabalho e de solidariedade, semelhante ao verso de um poeta que ele amava:

            Transformar o chumbo vil em ouro puro.

            Sob o esforço de seu pensamento tudo se transformava e engrandecia, aos raios de seu coração ardente; sob sua pena tudo se precisava e se cristalizava, a bem dizer, em frases de deslumbrante clareza.

            Tomava para seus livros esta admirável epígrafe: Fora da caridade não há salvação, cuja aparente intolerância ressalta a tolerância absoluta.

            Transformava as velhas fórmulas e, sem negar a feliz influência da fé, da esperança e da caridade, arvorava uma nova bandeira, ante a qual todos os pensadores podem e devem inclinar-se, porque esse estandarte do futuro leva escritas estas três palavras:

            Razão, Trabalho e Solidariedade.

            É em nome desta mesma razão que ele colocou tão alto, em nome de sua viúva, em nome de seus amigos que eu vos digo a todos que não mais olheis esta fossa aberta. É para mais alto que devemos erguer os olhos, para encontrar aquele que acaba de nos deixar! Para conter esse coração tão devotado e tão bom, essa inteligência de escol, esse espírito tão fecundo, essa individualidade tão poderosa, bem o vedes vós mesmos, medindo-a com os olhos, esta fossa seria demasiado pequena, e nenhuma seria bastante grande.


            Coragem, pois! e saibamos honrar o filósofo e o amigo, praticando suas máximas e trabalhando, cada um no limite de suas forças, para propagar aquelas que nos encantaram e convenceram.

Allan Kardec- desencarne e funerais



Reformador Março 1978
A Desencarnação
 de Allan Kardec – Seus Funerais

            "Continuai a derramar sobre os vossos discípulos o vosso concurso benigno e poderoso; a obra se cumprirá!.. e vosso nome, gravado no panteão da História, entre aqueles dos benfeitores da Humanidade, se transmitirá de Idade em Idade como os dos profetas antigos." - Levent, 1870.

            No dia em que Allan Kardec desencarnava, constituindo este fato dolorosa surpresa para todos os seus amigos e para os espíritas em, geral, nesse mesmo dia o Sr. E. Muller, grande amigo do Codificador e de sua digna esposa, assim se expressava por carta ao Sr. Finet:

            “Paris, 31 de março de 1869.

          "Amigo:
          "Agora, que já estou um pouco mais calmo, eu vos escrevo. Enviando-vos meu aviso, como o fiz, talvez tenha agido um tanto brutalmente, mas me parecia que devíeis receber a comunicação imediata desse falecimento.
          "Eis alguns pormenores:
          "Ele morreu esta manhã, entre onze e doze horas, subitamente, ao entregar um número da Revue a um caixeiro de livraria que acabava de comprá-lo; ele se curvou sobre si mesmo, sem proferir uma única palavra: estava morto.
          "Sozinho em sua casa (Rua de Sant'Ana), Kardec punha em ordem seus livros e papéis para a mudança que se vinha processando e que deveria terminar amanhã. Seu empregado, aos gritos da criada e do caixeiro, acorreu ao local, ergueu-o... nada, nada mais. Delanne acudiu com toda a presteza, friccionou-o, magnetizou-o, mas em vão. Tudo estava acabado.
          "Venho de vê-lo. Penetrando a casa, com móveis e utensílios diversos atravancando a entrada, pude ver, pela porta aberta da grande sala de sessões, a desordem que acompanha os preparativos para uma mudança de domicílio; introduzido numa pequena sala de visitas, que conheceis bem, com seu tapete encarnado e seus móveis antigos, encontrei a Sra. Kardec assentada no canapé, de face para a lareira; ao seu lado, o Sr. Delanne; diante deles, sobre dois colchões colocados no chão, junto à porta da pequena sala de jantar, jazia o corpo, restos inanimados daquele que todos amamos. Sua cabeça, envolta em parte por um lenço branco atado sob o queixo, deixava ver toda a face, que parecia repousar docemente e experimentar a suave e serena satisfação do dever cumprido.
          "Nada de tétrico marcara a passagem de sua morte; se não fosse a parada da respiração, dir-se-ía que ele estava dormindo.
          "Cobria-lhe o corpo uma coberta de lã branca, que, junto aos ombros dele, deixava perceber a gola do robe de chambre, a roupa que ele vestia quando fora fulminado; a seus pés, como que abandonadas, suas chinelas e meias pareciam possuir ainda o calor do corpo dele.
          "Tudo isto era triste, e, entretanto, um sentimento de doce quietude penetrava-nos a alma; tudo na casa era desordem, caos, morte, mas tudo aí parecia calmo, risonho e doce, e, diante daqueles restos, forçosamente meditamos no futuro.
          "Eu vos disse que na sexta-feira é que o enterraríamos, mas ainda não sabemos a que horas; esta noite seu corpo está sendo velado por Desliens e Tailleur; amanhã o será por Delanne e Morin.
          "Procuram-se, entre os seus papéis, suas últimas vontades, se é que ele as escreveu; de qualquer forma, o enterro será puramente civil.
          "Escrever-vos-ei, dando-vos os pormenores da cerimônia.
          "Amanhã, creio eu, cuidaremos em nomear uma comissão de espíritas mais ligados à Causa, aqueles que melhor conhecem as necessidades dela, a fim de aguardar e de saber o que se irá fazer...
          "De todo o coração, vosso amigo, 
(a) Muller."



            "Eis aqui, na medida em que minhas recordações o permitem, os pormenores da cerimônia (fúnebre):
            Exatamente ao meio dia (de 2 de abril de 1869) se pôs em marcha o cortejo, encabeçado por um único carro mortuário, modesto, seguido lentamente por respeitosa multidão formada por, quantos conseguiram comparecer a esse último encontro. O Sr. Levent, Vice-Presidente da Sociedade (Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas), presidia a comitiva, tendo à sua esquerda o Sr. Tailleur e à sua direita o Sr. Morin, seguindo-se lhes os médiuns, o Comité -- a Sociedade toda e uma multidão de amigos e simpatizantes. Fechavam o séquito voluntários e inativos. Ao todo, de mil a mil e duzentas pessoas.
            Andando pela Rua de Grammont, o cortejo atravessou os grandes bulevares, as Ruas Laffitte, Notre-dame de Lorrette, Fontaine e os bulevares exteriores (Clichy), ingressando no cemitério de Montmartre, por entre os populares que se acotovelavam (...)”
            Falaram, junto à sepultura e rodeados pelos que  disputavam os lugares donde melhor pudessem ouvir os discursos ("pobre gente!" - exclamou o Sr. Muller), Levent, Camille Flammarion, Alexandre Delanne e Muller.

            A descrição dos funerais é de E. Muller, em carta aos seus amigos de Lyon, datada
de Paris, 4-4-1869. Os destaques, entre parênteses, são do compilador.

.....

Detalhe entrada - Père Lachaise



O Caráter de Kardec

            Em 31 de março de 1870, ali pelas duas horas da tarde, grande número de espíritas encheu o famoso cemitério de Père-Lachaise, colocando-se em torno do monumento dolmético erigido para honrar a memória imperecível do sábio codificador da Doutrina Espírita - Allan Kardec.

            Inaugurava-se a nova morada dos despojos do saudoso extinto, e vários discursos foram pronunciados, exprimindo todos os oradores, "com a eloquência do coração, os sentimentos de reconhecimento e os testemunhos de gratidão dos espíritas presentes e ausentes".
.....

            Alguns companheiros de Kardec, não podendo comparecer a essas manifestações de carinho, remeteram belíssimas cartas. Transcreveremos, em tradução, a de Alexandre Delanne, amigo dedicado de Kardec e pai de Gabriel Delanne.

Carta de Delanne

                 Rouvray, 30 de Março de 1870

        Faz um mês que estou no campo, buscando restabelecer minha saúde fortemente abalada por seis meses de doença. Tive ciência, através de uma carta de Madame Delanne, que, amanhã, ireis inaugurar o monumento do nosso venerado mestre Allan Kardec. Seria grande felicidade para mim estar entre vós, a fim de assistir a essa tocante cerimônia e prestar homenagem, de viva voz, uma vez mais, a este Espírito de elite que, ao me infundir a fé esclarecida, deu-me ao mesmo tempo a serenidade e a resignação tão necessária nesta terra de provações.
       
        Mas, se a distância e o esgotamento de minhas forças não me permitem acompanhar-vos pessoalmente, crede que meu coração não permanece insensível, e que meu pensamento livre, malgrado a impotência do meu corpo, irá unir-se ao vosso.

        Ninguém saberia, melhor que eu, reconhecer as raras qualidades de Allan Kardec e render-lhe a devida justiça. Vi, muitas vezes, em minhas longas viagens, o quanto era ele amado, estimado e compreendido por todos os adeptos. Todos desejavam conhecê-lo pessoalmente a fim de lhe agradecerem o lhes ter dado a luz por intermédio de suas obras, a fim de lhe testemunharem sua gratidão e seu completo devotamento. Eles o amam, até hoje, como a um verdadeiro pai. Todos proclamam seu gênio e o reconhecem o mais profundo dos filósofos modernos. Mas, estarão eles em condições de apreciá-lo em sua vida privada, isto é, por seus atos? Puderam eles avaliar a bondade do seu coração, avaliar seu caráter tão firme quão justo, a benevolência de que usava em suas relações, sua prudência e sua extrema delicadeza? Não.

        Pois bem, senhores, é a esse respeito que hoje vos quero falar do autor de “O Livro dos Espíritos”, visto que por muitas vezes tive a honra de ser recebido em sua intimidade. Fui testemunha de algumas de suas boas ações, e, a este propósito, algumas citações talvez não sejam inconvenientes aqui.

        Como um dos meus amigos, o Senhor P ... , de Joinville, me veio ver, fomos juntos à Villa de Ségur fazer uma visita ao mestre. Durante a palestra, o Sr. P...  teve a ocasião de narrar a vida de privações por que passava um de seus compatriotas, ancião a quem tudo faltava, que não tinha mesmo vestes próprias para proteger-se do inverno, sendo forçado a abrigar seus pés em tamancos grosseiramente trabalhados. Este bom homem, entretanto, longe estava de se lamentar e, sobretudo, de solicitar auxílios: era um pobre envergonhado. (Uma brochura espírita, que lhe caíra sob os olhos, permitira-lhe beber na Doutrina a resignação para as suas provas e a esperança de melhor futuro.) Vi, então, rolar dos olhos de Allan Kardec uma lágrima de compaixão, e, confiando ao meu amigo algumas moedas de ouro, disse-lhe: “Levai, para que possais prover as necessidades mais prementes do vosso protegido, e, já que ele é espírita, e as economias dele lhe não permitem instruir-se quanto ele desejaria, voltai amanhã; entregar-vos-ei, juntamente com as minhas obras, todas aquelas que eu puder dispor em proveito dele.” Allan Kardec cumpriu sua promessa, e o velho abençoa hoje o nome do benfeitor que, não satisfeito em lhe socorrer a miséria, lhe dava ainda o pão da vida, a riqueza da inteligência e da moral.

        Há alguns anos me foi recomendada uma pessoa reduzida à extrema miséria, expropriada violentamente de sua casa e lançada à rua, sem recursos, com mulher e filhos. Eu me fiz, junto ao mestre, o intérprete desses infelizes, e, no mesmo instante, sem pedir para conhecê-los, sem inquirir de suas crenças ( eles não eram espíritas) , ele me forneceu os recursos para tirá-los da miséria, o que lhes evitou o suicídio, pois que eles haviam resolvido evadir-se ao fardo da vida (que para a alma desencorajada deles se tornara muito pesado), se tivessem que renunciar à assistência dos homens.

        Finalmente, permiti-me contar-vos ainda o fato a seguir, em que a generosidade de Kardec rivaliza com a sua delicadeza.

        Certo espírita, que habitava uma aldeia situada a vinte léguas de Paris, tinha rogado a Allan Kardec lhe desse a honra de uma visita, a fim de este assistir às manifestações espíritas que com ele se processavam.

        Sempre pronto quando se tratasse de prestar algum serviço e tendo por princípio que o Espiritismo e os espíritas tudo devem aos humildes e aos pequenos, sem demora ele partiu, acompanhado de alguns amigos e da Senhora Allan Kardec, sua querida companheira.

        Não foi perdida a sua ida, porque as manifestações que testemunhou foram verdadeiramente notáveis; mas, durante sua curta permanência ali, seu hospedeiro foi cruelmente afligido pela perda súbita de uma parte de seus recursos. Todos, consternados, dissimulavam sua desolação, tanto quanto possível. Entretanto, a nova do desastre chegou aos ouvidos de Allan Kardec, que, no momento de sua partida, informando-se da cifra aproximada das perdas sofridas pelo amigo, remeteu ao “maire” uma quantia mais que suficiente para restabelecer o equilíbrio da situação do seu hospedeiro. Este, só foi notificado da intervenção do seu benfeitor após a partida dele.      

        Não mais pararia eu de falar, se tivesse necessidade de vos lembrar os milhares de fatos deste gênero, conhecidos tão-somente por aqueles que por Kardec foram socorridos; não amparava apenas a miséria, levantava, também, com palavras confortadoras, o moral abatido. Jamais, porém, sua mão esquerda soube o que dava a direita. Antes de terminar, não posso resistir ao desejo de dar-vos a conhecer esta última passagem:

        Uma tarde, uma pessoa de minhas relações, que passava por cruel provação, guardando aos olhos de todos suas privações, recebeu uma carta fechada que continha recursos suficientes para auxiliá-lo a sair de sua crítica posição, acompanhados aqueles destas simples palavras: “Da parte dos bons Espíritos.” Do mesmo modo que a bondade do mestre lhe descobrira o infortúnio, meu amigo, guiado por alguns indícios e pela voz do coração, cedo reconheceu seu anônimo benfeitor.

        Eis, portanto, o coração desse filósofo desconhecido durante a sua vida! E, na verdade, quem mais do que ele, tão bom, tão nobre, tão grande em suas palavras quanto em suas ações, foi alvo da injúria e da calúnia?

        Entretanto, não tinha inimigos, senão os que totalmente o desconheciam; porque, apreciando-o bem, mesmo aqueles que não partilhavam de suas opiniões filosóficas eram forçados a render homenagem à sua boa-fé e ao seu completo desinteresse.

        Seus críticos, que dele não conheceram senão a sua bandeira, procuraram perdê-lo na opinião pública, sem ao menos investigarem se os boatos que espalhavam tinham algum fundamento; porém, ele susteve a sua bandeira tão alto e tão firme, que nenhum descrédito pôde atingi-lo, e a lama com que o queriam cobrir, não enlameou senão as mãos dos panfletários.
       
        Caro mestre, nobre e grande Espírito, paira, na tua majestade, sobre aqueles que te amam e respeitam! Não os deixes sem a tua intervenção caridosa e protetora! Comunica à alma deles o fogo sagrado que te anima, e assim, profundamente convencidos dos imortais princípios que professaste, marchem eles nas tuas pegadas, imitando-te as virtudes! Faze reinar entre nós a concórdia, o amor e a paz, a fim de que a ti nos possamos reunir quando a hora da libertação soar igualmente para nós!

        Recebei, etc.

            Al. Delanne

(Traduzida da obra, editada em 1870 - Paris, Librairie Spirite, Rue de Lille, 7
-, "Discours prononcés pour I'anniversaire de Ia mort de Allan Kardec
 - Inauguration du Monument", pp. 17/24.)


…..

Traços físicos e morais de Allan Kardec

            Ana Blackwell, que conheceu de perto Allan Kardec, cujas obras fundamentais traduziu para a língua inglesa, deixou para a posteridade essa página referente ao Codificador:

            Allan Kardec era de estatura meã. Robusto, cabeça ampla, redonda, firme, com feições bem pronunciadas e olhos pardo-claros, mais parecia alemão que francês. Era ativo e tenaz, mas de temperamento calmo, precavido e realista até quase à frieza, cético por natureza e por educação, argumentador lógico e preciso, e eminentemente prático em suas ideias e ações; distanciado assim do misticismo que do entusiasmo... Ponderado, lento no falar, sem afetação, com inegável dignidade, resultante da seriedade e da honestidade, traços distintivos de seu caráter. Sem procurar discussões nem a elas fugir, mas nunca provocando qualquer comentário a respeito do assunto a que consagrara sua vida, recebia amavelmente os numerosos visitantes que acorriam de todas as partes do mundo para conversar com ele a respeito das ideias de que era o mais autorizado expoente, respondendo às consultas e às objeções, resolvendo dificuldades, e dando informações a todos os investigadores sérios, com os quais falava franca e animadamente. Em algumas ocasiões apresentava fisionomia radiante, com um sorriso agradável e prazenteiro, se bem que, por causa da sobriedade do seu todo, jamais o viram rir.

          Entre os milhares de visitantes, encontravam-se pessoas de alto nível no mundo social, literário, artístico e científico. O imperador Napoleão IlI, cujo interesse pelos fenômenos espíritas não era nenhum segredo, mandou chama-lo várias vezes, e com ele manteve longas palestras, nas Tulherias, acerca das doutrinas expostas em «O Livro dos Espíritos".


            (Traduzido das págs. 169-70 de The History of Spiritism vol, II, da autoria de Arthur Conan Doyle.)