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domingo, 30 de setembro de 2012

Palestras Espirituais



Palestras
Espirituais
Médium: S. B. S. (Sylvio Brito Soares)


            Em todos os mundos que rodopiam pela vastidão do Espaço, a verdade, como não podia deixar de ser, é uma e única, e a sua essência: o Amor!

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            Desse enunciado o homem deve, por si mesmo, concluir que lhe é imprescindível cultivar o Amor, a fim de que possa melhor compreender a sabedoria divina e ser, amanhã, legítimo cidadão do Espaço!

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            Por mais incrível que pareça, o certo, porém, é que para o homem nem sempre fácil se apresenta a tarefa de amar em plena consonância com o Evangelho.

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            E dissemos - nem sempre fácil - porque, no mundo, multíplices são os interesses a reclamarem a atenção, a atormentarem o pensamento e a exigirem dos seus habitantes um grande dispêndio de atividade,

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            É lamentável, porém, que as preocupações decorrentes desses interesses mundanos se façam sentir;, numa percentagem tão ponderável e que levem o homem a se olvidar, quase por completo, do seu interesse maior, que é o aperfeiçoamento do espírito.

*

            No momento em que os interesses de ordem física não mais se possam harmonizar com os da esfera espiritual, a vida do homem, embora não seja por ele pressentido, experimenta um desequilíbrio, que irá aumentando na razão inversa do desenvolvimento de suas preocupações econômicas, políticas e sociais; da sua tendência a certos atos e atitudes incompatíveis com a dignidade do espírito.

*

            Não se disponha ele a lançar mão de processos rápidos e enérgicos para que o equilíbrio se restabeleça, e em breve os germens oriundos dessas forças em desarmonia proliferar-se-ão de maneira assustadora, com graves prejuízos para o organismo espiritual.

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            Razões, aparentemente conscienciosas, apresentam o homem desequilibrado, como justificativa do seu descaso pelas coisas do espírito.

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            Criou a mentalidade de que os reclamos espirituais deverão ser atendidos mais tarde, a fim de não desviarem a sua preciosa atenção, que precisa estar inteiramente voltada para a formação de um patrimônio financeiro, garantidor de futuro tranquilo.

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            Imensa é a cegueira humana!
            Saberá alguém qual o dia prefixado pela Providência para seu reingresso no plano da espiritualidade?

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            Como é confrangedor para nossos espíritos o contemplarmos, no denominado plano de subjetividade, esses mendigos de paz, que se arrastam nas sombras de suas próprias misérias, com o pensamento acorrentado ainda aos interesses que deixaram na Terra. Pobres grilhetas do mundo!

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            Homens! conciliai os vossos afazeres em busca do pão do corpo, sem jamais menosprezardes o cultivo do Evangelho para que as vossas almas não se tornem anêmicas, apáticas e tiritantes por se haverem distanciado do Sol do Amor de Deus!

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            Lembrai-vos - de que nem só dê pão vivem os homens!

Reformador (FEB) Outubro 1947


3. "O Protestantismo e o Espiritismo" por Benedito A. Nogueira


3
“O Protestantismo
e o Espiritismo”

por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941


CAPITULO II

Torpes explorações
por parte dos mais ladinos... .


            Não é verdade.

            Camilo Flammarion, Wiliam Crookes, Karl Du Prel, A. Aksacoff, Léon Denis, Gabriel Delanne, Wan der Naillen, Elias Sauvage, Dr. Gyel (Geley), Alfred Erny, De Rochas, Louis de Figuier, R. D. Owen, Epes Sargent, Stainton Moses, Arthur Conan Doyle, Paul Gibier, Zõllner, Windt, Weber Fechner, Henry Durvílle e muitos outros que seria fastidioso enumerar, sem falar dos ilustres brasileiros, médicos, engenheiros, jornalistas, advogados, professores, farmacêuticos, homens sábios que estudaram e publicaram livros dando conta do resultado dos seus estudos e investigações, convictos da procedência divina do Espiritismo; não são torpes exploradores, nem explorados. Os que se dedicam à propaganda das verdades espiritas não exploram ninguém. Os lucros que colhem são a perseguição, a calúnia; a maledicência, por parte dos seus gratuitos inimigos, e despesas sem resultado material. Eles não recebem ordenados, não têm igrejas com gazofilácios onde deitem moedas com que se locupletam os que soem explorar o próximo! 

............................

            O Rev. Pastor começa as suas citações da Escritura chamando atenção para o Capítulo XVIII do Deuteronomio, 10-12, e já de ânimo prevenido, não transcreveu os versículos integralmente.

            Vamos copiar os mesmos versículos:

            "Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador de encantamentos, nem quem pergunte a um espírito adivinhante, nem mágico, nem quem pergunte aos mortos: Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor, e por estas abominações o Senhor teu Deus as lançará fora de diante dele." Deut. XVIII, 10-12 confirmado em Êxodo XXII, 18; Levítico XIX, 31 e XX, 27.

            Essas proibições do Velho Testamento tem aplicação à repressão dos feiticeiros e quantos praticam a baixa magia (magia negra), que se compõe de charlatães ignorantes ou de exploradores sem escrúpulos, em cujas reuniões tratam de indagar o número premiado de loteria; de tesouros -escondidos ; de jogo do bicho, muito procurado pelos viciados; da descoberta de particularidades da vida alheia para comentários escandalosos.

            Homens doutos já têm explicado em jornais e em livros publicados, os motivos das severas proibições de Moisés. Com a devida vênia transcrevo abaixo o artigo do ilustrado escritor e orador Dr.  Viana de Carvalho, intitulado:

“Argumento Falho”

            De vez em vez, corre pela imprensa a surrada afirmação de que os espiritistas se contrapõem a uma ordem prescrita no Deuteronômio e segundo a qual é abominável, condenado por Deus, o intercâmbio intelectual com as almas dos impropria e erroneamente chamados mortos.        

            A Bíblia proibiu, mui judiciosamente, as evocações em tempos de absoluta ignorância do assunto.

            Moisés previra que os hebreus seriam mal sucedidos travando comunicação ostensiva com as entidades do mundo invisível.

            Povo dominado pelas paixões inferiores, de índole tendenciosa à superstição e à feitiçaria, não se achava em condições de merecer contato direto com os habitantes do plano astral.

            "A proibição de Moisés, diz Allan Kardec à página 161, do "Céu e o Inferno", era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes recurso para adivinhações, tal como os agouros ou presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição.

            Essas práticas, ao que parece, também eram objeto de negócio e Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares".

            Dai se não infere que, muitos séculos depois, deva prevalecer o mesmo dispositivo de legislação ditada a, uma raça atrasada, que carecia de habilitações morais para se ocupar de fenômenos ligados á manifestação dos espíritos (1).

            (1) Veja o Cap. Vil da 2". Parte desta obra (apend.)

            O caso mudou completamente de aspecto. As gerações atuais suportam vivas claridades, compreendem o que há de grave e religioso nos processos de comunhão entre os dois mundos, inaugurados com o advento do Espiritismo, de maneira sistemática.              

            O chamamento dirigido aos desencarnados reveste-se agora de intenções humanitárias; tem objetivo de caráter puro e sublimando-se, cada vez mais, nos fraternos laços que se estreitam assim entre criaturas da terra e suas irmãs de além fronteira planetárias.

            A citação da Bíblia é ótima para os contemporâneos de Moisés, aos quais foi ministrada exclusivamente, como se verifica ao examinar sem parcialidade o capítulo XVIII do Deuteronômio versículos 9-10-11 e 12. Aplicá-la aos nossos dias, redunda em negar eficiência do progresso acumulado ao longo da história humana.

            Ao demais, se Deus entendesse vedar-nos o conhecimento desses fatos, por que permite a multiplicação deles, exuberantemente, à nossa vista? Não seria razoável conter em seus limites de afastamento absoluto as populações do além que nos visitam e atuam sobre os médiuns, transmitindo por eles pensamentos proveitosos, conselhos, advertências altamente reformadoras de nossa conduta nesta vida? 

            Estas interrogações têm como consequência a convicção de que nos é lícito receber os testemunhos de solidariedade provindos da outra margem, colocada no plano hiperfísico e para o qual marchamos também, cumprindo os desígnios da Providência.    

            O erro não está em convivermos amorosamente com os que nos precederam na liberdade maior trazida pela morte, mas sim em deixarmos no olvido as doces insinuações de suas mensagens estimulando-nos à execução de todos os atos de bondade consagrados nos divinos princípios do cristianismo." 
(Artigo publicado na "Aurora"). 


2. 'O Protestantismo e o Espiritismo' por Benedito A. Nogueira



2
“O Protestantismo
e o Espiritismo”

por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941

Meu bom Primo

Saúde.

            Recebi tua carta acompanhada de um folheto escrito pelo Sr. Antonio Ernesto da Silva, intitulado "O Evangelho e o Espiritismo".

            Em virtude da amizade que mantemos há algumas dezenas de anos, pedes-me que o leia com atenção, acrescentando que o folheto é um aviso para me pôr ao abrigo dos erros e perigos do Espiritismo.

            Em tua carta fazes-me recordar os estudos das sagradas letras, que juntos fazíamos noutros tempos, quando ainda principiantes ou neófitos da religião cristã. Dizes que o folheto do Pastor da Igreja da Liberdade é uma obra que desmascara o Espiritismo, mostrando a incompatibilidade existente entre o Evangelho e a religião de Allan Kardec.

            Fico muito agradecido pelos fraternais conselhos que me deste em tua carta; sei que eles foram ditados pela estima e amizade que me dedicas e sempre me dedicaste.

            Li o folheto e achei-o muito bom. Deus faz tudo muito bem feito, pois se não mo tivesses mandado eu não teria incentivo para escrever alguma coisa que servisse para despertar a atenção e boa vontade de muitos estudiosos, para conhecimento da verdade.

            Peço-te pois, meu caro primo, me desculpes se porventura esta resposta for contrariar-te, pois, pelo que vejo, és muito amigo do Rev. ministro, autor do aludido folheto. Admiro-me entretanto, de ver um senhor que se diz ministro da Palavra de Deus usar de uma linguagem dura contra pessoas filiadas a outros credos religiosos, visto a caridade tão proclamada por Jesus e tão bem apregoada e explicada por Paulo aos Coríntios (I cap. XIII, 4-7) ser contrária aos insultos que ele assacou contra os prosélitos da doutrina espírita.

            Disse ele que os crentes do Evangelho de Allan Kardec são vítimas de torpes explorações por parte dos mais ladinos e logo depois, disse que existem comunicações de Satanás, que iludem tanto aos ladinos exploradores, como também aos imbecis, vítimas da exploração... E por aí adiante, seguem-se as contradições do bom-senso do Rev. Pastor.

            O espírito santo que guiou o escritor do folheto, o arrastou a um caminho errado, visto que, desde o começo dos seus argumentos, já o enfronhou em confusão.

            Não pretendo ofender ao digno pastor, porque todos nós temos direito ao respeito dos nossos semelhantes, aos quais também temos o dever de respeitar; mas ele que tenha paciência e lembre-se de que o protestantismo ressente-se das acusações que lhe faz o catolicismo, de seguir a religião do evangelho de Lutero.

            Que juízo se poderia fazer do Espiritismo se julgasse o Protestantismo sem conhece-lo?!

            Como pode o Protestantismo julgar o Espiritismo sem ter estudado as suas obras fundamentais!?

            Os protestantes, pelo motivo de desconhecerem os planos de salvação que Jesus trouxe a Terra, supõem que alguém pode perder a alma. Do ponto de vista da unidade da vida e de ser somente a Terra o planeta habitado, eles não podem mesmo, e nunca poderão compreender as verdades contidas na Bíblia, sob o véu da alegoria, e supõem haja alguém suscetível de perder eterna ou perpetuamente a alma..!


sábado, 29 de setembro de 2012

Revogação da Lei Antiga


Revogação
da Lei Antiga



por Ismael Gomes Braga

            A Lei antiga era a Justiça em toda a sua dureza, destinada a dominar um povo bárbaro e corrupto, saído da servidão no Egito; era toda de terror e impiedade; desconhecia amor e caridade. Vemos em Deuteronômio: A quem fizer isto, apedrejai-o até que morra. A quem fizer aquilo, queimai-o vivo. Em Levítico, 20 :12: "Se um homem tomar uma mulher e a mãe dela, maldade é: serão queimados com fogo, tanto ele quanto elas, para que não haja maldade no meio de vós".

            A inferioridade moral do homem não lhe permitiu notar que a Doutrina de Jesus revogou toda aquela legislação; por isso, na triste Idade Média, a Igreja de Roma reacendeu a fogueira estabelecida em Levítico dois milênios antes.

            Naquela antiga legislação moisaica, vinha a proibição de se falar aos Espíritos. Vemos em Levítico, 19 :31: "Não vos voltareis para os que consultam os mortos ... " Em Deuteronômio, 18: 10 e 11: "Não se achará contigo quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem o que consulte a espíritos ou a um espírito familiar, nem aquele que consulte aos mortos".

            À crueldade da antiga Lei de Moisés, Jesus opôs a Lei de amor e perdão, proibiu o julgamento: "Não julgueis, para que não sejais julgados." (Mat., 7:1.)

            Toda lei revoga as disposições em contrário de lei anterior. O Evangelho é revogação da Lei Civil de Moisés, e do Pentateuco só permaneceu a Lei de Deus. Só ao Decálogo, efetivamente, se reportam os Espíritos superiores em seus comentários à Lei antiga. Depois passam logo ao Evangelho como base da moral espírita.

            Se Jesus em sua pregação revogou a Lei Civil de Moisés, o ponto que mais nitidamente ficou revogado foi a proibição de conversar com os Espíritos, acima mencionada, porque ele mesmo conversou com Moisés e Elias, como vemos em Mat. 17:1 a 4: "Seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro e. aos irmãos, Tiago e João, e levou-os a sós a um alto monte. Foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o Sol, e as suas vestes tornaram-se "brancas como a luz. Eis que lhe apareceram Moisés e Elias falando com ele. Pedro disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tabernáculos: um para ti, outro para Moisés e outro para Elias."

            As pessoas que ousam aplicar a Lei antiga para proibir que os homens recebam instruções dos Espíritos superiores, abandonam a autoridade de Jesus e permanecem com Moisés; logo, não se devem dizer cristãs, mas simplesmente israelitas, porque são os israelitas que não aceitam a autoridade de Jesus em oposição a Moisés.

            A prática de consultar os Espíritos, para decidir assuntos materiais, era comum entre os judeus. Temos disso uma prova no episódio relatado no Primeiro Livro de Samuel. Os filisteus armaram-se contra os israelitas e o rei destes, Saul, que havia exterminado do seu reino todos os médiuns, deseja consultar o seu antigo conselheiro, Samuel, sobre o que deveria fazer; mas Samuel já era morto e só por intermédio de um médium poderia responder a Saul.

            Eis o relato como se acha na Bíblia:

            Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma mulher que consulte a um espírito familiar, para que eu vá consultá-la , Responderam-lhe os seus servos: Há em Endor uma mulher que consulta espírito familiar.

            "Saul disfarçou-se e, tomando outros vestidos, foi, acompanhado de dois homens, e chegaram de noite a casa da mulher. Ele disse: Adivinha-me pelo espírito familiar e faze-me, subir aquele que eu te disser: Respondeu-lhe a mulher: Eis que tu sabes o que fez Saul, como exterminou da terra os que consultam espíritos ou espírito familiar; porque me estás armando um laço à minha vida, para me fazeres morrer? Saul jurou-lhe por Jeová, dizendo: Pela vida de Jeová, nenhuma culpa te sobrevirá por causa disso. Perguntou-lhe a mulher: Quem te farei subir? Respondeu ele: Faze-me subir Samuel. Quando a mulher viu a Samuel, deu um grande
grito e disse a Saul: Porque me enganaste? pois tu és Saul. Respondeu-lhe o Rei: Não tenhas medo; que vês tu? Disse a mulher a Saul: Vejo um deus subindo da terra. Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? Respondeu ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendeu Saul que era Samuel, prostrou-se com o rosto em terra e fez-lhe uma reverência.

            "Disse Samuel a Saul: Porque me inquietaste, fazendo-me subir?

            "Respondeu Saul: Estou mui angustiado, porque os filisteus me fazem guerra, e Deus se tem afastado de mim, e não me responde mais, nem por profetas nem por sonhos. Por isso te chamei, para que me fizesses saber o que hei de fazer.

            "Disse Samuel: Para que me perguntas, visto que Jeová se tem afastado de ti e se fez teu inimigo? Jeová te fez, como pela minha boca te disse; Jeová rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a David... Amanhã tu e os teus filhos estareis comigo." (I Samuel, 28:7 a 17 e 19.)

            Saul morreu em 1055 antes do Cristo. Portanto esse relato é de uma manifestação mediúnica ocorrida há três mil e três anos e foi redigida primeiramente em hebraico, depois traduzida em outras línguas antigas e finalmente em todas as línguas modernas.

            Supunham que o Espírito se achava com o corpo na sepultura e que por isso subia da terra. Hoje sabemos que é o contrário, que ordinariamente o Espírito desce a nós e não sobe a nós, como diziam. Desfeito este pequeno engano, o relato é claro e sem dúvida o mais divulgado de quantos existam sobre o assunto, porque nenhum outro livro teve tantos leitores nestes milênios como a Bíblia. Se o Espiritismo, como Doutrina, é novo, os fenômenos são tão antigos quanto a humanidade e não há meios de negá-los ou ocultá-los.

            Ao cristão é de sumo interesse lembrar que Jesus revogou a Lei antiga e deu, ele mesmo, o exemplo de conversar com Espíritos superiores.

Reformador (FEB) Agosto 1948



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Avarento



O Avarento
Abel Gomes
por F. V. Lorenz


Reformador (FEB) Setembro 1946


            Passeando pela região do Crepúsculo, aqui no mundo astral, encontrei alguns Espíritos humanos chegados da minha Pátria.

            Entre eles havia um comerciante, desencarnado já há anos, mas que ainda só pensava em dinheiro, lucros e mercadorias.

            Quando o avistei, estava ele assentado a uma secretária, contando dinheiro; peças de ouro, papel-moeda, lá se achavam em sua frente, e sorridente ele as contava. Cumprimentei-o. Ele logo estremeceu e cobriu com um pano o seu tesouro e exclamou: "Retira-te! ou eu chamo o meu cão!" Estava pálido. "Não tenhas medo de mim", disse-lhe eu; "meu amigo, não me reconheces? eu sou o Abel".

            Respondeu-me: "Queres comprar alguma coisa? à vista? Emprestar eu não empresto."

            Não vi mercadorias nem armazém; só na imaginação ele as tinha.

            Perguntou-me ele: "Mas porque vieste aqui? Hoje não é dia de visitas."

            Soprou um vento, levantou-se o pano; e nem dinheiro, nem ouro reapareceram, só havia areia e folhas secas.

            O Espírito avarento se enraiveceu: "Restitui-me o meu dinheiro, já!" - exclamou ele ameaçando-me com uma arma.

            Eu sorri: "Teu dinheiro, meu amigo, era simples aparência inútil. Não vives na Terra; por isso o ouro e o cobre não te podem aqui valer, pois que aqui só valem boas ações, boa mente e bom coração".

            Mas o avarento não me entendeu, porque de repente pôs-se a correr para um lugar onde uma coisa parecia brilhar; e eu o ouvi murmurando: "Lá está o meu ouro!" Mas chegando ao lugar brilhante, só viu um pirilampo e ficou triste, porque não era o brilho vão do ouro.

            Desejei esclarecer-lhe seu estado, porém ele fugiu de mim e não quis ouvir-me. Voltei ao meu caminho, fazendo por ele uma prece a Deus.



1. "O Protestantismo e o Espiritismo" por Benedito A. da Fonseca



1
“O Protestantismo
e o Espiritismo”

por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941


Introdução à Primeira Parte

Igne Natura renovatur integra.

A MISSÃO DO ESPIRITISMO

            É pelo Evangelho que cumpre anunciar o Espiritismo. A igreja espírita há de ser a igreja cristã em sua simplicidade primitiva, em sua pureza, em sua verdade tal como a estabeleceu Jesus e entenderam os apóstolos.

            Paulo, o doutor das gentes, discorrendo sobre a personalidade do Mestre, disse: "- Não podemos por outro fundamento além daquele que já está posto, a saber: Jesus Cristo".

            No entanto, continua o converso de Damasco, conquanto seja um só o fundamento, muitas são as edificações levantadas sobre o mesmo: uns constroem obras de prata, outros de ouro, outros de pedras preciosas, outros de madeira, de ferro e até de palha. Tais obras, conclui ele, hão de ser provadas no fogo; aí, umas permanecerão, outras serão desfeitas.

            Estas judiciosas considerações do iluminado apóstolo referem-se claramente às várias igrejas, que, através dos tempos surgiram no cenário terreno sob a égide do Cristianismo. Todas seriam erguidas sobre os mesmos alicerces, sobre as mesmas bases, porém, a despeito mesmo disso, nem todas permaneceriam, pois no tempo da prova, na hora de serem submetidas ao fogo das paixões, as obras de madeira, feno e palha fatalmente pereceriam.

            A época da prova chegou: são estes dias calamitosos que ora atravessamos.

            Ao Espiritismo cabe a gloriosa tarefa de restaurar o Cristianismo levantando uma obra imperecível. Cumpre que uma edificação sólida, inabalável, seja construída sobre o fundamento santo, sobre aquela base imutável que há XX séculos foi lançada como sendo a rocha inamovível, como o traço de união entre o Céu e a Terra, entre Deus e a humanidade.

            A derrocada dos credos dogmáticos, dessas construções de palha e feno, acha-se patente para os que têm olhos de ver. A sociedade atual se debate num verdadeiro caos. A fé convencional, as religiões dos rituais e cerimonias mostram-se impotentes para conter a onda invasora das paixões desenfreadas. Não resistiram à prova do fogo predita por Paulo. Um egoísmo feroz, brutal, nunca visto, campeia infrene, verificando-se com a máxima clareza o cumprimento da profecia de Daniel: "A abominação que causa desolação atingindo as coisas santas."

            É tempo, portanto, de pensarmos seriamente no desempenho do mister que o céu nos quer confiar: construirmos sobre os escombros dos templos desfeitos pelo fogo da prova, o templo vivo da fé, dessa fé que consola, regenera, purifica e salva.

            Erguermos, cooperando cada um com seu contingente, por mais modesto que seja, a igreja rediviva de Jesus Cristo, a igreja sem dogmas, sem liturgia, sem casta sacerdotal; essa igreja que se levanta no interior do homem, que tem seu altar nos corações, que exerce influência incoercível nos hábitos, nos costumes, reformando e consolidando os caracteres; essa igreja poderosa, forte, contra cujo poder não prevalecerão as portas do Hades; essa igreja que é luz, que é virtude, que é paz, que é bênção e consolação porque é o reino de Deus dominando nossos espíritos.

 Vinícius
Do "Clarim"


62. "Doutrina e Prática do Espiritismo" por Leopoldo Cirne



62  ** *


            O pensamento que, por suas incessantes vibrações, constitui no homem uma espécie de fotografia instantânea de todos os seus movimentos físicos, é ao mesmo tempo, considerado em suas fontes mais remotas, o instrumento propulsor de todos os dinamismos do universo.

            Projetando constantemente em torno de nós os nossos pensamentos, vamos de sua mesma natureza impregnando o aura fluídico em que se envolve o espírito que somos. Simultaneamente com esta ação individual, restrita no que se refere ao homem, é pela emissão de correntes de pensamentos, harmônicos ou discordes com os emitidos ab aeterno pelo Divino Foco, que os espíritos de todas as categorias, consoante à sua elevação ou inferioridade, colaboram na execução dos desígnios divinos ou contra ela buscam se insurgir, daí resultando o que, não somente em mecânica, mas nas regiões abstratas da moral, denomina-se equilíbrio.

            E é porque no aura invisível do homem se estereotipam, pela irradiação do pensamento, as suas tendências más ou boas, os seus vícios ou virtudes - casulo terrível ou benéfico que, ao desencarnar, cada um consigo leva como irrecusáveis testemunhos de sua própria baixeza ou elevação - que para os desencarnados não podem haver dissimulações da parte dos humanos. Os nossos pensamentos são assim lidos pelos espíritos como se de fato escritos em páginas abertas.

            E aqui, por mais obscuro, inextricável mesmo, que ainda nos seja o mecanismo íntimo do pensamento, uma indagação se torna indispensável. Terá ele, como atributo do espírito, uma grafia própria, ou se exprimirá obrigatoriamente, por palavras, consoante à língua familiar ao indivíduo?

            A primeira hipótese é a que, a nosso ver, reúne as melhores condições de admissibilidade, não sendo possível de outro modo explicar a correspondência universal dos espíritos entre si, pelo menos dos que compõem a nossa humanidade, para os quais seria realmente uma deplorável singularidade que subsistisse, na vida livre do espaço, a barreira moral que para os homens representa ,a diversidade das línguas, obstáculo que é a um mais perfeito entendimento e aproximação, o que importa dizer, à íntima e consciente solidariedade que os há de, por fim, um dia vincular.

            Se os espíritos, com efeito, para entre si corresponder-se, tivessem que se exprimir em línguas diferentes, em lugar da graduação natural por ordem dos respectivos méritos, que lhes determina a hierarquia, haveria a torna-los de alguma sorte estranhos uns aos outros um acidente como esse, peculiar sem dúvida ao modo de viver terrestre, analítico por natureza, como tivemos ocasião de o assinalar, mas incompatível com a tendência para a síntese, a unificação, que caracteriza a vida no espaço.

            A língua, como tantas outras convenções humanas, é um resultado da diferenciação das raças. Mas como os espíritos não se dividem em raças, senão que pertencem a uma mesma e única família, no que se refere a distinções tudo se se reduzindo para eles a uma menor ou maior evolução, segue-se que para eles não haverá  - assim pelo menos o entendemos - mais que uma linguagem, o pensamento, menos ou mais rico sem dúvida em expressões, de um lado, e em possibilidade de percepção, do outro, conforme o menor ou maior grau de evolução atingido pelo espírito.

            Há um fato, no domínio da experimentação espírita - e nunca serão para desprezar os subsídios da observação - que vem documentar até um certo ponto esta tese da universalidade do pensamento como expressão mental, fato que pelos observadores inexpertos tem sido considerado, em certos casos, um elemento negativo da autenticidade do fenômeno. E vem a ser que o espírito de um indivíduo que pertencera a uma determinada nacionalidade, ao se manifestar por um médium de nacionalidade diferente, exprime-se não em sua própria língua, mas na do intermediário de que no momento se utiliza (1).

            (1) Dentre os mais notáveis ditados desse gênero, que conhecemos, se destacam os recebidos (não todos) pelo médium Fernando de Lacerda e transmitidos por espíritos, como os de Victor Hugo, Leon Tolstoi e outros pensadores, com a mesma originalidade e opulência de estilo que tinham como homens, o que representa um positivo sinal de identidade, sobretudo se se atender a que a amplitude das ideias expressas em português pelo médium e a que na terra era peculiar àqueles espíritos, quando aqui viviam, coincidem admiravelmente.

            Ver a obra desse médium, Do PAIZ DA LUZ, 3 Vols. publicados e também, no REFORMADOR de 3 de outubro de 1911, ditado de Leon Tolstoi intitulado "A ordem na vida."

            Como explicar esse fenômeno, senão admitindo que o pensamento é transmitido de espírito a espírito, isto é, do comunicante ao do médium, em sua forma originária, e por este elaborado e traduzido nas expressões verbais da língua que lhe é familiar? Se considerarmos que, na ocorrência de toda manifestação espírita, mediante a psicografia, a incorporação, vidência, audição, etc., o espírito do médium se acha mais ou menos exteriorizado e, assim, em condições de perceber diretamente a ação dos invisíveis, não haverá dificuldade em compreendermos o fenômeno.

            Restaria a explicar o processo, o mecanismo dessa transformação do pensamento, de sua feição peculiar em forma articulada. Isso, porém, como tantos outros fatos obscuros do domínio da psicologia, há de por muito tempo ainda permanecer ignorado.  

            O que se sabe - e experiências de fotografia, que se pode chamar transcendental, o tem demonstrado, permitindo registrar na placa as efluviações (= eflúvios) ódicas (do duplo etérico) do homem - é que o pensamento, força que de si mesmo é, se traduz por vibrações, variando de forma e de tonalidade conforme a natureza das impressões e emoções que, silenciosamente mesmo, exterioriza, chegando também a reproduzir a imagem de seres e objetos sobre que persistentemente incida.

             Assim, por exemplo, se o indivíduo se acha sob o domínio de uma emoção nobre e elevada, como na prece e em todos os transportes de amor e adoração, de que é suscetível o Ego divino, o pensamento se exterioriza em forma de imponentes e luminosas espirais, como de incenso, que se elevam para o alto. Se é um impulso de cólera ou de ódio, as suas vibrações se tonalizam por cambiantes rubras ou entenebrecidas, variando por extensa escala cromática, segundo a índole das paixões que exprimem, como por seu lado o tem podido atestar videntes adestrados.

            Pensando com energia e demoradamente num objeto ou em determinado ser, projetamos no éter a sua forma, a que o pensamento, assim vigorosamente emitido,
comunica uma vitalidade fictícia e momentânea, como tivemos, no capítulo precedente, ocasião de registrar que sucedeu - é verdade que num estado de completo desprendimento - ao Dr. Wiltse, que ao pensar em anjos e demônios que, imaginava, encontraria em sua excursão extra terrestre, viu apresentarem se lhe à vista essas figuras, logo verificando embora que não eram reais, senão mero produto da imaginação.

            Se, finalmente, em lugar de convergir para seres e objetos definidos, é um raciocínio que formulamos, uma deliberação que concebemos ou, em suma, qualquer outra operação abstrata a que nos entregamos, as linhas de força, por assim dizer, desse dinamismo mental se exteriorizam e fixam em nosso aura, com a exata expressão dos pensamentos que traduzem e que, semelhantes à grafia musical, cada uma de cujas notas tem sempre significação e valor por toda parte idênticos, podem ser, graças a isso, decifrados pelas testemunhas invisíveis que nos cerquem.    

            Mas os espíritos, como o vínhamos precedentemente assinalando, não se limitam a ser espectadores silenciosos das nossas operações mentais. Pela natureza do plano a que pertencem - plano das causas, como ficou dito - não somente, por uma sistematizada sugestão, a que também fizemos referência e havemos de nos reportar ainda em capítulo adiante, intervêm na direção dos pensamentos e na realização dos humanos sucessos, senão que, operando em grandes massas, colaboram, conforme a hierarquia a que pertençam, na produção dos fenômenos que tem por cenário o próprio mundo físico. 

            Nem de outro modo se podem explicar certos fatos do Evangelho, por muito tempo aos olhos do vulgo apresentados como milagrosos, mas que, determinados por uma vontade poderosa como a de Jesus, a cujo aceno obedeciam os espíritos de todas as ordens, vem ter no conhecimento das leis e na ação dos invisíveis, que o Espiritismo patenteia, uma lógica e esclarecedora sanção.

            Está neste caso, por exemplo, o episódio da tempestade aplacada, diante do qual pode sem dúvida sorrir a Incredulidade, relegando-o, como tantos outros, para o domínio da fábula ou da lenda, mas que o estudante espírita, esclarecido sobre a verdadeira índole desta doutrina, um de cujos objetivos capitais é fornecer de todas as passagens e ensinamentos do Evangelho uma explicação minuciosa e integral, em espírito e verdade, tem tanto mais ponderoso motivo para admitir como verídico, quanto nenhum desacordo lhe observa com as leis naturais, sobretudo no que se refere à colaboração das entidades universalmente prepostas a sua execução.

            O episódio é assim, em suas linhas singelas, descrito por MATEUS (VIII, 23 a 26) :

            "Entrando ele (Jesus) em uma barca, o seguiram seus discípulos; e eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de modo que a barca se cobria das ondas. E, entretanto, ele dormia. Então se chegaram a ele seus discípulos e o acordaram, dizendo: - Senhor, salva-nos, que perecemos.
            "E Jesus lhes disse: Porque temeis, homens de pouca fé? - E, levantando-se, pôs preceito ao mar e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança."

            Ora, como poderia o Cristo exercer esse império sobre os elementos, se não fossem eles movidos por inteligências capazes de perceber a sua determinação e obedecer-lhe? E onde estaria o elo dessa volição, de um lado, e dessa execução, do outro, senão no pensamento, veículo e propulsor, como o dissemos, de todos os dinamismos do universo ?  (1)

            (1) De modo idêntico, isto é, pela colaboração de espíritos obedientes às determinações do Cristo e prepostos, consoante a sua natureza, ao manejo de fluidos apropriados, se podem explicar outros fatos narrados no !Evangelho, como a pesca dita miraculosa, a multiplicação dos peixes e dos pães e mesmo o incidente dos porcos precipitados ao mar (MATEUS, VIII, 28 a 34), após a libertação, por Jesus, dos subjugados, ou possessos.

            Só o espírito é capaz de entender o espírito. Mas se já vemos, neste mesmo plano inferior em que operamos, o homem pelo poder da inteligência submeter ao seu domínio as forças vivas da natureza, captando, por exemplo, essa misteriosa e formidável energia, que é a eletricidade, e utilizando-a nas mais variadas aplicações, que haverá de extraordinário, partindo da existência dos espíritos e da universalidade de sua ação - e foi este fato que tivemos o cuidado de previamente estabelecer - que haverá de extraordinário - dizíamos - em admitir que essas inteligências, desenvolvendo correntes de pensamentos e operando sobre os fluidos que tudo, na criação, envolvem e penetram, possam produzir ou fazer cessar determinados fenômenos? Pois o que é fácil, em pequena escala, a um homem - produzir com um sopro a agitação de um líquido - não será possível aos espíritos, reunidos em massa, pelo poder do pensamento sobre os fluidos?

            A única diferença consiste em que, sob a ação das grandes e eternas leis que tudo regem no universo, a intervenção dos espíritos, qualquer que seja a órbita em que incida, jamais se opera a esmo, senão que é sempre regulada com um fim de utilidade e tendo em vista, com a harmonia do conjunto, a realização do plano providencial, que já procuramos definir nesta palavra : evolução.

            E, pois, que tudo evolui, do átomo à estrela, do infusório (seres vivos unicelulares) ao anjo, vejamos se é possível, dilatando esta incursão pelo pensamento aos remotos arcanos em que se opera a gênese dos mundos e dos seres, apreender, não decerto em toda a magnificência, o plano evolutivo - demasiado arrojo para a fragilidade do nosso entendimento - mas um esboço ao menos desse plano, em que o nosso próprio destino se contém.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

0. 'O Protestantismo e o Espiritismo' por Benedito A. da Fonseca


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“O Protestantismo
e o Espiritismo”

por  Benedito A. da Fonseca
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1941




            P R E F A C I O

... À Lei e ao Testemunho, 
que se Eles não falarem segundo esta palavra,
não haverá manhã para eles. (Isaías - VIII, 19 - 20) (1).[1]


            (1) Se as comunicações obtidas de além túmulo não estiveram de acordo com as verdades ensinadas pelos Espíritos do Senhor, pela boca dos seus profetas, devem ser rejeitadas como falsas e mentirosas, e os Espíritos dos mortos que as ditarem serão responsáveis pelas consequências.


            Quando peguei na pena para dar resposta a uma carta, pensava poder acomodar em três ou quatro páginas de papel algumas palavras a fim de responder aos quesitos formulados pelo Rev. Pastor da Igreja da Liberdade, na Capital. Entretanto, como o assunto era vasto, foi preciso estender-me em considerações, atendendo à inspiração que surgia abundante em meu pensamento. A cada quesito que ia responder, eu não podia apanhar rapidamente e escrever com agilidade tudo quanto ia recebendo intuitivamente, e assim, sem ser taquígrafo, escrevi nas horas vagas este folheto, resumindo tanto quanto me permitiu o esforço que fiz para isso.

            É provável que nele se encontrem alguns erros gramaticais, pois escrevendo apenas algumas horas por dia, gastei uma semana na produção deste livrinho. O leitor inteligente irá corrigindo, à medida que forem aparecendo esses erros, próprios do homem. Errare humanum est.

            Eu disse erros gramaticais, porém, jamais erros doutrinais.

            Os acérrimos adversários da doutrina nele defendida, dirão que tudo está errado! Eu já espero pela guerra e pelas maldições que trovejarão sobre mim, mas estou certo de que a semente não cairá somente em terreno estéril...

            Quem sabe se este livrinho será o som de uma das trombetas que anunciam por toda a parte do mundo o juízo final que o Messias prenunciou no sermão profético?

            Os tempos são chegados e nós estamos presenciando os sinais previstos há vinte séculos, pelo profeta de Nazaré da Galíléía. Estamos no princípio das dores (1).

            (1) S. Mateus, XXIV. 8-9.

            Não sou o primeiro que escreve, combatendo as teorias dos inimigos da doutrina. As questões aqui discutidas, já de longa data se vêm discutindo em linguagem diferente e de maneiras diversas, por pessoas preparadíssimas, cujos conhecimentos não posso comparar aos meus.

            No decurso dos argumentos não fui procurar testemunho de escritores profanos; não fiz citação de obra alguma a não ser da Bíblia; recorri unicamente à lei e ao testemunho; não sai fora da Escritura sagrada para contrastar as ideias do folheto "O Evangelho e o Espiritismo", que o seu autor supôs um golpe mortal na doutrina espírita.

            De fato, a doutrina espirita é mais vasta que o oceano: abrange o espaço infinito, o tempo e a eternidade; há nela muito o que estudar! O que eu escrevi neste opúsculo não representa senão a gota de orvalho caindo de uma folha de árvore que se balouça ao sopro da viração, sopro que move milhares de árvores no meio de imensa floresta; e a queda de cada gota de orvalho é medida e notada pela providência divina. - É uma pedrinha como as tantas que milhares de braços levam para construção do grande edifício da verdade, que tem como pedra fundamental - o Cristo, infelizmente tão pouco conhecido pelas seitas religiosas!..

            Em virtude do livre arbítrio, que o Criador outorga indistintamente a todos, o Rev. Pastor escreveu o seu folheto.

            Ninguém o censurará por isso; é um direito que lhe assiste o escrever e falar o que quiser; para isso, temos a garantia das nossas leis que estabelecem a liberdade de pensamento pela tribuna e pela imprensa; mas, também ninguém está isento de contestações. Relevar-me-á ele o fato de discordar da sua opinião. O senhor Ernesto de Oliveira, que foi em outros tempos meu íntimo amigo, também não me quererá mal pelo fato de comentar neste opúsculo as notícias publicadas pelo seu jornal de Curitiba, citadas pelo Sr. Antonio Ernesto da Silva.

            Um e outro concorreram para a divulgação da doutrina espirita, de maneira que, sem o quererem, auxiliaram a sua propagação. Se este opúsculo lograr resposta dos senhores protestantes, haverá ainda mais estímulo ao desejo de estudar a questão. Protestantes e indiferentes terão oportunidade de acordar dessa sonolência e verificar de que lado está a verdade ...  Dentre os milhares que lerem, muitos aceitarão o Deus espírita que salva a todos, e rejeitarão o deus vingativo que põe no tanque de fogo a maioria da humanidade!

            Todos trabalham para a divulgação do Espiritismo. Os seus amigos e os seus adversários. Estes falam e escrevem combatendo-o, aqueles falam e escrevem explicando-o e interpretando a Bíblia em harmonia com a ciência e a religião. De sorte que o povo que os lê e ouve e se interessa pela causa, tira algum proveito. O Espiritismo sai ganhando e os seus inimigos se tornam amigos e defensores. Do meio de todos eles, saem muitos Saulos de Tarso e dessa forma vai-se apressando o fim dos tempos.

            Há ainda muita luta a vencer, pois grande parte da humanidade não se preocupa com assuntos religiosos. Cada qual trabalha por adquirir posição social e elevar-se acima dos seus pares; a ambição de domínio e riquezas materiais faz a maioria da humanidade esquecer-se de que tem uma alma, que terá de partir daqui e nada levará para o outro lado do véu.

            Incrédulos, ateus, materialistas e indiferentes, não se preocupam de crenças religiosas: acham que é uma importunação embaraçante ao desenvolvimento dos seus negócios, prejudicial aos seus interesses. Deixam à margem as questões religiosas (1). Pouco importa: Diremos, também nós, com o Mestre: "Deixa aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos" (2). E sigamos o Mestre, procurando fora das seitas religiosas, apaixonadas, compreender os seus ensinos em espírito e em verdade, para não ficarmos sepultados com aqueles mortos que andaram a sepultar os seus mortos, de que nos fala o Evangelho.

Mombuca, Outubro de 1922.
B. A. Fonseca.

            (1) Scio opera tua: quia neque frigidus es, neque calidus: utinan frigidus esses, aut calidus! sed quia tepidus es, et nec frigidus, nec calidus, incipiam te evomere ex ore meo , (Apocalipse - II:15-16).

            (2) São Lucas, IX: 60.   S. Mateus VIII: 21-22.








[1] Seguiremos o mesmo critério anterior ou seja colocaremos as 'Notas de Rodapé' logo após o término do parágrafo em que forem assinaladas pelo Autor. Assim, evitaremos numeração distinta da utilizada originalmente.