Translate

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Problema Insolúvel sem Roustaing



Problema insolúvel
sem Roustaing

            Já nos brindou com três excelentes volumes a nossa jovem colega "Estudos Psíquicos Editora", enriquecendo e embelezando a biblioteca espírita na "última flor do Lácio inculta e bela"; "Resumo da Doutrina Espírita", de Gustavo Geley, traduzida pelo nosso confrade Isidoro Duarte Santos; "Nos Umbrais do Além" de' Sir William Barrett, traduzido pelo mesmo confrade, e "Luz no Caminho", ainda desse operoso e culto homem de letras.

            Este último volume, de 346 páginas, lindamente impresso, é uma série de estudos evangélicos em oitenta e dois capítulos que merecem atenta meditação de todo cristão. Não pretendemos tratar aqui de todos os ensinos que colhemos dessa obra, o que seria tarefa demasiado longa e acima das nossas forças e do espaço de que podemos dispor. Vamos somente analisar uma dificuldade que o ilustre Autor teve que enfrentar e que o lançou fora da Escola Kardeciana, nos braços de Emmanuel Swedenborg.

            No capítulo 73º o Autor trata da Ressurreição e diz: “J. B. Roustaing resolve o caso com a hipótese do corpo fluídico, tão amplamente apresentada no seu livro "Os Quatro Evangelhos" e que nos abstemos de analisar, para não lançar confusão e dúvida no ânimo do leitor".

            A fim de evitar a confusão no leitor ignorante que não possa decidir por si mesmo se os ensinos de Roustaing estão certos ou errados o nosso brilhante doutrinador foge dessa obra monumental e refugia-se em Du Ciel et de l'Enfer de Emmanuel Swedenborg, dizendo textualmente;

            “Quanto ao resto, a ressurreição de Jesus foi igual à ressurreição de todos os espíritos  que têm vindo à Terra. A morte é a ressurreição. O corpo baixa à sepultura para alimento de vermes e de plantas e se transforma em pó. O espírito evola-se no espaço infinito, sua verdadeira morada, onde continua seu progresso individual.

            “Ressuscitar é volver à vida. Jesus volveu à vida espiritual, abandonando o mundo físico, aonde baixou para dar exemplos de fraternidade e bondade, de amor e renúncia".

            Depois conclui o capítulo:

            “Acreditamos na ressurreição dos mortos segundo o ponto de vista aqui apresentado isto é, na ressurreição do espírito. Os mortos somos nós, enquanto estivermos neste planeta de provação e expiação, em que as virtudes cristãs são a única bagagem que nos acompanhará na eternidade".

            Receando confusão, o Autor fugiu da única explicação lógica e nos lançou contra a Doutrina espírita de Kardec e Roustaing, na mais terrível confusão, pois que a Doutrina-de Swedenborg, que ele nos apresenta, já está refutada pelos Espíritos e por todos os escritores espíritas.

            Kardec ensina que ressurreição é a reencarnação, o reaparecimento num corpo de carne e ossos:

            “A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome doe ressurreição... " Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. (“O Evangelho segundo o Espiritismo", cap. VI, § 4)

            Para conhecimento da Doutrina espírita sobre o sentido da palavra ressurreição, convém ler-se todo o capítulo quarto de "O Evangelho segundo o Espiritismo". É justamente o contrário da doutrina de Swedenborg esposada no livro do nosso confrade Isidoro Duarte Santos: para Kardec ressurreição é reencarnação; para Swedenborg e Isidoro Duarte Santos ressurreição é desencarnação. '

            Querendo evitar confusão para o leitor, o nosso brilhante confrade lusitano lançou-o na mais tremenda das confusões, negando um princípio de Doutrina ensinado por Allan Kardec e aceito por todos os estudiosos e fazendo-nos voltar à nevoenta doutrina de Emmanuel Swedenborg, já abandonada por obscura, há mais de cem anos.

            O velho dogma da ressurreição, ensinado pelos judeus, aceito pelos católicos romanos, pelos gregos ortodoxos e pelos protestantes, é explicado pelos espíritas como sinônimo de reencarnação e não de desencarnação, como pretendeu Swedenborg e agora nos diz o ilustre Autor lisboeta.

            Quanto ao caso especial da ressurreição de Jesus, com o mesmo corpo, comendo e bebendo depois da morte, existe perfeita concordância entre os relatos dos evangelistas e as explicações dadas pelos Espíritos a Roustaing e não temos outra explicação satisfatória: temos necessidade de aceitar a explicação de Revelação da Revelação por falta de outra. Esta "revelação", de que Jesus foi um agênere e não um Espírito encarnado, projeta luz em muitos textos evangélicos que não podem ser compreendidos sem essa "hipótese": nascimento sem união sexual, desaparecimentos inexplicáveis de Jesus, desaparecimento do "cadáver" no túmulo; reaparecimento em corpo de aparência inteiramente material. Portanto, não há meios de evitar a obra de Roustaing, desde que se queira realmente estudar o Evangelho. Ao espírita "científico" que se contenta com os fenômenos, não interessa o estudo do Evangelho; mas ao "religioso" que queira ensinar Evangelho, como é o caso no livro Luz no Caminho, a aceitação da obra de Roustaing se impõe, sob pena de lançar o leitor na mais tremenda confusão.

            Não se depreenda do que vimos dizendo que o livro seja um repositório de erros doutrinários. Muito ao contrário: é um livro excelente, projeta muita luz sobre o caminho, está redigido com apuro, revisão perfeita, apresentação elegante. É obra que deve figurar em todas as bibliotecas de estudiosos da Doutrina. Nossa finalidade, ao apresentarmos esse desvio é muito diferente de depreciar uma obra que faz honra ao Autor; queremos somente defender a obra de Roustaing, demonstrar que sem a Revelação da Revelação o espírita não pode estudar o Evangelho, porque há pontos que só em Roustaing ficaram explicados.

            O livro do nosso confrade de além mar é de muita edificação moral e devemos aconselhar-lhe o estudo a todos os nossos irmãos de Doutrina. Isidoro Duarte Santos é Autor de pulso, sobejamente conhecido e apreciado não só no mundo de fala lusitana, mas também entre os castelhanos, porque colabora nas revistas espíritas do mundo espanhol. Antigo Diretor da Revista de Espiritismo e depois Diretor de Estudos Psíquicos,  fundador e Diretor da Estudos Psíquicos Editora, Isidoro Duarte Santos é um dos nomes mais conhecidos e apreciados nas letras espíritas, cujos escritos merecem nosso máximo respeito.

por LINO TELES / Ismael gomes Braga
Reformador (FEB)  Fev 1948



Um comentário:

  1. Muito interessante essa observação sobre ressurreição e reencarnação e não ressurreição e desencarnação.
    Aproveito para divulgar meu livro "Estudo comparativo entre a obra de Roustaing e as obras de Allan Kardec". O endereço eletrônico é:
    https://www.clubedeautores.com.br/book/201900--Estudo_comparativo_entre_a_obra_de_Roustaing_e_as_obras_de_Allan_Kardec?topic=religiao#.Wam4zWe5dhg

    ResponderExcluir