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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

31 de Agosto


31    Agosto

O Amor é qual primavera:
Chega e espalha pelo chão
Gotas de sol indicando
O homem velho em redenção.


  Casimiro Cunha
por Gilberto Campista Guarino
in ‘Centelhas de Sabedoria’  (1ª Ed. FEB 1976)


terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Missão de Allan Kardec


Notas do Dr. Canuto Abreu

            Vejamos umas notas das admiráveis páginas que, sobre Allan Kardec, escreveu o Dr. Canuto Abreu, na revista Metapsíquica, de que foi fundador e diretor, nos seus números de agosto e outubro de 1936.

            Vigorava em França, desde 1802, a Concordata imposta por Bonaparte a Pio VII. Mas, necessitando para seus planos da corrente católica, o corso tornou o Romanismo religião do Estado.

            “O Cardeal Caprera que encaminhou as últimas demarches da Concordata escreveu a Pio VII: Não irritemos este homem; ele só é nosso apoio neste país, onde toda a gente está contra nós”.

            Transformado em instrumento político, pode o clero satisfazer a sua sede de vingança.
           
            “Não contente de impor ao povo um novo clericalismo, impôs, ainda, em 1804, uma nova nobreza, a mais ambiciosa que já teve a França. Para que tudo se consumasse sem grandes clamores e sem críticas, era necessário tirar a liberdade de consciência e de instrução.”

            E ela foi retirada. A instrução foi reformada em favor do clero; volta o latim e o grego, suprimem-se os demais idiomas e ainda a Filosofia, a História, as Ciências Morais e Políticas.

            Começou a reinar a intolerância, porque “é da essência da religião católica ser intolerante”, na expressão do Cardeal Consalvi.

            “Em dez anos a França se tornou o país mais politicamente católico da Europa. As masmorras viviam cheias de pessoas que se haviam mostrado independentes de consciência. Fora da França contavam-se por centenas os exilados.”

            O Imperador arrancou de Pio VII nova concordata sob a alegação de que ia acabar com o Protestantismo até nas nações protestantes e precisava para isso maior extensão de poderes. E de fato:
            “O clero baixo, ao serviço da espionagem do Estado, exagerou a perseguição até o insuportável. O ano de 1814 foi terrível. O imperador, que havia ganho 50 batalhas, perdeu em Lípsia a última do seu Império...

            “O Catolicismo, sob a primeira restauração, recuperou a desejada independência, voltando a ser o que era antes de 89, com a agravante do ódio e da sede insopitável de vingança.

            “O Papa restabeleceu a sociedade dos Jesuítas. Operou-se a sublevação ultramontana que tomou o nome de terror branco. Hordas de fanáticos, insuflada pelo clero católico, passaram a ferro e a fogo o protestantismo e o filosofismo franceses. Em 15 de agosto, na cidade de Nimes, as mulheres católicas fizeram em homenagem a Nossa Senhora, uma passeada pelas ruas, arrastando mulheres protestantes despidas, pintadas, marcadas a ferro, e que foram depois entregues à violência de verdadeiros energúmenos.”

            A instrução passou para a mão dos jesuítas, e Escola Politécnica foi fechada; ao pé de cruzes armadas nas praças, queimavam-se aas obras de Rousseau, dos enciclopedistas e principalmente as de Voltaire.

            O professor tinha que ser sacerdote ou “redondamente clerical”; o aluno devia pertencer a família católica praticante.

            As famílias liberais e abandonadas mandavam educar os filhos fora do país. Foi nessa época que Allan Kardec foi enviado a Pestalozzi, em Iverdon, na Suíça.

            O autor, a quem tomo estes dados, estende-se sobre Pestalozzi, “um sábio no verdadeiro sentido da palavra”, “o maior pedagogo da Europa.”

            E além de sábio um altruísta, porque procurava ensinar aos que mais necessitavam de ensino: “Preferiu ir para o interior, a fim de ficar mais perto do povo... Sua reputação europeia principiou com os trabalhos sobre a educação da plebe.”

            Rivail foi um dos mais queridos discípulos de Pestalozzi. Quando, em 1825, o sábio octogenário fechou o seu Instituto, Hippolyte estabeleceu à Rua Sèvre nº 35, um colégio no gênero dos do mestre. Data dessa época, a sua obra. Casou-se em 1832 com a professora Amélia Boudet, tendo assim uma preciosa auxiliar na sua existência.

            Em 1835 pensa viver com as suas rendas e confia o seu capital a sócios que o deixaram paupérrimo; voltou, então, ao labor insano, au jour le jour. Trabalhava dia e noite; de dia, como contabilista, de noite fazia traduções e dava aulas.

            A sua divisa era o legado de Pestalozzi: trabalho, solidariedade e perseverança.

            “O longo tirocínio no magistério, iniciado aos quinze anos, dera-lhe ainda a faculdade de expor com clareza e escrever com elegância e precisão.

            “Completava-lhe o caráter invulgar um sólido conhecimento de filosofia e teologia, estudadas em plena liberdade de espírito, tolerância e amor à verdade, seguindo a propaganda de Rousseau, sistematizada por Pestalozzi e conforme os trabalhos formidáveis dos enciclopedistas do século 18.”

            Rivail começou a professar a ciência do Magnetismo em 1828.

            “Naquele tempo a Metapsíquica atravessava o chamado período do sonambulismo, (1815-1841), que sucedera ao período do calhiotrismo (1780-1785) por sua vez sucessor do período do mesmerismo (1780-1785).”

            Sentimos não poder transcrever as magníficas páginas que se seguem, com referência a esses períodos, pelo receio de passar por escamoteador de todo o belo trabalho do prezado amigo.

            O que aqui deixamos tem por fim espalhar, ainda que poucos, ensinos e períodos até agora limitados a uma revista, magnífica, mas esgotada, e existente apenas em mãos de alguns raros que a conservaram, percebendo-lhes o grande valor.

            Daqueles períodos mencionaremos, apenas, alguns tópicos sobre o Cagliostro, não só por elucidativos, como porque o que consta de escritores que se julgam entendidos, é que Cagliostro, não só por elucidativos, como porque o que consta de escritores que se julgam entendidos, é que Cagliostro era um refinado charlatão, que terminou nas garras da polícia.

            Ouçamos o Dr. Canuto Abreu:

                        “Cagliostro possuía sobre Mesmer vantagens excepcionais. Curava sem passes, sem caixas magnéticas, sem varas mágicas, sem outro processo que a simples imposição da mão. Não aceitava um vintém pelas curas, antes dava à mancheia esmolas a todos os necessitados que o procuravam. Por onde passava permanecia imperecível na memória de todos a lembrança de seus benefícios e de sua estranha prodigalidade. Parecia imensamente rico, imensamente sábio, imensamente bom. Tratava o pobre com afeição cristã, ouvindo-o atenciosamente, e o rico com altivez, negando-lhe às vezes até a palavra, quando algum mais atrevido lhe pretendia fazer valer os seus títulos nobiliárquicos ou suas posses. Conseguiu, assim, prestígio sem par no seio do povo e da corte. O rei chegou a decretar réu de lesa majestade quem se atrevesse a articular qualquer crítica menos respeitosa ao seu amigo Marquês de Cagliostro.

                        “O agente metapsíquico produzia, por seu intermédio, verdadeiras maravilhas, que não podem ser postas em dúvida diante do atestado d inúmeras pessoas conceituadas, salvo rasgando a história da Revolução Francesa. Ficaram céleres as suas ceias em que tomaram parte os mais prestigiosos vultos da Europa, e durante as quais realizava empolgantes sessões espíritas. Não só as almas dos mortos com as dos vivos obedeciam à evocação poderosa de Cagliostro, e vinham manifestar-se, ora através dum globo cheio d’água, ora, por intermédio de suas colombinas, que seriam mais tarde chamadas médiuns. Vozes diretas, aparições, até materializações tangíveis foram descritas por vários assistentes. Os mais severos críticos, os historiadores mais reservados e infensos ao Espiritismo, o próprio processo inquisitorial que Roma cuidadosa e pacientemente preparou contra Cagliostro para poder matá-lo, tudo atesta o seu grande poder metapsíquico e lhe assegura lugar de realce naquele período dentro do qual se processou a maior revolução da história moderna. Ele e seus companheiros foram acusados de ter preparado com sortilégios essa revolução, a queda da Bastilha, a perseguição ao clero, etc. Mas o certo, que ressalta da própria sentença do Papa, é que Cagliostro foi apenas clarividente como Gazzotte e a senhora de Lille, que no mesmo período profetizaram os diversos acontecimentos que se iam dar.

                        “Também é certo que, nas sociedades secretas, havia sempre iluminados, a dizerem coisas que estavam para se dar. Robespierre, Danton e outros chegaram  a ser aí batizados, com grande antecedência, como futuros salvadores da pátria.

                        “As cartas de Cagiostro ao rei, depois do escândalo do colar em que foi envolvido sem culpa, provam-lhe os poderes proféticos supranormais.

                        “A Revolução que ele previra e prefixava nos seus principais aspectos, o encontrou encarcerado no Castelo de Sant’Ângelo, em Roma, pelo crime de ser médium.

Quando o povo, triunfando do clero e da nobreza, marchou para libertar o seu médium, os santos inquisidores de Roma disseram-lhe:

                        ― José Balsamo acaba de morrer.

                        “Foi a última vítima da Inquisição”

                                                           *****

            E aqui paramos na transcrição dos excertos do distinto escritor patrício. A revista “Metapsíquica” também parou. A história de Kardec, não terminada, ficou em seu penúltimo número, e os leitores perderam o que, de melhor, até hoje, se poderia ter escrito sobre o Codificador do Espiritismo.

            Resta-nos esperar a continuação do estudo, em livro, como nos promete o erudito beletrista. E nessa espera reside toda nossa esperança.

                        inA Missão de Allan Kardec” de Carlos Imbassahy (Pai) ( 2ª Ed FEP– 1988)




O Paralítico... Meu Pai trabalha até agora... (em João)


O Paralítico da Piscina - Sua Cura

Meu Pai
         trabalha até agora...            



         5,1 Depois disso, houve uma festa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 5,2 Há, em Jerusalém, junto à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebraico “Betesda” e que tem cinco pórticos. 5,3 Neste pórtico jazia um grande número de  enfermos, de cegos, de coxos e de paralíticos, que esperavam o movimento da água. 5,4 (pois, de tempos em tempos, um anjo do Senhor descia  ao tanque e a água se punha em movimento. E, o primeiro que entrasse no tanque, depois da agitação das águas, ficava curado de qualquer doença que tivesse.) 5,5  Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. 5,6 Vendo-o deitado e sabendo que já havia muito que estava enfermo, perguntou-lhe Jesus: “ -Queres ficar curado?”   5,7  O  enfermo  respondeu-Lhe: -Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; enquanto isso, já outro desceu antes de mim.  5,8  Ordenou Jesus: “ -Levanta-te, toma o teu leito e anda!” 5,9  No mesmo instante aquele homem ficou curado, tomou o seu leito e foi andando. Ora, aquele dia era sábado! 5,10  e os judeus diziam ao homem curado: -É sábado, não te é permitido carregar o teu leito!
          
Para  Jo (5,1-17),  tomemos  “A Gênese”, de Allan Kardec:
                       
            “-Piscina- (da palavra latina piscis, peixe), entre os romanos, eram os reservatórios ou viveiros onde se criavam peixes. Mais tarde, o termo se tornou extensivo aos tanques destinados a banhos em comum.

            A piscina de Betesda, em Jerusalém, era uma cisterna, próxima ao Templo, alimentada por uma fonte natural, cuja água parece ter tido propriedades curativas. Era, sem dúvida, uma fonte intermitente que, em certas épocas, jorrava com força, agitando a água. Segundo a crença popular, esse era o momento mais propício às curas. Talvez que, na realidade, ao brotar da fonte a água, mais ativas fossem as suas propriedades, ou que a agitação que o jorro produzia na água fizesse vir à tona a vasa salutar para algumas moléstias. Tais efeitos são muito naturais e perfeitamente conhecidos hoje; mas então, as ciências estavam pouco adiantadas e à maioria dos fenômenos incompreendidos se atribuíam uma causa sobrenatural. Os judeus, pois tinham a agitação da água como devida a presença de um anjo e tanto mais fundadas lhes pareciam essas crenças, quanto mais viam que, naquelas ocasiões, mais curativa se mostrava a água.

            Depois de haver curado aquele paralítico, disse-lhe Jesus: “Para o futuro não tornes  a pecar, a fim de que não te aconteça coisa pior.” Por essas palavras, deu-lhe  a entender que a sua doença era uma punição e que, se ele não se melhorasse, poderia vir a ser de novo punido e com mais rigor, doutrina essa inteiramente conforme à do Espiritismo.  

            Para  Jo (5,1-10) -O Paralítico da Piscina - leiamos ainda a Bittencourt Sampaio em “Jesus perante a Cristandade”:

            “Somos todos paralíticos, junto ao tanque das ovelhas - Betsaida - a cujo fundo aspiramos descer, para a cura dos nossos males. Falecem-nos, é certo, a ação, o movimento; mas, se em nós existir a esperança, se tivermos vontade, se nos alentar a fé, teremos ao nosso lado, como há dezenove séculos, o Divino Cordeiro, para, dando-nos a mão, como fez ao paralítico, dizer-nos: Levanta-te e caminha!

            Os que, a todos os momentos, os que, a todos os instantes, sabem ter fé, os que sabem ter vontade, esses estão aptos para, levantando-se da inércia, terem o movimento do espírito, pois a fé, essa força incoercível, essa poderosa alavanca, que, na frase de N.S. Jesus-Cristo, transporta montanhas, reabilita o homem, elevando-o para o seu Deus, seu Criador e Pai!

            Mas, Jesus, levantando o paralítico, realizou um milagre, derrogou as leis da natureza?

            E - perguntarão os livre pensadores - então, para restabelecer enfermos de longos anos, basta a simples palavra?

            E o que será mais fácil, homens de ciência; formar planetas, com todas as suas propriedades físicas que conheceis e admirais, ou, fluidicamente apenas, atuar sobre organismos resfriados e inertes, dando-lhes a cura, que é o movimento e a ação?

            Percorrendo a História Sacra, encontramos Jesus realizando curas pela ação da lei dos fluidos, e nunca obrando milagres pela derrogação das leis estabelecidas pelo Criador; é assim que não o vemos dando membros ao corpo que os tivesse perdido.

            O que Ele fazia era do domínio da lei dos fluidos, que, por ser desconhecida dos homens, era por eles considerada sobrenatural, e o será até que chegue o momento de lhes serem desvendados os mistérios que o acanhamento da sua inteligência lhes não permite ainda compreender, e aos quais só poderão atingir quando livres da lepra do pecado, pela prática constante dos ensinamentos do Divino Modelo, puderem receber a luz que se transfunde das páginas do seu Evangelho!

Nota: grifos do blogueiro!
           



O Jejum (em Mateus)



O Jejum

6,16   Quando jejuares, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido, para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: Já receberam sua recompensa. 6,17 Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto.       6,18  Assim, não parecerá aos homens que jejuas mas somente a teu Pai que está presente em toda parte; e Teu Pai, que vê em toda parte, recompensar-te-á.

 Para Mt (6,16 -18), -O Jejum - leiamos trecho de “Elucidações Evangélicas”, de Antônio Luiz Sayão:

            “Compreende-se, é mesmo justo, louvável, meritório que nos privemos de alimentos, que restrinjamos a nossa alimentação ao estritamente necessário, para socorrermos o nosso irmão a quem falte o indispensável; porém, que enfraqueçamos o nosso corpo, deixando de alimentá-lo, em obediência a um preceito supostamente religioso, é simplesmente absurdo. Semelhante preceito só se concebe como obra de fanatismo, como imaginado por obscurantismo, que cifram toda a religião na observância de um formalismo absolutamente estéril. Quando mesmo se pudesse admitir que tais privações ritualísticas fossem do agrado de Deus, certo não o seriam, desde que praticadas publicamente, com ostentação.

            De salvar a alma é tudo o de que devemos e precisamos cogitar; mas, isso só o conseguiremos, elevando-a moralmente, purificando-a, mediante a prática da caridade, porta única da salvação. Se a nossa consciência nos disser que, para a esse efeito chegarmos, necessitamos fazer sacrifícios, façamo-los, porém de modo que todos redundem em benefício do Espírito. Esse o ensino do divino Mestre.

            Os judeus praticavam o jejum material; e Jesus, dizendo o que consta nos versículos que estamos apreciando, visou evitar que essa prática continuasse a oferecer ensejo para a hipocrisia e incentivo ao orgulho, tornando-se uma causa de acréscimo de responsabilidades e de maior transviamento dos que a ela se entregavam. Nenhum mérito tem aos olhos de Deus o que a criatura faça por ostentação, para ser vista, apreciada e louvada pelos homens.

            Jesus aconselhava e os seus mensageiros presentemente aconselham o jejum, mas o jejum espiritual, que consiste na abstenção de todo o mal, isto é, de todo mau pensamento, de toda má palavra, de todo ato que nos degrade aos olhos do nosso Criador. Jamais façamos consistir a prática do amor a Deus e ao próximo, mandamento que encerra toda a lei e os profetas, como o disse o Mestre divino, na observância daquela e de outras formalidades idênticas, que nada valem, porque em nada concorrem para a melhora espiritual das criaturas.”          


30 de Agosto



30   Agosto

Na corrida contra o tempo
Só vence quem se dedica
A aprender que, quando para,
Ele passa e a gente fica.


 Chiquito de Morais
por Gilberto Campista Guarino
in ‘Centelhas de Sabedoria’  (1ª Ed. FEB 1976)



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

29 de Agosto

29 Agosto


   Enquanto estamos na Terra,
mesmo entre luzes e flores
Para cada anjo da guarda
Temos cinco obsessores.


 Lulú Parola
por  Chico Xavier
in ‘Pássaros Humanos’  (1ª Ed. GEEM 1993)



domingo, 28 de agosto de 2011

08-09 / 09 Textos do Centenário



Mme Allan Kardec

                                                                                                   
por    A. Wantuil de Freitas
in Reformador (FEB) 1957

     Quem escreve estas linhas tem uma experiência conjugal de quase quarenta anos, e, por isso mesmo, não desconhece o alto valor, a importância deveras primordial, de uma esposa -companheira que partilhe compreensiva, o ideal do marido, ajudando-o de mil modos, confortando-o, estimulando-o nas horas difíceis e amargas por que sempre passam todos os sinceros idealistas e até mesmo os missionários que à Terra vêm com a finalidade de executar um plano já traçado nas Esferas Superiores.

     AMÉLIE BOUDET (Madame Allan Kardec), cujo retrato em policromia publicamos na capa desta revista, foi uma dessas mulheres-modelo. Inseparável do esposo viveu-lhe incessantemente a obra, esqueceu-se de si mesma para se consagrar aos elevados ideais que ele nutria, e que passaram a ser os seus. Não sabemos quantas vezes ela chorou às ocultas, em prece silenciosa, quando sua palavra de carinho e de reconforto não conseguia desanuviar a tristeza angustiosa que  às vezes envolvia o espírito de Allan Kardec.

     Primeiramente no trabalho educacional de um povo, e, depois, no de toda a Humanidade, através dos ensinos dados pelos Espíritos, ensinos esclarecedores de uma infinidade de problemas até então indecifráveis. – em todas as ocasiões Amélie Boudet foi sempre o braço direito do esposo, vencendo, juntos, galhardamente, os obstáculos e entraves naturais da vida entre os humanos.

     E quando o  imortal Kardec partiu, retornando à Pátria Espiritual, foi ela, essa mulher notável, quem consolidou a obra do Espiritismo, propagando-a por todos os meios, não permitindo fosse esquecida e esmorecesse, e para tamanho empreendimento não mediu sacrifícios, suportando, ainda, com serenidade e coragem, as invectivas injuriosas da parentela e do clero, tão intimamente ligada estava ao ideal do insigne Codificador da Terceira Revelação.

     É assim que prestando a este último a nossa homenagem, pelo transcurso do 1º Centenário d’O Livro dos Espíritos, cabe-nos igualmente homenagear Amélie Boudet, a alma gêmea de Kardec, e que durante trinta e sete anos foi um exemplo dignificante de verdadeira esposa e companheira.

*

     Madame Rivail (Allan Kardec) nasceu em Thiais, cidade do menor e mais populoso Departamento francês – o Sena, aos 2 do Frimário do ano IV, segundo o Calendário Republicano então vigente na França, e que corresponde a 23 de Novembro de 1795.

     Filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo tabelião, homem, portanto bem colocado na vida, e de Julie-Louise Seigneat de Lacombe, recebeu na pia batismal o nome de Amélie-Gabrielle Boudet.

     A menina Amélie, filha única, aliando desde cedo grande vivacidade a forte interesse pelos estudos, não foi um problema para os pais, que, a par de fina educação moral, lhe proporcionaram apurados dotes intelectuais.

     Após cursar o colégio primário, estabeleceu-se em Paris com a família, ingressando numa escola Normal, de onde saiu diplomada em professora de 1ª classe.

     Revela-nos o Dr. Canuto Abreu (1) que a senhorinha Amélie também foi professora de Letras e Belas Artes, trazendo de encarnações passadas a tendência inata, por assim dizer, para a poesia e o desenho. Culta e inteligente, chegou a dar à luz três obras, assim nomeadas: “Contos Primaveris”, 1825; “Noções de Desenho”, 1826; “O Essencial em Belas Artes”, 1828.

     Vivendo em Paris, no mundo das letras e do ensino, quis o Destino que um dia Srta. Amélie Boudet deparasse com o Prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail.

____________

(1)          “O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária”, in “Unificação”, Fevereiro de 1954.

     De estatura baixa, mas bem proporcionada, de olhos pardos e serenos, gentil e graciosa, vivaz nos gestos e na palavra, denunciando inteligência admirável. Amélie Boudet, aliando ainda a todos esses predicados um sorriso terno e bondoso, logo se fez notar pelo circunspecto Prof. Rivail, em quem reconheceu de imediato, um homem verdadeiramente superior, culto, polido e reto.

     “Os laços matrimoniais – declarou inspiradamente o poeta italiano Metastásio – se formam no Céu. “Rivail e Amélie eram duas almas afins que vieram com o propósito de na Terra se consorciarem e ampararem mutuamente. Entreolharam-se... Reacendeu entre os dois o amor, aquele verdadeiro amor que os unia de encarnações pretéritas... Afinal, em 6 de Fevereiro  de 1832,  firmava-se o contrato de casamento. Amélie Boudet tinha nove anos mais que o Prof. Rivail, mas tal era a sua jovialidade física e espiritual, que a olhos vistos aparentava a mesma idade do marido. Jamais essa diferença constituiu entrave à felicidade de ambos.

     Pouco tempo depois de concluir seus estudos com Pestalozzi, no famoso castelo suíço de Loehringen (Yverdon), o Prof. Rivail fundara em Paris um Instituto Técnico, com orientação baseada nos métodos pestalozzianos. Madame Rivail associou-se ao esposo na afanosa tarefa educacional que ele vinha desempenhando no referido Instituto Haia mais de um lustro.

     Grandemente louvável era essa iniciativa humana e patriótica do Prof. Rivail, pois, não obstante as leis sucessivas decretadas após a Revolução Francesa em prol do ensino, a instrução pública vivia descurada do Governo, tanto que só em 1833, pela lei Guizot, é  que oficial e definitivamente ficaria estabelecido o ensino primário na França.

     Em 1835, o casal sofreu um grande revés. Aquele estabelecimento de ensino foi obrigado a cerrar suas portas e a entrar em liquidação, e a quantia que coube a Rivail, confiada a um amigo de sua intimidade, jamais lhe retornou às mãos.

     Possuindo, porém esposa altamente compreensiva, resignada e corajosa, fácil lhe foi sobrepor-se a esses infaustos acontecimentos. Amparando-se mutuamente, ambos se lançaram a maiores trabalhos. Durante o dia, enquanto Rivail se encarregava da contabilidade de três casas comerciais, sua esposa colaborava de alguma forma na preparação dos cursos gratuitos que haviam organizado na própria residência, e que funcionaram de 1835 a 1840.

     À noite, novamente juntos, não se davam a descanso justo e merecido, mas improdutivo. O problema da instrução às crianças e aos jovens tornara-se para o Prof. Rivail, como o fora para seu mestre Pestalozzi, sempre digno da maior atenção. Por isso, até mesmo as horas da noite ele as dividia para diferentes misteres relacionados com aquele problema, recebendo em todos a cooperação talentosa e espontânea de sua esposa. Além de escrever novas obras de ensino, que, aliás, tiveram grande  aceitação o Prof..Rivail realizava traduções de obras clássicas, preparava os cursos de Lévi-Alvarés (2), frequentados por toda a juventude parisiense do bairro (Faubourg) de São Germano, e se dedicava ainda, em dias certos da semana, juntamente com sua esposa, a professorar as matérias estatuídas para os já referidos cursos gratuitos.

     “Aquele que encontrar uma mulher boa, encontrará o bem e achara gozo no Senhor” – disse Salomão. Amélie Boudet era dessas mulheres boas, nobres e puras, e que, despojadas das vaidades mundanas, descobrem no matrimônio missões nobilitantes a serem desempenhadas.

     Nos cursos públicos de Matemáticas e Astronomia que o Prof. Rivail bissemanalmente lecionou, de 1843 a 1848 (3), e nos quais assistiram não só alunos, que também professores no “Liceu Polimático” que fundou e dirigiu até 1850, não faltou em tempo algum o auxílio  eficiente e constante de sua dedicada esposa.

     Todas essas realizações e outras mais, a bem do povo, se originaram das palestras costumeiras entre os dois cônjuges, mas, como salientou a Condessa de Ségur, deve-se principalmente à mulher as inspirações que os homens concretizam. No que toca à Madame Rivail, acreditamos que em muitas ocasiões, além de conselheira, foi ela a inspiradora de vários projetos que o marido pôs em execução. Aliás, é o que nos confirma o Sr. P. G. Leymarie  (que com ambos privara) ao declarar que Kardec tinha em grande consideração as opiniões de sua esposa.

     Graças principalmente às obras pedagógicas do Prof. Rivail, adotadas pela própria Universidade de França, e que tiveram sucessivas edições, ele a senhora alcançaram uma posição financeira satisfatória.


(2)       Lévi-Alvarés (David-Eugène), ilustre professor e escritor pedagógico, nascido de pais israelitas em 1794, foi grande amigo do prof. Rivail, e das obras deste duas foram escritas coma a colaboração dele.

            Ainda bem jovem, Lévi-Alvarés criou cursos para elevar o nível de instrução das moças, seguindo um método que depois tomou o seu próprio nome. Em 1825 fundou, em Paris, um curso de educação maternal, que alcançou êxito e fama. Com o Sr. Lourmand, também instituiu, no Hotel-de-Ville, um curso normal para professoras. Escreveu vários livros, e tanto o seu filho quanto um sobrinho continuaram abnegadamente a sua obra. (G. Vapereau, “Dictionnaire Universel des Contemporains”.

(3)       Revue Spirite, n. 10 de 1904, pág. 579.

      O nome Denizard Rivail tornou-se conhecido nos meios cultos e além do mais bastante respeitado. Estava aberto para ele o caminho da riqueza e da glória, no terreno da Pedagogia. Sobrar-lhe-ia, agora, mais tempo para dedicar-se à esposa, que na sua humildade e elevação de espírito jamais reclamara coisa alguma.

     A ambos, porém, estava reservada uma missão, grandiosa pela sua importância universal, mas plena de exaustivos trabalhos e dolorosos espinhos.

     O primeiro toque de chamada verificou-se em 1854, quando o Prof. Rivail foi atraído para os curiosos fenômenos das “mesas girantes”, então em voga no Mundo todo. Outros convites do Além se seguiram, e vemos, em meados de 1855, na casa da Família Baudin, o Prof. Rivail iniciar os seus primeiros estudos sérios sobre os citados fenômenos, entrevendo, ali, a chave do problema que durante milênios viveu na obscuridade.

     Acompanhando o esposo nessas investigações, era de se ver a alegria emotiva com que ela tomava conhecimento dos fatos que descerravam para Humanidade novos horizontes de felicidade.

     Após observações e experiências inúmeras, o Prof. Rivail pôs mãos à maravilhosa obra da Codificação, e é ainda de sua cara consorte, então com 60 anos, que ele recebe todo o apoio moral nesse cometimento. Tornou-se ela verdadeira secretária do esposo, secundando-o nos novos e bem mais árduos trabalhos que agora lhes tomavam todo o tempo, estimulando-o, incentivando-o no cumprimento de sua missão.

     Sem dúvida, os espíritas muito devemos a Amélie Boudet e estamos de acordo com o que acertadamente escreveu Samuel Smiles: os supremos atos da mulher geralmente permanecem ignorados, não saem à luz da admiração do mundo, porque são feitos na vida privada, longe dos olhos do público, pelo único amor do bem.

     O nome de Madame Rivail enfileira-se assim, com muita justiça, entre os de inúmeras mulheres que a História registrou como dedicadas a fiéis colaboradoras dos seus esposos, sem as quais talvez eles não levassem a termo as suas missões. Tais foram, por exemplo, as valorosas esposas de Lavoisier, de Buckland, de Flaxman, de Huber, de Sir William Hamilton, de Stuart Mill, de Faraday, de Tom Hood, de Sir Napier, de Pestalozzi, de Lutero, e de tantos e tantos outros homens de gênio. A todas essas Grandes Mulheres, além daquelas muitas esquecidas pela História, a Humanidade é devedora eterna!

     Lançado o Livro dos Espíritos, da lavra de Allan Kardec, pseudônimo que tomou o Prof. Rivail, este, meses depois, a 1º de Janeiro de 1858, com o apoio tão somente de sua esposa, deu a lume o primeiro número da Revue Spirite, periódico que no próximo ano completará um século de existência grandemente benéfica para o Espiritismo.

     Havia cerca de seis meses que, na residência do casal Rivail, então situada à rua dos Mártires, nº 8, se efetuavam sessões bastante concorridas, exigindo da parte de Madame Rivail uma série de cuidados e atenções, que por vezes a deixavam extenuada. O local chegou a se tornar apertado para o elevado número de pessoas que ali compareciam, de sorte que, em Abril de 1858, Allan Kardec fundava, fora do seu lar, a “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”. Mas uma obra de grave responsabilidade!

     Tomar tais iniciativas naquela recuada época, em que o despotismo clerical ainda constituía uma força, não era tarefa para muitos. Havia necessidade de larga dose de devotamento, firmeza de vistas e verdadeiro espírito de sacrifício.

     Ao casal Rivail é que coube, apesar de todos os escolhos e perigos que se lhe deparariam em a nova estrada, empreender, com a assistência e proteção do Alto, a maior revolução de idéias de que se teve notícia  nos meados do século XIX.

     Allan Kardec foi alvo do ódio, da injúria, da calúnia, da inveja, do ciúme e do despeito de inimigos gratuitos, que a todo custo queriam conservar a luz sob o alqueire.

     Intrigas, traições, insultos, ingratidões, tudo de mal cercou o ilustro reformador, mas em todos os momentos de provas e dificuldades sempre encontrou, no terno afeto de sua nobre esposa, amparo e consolação, confirmando-se  essas palavras de Simalen: “A mulher é a estrela de bonança nos temporais da vida.”

     Com vasta correspondência epistolar, proveniente da França e de vários outros países, não fosse a ajuda de sua esposa nesse setor, sem dúvida, não sobraria tempo para Allan Kardec se dedicar ao preparo dos livros da Codificação e de sua revista.

     Uma série de viagens (em 1860, 1861, 1862, 1864, etc.) realizou Kardec, percorrendo mais de  vinte cidades francesas, além de várias outras da Suíça e da Bélgica, em todas semeando as ideias espíritas.

     Sua veneranda consorte, sempre que suas forças lhe permitiram, acompanhou-o em muitas dessas viagens, cujas despesas, cumpre informar, corriam por conta do próprio casal.

     Parafraseando o escritor Carlyle, poder-se-ia dizer que Madame Allan Kardec, pelo espaço de quase quarenta anos, foi a companheira amante e fiel do seu marido, e com seus atos e suas palavras sempre o ajudou em tudo quanto ele empreendeu de digno e de bom.

     Aos 31 de Março de 1869, com 65 anos de idade, desencarnava, subitamente, Allan Kardec, quando ultimava os preparativos para a mudança de residência.

     Foi uma perda irreparável para o mundo espiritista, lançando em consternação a todos quantos o amaram. Madame Allan Kardec, que partilhara com admirável resignação as desilusões e os infortúnios do esposo, agora, com os cabelos nevados pelos seus 74 anos e a alma sublimada pelos ensinos dos Espíritos do Senhor, suportaria qualquer realidade mais dura. Ante a partida do querido companheiro para a Espiritualidade, portou-se como verdadeira espírita, cheia de fé e estoicismo, conquanto, como é natural, abalada no profundo do ser.

     No cemitério de Montmartre, onde, com simplicidade, aos 2 de Abril, se realizou o sepultamento dos despojos do mestre, comparecia uma multidão de mais de mil pessoas. Discursaram diversos oradores, discípulos dedicados de Kardec, e por último o Sr. E. Muller, que logo no princípio do seu elogio fúnebre ao querido extinto assim se expressou: “Falo em nome de sua viúva, da que lhe foi companheira fiel e ditosa durante trinta e sete anos de felicidade sem nuvens nem desgostos, daquela que lhe compartiu as crenças e os trabalhos, as vicissitudes e as alegrias, e que se orgulhava da pureza dos costumes, da honestidade absoluta e do desinteresse sublime do esposo. Hoje, sozinha, é ela quem nos dá a todos o exemplo de coragem, de tolerância, do perdão das injúrias e do dever escrupulosamente cumprido.”

     Madame Allan Kardec recebeu da França e do estrangeiro numerosas e efusivas manifestações de simpatia e encorajamento, o que lhe trouxe novas forças para o prosseguimento da obra do seu amado esposo.

     Desejando os espiritistas franceses perpetuar num monumento o seu testemunho de profundo reconhecimento à memória do inesquecível mestre, consultaram nesse sentido a viúva, que, sensibilizada com aqueles desejos humanos mais sinceros, anuiu, encarregando desde logo uma comissão para tomar as necessárias providências. Obedecendo a um desenho do Sr. Sebille, foi então levantado no cemitério do Père-Lachaise um dólmen, constituído de três pedras de granito puro, em posição vertical, sobre as quais se colocou uma quarta pedra, tabular, ligeiramente inclinada, e pesando seis toneladas. No interior desse dólmen, sobre uma coluna também de pedra, fixou-se um busto, em bronze, de Kardec.

     Essa nova morada dos despojos mortais do Codificador foi inaugurada em 31 de Março de 1870, e nessa ocasião o Sr. Levent, vice-presidente da “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”, discursou, a pedido de Madame Allan Kardec, em nome dela e dos amigos.

     Cerca de dois meses após o decesso do excelso missionário de Lião, sua esposa, no desejo louvável de contribuir para a realização dos planos futuros que ele tivera em mente, e de cujas obras, revista e Livraria passou a ser a única proprietária legal, houve por bem, no interesse da Doutrina, conceder todos os anos certa verba para uma “Caixa geral do Espiritismo”, cujos fundos seriam aplicados na aquisição de propriedades, a fim de que pudessem ser remediadas quaisquer eventualidades futuras.

     Outras sábias decisões foram por ela tomadas no sentido de salvaguardar a propaganda do Espiritismo, sendo, por isso, bastante apreciado pelos espíritas de todo o Mundo o seu nobre desinteresse e devotamento.

     Apesar de sua avançada idade, Madame Alan Kardec demonstrava um espírito de trabalho fora do comum, fazendo questão de tudo gerir pessoalmente, cuidando de assuntos diversos, que demandariam várias cabeças.

     Além de comparecer a reuniões para as quais era convidada, todos os anos presidia à belíssima sessão em que se comemorava o Dia dos Mortos, e na qual, após vários oradores mostrarem o que em verdade significa a morte à luz do Espiritismo, expressivas comunicações de Espíritos Superiores eram recebidas por diversos médiuns.

     Se Madame Allan Kardec – conforme se lê em Revue Spirite de 1869 – se entregasse ao seu interesse pessoal, deixando que as coisas andassem por si mesmas e sem preocupação de sua parte, ela facilmente poderia assegurar tranquilidade e repouso à sua velhice. Mas, colocando-se num ponto de vista superior, e guiada, além disso, pela certeza de que Allan Kardec com ela contava para prosseguir, no rumo já traçado, a obra moralizadora que lhe foi objeto de toda a solicitude durante os últimos anos de vida. Madame Allan Kardec não hesitou um só instante.

      Profundamente convencida da verdade dos ensinos espíritas, ela buscou garantir a vitalidade do Espiritismo no futuro, e, conforme ela mesma o disse, melhor não saberia aplicar o tempo que ainda lhe restava na terra, antes de reúne se ao esposo.

     Esforçando-se por concretizar os planos expostos por Allan Kardec em Revue Spirite de 1868, ela conseguiu, depois de cuidadosos estudos feitos conjuntamente com alguns dos velhos discípulos de Kardec, fundar a “Sociedade Anônima do Espiritismo”.

     Destinada à vulgarização do Espiritismo por todos os meios permitidos pelas leis, a referida sociedade tinha, contudo, como fito principal, a continuação da Revue Spirite, a publicação das obras de Kardec e bem assim de todos os livros que tratassem de Espiritismo.

     Graças, pois, à visão, ao empenho, ao devotamente sem limites de Madame Allan Kardec, o Espiritismo cresceu a passos de gigante, não só na França, que também no Mundo todo.

     Estafantes eram os afazeres dessa admirável mulher, cuja idade já lhe exigia repouso físico e sossego de espírito. Bem cedo, entretanto, os Céus a socorreram. O Sr. P. G. Leymarie, um dos mais fervorosos discípulos de Kardec desde 1858, médium, homem honesto e trabalhador incansável, assumiu em 1871 a gerência da Revue Spirite e da Livraria, e logo depois, com a renúncia dos companheiros de administração da sociedade anônima, sozinho tomou sob os ombros os pesados encargos da direção. Daí por diante, foi ele o braço direito de Madame Allan Kardec, sempre acatando com respeito às instruções emanadas da venerável anciã, permitindo que ela terminasse seus dias em paz e confiante no progresso contínuo do Espiritismo.

     Parecendo muito comercial, aos olhos de alguns espíritas puritanos, o título dado à Sociedade, Madame Allan Kardec, que também nunca simpatizara com esse título, mas que o aceitara por causa de certa conveniência, resolveu, na assembleia geral de 18 de Outubro e 1873, dar-lhe novo nome: “Sociedade para a continuação das Obras espíritas de Allan Kardec”, satisfazendo com isso a gregos e troianos.

     Muito ainda fez essa extraordinária mulher a prol do Espiritismo e de todos quantos lhe pediam um conselho ou uma palavra de consolo, até que em 21 de Janeiro de 1883, às 5 horas da madrugada, docemente, com rara lucidez de espírito, com aquele mesmo gracioso e meigo sorriso que sempre lhe brincava nos lábios, desatou-se dos últimos laços que a prendiam à matéria.

     A querida velhinha tinha então 87 anos, e nessa idade, contam os que a conheceram, ainda lia sem precisar de óculos e escrevia ao mesmo tempo corretamente e com letra firme.

     Aplicando-lhe as expressões de célebre escritor, pode-se dizer, sem nenhum excesso, que “sua existência inteira foi um poema cheio de coragem, perseverança, caridade e sabedoria”.

     Compreensível, pois, era a consternação que atingiu a família espírita em todos os quadrantes do Globo.

     De acordo com os seus próprios desejos, o enterro de Madame Allan Kardec foi simples e espiriticamente realizado, saindo o féretro de sua residência, na Avenida e Vila Ségur n. 39, para o Pére-Lachaise, a 12 quilômetros de distância.

     Grande multidão, composta de pessoas humildes e de destaque, compareceu em 23 de Janeiro às exéquias junto ao dólmen de Kardec, onde os despojos da velhinha foram inumados e onde todos os anos, até à sua desencarnação, ela compareceu às solenidades de 31 de março.
    
     Na coluna que suporta o busto do Codificador foram depois gravados, à esquerda, esses dizeres em letras maiúsculas: AMÉLIE GABRIELLE BOUDET – VEUVE ALLAN KARDEC – 21 DE NOVEMBRE 1795 – 21 JANVIER 1883. (4)

     No ato do sepultamento falaram os Srs. P. G. Leymarie, em nome de todos os espíritas e da “Sociedade para a continuação das Obras espíritas de Allan Kardec”, Charles Fauvety, ilustre escritor e presidente da “Sociedade Científica de Estudos Psicológicos”, e bem assim representantes de outras Instituições e amigos, como Gabriel Delanne, Cot, Carrier, J. Camille Chaigneau, poeta e escritor, Lecoq, Georges Cochet, Louis Vignon, que dedicou delicados versos à querida extinta, o Sr. Josset e a distinta escritora Sra. Sofia Rosen-Dufaure, todos fazendo sobressair os reais méritos daquela digna sucessora de Kardec. Por fim, com uma prece feita pelo Sr. Warroquier, os presentes se dispersaram e silêncio.

     A nota mais tocante daquelas homenagens póstumas foi dada pelo Sr. Lecoq. Leu ele, para alegria de todos, bela comunicação mediúnica de Antônio de Pádua, recebida naquele mesmo dia, na qual esse iluminado Espírito descrevia a brilhante recepção com que elevados Amigos do Espaço, juntamente com Allan Kardec, acolheram aquele ser bem-aventurado.

     No improviso do Sr. P. G. Leymarie, este relembrou, em traços rápidos, algo da vida operosa da veneranda extinta, da sua nobreza d’alma, afirmando, entre outras coisas, que a publicação tanto d’O Livro dos Espíritos, cujo centenário agora festejamos, quanto da Revue Spirite, se deveu em grande parte à firmeza de ânimo, à insistência, à perseverança de Madame Allan Kardec. (5)

     Não deixando herdeiros diretos, pois que não teve filhos, por testamento fez ela sua legatária universal a “Sociedade para a continuação das Obras espíritas de Allan Kardec”. Embora uma parenta sua, já bem idosa, e os filhos desta intentassem anular essas disposições testamentárias, alegando que ela não estava em perfeito juízo, nada, entretanto, conseguiram, pois as provas em contrário foram esmagadoras.

     Em 26 de Janeiro de 1883, o conceituado médium parisiense Sr. E. Cordurié recebia espontaneamente uma mensagem assinada pelo Espírito de Madame Allan Kardec, logo seguida de outra, da autoria de seu esposo. Singelas na forma, belas nos conceitos, tinham ainda um sopro de imortalidade e comprovavam que a vida continua...

     Recentemente (6), referindo-se à inolvidável companheira do Codificador, o Sr. Hubert Forestier, que há pouco mais de um quarto de século dirige a Revue Spirite, assim se pronunciou: “De igual grandeza de alma, a esposa foi digna do esposo. Ela também prestou relevantes serviços à Causa espírita, à Causa que objetiva elevar o homem acima das torpezas, das vaidades e das misérias.”

(4)       Cometeu-se, como se vê, um engano, ao ser gravado o dia do nascimento, que foi realmente em 23. (Ver Henri Sausse, “Biographie d’Allan Kardec”, 4me. Ed., pág.22).
(5)       “Compte rendu des obsèques de Mme. Allan Kardec”, págs. 2 e 3 in “Revue Spirite”. 1869.
(6)       “La Revue Spiritie”, Maio-Junho de 1954.

     Dessa forma, no momento em que o Mundo comemora o Primeiro Centenário da Codificação, nós, os espiritistas brasileiros, não podíamos deixar de igualmente render ao grande vulto de mulher, que foi Amélie-Gabrielle Boudet, a nossa mais sincera homenagem, plena de respeito, admiração e profundo reconhecimento!



sábado, 27 de agosto de 2011

07 / 09 Textos do Centenário


                
Primeiro
 Capítulo
Irmão X
por Chico Xavier
in Reformador (FEB) Abril 1957


     Allan Kardec, o respeitável professor Denizard Rivail, já havia organizado extensa porção das páginas reveladoras que lhe constituiriam “O Livro dos Espíritos”.

     Devotado observador, aliara inteligência e carinho, método e bom senso na formação da primeira obra que lançaria os fundamentos da Doutrina Espírita.

     Não desconhecia que a sobrevivência da alma era tema empolgante no século. Entretanto, apontamento e experimentações, em torno do assunto, alinhavam-se desordenados e nebulosos. Os fenômenos do intercâmbio pareciam ameaçados pela hipertrofia de espectaculosidade.

     Saindo de humilde vilarejo da América do Norte, a comunicação com os Espíritos desencarnados atingira os mais cultos ambientes da Europa, originando infrutífero sensacionalismo. Era necessário surgisse alguém com bastante coragem para extrair do labirinto a linha básica da filosofia consoladora que os fatos consubstanciavam, irrefutáveis e abundantes.

     Advertido por amigos da Espiritualidade de que a ele atribuía, em nome do Senhor, a elevada missão de codificar os princípios espíritas, destinados à mais ampla reforma religiosa, pusera mãos ao trabalho, sem cogitar de sacrifícios. E adotando o sistema de perguntas e respostas, conseguira vasta colheita de esclarecimento e de luz.

     Guardava consigo preciosas anotações acerca da constituição geral do Universo, surpreendentes informes sobre a vida de além-túmulo e belas asserções definindo as leis morais que orienta a Humanidade.

     O material esparso equivalia quase que praticamente ao livro pronto. Contudo, era preciso estabelecer um ponto de partida. O primeiro compêndio do Espiritismo, endereçado ao presente e ao futuro, não podia prescindir de sólidos alicerces.

     E, debruçado sobre a mesa de trabalho, em nevada noite de inverno de 1856, o Codificador interrogava a si mesmo: - Por onde começar? Pelas conclusões científicas ou pelas indagações filosóficas? Seria justo desligar a Doutrina, que vinha consagrar o antigo ensinamento do Cristo, de todo e qualquer apoio da fé, na construção das bases que lhe diziam respeito?

     O conhecimento humano!... – pensava ele – não se modificava o conhecimento humano todos do dias? As ilações filosófico-científicas não eram as mesmas em todos os séculos... E valeria escravizar o Espiritismo à exaltação do cérebro, em prejuízo do sentimento?

     Atormentado, viu, mentalmente os homens de seu tempo e de sua pátria, extraviados na sombra do materialismo demolidor...

     A grande revolução que pretendera entronizar os direitos do Homem ainda estava presente no ar que ele respirava. Desde 2 de Dezembro de 1851, o governo de Luis Napoleão, que retomava as linhas do Império, permitia prisões  em massa, com deliberada perseguição aos elementos de todas as classe sociais que não aplaudissem os planos do poder. Muitos membros da Assembleia haviam sofrido banimento e mais de vinte mil franceses jaziam deportados, muitos deles sem qualquer razão justa. Homens dignos eram enviados a regiões inóspitas, quando não eram confinados, no cárcere, à morte lenta.

     O pensamento do missionário foi mais longe... Recordou-se de Voltaire e Rousseau, admiráveis condutores da inteligência, mas também precursores da ironia e do terror. Lembrou Condorcet, o filósofo e matemático, envenenando-se para escapar à guilhotina, e Marat, o médico e publicista, assassinado num banho de sangue, quando instigava a matança e a destruição.

     Valeria a cultura da inteligência, só por si, quando, a par dos bens que espalhava, podia desmandar-se em sarcasmo arrasador e loucura furiosa?

     Com o respeito que ele consagrava incondicionalmente à Ciência e à Filosofia, Kardec orou com todo o coração, suplicando a inspiração do Alto. Erguia-se-lhe a prece comovente, quando raios de amor lhe envolveram o espírito inquieto e ele ouviu, na acústica da própria alma, vigoroso apelo íntimo: - “Não menosprezes a fé!... Não comeces a obra redentora sem a Bênção Divina!...”

     E o Codificador, nimbado de luz, com a emotividade jubilosa de quem por fim encontrara solução a terrível problema, longamente sofrido, consagrou o primeiro capítulo de “O Livro dos Espíritos” à existência de Deus.