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quinta-feira, 26 de julho de 2012

5. Bilhetes



f.   Bilhetes
           

            A política, sob a capa da razão, cava num palmo de terra, existente entre dois irmãos, a sepultura de ambos. Não sei onde li essa opinião. Creio que em Camilo. Li-a na minha mocidade.

            Agora, já na velhice, quando me sinto aproximar do dia em que deverei entregar os ossos à sepultura, nesse hábito que os velhos temos de recapitular as lições recebidas na longa peregrinação terrena que palmilhamos, é realmente doloroso observarmos, assim, quando já se tem o pé na cova, que os homens são sempre os mesmos, as eternas crianças que só veem pelo prisma acanhado do direito individual, sem qualquer respeito pelo direito do próximo ou da coletividade e sem sequer vislumbrarem as consequências futuras do ato irrefletido do presente.

            A ideia que tiveram os nossos irmãos católicos - que se deixaram levar pelo clero sempre ambicioso das posições do mundo - de se organizarem em Ligas e de apresentarem exigências aos candidatos, refletirá mais tarde, com todas as consequências, não só por dividirem elas os próprios meios católicos, como por estimularem a criação de partidos políticos dentro de todos os meios religiosos e anti religiosos do País.

            A política religiosa da Idade Média renasceu no Brasil. Assistimos ao mais vergonhoso de todos os absurdos: púlpitos transformados em tribunas de meetingueiros, templos a servirem à deusa Política, pastores a dispersarem ovelhas. E tudo isso na presença silenciosa dos "santos" que ornavam os altares!

            Os políticos, porém, acharam belíssima a ideia do nosso clero. É' possível, mesmo, que os vencedores ofereçam aos padres o prêmio a que fizeram jus. Prêmio que eles esperavam obter na certa, porque aderiram, de uma só vez, aos dois candidatos em evidência, aos que poderiam ser eleitos com ou sem auxílio de partidos religiosos, mas o que se observa é que o meio católico se dividiu, que a religião foi prejudicada na sua parte espiritual e que o exemplo estimulante aí ficou para as futuras lutas.

            O clero jogou na certa, como sempre. Não lhe comove a luta entre os seus adeptos. Só lhe interessa a consecução dos seus planos: O poderio material, esse mesmo poderio que sempre o preocupou desde a aliança com Constantino, no século III, esse mesmo poderio de que tanto abusaram na Rússia dos czares, ao ponto de o próprio povo se levantar contra os opressores de todos os matizes.

            Lutas religiosas; lutas que dividirão os filhos da mesma Pátria! Os quadros da História se nos apresentam apavorantes. Só os cegos, condutores de cegos, não têm olhos para ver! Que importa, porém, ao clero estrangeiro que nos domina, o sofrimento dos nossos filhos? Que importa, mesmo, que um ou outro sacerdote seja sacrificado? Se não podem dominar com o Cristo, porque este já os abandonou há séculos, dominarão com César...

            A Igreja já não tem mais autoridade espiritual sobre os seus adeptos. Os intelectuais já a têm como organização política, com finalidades puramente humanas.

            Os seus dirigentes paganizaram o Cristianismo, corromperam os ensinamentos do Nazareno, menosprezaram-lhe os exemplos, renegaram-lhe o Evangelho, abandonaram a cruz e transferiram-se para os salões dos Césares de todas as nações.

            Os cristãos, porém, aqueles que creem nas palavras do Messias, aqueles a quem os senhores de tonsura chamam feiticeiros, loucos, demoníacos e exploradores da credulidade pública, esses continuam ouvindo e honrando as recomendações do Mestre: "O meu reino não é deste mundo".




assina     G. Mirim
(Antônio Wantuil de Freitas)
in ‘Reformador’ (FEB) em  Dezembro  1945




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