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sábado, 17 de novembro de 2012

37. (e final) O Protestantismo e o Espiritismo" de Benedito A. da Fonseca

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37
“O Protestantismo
e o Espiritismo”
                                                                                                                                         
por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941


CAPITULO X


Si m bac vita tantum m Ohri8to
sperante sumus, miserabiliores 'su-
mus omnwus hominibus.
(Corííntios, XV: 19).

            Na Escritura, em vários lugares, há muitos versículos que concordam e explicam o versículo acima, da vulgata; são aqueles já citados nesta obra:        

             - "Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá - Chega a hora em que os mortos ouvirão a voz do filho do homem e os que a ouvirem viverão;

             Porque, para isso foi pregado o Evangelho também aos mortos, para que na verdade fossem julgados segundo os homens na carne, porém, vivessem segundo Deus em Espírito", etc.         

            Ora, estes versículos e muitos outros iguais, disseminados em o Novo Testamento, são suficientes para confirmar a doutrina dos Espíritos, que ensina a pregação do Evangelho aos mortos que não tiveram a ventura de o ouvir nesta vida terrena e podem ouvi-lo mesmo depois de sua partida deste mundo.

           Deus nunca fecha a porta ao arrependimento, e todos os mortos que se arrependerem, em virtude da pregação que ouvirem, serão salvos por Cristo, também na outra vida.

            A parábola do filho pródigo é um exemplo frisante desta verdade ensinada pelo próprio Cristo: O filho perdido que estava afastado do Pai, arrependeu-se e voltou para a casa paterna; o Pai o recebeu e abraçou; pôs lhe um anel no dedo e organizou um festim de regozijo pela sua volta. Isto compreendido, analisado e provado, não dá lugar a dúvidas no pensamento do crente, porque a justiça e a misericórdia do Pai se estendem a vivos e mortos.

            No mundo dos Espíritos estão todos os entes que viveram na terra; lá, porém, eles estão de certo modo, em melhores condições de aceitar o Evangelho, quando doutrinados com paciência e amor, demonstrando se lhes o itinerário errado que percorreram nesta vida e que em consequência desses mesmos erros é que ainda continuam sofrendo na vida do espaço. Suas obras os seguiram e colocaram na situação em que se encontram.

            A maioria da humanidade não se importa com o que há de ser, quando o Senhor chamá-la a contas. Há os embaraços materiais, a necessidade de procurar os meios de vida; a luta contra os obstáculos que se antepõem às conquistas da liberdade e da independência, que todos procuram sem cessar, e por isso, a maioria é que busca algo relativo à existência futura. Assim que, o espaço está povoado dessa imensa multidão que morre todos os dias, em toda a parte do mundo, às vezes em massa, em guerras e calamitosas epidemias sempre ocorrentes. Todas essas almas desencarnadas, desembaraçadas das dificuldades da vida material, são torcidas que fumegam; (1) não serão apagadas. " basta haver alguém que as sopre, a fumaça que delas se desprende se transformará em viva chama, e terão oportunidade de ouvir a verdade: as palavras do Cristo, as quais se chegarão como à fonte de água viva, com a qual se desalterarão da sede que as devora.

             Na outra vida, não tendo mais necessidade de adquirir alimento e vestes para um corpo já inexistente, as almas ou Espíritos só terão necessidade de aliviar a sua carga, e esta só pode ser alijada de seus ombros na ocasião em que o véu lhes for tirado, em virtude do Evangelho que poderão ouvir e compreender o que aqui não sentiam necessidade de procurar, por lho impedirem as preocupações materiais.

            Infelizmente, os sacerdotes e ministros das religiões supondo que o Espiritismo é coisa muito má, o combatem e perseguem sem saber que estão cavando um abismo que os atrai infalivelmente. Quando passarem desta a outra vida, terão caído no abismo que eles mesmos cavaram, e lá sentirão necessidade das orações dos espíritas. Somente os espíritas poderão, em nome de Jesus, dar-lhe alívio e tira-los da situação penosa em que se acharem.

                        Sim! Somente os espíritas, porque os protestantes negam as orações pelos mortos; os padres católicos dizem missa pelas almas, mas essas missas são vendidas por dinheiro, e as rezas pagas não servem de refrigério aos Espíritos sofredores. (1) Isaias XLII: 3,

            Jesus Cristo, o Mestre que presidiu à formação deste sistema planetário; que é o seu diretor e protetor, o Chefe supremo de todos os povos da terra e do espaço, está atualmente multiplicando o número dos centros espiritas em toda parte, e até nos insignificantes recantos do globo.

            E os trabalhos desses centros são dirigidos por ele mesmo, a fim de que o seu Evangelho de salvação seja pregado em Espírito e em Verdade para salvação de vivos e mortos, porque já chegou a ocasião predita por Ele: "Chegará a hora em que os mortos ouvirão a voz do filho do homem" e não é como pensam os protestantes: "evangelho de condenação para os que morreram sem arrependimento", porque a este versículo se segue outro: "e os que a ouvirem, viverão".

            "O arrependimento só é permitido por Deus, nesta vida, antes de morrer; depois, porém, será tarde. O indivíduo que. não aceitou o Evangelho, estará irremediavelmente perdido e não haverá remissão depois da morte".

            Estas palavras me foram ditas pelo Revmo. Costa, o pastor que, de tempos em tempos desembarca nesta estação e anda de casa em casa convidando gente para ouvir-lhe os sermões. Em discussão que entabulamos, ele me disse essa e outras conclusões que o protestantismo tira da Escritura e com as quais fanatiza os fracos de imposições.

            Um homem, protestante fervoroso, tem um filho a quem muito ama, porém, que não é protestante e não professa nenhuma religião; não tem incentivo para crer e não sente nenhuma necessidade de arrependimento. Sucede que morre o pai e vai para o céu, visto que era protestante, (os protestantes vão todos para o céu).

            Depois, morre também o filho e a alma deste vai para o inferno. O pai, vendo o filho no inferno, pede a Deus que se compadeça da alma daquele seu filho; que lhe faculte um meio de reparação das suas faltas, para que ele possa sair do sofrimento. Deus, porém, nega-lhe e diz que a, condenação do filho é irrevogável e que aquela alma terá de ficar nas mesmas condições pelo tempo infinito; que não há esperança nem rogos, nem orações de vivos e de mortos que possam remove- lo daquele tormento.

            Que desengano! Que tristeza daquele pai por ver o filho naquele miserável estado e não poder nada fazer em seu beneficio! Ele vê continuamente o filho amado no tanque de fogo! De que, pois, lhe serve o gozo do céu? Como pode ele sentir-se feliz nesse céu dos protestantes, se permanece continuamente preocupado com a situação desgraçada do filho que se contorce em dores infinitas, sem ter quem o socorra?

            O céu desse pai não é um lugar de gozo, quando o filho não pode gozar com ele; ele, sim, é que sofre moralmente com o filho, as dores do inferno! ...

            E Deus, vingativo e carrancudo, não tem misericórdia nem do pai nem do filho... Será possível que os protestantes julguem que Deus é pior que os homens e que os homens amam aos seus filhos mais que Deus às suas criaturas?

            "Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens", disse Paulo aos habitantes de Corinto (1). (I Coríntios, XV: 19).

            (1) Corinto - Cidade da Grécia, no istmo e ao fundo da baía do mesmo nome, perto do golfo de Lapanto. 4525 habitantes.

            Aquele pai a quem me referi, vendo o filho em sofrimento, lembrar-se-á das palavras de Paulo aos Coríntios: - Para seu filho ainda há esperança em Cristo, na outra vida; seu filho não ficará miserável infinitamente, e o gozo daquele pai será completo, porque, ele mesmo como o "Espirito de um justo aperfeiçoado", (Hebreus, XII: 23) irá ministrar-lhe o Evangelho, levando-o a uma sessão espírita deste mundo, ou mesmo do espaço, (2) em assembleia geral dos Espíritos evangelistas, de maneira que, tanto aqui como lá, a alma do filho poderá sair dos sofrimentos morais pelo arrependimento e mudança completa que se opera em. sua natureza íntima, pelas preces ou orações da fé, em nome de Jesus (1).

             (2) Assembleia Geral dos Espíritos, ver "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, por Humerto de Campos".

            (1) Vd. "Céu e Inferno", de Kardec - Com. de Espíritos sofredores.

            O pastor, Rvmo. Costa, não quis mais ouvir-me, deu-lhe pressa de se retirar, e contrariadíssimo disse-me que ele, quando morrer, irá diretamente para Júpiter! E eu lhe respondi: "Desde já avalio o seu desapontamento quando os olhos de sua matéria se fecharem neste mundo e o seu Espirito despertar do outro lado! Que desilusão a sua quando lá encontrar tudo completamente diverso do que supunha e afirmava sem convicção".

            Nervosamente pôs a mão no bolso e tirou um folheto com 17 páginas, medindo 10 centímetros de altura e três polegadas de largura, com os seguintes dizeres por título:

"O Espiritismo julgado pela Palavra de Deus”
Grant publíshíng House
2827 Hians St., Los Angeles
Califórnia"

            E concluiu: "Está aqui minha resposta. Aí o senhor lerá o que é o Espiritismo. Analise este folheto e depois me responda.

            Eu sou metodista e preciso estar na hora certa, onde tenho de pregar a Palavra de Deus. 0 senhor quer ir ouvi-la?"

            Aceitei o folheto e muito agradecido, respondi que não ia ouvi-lo porque também tinha um culto a celebrar com minha família, em minha casa. Depois que se retirou o reverendo, pensei comigo:

            - Este homem quer ensinar-me a palavra de Deus e nem ele mesmo sabe o que é essa palavra ..

            Desejo muito aprender o que ainda não sei e não desejo ouvir o que já milhões de vezes tenho ouvido, a saber: Teorias contestadas por absurdas e anti cientificas, refutadas já há muito tempo e rejeitadas pela razão e bom senso.

            Meus leitores julguem se preciso ouvir os sermões do Revmo. Costa, para poder ficar sabendo a doutrina cristã...

            Para responder o folhetinho da Califórnia, tem o leitor este apêndice diante dos olhos.

            Muitas destas respostas foram conservadas, quer pelos autores, quer pelos mármores. A série mais curiosa foi revelada pelas escavações do Epidauro.

            Plutarco escreveu em forma de diálogo uma obra intitulada: O FIM DOS ORACULOS. O autor, muito ligado aos velhos cultos, via com pena a decadência dos oráculos (1). Explica a sua  cessação pelo papel que neles desempenhavam os gênios ou demônios, seres intermediários entre Deus e os homens, ora, benéficos, ora maléficos, manifestando-se a presença dos demônios pelo desenvolvimento da faculdade adivinhadora ou inspiração. É a inspiração que faz falta às gerações contemporâneas de Plutarco.

            A argumentação de Plutarco perde-se as vezes em anedotas e narrativas maravilhosas. O diálogo pinta bem o estado dos espíritos cultivados no século II da nossa era, a miscelânea de curiosidades e de credulidade, o amor ao sobrenatural e a falta de crítica.

(2) O Livro ex canônico de Esdras, (IV livro, Capítulo IV: 1 e V: 20) personifica Uriel como sendo u anjo que trazia a Esdras as palavras e as revelações de Deus. 
     
(1) No romance de F. P. Escrich "O Mártir do Gólgota", diz: "Quando nasceu Jesus, os oráculos emudeceram."

(2) Et respondi ad me angelus qui missus est ad me, cui nomem Uriel. (IV Esdras, IV: 1).

            Em hebraico, a palavra Uriel significa luz de Deus, Urim, segundo outros autores é o mesmo oráculo a que davam o nome de Uriel, nome frequentemente usado pelos litúrgicos orientais. Os judeus, os rabinos e os poetas, fazem dele uma das personagens de suas lendas e ficções.

FIM DA SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE

Et ego jejunavi diebus septem ululans et plorans,
sicut mihi mandavit Uriel, angelus.

(IV Esdras, V: 20) (1).

            (1) Livros canonizados de Esdras só existem dois: o primeiro com o nome de Livro de Esdras, o segundo com o nome de Neemias. O terceiro e o quarto estão fora do cânon. Mesmo na vulgata latina, aprovada pelo papa Clemente ...., estão colocados depois do Apocalipse de São João .





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