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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Contemporâneos de Kardec





Contemporâneos de
 Kardec

            Nos dias de Kardec houve muitos pensadores espíritas que escreveram livros doutrinários, mas nenhum deles chegou até nós por meio de reedições em França. Todos passaram de moda e desapareceram com o tempo. O único autor daquele tempo que ainda é lido hoje em França, não o é como espírita kardeciano, e sim como cientista; referimo-nos a Camille Flammarion.

            No Brasil se conservou direta e indiretamente um kardeciano da primeira hora que foi João Batista Roustaing. Diretamente, porque sua obra tem amigos, cujo número aumenta lentamente, e, indiretamente, porque foram escritos outros livros de apoio a Roustaing. Vemos aqui na estante: "Elucidações Evangélicas", "Divina Epopeia", "Jesus nem Deus nem Homem", "A Personalidade de Jesus", "Irmãos de Jesus", "O Livro de Tobias" com a mesma doutrina de "Os Quatro Evangelhos", isto é, a Doutrina kardeciana integral acrescida da teoria de que Jesus foi um Agênere.

            Ninguém pode negar que Roustaing seja kardeciano, porque de fato o mestre Kardec o declarou, ao afirmar que a Doutrina apresentada por Roustaing estava de pleno acordo com os seus livros então já publicados, só havendo a discutir-se a teoria sobre o corpo de Jesus, para a qual dever-se-ia aguardar confirmação. Nada mais prudente nem mais justo da parte do Mestre.  Até aí Kardec foi o grande inspirado, mas não tinha ele o dogma da infalibilidade papal que naqueles dias não existia, nem para o Papa, e escreveu um artigo contra o Docetismo que ressurgia na obra de Roustaing e com este artigo deu a palavra aos seus discípulos para campanhas de consequências imprevistas e que realmente tiveram a mais funesta das consequências: mataram em França a gloriosa obra de Kardec.

            Não puderam prever que atacando uma obra mediúnica séria, da mesma natureza dos livros de Kardec e tão respeitável como qualquer destes, os projéteis viriam em ricochete ferir toda a literatura do Codificador. A própria fonte da Terceira Revelação era posta em dúvida. Negava-se fé a um trabalho mediúnico monumental, da mesma Escola reencarnacionista fundada por Allan Kardec, e a queda dessa obra não poderia ocorrer sem infirmar toda a Codificação. São decorridos oitenta anos. Os "vencedores" contra a obra de Roustaing haviam minado inconscientemente .suas próprias construções; haviam feito o jogo astucioso dos inimigos da Doutrina: Divide ut imperes.

            A fé se enfraqueceu. Surgiram as intermináveis discussões "científicas" e apareceu o Metapsiquismo. Era uma nova escola contra a Codificação. Voltava-se ao período pré-kardeciano para verificar de novo todos os fenômenos sobre os quais Kardec fundara seu glorioso edifício e isso equivalia a declarar nula e sem efeito a obra de Kardec. A pouco e pouco foram saindo de circulação os livros de Kardec; a Federação Espírita Francesa foi-se debilitando; Jean Meyer deu ainda um forte impulso nas edições e conservou por mais um decênio os livros de Kardec no mercado, empregando para isso sua fortuna particular, mas não encontrou continuador: sua obra desapareceu com ele, porque sua vida já era artificial.     

            Os espíritas debandaram: Uns se tornaram teosofistas, outros entraram para partidos políticos e passaram a empregar seu idealismo em campanhas sociais.

            Onde está hoje em França a obra de Allan Kardec?

            Adormecida ou morta?

            Para nós, "morte" é justamente o desaparecimento temporário para ressurgir, mais tarde, melhorado. Isso se dará um dia, não sabemos quando, mas sabemos que mais de meio século de atraso já é triste realidade e que a França perdeu sua gloriosa posição de líder do movimento espírita reencarnacionista.

            Kardec e seus fervorosos discípulos não puderam prever as consequências lógicas de repelirem uma grande obra que deveriam ter incorporado à literatura recomendável, por ser da mesma natureza e ter a mesma fonte dos livros do Mestre. Ainda hoje, infelizmente, há pessoas que não entendem o problema e insistem no mesmo erro de 1866, isto é, colocam-se a serviço dos inimigos invisíveis do Espiritismo, numa paixão violenta de demolição. Divinizam Kardec e lhe conferem o título da Infabilidade Papal, na aparência externa, mas lhe vão minando a obra com a mesma astúcia dos invisíveis que orientaram os franceses. É fácil perceber-se o espírito que os anima, com as suas próprias palavras, porque de fato eles nada fazem ou jamais fizeram pela divulgação das obras de Kardec. São incapazes de qualquer obra construtiva; sua finalidade é demolir. Lançam dúvida sobre os "Evangelhos", acusam aereamente os antigos copistas de haverem interpolado nas Escrituras os textos que não se poderiam entender sem a "Revelação da Revelação", injuriam a maior instituição espírita kardeciana do planeta e procuram diminuir-lhe o prestígio, Sempre o espírito de demolição e nunca o de construção os anima...

            A Providência Divina, porém, não permite tanta amplitude ao livre arbítrio das trevas e não permitiu que no mundo todo fosse trilhado o caminho errado que sepultou o Espiritismo em França e em outros países. Coube a meia dúzia de Espíritos prepostos, encarnados no Brasil no século passado, a gloriosa tarefa de conservar e eternizar a Codificação Kardeciana, defendendo para isso como parte integrante da Terceira Revelação a obra de Roustaing. Assim incorporado o livro de Roustaing aos de Kardec, como "obras fundamentais" do Espiritismo, e defendido sempre este ponto de vista durante mais de sessenta anos contra todos os ataques emboscados dos inimigos da Doutrina, a Codificação prosperou, cresceu, frutificou em todo o território nacional e hoje está eternizada a obra de Allan Kardec.

            Vemos pelo crescimento das repetidas edições dos livros do Mestre em língua portuguesa e pelos frutos de amor que o Espiritismo vai produzindo, em toda a imensidade do território brasileiro, que coube ao Brasil a gloriosa missão de salvar a Codificação e restituí-la mais tarde ao mundo, quando os tempos forem chegados. Neste sentido de recomeçar a divulgação das obras de Kardec no mundo, a nossa Federação já deu os primeiros passos e está recebendo todo o auxílio do Alto. Já estão iniciadas as edições de Kardec em irrepreensíveis traduções em Esperanto.

            Todos os esforços dos inimigos de Kardec em França foram inúteis, nada conseguiram contra o Espiritismo, mas a obra dos "amigos" e contemporâneos, com raríssimas exceções, realizou o trabalho de demolição que até hoje tentam fazer no Brasil.

            Basta ler com atenção os escritos deles para se descobrir a tática oculta, cuja finalidade é destruir o movimento espírita. Essa tática consiste no seguinte: Negam autoridade à Bíblia e aos médiuns mais respeitáveis e dizem que só Kardec merece fé; dizem-se defensores de Kardec e do Espiritismo contra tudo e contra todos: contra as Escrituras e contra os médiuns. Examinando-se um pouco mais profundamente essa "defesa" da obra de Kardec, verifica-se que ela é uma grande astúcia; porque todo o edifício kardeciano se assenta sobre aquelas duas bases que eles minam: as Escrituras e a Mediunidade; portanto é o próprio Kardec que eles combatem à socapa e isso fica confirmado pelo fato de jamais haverem eles, ou algum deles, contribuído para a divulgação dos livros de Kardec ou realizado alguma obra espírita que contribua para engrandecimento da Doutrina. Toda a sua atividade consiste em combater, negar, lançar a dúvida, dividir a família espírita, enfraquecer a fé, espalhar a confusão, atacar injuriosamente a maior instituição espírita do mundo, a que mais contribui para divulgar as obras de Kardec. '

            Que Deus conserve de futuro a mesma firmeza que a Federação manteve até agora e, um dia, a Codificação Kardeciana voltará a brilhar no mundo todo, realizando sua grande missão.

Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)




Reformador (FEB) Setembro 1947



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