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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

2. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz



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“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


A IGREJA CATOLICA E SUA AUTORIDADE


            Antes de iniciarmos o estudo sobre o catolicismo, cumpre-nos prevenir, com sinceridade, que o fazemos sem o intuito de visar a individualidade de quem quer que seja, pois, além de tudo, nos consideramos irmãos e amigos dos nossos semelhantes, sem distinção de raças nem de credos.

            E será no Evangelho que nos havemos escudar, pois nesse código de moral sublime se encerram todas as verdades proferidas e exemplificadas pelo Enviado do Pai, que as eternizou, veladamente, a fim de que fossem consentâneas ao passado, à sua época e ao futuro dos séculos.

            Para interprete-las com exatidão são necessários a perspicácia e o raciocínio, por isso mesmo, o próprio código nos previne de que: - “a letra mata e o espírito vivifica.”

            Demais, pode-se ter a noção dessa dificuldade, quando Cristo diz a cada momento:-

            “ Ouçam os que têm ouvidos para ouvi.”

            E isto falando aos discípulos, que mais claramente podiam entendê-lo.

            Posto que a relutância de sua compreensão seja necessária para aguçar a inteligência humana, temo-la, presentemente, explicada em espírito e verdade na REVELAÇÃO NOVA que é o CONSOLADOR prometido pelo Mestre e que a igreja chama ESPIRITO SANTO (1).            .

            (1) Os Quatro Evangelhos, explicados em espírito e verdade pelos Evangelistas e coordenados por J. B. ROUSTAING.

            Desse modo, maus interpretadores do excelso código, não podendo dissecar o - espírito da letra -, desprezaram-no como ainda hoje desprezam a REVELAÇÃO que tudo vem esclarecer, e, ajuizando segundo as suas opiniões, enveredou cada qual por atalhos divergentes.

            Dever é no entanto de todo o cristão dessedenta-se na fonte de água límpida, que é o Evangelho.

            E se acaso essa água lhe perecer turva, desanuvie os olhos, por que o escurecimento está na vista e não na água.

            A doutrina do Mestre tem, infalivelmente, que se adaptar à boa razão em todos os tempos e em quaisquer circunstâncias.

            Não é, porém, o que geralmente sucede. Cada qual se escraviza ao fanatismo infrene, aos erros e abusos de toda espécie, sem a devida observação aos chamados mistérios, nem ao estudo dos fenômenos que surgem a cada passo.

            Para nos persuadirmos da ineficácia da fé, sem o prévio exame de consciência, basta tomarmos para exemplo a igreja romana, cujo dogmatismo é assaz fértil nas provas de que necessitamos.

            Segundo pretende essa igreja, “JESUS CRISTO” é o seu chefe invisível e o papa recebe dele toda a sua autoridade.”

            “Sua igreja subsistirá eternamente e de todos os seus membros que formam um só corpo, alguns estão no Céu, outros padecem as penas do Purgatório e muitos vivem ainda neste mundo; esta diferença de lugares, porém, não impede que estejam unidos e haja entre si uma comunicação de bens espirituais que é o que eles chamam de Comunicação dos Santos.” 

            “Só a essa igreja CRISTO concedeu o poder  de perdoar e reter pecados. No fim do mundo, todos os homens ressuscitarão em corpo e alma para receber a recompensa ou o castigo que hajam merecido, enquanto que os membros vivos dessa igreja somente ressuscitarão em corpos gloriosos e, gozarão a vida eterna; todos os demais ressuscitarão também em corpo e alma para serem arremessados ao inferno, depois do Juízo final.” (1)

            (1) Goffiné. - Manual do Cristão, pág. XXXIV.

            Façamos um esforço para reprimir um sorriso a que nos provocam semelhantes incongruências e analisemo-las serenamente:

            A igreja começou errando logo no titulo, porque, como se sabe, “católico” quer dizer – universal - e, sem pretendermos que as miríades de mundos do universo sejam regidos pelos dogmas do papa, ninguém ignora que há muitas igrejas, cada qual com o seu credo, e que há até países onde o catolicismo não é professado.

            Assim, pois, indiscutivelmente, a igreja de Roma nunca foi nem será jamais universal.

            A sua proclamada subsistência até o fim dos séculos, não inspira a desejada confiança; vemo-la dia a dia perder aquele vigor dos tempos idos, e, por nossa parte podemos vaticinar-lhe um fim irremediavelmente próximo.

            Não se compreende como os membros da igreja estando disseminados em três pontos opostos entre si estejam ao mesmo tempo unidos.

            Entende-se por pessoas unidas aqueles que partilham dos mesmos sentimentos, das mesmas simpatias, das mesmas regalias. Ora, admitindo-se, como é natural, que os sentimentos sejam diferentes em cada um dos pontos - terra, céu e purgatório - resulta que, ou a igreja não diz a verdade, ou existe igualdade de condições em qualquer desses pontos; logo, dois deles são inúteis e, ipso-facto, existem sem razão de ser.

            Quanto a essas comunicações de bens espirituais, é mais ou menos exata e a Igreja aqui quase se descobre inteiramente alçando uma parte do reposteiro, por traz do qual, procura ocultar-se, porque afirma uma das leis provadas pelo Espiritismo; mas ainda assim. isso só pode dar-se entre os membros do céu e os de terra e não com os do purgatório, porque, segundo a Igreja, sendo o purgatório um presídio onde as almas cumprem sentenças, como conseguem elas se libertar para comunicar-se com os vivos?

            Ora, com semelhantes regalias dispensadas aos seus prisioneiros, é evidente que esse estabelecimento católico se torna positivamente inútil e a Igreja faria melhor suprimindo-o (e isso lhe seria tão fácil, como fácil foi cria-lo), enviando depois todos os seus fiéis diretamente para o céu.



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