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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

32. "O Protestantismo e o Espiritismo" por Benedito A. da Fonseca



 32
“O Protestantismo
e o Espiritismo”
                                                                                                                                         
por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941


            O folheto do Sr. Antonio Ernesto diz que os resultados das sessões espiritas são sempre maus e prejudiciais, tanto assim, que por sinal, a de Endor foi a causa do suicídio de Saul.

            Enquanto estamos tratando deste assunto, examinemos os atos de Saul, como ele tratava os súditos e como cumpria os seus deveres para com Deus e o próximo, a fim de, inequivocamente, sabermos a causa do seu suicídio.

            Saul, filho de Kis, nasceu na tribo de Benjamim, (uma das doze da Palestina) pelo ano 1115 antes do Cristo, foi designado aos hebreus por intermédio do profeta Samuel, (I Samuel, IX: 15-16-17) fortaleceu a realeza nascente libertando a cidade de Jabes Galaad, sitiada pelos amonitas; derrotou os moabitas e os edomitas, os sírios, os filisteus e os amalecitas. Sua capital, segundo dados históricos, parece ter sido a cidade de Galgala ou Gilgal.

            Sete filhos: Jonathan, Abinadab, Melchisna, Jessui, Esbaal, Armoni e Mefiboseth, pareciam assegurar o futuro da sua dinastia, mas Deus não tardou a rejeitá-lo por causa das suas frequentes desobediências às ordens que Ele encarregava Samuel de lhe transmitir, pelo que Samuel, por ordem de Deus, censurou por diversas vezes o seu procedimento incorreto, até reprovando as hipócritas orações que fazia ao Senhor. (I Samuel, XIII: 10-14) .

            Dentre as principais causas das severas censuras de Samuel, destacam-se os seguintes atos de Saul.

            1º) Proibiu o povo de se alimentar um dia, a fim de exercer vingança, declarando maldito todo o homem que comesse naquele dia. (I Samuel, XIV: 24). 

            Jonathan, seu filho, reprovou tal maldição. (versículo 29).

            2º) Condenou seu filho à morte, pelo fato de haver chupado um pouco de mel. (versículo 43).

            O povo revoltou-se contra Saul e impediu a execução de Jonathan, em recompensa ao bem que tinha feito, libertando Israel das mãos dos inimigos.

            3º) Roubou descaradamente os despojos: vacas, ovelhas e cordeiros dos amalecitas vencidos na guerra. (I Samuel, XV: 9 e versículos 19-29).

            Daí por diante, os maus Espíritos começaram a atormentar Saul. (Cap. XVI: 14).

            Ele mesmo os atraía pela sua inveja, pela sua raiva e desejos de vingança; e por isso, perdeu a amizade dos bons Espíritos que lhe assistiam, a confiança de Samuel e a proteção de Deus.

            4º) Uma série de delitos praticou Saul, tentando matar a Davi, seu sucessor no reino, ungido rei pela autoridade de Samuel, por ordem de Deus.

            Saul percebeu que sua filha Michal amava a Davi, fingiu-se lhe amigo e para mais facilmente armar um laço contra a sua vida, consentiu em aceitá-lo como genro, para depois de realizado o casamento mandar assassinar o esposo da filha (I Samuel, XVIII: 17-19-20-21).

            Neste capítulo se vê em Saul o tipo do traidor e por isso, como médium que era, (1) atraiu Espíritos maus que se apoderavam dele e falavam por sua boca, e por duas vezes tentou encravar a Davi na parede, atirando-lhe raivosamente uma lança. (XVII: 10-11).

            (1) Saul era um médium. Vd. I Samuel, XIX: 23 e Capítulo XVI: 14; e idem X: 7; e XI: 6 do mesmo 1 Livro de Samuel, ou Reis (vulgata).

            Por diversas vezes tentou matar o genro, procurando para isso todos os meios ao seu alcance. (XIX: 10-11).

            Michal,  a esposa de Davi, temendo que seu pai pudesse atingir o marido e tirar-lhe a vida, fê-lo escapar por uma janela e colocou em sua cama uma estátua coberta. Chegando os soldados para prenderem a Davi e levarem-no à presença do rei, Michel lhes respondeu que o esposo se achava enfermo, guardando o leito. Levaram a Saul esta notícia, mas seu ódio era implacável e fez voltar os soldados com ordens severas de levá-lo mesmo na cama, dizendo:         

            "Trazei-o na cama para que o mate" (XIX: 12-15) .

            5º) Outro horrível crime cometeu Saul: Como os seus guardas recusassem matar Achimelech e outros sacerdotes que ele mandou chamar da cidade de Nob, obrigou a Doeg executar o seu mandato e este assassinou oitenta e cinco homens que vestiam roupas sacerdotais! (XXII: 17-18). Também mandou matar a fio de espada, todos os habitantes da cidade de Nob, não poupando nem mesmo as crianças de peito!

            Destruiu tudo que vivia naquela cidade, até os próprios animais irracionais, bois, jumentos e ovelhas. (XXII: 19) .

             Mais traições armou ainda Saul contra Davi, perseguindo-o para o matar. É escusado continuar a relatar estes fatos que estão claramente descritos no Capítulo XXIII do I Livro de Samuel, ou seja I Livro de Reis, conforme a tradução de Figueiredo, (vulgata).

            Os protestantes sabem tudo isto muito bem.

            Saul caindo no desagrado do Senhor, os bons Espíritos o abandonaram; os maus os substituíram e por isso tornou-se um louco, (um médium obsidiado): eis os motivos dos seus desatinos, das suas torpezas!

            Em casos tais, como é que o Senhor lhe poderia atender por profetas, por Urim (1) ou por sonhos?

            (1) Urim. Vd. nota final nas últimas páginas.

            Sendo véspera da batalha de Gilboé entre filisteus e israelitas, Saul ainda mantinha a pretensão de derrotar, mais uma vez, os filisteus; desorientado, porém, resolveu procurar um médium por meio do qual pudesse conversar com o Espírito de Samuel, esperando ouvir dele algo que lhe desse coragem e vigor para conseguir a derrota do exército inimigo; e assim, com seus criados encaminhou-se para a cidade de Endor, (2) a fim de conseguir o que desejava (contra a própria lei do seu governo) e, mui hipocritamente disfarçou-se, trocando as vestimentas reais para poder enganar a pitonisa... (até para isto mesmo, ele cometeu má ação!) Que é o que ele poderia esperar de Samuel, senão uma sentença de morte?

(2) Endor. Cidade da Palestina antiga, tribo de Manassé, perto de Naim, a duas léguas do Tabor.

            Mas, seu orgulho inspirado pelos Espíritos obsessores, lhe havia cauterizado a consciência à ponto de fazê-lo desconhecer a sua triste situação.

            No dia imediato ao da conferencia com Samuel, Saul, no combate de Gilboé, vendo sucumbir seus três filhos, Jonathan, Abinadab e Meichisna, perdeu de vez a esperança: os flecheiros avançavam e fatalmente iam tirar-lhe a vida; seu orgulho, porém, lhe ditou o Pensamento de, que seria uma vergonha e um descrédito à sua memória o deixar-se matar por seus vencedores. Eis as suas últimas palavras: "Arranca a tua espada e atravessa-me com ela, para que, porventura não venham estes incircuncisos e me atravessem e se escarneçam de mim, porém, o seu pajem de armas não quis, porque temia muito: então Saul tomou a espada e se lançou sobre ela".(I Samuel, XXXI: 2-4) .

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            Eis aí, em poucas palavras, demonstrados com testemunhos bíblicos, os motivos da sua derrota: sua malevolência assinalada pelos seus atos. E a causa do suicídio: o orgulho desmedido em não querer sucumbir às mãos dos inimigos vitoriosos.

            "Se estes incircuncisos me atravessarem com a espada, rir-se-ão e escarnecerão de mim; portanto, tiro eu mesmo a minha vida, para que, quando eles chegarem, só encontrem o meu cadáver...  Não lhes darei, pois, este prazer!!!"

            Estas foram as suas últimas palavras. A sessão espírita de Endor não foi a causa do suicídio de Saul, nem tão pouco a de sua desdita. Só a má fé ou a supina ignorância dos fatos históricos narrados na Bíblia poderá induzir alguém a dizer tal disparate.

            Nestes fatos não há metafísica dependente de interpretações que podem ser erradas e mal explicadas; está claro, claríssimo, que a causa do suicídio de Saul não foi o resultado da sessão espírita de Endor, mas o orgulho do rei derrotado, sentenciado à morte inevitável, que não quis morrer às mãos dos filisteus. 


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