Translate

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

'Conhecereis a Verdade...' por Newton Boechat

“Conhecereis a verdade e
a verdade vos libertará...”
por  Newton Boechat
Reformador (FEB)  dezembro 1970



No dia 4 de outubro do corrente, como parte
dos atos inaugurais do Cenáculo da Seção-Brasilla
da Federação Espírita Brasileira,
ocupou a tribuna da Casa de Ismael o confrade Newton Boechat.
Aqui têm os leitores de «Reformador», conforme prometemos em nossa
última edição, um resumo da palestra daquele conhecido tríbuno espírita.



                "Meus amigos, inicialmente desejamos-lhes a paz do Mestre Divino e que a Virgem nos cubra com o seu manto de luz. Antes de iniciar o tema, queremos dizer que iremos fundamentá-Io na segunda carta que Paulo endereçou aos Coríntios, no seu capítulo III, versículo 17: "Onde há o Espírito do Senhor, aí há a liberdade".

                Longe de nós a imposição de qualquer coisa. O que iremos expor é apenas fruto de nossos estudos. Nunca houve época tão propícia, como a atual, para se rever essas verdades. Na época atual em que nos detemos assombrados ante uma Ciência sem consciência. Na época atual em que a criatura penetra nos cultos espirituais e o culto não penetra nela. Época do Materialismo. Época em que sentimos o esmero da técnica para perturbar, distrair, trazendo lágrima e aflição. Necessitamos, sim, duma sabedoria que ame e um amor que saiba. Por isso o Espírito Verdade, em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", adverte: "Amai-vos, eis o primeiro mandamento; instruí-vos, eis o segundo".

                Passemos agora à palestra: A Verdade e o Homem, apoiada no capitulo 8, versículo 32, do Evangelho de João: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará".

                Certa vez, a Verdade se configurou numa formosa mulher e veio ao mundo, onde encontrou um homem desencantado no meio do caminho. Sua pátria, cor, raça, pouco importa. A Verdade, vendo-o triste, propôs passar à sua frente alguns painéis, alguns quadros da vida, mostrando almas outras, também viajoras, com suas carências e suas possibilidades. Aquele homem da beira da estrada, desiludido com muita coisa, verificara que, embora a vida nos oferecesse tantas belezas, o homem se constituíra lobo do próprio homem. A Verdade se apiedou dele e propôs-lhe então mostrar alguns quadros de criaturas que estabeleceram contato com a Verdade através de vários momentos da vida. E os quadros são os que se seguem. E ele viu os quadros.

                Charles Richet, o mestre da Sorbonne, se preparava para dar a sua última aula na Faculdade de Medicina de Paris, pois ia aposentar-se. Seu pensamento foi aos idos de 1902/ 1903, quando contemplou os fenômenos de Vila Cármem, realizados na casa do General Noel, com a médium Marthe Béraud (Eva Cariere), e na presença das irmãs Marie e Paule, de Gabriel Delanne e outros. Ali se materializava a entidade Bien-Boa, com quem Richet fez inúmeras experiências, inclusive a respiração em água de barita, a fim de constatar a presença do gás carbônico. Richet, assombrado, emocionado, perguntou a Gabriel Delanne: “Será que você vê Marthe?” “-Vejo Marthe Béraud inteiramente". Estava, pois, sendo plasmada, de maneira indiscutível, a existência da entidade Bien-Boa. Naquele instante, recordando que conseguira coroar o seu esforço de pesquisa, Charles Richet começou a dar a sua última aula, no dia 24 de junho de 1925, falando então duma nova ciência que começava a esboçar-se, trazendo bênçãos de luz à humanidade inteira. Mas, se observava assim, relutava em aceitar a filtragem filosófica do fenômeno. E quando começou o seu intercâmbio com o professor Ernesto Bozzano, o professor Richet passou também a ver que o seu critério estava minado, levando a crer que tudo o que defrontava era a criatura que vivera na Terra e que dela se afastara pela desencarnação. Quando estava prestes a partir para o Além, Richet escrevera confidencialmente a seu colega Bozzano para lhe dizer que este tinha razão e que tudo quanto afirmara nas suas monografias magistrais era verdade.

                Richet deu, portanto, atestado da sua convicção sobre o mundo espiritual, enquanto outros continuavam rigidamente materialistas, numa prova de que a percepção das coisas espirituais é fator de elevação espiritual. Assim, Richet lograra perceber a Verdade através da via experimental.

                "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará" - João, capítulo 8, versículo 32.

                Gamaliel, doutor da lei, não obstante suas importantes funções no Sinédrio, recebeu um recado de Simão Pedro para visitar a organização do Caminho, nas cercanias de Jerusalém. Gamaliel era muito liberal e resolvera, portanto, uma tarde, fazer aquela visita, ali onde os seguidores do Cristo atendiam aos pobres, vindos de todas as partes do mundo. Visitando os doentes, visitando os pescadores. Gamaliel começou a notar que o Cristianismo triunfava no coração do povo. Moisés, afinal, era a lei fria. Somente uma manifestação de amor poderia domar aqueles corações. E observava então a imensa diferença entre a lei fria e o amor. Quando está prestes a despedir-se, ele vê num leito um homem de meia-idade. O doutor da lei pareceu reconhecer-lhe o rosto. Sim. Reconhecia-o.  Era Samonio, o rico negociante de Cesareia. E entre ambos travou-se interessante diálogo: - "Samonio, mas tu por aqui? Não posso entender essa modificação. Onde está tua mulher, teus filhos, as tuas ricas terras, teus bens? Houve alguma coisa?" E Samonio falou-lhe calmamente: “- Gamaliel, tu te mostras surpreso. Um dia eu tive tudo isso, porém, manifestando-se depois estas manchas em meu corpo, todos me abandonaram, inclusive meus parentes. Fui para o Vale dos Leprosos, e ali teria morrido à míngua, não fosse um coração bondoso que me socorreu e me entregou a estes pescadores. Perdi tudo por fora, mas ganhei a crença na intimidade do coração. Não me podes entender, mas quando um dia também sofreres, sentirás grande necessidade do Cristo, porque Moisés é a porta, mas Jesus é a chave.”

                Gamaliel se surpreende. Despede-se vivamente impressionado, e então mais tarde, abandonando a função no Sinédrio, retira-se para o deserto. Meditando sobre as mensagens do Cristo, encontra-se com o Alto e se rende afinal ...

                Gamaliel, naquele instante, encontrava a Verdade através da via da meditação. Samonio encontrou-a, positivamente, através da porta da dor.

                "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará" - João, 8-32.

                Numa noite silenciosa de céu estrelado, toda a Jerusalém dormia. Soldados descansavam no chão. Era a planície de Gilboá, onde, com a cabeça cheia de maus presságios, Saul não conseguia conciliar o sono. Encontrava-se prestes a travar urna grande batalha com os filisteus. Seria tão bom que o profeta Samuel, seu amigo da juventude, pudesse aparecer para orientá-lo ... Não suportando mais o clima de tensão, manda um mensageiro localizar uma pitonisa para ouvir o mundo espiritual. Encontraram em Endor uma mulher. Saul, abandonando momentaneamente a coroa do domínio, vai ao seu encontro, disfarçadamente. Mas a médium logo o reconhece: - "Que queres tu?" “-Tenho necessidade de estabelecer contato com Samuel, o profeta da minha juventude".

                A mulher cai em transe e o ectoplasma lhe sai das narinas, dos ouvidos, da boca. Dentro de instantes, se configura o profeta Samuel, e Saul se assombra. E quando a entidade pergunta: "- Que queres tu de mim?"  "- Ah, Samuel, gostaria tanto dos teus conselhos, pois não sei qual a sorte que aguarda Israel."

                E Samuel começou a instruir o pupilo, porém, diferente de como o fazia enquanto estava na Terra. Saul estranha e pergunta: "- Onde está tua espada de guerreiro? E a tua túnica de juiz?" Samuel, todavia, lhe diz: " -Volta, SauI, e desarma os teus guerreiros. Para que tanto orgulho em teu coração? Lembra-te dos dias em que apascentávamos as ovelhas em Benjamim. Referes-te às leis, mas elas são como teias de aranha: pegam os pequenos insetos enquanto os grandes passam. Aqui recebi novos esclarecimentos. Agora te digo: os filisteus, que consideras nossos inimigos, são também nossos irmãos. Jeová é o pai de todos. Volta, Saul, e proclama essas coisas à nossa gente!"

                O Rei se choca. E depois, então, reunindo as energias, começa a colocar barreiras à revelação:  "- Mas se eu voltar e disser essas coisas, dirão que estou desvairado, fora do juízo. Não posso fazer isso!"

                O profeta, deixando ver que a materialização estava por terminar, insiste ainda: "- Saul, se não queres ouvir a voz da sabedoria, se resistes à mensagem de cima, amanhã o exército de Israel cairá nas mãos dos filisteus!"

                Saul desmaia e a entidade desaparece. Saul volta, depois, ao acampamento, e nas horas seguintes começa a grande batalha. O Rei se perturba. Há dor, morte. Os sete príncipes estão fugitivos na planície banhada em sangue. Saul, derrotado, toma dum punhal e o coloca junto ao peito. Mata-se. O Rei Saul se ausenta do plano físico.

                A Bíblia não diz que era o demônio quem se manifestava através da pitonisa de Endor. Nesta passagem notamos que a vida está assentada em aflição, mas representa, ainda assim, lição para duas criaturas. Samuel busca a Verdade através do processo da desencarnação. Saul também buscava a Verdade, embora não soubesse procurá-Ia, visto que estava numa perspectiva falsa. Notamos, assim, que cada qual foi filtrando a Verdade através de experiências múltiplas.

                "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará" - João, 8-32.

                Paulo de Tarso, o doutor da lei, já se encontrava numa prisão romana esperando seu julgamento. Ali recebia amigos e até funcionários palacianos de Nero (pois em Palácio havia também cristãos de vida pura). De certa feita, quando pregava para um grupo, notou na primeira fila dos seus ouvintes um homem vindo da Grécia. Quando terminou a pregação, perguntou-lhe a origem. Era um escravo fugido de Colosses e se chamava Onésimo. Paulo pergunta:  "- Quem é o teu dono, o teu Senhor?". Ele responde: - "Chama-se Filemon". Paulo se abala. Filemon era um rico negociante, convertido por Paulo em Colosses. E então, à luz das tochas, começou a sulcar no pergaminho a sua "Epístola a Filemon". Página de amor agudo, assim começa: "Paulo, prisioneiro de Jesus-Cristo e o irmão Timóteo ao amado Filemon, nosso cooperador: Filemon, estou suficientemente livre para te determinar, como convém em Cristo; porém, resolvo suplicar-te em nome do amor, a fim de que a tua aquiescência não parecesse constrangimento. Recebe Onésimo de volta. Ele que te foi inútil noutros tempos, agora te volta útil. Recebe-o como a meu próprio coração. E se te causou algum prejuízo, coloca-o à minha conta, porque eu, Paulo, te pagarei".

                Verificamos, pois, que Paulo, quando escreveu a Epístola, estava buscando a Verdade através da porta do amor, e Filemon a buscava através da porta da obediência!

                "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará" - João, 8-32. Richet através da experiência ("Será que você vê Marthe?"); Gamaliel através da meditação, e Samonio, através da via do sofrimento         ("Moisés é a porta, Jesus é a chave") ; Samuel, através da desencarnação, e, Saul, pretendendo achá-Ia através do falso domínio ("Volta, Saul! e desarma os teus guerreiros! Para que tanto orgulho em teu coração?!"); Paulo buscava a Verdade através da porta do amor, e Filemon talvez a tivesse encontrado através da obediência ("E se te causou algum prejuízo, coloca-o à minha conta, porque eu, Paulo, te pagarei").

                Mas outro Espírito, muitos séculos depois, buscou a Verdade através da Filosofia. Era o professor francês Híppolyte Léon Denizard Rivail, conhecido por Allan Kardec.

                O magnetizador Fortíer o convida a participar de reuniões na casa de Mme. Plainemaison. Era a fase das "mesas girantes". Hippolyte Léon, embora cético, resolveu observar. E seus olhos encontram um mundo diferente. Daquelas reuniões começou um processo filosófico diferente, que iria se enxertar na própria vida e fecundá-Ia. Então, observando o que as mesas diziam, estudando a mediunidade psicográfica de vários médiuns, levanta, o professor, o alicerce granítico da Doutrina dos Espíritos, em "O Livro dos Espíritos", lançado em 18 de abril de 1857. A França estava no apogeu do Materialismo. Era o reino da negação, a faixa da ilusão. Mas, seguem-se as obras da Codificação. E Kardec trabalha com afinco, até dizimar o corpo, que caí fulminado por um aneurisma, já tendo porém legado ao mundo as suas obras, em que a criatura aprende, além doutras lições, aquela que lhe diz que "fé inabalável só o é a que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade". Quando lhe transferem as cinzas para o cemitério do "Père-Lachaise", colocam no dólmen do seu túmulo a célebre frase de sentido reencarnacionista : "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir continuamente; tal é a lei". E, na herma: "Todo efeito tem uma causa; todo efeito inteligente tem uma causa inteligente; a potência da causa está na grandeza direta da grandeza do efeito".

                E modernamente Emmanuel nos informa que sem a reencarnação o mundo seria um turbilhão de desordem e anarquia.

                Sim, sem a reencarnação, como entender a diversidade de todos os fenômenos da vida? Sem a reencarnação, como compreender os extremos de Nero e Albert Schweitzer? E a existência de um Calígula, que chegou a dar o posto de Primeiro Ministro ao seu cavalo Incitatus? Se não fosse a reencarnação, mostrando a diferença dos destinos, não se poderia equacionar os problemas da vida.

                A reencarnação, tomando do fragmentado pensamento humano, encaminha-o ao Alto, esse Alto que para o ser imaturo é evanescente, mas, para o homem espiritualizado é o porvir no qual ele se reintegrará.

                Uma vez que observamos a Verdade se manifestando a diferentes criaturas, segundo seu estado psicológico, importa agora perguntar: e a Federação Espírita Brasileira? Também tem buscado a Verdade? Obviamente! Porque a FEB tem o destino das estrelas; não as do Universo exterior, conquanto grandioso, mas, o Universo interior, onde coruscam os astros do Amor e da Sabedoria!

                Lembramos sua trajetória de luz. Surgem em nossas lembranças as figuras de Ewerton Quadros, Antônio Luiz Sayão, Elias da Silva, Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio e de todos os que se constituíram na milícia de Ismael, quando se corporificaram em terras brasileiras ...

                Porém, segundo os desígnios espirituais, ao chamado "Médico dos Pobres" - o filho de Riacho do Sangue, no Ceará - estava reservada a tarefa de elaborar, sob a assistência de Cima, a linha doutrinária da FEB, como tem sido ensinada na FEB-Seção Rio, na Av. Passos e, doravante, será norma para a Seção-Brasília. Às terças-feiras, o estudo metódico da opulenta obra "Os Quatro Evangelhos", coordenados por Jean Baptiste Roustaing, advogado bordalês, presidente do Tribunal daquela importante cidade da França, e recebidos pela mediunidade da Sra. Emilie Collignon, distinta dama de Bordéus.

                Roustaing era homem culto e educado. Dele, dissera Allan Kardec na "Revista Espírita": "Vê-se, pois, que Roustaing, embora recentemente iniciado, se tornou mestre em matéria de apreciação. É que ele tem segura e sabiamente estudado a importante questão do Espiritismo e, ao contrário de muitos, não ficou na superfície. Infelizmente, nem todos têm como ele a coragem de dar sua opinião e é isto que alimenta os nossos adversários."

                Pela obra em apreço ficamos sentindo ter sido Jesus um Espírito Puro, enormemente grande para ficar atrelado às limitações de um corpo carnal. Aliás, "O Livro dos Espíritos", nas perguntas 111 e 113, quando cuida da Escala Espírita, nos elucida que o Espírito Superior se encarna excepcionalmente, enquanto o Espírito Puro não habita em corpo perecível. E ninguém melhor do que o próprio Mestre para delinear sua condição extrafísica, quando pergunta: "Qual de vós me arguirá de pecado?" (João-8:46) .

                Já em Paulo podemos encontrar o Espírito Superior ou o Bom Espírito, todavia, condicionado à encarnação humana: "Desgraçado homem que sou; quem me libertará do corpo da morte?" (Romanos - 7:24). O corpo da morte a que se refere o Apóstolo dos Gentios é a humanização, à qual se subordina o espírito infracionário das leis divinas.

                Já nas sextas-feiras, na Federação Espírita se processam o estudo e comentários desta estupenda
obra que é "O Livro dos Espíritos", postulado granítico que pode, consubstanciado na linguagem dos fatos mediúnicos, retirar o homem moderno de seu desespero filosófico, dando-lhe uma diretriz segura para os seus passos, notadamente na época contemporânea, quando se perde, tão cheio de grandezas materiais, mas pobre de sentimento e de amor ...

                Richet procurara a Verdade através da experimentação científica; Gamaliel, pela porta da meditação; Samonio, na via da dor; SamueI, por intermédio da desencarnação; Saul pretendeu consegui-Ia para atender-lhe os propósitos de conquistas humanas; Paulo, perlustrando a estrada do amor, e Filemon, podendo abarcá-Ia pela vereda da obediência; Kardec, na elaboração filosófica ...

                A Verdade... ah! a Verdade ali estava ao lado do desanimado homem do caminho, vendo os quadros. E então tomou-lhe as mãos, levantou-o e, caminhando com êle, lhe disse:

                - Vem comigo. Atravessa os umbrais desta existência e observa os enigmas! Jamais tu poderás morrer! Sinfonia infinita é a vida que transborda da manifestação fenomênica o cântico imortal! ...

                E o homem desencantado da margem da estrada deixou-se evidenciar num sorriso de satisfação: compreendeu-se, entendeu-se; sobretudo, se sentiu herdeiro da Eternidade!"





                                                                   


Nenhum comentário:

Postar um comentário