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terça-feira, 20 de novembro de 2012

66. "Doutrina e Prática do Espiritismo" por Leopoldo Cirne



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            Consoante os subsídios fornecidos pela paleontologia, (1), cujas afirmações e hipóteses são baseadas no estudo dos fósseis encontrados nas sucessivas camadas geológicas, o aparecimento dos seres organizados em nosso mundo, obedecendo a uma crescente progressão dos mais rudimentares aos mais aperfeiçoados, pode ser assim reconstituído, a partir da época primária, para esse efeito de classificação subdivide em cinco outras épocas, ou períodos, de acordo com as principais camadas do terreno que lhes corresponde:

            Excluída a camada mais antiga, denominada terreno hurônio (?) ou laurentino, em que a ausência de fosseis apreciáveis sugere dúvidas quanto à existência de seres nesse período, já no imediato, ou terreno câmbrico, se encontraram fosseis vegetais, como o eófiton (?), ou "planta aurora," e criptógamos como os musgos, cogumelos e fetos. Entre os fosseis animais, aparecem vestígios de vermes, esponjas, polipeiros e encrinas (?), animais com a forma de flores e por fim, crustáceos trilobitas (animais com pernas articuladas que viviam no fundo dos oceanos há aprox..600 milhões de anos.)

            (1) Os dados de que nos utilizamos daqui em diante são extraídos, em resumo, do excelente livro do Dr. Gustave Geley, LES PREUVES DU TRANSFORMISME" págs. 190 a 201.

            Na terceira camada, ou terreno diluviano, a flora se acha representada por umas 1.500 espécies de algas, fucos (algas marinhas) e licopódios terrestres (criptógamo vascular conhecido pelo nome vulgar de pé-de-lobo. É uma planta rasteira, muito difundida no Brasil), e a fauna por inumerável quantidade não só de encrinas e polipeiros, como de moluscos, animais moles à semelhança do caracol, do polvo e da ostra, de enormes dimensões, e vermes bastante evoluídos (tunicíferos ou casulários), que já apresentam com os vertebrados a similitude de possuir um rudimento de coluna vertebral.

            A camada imediata, ou terreno devoniano, apresenta a mesma flora e fauna sensivelmente desenvolvidas, com o acréscimo do aparecimento de peixes cartilaginosos, isto é, cujas vértebras e espinhais eram dessa natureza, sendo considerável o número de esturjões e tubarões. Outros eram revestidos de escamas ósseas, verdadeira couraça completa ou parcial, recordando a dos crustáceos, e havendo ainda alguns peixes, considerados ascendentes dos batráquios, munidos de guelras e pulmões, podendo assim viver simultaneamente na água e ao ar livre.

            Da camada superior, formada pelo terreno permo-carbonífero, já nos ocupamos incidentemente, ao referir a formação das minas de carvão de pedra, pela decomposição dos gigantescos vegetais em seu seio sepultados. Nesse terreno a fauna é, sobretudo, caracterizada pelo aparecimento dos insetos, dos aracnídeos (como as aranhas), dos miriápodes, que quer dizer providos de mil pés, e dos primeiros batráquios e répteis, pertencentes já, portanto, à ordem dos vertebrados .

            A sucessão dos fósseis, em sumaria, na época primária, se caracteriza, quanto à flora, pela transição das algas primitivas às arvores colossais do terreno carbonífero, e no que respeita á fauna, pela passagem das primitivas formas, dos protozoários, aos diversos zoófitos (animais com a forma de plantas), aos vermes, moluscos, crustáceos, insetos e os primeiros vertebrados (peixes, répteis, batráquios).

            Subindo na escala e penetrando nas camadas correspondentes à época secundária, não encontraremos no terreno triássico (triássico é um período geológico que se estende desde cerca de 250 a 200 Ma (milhões de anos atrás). É o primeiro período da Era Mesozóica e fica entre o Permiano e Jurássico. O início e o fim do período são marcados por eventos de extinção em massa.), essencialmente calcário, que constitui a primeira camada, particularidades características, a não ser o desaparecimento da gigantesca vegetação peculiar ao terreno carbonífero. Mas os répteis adquirem sobre todas as espécies animais uma preponderância, que se afirma até ao fim da época secundária, e que permite considera-la particularmente a época dos repteis.

            É assim que na camada imediata, ou terreno jurássico, se verifica terem atingido os animais daquela espécie o máximo desenvolvimento, revestindo formas variadas e monstruosas, de que os principais representantes tantos são o ictiossauro, o plesiossauro e o labirintodonte, espécie de crocodilos de 10 a 20 metros de comprimento, todos marinhos e munidos de possantes barbatanas.

            Entre os repteis terrestres figuram o megalossauro, o iguanodonte, ainda mais compridos; e o atlantossauro, animal monstruoso, o mais desmesurado que jamais viveu na terra e media de 30 a 40 metros de comprimento.

            Um dos mais curiosos répteis desse período é o pterodátilo, verdadeiro monstro voador, pois que podia elevar-se ao ar, graças a uma membrana interdigital de que era dotado, análoga à dos morcegos atuais.

            Nesse período viviam já numerosas tartarugas e apareceu o primeiro pássaro, metade réptil, metade pássaro, a que foi dado o nome de arqueópterix. Nas camadas superiores são, de resto, numerosos os pássaros, semelhantes a répteis e, ainda, munidos de dentes, e aparecem os primeiros mamíferos, tais como os monotremos e os marsupiais, aqueles assim denominados por terem um único orifício de excreção em que iam ter o tubo digestivo e os aparelhos urinário e genital, sendo por isso os mais inferiores dos mamíferos. Os peixes ósseos são representados por numerosas espécies, e pululam os insetos; mas já na camada superior da época secundária, ou terreno cretáceo, é evidente a diminuição dos répteis. Aparecem também, no que respeita à flora, os vegetais superiores, classificados como mono cotiledones.

            A época terciária, em que as diferenças climatéricas se acentuam e os continentes adquirem os contornos e relevos que atualmente ainda conservam, pode ser considerada a dos mamíferos.

            Desaparecidas as espécies animais que tiveram o seu apogeu no período anterior ou foram transformadas e substituídas pelas atuais de conformação mais delicada, encontram-se na primeira, camada, ou eocena, os marsupiais, já mencionados, mamíferos superiores aos monotremos, mas inferiores aos outros representantes dessa espécie, e, em seguida mamíferos intermediários entre aqueles e os superiores, ditos placentários, em cujo número se encontram: insetívoros, como as toupeiras e os ouriços; os primeiros paquidermes, tais como o paleotório; os primeiros antepassados do cavalo, ou corifodontes, munidos de cinco dedos em cada pata, como todos os mamíferos; intermediários entre os insetívoros e os lemurianos, ou primeiros macacos inferiores; e finalmente os lemurianos, diferentes do macaco em terem mamas peitorais e ventrais e possuírem uma cabeça semelhante à da raposa.

            Na camada seguinte, ou terreno mioceno, encontram-Se numerosos carnívoros possantes, como o tigre e o leão,  paquidermes, como os gigantescos mastodontes, ascendentes do elefante, entre os quais se destaca o dinotério, o maior de todos os mamíferos, com um crânio de 1 metro e 30 de comprimento por um metro de largura. Vêm depois os primeiros ruminantes, gazelas, antílopes, e os desdentados, como os tamanduás, os tatús e as preguiças, e por fim, os macacos de todos os tamanhos e os primeiros macacos antropomorfos, isto é, com os característicos gerais aproximativos dos do homem.

            No terreno superior, ou plioceno, as formas das diferentes espécies de mamíferos se aproximam muitíssimo dos atuais, já entre os carnívoros se notando ursos, gatos, hienas e tigres; entre os paquidermes, o rinoceronte, o javali e um tipo de transição entre o mastodonte e o elefante, o elephas meridionalis, da altura de 4 metros, na cernelha; entre os ruminantes, o boi, o veado, o carneiro e a cabra. Encontram-se também numerosos cetáceos, como as baleias, e finalmente grande número de macacos antropomorfos, entre os quais foi recentemente descoberto um tipo que se presume de transição entre o macaco antropomorfo e o homem e ao qual foi dado o nome de pitecantropo (1).

            (1) A indicação desse tipo intermediário havia sido feita por Dubois, mediante quatro peças anatômicas – uma calota craniana, dois molares e um fêmur - encontradas entre os restos fósseis de uma fauna anterior ao período quaternário, graças as quais se acreditou possível reconstituir o mencionado tipo como o de um indivíduo de 1 metro e 65 de altura, de andar bípede e tendo o crânio com uma capacidade muito superior ao dos antropoides, mas inferior ao das raças humanas. Mas foi somente em 1891 que na ilha de Java foi descoberta a ossada de um fóssil que, por seus caracteres, se supõe ser o pitecantropo de Dubois.

            A época ou idade quaternária, que é a atual, dividida em pré-histórica e histórica, e cujo início remonta a um mínimo de cem mil anos, é desde o começo caracterizada pelo aparecimento do homem. Sua fauna é a mesma dos nossos dias, exceto nos primeiros períodos, em que se encontra ainda um certo número de gigantescas espécies, posteriormente desaparecidas, como o mamute, o urso das cavernas, o veado megacero, cujos chifres mediam 5 metros de extensão, o auroques (touro selvagem, antepassado do boi), o megatério, de 5 metros de comprimento, etc.

            Que seria o homem desses primitivos tempos? Pouco mais que um animal, vivendo no estado de natureza, inteiramente coberto de pelos e habitando em grutas e cavernas como troglodita, verdadeiro selvagem, exposto a todas as hostilidades e ingratidões do meio e, todavia, atestando a sua superioridade sobre todos os outros animais pela capacidade de iniciativa, de que deixou evidentes vestígios desde o começo de sua passagem pela Terra.

            É assim que no primeiro período daquela época, ou período paleolítico, o seu trabalho inteligente, posto que rudimentaríssimo, é atestado numa indústria absolutamente primitiva, como a do corte da pedra, ao começo grosseira e em seguida mais aperfeiçoada. O único utensílio, empregado em vários misteres, foi, durante séculos, um sílex aguçado em ponta ou talhado em gume, como uma espécie de machado, a poder de lascas sucessivas.

            Mais tarde, a partir do período caracterizado pela extensão das geleiras em grande parte da Europa central, em que assim se acentuou a fase glaciária, já se encontram utensílios de osso e de pedra, mas muito mais bem trabalhados, consistindo em raspadeiras, furadores, serras e buris. Os principais utensílios de osso eram zagaias, arpões, agulhas, punhais, botões e apitos. Em seguida aparecem os primeiros rudimentos de adornos artísticos em osso, de preferência figuras de animais, e objetos de enfeite (conchas e pulseiras).

            No período imediato, ou neolítico, em que o clima é semelhante ao que atualmente desfrutamos, o progresso visivelmente se acentua e os instrumentos são fabricados, não já de pedra tosca e em lascas, mas polida de vários e aperfeiçoados feitios, como machados, tesouras e escopros, algumas vezes com cabo de madeira. Encontra-se também a louça de barro cosido ao fogo, e são evidentes os sinais de que a esse tempo o homem tinha a, seu cargo, animais domésticos como o cão, o porco, o boi e o cavalo, cultivava o trigo, a cevada, o centeio e fabricava o pão. Já então vestia-se ele de linho, fiado e tecido, e, como rudimentos de arquitetura, construía suas casas com blocos de pedras talhadas e ajustadas.

            Datam dessa época também os monumentos megalíticos conhecidos pelo nome de cromlech (pedras colocadas em circulo), de túmulos e de dólmen (bloco sobre duas pedras verticais). É de crer que a medicina e a cirurgia já então fossem exercidas, a julgar pelas cicatrizes de trepanação verificadas em crânios encontrados e pertencentes a essa época.

            O fim do período neolítico é caracterizado por novos e consideráveis progressos, que lhe outorgam a denominação de "idade do bronze", tendo sido a indústria da pedra substituída pela dos metais. São também contemporâneas dessa época as cidades lacustres, com suas casas edificadas sobre estacas, das quais ainda se encontram restos em alguns lagos da Europa.

            Os homens deviam ser então muito evoluídos, como o atestam os numerosos fragmentos encontrados de sua indústria, consistindo sobretudo os objetos de bronze em machados, facas, espadas, flechas, foices, alfinetes, agulhas, anzóis, pulseiras e outros objetos de adorno.

            As construções de madeira provam o grande desenvolvimento adquirido pela indústria de carpinteiro, do mesmo modo que os objetos de uso doméstico, de caça, de pesca e de combate indicam uma civilização relativamente adiantada.

            Em seguida ao neolítico, principia o período histórico, assinalado por um imenso e ininterrupto progresso em seu conjunto, não obstante os retrocessos parciais e transitórios, que não passam contudo de acidentes na marcha ascensional que vem efetuando o homem, rumo de seus altíssimos destinos.

            Detenhamo-nos, entretanto, aqui, a considerar o caminho percorrido.





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