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quinta-feira, 31 de março de 2011

09-10/10 'O Livro dos Médiuns de Paulo, o Apóstolo' por Hermínio Miranda




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            O exercício da mediunidade sem amor é frio e inócuo. Os Espíritos, que sentem mais as nossa vibrações interiores do coração do que as palavras que pronunciamos, sabem se estamos realmente interessados nas suas dores e angústias ou se estamos apenas recitando palavras ocas de consolo estéril. Se atrás das palavras não está a sustentação do amor, eles não produzem os frutos da misericórdia, do despertamento, do arrependimento.
            E, assim, a exposição que Paulo iniciou declarando que iria ‘mostrar um caminho mais excelente’, ele a retoma para dizer que todos deveriam ‘buscar o amor, mas também aspirar aos dons espirituais’.
            Com isso, assegura que nem a mediunidade e nem o amor podem ficar estáticos, de braços cruzados; são dinâmicos. O amor é o caminho mais excelente, mas são prescinde da mediunidade como um dos seus veículos de atuação.
            Entra o apóstolo, a seguir, nos conselhos de ordem prática, dizendo por que prefere o dom da profecia, ou seja, a mediunidade de incorporação. É que a faculdade de falar em línguas estrangeiras a ninguém aproveita, se não estiver também presente quem possa interpretar e traduzir o pensamento expresso pelo Espírito manifestante.
            -- Desejo que faleis todos em línguas – diz ele em 14:15 -; prefiro, no entanto, que profetizeis. Pois, o que profetiza, supera o que fala em línguas, a não ser que também interprete, para que a assembléia se edifique.
            E, assim, o capítulo 14 é todo dedicado à classificação das faculdades, não quanto às pessoas que as exercem, de vez que Paulo já explicou que são todos membros do mesmo corpo, mas quanto à utilidade que têm tais faculdades para os que participam dos trabalhos mediúnicos.
            Sua preocupação maior aí é com o fenômeno das línguas desconhecidas que, ao que parece, estava assumindo certa predominância em Corinto, sem proveito para ninguém. Sua linguagem é extremamente engenhosa e precisa.
            -- Porque se oro em línguas (estranhas) meu espírito ora, mas minha mente permanece sem proveito. Então, que fazer? Orarei com o espírito mas orarei também com a mente (14: 14-15).
            Na verdade, se o Espírito transmite uma comunicação ou uma prece em língua desconhecida, o espírito do médium que está ligado ao manifestante certamente aproveita a mensagem, mas não consegue trazê-la para a sua consciência, a que Paulo chama de mente. Ao despertar, não sabe o médium o que disse o Espírito por seu intermédio, nem ninguém à sua volta sabe: “meu espírito ora, mas minha mente permanece sem proveito”.
            Ademais, prossegue Paulo, o fenômeno da mediunidade xenoglóssica impressionava muito aos descrentes, a que ele chama de infiéis, pela sua espetaculosidade, mas, para os crentes, era melhor a incorporação tranquila de um Espírito que, usando a língua corrente, transmitia a sua mensagem de edificação e estímulo, trazendo ensinamentos, advertências e instruções.
            -- Se, pois, se reúne uma assembléia e todos falam línguas e entram nela os não iniciados ou infiéis, não dirão que estais loucos? Pelo contrário, se todos se profetizam e entra um infiel ou não iniciado, será convencido por todos, julgado por todos. Os segredos do seu coração ficarão descobertos e, prostrado com o rosto em terra, adorará a Deus, confessando que Deus está verdadeiramente entre vós (14: 23-25).
            Paulo adverte aqui quanto à inconveniência de se dedicarem todos à xenoglossia, especialmente do efeito sobre os assistentes não familiarizados com as práticas da mediunidade cristã. Ao passo que, falando em linguagem que todos entendam, os resultados seriam muito melhores, de vez que os Espíritos, muito frequentemente, vão buscar nos assistentes os mais secretos pensamentos, o que causa grande impacto e mudanças de atitude pessoal.

10

            No seu admirável “Livro dos Médiuns”, Paulo não deixou de regulamentar nem mesmo a ordenação dos trabalhos. Todas as mediunidades poderiam ser exercitadas, desde que para edificação dos presentes. Apenas dois ou, no máximo três deveriam falar em línguas estranhas e que houvesse sempre um intérprete. Se não houver intérprete, o médium deve guardar silêncio, ou seja, em jargão espírita: não deve “dar passividade” ao Espírito manifestante, pois que a ninguém aproveitaria a sua comunicação.
            Quanto aos profetas, ou seja, médiuns de incorporação, que falem dois ou três ‘e os demais julguem’.  As comunicações não devem, pois, ser recebidas e aceitas sem análise e crítica, paar evitar enganos, fraudes e mistificações. Se alguém tem ainda algum Espírito a receber, cale-se o primeiro, ou seja, o que estava falando, pois todos devem exercitar suas faculdades com ordem e metodicamente, cada um por sua vez. E mais:
            - Os Espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas, pois Deus não é um Deus de confusão mas de paz.
            Notável advertência essa, em tão poucas palavras. Realmente, o médium não deve deixar que o Espírito faça com ele o que bem entenda; na mediunidade disciplinada, os Espíritos manifestantes estão sob o controle dos médiuns, pois Deus não é um Deus de confusão, mas de paz e, nos trabalhos realizados sob a proteção divina, não seriam admitidos tumultos.
            Ninguém mais na assistência deveria tomar a iniciativa de falar; regra que até hoje é observada nos bons grupos mediúnicos, nos quais são designados  aqueles que devem conversar com os Espíritos, não sendo permitido a ninguém mais dirigir-lhes a palavra, mesmo quando interpelados pelos manifestantes, a não ser que para isso autorizados.
            E conclui:
            - Portanto, irmãos, aspirai ao dom da profecia e não embaraceis que se fale em línguas, mas faça-se tudo com decoro e ordem.
            Assim termina Paulo seu Livro dos Médiuns’, roteiro preciosíssimo que teria garantido à Igreja nascente uma segura trilha evolutiva através dos séculos.  Onde estaríamos, hoje, em adiantamento espiritual, se a mediunidade tivesse sido preservada de acordo com os padrões que Paulo lhe fixou? Foi uma pena que esse filão ficasse abandonado tão cedo; as paixões humanas do poder temporal assim o determinaram. Nem tudo, porém, está perdido, porque sempre poderemos voltar sobre os nossos passos e remontar às fontes incontaminadas daqueles tempos iluminados. Mas quanto tempo se perdeu, quantos Espíritos se transviaram, quantas dores foram experimentadas, quantas sombras envolveram a terra, apenas porque alguns espíritos desavisados acharam que nem a mediunidade precisava do Cristianismo nem o Cristianismo, como movimento, precisava da mediunidade.
            Allan Kardec retomou a idéia, no século XIX. É bom, pois, que os Espíritas do século XX reexaminem as fontes do Cristianismo primitivo, buscando ali, como previu Paulo, as lições que se preservaram intactas.  O Apóstolo dos Gentios teve a intuição divina do futuro e o senso maravilhoso da História. Não é sem razão que o Cristo dizia dele que era um vaso escolhido. Jesus conhecia muito bem as dimensões daquele espírito e Paulo deu perfeito testemunho da confiança que o Mestre depositou nele, de tal maneira se integrou no pensamento de Jesus. Essa identidade profunda de propósitos e de entendimento, ele a expressaria numa das suas sínteses mais belas e mais geniais:
            - Não sou eu quem vivo, é o Cristo que vive em mim...         

07-08/10 'O Livro dos Médiuns de Paulo, o Apóstolo' por Hermínio Miranda




7

            Em Atos 22:17 e seguintes, no seu discurso aos irmãos da raça, em Jerusalém, quando é preso e salvo por Cláudio Lísias, Paulo conta que, certa vez, estando em prece no templo, teve a visão do Cristo que lhe dizia:
            - Apressa-te e vai a Jerusalém, pois não aceitarão ali o teu testemunho a meu respeito.
            Paulo respondeu ao Cristo manifestado que os de Jerusalém sabiam que ele perseguira cristãos e tomara parte na execução de Estevão, mas Jesus o esclareceu:
            - Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.
            No capítulo seguinte, ainda preso em Jerusalém, depois dos agitados embates com os seus irmãos de raça, que juraram sua morte de qualquer maneira, Paulo é novamente visitado por Jesus que lhe diz:
            -Ânimo! pois assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, também deves dá-lo em Roma.
            Na viagem por mar a Roma, Paulo pressente os perigos dos mares agitados e tenta convencer o comandante a esperar a passagem do inverno, mas a viagem prossegue. Quando o temporal se desata, como Paulo previra, e a pequena embarcação joga perigosamente à matroca, o terror toma conta de toda a tripulação e passageiros. A luta contra os elementos enfurecidos prolonga-se já há vários dias, quando Paulo lhes declarou:
            -Amigos, teria sido melhor que me houvesses escutado  e não tivéssemos saído ao mar em Creta; teríamos evitado estes perigos e teríamos poupado tantas perdas (muita carga havia sido jogada ao mar). Mas agora lhes recomendo que tenham bom ânimo; nenhuma de suas vidas se perderá; somente o navio, pois está noite apresentou-se a mim um anjo do Deus a Quem pertenço e a Quem rendo meu culto e me disse: ‘Não temas, Paulo; tens que comparecer diante de César; e olha, Deus te concedeu a vida de todos os que navegam contigo.’ Portanto, amigos, ânimo! Tenho fé em Deus que sucederá tal como me foi dito. Iremos dar em alguma ilha (Atos 27: 9-25).
            Aí está como se passaram as coisas e mais uma vez Lucas é testemunha ocular, pois viaja em companhia de Paulo e Timóteo para Roma. Os Espíritos trouxeram a Paulo a certeza de que ele ainda teria que defrontar-se a Paulo a certeza de que ele ainda teria que defrontar-se com Nero, e, enquanto isso, nada aconteceria capaz de tirar-lhe a vida. Também se salvariam os que partilhavam o seu destino naquele instante. E assim foi.

8
           
            Também nas epístolas surgem referências aos aspectos mediúnicos das tarefas apostolares.
            Na primeira, aos coríntios, capítulo 2, Paulo informa aos seus amigos que não se dirigiu a eles da primeira vez com o prestígio da sua oratória, nem da sua sabedoria.
            - Minha palavra, diz ele, e minha pregação não tiveram nada dos persuasivos discursos da sabedoria, senão que foram uma demonstração do espírito e do poder, para que vossa fé se fundasse, não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus (versículos 4 e 5).  
            No capítulo 10 volta a informar sobre a origem dos seus conhecimentos:
            - Porque a nós revelou Deus, por meio do espírito e o espírito a tudo sonda, até as profundidades de Deus.
            Quem poderia tentar sondar as verdades superiores do universo ‘até as profundidades de Deus’ senão o espírito?
            No capítulo 12 da segunda Epístola aos Coríntios, Paulo narra a sua singular experiência de desdobramento, quando foi ‘arrebatado até o terceiro céu’. As visões e revelações que ali recebeu – contava ele 14 anos depois – nem sequer poderia expressá-las em linguagem humana.
            Aos gálatas, desviados do roteiro que traçara e recaídos na inútil observância de alguns preceitos da lei antiga, interpela indignado (Gal. 3:1-5):
            - Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós a cujos olhos se apresentou Jesus crucificado? Quero saber de vós uma coisa: recebestes o espírito pelas obras da lei ou pela fé na pregação? Tão insensatos sois? Começando pelo espírito terminais agora em carne? Haveis passado em vão por essas experiências? Pois bem, tudo seria em vão! O que vos outorga, pois, o espírito e opera milagres entre vós fá-lo porque observais a lei ou por que tendes fé na pregação?
            Depreende-se, pois, que a Igreja da Galácia, depois de experimentar tantos fenômenos mediúnicos notáveis, recai na prática antiga, voltando à observação das ‘obras da lei’. Para que, se já tem um testemunho muito superior que é a manifestação mediúnica, o intercâmbio com os amigos da espiritualidade?
            Na primeira carta a Timóteo, Paulo dá notícia de uma observação colhida no mundo espiritual:
            - O Espírito diz claramente – escreve ele no capítulo 4, versículos 1 e seguintes – que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé entregando-se a espíritos enganadores que têm marcada a fogo sua própria consciência (I Tim. 4:1-2).
            E como estava certo o espírito que que transmitiu essa mensagem!
            Aliás, Timóteo também fora iniciado na prá tica mediúnica e conhecia bem os mecanismos da mediunidade abençoada pela fé. Também recebera orientação espiritual quanto à sua vida. É o que diz Paulo, ainda na primeira Epístola, capítulo 1, versículos 18 e seguintes:
            -Esta é a recomendação, filho meu. Timóteo, que te faço de acordo com as profecias pronunciadas sobre ti anteriormente.
            Na segunda Epístola ao discípulo amado, já nos últimos dias da sua vida terrena, consta ainda a recomendação extrema para que continue a prática mediúnica:
            Por isto te recomendo que reavives o carisma de Deus que está em ti pela imposição de minhas mãos (II Tim. 1:6).
            Em linguagem moderna, Paulo diria: recomendo que pratiques a mediunidade com Deus, o qual despertei em ti por meio de passes.
            Aos hebreus, lembra Paulo que, nos tempos bíblicos da lei antiga, os anjos que anunciavam acontecimentos futuros e traziam advertências e ensinamentos não eram senão ‘espíritos servidores com a missão de assistir os que hão de herdar a salvação’. (Hebr. 1:14). A não ser o conceito de salvação que o Espiritismo reformulou, a expressão é do mais perfeito e atualizado contexto espírita: os antigos anjos são Espíritos servidores com a missão de assistir os homens... Aliás, a palavra grega correspondente a anjo quer dizer mensageiro.
            Só isso bastaria pata testemunhar o profundo conhecimento que Paulo alcançou dos mecanismos da mediunidade, mas há mais, muitíssimo mais. Este repositório, de enorme valor histórico e doutrinário, está contido nos capítulos 12, 13 e 14 da sua notável Epístola aos Coríntios, a primeira. Esse texto foi, na realidade, o precursor de ‘O Livro dos Médiuns’, que aparece mil e novecentos anos depois, sob a responsabilidade de Allan Kardec.
            Ao que se depreende da sua epístola, as práticas mediúnicas na Igreja de Corinto estavam ficando tumultuadas. Paulo resolve então fixar cuidadosamente as normas, no que revela um conhecimento extraordinariamente avançado para aqueles tempos. Essa experiência somente poderia  decorrer da longa prática e atenta observação por parte de seu penetrante espírito.
            Quanto aos dons espirituais, não quero, irmãos, que estejais na ignorância – começa ele o capítulo 12.
            Previne contra os Espíritos que desejam semear a dúvida e a discórdia, dizendo que nenhum mensageiro ‘sob o influxo do espírito de Deus’ falaria contra Jesus e nenhum reconheceria a autoridade dele, se não viesse da parte de Deus.



34/50 'Crônicas Espíritas' por Frederico Figner




34CM

      VII

             Diz ainda monsenhor Martins:
            “A Igreja proíbe de ler livros, jornais, revistas que contêm doutrina, exemplos, comentários adversos à doutrina.”
            Isto apenas demonstra o medo que a Igreja tem de os seus adeptos serem esclarecidos sobre os erros que ela ensina e assim deixem de encher continuamente as suas arcas com o produto das promessas, promessas estas que não passam de tentativa de suborno da misericórdia divina. E poderá alguém que raciocine admitir que Jesus, ou a Virgem possam ser subornados ou comprados?
            E continua: “A Igreja proíbe de se ter intimidade, amizade com os que são casados só civilmente”.
            Não parece isto uns ares de vingança por não ter o freguês pago ao padre os honorários do casamento religioso? Felizmente, esta proibição os católicos não a cumprem, compreendendo que o amor ao próximo abrange a todas as criaturas, ainda que a sua igreja assim o não queira compreender.
            E mais: “A igreja manda-nos amar o nosso próximo, principalmente a sua alma”.
            Este mandamento parece ter sido formulado por um diplomata à La Luxburg e, como os seus famosos telegramas, explica-se logo adiante no livrinho que comento onde “manda dar esmolas aos verdadeiros pobres”, e se o doador não tiver tempo para indagar quais são os verdadeiros, amará só a alma do infeliz que lhe estende a mão. Que velhacaria!
            Diz ainda: “A igreja manda concorrer cada um na medida das suas posses com o óbolo para as despesas do culto”... (às imagens) para que o pároco possa construir alguns prédios para renda e bem estar da sua prole. Pelo menos é o que ser observa.
            E finaliza: “Eis a chave de ouro com que quero e devo fechar esta parte, referente à divindade da igreja católica apostólica Romana. O grande São Cipriano (que isca!) dizia: Quem não tiver a igreja como Mãe, não terá Jesus Cristo como Pai.”
            É pena que S. Cipriano não esteja encarnado agora, pois serviria admiravelmente para diplomata da Santa Sé, quando ela se vir excluída do próximo congresso da paz.
            Com que então Jesus é Pai? E o monsenhor tem a coragem de repetir semelhante heresia? Admira o desplante com que se mente aos fiéis que não têm meios de procurar a verdade! Jesus ensinou: “A ninguém chameis pai vosso sobre a terra; porque um só é vosso Pai que está nos céus, nem vos intituleis mestres; porque um só é vosso mestre, o Cristo.” (S. Mateus, 23:9 e 10) Estes ensinos, Jesus os pronunciou para deixar demonstrada a diferença entre ele e o Pai, sabendo de antemão que a Igreja Católica ia deificá-lo.
            Quanto à Igreja ser mãe, ninguém ignora que ela de fato o é, mas tão somente do clero e dos sacristães. Do resto do povo, porém, é madrasta que explora os seus enteados em proveito dos filhos, com promessas que ela sabe não podem ser cumpridas.
            E por dizermos a verdade, monsenhor Martins, como voz da Igreja, proíbe “que os católicos tenham intimidade e amizade com os inimigos da sua religião”. S. Rev., porém, cita o provérbio – “quem avisa amigo é”, e falando eu com esta franqueza, não é isto uma prova de que o meu coração transborda de amizade por todos e especialmente pelo clero, não trepidando diante da ira de alguns para salvar a todos do abismo a cuja beira se acham, desejando a felicidade de todos na vida espiritual, pois que a atual não é mais do que a conseqüência dos desmandos da Humanidade de todos os tempos, que é sempre a mesma, reencarnado e desencarnando, vida de expiação, reparação e provação?
            O purgatório que a Igreja prega, sem saber explicar o seu paradeiro, é este mundo. É o que os Espíritos explicam e mais: que a presente época é a última ocasião que a Humanidade terrena terá para modificar a sua moral e resgatar as suas faltas, pois que chegou o tempo predito por Jesus, e os recalcitrantes serão repelidos para planetas muito mais atrasados que o nosso, onde terão de viver e progredir, planetas onde haverá choro e ranger de dentes para aqueles que já estavam acostumados às comodidades deste mundo.
            Não é o caso de se meditar seriamente sobre os ensinos do Cristo, orar e vigiar constantemente e fazer o maior esforço possível para andar de acordo com o Evangelho de Jesus, de preferência a aceitar os erros que a Igreja Católica Apostólica Romana ensina?

33/50 'Crônicas Espíritas' por Frederico Figner




33CM

        VI
  
            Prosseguindo, diz monsenhor Martins no seu livrinho: “Na nova lei, que é o complemento da antiga, Jesus Cristo elevou o preceito antigo sobre a confissão à categoria do sacramento”.
            Peço licença para contradizê-lo ainda nesta sua asserção, pois em nenhum versículo do Evangelho, dos referentes às palavras pronunciadas por Jesus, se encontra uma só palavra que trate da confissão. Portanto, mais uma vez monsenhor deturpou a verdade. Não acha?
            Mais adiante, monsenhor diz: “Jesus deu aos sacerdotes o direito e o poder de, em seu nome e pela sua autorização, conceder ou negar o perdão. Essa importantíssima verdade acha-se claramente exarada no Evangelho. Depois da sua gloriosa ressurreição, Jesus Cristo, aparecendo aos seus apóstolos, disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; e àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem não perdoardes, não lhes serão perdoados”.
            Estas foram de fato as palavras de Jesus aos apóstolos. Mas, quem eram os apóstolos? Espíritos de escol celeste que baixaram com Jesus para acompanhá-lo em sua missão. Espíritos que resistiram a todas as tentações do mundo; que davam de graça as misericórdias que por seu intermédio o Senhor distribuía; que nunca se deixaram seduzir pelos bens terrenos; que, de acordo com os preceitos de Jesus, praticaram todas as maravilhosas curas que Jesus praticou. Inspirados pelo Espírito Santo (os Espíritos superiores) eles estavam aptos para conhecer o íntimo das criaturas que os procuravam. Não é isso que o Evangelho diz, monsenhor?
            Não é uma história edificante a dos Atos dos Apóstolos? Como eles se indignaram, rasgando as túnicas, quando o povo os quis adorar! Quais os atos do clero romano para merecer a assistência desse Espírito Santo que assistia e inspirava os apóstolos? Será o de deixar os crentes ajoelharem-se diante deles e beijar-lhes as mãos? Serão as presumidas graças negociadas pela Igreja? Qual é a sua obra?
            Com licença do monsenhor, vou mostrar-lhe uma delas. A Igreja prega e monsenhor mesmo ensina que: “Com a confissão feita ao sacerdote basta a contrição imperfeita para conseguir o perdão dos pecados mortais.” “O simples fato, de depois outra vez cometer o pecado, não prova falta de sinceridade, nem na contrição, nem no propósito.” “Ganham cada vez 300 dias, e, recitando-a diariamente durante um mês, uma indulgência plenária os que recitarem a seguinte oração: Eternamente e além seja louvado, etc., etc.”
            Nada mais barato!
            Ouvindo o povo desde criança estes ensinos hipócritas, naturalmente chega à conclusão que são eles uma verdade. E quais os resultados? Os dirigentes dos povos, estando uns criados na Religião Católica, e outros na Protestante que ensina “Crê em Jesus e serás salvo”, desencadearam tremendas guerras sobre o mundo, certos de que, dizendo que crêem em Jesus uns, e confessando-se mesmo com uma contrição imperfeitíssima outros, perdoados lhes seriam os seus pecados.
            Eis a obra das Igrejas!!!
            Mas Deus que vela pelas suas criaturas, e que “não quer a perda de nenhum dos seus filhos, e sim que eles se convertam”, permite, devido à maldade deles, que o fogo desça sobre eles para purificá-los. Mas “ai daquele por quem vier o escândalo”, disse Jesus. Para a Igreja está prestes a descer a profecia do Apocalipse exarada nos capítulos 17 e 18. Com a queda das dinastias, que com a besta (cap. 13) se conspurcavam, está a suceder-lhe o que o Senhor diz a João, no sonho apocalíptico: “Porque os seus pecados já se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniqüidades dela. Tornai-lhe como ela vos tem dado, e duplicai-lhe em dobro conforme as suas obras: No cálice que ela vos deu de beber, dai a ela o dobro”.
            A besta tem o número 666. (Apoc., cap. 13)
            Os títulos que o papa usa são os seguintes: Dux Cleri, Vicarius Filii e Vicarius Generalis Dei in  Terris.

            Dux Cleri: D -- 500, U – 5, X – 10, C – 100, L – 50, I –1: total: 666
            Vicarius Filii Dei: V – 5, I – 1, C – 100, I – 1, U – 5, I – 1, I – 1, D – 500, I – 1: total: 666
            Vicarius Generalis dei in Terris: V – 5, I –1, C – 100, I – 1, U – 5, L – 50, I – 1, D – 500, I – 1, I – 1: total: 666

            Serão estes números também a prova da santidade da Igreja?
            Imaginem-se apenas os crimes da Inquisição, fora os que praticaram aqueles que foram mal aconselhados pela Igreja e pelos quais ela também é responsável; como não será amargo o cálice que a Igreja terá que sorver.
            Que o Senhor tenha misericórdia da Igreja!
            

32/50 'Crônicas Espíritas' por Frederico Figner




32CM

                V

            Pensando ter demonstrado a divindade da sua Igreja, monsenhor Martins, entrando nas lógicas conseqüências que daí advêm, diz:
            “Todo aquele que conhece a religião católica, se não procurar a ela pertencer, será um criminoso perante Deus e com toda a certeza não poderá salvar-se.” (Então estou perdido, mas antes só do que mal acompanhado). E continua: “Todos os que pertencem à igreja católica devem firmemente acreditar (se puderem) em todos os seus ensinos, mesmo em relação aos mais profundos e impenetráveis mistérios, mesmo que eles lhes pareçam absurdos, porque, se ela em um só ponto ensinasse o erro, não seria mais divina.
            Vejamos esses dois pontos.
            Monsenhor não ignora que cada criatura pensa como pode e como quer. Eu, por exemplo, nasci judeu, criei-me na religião israelita, e como os judeus eram o povo perseguido pelos católicos no tempo da minha juventude, naturalmente cresci com aversão à Igreja Católica, a qual era a instigadora dessas perseguições. Não conhecia a sua religião, e como o meu espírito nunca achou prazer em assistir a festas pomposas, não foi atraído pelas procissões carnavalescas da sua Igreja nem pelas festas às nossas senhoras onde o povo se embriaga, onde se adora o deus mamon e onde as criaturas vão levar promessas de bonecos, pernas, braços e velas de cera à Igreja, para ela, pelas costas do freguês, as mandar revender continuamente.
            Naturalmente, ao contato do mundo, cheguei a conhecer muitos dos atos e dogmas da Igreja, e agora pelo seu livrinho fui esclarecido sobre aquilo que ainda ignorava. E com toda franqueza lhe digo: eu preferiria ficar um criminoso perante Deus, a mentir à minha consciência.
            No entanto, um milagre se operou em mim, produzido por esse mesmo Jesus a quem neguei e a quem a Igreja invoca sem n’Ele crer. Por causa de um diagnóstico e um prognóstico sobre uma senhora doente em S. Paulo, a quem o médium daqui não podia conhecer e a qual foi por ele curada, li as obras de Allan Kardec e tornei-me sincero adepto do Espiritismo, um crente e venerador do Cristo e da Virgem, porém dos Espíritos e não das imagens que a Igreja explora em proveito dos seus sacerdotes.
            Quanto ao segundo ponto, já pela boca de Moisés, o Senhor proibiu a adoração das imagens. E a Igreja diz que se baseia a sua divindade no Velho e Novo Testamento! Moisés recebeu o mandamento: “Não vos virareis para os ídolos, nem farei para vós deuses de fundição: Eu sou o Senhor vosso Deus.” (Lev., 19:4), e, “Não fareis para vós ídolos, nem vos levantareis imagens de escultura, nem estátua, nem poreis pedra figurada na vossa terra para inclinar-vos a ela: porque Eu sou o Senhor, vosso Deus.” (Lev., 26:1). Nos Salmos diz David: “Confundidos sejam todos os que servem imagens de escultura, que se gloriam de ídolos.” (Salm. 97, v.7). No Evangelho ensina Jesus: “Deus é espírito e importa que os que o adoram o adorem em espírito e verdade.” (João, 4:23, 24)
            Logo, as imagens são proibidas tanto por Moisés, David e outros profetas como pelo Cristo; e para cúmulo de desfaçatez a Igreja pinta um velho barbado sobre o altar-mor, representando Deus! E assim seguem os preceitos sagrados!
            Depois vêm as indulgências. Monsenhor por acaso pode mostrar-me nas Escrituras uma só passagem sobre as quais elas se possam basear?
            Jesus claramente disse: “A cada um será dado segundo as suas obras”. “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. “Não sairás do cárcere sem pagar o último ceitil”.
            No entanto, Roma vendia bulas a todos, e de acordo com as posses do freguês! Agora, não; mas enquanto tinha debaixo do seu guante os monarcas da Idade Média, um assassino, foragido da sua aldeia com medo das autoridades, ia ao primeiro convento que encontrava e comprava uma indulgência, a qual.
além de lhe servir de salvo-conduto, o absolvia do crime e ainda lhe dava o direito ao reino dos céus. Não é isso, monsenhor?  Semelhantes traficantes podem estar com Jesus? Não foram as bulas que deram lugar à cisão na Igreja e deram nascimento ao Calvinismo e ao Luteranismo?
            Não são já dois pontos e não somente um, em que está demonstrado que a Igreja está ensinando o erro? Confesse, monsenhor, que os dias da besta do Apocalipse estão contados?


Luis XI - Confissões...' por Kleber Halfeld - Parte 04/04




4
             Fazendo uma apreciação sobre a “História de Luís XI”, recebida mediunicamente por Ermance Dufaux, o Codificador esclarece:

            “Este trabalho, um dos mais preciosos no gênero, contém documentos precisos do ponto de vista histórico. Aí Luís XI se mostra o profundo político que conhecemos; além disso, dá-nos a chave de vários fatos até aqui inexplicados. Do ponto de vista espírita é uma das mais curiosas mostras de trabalhos de fôlego produzidos pelos Espíritos. A este respeito  duas coisas são particularmente notáveis: a rigidez de execução - bastaram 15 dias para ditar a matéria de um grosso volume - e, em segundo lugar, a lembrança tão precisa que pode um Espírito conservar de acontecimentos da vida terrena. Aos que duvidassem da origem deste trabalho e o atribuíssem à memória de Mademoiselle Dufaux nós diríamos que na verdade seria preciso que uma criança de 14 anos tivesse uma memória fenomenal e uma  não menos extraordinária precocidade, para que pudesse escrever de uma assentada uma obra dessa natureza. Mas, admitindo que assim fosse, perguntamos onde essa criança teria obtido as explicações inéditas da sombria política de Luís XI e se não teria sido mais interessante que seus paias lhe atribuíssem o mérito. Das diversas histórias escritas por seu intermédio, a de Joana d ‘Arc é a única publicada. Fazemos votos por que em breve as outras o sejam e lhes prevemos um sucesso tanto maior quanto mais espalhadas hoje se acham as idéias espíritas.”(Destaquei.)[1]

              Um fato que à época deixou perplexa a França, foi a concessão que Luís XI fizera ao Conde de Charolez, ou seja, a entrega ao mesmo da tenência da Normandia, paralelamente com uma pensão de 36000 libras.
            Confessavam os franceses que não podiam compreender ‘como um rei que era tão grande político, comete um erro tamanho’.
            Este pormenor, contudo, incluso na “História de France”, de Velly, teria seu esclarecimento. E este seria localizado na obra mediúnica recebida por Ermance Dufaux.
            O próprio Codificador, a esse respeito, assumiu uma posição firme:
           
            “As explicações dadas por Luís XI são difíceis de contestar, desde que confirmadas por três atos de todos conhecidos: a conspiração de Constain, a viagem do Conde de Charolez em seguida à execução do culpado e enfim, a obtenção por este príncipe da tenência geral da Normandia, província que reunia os Estados do Duque de Borgonha e do da Bretanha, inimigos sempre ligados contra Luís XI.”

            Vejamos, a seguir, o que de fato ocorreu, baseados na explicação dada pelo Rei Luís XI e que “Revista Espírita” publicou no número de março de 1858.
            O soberano odiava esse Conde, filho do Duque de Borgonha, confessando mesmo  que havia muitas razões para mandar envenená-lo e que a idéia de um crime não mais o espantava.
            Idealizou, dessa forma, um plano.
            Conseguiu, de início, seduziu um despenseiro, Jean Constain, o qual por sua vez, conquistou a adesão de Jean d’Ivy, mediante a promessa de considerável soma que seria paga tão logo ele se desincumbisse do envenenamento do Conde. Que, diga-se de passagem, logrou escapar.
            Apresentando-se posteriormente a Constain para receber o dinheiro, esse ao invés de pagá-lo, o cobriu de injúrias. D’Ivy jurou então vingar-se, o que realmente fez, denunciando Constain ao Conde de Charolez.
            Preso Constain, foi conduzido ao Castelo de Rippemonde.
            Receoso de ser torturado, tudo confessou, exceto a participação de Luís XI no plano, esperando ser por ele libertado. Já estava para ser decapitado quando resolveu entrevistar-se como Conde de Charolez, tendo então denunciado a participação do rei na tentativa de homicídio.
            Entretanto, apesar da denúncia, Constain não foi poupado e acabou sendo decapitado, sorte que teve igualmente d’Ivy.
            E agora, o ponto chave do acontecimento.
            Cedamos a palavra ao Espírito comunicante, ou seja o próprio Rei Luís XI:
            “Quando o Conde veio a Tours, pediu-me uma entrevista particular; nela deixou extravasar todo o seu furou e cumulou-se de censuras. Acalmei-o dando-lhe a tenência geral da Normandia e a pensão de 36 mil libras; a tenência geral não passou de um título decorativo; quanto à pensão recebeu apenas o primeiro pagamento.”

            Explicava essa página de forma clara e convincente, a razão das outorga, ao Conde de Charolez, da tenência da Normandia e da pensão de 36 mil libras.
            Era a forma que ele, Luís XI, achara para fazer calar o Conde...
            Não constituía, como julgava a maioria do povo francês (alheio à trama urdida), um erro do soberano, sempre esperto em seus lances políticos.
            Através da mediunidade de uma menina de 14 anos ficava esclarecido um ponto obscuro da história política da França!
                                   *
            O capítulo referente à triste quão dolorosa desencarnação de Luís XI, retratada na obra que ele ditou a Ermance Dufaux, se não tivesse o valor de acrescentar algo de novo aos historiadores, teria, entretanto, o mérito de constituir uma página tocante da literatura francesa.
            Retrata ela o isolamento por parte de quem obsequiara - embora de forma interesseira -, milhares de súditos; o desprezo refletido em dois acompanhantes; a fidelidade de uma velha galga, impiedosamente morta a bordoadas junto ao leito de morte de sue dono; a consoladora presença de Francisco de Paula[2] que deixando de lado as mazelas cometidas pelo rei que agonizava, o conforta com palavras repassadas de amor e firmeza.
            Luís XI descreve a própria desencarnação:
           
            “Não me sentindo bastante firme para ouvir pronunciar o vocábulo morte, muitas vezes eu havia recomendado a meus oficiais que apenas me dissessem quando me vissem em perigo: “Falai pouco.” E eu saberia o que isto significa.
              Quando não me restava mais esperanças, Olivier le Daim me disse duramente, em presença de Francisco de Paula e de Coittier:
              - Majestade, temos de nos desobrigar de um dever. Não tenhais mais esperanças neste santo homem (referindo-se a Francisco de Paula), nem em qualquer outro; chegais ao fim; pensai em vossa consciência; não há mais remédio.
              A tais palavras cruéis operou-se em mim uma revolução completa: eu já não me sentia o mesmo homem e admirava-me de mim mesmo. O passado desenrolou-se rapidamente a meus olhos[3] e as coisas me apareceram sob um aspecto novo. Um não sei que de estranho se passava em mim. Fixando-me, o duro olhar de Olivier le Daim parecia interrogar-me. Para me subtrair a esse olhar frio e inquisidor, respondi com aparente tranqüilidade:
            - Espero que Deus me ajude. É talvez possível que eu não esteja tão mal como pensais.
            Ditei minhas últimas vontades e mandei para junto do jovem rei aqueles que ainda me rodeavam. Vi-me só com o meu confessor, Francisco de Paula, le Daim e Coittier. Francisco me faz uma tocante exortação. Parece que a cada uma de suas palavras apagavam-se-me os vícios e comecei a recobrar um pouco de esperança na clemência de Deus.
            Recebi os últimos sacramentos com uma piedade firme e resignada. A cada instante repetia: ‘Nossa Senhora de Embrum[4], minha boa Senhora, ajudai-me!”
            Terça-feira, 30 de agosto[5], pelas sete horas da noite, caí em nova prostração. Todos os presentes me julgaram morto e se retiraram. Olivier le Daim e Coittier, sentindo a execração pública, haviam ficado junto ao meu leito, já que não tinham outro asilo.
            Em breve recuperei completamente a consciência. Ergui-me, sentei-me na cama e olhei em torno. Não havia ninguém de minha família; nenhuma mão amiga procurava a minha, nesse supremo instante, para adoçar a minha agonia num último contato. Àquela hora talvez  meus filhos brincassem enquanto seu pai morria. Ninguém pensou que o culpado ainda podia contar com um coração que compreendesse o seu. Procurei ouvir um soluço abafado e só escutei as risadas dos dois miseráveis que estavam junto de mim.
            Divisei a um canto a minha galga favorita, que morria de velha. Meu coração pulsou de alegria, pois eu tinha um amigo, um ser que me estimulava.
             Fiz-lhe um sinal com a mão. A lebreira arrastou-se com esforço até junto ao leito e veio lamber-se a mão agonizante. Olivier percebeu esse movimento; levantou-se de um salto, praguejando, e matou a pobre cadela a bordoadas. Expirando, meu único amigo - aquele animal - lançou-me um olhar comprido e doloroso.
            Olivier empurrou-me violentamente para os travesseiros. Deixei-me cair e entreguei a Deus a minha alma culposa.” [6]
                                   *
            Outro capítulo de impacto é aquele em que Luís XI faz referência ao envenenamento de seu irmão, o Duque de Guyenne e da Senhora de Thouars.
            Minucioso e firme nas expressões, o soberano recorda mais uma vez o ambiente da França de seu tempo, deixando claramente perceber a falsidade, a intriga, o ódio, enfim, que campeavam, sorrateiros.
            Importante ressaltar nesse episódio - como, aliás, em todos os demais -, a extraordinária riqueza de detalhes, o que levou Kardec a usar das seguintes expressões:

            “(...) a vida desse rei, tal qual foi ditada por ele próprio, é incontestavelmente a mais completa que possuímos e, podemos dizer, a mais imparcial. O estado do Espírito de Luis XI lhe permite hoje apreciar as coisas em seu justo valor. Pelos três fragmentos citados[7] pode ver-se como faz o próprio julgamento: explica sua política melhor que qualquer de seus historiadores; não se absolve de sua conduta; e em sua morte, tão triste e tão vulgar para um monarca algumas horas antes tão poderoso, vê um castigo antecipado.”

            O capítulo que descreve o envenenamento do Duque de Guyenne e da Senhora de Thouars, muito detalhado, pode ser localizado no número de junho de 1858, da “Revista Espírita”.
            Configura-se nele o que já foi dito a respeito do ambiente que dominava a França.
            A insegurança, particularmente nas altas rodas sociais, era total.
            A confusão se alastrava.
            Distorções eram encontradas em todos os segmentos.
            Por tudo isso, muitos anos rolariam na esteira do tempo para que a França, através do movimento revolucionário de 1789, corrigisse algumas dessa mesmas distorções. Algumas, repito, porquanto, conforme os espíritas bem sabemos, constituindo os países o somatório espiritual de seus filhos, requerem, não raro, anos a fio para modificar suas viciações...
                                   *
            Quando Kardec afirmou que “as comunicações podem esclarecer-nos sobre a história”, estabeleceu, concomitantemente, um imperativo: - “desde que saibamos nos colocar em condições favoráveis”.
            Aliás, devemos convir, nem poderia ser de outra forma.
            Para o recebimento, imprescindível a adequada predisposição.
            Desta maneira, tanto o esclarecimento de ordem histórica quanto aquele ligado a esferas outras, manifestar-se-ão sempre no justo momento na vida de cada ser, de cada comunidade.
            As confissões de Luís XI surgiram no instante devidamente programado.
            Assim como surgirão outras que a História não revelou e que ainda ocultas levantam dúvidas e querelas infindáveis... Entre historiadores e os povos em geral.
           


[1]  ‘Revista Espírita’, março de 1858.
[2]  Francisco de Paula foi fundador dos ‘mínimos’, também chamados ‘eremitas de São Francisco’. Luís XI mandou chamá-lo à sua cabeceira de agonizante. Foi retido em França por Carlos VII e Luís XII, que o fizeram erguer vários mosteiros. Morreu em Plessis-les-Tours no ano de 1508. Leão X o canonizou em 1519.
[3]  A Doutrina Espírita confirma através de várias obras que este fenômeno pode realmente ocorrer: todo um passado a desenrolar-se na mente daquele que está prestes a deixar a vida física.
 Na obra “O Céu e o Inferno”, Segunda Parte, no segmento alusivo ao Espírito J. Sanson (antigo membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e que desencarnou em 21 de abril de 1862, confessa ele do plano espiritual:
           - O meu Espírito conservou as suas faculdades e quando eu já não mais via, pressentia. Toda a minha existência se desdobrou na memória (...)” (...)              
[4]  Embrum é uma antiquíssima cidade do Sul da França, situada na Bacia do Rhódano, na Provença. Seu antigo nome latino era Ebraduno.
[5]  Realmente, a desencarnação de Luís XI deu-se no dia 30 de agosto de 1483.
[6]  ‘Revista  Espírita”, maio de 1858.
[7]   Os três fragmentos aqui citados por Kardec são os seguintes:
                - Envenenamento do Conde de Charolez.
                - Desencarnação de Luís XI.
                - Envenenamento do Duque de Guyenne.

Luis XI - Confissões...' por Kleber Halfeld - Parte 03/04




3
             Com Luís XI o poder real na França assume um aspecto tirânico, a par de uma fase marcada pela confusão.
            Os Estados Gerais não são mais convocados. Os impostos tornam-se permanentes e sumamente pesados. Do ponto de vista do judiciário, outros parlamentos progridem ou surgem ao lado do Parlamento de Paris. Em relação à Igreja, a realeza procura tirar partido do Grande Cisma para impor sua direção. Tendo renunciado explorar suas reservas de solo desde os Grandes Arroteamentos, os nobres passam a arrendá-las. A desvalorização da moeda os empobrece. O desaparecimento acidental das grandes famílias de apanágio priva-os de seus chefes políticos. Os camponeses obtêm melhores condições para tornar a cultivar as terras devastadas pela guerra. A burguesia, em plena ascensão, aceita o absolutismo que sufoca as liberdades municipais.
            É exatamente apoiado nessa burguesia, a quem concedera títulos e privilégios, que Luís XI - um rei pouco religioso e extremamente supersticioso - governa.
            Commines, um de seus historiadores[1], chama-o de universal aranha, tais as teias que o soberano sempre teceu durante todo o tempo de seu reinado. (E nelas repetidas vezes ficou preso...)
            Filho de Carlos VII e de Maria de Anjou, nasceu ele em Bourges, em 3 de julho de 1423.
            Antes dos 14 anos foi casado com Margarida da Escócia, filha do Rei Jaime I.
            Aos 17 anos começaram as divergências e lutas com seu pai, com o risco de perder o delfinato.
            Toda a sua ação, antes e depois de subir ao trono, é caracterizada pelas traições, intrigas, lutas inglórias, até mesmo com os parentes  - pai e irmão.
            De seu segundo casamento com Carlota de Sabóia deixou os filhos: Ane, casada com o Sr. de Beaujeu; Jeanne, esposa do Duque de Orléans (o futuro Luís XII) e Carlos VIII.
            Mas, apesar de toda a confusão de seu reinado,  a verdade é que não se pode negar-lhe o mérito de alguns empreendimentos de vulto.
            A criação do correio utilizando cavalos, o desenvolvimento da milícia, a tentativa de organização da marinha, a inamovibilidade dos funcionários da justiça, a introdução da imprensa em Paris, a promoção de uma especialização agrícola, o estímulo ao comércio e à indústria, a melhoria das estradas, a criação de parlamentos em Grenoble, Bordéus e Dijon, assinalaram a sua administração. Mas, segundo seus biógrafos, nenhum soberano de seu tempo conheceu e utilizou melhor as manhas da política e os meios de dominar os homens, explorando-lhes as ambições. Foi, de fato, cruel, governando sem escrúpulos, cercando-se unicamente de homens capazes de todos os servilismos, sabendo obrigar à obediência todos os príncipes, entre os quais a França estava dividida. Conseguiu até tirar-lhes uma parte do poder, desapossá-los, aumentando consideravelmente o território da coroa. Por tudo isso, afirma-se, deve Luís XI figurar entre os fundadores da unidade da França.
            Sua desencarnação, ocorrida em seu castelo de Plessiles-Tours, envolvida por superstições e terrores que o próprio São Francisco de Paula não conseguiu dissipar totalmente, mereceu um comentário de Commines.
            Na verdade, um comentário sucinto e vago:
            -Era um rei!


[1]  Philippe de la Clyte Commines (1445-1509) era também um político de rara finura, tendo-se tornado conselheiro e confidente de Luís XI. Como escritor, deixou apenas suas ‘Memoires’ - incompletas -, nas quais analisa, com grande poder de observação, a luta política entre Luís XI e Carlos, o Temerário.


Luis XI - Confissões...' por Kleber Halfeld Parte 02/04



2

            Recordemos, embora de forma muito sucinta, quatro exemplos, extraídos à época de obras editadas pela FEB, sendo o autor das mesmas o Espírito Humberto de Campos. (Psicografia de Francisco Cândido Xavier.)

1. Caso do Descobrimento do Brasil - Na obra “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, escreve o autor:
 “(...) No oceano largo, o capitão-mor (Cabral) considera a possibilidade de levar a sua bandeira à terra desconhecida do hemisfério sul. O seu desejo cria a necessária ambientização ao grande plano do mundo espiritual. Henrique de Sagres aproveita esta maravilhosa possibilidade. Suas falanges de navegadores do Infinito se desdobram nas caravelas embandeiradas e alegres. Aproveitam-se todos os ascendentes mediúnicos. As noites de Cabral são povoadas de sonhos sobrenaturais e, insensivelmente, as caravelas inquietas cedem ao impulso de uma orientação imperceptível.” (...) [1]  
            Antes do aparecimento da citada obra, indagava-se:
            - “Acaso” ou não, a descoberta do Brasil?
            A resposta seria dada pelo Plano Espiritual!

2. Caso Marylin Monroe - Em “Estante da Vida”, capítulo Encontro em Hollywood, comentando o autor a entrevista que a falecida artista lhe concedera no Espaço, no Memorium Park Cemetery, afirma ter ouvido dela esta revelação surpreendente:
            “(...) A tese do suicídio não é verdadeira como foi comentada (...) “ (...)
            Estava desfeita a tese que envolvia a desencarnação de um dos mais famosos ídolos do cinema americano.

3. Caso Hauptmann - Em “Crônicas de Além-Túmulo”, lemos, surpresos:
            “As leis penais da América do Norte não possuíam elementos comprobatórios da culpa de Richard Hauptmann como autor do nefando infanticídio. Para conduzi-lo à cadeira da Morte não prevaleceram senão argumentos dubitativos, inadmissíveis dentro da cultura jurídica dos tempos modernos.” (...)
            “(...) Hauptmann sacrificado na sua inocência (...)(...)
                “(...) Dia virá em que a justiça humana compreenderá a extensão do seu erro condenando um inocente.” (...)[2]
            Durante e depois do processo contra Bruno Richard Hauptmann, acusado do rapto do filho de Charles August Lindbergh, processo que ficou conhecido em todos os países, a pergunta era a mesma:
            - Culpado ou inocente?
            O esclarecimento viria alguns anos mais tarde.[3]

4. Caso Tiradentes - Na citada obra - “Crônicas de Além-Túmulo” - no capítulo que leva o título do mártir da Conjuração Mineira, anotamos estas singulares expressões:

            “Hoje, de modo algum desejaria avivar minhas amargas lembranças... Aliás, não foi apenas Silvério quem nos denunciou perante o Visconde de Barbacena; muitos outros fizeram o mesmo, chegando um deles a se disfarçar como um fantasma, dentro das noites de Vila Rica, avisando quanto à resolução do governo da Província, antes que ela fosse tomada publicamente, com o fim de salvaguardar as posições sociais de amigos do Visconde, que haviam simpatizado com a nossa causa.”

            A história da Conjuração Mineira ficava acrescida desse curioso quão importante detalhe: não apenas a figura de Joaquim Silvério dos Reis ( e de Basílio de Brito Malheiro do Lago e Inácio Correia Pamplona, segundo os historiadores Hélio Vianna e Vicente Tapajós) estava comprometida. Muitos outros haviam feito o mesmo!
                                   *


[1]  Capítulo A Pátria do Evangelho.
[2]  Capítulo Hauptmann.
[3]  Hauptmann, que devido a provas circunstanciais foi executado na ‘cadeita da morte’, traz à tona o que a Doutrina Espírita recorda, aliás, de forma insistente: a inflexível lei de causa e efeito a reger nossas vidas. Se a causa não está nesta existência, obviamente há que localizar-se em outras.