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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Prefácio do livro "No Oásis de Ismael"



                 Prefácio do livroNo Oásis de Ismael” – Ensinos e Meditações
Francisco Thiesen
1ª Edição FEB - 1989

"Os espíritas podem divergir nas ideias, mas não podem afastar-se da fraternidade, porque, se o fizerem, não são espíritas."
"Não há por onde fugir: ou o Evangelho é assimilado, ou não há Espiritismo."
(Dos Espíritos Bittencourt Sampaio, Pedro Richard e Romualdo de Seixas.)

Se existem razões que dispensam a apresentação de determinadas obras ao leitor, neste volume estariam elas evidenciadas em todo o seu conteúdo.

Na realidade, qualquer apreciação elogiosa do prefaciador sobre a profundidade dos pensamentos contidos nas páginas que se seguem resultaria desnecessária, eis que seu valor e beleza patenteiam-se à simples leitura atenta daqueles que aprenderam a admirar o bom e o belo.

Todavia, não resistimos ao prazer de colocar no limiar do livro, com a epígrafe, uma amostra do que ele contém da primeira à última página.

Resta-nos, assim, a tarefa de explicar as origens e o porquê da organização da obra. Todas as joias do pensamento espírita e cristão para aqui trasladadas procedem de comunicações obtidas por via mediúnica no tradicional "Grupo Ismael", cuja trajetória vale a pena rememorar , mesmo que sucintamente, para melhor conhecimento e apreciação do leitor, especialmente dos que pertencem às novas gerações de espíritas.

O "Grupo de Estudos Evangélicos do Anjo Ismael", conhecido simplesmente como "Grupo Ismael", célula de estudos evangélico-doutrinários e de trabalhos de natureza mediúnica, cuja fundação antecedeu à da Federação Espírita Brasileira, à qual se encontra incorporado desde 1895, na gestão de Bezerra de Menezes, tem suas origens nos mais antigos núcleos de estudos e práticas espíritas no Rio de Janeiro.

Sua história centenária começa, na realidade, com a fundação do pequeno "Grupo Confúcio", de efêmera duração, passando sucessivamente pela Sociedade "Deus, Cristo e Caridade", posteriormente transformada em "Sociedade Acadêmica" do mesmo nome e depois pela "Sociedade Espírita Fraternidade" que, por sua vez, transmudou-se em "Sociedade Psicológica Fraternidade". Finalmente, em 6 de junho de 1880, Antonio Luís Sayão, Bittencourt Sampaio e Frederico Pereira da Silva Júnior, juntamente com outros companheiros, organizaram o "Grupo Ismael", inicialmente denominado "Grupo dos Humildes" ou "Grupo do Sayão"; constituído pelos elementos fiéis ao Espiritismo estreitamente vinculado ao Evangelho de Jesus.

O nome "Ismael" surgiu como homenagem ao Guia Espiritual que preside os destinos da nacionalidade brasileira e orienta o movimento espiritista voltado para o Cristo de Deus.

Em mais de um século de lutas e de testemunhos, realizando reuniões semanais ininterruptas, fácil será imaginar-se o extraordinário acervo da fecunda produção mediúnica desse Grupo.

Muitas das mensagens espirituais nele recebidas foram levadas ao conhecimento público através da revista "Reformador", mas muitas outras se perderam no tempo ou nos arquivos.

Desse Grupo fizeram parte, dentre centenas de obreiros, nomes que o Movimento Espírita guardou, seja por sua dedicação à Grande - Causa, seja por sua lucidez e exemplificação em momentos cruciais do Espiritismo no Brasil: Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes, Antonio Luis Sayão, Frederico Júnior, Pedro Richard, Leopoldo Cirne, Aristides Spinola, Manuel Quintão, Guillon Ribeiro, Frederico Figner, João Celani Júnior, Antônio Wantuil de Freitas, Arnaldo São Thiago são apenas alguns dos trabalhadores que se tornaram mais conhecidos no meio espírita, desde o último quartel do século passado.

No período compreendido entre junho de 1939 e dezembro de 1942, Guillon Ribeiro, com seu espírito metódico a serviço de uma sensibilidade admirável, preservou para a posteridade grande número de comunicações de Guias, Amigos e Companheiros Espirituais, recebidas pelo médium J. Celani, elucidando questões, analisando fatos, advertindo e aconselhando, enfeixando-as em três volumes publicados pela antiga Livraria da Federação, os quais despertaram grande interesse, achando-se hoje esgotados.

Francisco Thiesen, percebendo o vazio que a falta de reedição daqueles volumes constituía, especialmente para as novas gerações de espíritas que não tiveram acesso às excelentes obras, e, ponderando, por outro lado, que, pelo menos os ensinamentos mais profundos e mais atuais contidos nas belas comunicações reunidas por Guillon Ribeiro deveriam ser levadas ao conhecimento público, resolveu publicar no "Reformador" alguns extratos e excertos dos pensamentos dos diversos orientadores espirituais.

Foi o que fez, a partir de 1979 até 1984, sob o título genérico de "Ensinos e meditações do oásis de Ismael".

O presente volume enfeixa toda a compilação de Francisco Thiesen. É mais um trabalho de mérito devido ao esforço do companheiro que se acha à frente da Diretoria da Casa de Ismael há vários anos.

            Ficaram preservados, neste livro, verdadeiras sínteses do pensamento espírita cristão, orientações lúcidas para a atualidade e para o futuro, que não envelhecem porque têm o cunho da sabedoria e da intemporalidade.

Os beneficiários desta obra são todos os espiritistas sinceros, jovens ou velhos, que vão perceber que as matrizes espirituais do Espiritismo Cristão praticado na "Pátria do Evangelho" têm sua origem no Mundo Espiritual Superior.

Todos quantos labutam e porfiam em melhorar-se, seguindo o caminho indicado pelo Cristo, têm nesta obra copioso manancial de ensinamentos cristãos e preciosos esclarecimentos doutrinários para revigorar-lhes o ânimo. 

Assina: Juvanir B de Souza


Francisco Thyssen

domingo, 17 de setembro de 2017

Públio Lêntulus


Públio Lêntulus
Sylvio Brito Soares
Reformador (FEB) Agosto 1944

Quantos anos já são passados daquela manhã primaveril, em que o velho e sisudo professor, com gesto comedido, contava aos seus alunos a fábula de La Fontaine, intitulada "O Lobo e o Cordeiro"! ...

Jamais a esqueci, como também nunca olvidei a sua paternal advertência: "Meus filhos, neste mundo em que vocês, amanhã, irão trabalhar com dignidade e amor à verdade, existem, infelizmente, muitos lobos como o da fábula a que me referi".

*

As produções mediúnicas de Francisco Cândido Xavier vêm, de ano para ano, se enriquecendo com trabalhos notáveis e sobre eles a crítica sincera e desapaixonada não pode deixar de reconhecer o seu real valor. Surgiram, agora, alguns desafetos da doutrina espírita e que, procedendo como o lobo da fábula, atacam essas obras mediúnicas com a estulta pretensão de invalidá-las. Assim intencionados, com fumaças de sabichões, ei-los apontando erros de português - inexistentes - ou, então, possíveis falhas gravíssimas em suas referências históricas. Houve mesmo quem prometesse um doce à pessoa que descobrisse ter Públius Lêntulus (personagem citada no "Há Dois Mil Anos", de Emmanuel) governado a Judéia no tempo de Jesus Cristo, embora nessa obra não se encontre afirmativa alguma de que Públius Lêntulus houvesse sido governador da Judéia.

E satisfeitos verificamos no "Diário de Notícias" de 21 do mês de julho, e publicado pelo Sr. Silvano Cintra de MeIo, em resposta a essa interpelação, o interessante artigo que, "data vênia", passamos a transcrever:

O Sr. Átila Pais Barreto, em seu ineditorial (Não editorial. Diz-se da parte do jornal vendida para publicação de informação de terceiros) de 18 deste mês, tecendo comentários em torno das obras psicografadas pelo 'médium Francisco Cândido Xavier, prometeu "um doce" a quem descobrisse que Públius Lêntulus governara a Judéia no tempo do Cristo. Vou atender a essa sua solicitação, não atraído pelo "doce" prometido, possivelmente envenenado, como venenosa foi a sua crítica, e sim para que, de futuro, não se mostre o ilustre articulista tão afoito em suas assertiva.

Em "La Grande Encyclopedie" - tome 22 - Editeur, H. Lamirault et Cie. Paris, e "Enciclopedia Universal Ilustrada-Europeo-Americana", tomo XXIX. Editores, Hijos de J. Espasa, Barcelona, lê-se o seguinte: "PÚBLIUS LÊNTULUS - Suposto predecessor de Pôncius Pilatus, na Judéia, a quem é atribuída a autoria de uma carta, dirigida ao Senado e povo romano, relatando a existência de Jesus Cristo”. A Enciclopédia espanhola adianta mais: "Por essa carta, Públius Lêntulus oferece pormenores sobre o aspecto exterior de Jesus e de suas qualidades morais, terminando-a com a afirmativa de que o Cristo era "o mais formoso dos filhos dos homens". A origem deste documento é desconhecida; o certo é que foi impresso pela primeira vez na VITA CHRISTI", de Ludolfo Cartujano (CoIônia, 1474) e, pela segunda vez, na Introdução às obras de Santo Anselmo (Nuremberg, 1491)".

Caso o douto articulista Pais Barreto deseje conhecer, na íntegra, essa presumida carta escrita por Públius Lêntulus, eu recomendo manusear a coleção de "Lar Católico", creio que do ano de 1940, e lá encontrará, então, um interessante artigo subscrito por Frei Benvindo Destefani, O. F. M, e no qual esse religioso insere o conteúdo da carta em lide. E é só. Houvesse ainda, em nossos dias, o uso da palmatória..."

Se, como pretende o Sr. Pais Barreto, as obras de Chico Xavier nada tem de mediúnicas, sendo simples fantasias suas, de pronto nos acode perguntar, porque esse "suposto" médium não escolheu Pôncio Pilatus, por exemplo, em vez do senador romano Públius Lêntulus, evitando destarte quaisquer reparos por parte da crítica? Deve, sem dúvida, causar impressão a qualquer pessoa de bom senso o fato de inúmeras criaturas cultas desconhecerem ter sido contemporâneo do Cristo esse senador romano, e que Chico Xavier o fosse exumá-la das cinzas de uma remota civilização, para revivê-lo nessa interessante e comovedora narrativa da vida pregressa de Emmanuel! O certo é que este iluminado Espírito, responsável pela obra "Há Dois Mil Anos", limitou-se a ditar a verdade dos acontecimentos então ocorridos, pouco se lhe dando a ignorância humana. Que a História silencie o nome desse senador, nada mais natural porque a sua vida política não foi aureolada com qualquer atitude digna de nota pelos historiadores.

Foi ele um senador como muitos outros de sua época e cujos nomes se perderam na noite dos tempos. Ainda recentemente em nosso Pais era comum, quando, por motivos particulares, um alto servidor público necessitava ir, digamos, à Europa ou aos Estados Unidos, confiar-se-lhe uma comissão qualquer, maneira indireta de se lhe custear as despesas. Com Públius Lêntulus sucedeu a mesmíssima coisa; motivos de família impeliam-no a transferir-se para a Palestina, e César desejando ser-lhe agradável, e para de algum modo justificar sua ausência de Roma com a percepção de vencimentos, confiou-lhe a incumbência de permanecer nessa região da Ásia Menor, como seu e também emissário especial do próprio Senado. Onde não existem as nuvens
tendenciosas dos interesses subalternos, tudo é claro e perfeitamente compreensível!

*

A Bierce, com ou sem razão, declarou que "a História é uma narração quase sempre mentirosa, de fatos quase sempre insignificantes, realizados por governantes quase sempre marotos e por soldados quase sempre imbecis." Eu prefiro comparar a História a uma respeitável anciã que, pela sua idade muito avançada, tem já a memória demasiadamente enfraquecida. Esquece-se, a todo momento, de contar episódios curiosos da sua vida. Senão, vejamos: O Sr. Antônio Neves Mesquita, em sua obra - "Estudos no Livro de Gênesis" - relata o seguinte: "Os grandes guerreiros Sargão lI, Esaradon, Tiglat-Falasar, Assurbanipal, Nabucadrezar, Ciro, Dario e uma lista de outros, não eram conhecidos há dois séculos passados e por conseguinte não era conhecida a sua história. Isto bastou para que a Bíblia fosse impugnada como contrária à História, falsa, lendária, etc. Quem ousaria hoje afirmar tal coisa? A Arqueologia encarregou-se de desenterrar todas estas civilizações e faze-las viver em nosso século."

Se, há alguns anos, em comunicação mediúnica, um Espírito dissesse chamar-se Akhenaten e que fora rei da décima oitava dinastia egípcia, naturalmente surgiria um Pais Barreto qualquer a proclamar a inverdade dessa comunicação, a flagrante mistificação do médium, porque a História não consigna houvesse, naquela dinastia egípcia, existido rei algum com esse nome! E, no entanto, agora, em nossos dias, a Arqueologia veio apresentá-lo ao mundo. Esse Ahkenaten fora filho de Amenhotep III, mas a História o registara, apenas, como Amenhotep IV!!!

Grande psicólogo esse senhor La Fontaine! Suas fábulas continuarão, ainda por muitos séculos, oferecendo-nos o retrato perfeito desses "lôbos" que desejando inutilizar uma obra de amor e de verdade, como a do Espiritismo, não trepidam em lançar mão de motivos absurdos, mas perfeitamente justos em seu entender faccioso
e apaixonado .

E quanta verdade encerra este pensamento de Le Sage - "Quando a paixão entra pela porta, a razão sai pela janela"!!!


Graus de Convicção


Graus de Convicção
Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Janeiro 1941

A Fé que transporta montanhas é a expressão máxima da convicção dos Espíritos Superiores, perfeitamente identificados com o Criador. Dessas alturas até nós outros, há infinitas gradações de convicção.

Desde a indiferença impensante, que crê para não se dar ao trabalho de pensar, até aos que creem porque têm certeza, a escala é extensíssima. Sobe da Terra ao Céu, pelos degraus da afirmação ou desce da Terra aos abismos insondáveis, pelos degraus da negação pessimista.

A imensa maioria da humanidade, por infelicidade sua, é indiferente. Crê friamente no que ouve, mas tem o pensamento ocupado pelas necessidades materiais, que constituem, de fato, o alvo único de tudo o que ela pensa. Essa maioria ainda está adormecida para a vida espiritual, de que não cogita. Acompanha “exteriormente as traduções, sem indagar como, nem porque o faz."

Entre os que já despertaram se interrogam a si mesmos e ao mundo ambiente, existe outra escala com muitos degraus ascendentes. Nos primeiros, a convicção mal se esboça: pouca profundeza e muita curiosidade. Depois, pelo estudo, pela observação, a convicção se vai consolidando e transformando em certeza "científica" isto é, certeza que não altera o curso da vida, porque está unicamente no consciente! Em seguida, acumula-se no subconsciente e se transforma em "certeza vital", ou automatismo da crença. Desde então, inicia-se uma vida nova: todos os valores mudam de significação. Coisas que antes pareciam possuir valor imenso, descem para plano secundário; outras, ao contrário, que pareciam, insignificantes, crescem de importância,        

A ânsia de aprovação, o receio dos juízos alheios, a preocupação de justificar-se vão desaparecendo. Amortecem o temor do futuro, as esperanças entusiásticas, o apego aos bens da Terra.

Pela leitura continuada da boa literatura espírita, a pouco e pouco todos vamos conquistando o estado d’alma, que tende a abolir essa mesma literatura, salvo as mais belas que sobreviverão como obras de arte, quais alguns poemas de combate à escravidão que ainda agora se reeditam. Quando chegarmos à certeza absoluta, por exemplo, da sobrevivência, toda a primorosa literatura de Bozzano, que hoje nos encanta, terá perdido significação. Reclamaremos, então, uma literatura que não nos fale de coisa já tão, sabida, mas que nos ajude a construir em nós mesmos estados mais elevados de consciência.

São infinitas presentemente as gradações da fé; mas, essa fase é passageira. Estamos galgando novo estado de consciência, que não deixará vácuo para a dúvida ou a hesitação. Quando descerem do consciente para o subconsciente os conhecimentos que nos estão sendo ministrados pela mediunidade" a nossa fé se tornará intuição da verdade. Teremos em nossa própria alma a verdade que nos há de libertar dos grilhões do pecado e, então, seremos construtores de um novo mundo.

Do nosso vocabulário desaparecerá a palavra “impossível", porque já teremos conquistado a fé que tudo pode. 


A literatura espírita de hoje, a multiplicidade dos fenômenos por toda a face do globo são a obra preliminar, cremos, da preparação dos obreiros necessários às grandiosas realizações do terceiro milênio. Nossa convicção já está sendo elevada a novo grau. 

Horas Claras


Horas Claras
Sylvio Brito Soares
Reformador (FEB) Junho 1944
  
O ensaísta inglês século passado, Hazlitt, descobriu, certa ocasião, nos arredores de Veneza, esta bela inscrição: Eu só conto as horas claras. Esta frase, em sua singeleza, encerra uma lição profunda para nós, espíritas. Adverte-nos que Deus só considera dignas de apreço as horas claras do nosso viver. A maior soma delas habilita-nos a fruir sutis, harmoniosas e doces vibrações espirituais.

É precisamente essa claridade imperecível de nosso ser anímico, que torna fácil o nosso acesso às puras regiões do amor divino. Os nobres impulsos de nosso coração se transformam em pétalas de luz e as suas paixões lúgubres enodoam as nossas almas! Que felicidade inaudita será a nossa no dia em que nos habituarmos a registar no mostrador imenso do relógio da eternidade da vida, somente horas claras de amor, de virtude, de piedade, de trabalho, de sacrifícios e de holocaustos de fé! 

As horas sombrias da vaidade, do orgulho, da ambição, da luxúria e do ódio oferecem, a princípio, a ilusão de se tornarem, num futuro próximo, o melhor padrão do nosso heroísmo e a mais nobre herança que poderemos transmitir aos nossos descendentes. Quando, porém, essa ilusão se desvanece e as horas sombrias começam a badalar tenaz e soturnamente no recesso de nossas almas, é que vamos aprender, compreender e sentir que só na luz clara que emana do trabalho-amor está a força capaz de fazer girar os ponteiros do relógio da nossa evolução eterna! 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Próximo


O Próximo
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Abril 1954

O próximo, em cada minuto, é aquele coração que se acha mais próximo do nosso, por divina sugestão de amor, no caminho da vida.

No lar, é a esposa e o esposo, os pais e os filhos, os parentes e os hóspedes.

No templo do trabalho comum, é o chefe e o subordinado, o cooperador e o companheiro.

Na via pública, é o irmão ou o amigo anônimo que partilham conosco a mesma estrada e o mesmo clima.

Na esfera social, é a criança e o doente, o desesperado e o triste, as afeições e os laços da solidariedade comum.

Na luta contundente do esforço humano, é o adversário e o colaborador, o inimigo declarado ou oculto ou, ainda, o associado de ideais que simbolizam nossos instrutores.

Em toda parte, encontrarás o próximo, buscando-te a capacidade de entender e de ajudar.

Auxilia-o com aquilo que possuas de melhor.

0s santos e os heróis ainda não residem na Terra. Somos Espíritos humanos, mistos de luz e sombra, amor e egoísmo, inteligência e ignorância.

Cada homem, na fase evolutiva em que nos encontramos, traz uma coroa incompleta de rei e uma espada de tirano.

Se chamas o fidalgo, encontrarás um servidor...  Se procuras o guerreiro, terás um inimigo feroz pela frente...

Por isso mesmo, reafirmou Jesus o velho ensinamento da Lei - "ama o próximo, como a ti mesmo.”


É que o Espírito, quando ama verdadeiramente, encontra mil meios de auxiliar, a cada instante, e o próximo, na essência, é o degrau que surge diante do nosso coração por abençoado caminho de acesso à Glória Celestial. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Kardecista, roustainista ou espiritista?




Kardecista, roustainista ou espiritista?
Roberto Macedo
Reformador (FEB) Outubro 1943


Procuremos, preliminarmente, fixar os contornos da palavra "kardecismo", determinando-lhe o verdadeiro conteúdo. Que é "kardecismo"? Ao pé da letra, o partido de Kardec. Nesse sentido, seremos "kardecistas", isto é, partidários religiosos daquele que se tornou universalmente famoso sob o pseudônimo de Allan Kardec? Impõe-se a resposta afirmativa. Todo espiritista ou espírita (para usarmos a expressão que a lei do menor esforço veio tornar usual) é partidário de Kardec, reconhece-o como codificador da doutrina e pioneiro da sua dialética. A própria Federação Espírita Brasileira, tão serena em pleno tumulto, realiza, todas as sextas-feiras, estudos públicos alternados sobre "O Livro dos Espíritos" e "O Livro dos Médiuns". A efígie de Kardec ilumina não só os papéis oficiais da Federação, como a capa do "Reformador", seu órgão representativo. Infelizmente, porém, não é nesse sentido amplo, legitimado pela etimologia, que se costuma empregar o vocábulo "kardecismo". Em ambiente mais teosofista do que propriamente espírita já ouvi a definição seguinte: "Kardecismo é a doutrina que não permite trabalhos práticos." Sem intuito de polêmica, peço licença para discordar. Kardecismo não é doutrina especifica sobre trabalhos práticos, restrita aos horizontes da mediunidade. É todo um sistema, admiravelmente desdobrado através de vários livros. Seus reflexos se estendem ás fronteiras da filosofia, da ciência, da religião. Os que assim definem o kardecismo exageram o escrúpulo revelado por Kardec, em relação aos trabalhos práticos. Exigir cuidados
especiais não é condenar. Urge apresentar o argumento pelo avesso: tanto Kardec aceitou os trabalhos práticos, que até procurou rodeá-los de requisitos assecuratórios da sua utilidade moral. Demais, compreende-se bem que Kardec fosse avaro na propaganda de intercâmbios particulares entre encarnados e desencarnados, numa fase por assim dizer infantil do Espiritismo cristão, mal interpretado e mal praticado ainda hoje, quando adulto.

Não menos prejudicial e inverídico é confundir kardecismo com a tese da corporeidade material de Jesus.

Em primeiro lugar, tenho dúvidas de que Kardec houvesse repelido formalmente a corporeidade fluídica de Jesus. Aceitando o fato como possível, definiu-o como hipótese, parecendo inclinar-se pela sua inviabilidade e inoportunidade, naquela época.

Em segundo lugar, dando de barato que Kardec houvesse rejeitado in totum a corporeidade fluídica, nem por isso estaríamos autorizados a simbolizar nesse acidente todo o conjunto da sua obra. Suponhamos - para aventar um exemplo, perante o qual a ninguém será licito subterfugir - que se tenha em vista definir "getulismo"; ora, o Sr. Getúlio Vargas afirmou algures que o maior poeta do Brasil é Gonçalves Dias; logo, estaria autorizada a definição: "getulista é aquele que admite Gonçalves Dias como o maior poeta do Brasil" . .. Não. A obra do Sr. Getúlio Vargas é profunda demais para caber nesse juízo rasteiro; a opinião sobre Gonçalves Dias não passa de acidente topográfico no panorama do conjunto.

E, em terceiro lugar, lembremo-nos do caráter evolutivo do Espiritismo, proclamada por Kardec, Roustaing e outros bandeirantes da ideia nova. Kardec vacilou a respeito da fluidicidade, faz quase um século; outros vacilam agora, impressionados com o arrojo aparente do fenômeno. Porque seremos tolerantes para com estes e não para com o missionário, em cuja boa vontade encontraram os Espíritos terreno propício à veiculação do Espiritismo? Se Roustaing "sempre considerou a Kardec o verdadeiro fundador da Doutrina Espírita." ("Os Quatro Evangelhos", vol. I, pag. 79), se o mesmo Roustaing encontrou em "O Livro dos Espíritos" - ''uma moral pura, uma doutrina racional, de harmonia com o espírito e o progresso dos tempos modernos" ("Os Quatro Evangelhos", vol. I. pag. 8), isso não empresta a Kardec o dom da infalibilidade ou da imprescritibilidade.

Quanto aos discípulos de Roustaing e de Kardec, talvez nem sempre tão cordatos entre si quanto deveriam, creio que se sentiram empolgados por esse grandioso estado de consciência que é a posse da verdade, mesmo contingente.


Criaturas humanas... O Cristo perdoou a Pedro faltas mais graves e nem por ter sido faltoso sentiu o apóstolo lhe minguarem as forças, no momento supremo, para a gloriosa humilhação do madeiro. Tais discípulos voltarão - se já não voltaram alguns - aliados naturais da evangelização, fraternalmente ligados pelo vínculo superior do Espiritismo, quer dizer do Cristianismo moderno. 

O Corpo fluídico da Bíblia

O Corpo Fluídico na Bíblia
I. Pequeno (Antônio Wantuil )
Reformador (FEB) Março 1944

Quando Esdras foi autorizado pela Sinagoga Magna a rever e compilar os Livros Sagrados, os hebreus não tinham, no seu Catálogo, o livro de Tobias, escrito em caldaico pelo próprio Tobias e por seu filho.

Atualmente, não existe qualquer exemplar nessa língua, tanto assim que a versão latina, de S. Jerônimo, foi feita da versão grega, da qual se diferencia em alguns pontos de pequena importância.

As edições populares da Bíblia, distribuídas pelos Protestantes, não incluem o Livro de Tobias, que, no entanto, faz parte das edições católicas, e mereceu aprovação dos teólogos e dos Concílios.

Nesse Livro, encontraremos o anjo Rafael, que sob a forma humana viveu vários meses entre os familiares de Tobias, com o nome de Azarias (socorro de Deus)...

Depois de cumprida a missão, Azarias, confessando ser ele o anjo Rafael, desapareceu de diante deles, que não mais o viram.

Antes, porém, de efetuar a desmaterialização dos fluidos com que formara o seu corpo, disse-lhes:

"A vós parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas eu me sustento de manjar invisível e de bebida que não pode ser vista pelos homens. É pois tempo que eu volte para Aquele que me enviou."

Como vemos, Rafael formou o seu corpo fluídico, viveu alguns meses entre os homens, e desmaterializou-se em presença da família a que viera proteger e encaminhar.

Esse fato nos demonstra que os Espíritos não criaram uma nova teoria, quando transmitiram, pela mediunidade mecânica da Sra. Collignon, as explicações de todos os versículos dos Evangelhos, na obra Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, obra única e incomparável no gênero, por ser a única que nos faz compreender o Cristo, nem Deus, nem homem, mas, como enviado daquele que lhe entregou a direção do nosso planeta.




O Desenvolvimento da Mediunidade


 O Desenvolvimento da Mediunidade
Aurélio A. Valente
Reformador (FEB) Março 1944

O desenvolvimento da mediunidade é uma das tarefas mais árduas dos que se dedicam à prática do Espiritismo. Além da experiência do mundo, precisam ter em elevado grau o senso da observação, para bem analisarem as comunicações, os Espíritos e os médiuns, a fim de tirarem dos fenômenos as mais proveitosas lições.

Quase todos, presidentes, médiuns e assistentes, tem pelos fenômenos, uma impaciência doentia, desejando resultados imediatos, sem levarem em conta que "a pressa é inimiga da perfeição".

As árvores frondosas, que dão a melhor sombra e os melhores frutos, levam anos para atingir o seu completo crescimento.

Muitos confrades não ligam ao desenvolvimento da mediunidade todo carinho que deve merecer esse abençoado trabalho, alegando que os Espíritos é que se encarregam de escolher os seus médiuns e produzir os fenômenos que desejam, e para corroborar suas afirmativas citam casos de pessoas que nunca se assentaram em mesas de sessões terem recebido manifestações. Ninguém contesta; porém, esses casos são em número reduzido. Esses médiuns, classificados por Allan Kardec, de espontâneos ou naturais, nem por isso dispensam a assistência de espíritas esclarecidos para poderem fazer bom uso da sua faculdade.

Não há ninguém capaz de dizer que Pedro, Sancho ou Paulo sejam médiuns, pois, nenhum sinal notável se observa no indivíduo. Só a experimentação o prova. E isso também é difícil, porque se há pessoas que recebem comunicações logo da primeira vez que comparecem a uma sessão, outras há que só o conseguem depois de meses, havendo ainda outras que só mesmo depois de anos de assiduidade e perseverança logram-no conseguir.

Pelo que acabamos de dizer, é o bastante para se verificar a necessidade de cuidarmos do desenvolvimento gradual e metódico dos médiuns, porque só pela instrução em geral, da parte moral e doutrinária do Espiritismo, poderão eles servir de instrumentos dóceis aos Espíritos comunicantes.

Em nosso trabalho anterior, fizemos referências às vibrações dos Espíritos e dos médiuns, e dos esforços que os primeiros fazem para estabelecer o equilíbrio a fim de se produzir o fenômeno. Assim, não podemos deixar de fazer um reparo no que se passa em grande número de Centros. É frequente vermos médiuns já desenvolvidos, segundo afirmam, a dar passes desordenados, sem a menor orientação, sobre os outros que se acham em desenvolvimento. A nosso ver, isso longe de favorecer dificulta seriamente.

Se a experiência nos diz que não há dois médiuns iguais, logicamente nem todos os médiuns desenvolvidos servem para dar passes, e muito menos para auxiliar o desenvolvimento da mediunidade.

Se, para a combinação de duas vibrações, como dissemos, há dificuldades, maiores serão elas para a harmonia de quatro: do médium desenvolvido e seu guia, e do médium em desenvolvimento e do Espírito que se quer manifestar.

Como se originou essa prática? Não o sabemos. O certo é que, no O Livro dos Médiuns, Allan Kardec diz que estava dando bom resultado o colocar um médium psicográfico, desenvolvido, a mão sobre a do médium em desenvolvimento, ou, mesmo, no ombro deste; porém, isso não é passe, na pura acepção do termo, e sim aposição da mão, do mesmo modo que faziam os Apóstolos conforme se lê nos Atos dos Apóstolos.

Os passes desordenados são prejudiciais. Não se pode dar passes sem preparo prévio, pois eles variam segundo a sua finalidade. Há passes horizontais, verticais, concêntricos, rotativos e dispersivos e, assim, o seu emprego não pode ser indistinto.

É preciso notar-se, também que nem sempre há afinidade entre o médium em desenvolvimento e o que lhe fica atrás. Deste modo, como se operar o fenômeno com facilidade?

Em muitos grupos, os confrades se envaidecem ao mencionarem o elevado número de médiuns desenvolvidos em seu meio, entretanto, quando se deseja uma receita, uma consulta, um estudo interessante, não aparece um só médium que sirva.

O desenvolvimento da mediunidade deve ser objeto de escrupuloso cuidado de todos os que se dedicam ao Espiritismo prático, pois não necessitamos de muitos médiuns sofríveis ou medíocres, bastando-nos poucos, mas, bons e seguros. Em Espiritismo, é preciso observar, não fazemos questão de quantidade, mas, sim, de qualidade.




Libertação pelo Evangelho


Libertação pelo Evangelho
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Março 1954

É nas horas de pungente provação que o homem se aproxima de Deus, porque o sofrimento lhe desperta o espírito adormecido pelas vibrações negativas da matéria, chamando-o para a realidade da vida verdadeira, que é a espiritual. Eis o motivo por que, nos transes dolorosos da humanidade, os indiferentes tremem e procuram, num sentimento que não sabem definir, alivio para os sobressaltos que lhes roubam a -tranquilidade costumeira. A dor é a chave mágica que abre ao espírito as portas da redenção. Ela aproxima a criatura de Deus e fá-la compreender a grandeza do homem que se escuda no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, enfrentando corajosamente os altibaixos da vida terrena.

Os conflitos que lançam nações contra nações, em nome de princípios que se não conciliam com a estrutura do Evangelho, são oriundos da materialidade dos homens. Os pensamentos impuros impregnam o ambiente de fluidos pesados, perturbando a paz dos espíritos e levando a desarmonia aos lares e às pátrias, desviando os homens do caminho reto do dever máximo traçado por Jesus em Seu código de amor e caridade: "amai-vos uns aos outros".

Já o disse Paulo, na Epístola aos Romanos: "A mente da carne é morte, mas a mente do Espírito é vida e paz. Pois a mente da carne é inimizade contra Deus; visto que não é sujeita à lei de Deus, nem o pode ser; os que estão sujeitos à carne, não podem agradar a Deus". Penetremos o sentido dessas palavras do grande Apóstolo dos Gentios e iremos interpretá-las como a afirmativa irrefragável de que os interesses materiais exacerbados conduzem o homem ao pecado, enquanto que a espiritualização de sua conduta terrena lhe oferece como prêmio inelutável o conforto moral, a paz, essa paz bendita que o divino Mestre nos dá a todos os instantes, por misericórdia de acréscimo, mas que nem todos se preparam convenientemente para recebê-la e frui-la em comunhão com os seus semelhantes.

A "mente da carne é inimizade contra Deus" porque viola os mais elementares princípios de fraternidade, atentando contra a majestade do espírito, num desviamento de trajetória que o livre-arbítrio permite para que se cumpra a santa palavra do Evangelho.

O homem não se pertence: é patrimônio divino. Está destinado à felicidade, mas tem de aprender por si mesmo a criar e defender essa felicidade, que é de natureza espiritual tão somente. As guerras retratam o verdadeiro aspecto moral do nosso mundo. Mostram que há falta de Evangelho no coração dos homens. Por isto, a felicidade, que é a aspiração máxima do espírito, só poderá ser alcançada por meio da cristianização dos lares.

Estamos no alvor do terceiro milênio e, consoante Emmanuel, "é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos. Se as dolorosas expiações coletivas preludiam a época dos últimos "ais" do Apocalipse, a espiritualidade tem de penetrar as realizações do homem físico, conduzindo-o para o bem de toda a humanidade.

O Espiritismo, na sua missão de Consolador, é o amparo do mundo neste século de declives da sua história; só ele pode, na sua feição de Cristianismo redivivo, salvar as religiões que se apagam entre os choques da força e da ambição, do egoísmo e do domínio, apontando ao homem os seus verdadeiros caminhos. No seu manancial de esclarecimentos, poder-se-á beber a linfa cristalina das verdades consoladoras do Céu, preparando-se as almas para a nova era. São chegados os tempos em que as forças do mal serão compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres, e os seus últimos triunfos são bem o penhor de uma reação temerária e infeliz, apressando a realização dos vaticínios sombrios que pesam sobre o seu império perecível".

A dor avassala o mundo. Flectida ao peso do sofrimento, a humanidade se engolfa na contemplação da própria desventura. Esta poderá ser o seu banho lustraI de reabilitação ante Jesus, induzindo-a ao entendimento do Evangelho, que encerra a vontade de Deus, tanto que o divino Mestre o afirmou: "O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou". Portanto, sem o Evangelho não pode haver salvação. "Aí vem a hora da colheita e antes que a noite do túmulo desça sobre vós com essas surpresas que fazem o desespero da alma, cumpre que aproveiteis as horas do dia. Aproveitai-as para cavar a dura terra dos vossos erros e imperfeições, preparando-vos, assim, para o vosso ressurgir de um dia, no seio doce e amantíssimo do Redentor do mundo! - diz Bittencourt Sampaio.

Estudai o Evangelho à luz do Espiritismo, levantando o edifício, da vossa crença sobre a rocha e não sobre a areia movediça, pois que nisso se encerra o critério da vossa fé, a base da vossa salvação; e, assim, tereis obtido a sonhada escada de Jacó, para a ascensão do vosso espírito aos páramos da luz e da verdade. Construí o edifício da vossa crença sobre a rocha, isto é, compreendei e praticai a Doutrina e Jesus dilatando os seios da vossa alma aos eflúvios desses sentimentos puros que santificam os anjos.

Se, porém, vos limitardes a ler o Evangelho, a compreendê-lo, sem o praticardes; se permanecerdes firmes e coerentes com as Ieis do passado, amando os vossos amigos e aborre- cendo os vossos inimigos, tereis edificado sobre a areia movediça, satisfazendo as necessidades da vossa alma com esses preceitos, com essas fórmulas que nada valem - tesouros que são corroídos pela traça - bens que se corrompem,
deixando os vossos espíritos na nudez das verdadeiras riquezas - as riquezas do céu!"

Sejamos os garimpeiros da fé, enriquecendo o nosso espírito nos veios do ouro do Evangelho, desfazendo-nos dos ouropéis, do pecado e iluminando-nos, a pouco e pouco, com as virtudes que identificam o verdadeiro discípulo de Jesus, que é "o Caminho, a Verdade e a Vida". Mas tenhamos sempre vivo em nosso pensamento o episódio de Getsêmani, onde Ele convidou os discípulos a orar, conservando o espírito vigilante para não ceder às vertigens do pecado.

Todos somos filhos pródigos, mas teremos a oportunidade de atingir a bem-aventurança espiritual, se porfiarmos na luta contra os nossos Impulsos subalternos, contra as solicitações recalcitrantes da nossa natureza material.

Aproximam-se os tempos preditos pelo Evangelho, em que os espíritos rebeldes serão chamados a prestar contas de suas tarefas, como aqueles servos de que fala a parábola do Mestre. Somente pelo Evangelho o homem poderá libertar-se da dor, à proporção que for evolvendo no sentido de Deus. As trevas que o circundam nascem da sua própria inferioridade espiritual, do seu alheamento das coisas do espírito, do seu afastamento de Jesus. À medida, entretanto, que se vai aproximando do Cristo, o negrume que o envolve cede progressivamente à luz difusa que promana dos ensinos do
manso Cordeiro.     


A libertação espiritual do homem depende de sua cristianização desde o lar, cristianização que se fará por meio do Evangelho, explicado em espírito e verdade, e vivido em todos os atos e pensamentos.

Uma questão atraente


Uma questão atraente
Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Março 1956

Entre os livros de exegese espírita que muito têm contribuído para a nossa formação doutrinária, além, evidentemente, dos de Allan Kardec, Léon Denis, Gabriel Delanne e outros, podemos mencionar, particularmente:

Os Quatro Evangelhos - de J. B. Roustaing;
Elucidações Evangélicas - de Antônio Luís Saião;
Jesus – nem Deus nem Homem - de Guillon Ribeiro;
A Personalidade de Jesus - de Leopoldo Cirne;
O Cristo de Deus - de Manuel Quintão;
Elos Doutrinários - de Ismael Gomes Braga.

Pela segurança dos argumentos e a propriedade das conclusões, no que concerne à importante e valiosa questão do "corpo fluídico de Jesus", a obra Os Quatro Evangelhos, verdadeiro monumento de sabedoria, contém as bases sólidas da teoria fluídica, tão lógica quanto convincente. As demais, excelentes para o encaminhamento do estudo da hermenêutica doutrinária do Espiritismo cristão, apresentam-nos subsídios primorosos, servidos por brilhantes raciocínios e conducentes a resultados incontroversíveis.

A primeira vez que tivemos a atenção despertada para a natureza fluídica do corpo de Jesus, devemo-lo à controvérsia inglória dos que, mal esclarecidos ou impenitentemente teimosos, se negam a admitir uma teoria tão clara e intuitiva. Nossa curiosidade fora aguçada pelos argumentos dos opositores, com os quais, a princípio, simpatizávamos. Depois, a deselegância de alguns e o azedume da maioria nos levaram a ponderar ainda mais seriamente o assunto e nos impressionou a serenidade e a justeza dos defensores de Os Quatro Evangelhos e do nome ilustre e respeitável de J. B. Roustaing. Lemos e relemos essa obra, estudamo-la com a preocupação de encontrar falhas e frinchas por onde não aceitaram o a que chamam dogma do fluidismo. Toda a razão tinha Kardec em deixar a teoria do corpo fluídico para ser julgada pelos que lhe sucedessem, depois que os Espíritos se manifestassem como ele mesmo veio a manifestar-se pela médium Zilda Gama.

É estéril a luta contra o "corpo fluídico". Há exemplos eloquentes da manifestação dos chamados "agêneres" na Bíblia. Vejamos, a respeito, O Livro de Tobias, editado pela Livraria da Federação Espirita Brasileira, onde o anjo Rafael, materializado, fez companhia a Tobias, ajudou-o, etc. Trecho do capítulo V: "Então respondeu Tobias a seu pai e disse: Meu pai, tudo que me mandaste farei; 2. Mas não sei de que modo poderei cobrar este dinheiro, porque nem ele me conhece a mim, nem eu o conheço a ele: que sinal lhe darei eu? Eu nem ainda sei o caminho por onde se vai a tal terra. 3. Então seu pai lhe respondeu e disse: Eu tenho em meu poder a obrigação de seu punho, a qual, quando tu lha mostrares, ele logo te pagará. 4. Mas agora vai, e busca algum homem que te seja fiel, que vá contigo, pagando-se-lhe o seu trabalho, para que tu cobres o dinheiro enquanto ainda eu estou vivo. 5. Então, tendo Tobias saído, achou a um gentil mancebo, que estava cingido (*) e como prestes a caminhar. 6. E não sabendo que era um anjo de Deus (1) o saudou e disse: Donde és tu, galhardo mancebo? 7. Eu sou um dos filhos de Israel. E Tobias lhe disse: Tu sabes o caminho que leva à terra dos Medos? 8. O anjo lhe respondeu: Sei, e tenho andado muitas vezes esses caminhos, e tenho estado em casa de Gabelo, nosso irmão, que mora em Rages, cidade dos Medos, que está situada sobre o monte de Ecbatana”, etc.

(1) O grifo é nosso.

Está bem claro que Tobias encontrou um anjo, isto é, um Espírito, e supôs tratar-se de um homem, de um ser dotado de corpo igual ao seu. Mais adiante, no capítulo IX: "1. Então Tobias chamou a si o anjo, que ele cria ser homem", etc, Rafael foi a uma cidade receber o dinheiro, fazendo-se acompanhar de quatro criados e dois camelos. Fez a cobrança e tudo correu normalmente, como se ele fosse um homem a cuidar de negócios, tanto que nenhuma suspeita despertou, quer em Tobias, quer nos demais com os quais teve contato. No capítulo XII, Tobias quis galardoar a Rafael, dando-lhe metade dos bens que havia trazido. Então, o anjo lhe revelou quem era, acrescentando: “A vós parecia-vos que eu comia e bebia convosco; mas eu me sustento de um manjar invisível e duma bebida que não pode ser vista dos homens. É pois tempo que eu volte para aquele que me enviou; vós porém bendizei a Deus e contai todas as suas maravilhas. E tendo dito estas palavras, desapareceu de diante deles, e eles o não puderam ver mais."

Allan Kardec, no capítulo XXVII, parágrafo 8 de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, diz: "Se o anjo que acompanhou a Tobias lhe houvera dito: "Sou enviado por Deus para te guiar na tua viagem e te preservar de todo perigo", nenhum mérito teria tido Tobias. Fiando-se no seu companheiro, nem sequer de pensar precisaria. Essa a razão por que o anjo só se deu a conhecer ao regressarem. ”Basta alguma reflexão para se alcançar quanto é significativa essa oportuna ponderação do Codificador.

Esclarece a Editora: "... o belo Livro de Tobias só aparece na Bíblia oficial católica, obra custosa e rara, inacessível à imensa maioria das pessoas que leem essa observação kardeciana."

*

Como se poderá compreender da leitura do interessante livro, Rafael se valera da materialização de seu corpo fluídico para se fazer presente e conviver com Tobias e outras pessoas, procedendo como verdadeiros seres humanos. Quando não mais se fez necessária a apresentação visível e tangível, desapareceu simplesmente "de diante deles". Não há aí nada de mirífico, assim como é da mais elementar compreensão o que acabamos de descrever, obedecendo ao texto expressivo em sua simplicidade. Espíritos que se materializam e passam horas, dias inteiros, entregues aos mais diferentes misteres, são encontráveis em numerosas passagens das Escrituras Sagradas, em antiquíssimas obras religiosas e profanas, Tivemos, nos famosos trabalhos de materialização realizados no Pará, com o concurso da Sra. Ana Prado, referidos no célebre livro do Dr. Nogueira de Faria - O Trabalho dos Mortos - exemplos honestamente incontestáveis. Na Europa, as experiências efetuadas pelo sábio William Crookes com a médium Florence Cook, durante as quais o Espírito de Katie King deu irrecusáveis testemunhos de materialização, por longas horas, em dias consecutivos, sob rigoroso controle científico. Tudo isto abona e fortalece sobremaneira a teoria do corpo fluídico.

Poderíamos levar longe a série de exemplos, o que não nos parece necessário. Algum dia a Ciência há de atingir o ponto que ainda boje considera inacessível e, então, os pósteros farão justiça aos cientistas do Espiritismo, à probidade por eles revelada em face das experimentações efetuadas. A Ciência jamais pode ser esgotada, Quanta coisa, que hoje vemos vulgarizada, justificou perseguições atrozes, negações definitivas, torturas morais e físicas aos pioneiros? No entanto, com o correr dos anos, com o desenvolvimento da cultura científica humana, os horizontes se alargaram e o impossível vem sendo gradativamente transformado em possível.


O Espiritismo não tem pressa porque está com a Verdade, Podem negá-lo e combate-lo hoje, como negaram e combateram ilustres vultos da Humanidade, como Leonardo Da Vinci, Campanella, Copérnico, Galileu e tantos outros. Nem por outro motivo Sócrates teve de beber cicuta e Jesus de ser azorragado e pregado à cruz do opróbrio.