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sábado, 24 de novembro de 2012

6. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz




6
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


O PAPA E SUA INFALIBILIDADE


            Dediquemos, agora, um pouco da nossa atenção à supremacia desse personagem que a ambição de mando e de poderio colocou à altura de um quarto Deus. E foi, precisamente esse o propósito, visto que, para estabelecer a confusão na ingenuidade dos fiéis, deram-lhe o nome de Santo Padre e a Deus, o de Padre Santo. Confessamos, todavia, não atinar com a causa do qualificativo mudar de lugar, se a ideia é a mesma.

            Mas quem poderá coibir a pretensão do orgulhoso? Basta que nos reportemos ao Evangelho onde se acha a exclusão “de chefes ou mestres” feita pelo Cristo, quando recomendou aos seus apóstolos que não reinassem nem exercessem senhorio.

            Ao contrário disso, a Igreja Católica organizou uma escala hierárquica desde o papa até ao simples padre misseiro de qualquer capelinha.

            E assim, persuadidos de que Jesus se tivesse enganado, nem só o desobedeceram. como ainda fizeram S. Pedro papa, contra a vontade de ambos.

            Para que pudesse, no entanto, prevalecer a necessidade da existência do papa e sua respectiva infalibilidade, seria preciso que a igreja romana destruísse toda a Escritura Sagrada e a própria história do Catolicismo, porque são eles os mais ferozes e rancorosos documentos desmentidores da sua afirmativa, como vamos provar:

            Desde que se deseje ter “olhos para ver” verifica-se no Evangelho e na história, que S. Pedro nunca foi papa, o que torna inexata a sucessão proclamada pelos santos padres romanos.

            Quando Cristo prometeu tronos a todos os seus apóstolos, não elevou Pedro além dos outros, quando os enviou para pregarem o Evangelho do reino do Céu, deu a todos igualmente, os mesmos poderes, sem fazer distinção de Pedro.

            Nunca Jesus falou em papa nem tão pouco conferiu a Pedro esse título, o que prova, evidentemente, a inexistência do papado nessa época e, portanto, a sua inutilidade.

            Quando Pedro foi, com João, enviado à Samaria para difundir a doutrina do Cristo, certamente não o fez na qualidade de papa sem o que seria disparate supor-se o papa submetido às ordens de seus subordinados.

            Percorrendo-se toda a história dos quatro primeiros séculos do Catolicismo, nenhum vestígio se encontra de que Pedro fosse papa nem da sucessão deste Apóstolo por outro vigário de Cristo, ou a sanção da existência do papado.

            Paulo, em todas as suas Epístolas, João e Tiago em todos os seus escritos, nenhuma referência fazem ao papado: Lucas, o historiador dos Apóstolos, abstém-se, igualmente, de qualquer alusão a esse respeito.

            O próprio Pedro nunca agiu na qualidade de papa, quer quando pregou o seu primeiro sermão no dia de Pentecostes, quer no Concilio de Jerusalém sob a direção de Tiago, quer, ainda, em todas as suas Epístolas dirigidas às Igrejas. Será razoável admitir que ele fosse papa inconscientemente?

            Do mesmo modo, Pedro nunca esteve (1), nem nunca celebrou missa em Roma, onde se supõe ter sido crucificado de cabeça para baixo. A própria história desfaz tal suposição, considerando-a simples lenda.

(1) Do Blog: A presença de Pedro em Roma foi confirmada por Emmanuel em ‘Paulo e Estevão’ (pág 645 da 44ª Ed FEB), conforme trecho abaixo, fato que não invalida o raciocínio do autor do livro:

“‘Às vésperas da partida em busca da gentilidade espanhola, eis que o Apóstolo recebe uma carta comovente de Simão Pedro. O ex pescador de Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua próxima chegada à cidade imperial. A missiva era afetuosa e enternecedora, cheia de confidências amargas e tristes. Pedro confiava ao amigo suas derradeiras desilusões na Ásia e mostrava se lhe vivamente interessado pelo que lhe sucedera em Roma. Ignorando que o ex rabino fora restituído à liberdade, procurava confortá-lo fraternalmente. Também ele, Simão, deliberara exilar-se junto dos irmãos da metrópole imperial, esperando ser útil ao amigo, em quaisquer circunstâncias.... “

            Os anais do primeiro século do Catolicismo são um atestado pujante de que o papado, além de inútil, não é também uma instituição divina e, isso vamos depreender das opiniões dos patriarcas exaradas naqueles documentos.

            No sexto Concílio de Cartago, presidido por Aurélio, foi negado o título de “Príncipe dos Bispos” (Papa) para não ser admitida a soberania entre eles; e Celestino, bispo de Roma, foi censurado pelos bispos de África por se ter colocado em plano superior aos demais, enviando comissários a esse mesmo Concilio.

            Santo Agostinho nega a supremacia emprestada aos bispos da nova Roma e os padres do Concílio de Calcedônia equipararam todos os bispos na mesma categoria dos da Roma antiga.

            No seu Prelágio 2º,  S. Gregório I qualifica o “Bispo Universal” (Papa): de “rei dos orgulhosos” e considera esse titulo um descrédito para o de “Patriarca”, porque as ambições suscitadas por ele, acarretariam desgraças entre os sacerdotes.

            Fica provado, pois, seguramente, que Pedro nunca foi papa porque, além de Jesus nunca ter outorgado a esse Apóstolo maior poder que aos outros, estes, por seu turno, jamais consideraram Pedro vigário de Cristo e infalível doutor da igreja. Da mesma forma, os bispos de Roma, a principio, não foram reconhecidos papas, nem os Concílios dessa época lhes deram o poder e a jurisdição para tal fim.

            Quanto à celebre infalibilidade pretendida, basta virar mais uma página da história para vermos as provas de como faliram muitos papas que têm governado uma parte da humanidade inconsciente.

            Ei-las:

            O papa MarceIino apostatou por haver entrado no templo de Vesta e oferecido incenso a essa deusa do Paganismo e João XXII foi deposto pelo Concilio de Constança, por ter negado a imortalidade da alma.

            Honório passou-se para o Monoteísmo e Libório para o Arianismo, depois de ter permitido a condenação de Atanásio por crime equivalente. 

            Bonifácio III, conseguiu de um Imperador parricida, o título de “Bispo Universal” e Gregório I cognominava de “Anti-Cristão” a quem aceitava esse mesmo título.

            Julio II e Pio IV proibiram os duelos, enquanto que Paschoal II e Eugenio III os autorizaram.

            No ano 872, Adriano II validou o casamento civil e em 1825, Pio II o condenou.
Paulo III assentiu em admitir a “Campanhia de Jesus” que havia sido abolida por Clemente XIV e restabelecida por Pio VII. Ainda esse mesmo Pio VII excomungou uma edição da Bíblia que Xisto V publicou recomendando a sua leitura.

            O segundo Concílio de Calcedônia condenou Virgílio por haver comprado o papado de Belisário e seis séculos depois, Eugênio III foi repreendido por S. Bernardo por ter feito o mesmo que Virgílio.

            Estevão XI foi envenenado depois de ter exumado o corpo do papa Formoso e mandado atirá-lo ao rio Tibre, após haver-lhe cortado os dedos.

            O Cardeal Barônio assevera que as altas cortesãs se apossavam dos bispados para vendê-los ou troca-los e faziam papas os seus próprios amantes.

            João XII foi eleito papa aos dezoito anos e teve por antecessor um filho do papa Sergio com uma favorita e quanto a Alexandre VI, fala-nos a história das relações incestuosas que mantinha com sua filha Lucrécia.

            No Concilio de 1870, o bispo Strossmayer teve a insólita hombridade de dizer perante o próprio Pio IX, a quem se ia decretar a infalibilidade que, ele mesmo, Pio IX acabava de falir, revogando tudo quanto se havia feito em contrário ao determinado, inclusive as decisões dos seus antecessores; que a decretação da infalibilidade estendendo-se aos papas anteriores, equivalia a igualar Deus a todos os incestuosos, avaros, homicidas e simoníacos bispos de Roma, e que a Igreja nunca havia sido mais bela, mais pura e mais santa que nos tempos em que não tinha papas.

            Estas, porém, são provas ignoradas ainda por aqueles que não perdem tempo em pesquisar a história. Está, entretanto, no conhecimento de todos, por ser um caso frequentemente debatido, a gravíssima falibilidade papal demonstrada com a canonização de Joanna d' Arc.

            É este um fato que, por si só, bastaria para produzir o desmoronamento do Catolicismo, se a inteligência humana já estivesse mais apurada.

            Joanna d' Arc, a Donzela de Domremy, encarnou na Terra com a missão especial de proteger a França contra a Inglaterra e possuía todos os predicados mediúnicos.

            Espírito muito elevado, escolheu o corpo feminino talvez para suscetibilizar a moral dos homens que não souberam cumprir o seu dever.

            Liberta a pátria e reposto o rei, devido a seu denodado e assombroso heroísmo na chefia do exército francês, quis a igreja de Roma chamar a si aquele inigualável serviço prestado à Gália e, assim foi Joanna d'Arc aprisionada e submetida ao tribunal do clero, onde, insistentemente e sob ameaças de inquisição, os bispos lhe exigiram a confissão de que ela havia salvo a França, agindo em nome e por conta da religião.

            Honrando, porém, a dignidade de seu caráter impoluto, recusou-se Joanna a tão degradante submissão, respondendo que agira por inspiração dos seus protetores astrais e em nome da Igreja de Deus, única a que obedecia.

            Isto lhe valeu a mais torpe e injusta das condenações e a 30 de Maio de 1431 foi, por ordem do papa, queimada viva, na praça pública, a Donzela de Domremy.

            Diz-nos a história, que os soldados gauleses, então, também a serviço da religião romana, viram, do montão de cinzas do “Anjo da França”, voar uma pomba branca em direção ao Céu.

            E assim, consumou a igreja de Roma, por inspiração do Espírito Santo, mais um nefando crime para servir a seu Deus!

            Se a “Libertadora da França” se houvesse submetido aos bispos, seria considerada uma inspirada pelo Espírito Santo, para servir a igreja; recusando, como fez, era uma feiticeira que agia sob os impulsos de suas visões diabólicas...

            Pois bem, agora, decorridos 488 anos, (1) a igreja de Roma retratou-se e o papa proclamou o mais retumbante desmentido à sua infalibilidade, com a canonização de Joanna d'Arc, colocando, assim, nos altares de sua igreja, a imagem daquela a quem outro papa mandou queimar como inspirada de Satanás.

            (1) Joanna d'Arc foi canonizada em 1919.

            Ó Joanna, Espírito sublime do Senhor, ilumine, com os teus raios fulgentes, a consciência dos nossos irmãos que ainda vivem submetidos ao jugo dos teus algozes!

            Mas basta. Estes ligeiros indícios, ínfima partícula das mil iniquidades papalinas, parecem suficientes demais para convencer a boa razão de que os papas erraram desde a sua primitividade e no erro perseveram até os nossos dias. 

            A insistente afirmativa de serem eles sucessores de S. Pedro, cai fulminada ante a cabal demonstração de que tal Apóstolo nunca foi papa e nem se arrogou ou lhe arrogaram jamais o título de infalível.

            Do mesmo modo não podem constituir predicados de infalibilidade as heresias dos que conquistaram a tiara pelo poder do ouro ou por influência de cortesãs, nem as contradições dos atos negados antes e afirmados depois, aprovados num dia para serem condenados no outro.

            Tanta desorientação leva a confessar que o papa não é, nem jamais será infalível, porque está sujeito ao erro comum a qualquer ser humano; e errando o papa, erra, consequentemente, a sua igreja que, por seu turno, arrasta ao erro todos os que nela militam. Nem pode deixar de assim ser pois Infalível só é Deus.

            Vai, pois, a igreja dos papas de queda em queda e, cada vez mais, se afunda no abismo, onde se sumirá, finalmente, legando aos pósteros uma tradição dolorosa do atraso em que manteve, por tantos séculos, essa humanidade tão digna de melhor sorte.



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