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domingo, 18 de novembro de 2012

1. "À Luz da Razão" por Fran Muniz



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“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


Este trabalho

À minha mãe,
À minha esposa e filhos,
À meu amigo Alexandre Dias.

o Autor




            .....................


            Este livro tem a maior finalidade do homem - que é ir de encontro de Deus.

            Para subir tão alto, vezes inúmeras se partiram os remígios (as penas mais compridas) de uma asa; instantes houve de cansaço e desânimo.

            Mas, se tanto pode uma aspiração qualquer, tem que ser força, força viva, indomável, irrefreável - a Aspiração Máxima.

            A altura foi vencida...

            E Deus se mostrou em toda a sua grandiosidade.

            Alexandre Dias

            ..................




Da Obscuridade à Luz


            Nasci em pleno regime do Catolicismo e como todos os seus adeptos abracei também a doutrina, pelo simples fato de ter sido essa a religião de meus pais. Divergir de um tal preconceito, seria, e ainda hoje para tantos, continua a ser um rompimento à velha e inveterada praxe.

            Católico, embora, por mera convicção alheia, esmerei-me sempre no cumprimento de todos os deveres inerentes à igreja.   

            Logo nos primeiros meses de minha existência, fizeram-me ileso do célebre pecado original, submetendo-me a todas as pequeninas torturas do batismo com o sal e a saliva do seu vigário-padre, aliás distinto e galhofeiro da minha paroquia.

            Como férvido religioso que me presava de ser, confessei-me inúmeras vezes. Fiz, não sei se, somente a primeira,  mas a segunda comunhão e ouvia missas inteiras nos dias preceituados pela Santa madre igreja.

            Solicito no desempenho da pragmática imposta, rezava, pontualmente, antes de dormir e depois de acordar; antes e depois do café matutino; aquém e além do almoço; ao meio dia; antes e depois do jantar; o mesmo na ceia, depois novamente para dormir.

            Trazia bentinhos e verônicas (Imagem do rosto de Jesus estampada num pano, em que, segundo a tradição, uma mulher de Jerusalém, chamada Verônica, enxugou o rosto do Mestre. Essa relíquia está conservada em São Pedro de Roma!!!)   pendentes do pescoço. a laia de missangas; usava o breviário com incrustações niqueladas sobre a capa de veludo; descobria-me ao passar pelas igrejas; tomava água benta e persignava-me (benzer-se)  a cada passo.

            Em dia de procissão contassem comigo até para carregar o andor. Era quase sempre S. Sebastião que saía para realizar o milagre da chuva.

            E até que pudesse satisfazer o nosso interesse ficava o pobre santo de reféns em uma outra paragem, confiado a novos carcereiros.

            Não me recordo se alguma vez regressamos dessas excursões sob a inclemência de formidáveis aguaceiros mas afirmo que, depois disso, choveu e tem chovido até hoje o que parece provar a eficácia do milagre.

            Ávido de preencher todos os requisitos da fé e familiarizar-me com os seus preceitos. aprofundei-me, logo que permitiram os meus progressos colegiais, no estudo do Catecismo da doutrina cristã, tão assiduamente que, dentro em pouco, o trazia na ponta da língua.

            Como se vê, eu dispunha da melhor vontade para as coisas religiosas e tanto ardor punha no cumprimento desses detalhes que de mim mesmo inquiria se isso não seria uma acentuada vocação para me fazer padre.

            Foram assim, nessa beatitude, acalentados os meus sonhos de criança e esse estado da alma entrou pela adolescência, esperando sempre fruir, no futuro, a recompensa da minha dedicação à religião que abraçava.

            Completados, porém, os meus quinze anos de idade, era-me indispensável agir de acordo com as necessidades incoercíveis que se me deparavam e, assim impelido a abandonar o meu berço natal, parti em busca de novos horizontes, onde pudesse empregar a minha atividade. Era o início de uma nova fase - a do trabalho material.

            Sabe, porventura, o leitor o que é uma despedida do lar paterno? É receber, talvez, o último beijo sagrado de uma extremosa mãe. É deixa-la imersa em lágrimas de sacrossanto amor e partir com a alma despedaçada sem a certeza de tornar a vê-la. E o pai? que se fez de forte para não chorar... E os irmãozinhos? companheiros de todos os instantes, que lá ficaram em gritos de angustia pelo outro que se ia...

            Depois, o meio estranho, uma existência de forasteiro,  a luta desigual para quem não conhecia ainda a ambição, o egoísmo, a maldade humana.

            Foram dias intérminos de sofrimento, que só o prazer da lágrima minorava um pouco.

            Fui incompreendido pelos amigos a quem sempre dediquei toda a minha lealdade e até escorraçado por quem estava na maior obrigação de guiar os meus passos de inexperiente... O meu pranto de agridoce saudade diluía-se nesse novo veneno com que se matavam as minhas ilusões.

            Mas, deixemos isso. Foram dores, há muito olvidadas, que nenhum valor representam, quando laceram corações alheios e vêm até, só mais tarde pude sabe-lo, em benefício do que as sofreu.

            No auge do desânimo, via as minhas esperanças se desfazerem pouco a pouco.

            Conservando-me sempre na culminância da fé, prestando todo o bem que as minhas forças permitiam, surpreendia-me sobremaneira tanta inclemência, porquanto, como a maioria dos fieis, vivia convicto de que a felicidade devesse constituir uma propriedade exclusiva dos católicos, únicos entes por quem Deus tivesse que se interessar.

            Posto que sempre cumpridor dos meus deveres sociais e religiosos e apesar das minhas fervorosas orações e promessas a todos os meus santos prediletos, a minha situação permanecia inalterável, de tal sorte que, por alguns momentos, supus que Deus fosse insensível ás minhas súplicas.

            Eu que tanto me esforçava por ser sempre um bom católico, esperançoso das recompensas celestes, sentia-me, contudo, cada vez mais prejudicado pelas necessidades. Ao contrário, via tantos outros que não oravam, não faziam bem algum e ate negavam a existência de Deus, vivendo felizes, no fastígio, na abundancia. E pude imaginar ainda que Deus fosse parcial.

            Mal acabava, porém, essas minhas ilações, senti a razão revoltada, gritar-me:

            - Ignorante. Deus é a Perfeição!

            TaI protesto, nascido da minha própria consciência, induziu-me a uma severa reflexão e a mim mesmo prometi procurar a incógnita do problema religioso, procedendo a rigoroso exame nos arcanos da religião de Roma.

            Sabendo que o Evangelho era a base do Catolicismo, apesar de nunca o ter visto nas igrejas, busquei resoluto e incessante, elucidar-me nesse livro sublime que, desde então, se tornou o inseparável companheiro das minhas horas tétricas, ruminadas no silêncio de lentas e dilatadas noites.

            Li-o e reli-o muitas vezes com escrupulosa atenção e, de momento a momento, surpreendia-me a deparar com flagrantes contraditas à doutrina que tão confiantemente adotara.

            Foi assim que percorrendo, com meticuloso interesse, todas as refulgentes páginas desse Código maravilhoso, não encontrei um só ponto que autorizasse, sequer, a organização da igreja romana e muito menos a legalidade do seu absolutismo, nem que provasse a existência de Deus em três pessoas, da trindade misteriosa: ao contrário, via demonstração formal de que Deus é Único e indivisível.

            Não vi um só texto provando a necessidade de um papa, nem que este fosse vigário de Cristo e sucessor de S. Pedro; que este Apóstolo tivesse ou deixasse de ter esposa; que houvesse sido bispo em Roma; e em relação aos padres: que não deviam casar-se, que pudessem perdoar pecados e lhes fosse dado o poder de transformar o pão e o vinho em corpo e sangue do Cristo.

            Não descobri um só versículo provando que a Virgem Maria concebeu e que a ela devíamos orar como deusa; que provasse a existência da missa, dos sete sacramentos, do inferno e do purgatório, como a igreja os considera; que atestasse o uso de imagens, o dever de jejuar, comungar e confessar-se ao padre.

            Não encontrei uma só prova de que o batismo lavasse o pecado original, fazendo os cristãos herdeiros naturais do reino dos céus, e até que semelhante pecado existisse. Mas sobretudo, e isto foi um golpe profundo nas minhas crenças primitivas - que as crianças, morrendo sem o batismo , iriam padecer as penas do “limbo”, nome este, aliás, que nem sequer encontrei nas páginas sagradas.

             Não descobri, enfim, uma só passagem evangélica provando que devia ser amaldiçoado quem quer que abandonasse a religião católica para abraçar a verdadeira Igreja Cristã, ou outra qualquer.

            Diante dessas conclusões, disse para comigo: Que religião é essa que se nomeia cristã e age em perfeito desacordo com os preceitos evangélicos? O Evangelho é a lei de Deus, porque Cristo disse: “As palavras que eu digo não são minhas, mas sim de meu Pai que me enviou”, e a doutrina católica é a lei humana porque foi organizada em concílios ao sabor dos homens. Qual será, pois, a verdadeira - a de Deus ou a dos homens? Como concilia-las, assim, tão radicalmente opostas?

            E pus-me a conjecturar e a deduzir seguindo então o fio da doutrina da Igreja:

            O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, logo são três deuses; portanto Deus é múltiplo.

            Se, como diz o Catecismo, não são três Deuses, mas sim, três pessoas distintas numa só verdadeira, segue-se que temos um terço de Deus em cada pessoa; logo, Deus é também divisível.

            Existe um Céu para o gozo eterno de uns e um Inferno para suplício eterno de outros; é logico que temos um Deus vingativo.

            O Inferno é chefiado por Satanás, gênio do mal; se ele foi criado por Deus, temos um Deus injusto; se não foi criação de Deus, Satanás foi criado por outro que, nesse caso, seria outro Deus; logo, Deus não é único. Se, ainda, Satanás a si mesmo se criou, é evidente que tem um poder igual a Deus; portanto, Deus não é Onipotente.

            Segundo o dogmatismo católico, a alma é  criada para cada corpo e, deixando a matéria, é destinada ao Céu ou ao Inferno, conservando-se eternamente, tal como era antes da morte. Sua condenação ou salvação depende da vontade dos padres a quem Deus conferiu o poder de condenar ou absolver.

            Se a alma é condenada aos castigos eternos e irremissíveis do Inferno, inútil se torna o seu arrependimento, porque Deus lhe recusa a possibilidade de reparar o mal que fez; em quanto que a alma boa é recompensada com as delícias do Céu e com a contemplação de Deus.

            Os condenados não podem, de modo algum, receber consolações nem auxílios morais e permanecem absolutamente separados dos absolvidos.

            Os anjos são almas privilegiadas criadas exclusivamente perfeitas e isentas de trabalhos, etc.

            Aqui pararam as minhas duvidas e o raciocínio, chamado a intervir diante de tantos absurdos, começou a fazer-se:

            Que doutrina é esta que deixa tanto a desejar? Visto que ela não resolve uma multidão de problemas da vida, tais como:

            - O motivo porque nascem homens bons ou maus, inteligentes ou idiotas.

            - Se estes que são inconscientes dos seus atos, serão salvos ou perdidos.

            - Se há justiça em Deus criar uns mais favorecidos do que outros. 

            - Se serão ou não salvos os selvagens e todos os que morrem no estado inferior moral e intelectual.

            - Se há equidade nas enfermidades, misérias e defeitos físicos, quando não são o resultado da vida presente.

            - Se serão recompensadas as crianças que morrem sem nunca terem praticado o bem. No caso afirmativo, que valor há em tal recompensa, se vê premiar quem a ele não fez jus enquanto que dos velhos se exige para “estar em graça” uma obra constante de misericórdia?

            - Se é justo, uma vez que as almas não progridem depois da morte, que sejam retirados da vida prematuramente. os que poderiam progredir se vivessem mais tempo.

            - Se há justiça em ser o homem submetido à uma serie de rudes provações para chegar à perfeição, quando os anjos foram criados já perfeitos e isentos de trabalhos. 

            Não dá a igreja romana solução a tão interessantes problemas, ou antes, pretende resolve-los “por absurdo”  impondo-nos os seus dogmas que conduzem fatalmente á negação absoluta de Deus, ao Materialismo.

            Ora, uma religião assim está fora da logica e não consegue deter por mais um instante a quem se animou a conhecê-la de perto.

            Foi exatamente o que sucedeu comigo. E, para sempre a abandonei, como determinava a minha consciência.

Fran Muniz





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