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sábado, 25 de agosto de 2012

12. 'Amor à Verdade'


12
“Amor à Verdade”
por Alpheu Gomes O. Campos
Marques Araújo & C. – R. S. Pedro, 216
1927


            Variada é a maneira como procedem os Espíritos inferiores na realização das terrenas provas.

            Deles procuram a princípio insinuar-se amigos: filtram pensamentos para bons negócios e prazeres; mas o fim real é ganharem ascendência sobre sua futura vítima. Com efeito, após, por assim dizer, paciente preparação, sabendo-a fácil de patroar, flexível à sua ingerência, habituada a receber e cumprir, mercê da afinidade estabelecida, as suas mais leves inspirações, eis lhe incute à pobre vítima os mais desarrazoados expedientes, desastrados negócios e nocivas paixões. Dessedenta-se então.

            Deles propelem ao jogo, proporcionam ensejo de ganho, dão o palpite, assanham a ganância, para em seguida fazerem perder os lucros e o mais. Em solo movediço, como se vê, levantam uma torre para mais fragorosa queda.

            Tomando-nos pois o pulso aos encarnados; perscrutando-nos as tendências; sondando-nos o íntimo, que de séculos; às vezes, já conhecem - abeiram-se de nós os inimigos e, alicerçados precisamente em nossas fraquezas e imperfeições, conduzem-nos a sofrimentos quer morais como físicos.

            Quando os psiquiatras houverem estudado tais assuntos, grandemente reformarão seus conceitos, pois não tem conta as moléstias nervosas chamadas e cuja verdadeira causa é a ação de um vingador oculto.

            Este nunca age só, procura companheiros com quem pactua recíproco socorro. Exemplifiquemos. Um infeliz intenta assassinar quem quer que seja... Subjugado que o apanhe, trata de descobrir o instrumento capaz de pôr por obra o seu plano - que para tanto também precisa de um braço a jeito.

            Depara o primeiro que, por prova certamente, vai receber-lhe os pensamentos. Mas, ainda que relativo, todos dispomos do livre arbítrio; o receptor pode, portanto, recusar-se.

            Não desanima o obsessor: qual perdigueiro subtil fareja outra mão, outra, até encontrar que sirva.

            Em seguimento disso, arma entre os dois relações, se já não as há; bafeja de parte a parte simpatia, amizade, confiança; e depois, por meio de qualquer transação ou desonesto arrastamento, promove o desfecho fatal.

            - Mas, dirá o leitor, podem os espíritos fazê-lo? Neste caso, estamos todos sujeitos a um irresistível domínio!

            Não. Pelo cuidado de melhorarmo-nos, lembrando sempre que os humildes serão exaltados e os orgulhosos humílhados, poderemos, se não evitar, ao menos atenuar certos males.

            Em toda a sua simplicidade, é curiosa a observação de um médium que conhecemos, de mui ampla vidência, sim, porém, aquele tempo, de exíguos ou nenhum conhecimentos da doutrina.

            Via ele os Espíritos a que chamamos protetores, vestidos de túnica branca, e os obscuros com a roupa que traziam na terra; e para distingui-los, quando queria narrar qualquer fato observado, nomeava aqueles “os homens de branco”, e estes “os camaradas.” 

            Certo dia, em palestra, disse-nos: “Seu doutor, esses homens de branco, não tem o que fazer.”

            - Como assim? - perguntamos.

            - Um grupo de camaradas, advertiu ele, agia sobre algumas pessoas, perturbando-as consideravelmente no que faziam; os homens de branco estavam ali nem se mexiam.

            “Ora, não achei aquilo direito e disse-lhes para que afastassem os camaradas. Pois eles, sorrindo, mandaram-me que deixasse, que não me incomodasse, que era assim mesmo. Então, calei-me.

            “Sabe o que aconteceu? Depois de os camaradas terem estragado tudo, eles num instante vieram e acomodaram as coisas. Não tem o que fazer! deixam agir os camaradas para poder haver serviço.”

            Isto assaz elucida quanto à nossa proteção. De feito, para que não soframos além do necessário, somos sempre vigiados e até inspirados pelos nossos Maiores, a quem, com tudo, é comum deixarmos de ouvir.

            “Quando, - fala aqui um dedicado e luminoso Espírito - quando em tuas preces elevas o pensamento ao Pai, por uma lei natural de afinidade ela chega primeiro a mim e daí segue de acordo com o teu e o meu desejo.

            “O Guia tem sobre o seu tutelado a maior ascendência e inteira responsabilidade por tudo o que a ele lhe sobrevier.

            “Devo dizer-te que não praticas ato algum na vida, por menor que seja, que não repercuta em mim, graças à ininterrupta corrente lançada entre protegido e protetor.

            “O conhecimento de todos os atos do primeiro tem grande valor para o segundo, pois o desenrolar, por assim, das provas e expiações daquele não partem imediatamente do Pai, senão do Anjo Guardião, que assumiu o compromisso de aprimorar tal alma, faze-la pura, cheia de virtudes e sabedoria.

            “Assim, o compromisso dá plena liberdade de ação ao Guia, para conduzir seu afilhado pelos passos que julgar conveniente, até cabal educação.”

            Do exposto conclui-se que o Pai vela de contínuo por todos os filhos e os seus mensageiros, com dedicação e carinho que a Terra desconhece, nos assistem na provação, incutindo-nos sempre força e boas resoluções.

            Repassando fados ocorridos em nossa existência, patenteia-se que, na ocasião, dois pensamentos nos acudiram à mente: um açulando à má conduta, evocando o decantado amor próprio, que não passa de orgulho estimulado pelos Infelizes; o outro, a voz da razão, da verdade, do amor, do Anjo Guardião. De resistir aquele e obedecer a este, o nosso mérito.



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