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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Grande Diferença




A Grande
 Diferença

            Os Espíritos nos ensinam que o Espiritismo não veio destruir o Cristianismo, assim como este não destruiu, mas, antes, confirmou a Lei de Moisés. Isso é verdade, porque, no Evangelho e na Lei recebida na Sinai, estão princípios eternos de vida espiritual que jamais serão destruídos, e já temos boas provas dessa indestrutibilidade nas múltiplas tentativas feitas pelo homem de abolir as crenças espiritualistas e voltar ao materialismo pagão.

            Diz-se mais, que o Espiritismo vem restaurar o Cristianismo primitivo em toda a sua pureza, e isso, espiritualmente é verdade, mas, historicamente, seria falsa a asserção, porque o progresso não anda para trás. Há grande diferença evolutiva entre o Cristianismo primitivo e o Espiritismo, e seria erro pensar literalmente que essa restauração será o regresso à vida poética e simples dos pescadores da Galileia, pobres, andrajosos, sublimes em sua fé que transportava montanhas, com lugar reservado no céu para depois da morte.

            A ideia central do Cristianismo é religiosa e tem por finalidade que o indivíduo salve sua alma, numa única vida, deixando o mundo pecador e mau perecer ou continuar como quiser a sua vida até ao Dia do Juízo Final; induzindo, ainda, a fugir-se do mundo como de um dos inimigos da alma.

            Quem pensa hoje que temos de contramarchar para imitar a Jesus e seguir lhe as pegadas, desprezando os instrumentos modernos de serviço, porque ele não os empregou, irá chegar às seguintes conclusões lógicas: não podemos calçar sapatos, nem ir de bonde para o lugar da pregação, nem escrever, imprimir, irradiar a palavra que temos de divulgar, porque nada disso fez o nosso Divino Modelo.

            O que está sendo restaurado é o espírito não o corpo material do Cristianismo; é a força central e eterna, o amor, e não o culto exterior. A Primeira Revelação estabeleceu a Lei, a Segunda confirmou e exemplificou a Lei e a Terceira, presidida como as anteriores pelo Cristo, permanente e progressiva, fará infinitos desdobramentos na Lei.

            O Espiritismo é o cumprimento da promessa:

                        "O Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar tudo que vos tenho dito". - (João, 14:26) .


            Ao "ensinar todas as coisas" já ele nos revelou que todo o progresso é de ordem divina, que Deus envia Seus Missionários para nos guiar, mesmo nas coisas materiais, nas descobertas da técnica e da ciência, nos meios de produzir abundância e bem-estar materiais. Mesmo este órgão, em seu primeiro ano de vida, publicou a célebre comunicação de Montgolfier, anunciando a descida ao planeta do Enviado que nos ensinaria a aviação.

            Ficamos sabendo que os Missionários do Pai vêm à Terra para nos ensinar, não somente a salvação individual por meio da religião, mas também os meios de salvar o mundo e fazê-lo elevar-se na hierarquia planetária. À estreita e egoística ideia de cada um salvar apenas sua própria alma, contrapõe o Espiritismo a ideia grandiosa de salvação universal e nos mostra que teremos de voltar tantas vezes quantas forem necessárias para efetuar a salvação do mundo.

            Em vez de supor-se que o mundo é o inimigo da alma e que a riqueza é a perdição, o Espiritismo nos demonstra que o mundo é a escola amiga da alma e a riqueza é perigosa prova dada por Deus ao homem, para prestar serviços; prova perigosa, "porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico no reino do céu", mas ainda assim necessária e que o homem não pode evitar como missão, quando ela lhe for apresentada. Os cristãos ainda fazem o voto de acordo com o ensino, que diz: "Se queres ser perfeito, vai vender tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem seguir-me". (Mateus 19-21). No tempo e lugar em que a riqueza só servia como instrumento de opressão, porque o rico era o senhor de escravos, esse ensino era sublime; mas se o rico industrial de hoje desmontasse suas máquinas e as vendesse como ferro velho e distribuísse o dinheiro pelos pobres, para evitar uma fonte de riqueza, teria falhado a sua missão, seria um criminoso, porque teria posto a salvação de sua alma acima da missão de prestar serviços à Humanidade, livrando-a de privações, produzindo a abundância. Alguns dias mais tarde os pobres teriam consumido o dinheiro e a fonte de produção estaria extinta, a oficina de trabalho teria desaparecido.

            O Espiritismo nos esclarece que cada ser vivo está cumprindo sua missão e que estas variam ao infinito, não se limitam ao culto, à salvação da alma, mas, em seu conjunto, a cumprir os altos Desígnios de Deus para a salvação universal.

            A maioria dos homens está cumprindo inconscientemente sua missão, e pequena minoria tem consciência de suas tarefas. Uns e outros podem falhar e ter que recomeçar, mas um dia terão feito a obra a que foram destinados.

            Imaginemos que, para cumprir à letra o ensinamento e imitar a Jesus, o nosso caro Francisco Cândido Xavier se limitasse a transmitir aos cinco ou seis frequentadores do Grupo Espírita "Luiz Gonzaga" os ensinos que recebe e não os enviasse para serem impressos e distribuídos, sob a alegação de que Jesus nunca publicou livros. É evidente que aqueles poucos frequentadores viriam a transmitir os ensinos a uma pequena roda e como tradição tais ensinos se espalhariam de boca em boca, sempre alterados por falhas da memória, e daqui a meio século alguém registaria essas lendas nas quais uns creriam e outros não. Mas esta hipótese é muito fantasiosa, porque sem meios de se aproveitarem seus trabalhos, Emmanuel e seus grandes Colaboradores não desceriam às trevas da Terra.

            Outra hipótese absurda: Para imitar os primeiros cristãos, a nossa Federação venderia suas máquinas tipográficas, seus livros, seu prédio, e com o produto dessa venda levantaria um hospital como aquele que Pedro construiu. A cidade teria mais um hospital pobre, mas todo o país teria deixado de receber a palavra que a Federação foi encarregada de transmitir.

            Vamos traçar a grande diferença: A Primeira Revelação foi recebida em algumas horas; a Segunda foi pregada durante três anos; a Terceira será pregada pelos milênios em fora. A primeira alcançou um pequeno povo reunido em volta de um monte; a segunda foi levada a diversos povos vizinhos; a terceira nasce e vive simultaneamente em todos os pontos do planeta.

            A primeira revelou que os descendentes de Israel tinham uma missão; a segunda estendeu essa missão aos gentios; a terceira demonstra que todos os homens são instrumentos de Deus com missões definidas.

            A primeira foi vaga quanto à vida espiritual; a segunda fixou a noção de vida eterna; a terceira demonstra que já estamos dentro dessa vida eterna e dela não poderemos sair.

            A primeira foi racista; a segunda foi humana; a terceira é universal.

            O Espiritismo nos ensina que todos os Espíritos do Universo formam a família dos filhos de Deus, todos solidários entre si, apesar das diversas idades e graus de progresso. É a Revelação universal e eterna.

            A Nova Revelação sai dos limites eclesiásticos e mostra o serviço de Deus no templo, na oficina, no campo, no laboratório, nos transportes, na escola, transformando todas as modalidades de serviço em sacerdócio único que adora a Deus numa variedade infinita de modos de servir aos Seus filhos. Isso é o puro Cristianismo, "porque o maior será o que mais servir aos outros", mas de modo algum o regresso à vida primitiva dos primeiros discípulos. Desprezar os instrumentos postos por Deus em nossas mãos para prestarmos mais serviços e voltarmos, se isso fosse possível, ao trabalho manual de pouco rendimento, sob pretexto de que o Senhor não empregou nossas máquinas de produção, seria um absurdo. Vemos alguns fanáticos do naturismo ou da religião abandonarem o mundo e viverem misantropicamente, como se vivia no tempo de Jesus, mas sabemos que eles estão perdendo uma encarnação; porque tinham o dever de produzir para os seus irmãos e só produzem para si mesmos; ficam devendo à Humanidade e terão que voltar ao cumprimento do dever, apesar de sua convicção de santidade.

            Em conclusão, só o espírito do Cristianismo é eterno; as formas de empregar esse espírito são progressivas e mutáveis.


Redação
Reformador (FEB) Abril 1946



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