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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

4. "À Luz da Razão" por Fran Muniz


4
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924

JESUS


            Ninguém poderá negar à igreja o profundo conhecimento que deve ter das leis pregadas pelo Cristo. Ora, ou ela acredita que as palavras evangélicas foram ditadas por Ele, ou não acredita nelas e, então, repele o Mestre.

            Não crer, seria a revelação da mais requintada hipocrisia, lançada sobre os católicos que, nesse caso, vem, há dezenove séculos, supondo a igreja ao serviço do Redentor; se, porém, acredita, porque não cumpre fielmente o verbo divino, uma vez que tem a pretensão de ser a representante de Cristo?

            Quem não quer ser cego pelo simples prazer de fechar os olhos. disponha-se a ler o Evangelho, onde encontrará inúmeras afirmativas do Mestre, confessando-se filho de Deus e por ele enviado em missão a este planeta.

            Tais elucidações estão documentadas nos capítulos de “Mateus” - “Marcos” –“Lucas” e “João”, em linguagem expressiva e categórica, tal como se vê nestas frases, por exemplo:

            “Não procuro fazer a minha vontade mas sim vontade daquele que me enviou” - “a palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim de meu Pai que me enviou” - “não vim de moto próprio, mas foi meu Pai que me enviou” - “Porque me chamais bom? Só Deus é bom”-“Não falo por mim, porém, meu Pai que me enviou é quem me prescreve o que devo dizer” - “minha doutrina não é minha, mas sim daquele que me enviou”- “digo só o que vi na casa de meu Pai” - “por mim nada faço, mas digo o que meu Pai me ensinou” - “Meu pai, se é possível, afaste de mim este cálice!” - “Meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito” – “subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus", etc, etc.

            Ora, se tais palavras estão ao alcance de todo o mundo, como quer a igreja “ser mais realista do que o próprio rei”, insistindo, imprudentemente, em dar-lhes sentido oposto para afirmar que Jesus é Deus?

            Além disso, se aquelas afirmativas do Mestre não bastassem, apelaríamos para as consciências que não tem vacilações em aceitar Deus com todos os atributos elevados ao infinito e perguntaríamos:

            É possível conceber que Deus descesse da sua magnitude, para vir à Terra sofrer as injúrias de ser chicoteado, cuspido, esbofeteado e assassinado por essa torpe, ignorante e miserável criatura que é o homem?

            Certamente, nenhuma razão humana aceitará semelhante despautério.
           
            Todavia, a congregação religiosa de Roma, impelida pelas conveniências próprias ou pela inconsciência, aceita esse disparate e ainda o impõe aos ingênuos que o aplaudem.

            A monstruosidade desse erro deu lugar às primeiras desconfianças de seus dogmas, porque não é possível a nenhum homem sensato e criterioso, admitir esta alusão de Diderot, quando disse: “Deus matou Deus para apaziguar Deus”.

            Causa verdadeira lástima ver os doutores da igreja ignorarem por completo o Chefe a quem representam e de quem receberam plena autoridade, inclusive a de lhe comerem o corpo e de lhe beberem o sangue.

            A genealogia de Jesus, do mesmo modo que todos os seus ensinamentos, está exarada no Evangelho, segundo o “espírito da letra” ao alcance de quem se proponha ao trabalho de estuda-la. (1) Por isso nos abstemos de aprofundar nela aqui, visto que teriamos de nos reportar a um princípio muito remoto, o que redundaria em extensos esclarecimentos para a devida compreensão dos leigos.

            (1) Ver ”Os Quatro Evangelhos”, explicados em espírito e verdade e coordenados por J. B. ROUSTAING.

            Apenas adiantaremos que Jesus apareceu na Terra com um corpo visível e tangível, porém fluídico e de natureza perispirítica.

            Esta asserção acarretará, bem o sabemos, a confusão e mesmo o cepticismo aos que nada mais conhecem além da matéria comum que vem e apalpam; nada, porém, há nisso de estranhável, porque vemos, ainda hoje, pessoas que não compreendem o giro da terra, ficando a gente de cabeça para baixo sem se despencar no vácuo.

            Lembramos, no entanto, que, quando se não conhece um assunto qualquer, deve-se verificar a sua origem para discuti-lo depois com alguma base. Isso, além de prudente, revela o critério e a sensatez de quem a tal se propõe.

            É certo que o estudo depende de uma vontade hercúlea e os que negligenciam do saber sentem-se bem na ignorância, contanto que se julguem autorizados a afirmar ou negar aquilo que sua capacidade não lhes permite abranger.

            Apesar disso, uma parte estudiosa está presentemente convencida de que Jesus chegou ao estado de pureza imaculada em que permanece depois de ter passado também pela totalidade das fases a que são submetidos todos os filhos do Criador que a nenhum concede privilégios, porque não é parcial. E, assim, Jesus alcançou o elevadíssimo grau de perfeição, merecendo a confiança de ser escolhido por Deus para presidir à formação do nosso mundo e governa-lo depois.

            Cristo, portanto, não tinha necessidade de vir à Terra senão em missão, como enviado do Pai e, por isso, era mister tomar a forma humanizada a fim de falar aos homens uma linguagem compreensível, numa époce em que tudo precisava ser materializado.

            Jesus, em suma, não tem genealogia humana porque o seu nascimento se perde nos dédalos da Eternidade.

            A resposta (quando lhe disseram que sua mãe e seus irmãos o procuravam) é um atestado negativo e inconfundível do nascimento material que lhe atribuem.

            “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Todo aquele que fizer a vontade a meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”

            Outra prova exuberante ainda se encontra na recomendação que fez a Maria, referindo-se a João:

            “Mulher, eis aí o teu filho”. E a João: “Eis aí a tua mãe”.

            Nestas frases, Jesus estabeleceu um profundo ensinamento, preparando as gerações vindouras para a clarividência de sua genealogia, tão erroneamente interpretada pelas religiões obsoletas. Vemos que ele não disse: - Mãe, eis aí o teu filho, mas sim: - “Mulher, eis aí o teu filho.”

            Assim, Jesus demonstrou, veladamente, ser João tão filho de Maria quanto ele, Jesus, o era e ipso-facto Maria era tanto mãe de João como de Jesus; com isso, revelou mais uma vez, a necessidade de existir o amor idêntico ao maternal e filial, não só entre Maria e João, mas também entre todos os nossos irmãos, visto ser esse o amor que Deus quer entre seus filhos.

            Jesus que é o Amor, a Justiça e a Verdade personificados, porque não proferiu esse nome sublime - MÃE - quando no seu último estágio da vida terrestre se dirigiu a Maria?

            Seria, porventura, esse procedimento uma falta oriunda da ingratidão tão comum aos filhos da terra?

            Não. Mil vezes não! Jesus era e é o Amor, a Bondade e a Pureza!

            Raciocinemos, pois, que Maria, apesar de ter passado por sua progenitora, o que se tornava necessário naquela época, não o era de fato e, por consequência, ele mentiria, se assim afirmasse; mas Jesus não podia mentir.

            Para corroborar essa convicção falou ele, ainda, por este modo decisivo:

            “Em verdade, entre todos os filhos nascidos de mulher, nenhum há maior que João Baptista”.

            Ante tais palavras se torna evidente que ou João era superior a Jesus ou Jesus não era nascido de mulher.

            Raciocinando com madureza, temos que aceitar como definitiva a segunda proposição; mesmo os cérebros mais doentios, impregnados de sacramentos e obscurecidos pelos dogmas romanos serão incapazes de refutar semelhante evidencia.

            Assim, pois, fica bem patente que Maria não deu à luz Jesus e, portanto, ficou sempre virgem e intacta: e o nascimento aparente de Cristo está explicado e aceito sem o milagre ou mistério que são palavras de sentido oco.

            A falta de noção sobre os fenômenos das leis da natureza, hoje conhecidos por experiências científicas e comprovadas por grande número de capacidades intelectuais deu causa a que Jesus fosse considerado o próprio Deus e, desse modo lhe deram o segundo lugar na Trindade misteriosa.  

            Esta distinção, iníqua e intolerável, degenerou numa ofensa a ambos, visto que diminuíram Deus e emprestaram a Cristo um título de poderio absoluto com o qual ele, certamente não se conforma; mas sendo essa afronta a Deus, assacada pelos homens, ela se torna tão pequenina que chega mesmo a desaparecer e, por consequência, perde toda a importância.

            De sorte que a opinião absurda da existência de Deus-homem ou Homem-deus, em nada, absolutamente, modificará o Nazareno, Mestre e Governador do nosso planeta.

            O essencial é termos a certeza de sua existência como o Fanal das nossas consciências, o Exemplo vivificante para nos conduzir na vida e o Espelho cristalino onde se reflete a estrada luminosa que havemos de trilhar, através o infinito, em busca da perfeição e da eterna felicidade.






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