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sábado, 24 de junho de 2017

Deus


Deus
Rodolfo Calligaris
Reformador (FEB) Novembro 1939

O orgulho e a presunção, a vaidade e a ignorância são, evidentemente, os maiores entraves ao progresso e à felicidade do homem.

O orgulho cega-o, fá-Io julgar-se um ser a parte na criação. Ninguém o suplanta; todos lhe são inferiores. As suas ideias são a expressão da verdade; tudo mais não passa de invencionices ridículas ou crendices tolas. O mundo é somente ele próprio; fora dele, nada mais existe, a não ser o vácuo e a sombra.

A presunção leva-o aos mais loucos desatinos. Torna-o irreverente e essa irreverencia lhe diz que não há nada digno de seu respeito. Dá-lhe a ilusão da onipotência e, assim iludido, investe quixotescamente contra tudo e todos, pois para ele não existe o invulnerável.

A vaidade, filha do orgulho, fá-lo supor-se um astro de primeira grandeza e a humanidade o conjunto de seus satélites. Torna-se pretensioso ao ponto de pensar que o mundo inteiro se preocupa com ele. Procura parecer diferente, original, para ser discutido, admirado e apontado como "um espírito forte".

A ignorância pode ser consciente ou inconsciente. A ignorância consciente é a dos simples e humildes que estão sempre prontos a confessá-la. A ignorância inconsciente é aquela que caracteriza os pseudo sábios e entendidos, os quais estão sempre dispostos a negar e a ridiculizar qualquer descoberta nova, seja lá em que campo for, mesmo quando não tenha dele o mínimo conhecimento. Essa casta de ignorantes é nociva e impertinente, porque nada admite que ultrapasse o seu ângulo mental, assim como não aceita como real senão aquilo que lhe cai debaixo dos sentidos.

Infelizes dos que se deixam colher pelas garras aduncas desses monstros terríveis!

Pois são precisamente esses infelizes, os orgulhosos e os presunçosos, os vaidosos e os ignorantes, os que - estultos! - pretendem arrebatar à humanidade a certeza da existência de Deus, blasonando que ninguém, absolutamente ninguém, será capaz de prová-la.

Pobres cegos, com pretensões a condutores de cegos! Lastimamo-vos, pois sois mais dignos de lástima que de exprobração!

*

A existência de Deus não pode, mesmo, ser demonstrada por provas sensíveis e diretas, porquanto o Ser que enche o tempo e o espaço não será, jamais, medido, pesado ou apalpado por quem só possui sentidos deficientes e limitadíssimos.

Existe em nós, porém, uma força instintiva e segura que para Ele nos conduz, afirmando-nos a sua existência com mais certeza e maior autoridade do que o fariam todas as demonstrações e todas as análises.

Os sentidos só nos dão a conhecer o mundo material, isto é, o efeito das causas. É, pois, inferior  razão que, descortinando o que está muito além, nos revela o mundo das causas.

A experiência apenas verifica os fatos; a razão agrupa-os e lhes deduz as leis.

As leis universais não foram descobertas pela experiência, mas pela razão; aquelas só coube verificá-las e confirmá-las, fornecendo as provas colhidas da observação.

O Deus antropomórfico de certas religiões este, sim, ninguém no mundo será capaz de localiza-lo, visto que não passa de uma concepção grosseira e fantástica, inadmissível no estado atual dos nossos conhecimentos. Mas, o Deus imanente, presente no seio de todas as coisas, o Ser que contém todos os seres, não há quem não o sinta, quem não encontre o Seu reflexo nas potências divinas que se aninham nos mais íntimos refolhos da alma.

Ora, o que não existe não poderia refletir-se.

Há, em Física, uma lei segundo a qual todo efeito promana de uma causa.

Lancemos, então, a vista pelos espaços infinitos, contemplemos, embevecidos, as maravilhas da Criação e, partindo do princípio enunciado por aquela lei, vejamos se é ou não possível provar-se a existência de Deus.

"Na hora em que se estendem pela Terra o silêncio e a noite, quando tudo repousa nas moradas humanas, se erguemos os olhos para o infinito dos céus, lá veremos inumeráveis luzes disseminadas. Astros radiosos, sois flamejantes, seguidos de seus cortejos de planetas, rodopiam aos milhões nas profundezas. Até às regiões mais afastadas, grupos estelares se desdobram como esteiras luminosas. Em vão o telescópio sonda os céus, em parte alguma do universo encontra limites; sempre mundos sucedendo a mundos, e sois a sois; sempre legiões de astros multiplicando-se a ponto de se confundirem numa poeira brilhante nos abismos infindáveis do espaço. Quais as expressões humanas que poderiam descrever os maravilhosos diamantes do escrínio celeste? Sirius, vinte vezes maior que o nosso Sol, e este, a seu turno, equivalendo a mais de um milhão de globos terrestres reunidos; Aldebaran, Vega, Procyon, sois rosados, azuis, escarlates, astros de opala e de safira, vós que derramais pela extensão os vossos raios multicores, raios que, apesar da velocidade de setenta mil léguas por segundo, só nos chegam depois de centenas e de milhares de anos! E vós, nebulosas longínquas, que produzia sois, universos em formação, cintilantes estrelas, apenas perceptíveis, que sois focos gigantescos de calor, luz, eletricidade e vida, mundos brilhantes, esferas imensas, e vós, povos inumeráveis, raças, humanidades siderais que os habitais! Nossa fraca voz tenta em vão proclamar a vossa majestade, o vosso esplendor; impotente, ela se cala, enquanto o nosso olhar fascinado contempla o desfilar dos astros!

"Se, depois desse rápido olhar lançado sobre os céus, compararmos a Terra que habitamos aos poderosos sois que se balançam no éter, ela, a par deles, apenas nos aparecerá como um grão de areia, como um átomo flutuando no infinito. A Terra é um dos mais pequenos astros do céu. Entretanto, que harmonia em sua forma, que variedades em seus ornatos! Vede-lhe os continentes recortados; as penínsulas esguias e engrinaldadas de ilhas; vede-lhe os mares imponentes, os lagos, as florestas e os vegetais, desde o cedro que coroa o cimo das montanhas até à humilde florzinha oculta na verdura; enumerai os seres vivos que a povoam: aves, plantas, insetos, e reconhecereis que cada uma destas coisas é uma obra admirável, uma maravilha de arte e de precisão.

"E o corpo humano não é um laboratório vivo, um instrumento cujo, mecanismo chega à perfeição? Estudemos nele a circulação do sangue, esse conjunto de válvulas semelhantes às de uma máquina a vapor; examinemos a estrutura dos olhos, esse aparelho tão complicado que excede a tudo o que a indústria do homem pode sonhar; a construção dos ouvidos, tão admiravelmente dispostos para recolher as ondas sonoras; o cérebro, cujas circunvoluções internas se assemelham ao desabrochamento de uma flor. Consideremos tudo isso; depois, deixando o mundo visível, desçamos mais abaixo na escala dos seres, penetremos nesses abismos da vida que o microscópio revela; observemos esse formigar de raças e de espécies que confundem o pensamento. Cada gota d’água, cada grão de poeira é um mundo no qual os infinitamente pequenos são governados por leis tão exatas quanto as dos gigantes do espaço. Milhões de infusórios agitam-se nas gotas do nosso sangue, nas células dos corpos organizados. A asa de uma mosca, o menor átomo de matéria são povoados por legiões de parasitas. E todos esses animálculos são providos de aparelhos de movimento de sistemas nervosos, de órgãos de sensibilidade que os fazem seres completos, armados para a luta e para as necessidades da existência. Até no seio do oceano, à profundidade de oito mil metros, vivem seres delicados, débeis, fosforescentes, que fabricam luz e têm olhos para vê-la. Assim, em todos os meios imagináveis, uma fecundidade ilimitada preside à formação dos seres. A natureza está em geração perpetua. Assim como a espiga se acha em gérmen no grão, o carvalho na bolota, a rosa em seu botão, assim também as gêneses dos mundos se elaboram na profundeza dos céus estrelados, Por toda parte a vida engendra a vida. De degraus em degraus, de espécies em espécies, num encadeamento contínuo, ela se eleva dos organismos mais simples, mais elementares, até ao ser pensante e consciente, numa palavra, até ao homem." (“Depois da Morte”, LEON DENIS).

Pois bem, se sabemos perfeitamente que não há efeito sem causa; se é indiscutível que a causa do universo não pode ser o Acaso, pois este" se existisse, seria cego, ininteligente e aquele que obedece a leis sábias e imutáveis: se é certo, certíssimo, que o infinito não é, nem poderia ser, obra do homem, visto como preexistia à sua criação, assim como sobrexcede, de muito, às suas possibilidades, é claro, lógico, insofismável que o Criador desse Infinito há de ser alguém cuja grandeza e sabedoria sejam também infinitas e esse alguém só pode ser - DEUS!


domingo, 18 de junho de 2017

Deus


DeusComo compreende-Lo em espírito e verdade        PARTE 1         
Ernani Cabral
Reformador (FEB) Outubro 1943

Deus é nosso Pai. Foi Ele quem criou nossa alma, dotando-a de imortalidade. Sendo bom e perfeito, merece cultuado; somente a Ele devemos adorar, porque, se nosso espírito goza da imortalidade, também somos deuses, pois existiremos por toda a eternidade. E, como deuses, só devemos prostrar-nos, submissos, ante o nosso Criador, o Deus dos deuses.

Esta afirmativa não é sacrílega, pois que está no Velho e no Novo Testamentos.

"Deus assistiu sempre no conselho dos deuses; no meio dele julga os deuses." (Salmos 81:1).

Jesus, com a sua grande autoridade de Messias, reiterou: "Não é assim que está escrito em vossa lei: Eu disse: sois deuses? Se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida ... (João, 10:34-35).

Mas, que é Deus? - "É a alma consciente do universo".

"Deus é espírito, declarou o Divino Mestre, e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram." (João, 4:24).

Sabemos que Ele existe; sentimo-lo, mas não podemos penetrar-lhe a essência, nem explica-lo convenientemente. Porque? - Porque somos finitos e Ele é infinito; somos imperfeitos e Ele é absolutamente perfeito.

A parte infinitesimal ainda em estado evolutivo, embora consciente, não pode fazer juízo preciso a respeito do todo, que é completo e lhe foge à percepção, quanto a sua expressão integral.

Sabemos que Ele está em toda parte. Mas, sobretudo, devemos senti-lo em nossos corações.

O Cristo ensinou: "O reino de Deus está dentro de vós. (Lucas, 17 :21). Paulo de Tarso o repetiu: "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós. (1ª aos Coríntios, 3:16).

Ainda o mesmo apóstolo, falando aos atenienses no areópago, acentuou:

"Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos pelos homens, nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de alguma criatura, quando ele mesmo é que dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas. E de um só fez todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra, assinando a ordem dos tempos e os limites da sua habitação; para que buscassem Deus, se porventura o pudessem tocar ou achar; ainda que não esteja longe de cada um de nós. Porque nele vivemos e nos movemos e existimos, como ainda disseram alguns de vossos poetas: porque dele também somos linhagem. Sendo nós, pois, linhagem de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro ou à prata, ou à pedra lavrada por arte e indústria do homem." (Atos, 17: 14 a 29).

Também não devemos limitá-lo, nem figurá-lo, como fazem infantilmente certos crentes, apresentando-O como um velho barbado e bonachão. Isto, sim, seria sacrilégio, se Deus não perdoasse a simplicidade e a ignorância dos que pretendem compara-lo a um homem, bitolando-o por um ser limitado e imperfeito.

Deus não tem forma, pois está em toda parte; é Espírito, porém não circunscrito, como o nosso, sim absoluto e integral, vivificando a terra e os outros mundos, tudo coordenando, sabiamente, dando vida e evolução ao universo!

É força criadora, harmonizadora, inteligente e justa.

Não há panteísmo nesta explanação, porque, se Deus está nos sois e nos planetas, como nas criaturas, Ele não é o sol, nem os planetas, nem as criaturas, porém, muito mais do que isto! O universo, como já disse alguém, seria o quadro e Ele o pintor. O panteísmo confunde Deus com a sua obra, enquanto que os que adoram a Deus em espírito e verdade sabem que Ele vive no universo, tendo consciência, amor e plenitude, sendo o criador desse todo sublime que expressa a sua grandeza e a sua perfeição.

Até os sofrimentos e as injustiças deste mundo são necessários para nossa evolução; portanto, o conjunto cósmico é completo. A imperfeição é relativa e contingente, pois vive no todo, que é perfeito. É apenas expressão da obra dos deuses, ainda humanos, ainda jungidos à matéria. Com efeito, os homens se rustem (enganam) para o seu próprio aperfeiçoamento espiritual, até conseguirem atingir regiões mais elevadas onde não há desses atritos, por ali imperar a lei de amor, que Jesus também quer dar à terra.

"Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás a teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos estão toda a lei e os profetas." (Mateus, 22:37 a 39).

Deus, porém, será trino? Haverá três pessoas distintas e um só Deus verdadeiro? - Não,
absolutamente, não! Isto não se encontra no Velho, nem no Novo Testamento; é interpretação dos homens, é criação das igrejas de pedra, dos concílios dogmáticos, que têm falseado a verdade embora de boa fé, criando mistérios impenetráveis, mas esquecidos da advertência do Salvador de que "nada há encoberto que se não venha a descobrir; nem oculto, que se não venha a saber". (Mateus, 10:26).

E os Espíritos do Senhor vieram, no tempo prescrito, derrubar esse e outros dogmas, que tem encoberto a verdade e deturpado a palavra evangélica, criando o temor a um Deus incompreensível, quando o verdadeiro Deus é uno, misericordioso e todo amor!

Jesus, o Espírito mais puro que já baixou à terra, protetor e governador do nosso planeta, interprete da vontade divina para as criaturas deste mundo, não é Deus. Ele procurou sempre evitar que assim o considerassem, como em seguida demonstraremos. O Velho Testamento não nos dá notícia de nenhum deus-trino; ao contrário, fala a cada passo da unidade divina. O mesmo se verifica nos Atos dos Apóstolos e em suas Epístolas, de cuja leitura se conclui que os companheiros do Messias nunca o tiveram como Deus, mas como Filho, isto é, como criatura, com individualidade própria e distinta do Pai, embora integrado no pensamento deste e expressando-o à terra, como o caminho para a salvação, ou, seja, para a purificação, para a elevação espiritual. Apenas no início do Evangelho de João, vemos a afirmativa de que Jesus é Deus; mas, Deus, como filho de Deus; como expressão de Deus para a terra, não o Deus único e verdadeiro, jamais o Deus dos deuses.

Jesus mesmo, respondendo a um homem, declarou: "Porque me chamas tu bom? Ninguém é bom, senão só Deus." (Lucas, 18-19).

Ninguém é bom, ninguém é Deus; só Deus é bom, só Deus é Deus, verdadeiramente. Os demais gozam da divindade, porque imortais, porque podem possuir a Deus no coração. Outros já alcançaram a perfeição sideral, unidos ao Excelso, como Jesus. E governam mundos. O Deus dos deuses, porém, é um só.

 "Não há outro Deus senão só um. Porque, ainda que haja alguns que se chamem deuses, ou no céu ou na terra (e assim sejam muitos os deuses e muitos os senhores), para nós, contudo, há só um Deus, o Pai, de quem tiveram o ser todas as coisas, e nós nele; e só um Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós outros por ele." (Paulo, 1ª aos Coríntios)

Jesus é Nosso Senhor, porque é o governador do planeta que habitamos, razão por que ninguém chegará ao Pai senão por seu intermédio, isto é, por intermédio de sua doutrina, que vem de Deus e que, conforme o disse Ele, se resume no amor.

O Divino Mestre ainda frisou: "O Pai é maior do que eu." (João, 14:28).

Se ele fosse Deus, que é absoluto, não seria relativo, ou, seja, não seria menor que a outra face de Deus.

Mais claro foi o Bom Pastor nesta afirmativa: "E a ninguém chameis Pai vosso sobre a terra; porque um só é o vosso Pai, que está nos céus." (Mateus, 23:9). "Nem vos intituleis mestres; porque um só é o vosso Mestre, o Cristo." (Idem, 23:10). Logo, Deus é Pai, Jesus é Mestre, porque interprete da vontade divina, médium de Deus.

Quando apareceu a Madalena, depois da "ressurreição", disse: "Não me toques, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai aos meus irmãos e dize-lhes que vou para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus." (João, 20:17).

Nosso Senhor foi aí bem explícito, mandando que ela fosse falar com seus "irmãos".

Os discípulos eram, como nós outros somos, irmãos do Divino Mestre - e não filhos - porque oriundos da mesma linhagem para usarmos do substantivo de que Paulo se serviu.
             
Jesus disse a Madalena: "Vou para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus."

Ora, se ele também fosse Deus ou um desmembramento misterioso da divindade seria igual ao Pai, porque era uma parte componente do Todo Poderoso e não chamaria "irmãos" a seus apóstolos, não trataria a Madalena como tal e nem se expressaria daquela forma, confessando que o Pai tanto era o seu Deus, como o de Marta Madalena e dos discípulos.

É certo que Jesus, Espírito puro, embora criado como nós, muito antes que a terra existisse, jamais faliu. "Cordeiro imaculado", atingiu as regiões siderais em linha reta, sem as sinuosidades que caracterizam, por exemplo, o avanço das nossas almas. É verdadeiramente um Filho de Deus, porque honra ao Pai, fazendo-lhe a vontade, nas mais acendradas manifestações de amor. Por isto, mereceu governar a terra e, possivelmente, outros planetas... (Temos a impressão pessoal de que todo o nosso sistema solar está sob a sua supervisão, sob o seu império meigo e esclarecido. Fomos levados a tal ideia, pelo fato dele ter asseverado: "Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco." (João, 10:16)

Em resumo, Jesus é um Cristo, como muitos outros há nas sublimes regiões em que Ele habita, governadores de outros planetas ou de outros sistemas planetários.

Não obstante, porém, a imensa distância a que dele nos achamos, moral e cientificamente, mesmo procurando-o com ardor, porque sabemos que Ele é "o caminho, a verdade e a vida", ainda assim temos a alegria de proclama-lo nosso estremecido irmão. Irmão superior, valoroso, sábio, cheio de amor e de virtudes, que infelizmente não possuímos, pois somos ainda "escravos do pecado". Eis o que nos distancia do Mestre. A separação é enorme, bem o sabemos. Tangidos, porém, pela sua palavra maravilhosa, seremos libertos e sentiremos a ventura e a graça de nos considerarmos também filhos de Deus, como Ele o é.

Já que falamos em "Santíssima Trindade", ocorre-nos a seguinte pergunta: o Espirito Santo é Deus? - Não, o Espírito Santo não é Deus, embora com Ele se confunda, pois expressa a sua vontade.

Segundo as explicações dadas pelos mensageiros do Senhor, o Espírito Santo é uma expressão que sintetiza a falange de Espíritos elevados, que manifestam a bondade do Excelso para com a terra.   
                
São os anjos e os seres de hierarquia superior nas esferas celestiais e que servem sob as ordens do Pai e de Jesus, pois este exprime sempre a vontade de Deus. É o nome genérico da coorte benfazeja dos Espíritos do Senhor. Assiste os homens de boa vontade, dando-lhes intuições salutares, edificantes (morais e científicas), servindo-lhes de guia, protetor ou anjo de guarda, encaminhando-os ao amor divino, que redime e purifica.

Portanto os que acreditam em Jesus, os que praticam o bem, seja qual for o credo a que pertençam, tem o batismo, a assistência do Espírito Santo, merecem o amparo das falanges do bem que sempre que podem (sem ferirem o livre arbítrio de seus protegidos, que é sagrado), como dádiva de Deus, os livram do mal, isto é, do pecado.

Ele é o Consolador que Jesus prometeu diretamente aos homens de boa vontade, interpretando também, nos tempos prescritos, a palavra do Divino Mestre, fazendo-o em espírito e verdade, para que se cumpram as Escrituras.

Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” (João 14:26).


DeusComo compreende-Lo em espírito e verdade        PARTE 2         
Ernani Cabral
Reformador (FEB) Novembro 1943


Não há uma só referência na Bíblia donde se deduza que Deus seja trino. Apenas, Jesus, conforme relata Mateus, cáp. 21, vers. 1, disse aos seus discípulos: "Ide pois e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo."

Mas, absolutamente não declarou que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas distintas e num só Deus verdadeiro". Esta conclusão foi tirada, erroneamente, pelos homens, reunidos em concílio, onde nunca existiu unanimidade de vistas. Tal dogma é criação de seres falíveis, é interpelação, enxerto, excrecência posta pelos homens nos Evangelhos do Senhor, porque não repousa, antes contraria, as afirmativas de Jesus. Trata-se, lamentavelmente, de má interpretação dos livros sagrados, como os Espíritos de Deus nos têm desvendado.

Nosso Pai é uno, perfeito, absoluto, eterno, infinito, porém não se fraciona, nem se desmembra, não se subdivide, embora esteja em toda a parte. Este é o Deus verdadeiro: o Deus de Moisés, o Deus de Jesus, o Excelso, o Todo Poderoso, Criador do céu e da terra, dos homens e das coisas. Perante Ele, ante esse Deus único e perfeito, o nosso espírito se curva reverente e o adora, cheio de fé, de amor e de esperança!     

É incontestável que Jesus declarou: "Eu e o Pai somos um." (João, 10:30). "Eu saí de Deus. Eu saí do Pai e vim ao mundo." (Idem, 16:28 e 29).

Mas, tais afirmativas têm de ser confrontadas com outras, para que seja tirado da letra o espírito dos Evangelhos, pois, conforme Paulo advertiu, "a letra mata e o espírito vivifica". (II aos Coríntios, 3:6). A letra mata, isto é, conduz ao erro; e o espírito vivifica, ou, seja, conduz à verdade!

Tomando a letra, isoladamente, algumas passagens bíblicas, onde Jesus falou em linguagem figurada; jungindo-se o interprete, rigorosamente, a tais expressões, certo cairá no erro do dogmatismo e da intolerância.

É preciso que se busque dar à palavra do Senhor, não uma exegese rigorosa e formalística, mas um paralelo com outras, que completam o sentido dos textos, onde a verdade está velada, porque assim era mister, às inteligências dos homens da época, cujo orgulho e atraso intelectual exigiam que Deus se fizesse homem - igual a eles - concepção que reinou durante séculos, porque tal era necessário, para impressionar mais fortemente a humanidade. Todavia, no tempo prescrito, as palavras de Jesus são explicadas pelo Espírito Santo, que vem dar a interpretação exata e justa de todos os versículos, tirando o véu da letra, iluminando, esclarecendo-lhe as palavras, em espírito e verdade!

Assim, vejamos o que Jesus pretendeu afirmar com aquelas expressões e vamos faze-lo de acordo com a "Terceira Revelação" divina, o Espiritismo.

Citemos, antes de mais nada, outros textos, que aqueles se relacionam, intimamente.

"Como meu Pai me amou, assim vos amei eu. Permanecei no meu amor." (João, 15:9).

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim." (Idem, 14:6).

"Não credes que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo de mim mesmo; mas, o Pai, que está em mim, esse é que faz as suas obras." (Idem, 14:10).

''Naquele dia conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós." (Idem, 14:20).

"Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele morada." (Idem, 14:23).

"E a palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou." (Idem, 1.4:24).

"O meu preceito é este, que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei.” (Idem, 15:12).

"Se me amais, guardai os meus mandamentos." (Idem, 14 :15) .

E, finalmente, para completar essas citações bíblicas, chamo a preciosa atenção do leitor para mais estas, muito importantes e que completam a elucidação daqueles textos. Com efeito, o Nazareno, dirigindo-se ao seu Criador e nosso Criador, ao seu Deus e nosso Deus, implorou, em proveito dos discípulos:

"Eu não peço que os tireis do mundo, mas que os guardeis do mal.” (João, 17 :15). Deve-.
se entender que o mal é o pecado,

E logo depois:

"Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E eu me santifico a mim mesmo por eles, para que também eles sejam santificados na verdade. Eu não rogo somente por eles, rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra. Para que eles sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que eles também sejam um em nós e creia o mundo que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me havias dado, para que eles sejam um, como também nós somos um. Estou neles e tu estás em mim, para que eles sejam consumados na unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste e que tu os amaste, como amaste também a mim, Pai, a minha vontade é que, onde eu estou, estejam também comigo aqueles que tu me deste; porque me amaste antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu; mas, eu te conheci e estes conheceram que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu Nome, e lh'o farei ainda conhecer, a fim de que o mesmo amor com que me amaste, esteja neles, e eu neles." (João, 17:17 a 26),

A, unidade divina é o amor. A palavra de Jesus, que interpreta a vontade de Deus, é a verdade. E a verdade consiste, como disse o Divino Mestre, em "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Nisto se resumem as leis e os profetas." (Mateus, 22:40). Quem ama a Jesus segue os seus mandamentos e caminha por seu intermédio para Deus, que é a verdade e o amor. Sentindo a lei sublime da fraternidade, unifica-se ao Pai pelas obras, que são o lídimo testemunho da fé. E instala o reino de Deus no coração: o Cristo passa a morar nesse Espírito pois ele reside onde o amor impera. Jesus acha-se absolutamente integrado na lei divina portanto, no amor, ou seja, na expressão dessa lei, Ele e o Pai "são um"; nós algum dia seremos um neles, como quer Nosso Senhor.

O Salvador, referindo-se aos seus discípulos àqueles que creem na sua palavra. disse:

" ...que eles sejam todos um, como tu, Pai és em mim e eu em ti, para que eles também sejam um em nós." (João, 17:21).

Em face dessa afirmativa de Jesus e do dogma da "Santíssima Trindade", é o caso de perguntar-se: como é possível uma trindade de tantos Espíritos, na unidade de um só Deus?

Já é tempo da humanidade compreender e sentir as palavras do Divino Mestre em espírito e verdade. É preciso que rompa desassombradamente com o tabu dos dogmas e dos preconceitos: é necessário não creia de olhos fechados, sem investigar, sufocando a inteligência, quando o raciocínio é o dom mais precioso do espírito.

Que os homens se arreceiem menos do inferno e mais do erro! Que possam compreender a verdade sem o pavor de pretensas heresias, porque, quando interpretam os Evangelhos com sinceridade (que também é amor), Jesus nos vê, nos assiste e nos ilumina!


sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Anti-Espiritismo pitoresco


O Anti-espiritismo pitoresco – Parte 1
por Tito de Souza e Meio
Reformador (FEB) Outubro 1939


Pascal pensava deste modo:

"A imortalidade da alma é uma coisa que nos importa tanto, que nos toca tão profundamente, que é preciso se tenha perdido todo sentimento para ser-se indiferente a saber o que lhe diz respeito. O nosso primordial interesse e o nosso principal dever é instruir-nos sobre este assunto, do qual depende toda a nossa conduta. E é esta a razão por que, entre aqueles que têm dúvidas a respeito, eu distingo os que trabalham com todas as suas forças para se esclarecerem, dos que vivem sem se darem a esse trabalho e sem em tal pensarem. Esta negligência em face de um assunto em que se trata de si próprios, da sua eternidade, do seu todo, irrita-me muito mais que me enternece; ela me espanta e apavorar é para mim uma monstruosidade. Eu não digo isto pelo zelo piedoso de uma devoção espiritual. Ao contrário, entendo que se deve ter este sentimento por um princípio de interesse humano."

Ora, muito bem. Que objetiva o Espiritismo?

Esclarecer-nos sobre a imortalidade da alma; sobre a preexistência e a sobrevivência da individualidade humana independente do corpo material.

Fins louváveis ou reprováveis, senhores opositores?

Mas, se o Espiritismo como doutrina moral e filosófica é de alta transcendência como objeto de pesquisas e experimentação, seja com os rigores e cautelas da análise científica, seja com a observação pura e simples dos fenômenos, tais como se apresentam nas sessões mediúnicas, é sempre um assunto difícil.

Tão difícil, senhores, que um experimentador do topete de Charles Richet levou mais de 40 anos apalpando, como que atordoado entre a evidência dos fatos e a sua explicação à luz dos próprios conhecimentos que, é de supor, não deviam ser poucos.

Tão embaraçado se viu Richet para conciliar o insólito dos fatos com todas as possibilidades
científicas do seu vasto armazém de conhecimentos, que em certa fase da sua gloriosa carreira de experimentador, apela para um hipotético "sexto sentido", como única maneira, única forma, único jeito de procurar explicação para o que, fora da hipótese espírita, não tinha e não tem explicação plausível.

Com o tempo, porém, Richet foi discretamente silenciando sobre o tal "sexto sentido" e pode ter-se como certo que, quando a sua fulgurante inteligência produziu "La Grande Espérance", ele já não acreditava mais do que nós no seu famoso derivativo.

Por aqui se vê que a coisa não é "sopa" e que quem quer que deseje nela meter o dente tem que estudar muito e continuamente. Pois é, precisamente, o que não faz, se não a totalidade, pelo menos a maior parte dos opositores do Espiritismo.

Terreno eriçado de obstáculos, onde forças sutis se atraem e se repelem constantemente, não há nenhum espírita digno deste nome que não conheça as dificuldade que o Espiritismo apresenta no seu aspecto experimental; da mesma forma que nenhum espírita pode nutrir a presunção de que todos os fenômenos que se apresentam à sua observação são lididamente espiritas.

Evidentemente, muito há que joeirar. Mas, lá porque as pepitas de ouro se escondem entre aluviões de areia e cascalho, não se segue que deixem de ser uma realidade palpável que recompensará o esforço daquele que se afadiga em bateá-las. Às vezes - raras vezes - é claro - as pepitas apresentam-se à superfície, convidando a serem apanhadas sem esforço. Assim também, algumas vezes, os fenômenos espíritas se apresentam lídimos, convincentes e atordoantes, sem darem lugar a dúvidas.

Mas isto não sucede sempre. Em geral, é preciso muito esforço e tempo para observar, estudar, comparar e deduzir.

Assim fizeram sempre aqueles que desde Kardec, se tornaram depois adeptos da nova doutrina. Não creiam os senhores opositores que foi por ouvir dizer que Denis, Delanne, Flamarion, Geley, Crookes, Barrett, Lodge, Wallace, Hyslop, James, Conan Doyle, Sousa Couto, Oliveira Feijão, Bezerra de Menezes, Vianna de Carvalho, Bittencourt Sampaio e tantos outros se tornaram defensores do Espiritismo.

Pois o mesmo tem de fazer todo aquele que deseje ser espírita com convicção, como também todo aquele que deseje negar e combater o Espiritismo.

Infelizmente, estes últimos não o fazem nunca. É certo que muito frequentemente aparecem adversários do Espiritismo que apregoam aos quatro ventos conhecê-lo muito bem, dizendo que por isso o combatem. Conversa fiada. Meia dúzia de afirmações insubsistentes, quase sempre truncadas e outras tantas citações em falso bastam para nos dar uma ideia rápida e segura de que o ilustre opositor nada entende do riscado.

Eis porque, quase sempre, o anti-espiritismo é de um pitoresco extraordinário, quer nas suas
objurgatórias, quer nas suas explicações dos fenômenos que nós outros atribuímos à ação dos Espíritos desencarnados, entidades que o materialismo empavezado e o espiritualismo rançoso, em conúbio de interesses, se negam a admitir.

Vamos ver se nos próximos artigos podemos dar ao leitor uma fraca ideia desse pitoresco
anti-espiritismo.


O Anti-espiritismo pitoresco – Parte 2
por Tito de Souza e Meio
Reformador (FEB) Novembro 1939

Quantas vezes não temos perguntado a nós mesmos porque é que criaturas inteligentes, de
razoável cultura científica, ou filosófica, ou literária e até mesmo cerebrações de privilégio se mostram tão refratárias a admitir a possibilidade da existência de forças e energias imponderáveis, ao serviço de inteligências extraterrenas, atuando normalmente nos diversos mundos e nos espaços interplanetários.

Repare-se que tais senhores aceitarão como viáveis os maiores absurdos em matéria de hipóteses no campo psíquico, contanto que as causas presumíveis possam situar-se no âmbito planetário. Mas se, ao contrário, para admitirem a viabilidade de uma hipótese, investigando sobre as causas prováveis, tiverem de alongar o pensamento para além das fronteiras do orbe, para esse espaço infinito, onde, entretanto, seus olhos podem admirar coisas tão reais como a luz suave e polarizada da Lua e as cintilações brilhantes do Cruzeiro, de Orion, da Grande Ursa e do Sete-Estrelo, então é de ver-se que não só os tais se recusam a perder tempo com semelhantes questões de nonada, como não raro aconselham se investigue da sanidade mental de quem tiver a temeridade de aventar semelhantes hipóteses, para eles simples disparates, merecedores, quando muito, de olímpico desdém.

E não valerá a pena indagar da razão de ser dessa intolerância, dessa espécie de fobia malsã
contra tudo o que não é passível, normalmente, de ser visto, cheirado e apalpado?

Pois não é estranhamente curioso que homens afeitos ao labor cientifico ou cultural, quase sempre propício ao desenvolvimento dos pendores analíticos, conhecendo, pelas próprias exigências dos estudos, que estão cercados de potentíssimas forças invisíveis e imponderáveis, de vibrações de que não se apercebem senão de forma indireta e de influências psíquicas indefiníveis, mas, reais, evidentes, manifestas, sentidas e muitas vezes, até, temidas; não é curioso, dizemos, que tais homens oponham sempre uma negação formal e sistemática a mais que possibilidade de existirem no Universo infinito forças inteligentes que interfiram de forma geral em todo ele, e de forma particular em determinadas esferas?

Sem dúvida, não é fácil explicar de maneira completamente satisfatória a razão de tal relutância, manifestada até por metapsiquistas de alto valor, durante anos e anos de labor experimental. Contudo, não será temeridade afirmar que ela tem suas principais raízes em velhas taras geocentristas, das quais a humanidade apenas em teoria se libertou.

Ora, vejamos: há pouco mais de 400 anos, a Terra era ainda considerada o centro do Universo. Pelas teorias astronômicas e cosmográficas de Claudio Ptolomeu, que foram aceitas durante toda a Idade-Média, o Sol e os Planetas fariam a sua rodada em volta da Terra, que estaria fixa e imóvel no centro do sistema.

Quanto ao firmamento, este era, segundo Aristóteles, o 8.º céu (outros diziam ser o 7º), tido como uma abóbada de cristal em que as estrelas estariam engastadas. Acima dele existiria, apenas o Empíreo, ou a região celeste da Bem-aventurança.

Guerra Junqueiro, verdadeiro condor da poesia filosófica, criticou com certa irreverência, mas com muita graça, no poemeto da Velhice, "A Gênese", esta simplista concepção do Universo. O certo é, porém, que, até há muito pouco tempo, segundo a ideia geralmente aceita, a Terra era o centro e a principal razão de ser desse mesmo Universo, sendo tudo mais simples acessório para uso e gozo do primata terrícola.

Cabe nesta altura um parêntese destinado a chamar a atenção para o fato de que, frequentemente, grandes cerebrações se mostram fechadas à penetração de grandes incógnitas científicas. Assim é que Aristóteles, uma das mais maravilhosas e precursoras inteligências de todos os tempos, nada suspeitou da verdade heliocêntrica, comportando-se, no assunto, em flagrante contraste com a genialidade das suas concepções em outros departamentos do saber e conhecimento humanos.

E, não obstante, parece certo que, muito antes dele, Filolaus (filósofo pré-socrático), discípulo de Pitágoras, teve a intuição da realidade, pois que sustentou a teoria que apresentava a Terra e os planetas girando em volta do Sol, teoria tão avançada para a sua época, que só dois mil anos mais tarde Copérnico e Galileu deveriam fazê-la triunfar e, assim mesmo, através de quantas dificuldades!

Isto serve para ilustrar a assertiva de que, em todas as épocas, certas hipóteses que o tempo transformará em leis, são absolutamente incompreendidas por cerebrações potentes, que nem as concebem, nem as aceitam, enquanto que elas se revelam intuitivamente, como realidades objetivas, a inteligências aparentemente mais modestas.

Eis porque, lá onde a genialidade assombrosa do Estagirita assombrou, nada suspeitando, nada aprendendo, o poder de intuição do pitagórico, sem dúvida desenvolvido pelo aprendizado espiritual com o seu grande mestre, descobriu uma realidade que só dois milênios mais tarde teria a sua consagração.

Continuando, porém, veremos que o geocentrismo dominou e predominou sempre, até que no século XVI, Nicolau Copérnico adquiriu a convicção de que a Terra, além do seu movimento de rotação, tinha ainda outro, de translação, em volta do Sol. Contudo, ele sabia tão arraigado o conceito geocentrista, que se arredou, por muito tempo, de dar publicidade à sua obra "Revolução dos Orbes Celestes", que só veio a público nos próprios dias da sua morte.

Apesar de Copérnico, temeroso das consequências de suas ousadas concepções, ter prudentemente dedicado seu trabalho ao papa Paulo III, isso de nada lhe valeu, pois que a primeira edição foi quase toda destruída por ordem da Santa Inquisição.

Mas, como a coisa tinha verdade no seu âmago e a verdade acaba sempre por vir à tona, com a oposição ou sem a oposição (quase sempre ainda melhor com a oposição) das camarilhas mais ou menos inquisitoriais e dogmáticas - é o que acontece com o Espiritismo - não tardou que Kepler, Galileu, Cassini, Newton, Laplace, Arago e muitos outros acabassem teoricamente com o geocentrismo e firmassem definitivamente as teorias que hoje permanecem como leis, relativamente à gênese do movimento dos mundos e da mecânica celeste.

E a Igreja? Qual a sua atitude em face das novas concepções cosmográficas? Vamos ver.


O Anti-espiritismo pitoresco – Parte 3
por Tito de Souza e Meio
Reformador (FEB) Dezembro 1939


Logicamente, seria de esperar que, provada a esfericidade da Terra pela viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães, em 1521, a Igreja, que possuía nesse tempo o monopólio do saber oficioso, se mostrasse benevolente e cautelosa quando, 22 anos mais tarde, Copérnico tornou conhecidas as suas novas teorias, ou, pelo menos, quando, 97 anos depois, Kepler as confirmou.

O que se viu, porém, é que, em 1633, ou, seja, 112 anos depois de Magalhães, 90 depois de Copérnico e 15 depois de Kepler, ela, a Igreja, arrastava Galileu ao cárcere e o obrigava a abjurar aquilo que os santos e doutos ministros chamavam "a heresia do movimento da Terra."

E o gigante de Pisa, o sábio genial, que foi o verdadeiro criador da física experimental; que  descobriu as leis da gravidade; que inventou o pêndulo e o telescópio, mudando destarte a face da astronomia, ele, o gigante da intuição, outro remédio não teve senão curvar-se ante as sentenças daquelas últimas vergônteas da Escolástica, tão cheias de bafio, intolerância e fanatismo, quão vastas de genialidade, mas que – ó irrisão! - ao tempo, tinham poder de baraço e cutelo sobre aquilo que, para o ser consciente, é, ou deve ser, o maior bem; a liberdade de pensar.

Saudosos tempos que o ilustre S. J. José M. Natuzzi gostaria de ver ressurrectos "ad majorem
Dei gloriam," conforme se depreende de um artigo sobre o "Conhecimento e a Honra de Deus na Vida Pública" que o referido S. J., publicou há pouco no venerando "Jornal do Comercio".c

E, como dizem que a história se repete, de estranhar não é que ainda hoje seja do agrado de muitas "coteries" científicas o arrogarem-se o papel dos Inquisidores de Pisa ou de Florença, ondenando à irrisão pública, sem exame e sem estudo, novas verdades científicas, filosóficas ou religiosas, só porque elas lhes arranham o misoneísmo teimoso, ou lhes ameaça dar em pantana com o dogmatismo enfatuado.

Ora, pois, Galileu pagou com a prisão o grande crime de ter ideias à revelia dos santos varões
da Escolástica ou dos frades de S. Domingos. Contudo, mesmo depois de as ter abjurado, para evitar
a tortura e a morte infamante na fogueira, ele murmurava a curta frase que havia de passar à história e permanecer eternamente como um estigma condenatório de todas as intolerâncias, tonsuradas ou não: - "Eppur si muove...”

Também, séculos depois, alguns experimentadores, trabalhando na seara neo-espiritualista, atordoados pela crítica hostil dos corifeus da ciência oficial, haviam de dizer honestamente: "e, todavia, os fatos existem..."

Anos passaram, depois de Copérnico, Kepler e Galileu, vieram Cassini, Newton, Laplace, Arago e outros. A Igreja já então os não mandava para a prisão, nem fazia autos de fé das suas obras.
A "heresia do movimento da Terra" deixara de ser heresia e os luminares da Santa Madre abateram bandeiras, já que não havia outro remédio. Pensar, porém, que a Igreja confessaria o erro dos seus cânones, tácita ou expressamente - que esperança!

Ela fez o que sempre faz. Foi deixando, manhosamente, que o tempo se encarregasse de resolver as coisas com suavidade, sem arranhões sacrílegos no prestígio da sua decantada infalibilidade.

E foi assim que, durante largos anos, melhor dizendo, por séculos, enquanto fora dos púlpitos e confessionários o geocentrismo era assunto liquidado, na treva escura das sacristias ainda se combatiam as novas teorias da mecânica celeste, não por uma declarada e franca oposição, mas pela exteriorização de uma dúvida, matreiramente insinuada, que já não seria talvez sincera nos ministros da Igreja, mas que servia à maravilha aos interesses de Roma.

Para se ter uma ideia de quanto o fetichismo geocentrista está arraigado nos meios reacionários e de como está sempre pronto a repontar à superfície, quando se enseja clima propicio, referir-nos-emos a um interessante acontecimento que se deu em França, ainda no começo deste século, ou, tanto vale dizer, em nossos dias.

Aí por volta de 1903, Henri Poincaré, o conhecido sábio francês, numa dissertação metafisica sobre a relatividade dos movimentos, afirmou, mais ou menos, que entre as duas proposições: "A Terra gira" e "é mais cômodo supor que a Terra se move", não havia diferença alguma e que ambas tinham o mesmo sentido.

Foi quanto bastou para que o sebastianismo geocentrista embandeirasse em arco e a imprensa reacionária desse largas à sua satisfação pela "nova descoberta de Poincaré."

Edouard Drumont, na "Libre Parole" de 9 de Janeiro de 1904, escrevia:

"Não está inteiramente demonstrado que a Terra se mova, como pretende Galileu e que ela não seja o centro do sistema planetário. O Sr. Henri Poincaré, etc. etc."

Outros jornais acompanharam o terço, especialmente as inúmeras "Croix" espalhadas pela nobre terra de França; mas, a palma deve ter pertencido à "Croix du Nord" que se saiu com esta:

"Aqueles que afirmam o movimento da Terra nada sabem a esse respeito. Dizem que a Terra
gira, por pensarem que isso aborrece profundamente aos católicos."

O pior é que H. Poincaré ficou altamente amolado com a interpretação que deram às suas
palavras e com a especulação que pretenderam fazer em torno delas, tendo mesmo dirigido uma carta muito significativa a Camille Flammarion, que lhe deu publicidade na Revista da Sociedade
Astronômica de França.

Este interessante episódio poderá ser examinado em pormenores no livro de Flammarion "A
Morte e seu Mistério", volume 2º, páginas 25 e seguintes. (Edição F. Briguiet - Rio, 1923).

Que diz o leitor de tudo isto? Pois não é extravagante que, já em pleno século XX, publicistas, católicos embora, mas publicistas, enfim, venham dizer que não está inteiramente demonstrado que a Terra não seja o centro do sistema planetário?

Do que não pode haver a menor dúvida é de que o episódio demonstra à saciedade que, se ainda em 1904 as coisas se passavam deste modo, nos dois séculos anteriores a força da inércia clerical, oposta à teoria heliocêntrica deve ter sido colossal.

E, como o uso do cachimbo faz a boca torta ...


O Anti-espiritismo pitoresco – Parte 4
por Tito de Souza e Meio
Reformador (FEB) Janeiro 1940


Como o uso do cachimbo faz a boca torta, o homem, o tal bípede implume de Platão, ou frango depenado de Diógenes, mal grado a todas as afirmações em contrário, continua medularmente fiel ao geocentrismo de antanho. É por isso que vemos, inexplicavelmente, homens de elevada cultura intelectual e cientifica recusarem-se a aceitar, já não diremos como provável, mas apenas como possível, a interferência, nos fenômenos psíquicos, de forças exteriores, que escapam à física terrestre e às possibilidades psico-fisiológicas do ser humano, ao mesmo tempo que engendram, para explicar tais fenômenos, as mais pitorescas e - porque não dize-lo- as mais infantis hipóteses.

Qualquer outra hipótese, porém, embora cem por cento mais racional e mais logica, que
implique na ação de forças invisíveis, imponderáveis e inteligentes, fora da concepção mecânica da vida, e que, consequentemente, admita, aprioristicamente ou não, a existência de seres inteligentes fora da Terra (é claro que não tratamos dos anjos do Céu nem dos diabos do Inferno), capazes de dirigirem e utilizarem essas forças, como nós aqui dirigimos e utilizamos as que nos são conhecidas, quais o vapor, a eletricidade, as ondas eletromagnéticas, a luz e o calor; qualquer outra hipótese, dizemos, encontrará pela proa ou a muralha da China do obscurantismo religioso, ou as hostes agressivas e não menos intolerantes do ceticismo materialista.

De nada vale saber-se que o Universo é constituído por milhões e milhões de mundos e animado pelos dinamismos mais diversos; de nada vale, também, ser meridianamente claro que não há raciocínio nem logica, por mais tacanhos que possam ser, que não tenham de concluir pela existência, nesse Universo Infinito, de seres pensantes e, consequentemente, que deve haver, que há de haver qualquer meio de comunicação, senão entre todos esses seres indistintamente, pelo menos entre aqueles a quem incumba dar desempenho às principais tarefas da grande oficina cósmica.

É tempo de sermos razoáveis.

Se existe um Universo em que tudo é ordem e equilíbrio, maravilhoso de luz, de sons e de
vibrações outras, com tal precisão e perfeição de mecanismo que permite sejam calculados e previstos com antecedência de muitos anos o dia, a hora e os minutos e os segundos em que se verificarão os eclipses e outros fenômenos celestes, é de crer que esse Universo tenha uma inteligência Suprema a dirigi-lo. É de crer, também, que essa Inteligência Suprema transmita as suas ordens e incumba da execução das suas leis a incontáveis falanges de seres mais ou menos elevados na hierarquia espiritual. De presumir é, ainda, que, havendo mundos esparsos pela amplidão do Infinito, nesses mundos haja vida em todas as suas manifestações e seres inteligentes que necessitem de ser amparados, encaminhados, educados e auxiliados, na sua trajetória ascensional para um destino sempre melhor, por outros seres de mais experiência, de mais sabedoria, possuindo mais vastos conhecimentos do Universo e de suas leis. 

De outra forma, como poderão as suas humanidades progredir? Só pelo esforço próprio?
Impossível, ou, pelo menos, impraticável. O esforço próprio é, sem dúvida, um fator do progresso individual ou coletivo, mas não é o único fator.

Figuremos um povo selvagem, primitivo, a evolver sozinho para a civilização; como seria lenta a sua evolução! Ajudado, porém, por uma civilização mais velha e mais adiantada de outro povo, caminhará rapidamente na sua esteira, até ultrapassá-lo e superá-lo. Dispensaram jamais as nações primitivas o esforço próprio, a fim de assimilarem as civilizações superiores? Não. Se forem indolentes ou inadaptáveis, de pouco lhes valerão o exemplo e os ensinamentos que lhes vêm de fora; mas, também, sem alguém que lhes ensine a fabricar e a servir-se do ferro, do aço, do vapor, do petróleo, etc., sairão esses povos algum dia do seu estado rudimentar?

E quanto ao homem: que seríamos nós sem os ensinos dos nossos pais, dos nossos mestres,
dos livros que temos à nossa disposição? Que enormíssima soma de esforços e de inteligência não teríamos de despender para conseguirmos apenas a centésima parte do que conseguimos, valendo-nos da ajuda da experiência e dos conhecimentos dos que nos precederam? Não se costuma dizer que uma geração trepa sobre os ombros da anterior, para assim ver o seu novo horizonte?

Com isto não se sub estima o próprio esforço, nem as aptidões de cada qual. Nem isso podia ser, porque, dispondo igualmente de mestres, de livros e de conselhos, uns produzem pouco e avançam lentamente; outros produzem muito e progridem com rapidez. O que se afirma é que, mesmo os mais operosos e inteligentes (exceção feita dos gênios precursores, é claro) entregues apenas ao seu próprio esforço e discernimento, isto é, sem a ajuda dos pais, dos mestres e dos livros, não progrediriam senão em ritmo mil vezes mais lento. Assim nos homens. Assim nas coletividades. Assim nos mundos.

Ora, se as humanidades dos orbes, tal como as coletividades dos continentes, precisam, para
progredir, de receber o influxo de civilizações mais velhas, há de ou não há de haver meios para que a Providência faça chegar até elas esse influxo civilizador? É racional e lógico supor que esses meios existam. E, lá porque não os conhecemos ainda, devemos sistematicamente procurar ignorá-los? Não; muito ao contrário, devemos afadigar-nos em procurar conhece-los.

É, todavia, a última coisa que pensa fazer a fina flor do mundo científico oficial, a quem
ordinariamente incumbe paraninfar o nosso progresso.

- Comunicações com o espaço, com gente de outros mundos, de outras esferas ?! dizem eles. Talvez um dia, quem sabe, isso seja possível pelo avião foguete ou pela bala cósmica, que o Wells imaginou na "Guerra dos Mundos". De outra maneira, é lá possível? Além disso - aqui para nós - você acredita mesmo que haja gente fora do nosso planeta? Hum... talvez no Céu, os santos, os anjos e as onze mil virgens; e no Inferno o Diabo e a sua tropa. Sim... talvez... mas, fora disso ...

E é pensando assim que uma multidão de homens, que se dizem e são tidos como cultores da ciência, apesar de poderem apreciar hoje, como nunca, os efeitos das poderosas forças que nos rodeiam, as quais ninguém pode ver, nem cheirar, nem apalpar, mas apenas sentir; é pensando assim que eles se recusam a investigar esse campo imenso, ainda mal desbravado, do psiquismo, onde tudo indica haver o homem apenas colocado o pé.

Daí as pitorescas e hilariantes descobertas que, desde a segunda metade do século, vêm
surgindo fresquinhas nos arraiais anti-espíritas, solícitos no seu afanoso anseio de provar a inexistência  dos fatos espiritas, os quais, não obstante, teimosos como todos os fatos e zombando da autoridade de tão conspícuos sábios, se sucedem cada dia com mais frequência, de tal sorte que cresce incessantemente - recrutados em todas as classes sociais - o número dos que, rendidos à sua evidencia meridiana, vão engrossando a grande torrente que e o Espiritismo em marcha.


O Anti-espiritismo pitoresco – Parte 5
por Tito de Souza e Meio
Reformador (FEB) Fevereiro 1940

Pelo visto, parece que não estará inteiramente sem amparo quem atribuir ao obsidiante geocentrismo, que amarra o homem ao planeta e o inutiliza lamentavelmente para concepções que ultrapassam as fronteiras siderais do nosso globo, a principal responsabilidade do fato de 4/5 da humanidade, nas suas camadas mais seletas e representativas, se recusarem a aceitar como possivelmente extraterrenas as causas determinantes da maioria dos fenômenos psíquicos.

Realmente, em parte, deve ser essa mentalidade geocentrista, teoricamente renegada, mas de fato subsistente no substrato mental da maioria, que torna possíveis todas as absurdas, extravagantes e divertidas hipóteses até hoje imaginadas para se contraporem à hipótese espírita, na explicação das causas de tais fenômenos, quando eles se revelam nitidamente espíritas e não simplesmente anímicos, como também acontece muitas vezes.

Multidões têm sido elas, tais fantasias, e, se algumas vezes são até certo ponto dignas de
benevolência, porque demonstram ser fruto de um honesto esforço para pesquisar e sondar o ignoto, não passam, contudo, na maioria dos casos, de simples tolices acadêmicas, ou, como diz Bozzano "argumentos genérico-catedráticos".

É sabido que em todas as épocas houve manifestações de caráter considerado sobrenatural e tidas por muita gente, melhor dizendo, pela maioria, como manifestações de pessoas mortas. A própria Igreja encorajava indiretamente essa crença. Mas, é evidente que devia haver, também, desde recuadas épocas, quem propusesse outras causas para os insólitos fenômenos.

Todavia, não foi senão depois que Allan Kardec, em 1857, publicou o "Livro dos Espíritos", espalhando pelo mundo afirmações e conceitos que até hoje não foram desmentidos nem pelo estudo experimental do fatos, nem por doutrinas filosóficas de mérito; não foi, verdadeiramente, senão depois disto, que o mundo pensante começou a preocupar-se, não tanto com o descobrir a verdadeira causa dos fenômenos que se apresentavam insistentes e teimosos, mas, principalmente, com o encontrar argumentos capazes de liquidarem a nova corrente filosófica e religiosa, da qual aparentemente desdenhava, mas que na realidade temia porque, de instinto, nela adivinhava e pressentia a grandiosidade dos super acontecimentos que, de tempos a tempos, surgem para modificar profundamente a fisionomia moral do planeta.

E, porque o neo-espiritualismo kardeciano não era, como tantos outros sistemas filosóficos um mero conceito particular e restrito, talhado apenas sobre certos ângulos do problema geral do espírito humano, mas, sim, uma filosofia ao mesmo tempo simples e grandiosa, que vinha ao encontro dos anseios do homem moderno e que aparecia solidamente apoiada em fatos, para levantar uma ponta do véu que, em verdade, nos ocultava a nossa origem e o nosso destino, nada mais natural que todas as forças de reação se mobilizassem para oferecer resistência à nova doutrina e destruí-la, se possível. Assim é de regra acontecer, desde que o mundo é mundo, parece que em função do equilíbrio de todas as coisas. E o Espiritismo não poderia escapar à lei geral.

Daí a reação.

E, enquanto o padre, por pobreza de imaginação, apela simultaneamente para a fraude e para o Diabo, o cientista, aureolado pelo fascínio das grandes novidades achatantes e com um arsenal de hipóteses muito mais bem provido, quando não apela para a fraude, dá curso à imaginosa fantasia e inventa para os fenômenos - quando na impossibilidade de nega-los - as mais estapafúrdias explicações, as quais, de resto, vão afinal passando à história, uma após outra, sem outras consequências além da de demonstrarem à posteridade a inópia de raciocínio de tanta personalidade de alta cotação científica.

Pois, não é certo, em verdade, que o Mundo tem assistido, vai por um século, às mais pitorescas tentativas para explicar aquilo que cada dia se afirma mais inexplicável, desde que não seja pela atuação de seres e inteligências do plano invisível?

Entre a genial e gozadíssima descoberta do Dr. Jobert de Lamballe que, em 1859, na Academia de Medicina de Paris, atribuía a estalos do curto-perônio as pancadas das mesas girantes, e a recente e sapientíssima opinião do Professor Neves Manta acerca das maravilhosas faculdades do médium Chico Xavier, quanta teoria, quanta hipótese, quanta explicação desperdiçada! Sem dúvida; para espanto e edificação das gerações porvindouras, que, provavelmente, sentirão uma profunda, uma infinita piedade pelos conspícuos inventores do "estalo do perônio", da "ação magnética que se exerce de modo ainda não determinado", do "bi-mentalismo", das "alucinações telepáticas", da "hipótese histérico-sexual", dos "homens discos de gramofones - débeis mentais-histeróides-super-sensíveis", e outras muitas preciosidades.

Tal como a história do Cristianismo revelou à posteridade o nome dos seus perseguidores para expô-los à execração geral, assim a historia do Espiritismo apontará a essa mesma posteridade, para que não fiquem em cômodo olvido, o nome dos que o combateram. Com a diferença de que esses nomes, em vez de ficarem marcados como aqueles, com o ferrete ignominioso da bestialidade e da prepotência, serão nimbados de uma auréola de pitoresco, capaz de fazer inveja a qualquer imortal personagem do mestre Molière.

É evidente que não cogitamos dos que apenas veem no Espiritismo uma pilhéria, uma superstição grotesca, uma filosofia burlesca, etc., etc., etc. Provavelmente desses não se ocupará a História.

A História tem mais que fazer...