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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

7. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz


7
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


O PADRE


            Segundo afirmativa do Catolicismo a sua “Ordem” dá ministros à igreja, a quem Deus conferiu os poderes de converter a hóstia no corpo de Cristo e perdoar os pecados, quando lhes aprouver.

            Isto foi exarado na escritura católica e propalado na época medieval, cujas inteligências aceitavam o disparate dos homens escolherem entre si os que deviam receber de Deus a autoridade e o poder dos seus atributos.

            Estribada nesta presunção, a seita romana, vem atravessando os séculos, sem que ninguém procure esmerilhar a razão de serem concedidas a seus ministros as prerrogativas divinas. E, quando se pede a um católico uma explicação sensata desse e de outros erros, não raro é ouvi-lo dizer, entre a espada e a parede: - Ora, quando eu nasci, foi essa a religião que encontrei...

            Com isso, fica o argumento encerrado e a igreja continua a se manter cercada de um tal ambiente retrógrado, sem fé, sem raciocínio e sem convicção.

            Esse desapego à investigação, deu causa a que o sacerdote fosse considerado um ente com o privilégio da parcialidade celeste. Daí, a confiança ilimitada que lhe dedicam os que vão até ao desvario de levar ao conhecimento do seu vigário, todos os atos praticados ou a praticar, desde os mais comezinhos aos de maior importância, inclusive os de natureza íntima.

            Por esse meio, o sacerdote penetra na vida privada da maioria dos seus fiéis, constituindo-se consultor e conselheiro indispensável de muitos lares, dos quais se torna frequentador assíduo, provocando, às vezes, a propagação, em surdina, de atos duvidosos e desagradáveis à sociedade.

            Elevado, assim, ao píncaro da consideração, supõe-se senhor da confiança alheia, assume ares de autoridade absoluta e dessa atitude, não há raciocínio, nem evidência que o destrone.

            No entanto, o que é o padre? Será um ser impoluto , um santo secretário do Criador, revestido dos plenos poderes divinos para enviar ao seio do Onipotente os escolhidos pela sua igreja?

            Será um ente sobrenatural, ante o qual a credulidade fanática se deva prostrar, pelo pavor das penas infernais?

            Porventura, se poderá crer, ainda hoje, que o padre pode condenar ou absolver alguém? Não vêem que condenar é negar Deus e absolver é substituí-lo?          

            Não. Já é tempo de ventilar o cheiro de incenso que narcotiza o cérebro; desatar o trapo de batina que asfixia a razão; e ofuscar o brilho fictício dos templos suntuosos, que obscurece as retinas. As crenças incoerentes só são admitidas pelos que permanecem ainda na mediocridade intelectual, aceitando cegamente o dogmatismo insensato imposto em perfeita contradição com o cristianismo.

            Essa metamorfose tem de se realizar, fatalmente, embora não se possa ainda precisar-lhe, a época; contudo não está longe o advento intelectual que revelará o padre em toda a sua irrisória jactância de representante de Cristo.

            Vestindo a batina, para se distinguir do povo, o padre, desse modo, age em frisante contraste com o Cristo que nunca se distinguiu pela roupa, porque vestia igual a toda a gente da sua época.

            Na pretensão de se comparar ao Divino Mestre, usa,  igualmente, coroa, mas simbólica, apenas, representada pela tonsura circular na cabeça, porque a de espinhos lhe magoaria a epiderme, e isso de sacrifício de verdade é só com o Cristo...

            Conserva-se também celibatário para, no entanto, constituir família clandestina, e nesse estado, livre de encargos e responsabilidade, atravessa uma existência inativa, infrutífera e inútil, esquecendo-se de que um dia prestará contas de como empregou a sua vida na terra.

            Cercado de beatos e aduladores, é impelido aos páramos do orgulho e da vaidade, onde se sente perfeitamente aclimatado. Sua principal preocupação é incutir no cérebro frágil das crianças o terror de Deus, a quem eles só conhecem na qualidade de vingador acérrimo e intransigente, que manda arremessar às labaredas do inferno os que não vão à igreja, não fazem comunhão e não estudam o catecismo.

            Desse modo, as crianças crescem, tornam-se adultos e a família se constitui dominada por essa crença absurda; a veneração pelo padre vai a ponto de, mesmo quando moças ou senhoras não sentirem a inconveniência que há em depor beijos nas mãos de um homem estranho.

            Tira o padre o seu meio de vida dos batizados, casamentos e missas fúnebres. Dado o seu interesse mercantil, não é fora de lógica que se o veja esfregar as mãos de contente, quando aumentam tais recursos seja como for, até mesmo com a morte do nosso próximo.

            Posto que estes sacramentos sejam inúteis e contraproducentes, o sacerdote faz deles um comércio; prometendo transportar as almas ao Céu, por preço reduzido, além das verônicas, bentinhos, gravuras de santos e outras quinquilharias que mercadeja a preços de liquidação.

            Todavia, é justo confessar que o padre faz também alguma coisa, grátis, por exemplo: Amaldiçoa todos quantos propalam a verdade; excomunga quem não lhe dá interesse; manda para o inferno os que não são católicos, mormente, os espíritas.

            Ora, bem sabemos que uma crença enraizada é bastante difícil de se modificar, porém o bom senso nos manda encarar a fé com a razão para discernirmos o bom do mau e a verdade da mentira.

            Feito isso, facílimo será chegar-se à conclusão de que os católicos adotem um credo sem se darem ao trabalho de investigá-lo e, assim, física e moralmente, vivem agrilhoados à indolência, uns pelo orgulho, outros pelo interesse, e a maioria por praxe recreativa, sentindo-se lisonjeados com as exortações dos interessados em manter a cegueira e o atraso humanos.

            Apertados, assim, num círculo estreito, acham-se incapazes de compreender outra coisa que não sejam as futilidades dogmáticas extraídas do Evangelho, segundo a letra, pelos que não têm capacidade de fazê-lo segundo o espírito.

            Deste modo, se tornam inimigos gratuitos da Luz, da Verdade e da Ciência que os envolvem, convidando-os ao exame e incitando-os ao progresso.

            Mas, felizmente, não será sempre assim, porque, pouco a pouco, se irão destacando inteligências mais ou menos desenvolvidas, que compreenderão o presente e o futuro menos materiais e se convencerão de que Deus não pode nem deve ser adorado como ensina a igreja papal.

            Aconselhamos, por isso, aos iludidos a se orientarem nos fatos e provas recolhidas pela história, ante os quais, se surpreenderão horrorizados. Há de lhes assaltar o espírito as barbáries praticadas pelos salvadores de almas que se dizem cristãos ao serviço de Deus, d'Ele usurpando a infalibilidade para, com isso, provocarem a rebelião e a carnificina. Ficarão sabendo que esta religião se impôs com um fuzil na destra e um catecismo na sinistra, sob a condição do -crê ou morre-; como, religiosamente, desapossavam pais de família dos seus bens terrestres, com promessas ou ameaças do Céu; como empregavam o nome de Deus no massacre e extermínio de irmãos; como fizeram da religião um arranjo, deturpando o Evangelho, com Deus nos lábios e o interesse no coração; e muitos outros delitos que se não podem enumerar aqui.

            Quem não conhecerá, ao menos, a história das guerras religiosas?

            Nos ”autos de fé espanhóis", por exemplo, quem, senão os sacerdotes do catolicismo, impeliu os homens a se matarem uns aos outros, persuadidos de que suas mãos assassinas eram consagradas a Deus?

            Quais foram os instigadores na matança de “S. Bartolomeu”?  Não foram os ministros servos do Senhor?

            O móvel de tais carnificinas foi, ao menos por ignorância, fanatismo, ou desejo de se elevarem perante Deus? Não, mas, tão somente, a ambição do poder para dominarem o mundo.

            Façamos ponto. Falta-nos espaço para reproduzir aqui, os episódios tétricos dos tempos das cruzadas em que os representantes da igreja saciaram a sua ardente sede de sangue.

            Mas, sendo a leitura sempre fastidiosa a quem julga que a ilustração não vale a perda de algumas horas, lembramos atentar no que se passa presentemente, mesmo à nossa vista.

            Que observamos nos dédalos da religiosidade apostólica?

            Vemos os caridosos ministros de Deus embolsarem o dinheiro, muitas vezes esmolado de porta em porta e umedecido pelas lágrimas das viúvas e dos órfãos; vêmo-los que atacam a reputação individual ou de uma doutrina dentro do seu próprio templo, aplaudidos pelos carolas e beatos da sacristia; apoderaram-se do Céu para presenteá-lo aos seus filiados que lhes dão pingues proveitos e, até apesar da alardeada castidade, serem encontrados em certos lares a que levam o adultério, onde alguns tem sido assassinados em flagrante.

            Diante destas provas analisadas e inconfundíveis, os que aceitarem a utilidade dos padres, não poderão fugir à evidência de que vivem iludidos, a menos que queiram laborar de má fé, fechando os olhos, para não ver.

            Contudo, permitam-nos algumas perguntas inocentes, mas necessárias:

            Se, catequizados pelos pastores católicos e absortos na beatitude e na intransigência dos dogmas, todos os homens se tomassem padres; não é verdade que esse estado celibatário geral provocaria a extinção da espécie humana?  

            A Terra ficando habitada somente pelos irracionais, continuadores, só eles, da Lei da procriação, não seria a prova de que seriam mais racionais do que nós?

            Objetar-se-á, e com razão, que a “Ordem eclesiástica” se oporia a tal resolução, visto que, dada essa praticabilidade, seria absurdo o demasiado numero de ministros de Deus.

            Mas respondemos: A “Ordem” poderia evitar de recebê-los, mas não evitaria que eles imitassem o procedimento dos padres e, nesse caso, o que seria das Artes, das Ciências e, enfim, de todas as profissões cujo trabalho constitui o Progresso? Até a Natureza, trabalhadora incansável de todos os instantes, seria preciso mandar: para!

            Dir-se-á, ainda, que todos se afeiçoariam a esse novo estado de coisas, visto que, então, não necessitaríamos do progresso, segundo a própria igreja o afirma.

            Bom de dizer-se será: mas antes que tivéssemos tempo de nos afeiçoar ao novo estado, a morte nos ganharia a todos.

            Semelhante ideia, felizmente, é abstrata e impraticável, porque a melhor parte da humanidade acode célere aos silvos das máquinas, ao fumo dos transatlânticos, à fertilidade dos campos e ao apelo das ciências, enquanto que o clero romano, prefere imitar a catalepsia do irmão de Marta, da Betânia, e, assim, permanecer sentado no “marco da estrada”, até que um novo Cristo lhe venha grifar aos ouvidos!

            “Lázaro, levanta-te e caminha!”
















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