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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Reencarnação de Allan Kardec


                             
Allan Kardec (Espírito)


            Não temos conhecimento de que Allan Kardec tenha se manifestado como espírito, em muitas ocasiões.
            Na realidade, dispomos de poucos registros neste sentido.Um deles, é uma referência ao assunto, feita por Humberto de Campos (Espírito) em “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, em psicografia de Francisco Cândido Xavier, edição FEB, que, no seu capítulo XXVIII, comenta dos primórdios da Federação Espírita Brasileira e, referindo-se a Ismael, diz que este Espírito “... nos primeiros dias de 1889, preparara o ambiente necessário para que todos os companheiros do Rio ouvissem  a palavra póstuma de Allan Kardec, que, através do médium Frederico Jr, forneceu as suas instruções aos espiritistas da capital brasileira, exortando-os ao estudo, à caridade e à unificação.”
            Além dessa nota encontramos também, em destaque, um esclarecimento de nossos irmãos da Casa Editora “O Clarim”, de Matão, SP, sobre a obra “A Obsessão” (5ª Ed. Jan 1993), “obra reimpressa em francês com a aprovação de Allan Kardec, em comunicação datada de 06/09/50.” Na alternativa de Kardec estar reencarnado estaríamos nós diante da hipótese de ter seu espírito apresentado-se  em desdobramento? Sigamos...
            Encontramos, no Reformador de Outubro de 1903, o texto a seguir. Pelos encarnados presentes e pela audiência espiritual não nos parece devam haver dúvidas quanto a veracidade do que passaremos a reproduzir...
            “Seção comemorativa do 99º aniversário da encarnação de Allan Kardec, em 04.10.1903. Ao seu final, um espírito, que se assinou Allan Kardec, respondeu, por psicografia de Frederico Júnior, às homenagens que tinham acabado de prestar-lhe:
            “- Senhor! Eu não sou digno de tudo o que se passa em volta de mim; no entretanto, se é essa a Vossa vontade, seja uma esmola de Vosso amor para Vossos filhos.
            Meus irmãos! Eu apanho jubiloso as flores das vossos sentimentos amorosos, e as levo para as colocar aos pés de Jesus, o verdadeiro Mestre. Eu apanho o perfume dessas flores e o levo aos pés da Virgem, de cujo seio, em jorros, desce a luz das mães amorosas, buscando a alma dos presentes, para inspirar em cada uma esses sentimentos que elevam.
            Há festas na Terra e no céu; e essas festas no céu e na Terra deviam ser somente consagradas a Jesus, porque se não fora o seu sacrifício, se não houvesse a prova do cálice, o ultraje e as afrontas, se não fora o Cordeiro Imaculado, Allan Kardec não teria a fonte sublime do Evangelho para se inspirar, para crer e para reformar o espírito.
            Irmãos! Não quero fatigar o instrumento que me serve; já ouvistes bastante para conforto de vossos corações, feridos pela dor.  Se me fosse concedido imitar Jesus, em uma só palavra, eu vos diria: Amai-vos uns aos outros e tereis festejado o meu natalício. A paz do Senhor seja convosco.    Allan Kardec”.
            Sigamos...
         O Reformador de 31.3.1908, em artigo intitulado “O Enviado de Jesus”, comenta sobre a reencarnação de Kardec:
            “... porque já em vida fora anunciada a Allan Kardec (vide Obras Póstumas) uma nova reencarnação, que ele próprio calculou para fins do século passado ou começo do presente, a fim de vir concluir a tarefa, que o não poderia ser naquela encarnação.
            Ter-se-á realizado já esse fato? Terá de novo aquele nobre e abnegado espírito renunciado à vida espiritual, feliz e luminosa, para voltar e sepultar-se nas trevas de um corpo humano, e estará aí ensaiando os seus primeiros movimentos, e preparando lentamente as asas para um novo surto, no seio da humanidade, dentro de alguns anos?
            Uma circunstância, que nos não tem escapado, o parece indicar: e é que, em todos os círculos espíritas bem orientados, isto é, naqueles em que se exerce uma vigilância e analise severa em todos os ditados espíritas e não se aceitam, de ingênua fé, todas as comunicações, nota-se desde alguns anos uma ausência completa do nome de Allan Kardec nas manifestações. Nem mesmo nos dias solenes consagrada à sua memória, como o 3 de outubro e o 31 de março, tem sido assinalada a sua presença...”
         Caminhamos mais alguns meses e, outra vez, o Reformador, em 3 de Outubro de 1908 retoma o assunto com breve comentário, ressaltando que alguns espíritas teriam recebido a indicação que Kardec já teria reencarnado.
            O Reformador, já em 15 de Março de 1910, no transcurso do 41º aniversário de desencarnação de Allan Kardec, dedica ao codificador as seguintes palavras:
            “... De alguns anos, contudo, para cá, essa voz amiga e experiente cerrou de se fazer ouvir, e algumas comunicações esparsas que tem aparecido, firmados com o seu nome, denunciam, tanto no estilo como nos conceitos, a suspeição da sua origem.. ....Tudo assim parece fazer crer que Allan Kardec já voltou à carne...”
           
            Finalmente, a família espírita recebe a tão esperada confirmação!
            Referimo-nos ao Reformador de 16 de Outubro de 1919 onde aparece transcrita uma comunicação de Agostinho, bispo de Hipona, manifestado em reunião na FEB, comemorativa do aniversário de nascimento de Allan Kardec (3 de Outubro). O médium é Albino Fonseca. O texto está a seguir apresentado. Os grifos são nossos.
            “Meus filhinhos, Paz.
            Presentes se acham à nossa reunião aqueles que assistiram Allan Kardec durante o desempenho da grandiosa missão por ele levada a bom termo, quando na Terra exilado.
            Se pudésseis com os olhos do espírito presenciar o quadro que sobre vossas cabeças se desenrola, irradiando fluidos de amor e de paz, deslumbrados ficaríeis, e eis porque esse prazer vos não é dado, para que ofuscadas não sejam as vossas vistas.
            Deus em tudo é sábio e previdente.
            Dos que aqui se acham invisivelmente presentes, fui eu escolhido para, como seu delegado, algo dizer sobre a comemoração que fazeis.
            Essa comemoração é justa, é merecida, conquanto a melhor comemoração fosse aquela que pudésseis fazer quotidianamente, limpando os vossos corações da lepra dos impuros sentimentos, lavando os vossos espíritos da mácula que os nodoa, facetando-os para que, límpidos estejam por ocasião das belas alvoradas, cuja  cortina o nosso Mestre veio rasgar.
            Léon Hyppolite Denizard Rivail, ao encarnar tomou a resolução de propagar os ensinos do Senhor, e tendo o seu guia lhe perguntado se se sentia com força para enfrentar tão árduo empreendimento garantiu ele que sim. Se soube cumprir a sua promessa, vós o podeis afirmar, pois a sua obra aí está  testemunhando o seu esforço em prol da divulgação das supremas verdades.
            Assistindo ao trabalho das denominadas mesas girantes, que atraíam a atenção de inúmeros curiosos com o único intuito de distração - ele, o vosso mestre, verificando que essas mesas, por meio de pancadas conversavam com os presentes. Portanto, denotavam que uma causa inteligente devia movimentá-las, meditou sobre o que viu, estudou, investigou, chegando à conclusão de que entidades invisíveis eram os seus propulsores.
            Começou então o seu estudo aprofundado, compilando por intermédio de médiuns diversos e de fontes várias invisíveis esse monumento colossal que hoje altivo se ergue, mostrando à humanidade transviada que algo mais elevado do que as coisas materiais se desdobra sobre a sua cabeça, e que a sua verdadeira felicidade constitue.
            Vinha o homem de longos séculos debatendo-se no mar revolto das paixões e desvarios sem cogitar do seu Deus e do destino que o aguardava, qual náufrago em proceloso oceano, lutando contra as ondas enfurecidas e esperando uma tábua de salvação em que pudesse agarrar-se, e vem o emissário enviado pelo Senhor, que lhe lança essa tábua, sendo feliz aquele que a ela se segurar, porque se libertará da fúria do mar de trevas em que está prestes a sucumbir.
            Não podendo Allan Kardec vir pessoalmente agradecer a homenagem que lhe prestais, eu, delegado por aqueles que o assistiram, declaro-vos que gentil e carinhosamente acolhemos os eflúvios do preito de vossa gratidão e a seu tempo o transmitiremos ao nosso e vosso irmão, que, em obediência a nossas instruções, entre vós de novo se encontra, para dar maior amplitude à doutrina salvadora da humanidade. Lembrai-vos que nosso mestre não palmilhou um caminho de rosas, mas cheio de urzes e espinhos, pois foi insultado, achincalhado, caluniado, sem que apesar de tudo, o seu intento um só momento esmorecesse, porque sabia que trabalhava na causa santa do Senhor.
            Praze os céus que vós, seus continuadores, possais também suportar com resignação todos os apodos, todo o ridículo que sobre vós lançarem, ficando satisfeitos com a consciência de bem ter cumprido o vosso dever e dado cabal testemunho de Jesus.
            A paz do Senhor, meus filhinhos, fique convosco, e permita Ele, que dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, a nossa cogitação seja - a vossa reforma moral, para que condignamente possais receber o mestre e amigo ao iniciar sua próxima tarefa. Deus vos abençoe e vos dê paz.                 Agostinho, bispo de Hipona.

            De 1919 em diante, por mais que buscássemos outras referências, nada encontramos em “Reformador” que desse continuidade a tema tão sensível para nós espíritas.
            Assim sendo, este artigo fica inconcluso e a espera  - por quase 100 anos - de mais e melhores referências sobre a reencarnação do amado mestre de Lyon.
           










33 / 41 'Profissão de Fé' por Gustavo Macedo


33
                A sua doutrina excede às de todos os santos; quem tenha seu espírito nela acha um maná escondido. E é por falta desse espírito, que muito poucos se movem, ainda com a audição freqüente do Evangelho. Quem pretende a plena  inteligência e gosto das palavras de Cristo, esmere-se em conformar sua vida toda com a vida do mesmo Cristo. (Imitação do Cristo, cap. I, L. I)

            No interrogatório a que Jesus foi submetido no pretório de Pilatos, este lhe perguntou “Sois o rei dos Judeus?” Jesus lhe respondeu: “Meu reino não é deste mundo.”
            Apegados por demais às idéias terrestres, os judeus, na interpretação literal das escrituras, esperavam um messias, rei e conquistador, que lhes proporcionasse os bens da terra. O reinado de Jesus, entretanto, é todo espiritual, pelas suas condições de pastor do rebanho humano, e governador do planeta Terra, a cuja formação presidiu.
            A expressão empregada pelo divino Mestre: “Há muitas moradas na casa de meu Pai” refere-se ao universo, cujas moradas são os mundos que circulam no espaço infinito, e para os quais vão as almas, conforme o estado de adiantamento ou atraso moral. 
            A Terra pertence ao número dos planetas de expiação e de prova. Há planetas mais atrasados, onde a vida é mais penosa, mas há também esferas cujas condições de felicidade são superiores.
*
            Era crença corrente entre os judeus a reencarnação, que, porém, na confusão natural de coisas, para eles obscuras, chamavam ressurreição.
            Os Evangelhos nos fornecem provas irrecusáveis dessa verdade, em passagens que não deixam dúvida.
            Quando Jesus estava em Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos o que diziam dele. Responderam-lhe: “Uns dizem que sois João Batista, outro Elias, outro Jeremias, ou algum dos profetas .”
            A crença popular é confirmada por Jesus no trecho que passamos a transcrever da obra que noticiamos:
            Depois da transfiguração os discípulos o interrogaram e lhe disseram: “porque razão os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro?” E Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias deve vir pra restabelecer todas as coisas; mas eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve”. É assim que eles farão sofrer o Filho do homem. Então os discípulos compreenderam que era de João Batista que ele lhes falava.”
            O Divino Mestre, que devassava os sentimentos mais íntimos do coração alheio, e muitas vezes corrigia os pensamentos errôneos de seus discípulos, não deixaria de esclarecê-los sobre assunto de tanta magnitude, se errado fosse o juízo dos apóstolos.
            Quando ele disse: - “Aqui está o pão que desceu do céu.”, seus discípulos, tomando ao pé da letra as suas palavras, o abandonaram, dizendo:
            “Duro é este discurso, e quem o pode ouvir?” Jesus mostrou-lhes o sentido espiritual das suas palavras, dizendo: “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita: as palavras que vos digo são espírito e vida.”
            A conferência noturna entre o Cristo e Nicodemos, a respeito da reencarnação, é de tal importância para esclarecimento dessa verdade, que não resistimos ao desejo de transcrevê-la:
            “E havia um homem entre os fariseus chamado Nicodemos, senhor entre os judeus. Este veio a Jesus, de noite, e lhe disse: - Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém poderias fazer esses milagres que tu fazes se Deus não estivesse com ele. Respondeu Jesus e disse: Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer de novo não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: - Como pode um homem nascer sendo velho? Porventura pode voltar ao ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu Jesus: - Em verdade, em verdade te digo que não pode entrar no reino de Deus senão aquele que renascer da água e do Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer outra vez. O espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do espírito.
            Perguntou Nicodemos, dizendo: -Como se pode isto fazer? Respondeu Jesus e lhe disse: Tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que o que sabemos, dizemos: e do que vimos damos testemunho, e nem por isso recebeis o nosso testemunho. Se, quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, vós não me credes, como me crereis se eu vos falar das celestiais?”(S. João, cap. III, vv. 1 a 12).
            A palavra água não é, como entende a igreja, o batismo.
            Os conhecimentos dos antigos sobre ciências físicas eram muito incompletos; acreditavam eles que a terra havia saído das águas, e por isso encaravam a água como elemento gerador absoluto; e tanto é assim que o Gênese narra: O Espírito de Deus era levado sobre as águas; - seja feito o firmamento no meio das águas; as águas estão que estão debaixo dos céus se reunam em um só lugar e o elemento árido apareça: - produzam as águas animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.
            Além disso o próprio Jesus afirma que João Batista é Elias, quando diz; - “e se quereis compreender o que vos digo, é Ele mesmo que é Elias que deve vir.”
            É falso que o batismo tenha sido instituído pelo divino Mestre: era uma prática dotada pelos essênios. Como prova de humildade, o Cristo se deixou batizar por João Batista, e nunca batizou ninguém.
            Seus discípulos batizaram o povo, é certo, porém, era uma prática exterior, significando adesão às doutrinas evangélicas. Dado o estado material daquele tempo, era uma inscrição no Cristianismo, como se faria hoje no registro de qualquer associação civil ou religiosa.
            Porém, dirão, Jesus depois de ressuscitado mandou aos seus discípulos que batizassem.
            É certo: o povo de então só se consideraria cristão, com o uso daquela mesma formalidade, entretanto sem valor espiritual algum.
            A igreja julgou mais acertado condimentar mais a água, e por isso lhe adicionou sal, cera, óleos e cuspe sacerdotal nos batizados.
*
            As bem-aventuranças, tão citadas pelas seitas ditas cristãs, podem consolar e incutir paciência, mas nada explicam com relação às anomalias morais que presenciamos.
            Se o céu é o termo de todas as vidas, não se compreende que se o obtenha de modos injustamente desiguais: uns com sofrimentos e lágrimas, outros com risos e alegrias.
            Ora Deus não age por capricho; por isso disse mui sensatamente o nosso mestre, resumindo a opinião dos espíritos reveladores:
            “-Se é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho nem com parcialidade. As vicissitudes da vida têm, portanto, uma causa, e sendo Deus Justo, essa causa deve ser justa”.
            As causas do nosso sofrimento residem ou nas faltas da nossa vida atual, ou nas da vida anterior. Ninguém sofre sem razão.
            Não sendo o mundo capaz de curar as chagas que na criatura humana abriu; sendo impotente para consolá-la nas dores físicas e morais, Jesus mostrando a leveza do seu jugo, convida os homens a tomá-lo sobre si, dizendo: “Vinde a mim, vós todos quantos vos achais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
            Prometera também o Consolador - O Espírito de Verdade - que aos homens ensinaria todas as coisas, até então encobertas, ou sobre as quais o Divino Mestre apenas fizera uma alegoria ou parábola.
            A humildade sempre foi uma condição indispensável para a aprendizagem: o orgulhoso julga tudo saber e por isso mesmo se torna relativamente ignorante.
            Contra esse escolho advertiu Jesus quando chamou bem-aventurados aos pobres de espírito, o que não quer dizer seres desprovidos de inteligência, mas simples e despretensiosos.
            Contra os perigos e as quedas do orgulho, o Cristo, além do exemplo de seu viver singelo e modesto, juntou discursos ilustrativos, como no exemplo do menino que pela sua singeleza é o símbolo do maior no reino dos céus.
            Na lição dada a ambição materna, quando a mãe de Tiago e João pedia que seus filhos tivessem assento ao lado de Jesus no seu trono de glória, Ele lhe declarou que o que quisesse ser o maior fosse o servo de todos, como nos dera o exemplo, vindo servir aos outros e não ser servido - ensinamento reproduzido no jantar na casa do fariseu, em que condenou a sofreguidão com que os convidados procuravam os primeiros lugares, recomendando que de tal se abstivessem, antes procurassem os últimos lugares: “porque aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado.”
            A igreja, que não liga grande importância aos ensinamentos do Divino Modelo, resolveu cristãmente praticar o contrário; é assim que seus ministros se fizeram papas, coisa que S. Pedro nunca foi, e se fizeram cardeais e criaram uma série de títulos honoríficos e até aristocráticos.
            O pontífice romano é conduzido em uma cadeira gestatória[1], para cujo mister se transformam alguns homens em besta de carga. À humanidade oferece o pé a beijar, ou, se quiserem, a cruz, escolhendo, entretanto, o pé como sítio mais próprio para trazer a cruz, considerada símbolo de redenção.
            Os cardeais cobrem-se de púrpura e trazem longos hábitos talares; os bispos e arcebispos têm docel e trono nas suas igrejas; são recebidos ao som do Ecce Sacerdos Magnus, e penetram no templo abençoando a multidão que os recebe de joelhos.
            Para mostrar que são os verdadeiros anti-Cristo, basta citar entre outros os versículos 46 e 47 de Lucas Capítulo XX: “Guardai-vos dos escribas, que querem andar com roupas talares e gostam de ser saudados nas praças e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros assentos nos banquetes; que devoram as casas das viúvas, fingindo largas orações. Estes tais receberão maior condenação.”
            O orgulho os cega: por isso as coisas ocultas são reveladas “aos simples e aos pequenos”.
            Se esses homens orgulhosos e rancorosos são de fato os depositários do poder de Deus, usem dessa faculdade para curar os enfermos, pois aos doze apóstolos Jesus deu tal poder. (Lucas IX, v.1).
            Mas não o fazem;  porque?
            Por que abandonaram a fé viva de Jesus, que de todos é “o caminho, a verdade e a vida” e substituíram-na pela fé no papa, que, no dizer de um grande poeta, é “um Deus inventado à socapa.”


[1]  Espécie de andor em que o papa é carregado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

32 / 41 'Profissão de Fé' por Gustavo Macedo


32
                Todo esse aparato que impressiona os sentidos e toca o coração, 
todas essas manifestações da arte,
 a pompa do ritual romano e o esplendor das cerimônias,
não são como um brilhante véu que oculta a pobreza da idéia
 e a insuficiência do ensino?
Não foi o sentimento da sua impotência para satisfazer as elevadas faculdades da alma, 
a inteligência,  o julgamento e a razão, 
o que impeliu a igreja para o caminho das  manifestações exteriores e materiais? 
(Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo . Introdução, págs. VII e VIII.)
             
                Em abril de 1864 publicou o nosso mestre a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, contendo as explicações das máximas morais do Cristo, sua aplicação e concordância com o Espiritismo. O título dessa obra foi modificado, e é hoje O Evangelho segundo o Espiritismo.
            “Os atos comuns da vida de Cristo - diz ele - os milagres, as predições, as palavras que serviram para estabelecer os dogmas da igreja e o ensino moral, são as cinco partes em que se divide o Evangelho; a última tem permanecido inatacável, ao passo que as quatro primeiras têm dado lugar a controvérsias, suscitadas por questões dogmáticas.”
            Só da última parte fez o mestre objeto da sua obra, de modo a todos poderem encontrar nela os meios de conformar a sua conduta com a moral do Cristo.
            Dividiu os versículos evangélicos por diversos capítulos, adicionando-lhes as explicações dadas pelos espíritos em diversas partes do mundo, o que constitui a chave para os pontos aparentemente ininteligíveis e irracionais, por faltar-lhes os meios da verdadeira compreensão.
            “A garantia única, eficaz, do ensino dos Espíritos está na concordância que existe nas revelações feitas espontaneamente, por intermédio de grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, em diversos países.”
            Dá o mestre a explicação de certo termos freqüentemente empregados nos Evangelhos, e que muito elucidam alguns trechos.
            Samaritanos, os dissidentes do judaísmo: formaram uma igreja à parte em Samaria, para não irem anualmente, como era de preceito, ao templo de Jerusalém.
            “Admitiam somente o Pentateuco contendo as leis de Moisés, e rejeitavam todos os livros que ali foram anexados. Eram os protestantes da época.”
            Nazarenos, faziam voto perpétuo ou temporário de castidade; abstinham-se de bebidas alcóolicas e conservavam as cabeleiras. “Sansão, Samuel e João Batista eram nazarenos.”
            Publicanos eram os cobradores de impostos do governo romano; os judeus consideravam o imposto contrário à sua religião: organizaram um partido de resistência, chefiado por Gaulanita, para recusar o imposto.
            Portageiros eram cobradores de classe inferior, porém incluídos no ódio comum aos publicanos.
            Fariseus (parasck, separação, divisão). Nas disputas sobre as interpretações das escrituras, sempre se extremaram, tinham horror às inovações e eram observadores servis das práticas exteriores.
            Afetavam severidade dos costumes, devoção meticulosa, porém eram cheios  de orgulho e desejosos de dominar. Esta seita dissidente do judaísmo remonta aos anos de 180 a 200 a. C..
            Escribas, explicavam a lei de Moisés ao povo, e faziam causa comum com os fariseus.
            Sinagoga - Casas de culto onde os judeus se reuniam aos sábados, para orar e estudar as escrituras. Todos podiam tomar parte do estudo; razão pela qual Jesus, que não era sacerdote, nelas ensinava algumas vezes.
            O templo de Jerusalém, que não mais existe, era reservado às grandes solenidades.
            Saduceus, seita formada no ano 248 a.C., só acreditavam em Deus e nas recompensas temporais, como prêmios da Providência: só admitiam o texto da lei antiga, sem interpretações nem tradições.
            Essenienses ou Essênios, viviam em comunidade religiosa, habitando casas semelhantes a mosteiros. Viviam em celibato, abstinham-se de tomar parte nas disputas religiosas e cultivavam as virtudes; seu viver era semelhante ao dos cristãos.
            Esta seita foi fundada no ano 150 a.C..
            Terapeutas, tinham um viver semelhante ao dos essênios; eram contemporâneos do Cristo. Eusébio de Cesaréia e S. Jerônimo os consideravam cristãos.
*
            Para mostrar que as grandes idéias têm sempre precursores, o mestre passa a resumir as doutrinas de Sócrates e Platão, vítimas da intolerância religiosa, mostrando sua concordância com os princípios do Cristianismo.
            Em seguida expõe: Jesus não veio destruir a lei, e sim dar-lhe cumprimento.
            A lei divina, dada a Moisés no monte Sinai, está compendiada no decálogo: - os dez mandamentos da lei de Deus, como vulgarmente se diz.
            Aditou o legislador hebreu muitas leis disciplinares àquela lei básica, atribuindo-lhes origem divina, como meio de dominar, pelo terror religioso, um povo turbulento, brutal e ignorante, incapaz de compreender a elevação do amor de Deus.
            Tendo progredido o espírito humano, e chegado o tempo anunciado pelos profetas, veio Jesus dar cumprimento às profecias e à lei divina, imprimindo-lhe o verdadeiro sentido moral, e mostrar que ela se resume em “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.”
            Quanto à lei moisaica, propriamente dita, modificou-a no fundo e na forma, combatendo sem tréguas a religiosidade aparente, isto é, as práticas exteriores.
            De tudo deixou o Divino Mestre germens de verdade dando somente à humanidade o que era compatível com o seu estado moral e intelectual e reservando o complemento do seu ensino para a época da 3ª Revelação prometida, que é o Espiritismo.
            A 3ª revelação é uma ciência moral e experimental, que vem dar cumprimento à lei cristã, já despida das alegorias e parábolas, explicando-a em seu sentido profundo, como o Cristo o anunciara.
            Até agora têm vivido em luta aberta a ciência e a religião, pelos pontos de vista exclusivistas em que ambas se têm colocado.
            O bisturi da ciência tem retalhado de tal modo as entranhas do dogma, que dele nada mais resta que um simulacro, ou melhor, uma ruína do atraso religioso.
            O Espiritismo é a ponte que une a ciência e a religião, porque à filosofia racional e à moral cristã que prega, junta a esmagadora prova experimental.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

31 / 41 'Profissão de Fé' por Gustavo Macedo


31
                               Quando começou o primeiro império,
 então começou também a idolatria, 
digno castigo do céu; que, pois,
 os homens se fizeram adorar,
Chegassem os mesmos a adorar paus e pedras.
(Padre Antônio Vieira, Sermões Seletos, págs. 139)

            As grande riquezas que possuem os conventos desta cidade são devidas às doações feitas em artigo de morte pelos beatos, com a condição de se lhes rezarem missas pelas almas.
            O concílio de Trento, na sessão XXV, sobre o decreto do purgatório diz o seguinte:
            “Instruída pelo Espírito Santo a igreja católica, conforme as sagradas letras e antiga tradição dos Santos Padres, sempre ensinou haver Purgatório e as almas ali detidas serem aliviadas e ajudadas com os sufrágios dos fiéis e, principalmente com o gratíssimo Sacrifício do Altar; por isso manda o Santo Concílio aos Bispos que procurem com diligência que a sã doutrina do Purgatório seja abraçada pelos fiéis de Cristo, e em toda parte seguida, ensinada, pregada... e cuidem os Bispos que os sufrágios dos fiéis vivos, a saber missas, orações, esmolas e outras obras de piedade, que costumam fazer pelos fiéis defuntos, se façam pia e devotamente segundo as regras da igreja; e que tudo quanto se deve aos ditos defuntos pelas fundações dos testadores, ou por outro princípio, lhes seja pago com cuidado e diligências pelos Sacerdotes, Ministros de Estado, e outros que têm obrigação de assim o executar.”
            Tem a igreja o cuidado de esclarecer os fiéis, ensinando: as missas são oferecidas em forma de sufrágio, isto é, Deus, se assim for sua vontade, aplicará a missa em socorro daquele em cuja intenção é celebrada; se não se tem certeza de livrar a alma do purgatório com a missa, deve-se mandar celebrar o maior número possível, tanto mais que sempre aproveita um pouco a alma a quem é destinada!
            Em atenção aos desfavorecidos da fortuna, e movidos de santo zelo, os padres lazaristas fundaram a Archiconfraria da Santíssima Trindade, para aliviar as almas, mediante espórtulas fornecidas pelos fiéis para a celebração de missas.
            Depois de enumerar os milagres que serviram para o estabelecimento da sociedade, mostram a modicidade dos preços com que se obtém graças e alívio para as almas do purgatório.
            Cada associado deve pagar três francos, preço de três missas em França; porém para o Brasil resolveu o conselho administrativo de Paris, sob a presidência do geral dos lazaristas, que aqui se pagaria dois mil réis anuais, ou uma ‘fundação perpétua’, pagando cem francos, ou quarenta mil réis, se se não quiser, ‘uma fundação’ de cinqüenta francos, ou vinte mil réis.
            Deixamos de mencionar as vantagens e graças especiais concedidas pela ‘munificência’ pontifícia, e remetemos o leitor, para mais amplos esclarecimentos, ao livro “Manual ou Tesouro da Guarda de Honra do Coração de Jesus”, livro aprovado por bispos do Brasil e do estrangeiro, e que é inseparável do batismo feminino.
            Ferida a sensibilidade humana com a idéia de acudir aos entes caros que se foram, desenvolveu-se em larga escala a exploração, forjicando-se casos de aparições ridículas, a ponto de indignar muitas vezes os homens sérios da igreja, e entre eles o ‘venerável frei Caetano Brandão, ilustre prelado que pretendia reformar o breviário e missal bracharenses por causa das suas intoleráveis patranhas e falsidades[1] 
*
            Aparecendo à madre Francisca do Santíssimo Sacramento, uma alma saída do purgatório lhe disse:
            “Mais é entre nós um só instante de sofrer, que padecer entre vós até o fim do mundo.”
            S. Vicente Ferrer, S. Leonardo e outros santos são de opinião que por um só pecado venial se padece um ano no purgatório.
            Não resistimos ao desejo de transcrever trechos ‘edificantes’.
            S. Leonardo conta em o seu sermão XXIII o seguinte caso:
            “Aparecendo a alma do papa Inocêncio III  a Santa Lutgarda, pedindo-lhe piedoso auxílio, lhe disse que Deus, por sua misericórdia, o tinha condenado ao Purgatório até o dia do Juízo Universal... mas que alcançara licença para lhe pedir comunhões, indulgências, esmolas e penitências, a fim de lhe ser abreviada tão longa expiação!... O que deve mais assombrar neste caso é que era este papa mui zeloso da igreja, vigilante no seu governo e fervoroso na fé; e, no conceito do grande Bellarmino, este pontífice viveu santamente e não cometeu advertidamente culpa grave!”
            Temos outros casos:
            “A venerável madre Francisca do Sacramento, carmelita de Pampelona, suscitada por Deus para fazer de toda sua vida um sacrifício perpétuo a favor das almas do Purgatório, estava com elas em contínua comunicação: freqüentavam sua cela dia e noite, ouvia-lhes os gemidos, sofria por elas, e pasmada ficara por ver e ouvir muitas almas santas que lhe contaram os muitos anos de Purgatório  em que haviam sido sentenciadas por culpas em aparência leves ou por falta de penitência de culpas graves perdoadas, pelas quais satisfaziam no Purgatório.
            Um santo bispo lhe disse que havia 59 anos estava padecendo no Purgatório por algum descuido no desempenho das suas sublimes funções!... (ver o Padre William Faber - Purgatório.)
            Há 60 anos que eu sofro no Purgatório lhe disse a alma de um fidalgo, e por coisas de que se não faz caso no mundo, como banquetes, danças e outros divertimentos profanos!...”
            “64 anos eu já padeci, lhe disse outro defunto, pela inclinação que tive  em jogar. Rogai a minha família que me socorra com missas!”
            “A alma de outro lhe disse havia 80 anos que padecia no Purgatório, e  ainda não sabia o que lhe faltava, e isto apesar de muita penitência que tinha feito três meses antes de morrer, e das muitas lágrimas que tinha derramado pelas culpas que lhe haviam sido perdoadas!”
            “A alma de um sacerdote lhe disse que tinha sido sentenciada a 45 anos de desterro naquela região de dores, por algumas leviandade no cumprir seu santo ministério.”
            “A alma de outro foi condenada a 50 anos de Purgatório, por não ter acudido com presteza, levando os últimos sacramentos a uma enferma, que morreu sem os receber!”
            “Enfim, refere a mesma venerável carmelita que às vezes caía em desmaio e perdia os sentidos, por ver e ouvir as almas de algumas religiosas[2] da sua ordem, que haviam sido fervorosas e santas nesta vida, e que lhe diziam serem sentenciadas a 20, 30 e 60 anos de Purgatório!...”
            (Vide Padre Faber, Purgatório.)
            Agora, ouvi o comentário que de tais fatos faz o pio autor do manual citado:
            “Ó meu Deus, o que será de todos nós!... o que será das almas dos nossos pais, parentes, amigos, de todos os que nos são caros!
            Não demoremos nos sufrágios e orações com que os podemos aliviar, e não cessemos de aplicar-lhes Missas e comunhões, porque não sabemos de que Missa e de que comunhão Deus lhes há de aplicar a virtude que lhes dará entrada no Céu.”
            Santa Teresa conta que, na cidade de Valadolid, o fidalgo D. Bernardino de Mendonça, que lhe doara uma casa, jardim e vinha para fundar um convento, falecera sem que ela soubesse, e nessa ignorância viveria, se Jesus não lhe aparecera, dizendo-lhe que a sua misericórdia se estendera sobre o fidalgo, por causa dos dons que havia feito para fundar-se um convento de sua mãe santíssima, e que a alma penaria no purgatório até o dia em que fosse celebrada na capela do convento a primeira missa.[3]
            Diz S. João Crisóstomo que os anjos não somente assistem ao sacrifício da missa, senão que no fim acodem voando às portas do Purgatório a libertar as almas, as quais Deus aplica a virtude do sacrifício que se acaba de celebrar.
            “Refere o venerável Beda que depois duma batalha, celebrando-se o sacrifício da missa pelas almas de alguns soldados que se julgava terem morrido no campo da batalha, e que se achavam presos e acorrentados, no dia e na hora em que dizia-se missa por eles quebraram-se de repente as correntes de ferro, e os presos acharam-se em liberdade, e voltaram à sua querida pátria! Bela imagem da eficácia do sacrossanto Sacrifício da missa a favor das almas do Purgatório, que pela virtude do sangue preciosíssimo de Jesus alcançam a liberdade de voarem para sua Pátria celestial.”
            Fechemos esta já longa relação de exemplos com o fato seguinte:
            “S. Bernardo no-lo declara com o exemplo da irmã de S. Malaquias, bispo de Irlanda. Este santo prelado, depois da morte de sua irmã, ofereceu por ela a Deus o Sacrifício da missa muitos dias seguidos, depois dos quais aplicou suas missas por outras intenções: apareceu-lhe então a alma da irmã, triste, abatida, e queixou-se dizendo-lhe: “Já são trinta dias que sou privada do alívio que recebia, e do pão celestial que cada dia me davas!” Reconhecendo o santo que naqueles dias havia deixado de dizer a missa por ela, reparou seu descuido, ofereceu de novo o Sacrifício pela de sua irmã e teve a felicidade de tira-la dos abismos da expiação e de vê-la subir gloriosa ao céu.”
*
            Embora o leitor muitas vezes tenha sorrido durante a leitura deste capítulo, sem dúvida também terá tido momentos em que sua alma se encheu de tristeza e dor, por ver que existem homens que se servem do seu prestígio para atrofiarem o cérebro de criaturas fanáticas, que muitas vezes têm perdido a razão na fantasmagoria dos fogos infernais.
            Eça de Queiroz traçou uma página magistral, em que aparece a figura doce de um padre simples e bom, o abade Ferrão, que se entristece vendo a complicação doentia de um alma de beata da cidade.
            Vamos transcrever a página soberba da confissão da carola ao bom padre Ferrão:
            “Logo na primeira noite em que chegara a Ricoça (contava ela), ao começar o rosário a Nossa Senhora, lembrara-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanela escarlate, que era tão eficaz nas dores das penas...
            Trinta e oito vezes de seguida recomeçara o rosário, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ela e Nossa Senhora!...
            Então desistira, exausta, esfalfada.
            E imediatamente sentira dores vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora, por vingança, a espetar-lhe alfinetes nas pernas...
            O abade pulou:
            - Oh! minha senhora!...
            - Ai, não é tudo, senhor abade!...
            Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia a expectoração e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com as fezes. Que havia de fazer?
            O abade, de olhar esgazeado, limpava o suor da testa.
            Mas isso não era o pior; o grave era que na noite antecedente estou toda sossegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier - e de repente, nem ela soube como, pôs-se a pensar como seria S. Francisco Xavier...[4]
            O bom Ferrão não se moveu, atordoado.
            Enfim, vendo-a a olhar ansiosa para ele, à espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:
            - E há muito que sente esses terrores, essas dúvidas?...
            - Sempre, Senhor Abade, sempre!
            - E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas inquietações?
            - Todas as pessoas que eu conheço. Dúzias de amigas, todo o mundo. O inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...
            E que remédio dava a essas ansiedades da alma?...
            - Ai, Senhor Abade, aqueles santos da cidade, o senhor pároco, o senhor Silvério, o Sr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre de embaraços...
            “E com uma habilidade, com uma virtude...
            O abade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem voluntariamente o rebanho naquelas trevas da alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto do céu, representando Deus e seus santos com uma corte que não é menos corrompida nem melhor que a de Calígula e dos seus libertos.
            Quis então levar àquele noturno cérebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que é por amor que é necessário servi-lo e não por medo... Que todos esses escrúpulos,  Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cair no estômago, eram perturbações da razão doente. Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regime para ganhar forças.[5]
            Sabemos que há no clero muitos abades Ferrão, que se vexam com “as mentiras piedosas” mas a quem o preconceito do fanatismo não permite publicamente atacar o erro e desmascarar a hipocrisia.
            Pobres padres! maior que o preconceito do farisaísmo, tendes a aguardar a justiça de Deus.
           


[1] A. Herculano, Opsc.3º., págs 6.
[2] Freiras
[3]  Vide Obra Citada, págs. 419 e 420.
[4] Suprimimos, por irreverente, o resto da frase.
[5]  O Crime do Padre Amaro, págs. 586 a 588.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

30 / 41 'Profissão de Fé' por Gustavo Macedo

30
                        Evitar o fenômeno espírita,
 desviar dele a atenção a que tem direito,
é trabalhar para a bancarrota da verdade. (Vítor Hugo)

            O primeiro concílio de Colônia ordena aos pregadores que não falem imprudentemente de milagres, limitando-os aos que se refere a Bíblia, ou aos que forem narrados por escritores de peso, estribados em sólidos fundamentos históricos.
            Já o sabemos: não existem milagres; o que como tal se considerava outrora, é hoje perfeitamente explicável como fenômenos espíritas.
            No capítulo passado, em atenção aos irmãos católicos e protestantes, que têm como regra absoluta de fé a Bíblia, extratamos dela alguns fatos, que nos pareceram demonstrativos e inegáveis.
            O jesuíta Padre Schouppe, no seu curso de religião, no capítulo referente “a autoridade dos livros bíblicos” diz: “têm eles dupla autoridade: 1ª autoridade divina; 2ª autoridade humana e simplesmente histórica.”
            Encarando apenas a segunda parte, diz o autor: “Ora, as histórias de um e outro Testamento têm uma autoridade superior a qualquer outra; essa autoridade é tão certa e está tão bem provada, que é impossível po-la em dúvida,[1] sem rejeitar-se ao mesmo tempo todo o monumento histórico, toda a autoridade histórica.”[2]
            Conseguintemente é impossível por em dúvida os fatos espíritas narrados na Bíblia; a opinião não pode ser mais insuspeita. Os leitores desta série devem ser muito agradecidos, como o somos, ao jesuíta Schouppe, pelos robustos argumentos que fornece inconscientemente em defesa do Espiritismo.
            No capítulo milagres da obra do referido sacerdote, depois de defini-los, faz a defesa brilhante em favor dos fenômenos espíritas no trecho seguinte, que não resistimos ao desejo de transcrever:
            “O milagre operado em favor de uma doutrina é o selo da autoridade divina impresso nessa doutrina. E a chancela de Deus, como o selo do rei é o sinal com que ele garante a autenticidade de seus decretos.
            Uma doutrina sancionada por milagres é infalivelmente verdadeira; porque, se ela fosse falsa, seguir-se-ía daí que Deus havia impresso no erro o selo de sua autoridade e que Aquele que é a verdade suma se tinha feito o abonador da mentira, o cúmplice da impostura, o que é absurdo.
            Logo, se a revelação cristã é autorizada por milagres, ela vem de Deus, é divina, é verdadeira.”[3]
            Francamente, a obra desse padre não está merecendo ir para o Índex? O certo, porém, é que a roupeta de um filho de Inácio de Loiola não é bastante negra que impeça a transparência dos raios da verdade.
*
            Vamos agora ao ponto anunciado.
            Na vida dos santos, os fenômenos espíritas são inúmeros. Destaquemos alguns, da ruma de livros que temos sobre a mesa, todos aprovados e reaprovados por muitos bispos nacionais e estrangeiros, e grande parte editados pela tipografia dos padres salesianos de Niterói, que os publica subordinados ao título: “Leituras Católicas”.
            A maior parte das histórias, contudo, bem merecem o qualificativo de ‘mentiras piedosas’, e até seriam humorísticas, se às vezes não causasse pena o doce Jesus figurando como comparsa de comédias sagradas.
            Na vida de Santa Teresa, lê-se:
            “Ema dessas vezes, estando ela orando a Deus para que lhe fizesse conhecer sua vontade acerca de certas relações que ainda entretinha com pessoas do mundo e que seus confessores lhe aconselhavam que abandonasse tudo, a fim de se dedicar completamente a Deus, quando ela começava a recitar o hino Veni Creator, pelo qual pedia a inspiração do Espírito Santo, caiu num êxtase e ouviu estas palavras: “Não quero mais que converses com os homens e sim com os anjos somente.[4]”         
            Não sabemos como se hão de haver as nossas irmãs católicas solteiras que pretendem casar, visto ser pecado conversar com homens!
            “Outra vez, estando enlevada num desses arroubos de amor divino, a Santa viu junto a si, do lado esquerdo, um anjo com forma humana. Nas mãos trazia ele um comprido dardo, todo de ouro, exceto a ponta, que era de ferro e tinha na extremidade uma centelha de fogo. Por vezes traspassou com ele o coração da santa, que ficava deliciosamente abrasada no amor de Deus. A santa tinha então 44 anos e estava no convento da Encarnação, em Ávila, quando se deu essa visão miraculosa. Em comemoração desse insigne acontecimento, o papa Benedito XIV concedeu uma indulgência plenária a todos os fiéis que visitarem alguma igreja da ordem carmelitana na véspera e no dia da Transverberação do coração de Santa Teresa, que tem lugar em 27 de agosto.”
            Nove meses depois do enterramento dessa santa, foi o cadáver desterrado, e Frei Graciano, provincial da ordem, desarticulou a mão esquerda do cadáver, entregando-a, dentro de uma caixa, às religiosas do convento d’ Ávila, sem lhes revelar o conteúdo.
            “Pouco tempo depois a Santa, tendo aparecido à superiora do dito convento (já antes o tinha feito a diferentes pessoas), revelou-lhe o conteúdo da dita caixa.”
            A revelação da mão é de tanta importância que absolutamente não entendemos, o que não é culpa do biógrafo.
            Jesus nos perdoará, mas não podemos deixar de bordar comentários aos sucessos ridículos em que irreverentemente o intrometeram.
            Pois fizeram o maior espírito que jamais veio à Terra se entreter de jogar uma espécie de futebol com santa Rosa de Lima, denominada por um padre historiador de vida de santos, na “Notícia”, santa pan-americana:
            Eis o trecho ridículo:
            “Sucedeu enfermar com uma dor de garganta. Apareceu-lhe o Senhor com uns dados na mão, convidando-a para jogarem, com o concerto de que quem perdesse se sujeitaria à vontade do ganhador. Lançou-se o dado; caiu a sorte para Rosa; pediu que lhe tirasse a dor de garganta; e imediatamente ficou sem ela. Torna-se a repetir o jogo; ganhou Cristo, e aumentou-lhe de sorte as dores, e a obrigou que com lamentos despertasse toda a casa. Acudiu a mãe, de cujos desesperados desassossegos compadecida a Santa, lhe declarou equivocadamente dizendo que eram jogos e galantarias do Esposo: e nesta humilde relação se lhe viu o rosto com angélico e brilhante luzimento.”
            Em outro lugar de sua vida lê-se que, depois de sua morte, fez diversas aparições.
            “Ao doutor João del Castillo apareceu ornada de luzes e engraçadas flores, e com uma açucena nas mãos; e por mais de 50 vezes se repetiu a visita, revelando-lhe altíssimos mistérios. - A virtuosa viúva apareceu, dizendo-lhe: Trabalhar, trabalhar, porque o prêmio celestial é grande. A mim me correspondeu copiosamente.  A várias pessoas chamadas para deporem, e jurarem, nos informes para a canonização, no mesmo ato em que estavam depondo, lhes aparecia a Santa com risonho semblante, aprovando o que iam dizendo.
            “No mosteiro da Santíssima Trindade se achava Sóror Maria de Bustamante com algum escrúpulo do que tinha jurado na dita informação Despertou-a uma voz, e disse-lhe: Não te aflijas, nem duvides da santidade de Rosa; Rosa é Santa. - Desconfiado dos médicos, e já com vigias no último paroxismo se achava o Provincial Frei Agostinho de Veiga da nossa Ordem. Apareceu Santa Rosa a um secular, e lhe mandou fosse dizer ao moribundo que escaparia da enfermidade, e que para maior glória de Deus seria Bispo. No mesmo instante que se lhe deu o recado, começou a melhorar; e depois se verificou o bispado.”
            Em 1182 nasceu um santo popular, S. Francisco de Assis, que procurou reagir contra o esplendor da igreja, fundando uma ordem mendicante; pela proverbial pobreza dos seus frades ficou o axioma - pobreza franciscana.
            Conta-se, na sua história, “que o papa Inocêncio III, que governava a igreja em 1210, relutava em permitir o estabelecimento da ordem, até o instante em que teve em sonhos uma visão pavorosa. O magnífico templo de S. João de Latrão se lhe afigurou vindo à terra, ao mesmo tempo que um homem pobre e desprezado suportava sozinho o peso da igreja, amparando-a com os braços possantes.”
            Dessa visão nasceu a licença para o funcionamento da congregação.
            “Tendo ido Francisco, em um sábado, a Assis, afim de ali pregar no domingo, na catedral, tiveram seus irmãos, durante a noite, encantadora visão. Em um carro de fogo, encimado por um globo mais esplendente que o sol, apareceu-lhes Francisco, circunscrevendo três vezes pela casa.
            Os religiosos não ousaram duvidar um só instante de que tudo isso fora uma manifestação celeste, um penhor seguro a golfar plena luz sobre a elevada santidade de Francisco.”
            O escritor católico que apelidou Santa Rosa de santa pan-americana, e que se mostra extremado adversário do Espiritismo, a ponto de chamar os espíritas ‘malabaristas das almas’ publicou, no dia dezesseis de setembro, n’A Notícia, o seguinte:
            “S. Francisco de Assis foi o primeiro dos santos beneficiados com a dolorosa graça da impressão das chagas de Jesus. Depois de S. Francisco, um imenso batalhão, escolhido pelo Salvador, sobretudo entre o sexo frágil, tem obtido essa suprema e terrível mercê da divina vulneração. Os santos que Jesus distingue com esse favor são chamados ‘os estigmatizados’. A ciência moderna em vão tem procurado, por todos os meios, desacreditar o fenômeno místico da estigmatização, em que o sobrenatural mais evidentemente se patenteia. Até hoje, porém, Charcots e Bernheims, e os seus discípulos, hipnotizando e sugestionando histéricas, não puderam desbancar esse prodigioso fato que, na história da igreja, existe desde S. Francisco de Assis. A estigmatização deste santo operou-se, como é sabido, depois de um áspero jejum, no alto do Alverve, baixando do céu um alado serafim - ardente e crucificado que do seu lado, dos seus pés e das suas mãos desferia flechas luminosas sobre o lado, os pés e as mãos de Francisco em êxtase. Daí por diante o penitente de Assis tinha, a cruciá-lo, essas Cinco Chagas sanguinosas. A igreja consigna o fato numa comemoração especial, mencionada no dia de hoje.”
            Quando Francisco morreu, narra o seu biógrafo:
            “No mesmo dia apareceu Francisco ao irmão Agostinho de sua Ordem, que se achava gravemente enfermo, bem como ao bispo de Assis, que fora em peregrinação ao Monte São Miguel, dizendo-lhes: - Deixo a terra e vou para o céu!”
            O leitor vai nos agradecer agora o trecho sublime que passamos a transcrever; é uma ‘mentira piedosa’, é certo, porém o estilo é simplesmente um primor; é do mais doce dos clássicos: Manoel Bernardes. Ouvi”
            “Estando um monge em matinas com outros religiosos do seu Mosteiro, quando chegaram aquilo do Salmo, onde se diz: Mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem, que já passou, admirou-se grandemente,  e começou a imaginar como aquilo podia ser.
            Acabadas as matinas, ficou em oração, como tinha de costume: e pediu afetuosamente a nosso Senhor se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe, ali, no coro, um passarinho que, cantando suavissimamente, andava diante dele, dando  voltas de uma para outra parte, e deste modo o foi levando pouco a pouco até um bosque, que estava junto do Mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma arvore e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve intervalo (conforme o monge julgava) tomou o vôo e desapareceu, com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia muito sentido: “Ó passarinho da minha alma, para onde te foste tão depressa”?
            Esperou. Como viu que não tornara, recolheu-se para o Mosteiro, parecendo-lhe que naquela mesma madrugada, depois das matinas, tinha saído dele. Chegando ao Convento, achou tapada a porta, que de antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o porteiro quem era e a quem buscava.
           


[1]  O grifo é do autor.
[2]  Vide obra citada, págs 32.
[3]  Obra citada, págs. 30.
[4] A frase foi aspeada pelo próprio autor da obra citada.