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terça-feira, 13 de novembro de 2012

33. "O Protestantismo e o Espiritismo" por Benedito A. da Fonseca




  33
“O Protestantismo
e o Espiritismo”
                                                                                                                                         
por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941


CAPITULO VI

... Amanhã tu e teus filhos estareis comigo ...
(I Samuel, XXVIII 19)


            Ainda o caso de Saul.

            Há anos, li num desses folhetos anônimos que costumam publicar para combater o Espiritismo, um comentário da comunicação espírita obtida por Saul em Endor. Entre muitas explicações disparatadas, havia a seguinte:

            Que Saul, praticando grande ofensa a Deus em consultar aos mortos por meio de uma feiticeira, mandou Satanás um dos seus demônios falar com Saul, fingindo-se Samuel e mentindo jeitosamente, a fim de que Saul lhe ficasse pertencendo definitivamente, nem sequer conheceu a fraude e acreditou que o Espírito de Samuel era efetivamente o que se lhe apresentara. Que a prova de não ser Samuel e sim o Demônio, é o fato de ter dito ao Rei de Israel: "Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo... "

            E concluía: Que, Saul estando condenado por Deus, ia morrer e no dia seguinte estaria no inferno, junto com os diabos e não iria para o céu, onde residia Samuel. Por conseguinte, não era Samuel: era um diabo que veio em seu nome... etc.

            Ridícula conclusão!

            Hoje, (vinte e tantos anos depois) os próprios protestantes não aceitam essa explicação!

            Quem estuda (1) pela cartilha protestante, somente lendo conclusões dos senhores ministros e não tendo liberdade de examinar o reverso da medalha, procurando explicações fora dos dogmas impostos como artigos de fé, ficará mesmo fanatizado por essa ideia e terá receio, ou terror de assistir a comunicações de Espíritos. E por isso,fica talvez toda a vida terrena com as ideias embutidas nessas errôneas interpretações...

             (1) A Bíblia.

            O protestante teimoso, que não conhece ou finge desconhecer a origem divina do Espiritismo ficará desapontado quando passar desta para outra vida!

            Lá, verá completamente o contrário de tudo quanto pensava, relativamente aos ensinos do Cristo, explicados pelos Espíritos.

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            Estudemos um pouco a fim de sabermos onde estava o Espírito de Samuel e para onde devia ir o Espírito de Saul.

....................

            Jesus Cristo disse a um dos malfeitores que com Ele estavam crucificados: - "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas, XXIII: 43). São Paulo escreveu, dando conta da existência de um terceiro céu, que ele acreditava ser o paraíso, (II aos Coríntios, XII:2-3-4), lugar para onde teria de ir o criminoso arrependido.

            Nestes dois versículos vemos um fenômeno espírita de desprendimento: Um homem foi arrebatado do seu corpo carnal. O Espírito desse homem foi levado a um ponto do espaço infinito, ao lugar para onde vão os Espíritos dos bons e dos maus.

            A doutrina dos Espíritos ensina que as almas que desencarnam, apenas ficam separadas do corpo, mas não vão para lugar algum distinto ou circunscrito: a única separação que há entre elas é o adiantamento moral e a bondade e perfeição relativa de umas - e o atraso, malevolência e perversidade de outras, - o bom ou mau uso que fizeram, no mundo terrestre, do livre arbítrio que Deus concedeu a cada uma.

            Os que aprenderam do Cristo, os que puseram em prática os preceitos evangélicos; os que exercitaram a caridade e o amor do próximo em todas as suas modalidades - são luzes - são felizes e podem ir rapidamente para qualquer ponto do espaço infinito. São Espíritos leves e não têm paixões quaisquer que os prendam à Terra; se praticaram o bem e foram possuidores de todas as virtudes, continuarão a praticar o bem e as virtudes, inspirando os homens a procurar o bem, desviando-os dos maus caminhos ; continuarão a pregar o Evangelho do Cristo, aos vivos e aos mortos, isto é, aos encarnados e desencarnados que não conheceram a verdade, até que, acabando de cumprir seu tempo no espaço, vão reencarnar em mundos de aperfeiçoamento, em "novos céus onde habita a justiça".

            As almas dos maus, isto é, dos que permaneceram no erro e voluntariamente se conservaram nos maus caminhos; os que se não corrigiram dos seus vícios e não praticaram as virtudes de conformidade com os preceitos evangélicos explicados em espírito e em verdade, ao desencarnarem levam consigo as influências dos seus atos: os maus fluidos que adquiriram pelas suas obras constituem o fardo pesado que os prende à Terra; as paixões a que estão habituados, permanecem com maior intensidade, de forma a cegar lhes o entendimento. Estas almas, presas aos objetos de suas paixões, tendo no corpo astral todas as impressões dos seus sentimentos terrenos, não saem da Terra, e muitas vezes ficam no mesmo lugar onde se deu a desencarnação, de contínuo vendo somente os seus tesouros ou enxergando no teatro de seus crimes as suas vítimas, e a série de infelicidades que se seguiram, como consequências, aos sobreviventes.

            Enquanto os Espíritos felizes. voam de um a outro ponto do universo infinito, sem, encontrar obstáculos nem embaraço algum, os Espíritos infelizes estão presos à Terra, devido ao peso dos seus atos injustos e às paixões criminosas, que os impedem de ver o reino da espiritualidade (1).

             (1) S. Mateus XXIV: 51 e XXV: 30.

            A maioria dos Espíritos sofredores está envolta num espesso véu negro, que impede a visão do lugar onde se encontram. Muitas almas nem sabem que já se desprenderam do corpo terrestre, tal a sua perturbação: sofrem por se acharem na obscuridade, "trevas exteriores onde há o ranger de dentes" (2).

            (2)  Idem.

            Mas, não ficam definitivamente nessa condição. O Senhor Jesus não as deixa: Envia os evangelistas desencarnados, (Lucas, XV :4-8 e versículo 10) para lhes dizer que o inferno não é eterno, que os sofrimentos terão um fim: a condição é o arrependimento, a cessação do mal, o desprendimento das paixões terrenas e dos baixos sentimentos que da Terra levaram. A misericórdia do Pai concede-lhes a volta mediante um novo nascimento, (Salmo, LXXVIII: 33-34) e na Terra mesmo se despojarão do fardo de iniquidades que daqui tiverem levado, (Jeremias, XXIV: 6) e assim sucessivamente, até que se tornem leves, alvos e resplandecentes como a luz, também em condições de percorrer o espaço infinito, banhando-se na luz bendita do amor de Jesus, (Isaías, I: 16-18 e LV: 7).
           
...................

             Os Espíritos ignorantes e sofredores, quando abandonam o corpo material não vão para lugar algum circunscrito. Igualmente, os Espíritos felizes: O céu ou o inferno; o gozo ou o sofrimento, trazem-no em sua natureza íntima (1): - o bem ou o mal que levam para a outra vida é que constitui a sua herança. - Samuel, portanto, não veio de um céu á Terra para falar a Saul, nem Saul teria de ir para um inferno separado, distante dos outros Espíritos. A diferença de posição existia entre Saul e Samuel, no aperfeiçoamento e pureza de um e a ignorância, o atraso, a desobediência e a perversidade de outro. Nisto consistia a separação. Um poderia estar ao lado do outro no mesmo lugar; um, feliz, outro, desgraçado, como estão os Espíritos, no mundo extra material.

            (1) "Baghavad Gita"; - "Estudos filosóficos", por Max; - "O Céu e o Inferno”, por Kardec.

            O Juízo que se segue à morte (Hebreus, IX:27) são os quadros do passado na terra: Todos os atos bons ou maus, se desenrolam diante do Espírito que acaba de despertar do outro lado do véu. Ele vê nitidamente as suas obras, que a consciência aprova ou reprova, de modo que ele mesmo se condena ou absolve. Esse é o julgamento final... Não tem que esperar pelo fim do mundo, porque o mundo não se acaba. O mundo velho da ignorância e dos preconceitos; o mundo do fanatismo supersticioso; o mundo do orgulho e da presunção é que se esboroa, pelos efeitos dos raios vivificantes do sol da verdade espírita e do progresso das ciências, que já começam a minar os alicerces do velho edifício construído sobre a areia movediça dos dogmas apodrecidos, que fatalmente vai desmoronar e desaparecer como bolha de sabão! (1)

            (1) Apocalipse, XVIII; 2-3-4 e 21; XIX: 1 a 7; Obras póstumas de Kardec, pags 285-291 (2ª parte).

            As teologias protestantes estão cheias de explicações que nada explicam, explicações que não passam de hipóteses: não dizem mais do que está na Escritura e sempre dependentes de interpretações. Nada fica demonstrado positivamente, sempre fica a dúvida a adejar no pensamento dos senhores teólogos.

            O compêndio de teologia já citado nesta obra, diz na página 141:

            "O estado intermediário dos justos é em alguns lugares denominados paraíso, termo asiático para denotar os parques e jardins dos monarcas do oriente. É usado também na versão grega do Velho Testamento, falando no jardim de Éden ( Gen; II: 8), e daí veio a ser usado para designar o céu.

            Pensa-se em geral que ele representa o estado intermediário dos justos entre a morte e a ressurreição, como é a frase - seio de Abraão.

            Ora, aí está: "pensa-se em geral" - palavras que nada afirmam de positivo...

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            As palavras do Cristo ao malfeitor arrependido: "Hoje estarás comigo no paraíso", combinam com as palavras de Samuel a Saul: "Amanhã tu e teus filhos estareis comigo". Todos juntos no mundo dos Espíritos, isto é, no espaço infinito, que envolve todos os mundos e se interpenetra em tudo que é material; o que é imaterial está em toda parte: na Terra, noutros planetas, no infinito.

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            Os ministros protestantes que me estiverem lendo têm a liberdade de dizer que escrevi heresias para perverter os leitores; mas, se alguns deles tiverem a prudência de procurar nas obras do Espiritismo a solução desses problemas até então ocultos e não resolvidos pelas teologias contraditórias, estou certo de que mudarão de opinião: acharão que, para eles, dura cousa é recalcitrar contra os aguilhões (1).

            (1) Atos dos Apóstolos, IX: 5.



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