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domingo, 10 de dezembro de 2017

O Dogma Fluidificante


O dogma fluidificante
Nabor da Graça Leite
Reformador (FEB) Junho 1947

Sob este título, diligente confrade, possivelmente de São Paulo, teve a gentileza de remeter-nos um opúsculo de 11 páginas versando exclusivamente sobre o corpo fluídico de Jesus.

A preocupação máxima do autor é provar que Jesus não teria sido um Espírito em estado de materialização tangível, quando de sua estada na Terra, porém, um homem, em tudo igualzinho aos outros homens que, em virtude de sua imperfeição, têm necessidades, ainda, de revestir o espírito dum envoltório mais grosseiro.

Primeiramente devemos lamentar o fato de não vir esse trabalho assinado, e isso porque o nome da pessoa ou sociedade que o produziu, lhe daria um cunho de mais responsabilidade, ao passo que assim, no anonimato, ele apenas evidencia espírito confusionista, quando não demolidor de obra que não pertence aos homens, mas a Deus, e que, por isso mesmo, debalde aqueles a tentarão ferir.

Somos dos que jamais viram na chamada questão do corpo fluídico de Jesus motivo para enfraquecimento dos laços de fraternidade no seio dos adeptos da 3ª Revelação. E de fato não existe razão alguma que a justifique, uma vez que não há imposições doutrinárias que obriguem os espíritas a aceitar a obra de J. B. Roustaing, mas, como foi ela editada também no Brasil, há apenas a faculdade de todos os espíritas conhecerem-na para aceitarem-na ou não, usando, cada qual, do livre arbítrio e do direito de como recomendava Paulo, "examinar de tudo para só abraçar o que é bom".

Daí o reputarmos toda campanha que se move contra Roustaing e a Federação, obra de verdadeira incompreensão por parte dos que a realizam como que possuídos de um prazer doentio mas sem se aperceberem de que, ao contrário daquilo que supõem com relação aos feitos dos ensinos de Roustaing, eles é que se acham sob influências positivamente desagregadoras, dos inimigos da luz e da verdade. Senão, que pensar de conceitos como estes, encontrados no opúsculo em questão: "O que podemos dizer de Roustaing, patrono do Espírito das Trevas? Esplêndida mistificação para enganar os tolos espíritas, sem sólidos conhecimentos da doutrina. A fantástica obra de Roustaing está francamente em agonia, vivendo ainda somente pelo esforço da mentalidade escura do GRUPINHO DE FANÁTlCOS (sic) da Federação Espírita Brasileira..."

Que heresia e que injustiça! Não fora sermos estudiosos e interessados nos assuntos, práticos do Espiritismo, relacionados com a obsessão de Espíritos sobre criaturas mal avisadas ou descuidadas de seus deveres morais perante Deus, decerto não nos atreveríamos a transcrever esses conceitos por atentatórios ao mais comezinho espírito de gratidão que é sempre encontrado na criatura que está de posse de sua consciência...

E o Brasil inteiro é devedor à Federação Espírita Brasileira de imorredoura gratidão pelo muito que essa Instituição até hoje tem feito e continua a fazer pelo progresso do Espiritismo, não só em nossa Pátria como também no Continente americano e, quiçá, como já se vai evidenciando, no mundo todo!      

E pode-se, acaso, admitir uma obra de tamanha envergadura nas mãos de fanáticos?

Indiscutivelmente, não!

*

Meu irmão, autor do citado opúsculo:

Agradeço-te a remessa que me fizeste desse pequeno trabalho, que é grande, entretanto, pelo mal que poderá causar a ti mesmo e àqueles que não tiverem já o espírito sob a luz da verdade; retribuindo-o, escuta estas palavras amigas:

Não vejas nunca distinção alguma entre o espírita que aceita a Obra de Roustaing e o que ainda a não admite, mas procura saber antes se ele, como tu próprio, segue os ensinos do Evangelho de Jesus-Cristo. Isto é o essencial. Em primeiro lugar o amor e a caridade para com o semelhante. Se cada qual proceder assim, podes crer de que existirá fraternidade, nada importando que uns acreditem que Jesus foi um homem e outros não. De minha parte, digo-te que, não obstante minha crença sincera naquilo a que chamas "dogma fluidificante", nunca tive uma palavra de irreverência para os meus confrades que o não aceitam, nem isso me há impedido confraternizar com eles, como irmãos que todos somos, a caminho do progresso e da felicidade.

Faze o mesmo, meu amigo, e verás que os "casos" somos nós mesmos que os criamos, pela nossa grande intolerância e, pois, imperfeição.


(Extraído do jornal ‘União’, de Baurú.)

Roustaing-Bezerra


Roustaing – Bezerra
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Um grupo de espíritas fundou a Federação em 1º de Janeiro de 1884, há,  portanto, 63 anos.(*)
- Esse grupo elegeu para presidente da Sociedade o primeiro tradutor da obra de Roustaing, o Sr. Marechal Ewerton Quadros.
- Essa obra, que já era estudada em outros grupos, passou a ser adotada pela Federação, concomitantemente com as de Allan Kardec.
- Após catorze anos de estudos, Bezerra de Menezes, então presidente da Federação, resolveu publicar a tradução da obra de Roustaing, iniciando a publicação em "Reformador" de 15 de Janeiro de 1898, ou, seja nos fins do século XIX.


(*) Atenção. Estávamos então em 1947. Hoje, somando outros 70 anos, chegaremos a 133 anos. Do Blog. 

Fenômenos Mediúnicos


Fenômenos Mediúnicos
Albino Teixeira por Chico Xavier
Reformador (FEB) Abril 1962

Os fenômenos mediúnicos a se evidenciarem, inevitáveis, nas estradas do homem, guardam expressiva similitude com a presença das águas, nos caminhos da Terra.

Águas existem, por toda a parte.

Possuímo-las cristalinas em fontes recamadas de areia, pesadas de barro nos rios que desgastam o solo, tisnadas na sarjeta em que rolam depois da chuva, lodacentas no charco, furtadas de represas, concentradas em lagoas infectas, amargas em poço largados no esquecimento, semi envenenadas nos esgotos de lama.

Todas elas, contudo, podem ser decantadas, medicadas, purificadas e renovadas para servir.

Assim também os fenômenos mediúnicos.

Venham de onde vierem, assinalam-se por determinado valor.

Entretanto, é preciso não esquecer que devem ser examinados, raciocinados, interpretados e compreendidos para mostrarem proveito justo.

Para eles e junto deles, todos nós temos a Doutrina Espírita por filtro de tratamento.

À vista disso, não desprezeis fato algum mas, igualmente em tempo algum, não vos canseis de estudar.


Fidelidade ao Espiritismo


Fidelidade ao Espiritismo
Tasso Porciúncula (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Abril 1962

São grandes e muito difíceis as lutas travadas pelo Espiritismo em todos os seus setores de trabalho. Duas importantes tarefas exigem dos espíritas em geral o máximo de dedicação, apoio e sacrifício: as obras de assistência aos necessitados, que incluem a caridade multiforme aos que possuem o corpo ou a alma desajustados em relação aos princípios evangélicos, aos enfermos e aos rebeldes que amargam imposições pesadas do Carma, e a difusão doutrinária, objetiva, constante, profícua, através da palavra escrita e da palavra falada, assente na exemplificação permanente.

O Espiritismo não espera auxílios de outra origem senão a espírita. Sua esperança consiste no trabalho à luz do Evangelho e de “O Livro dos Espíritos”. Cada vez mais se estende a caravana dos sofredores e, assim, cada vez mais tem de se ampliar a obra assistencial do Espiritismo, que lançou neste País, com segurança incontestável, o exemplo da caridade que não humilha, não deprime, não desespera, mas estimula, encoraja e faz nascer a esperança no coração dos sofredores.

É lamentável, entretanto, que encontremos espíritas empenhados em trabalhar, mas isoladamente, criando o seu próprio setor de atividade, em vez de juntarem seus esforços aos de outros, nos setores já existentes na mesma zona em que atuem. Essa divisão de atividade reclama bem maiores sacrifícios e pode deixar de apresentar resultados finais satisfatórios, porque cada qual puxa o cordel para o seu lado, em vez de se formar um grupo só, de maneira a que muitos aliem sua força para que o trabalho ofereça maior margem de probabilidades em bons resultados.

Não somos intolerantes nem sectários, mas precisamos compreender que é dever do espírita auxiliar, primeiramente, todo e qualquer movimento espírita já definido e consolidado com o fim de satisfazer os objetivos da nossa Doutrina.

Preciso se torna que demonstremos maior fidelidade ao Espiritismo, apoiando mais as suas obras, ajudando-as mais, cooperando muito mais para que elas possam cumprir sempre melhor os seus desígnios de caridade, elucidação, assistência e doutrinação.

Porque deixar de atender a uma obra espírita reconhecidamente benemérita para criar uma outra, à sua sombra, quando se pode fazer convergir tudo isso para a mais antiga, de maneira a melhor atender os infelizes que precisam de ajuda, a pobreza envergonhada, que cresce dia a dia, a infância abandonada e os jovens de ambos os sexos que se perdem nas ruas, nas favelas, em toda parte, por ausência de orientação e abrigo, que a falta de recursos das casas já existentes não permite atender melhor?

Os espíritas precisam reforçar suas próprias fileiras, sem se deixarem iludir por preconceitos e divergências tolas, bem exploradas pelos inimigos do Espiritismo. Mais perigosos que os inimigos ostensivos são os falsos amigos, os quais, como lobos na pele de cordeiros, sorriem para o Espiritismo, mas, à socapa, o ferem, procurando desmoralizá-la e enfraquecê-la.

A hora não é de espalhar, mas de reunir: não é de dividir, mas de ajuntar. Nem de falar muito, mas de agir bastante. O verdadeiro espírita deve ser mais afeito ao trabalho pela causa comum, mas objetiva e praticamente. Aqueles que permanecem arredios dos setores de ação dinâmica, traem o Espiritismo, que reclama trabalhadores que trabalhem, homens e mulheres que não se limitem, apenas, a fazer o pseudo espiritismo de receber passes e frequentar sessões, sem nunca, porém, se entregarem decididamente a tarefas em benefício dos seus semelhantes, dos irmãos menos afortunados, que vergam ao peso de suas cruzes, sem a esperança de encontrar cireneus que os socorram.

Sejamos mais fiéis ao Espiritismo, estudando e disseminando as luzes da nossa Doutrina e as do Evangelho, dando ao nosso trabalho um sentido objetivo, prático, benemérito, cada vez mais amplo, cada vez mais profundo, cada vez mais extenso.


sábado, 9 de dezembro de 2017

Médiuns estáticos e médiuns naturais


Médiuns estáticos e médiuns naturais
Luciano dos Anjos
Reformador (FEB) Abril 1962

Não é o primeiro companheiro de doutrina que nos adverte quanto ao comportamento do médium durante as sessões práticas. Tínhamos a advertência à conta de ponto de vista pessoal e, embora discordássemos, mantínhamos respeitoso silêncio. O comentário que faz critica deve ser sempre muito bem dosado e antes de tudo oportuno, a fim de não gerar decepção. Esta é a maior inimiga da Doutrina, principalmente com relação aos que começam e julgam estar procedendo admiravelmente bem. Abatem-se profundamente e sabem que um confrade presumivelmente tão equilibrado no seu proceder cometeu falta grave; ou, que seu raciocínio, que supunham perfeito, peca pelo desconhecimento de novos dados, antes não compulsados e que encerram verdade mais ampla. É preciso ter cautela para não conduzir o neófito à decepção. Importa inicialmente fortalecer em seu espírito a fé na Doutrina e só depois de senti-lo forte conduzí-lo a outros caminhos, ainda que diametralmente opostos aos que vinha seguindo, desde que seu equívoco seja de forma apenas e não de conteúdo, caso este em que, só então, nosso dever impõe outros modos de ação orientadora. Por isso ouvimos sempre com humildade as admoestações esporádicas de um ou outro companheiro. Agora, entretanto, aqui estamos dedilhando a máquina para tratar de público o assunto. É que as coisas caminham para uma espécie de generalização, cujos resultados não poderão ser os mais auspiciosos. Já são muitos que nos falam do mesmo problema, encarando-o erradamente. E companheiros experimentados, conhecedores do fenômeno espírita, práticos da mediunidade. Afinal, que estará acontecendo? Donde nascem esses dogmas tolos que não melhoram nem pioram o médium? Porque o mau hábito de se criar regrinhas para as sessões chamadas de desobsessão, quando elas devem transcorrer com simplicidade, acima de tudo com normalidade? O desvirtuamento, que agora se generaliza, obriga-nos ao comentário a que até então nos furtávamos.

O médium - dogmatizam - deve comportar-se durante os trabalhos da maneira mais estática possível. Deve colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa e não se mexer, não gesticular, não fazer mímica, não falar alto, não falar difícil, não tirar a cadeira do lugar, não se revirar, não movimentar as pernas. Uma série de proibições lidas e aprendidas ninguém sabe onde que só podem prejudicar o desenrolar da sessão. As recomendações sobre o comportamento do médium existem e também nós as proclamamos. Contudo, é mister que se não confundam aspectos de aprimoramento com aspectos de desprimor . Aurélio A. Valente, no seu muito bem feito livrinho “Sessões Práticas e Doutrinárias do Espiritismo”, recomenda que “para um médium prestar conscientemente e com ótimos resultados o seu concurso, é necessário tornar-se capaz de reprimir todos os gestos violentos e linguagem obscena ou ofensiva dos Espíritos”. Ora, daí à atitude estática vai uma distância quilométrica. É preciso ter em conta sempre que os Espíritos não são seres especiais, essencialmente diferentes dos humanos. Eles vivem a normalidade da vida. E se expressam dentro desta mesma faixa de norma, pelo menos até o plano em que podemos concebe-los à nossa imagem. Gesticulam ao falar, reagem fisionomicamente, alteiam ou abaixam o timbre da voz, movem-se enfim, eis que não são estáticos. Quando das comunicações através dos médiuns, nada há de estranho que transmitam a estes suas características. Aurélio A. Valente, na obra já citada, diz à página 141: “Os Espíritos, ao manifestarem-se, transmitem aos médiuns todos os característicos da sua elevação ou impureza de sentimentos. A asserção é verdadeira e muito lógica. E em sendo assim, nada mais normal e até recomendável que o médium seja um excelente receptor medianímico, permitindo a completa e real transmissão dos característicos da entidade comunicante. Tanto melhor para os trabalhos, para o presidente da sessão ou o doutrinador, para auxiliar o Espírito que sofre, para o progresso do Grupo ou Centro, enfim, para a fidelidade da mensagem mediúnica.

A esse respeito, aliás, tivemos a oportunidade de palestrar com o presidente do Grupo Ismael, que endossou nosso ponto de vista e até afiançou que naquelas reuniões as manifestações são procedidas dentro do critério que esposamos, sem quaisquer regrinhas para postura, colocação das mãos, imobilidade, ou o que seja no sentido de enquadrar o médium em padrões de extravagância e falsas interpretações dos ditados do Invisível.

Tais preceitos que vimos de criticar tiveram, talvez, sua origem na recomendação - esta, sim, justíssima e acertada - para que o médium não se deixe dominar pelos Espíritos, procurando conter todo os excesso de palavra, de gesticulação e movimento. Que se não deixem as entidades de pouca luz ofender quem quer que seja; não se permitam a transmissão do calão, o termo obsceno; não se deixem as expansões prejudiciais de gestos grosseiros, extremos, ou, simplesmente, a mobilização do sensitivo para fora da mesa de trabalho. Feitas estas abstrações, nada mais recomendável, ao contrário, que o Espírito se mostre tal como é. Nenhum prejuízo existe se lhe sabe bem acompanhar o que diz com ademanes moderados. Nada há de errado que se transfigure, sem exageros para revelar seu pensamento. No instante em que um Espírito se incorpora num médium e inicia sua conversação, devemos aceitar o quadro como se dois encarnados ali estives sem confabulando normalmente. Ora, ninguém conversa com ninguém feito estátua. Os excessos todos são proibidos, tanto para mais quanto para menos. A super excitabilidade é tão negativa quanto a paralisia. Precisamos todos acabar com as regras esdrúxulas e às vezes até exóticas que vão pouco a pouco, infelizmente, artificializando uma Doutrina que, afinal e em última análise, é de origem simples. natural, pura, sem convenções ornamentais que, de útil, nada trazem para os encarnados ou para os desencarnados.


Médiuns Católicos


Médiuns Católicos
José Monteiro Lima
Reformador (FEB) Agosto 1944

O fato que vou narrar foi tomado da obra "O Mundo Invisível no Mundo Visível", do ilustre Rev. Padre Anthelmo Goud, página 262 - 'Tipografia do "Apóstolo", rua Nova do Ouvidor, 14, publicado em 1881. É caso típico de desdobramento da personalidade seguido de transporte de objetos materiais, fatos já bem estudados pela ciência espiritista. O médium no caso é o próprio São Front, primeiro bispo de Périgueux. O padre Anthelmo, depois de citar a obra "Vida de Santa Marta", de Rabano Mauro, de onde extraiu o dito fato, escreve:

            "Front, bispo de Périguex, e Georges, bispo de Puy-en- Veley, são perseguidos, expulsos de suas sés, e refugiam-se perto de Marta. Ela reza por eles e sendo as suas sedições acalmadas por suas os manda de novo às suas dioceses. Mas tomando a Front à parte, diz-lhe: “Tu sabes que o dia de minha morte se aproxima; promete-me vir assistir aos meus funerais?" - Hei de assistir a eles, responde o santo, por pouco que Deus me deixe de Vida.

Um ano mais tarde morre Santa Marta. Consagram-se sete dias para a preparação de suas exéquias e acorrem de toda parte as povoações avisadas por fogueiras acesas nas florestas - "accensis ignibus per nemora"(acender fogueiras na floresta). Estando tudo pronto, a grande e piedosa assembleia acha-se reunida na igreja. Pois bem, naquela mesma hora, São Front estava a celebrar os santos ofícios na sua igreja de Périgueux: adormeceu na sua sede esperando a chegada dos fiéis, e apareceu-lhe o Cristo que lhe disse: "Vem, meu filho, cumprir a tua promessa de assistir aos funerais de Marta."
           
No mesmo instante, e como em um lançar de olhos ("pariter in ictu oculi") (tanto em um piscar de olhos) foram vistos na igreja de Tarascon dois personagens misteriosos, tendo cada um livro na mão, colocarem-se um ao lado da cabeça da defunta (era Jesus Cristo), outro ao lado de seus pés (era o bispo) e ambos, depois de terem depositado o precioso corpo no sepulcro, demoraram-se perto dele com grande admiração por parte do povo, e não se retiraram senão depois de acabado o serviço fúnebre. Então, somente, um sacerdote os segue, pergunta ao Senhor quem é e de onde vem, e o Senhor sem responder lhe dá o manuscrito que tinha na mão. Esse sacerdote vai para o túmulo e mostra a todos aquele livro em que se achava escrita em cada uma de suas páginas a seguinte frase: "Marta, hóspede de Jesus Cristo, nada tem que temer, e eterna será sua memória". Não havia mais uma palavrar em todo o manuscrito.

No entanto, o que se passava em Périgueux, sé episcopal, de São Front?

Um momento antes um sacerdote acordara o bispo adormecido (São Front), prevenindo-o de que a hora de se principiar a missa já tinha desde muito passado e que o povo começava a ficar Incomodado. "Não vos perturbeis, respondeu o pastor, e não vos canseis de esperar, porquanto neste momento estou em Tarascon (em espírito ou em corpo; só Deus sabe), ocupado com meu Salvador nas exéquias de Marta, como eu lho prometi." E um pouco mais tarde, acrescentou: "Enviai agora a Tarascon um próprio que possa trazer meu anel e minhas luvas, que acabo de remeter ao sacristão enquanto eu sepultava a santa."

O povo escuta, admira e manda imediatamente a Tarascon. Os desta cidade respondem sem demora, dando todos os pormenores possíveis sobre o dia e a hora do ofício, sobre a personagem venerável e desconhecida que acompanhava o bispo Front, por eles muito conhecido há muito tempo; ao depois remetem aos enviados o livro, o anel e somente uma das luvas confiadas ao sacristão, porque querem conservar uma em sua igreja como testemunho do milagre, e efetivamente a guardam."



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Frederico Fígner


Frederico Fígner
por Viriato Corrêa
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Dos homens que, comigo, têm convivido durante os muitos anos que já carrego nos costados, incluindo os literatos, os artistas, os grandes vultos enfim, poucos me deram a bela impressão que me deixou Frederico Fígner. E ele não era poeta, nem prosador, nem pintor, nem escultor, nem cientista, não era nada do que se pudesse incluir no rol de qualquer modalidade intelectual. Era apenas um homem de uma profunda sinceridade, de uma radiosa, comovedora e dinâmica capacidade de ternura humana.

A impressão que, à primeira vista, Fígner dava a toda a gente era de uma flama. Aos 80 anos parecia um azougue. Aos 80 anos tinha as vibrações, os entusiasmos, as vivacidades das juventudes estouvadas. Quem o via pelas ruas, suado, chapéu atirado para a nuca, falando aqui, falando ali, numa pressa de moço de recados, pensava estar vendo um ganhador que, em cima da hora, corria para não perder a hora do negócio. No entanto, não era para ganhar que ele vivia a correr. Rico, muito rico, não precisava entregar-se à vassalagem do ganho. Corria para servir os outros, corria para ir ao encontro dos necessitados.

De manhã à noite não tinha um sossego. Ora, ia levar remédios a um doente, em Jacarepaguá; ora, ia levar dinheiro a uma velhinha, em Catumbi; ora, ia levar uma garrafa de leite a uma pobre mãe necessitada, em Madureira; ora, ia ver como estava passando um velhinho, no morro do Pinto. Não tinha horas certas para ninguém. Na sua casa comercial era um milagre ser encontrado. Entrava, saia e se lhe davam papéis para examinar, mal passava os olhos sobre eles e deles se esquecia, deixando-os sobre as mesas, perdendo-os às vezes.

Tudo nele era originalidade. Parecia um explosivo e tinha a doçura das crianças, parecia um desorganizado e no fim do dia conseguia realizar todos os deveres de caridade. Não fazia caso de dinheiro e o dinheiro lhe entrava, em enxurrada, pela porta a dentro. E mais do que tudo era judeu conciliado com Cristo: professava o Espiritismo com um ardor que, nós outros espíritas, nem sempre temos.

A vida de Frederico Fígner é um exemplo maravilhoso do maravilhoso poder do trabalho. Aos 12 (*) anos de idade deixava a sua Boêmia natal e seguia para os Estados Unidos. Levava três encargos pesados demais para um menino de calças curtas; ganhar dinheiro que pagasse as dívidas do pai que falira, arranjar o dote para uma irmãzinha que, em breve, seria moça, e viver, ou melhor, não morrer de fome. Aos doze anos, quando as crianças ainda brincam, ele já tem diante dos passos a escarpa de um grande drama. Ora está numa Oficina de relojoeiro, ora numa oficina de ourives, ora como guarda-freios de estrada de ferro, ora num hotel como cozinheiro, ora como mascate, no México, vendendo quinquilharias.

A sorte nunca anda a pé. É preciso que alguém a carregue. Quem carregou a sorte para os braços de Fígner foi um outro homem, que, como ele, desde menino, lutou pela vitória - Edison. O grande gênio americano que acabava de estarrecer o mundo com a descoberta do fonógrafo. Fígner, rapazote, vai ouvir a máquina falante. E, ali mesmo, a ouvi-la, imagina a fonte de dinheiro que aquilo lhe poderá dar por toda a América. Há nos seus bolsos umas pequenas economias. Com elas compra um fonógrafo. E com ele parte para Havana. De Havana segue para o Pará. É por ocasião da festa de Nazaré. O moço judeu que, até aquele momento não havia podido ganhar um vintém para as dívidas do pai e para o dote da irmãzinha, sente os primeiros clarões da fortuna.

Do Pará vai a Manaus, de Manaus ao Ceará, do Ceará a Pernambuco, à Bahia, ao Rio de Janeiro, a São Paulo, a Minas e ao Rio Grande do Sul, a Montevidéu e Buenos Aires, expondo a máquina assombrosa. Em 1892 estavam finalmente realizadas as três missões que trouxera da Boêmia: tinha dinheiro no Banco para se resguardar da fome, havia mandado pagar as dívidas do pai e dava à irmã, já em idade de casar, o dote que, na Europa, é indispensável para uma rapariga ter marido. Completava nessa ocasião 26 anos. Nada menos de 14 havia-lhe custado o drama da subida pela escarpada da fortuna. Nesses 14 anos vivera lances pungentes; estava preparado para avaliar os lances pungentes dos dramas alheios. A sua alma se refinara: os resíduos da maldade humana tinham sido transformados em virtudes de humanidade.

E isso fez de Frederico Fígner uma criatura impressionante. Quem com ele tivesse meia hora de conversa, quem durante um dia observasse os seus atos, nunca mais o esqueceria. Era do rol dos poucos homens que saem da bitola comum. Só faziaas coisas a seu modo -e fazia-as certas e quase sempre belas.

A história do seu casamento, que ele próprio me contou, é realmente curiosa. Em certo sábado, desesperado com a desordem em que vivia, resolveu casar-se. Mas, aqui no Rio, só conhecia uma moça. Havia de ser com ela! Mas, dela, sabia apenas que morava em Niterói. O bairro, a rua, o número da casa, o próprio nome da moça, não sabia. No dia seguinte, domingo, tocou-se para Niterói. Andou a cidade inteira esperando pelo acaso. Só à tarde o acaso chegou: passando por uma rua viu a moça à janela. Pediu licença para entrar e, lá dentro, fez o pedido de casamento. Um mês depois estava casado, com a senhora que foi a sua companheira querida de longos anos e mãe de seus filhos.

Frederico Fígner era um homem interessante. E, mais, e mais, um coração formosíssimo.  (Extraído de ‘A Noite’, de 27-2-47.)


(*) Pelas notas encontradas nos papéis de Frederico Fígner, foi aos 16 anos que ele partiu da Boêmia; parecendo-nos, pois, que tenha havido engano na informação verbal colhida pelo seu amigo Sr. Viriato Corrêa. - Nota de "Reformador".

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Casa do Caminhante Perdido


A Casa do Caminhante perdido
José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Dezembro 1959

A pobre viúva vivia, aflita, em orações comoventes, pedindo a libertação do filho, condenado e recolhido há vários anos a uma penitenciária.

Ó Pai! Ele é inocente, tenho a certeza de que ele é inocente! Porque, então, paga por um crime que não cometeu, vendo sua mocidade poluída e arruinada?! Porquê, ó Pai?!

Sempre concluía sua invocação a Deus forçada pelo pranto.

O processo que levara o rapaz à prisão, por homicídio, fora minucioso. Todas as circunstâncias e a falta de álibis concorreram para a sua condenação. De nada adiantaram os argumentos de seu advogado, que se viu batido pela dialética de um promotor talentoso, mas frio e cruel, cujas palavras impressionaram decisivamente os jurados. Ela, pobre, sem recursos, doente, nem sequer podia viajar para ir vê-lo e consolar a profunda paixão maternal. Dava pena ver aquela mulher de cabelos brancos, de corpo minguado, a face emurchecida pelo sofrimento, como uma flor exposta aos rigores do sol, depois de retirada sem cuidado da estufa protetora. O admirável é que ela não perdia a fé. Quase aos rastos, penetrava o pórtico da igreja, fazia "promessas", multiplicava a contagem dos terços e regressava, cada vez mais triste e exausta, ao aposento humilde, na esperança de que, na próxima vez, o milagre se verificaria ... E tudo continuava na mesma...

Entretanto, que fé prodigiosa, a que sustentava a vida quase exaurida de tão infeliz criatura! Cada insucesso fazia renascer lhe na alma um raio de esperança nova e ela voltava a rezar tornava às "promessas", aumentava o itinerário dos dedos cansados nas contas gastas do rosário extenso, Certa manhã, ao levantar-se, sentiu-se esgotada. Por instantes, o desânimo ensombreceu o espírito forte dessa valorosa mulher, que dava tão grande demonstração de amor filial. E ela chorou mais do que das outras vezes, porque talvez pensasse, num instante de fraqueza, que os ecos dos seus gemidos e das suas orações se perdessem no longo e lúgubre silêncio das noites de insônia.

*

Logo, porém, recuperou a energia que parecera fugir-lhe. Não compreendia porque seu filho, tão meigo e bom, experimentava as torturas dessa provação, embora inocente. Ele não podia ser culpado! Ele não era culpado! Tinha absoluta convicção da sua inocência e, enquanto tivesse forças, haveria de pedir por ele... Nesse dia, sua enfermidade progredira, tanto que, para locomover-se, o fazia com extrema dificuldade. Sua vontade, no entanto, era poderosa. Iria uma vez mais à igreja e solicitaria a intercessão da divina justiça. Tudo lhe dizia que, dessa vez, seria atendida pelo Pai, que é bom, magnânimo e compassivo.

Cambaleante, afogueada pela febre, mas fortalecida pela esperança que lhe dava uma alegria inusitada, partiu a caminho do templo. Cada passo exigia um sofrimento a mais, porém todas as dores físicas eram bem menores que a dor moral que lentamente a quebrantava. Entre o quarto em que morava e a igreja havia modestíssimo centro espírita, que ela, presa aos preconceitos religiosos em que fora criada, evitava, cheia de temores. E, à proporção que avançava, suas forças iam cedendo, até que uma dor forte a derrubou bem à porta do centro espírita "Casa do Caminhante Perdido". O frio e a chuva davam um tom fúnebre à noite que descia. Levando a esquálida mão ao peito, ela gritou e desfaleceu. Imediatamente socorrida, foi levada para o interior da "Casa do Caminhante Perdido", onde recebeu carinhosa assistência. Quando, ofegante, a pobre mulher entreabriu os olhos, tristemente profundos e marejados, seu olhar inquieto se encontrou com um quadro simples, em que se via Jesus acariciando uma cabeça de criança, Um suspiro profundo visitou lhe o colo ressequido. As lágrimas cresceram e, céleres, abandonaram as órbitas anemizadas pela desventura.

- Minha irmã ainda está sentindo dores? - perguntou-lhe o dirigente do centro.

- Quase nada, está passando..., - murmurou ela, quase imperceptivelmente.

- Descanse um pouco. Feche os olhos e tente repousar...

- Obrigada...  foi a sua resposta apagada, por entre os lábios descorados, onde não chegou a aflorar o sorriso de reconhecimento.

*

Enquanto a socorrida dormia, Iniciou-se no Centro, por ser o dia fixado, a sessão espírita de costume. Quase ao fim dos trabalhos, um Espírito se manifestou através do médium da casa:

- Desejo falar com a senhora X... 

Consoante a praxe, foi pedido o comparecimento à mesa da senhora mencionada. Ninguém respondeu. Novo silêncio cobriu o apelo seguinte. O Espírito insistiu, ao ser informado de não se achar presente a senhora X.

- Ela está presente! Vocês acabaram de socorrê-la.

Assim dizendo, o Espírito fez o médium aproximar-se do local em que a infeliz viúva se encontrava deitada e já meio desperta, e lhe disse com a maior suavidade:

- Minha querida X...

Ao ouvir aquela voz, que lhe devia ser muito familiar, ela descerrou os olhos e, esboçando um sorriso, comentou, dirigindo-se ao médium:

- Ah! Interessante. O senhor tem a voz tão parecida com a dele! Interessante... 

O Espírito persistiu:

- Minha querida X... Sou eu, o Leandro, teu marido, quem está aqui a teu lado... Não te assustes. Queres uma prova? Lembras-te daquela moeda que, juntos, lançamos ao lago, quando estávamos noivos? Lembras-te?

Ela, semi perplexa, mas serena, pensou um instante e retrucou a seguir:

- Lembro-me sim, mas esse exemplo nada prova. O senhor (sua palavra era dirigida claramente ao médium) tem a voz muito parecida com a dele, não há dúvida alguma. Pode, entretanto, ter sabido de tudo isso... Não! Não creio nessas coisas. Os mortos estão mortos, não voltam! Isto é ....

Debulhada em lágrimas, a infeliz cobriu o rosto com as mãos.

Nesse momento, o médium se debruçou mais um pouco sobre ela e a voz do Espírito murmurou ao ouvido da desditosa criatura alguma coisa que a fez estremecer, tanto que, surpreendida, ela exclamou:

- Como pode ser! Se é real que tu estás aqui, Leandro, porque não me apareceste antes, para ajudar-me a vencer as tremendas dificuldades que tenho enfrentado até hoje? Não! É o demônio que quer tentar-me!

Em derredor da doente, as preces continuavam num ambiente de profundo silêncio. Todos procuram confortá-la e os trabalhadores invisíveis não cessavam de fortalece-la com adequados passes. Em volta de sua cabeça, divisavam os videntes um halo de luz... E, assim, foi a pobre sofredora reagindo satisfatoriamente. Era compreensível a sua resistência, porque, educado num mundo de preconceitos, era-lhe impossível aceitar logo a evidência da verdade.

Depois de alguns segundos, o Espírito de Leandro tomou outra vez a palavra:

- Acalma-te, querida X. Esta é uma casa cristã. Nada aconteceu antes porque ainda não havia chegado a hora, nem foi a toa que caíste diante de nossa porta. Nada sucede por acaso. Tudo tem uma razão para acontecer e muitas vezes nos surpreendemos e negamos a realidade, porque desconhecemos os motivos que a determinaram. É por isto que tudo tem a sua hora: Quem está a teu lado é realmente Leandro, o teu marido. Não morri totalmente, como pensas. Quem morreu, se assim podemos dizer da transformação a que a carne é submetida depois de abandonada pelo Espírito, foi o meu envoltório físico, a roupagem terrena. Minha alma permanece intacta e desfrutando de todas as suas faculdades morais e intelectuais. Aludi à moeda para demonstrar-te a sinceridade da minha afirmativa de estar presente. Sou agora apenas Espírito, e para poder manifestar-me na Terra, de acordo com as leis que regem as relações entre o mundo físico e o mundo invisível, tenho de valer-me do corpo somático de algum irmão de boa-vontade e dotado de condições que são denominadas "mediúnicas". Sem isto não me seria dado falar-te como te falo agora, até com a mesma voz de que pude valer-me quando ainda no curso da minha encarnação. Sem esse corpo a mim emprestado, continuarias ignorando a minha presença, como sempre a ignoraste, apesar de jamais eu ter deixado de estar a teu lado nos momentos agudos da tua vida, minha querida X. Aqui não há demônios, conforme a calculada fantasia de velhas religiões te ensinou. Estás cercada de amigos, de obreiros de Jesus, que lutam pela conquista de graus evolutivos progressivamente mais altos. Mesmo que os irmãos ainda em grau inferior de evolução moral pudessem ser qualificados de demônios, mereceriam, como merecem, a nossa ajuda, porque, conforme as leis divinas, nenhum Espírito poderá ser eternamente mau, pois a finalidade da vida, em qualquer plano, é o Bem.

A senhora X, atenta, compreendia o esclarecimento oportuno de Leandro. As mutações de sua fisionomia denotavam que já começava a interessar-se pelo delicado assunto, novo e maravilhoso para ela, embora cheio de mistérios, porque nunca soubera a verdade sobre o Espiritismo.

E Leandro prosseguiu:

- Tenho partilhado de todas as tuas mágoas e procurado também confortar o nosso filho, preso por crime que não cometeu. Mas, antes de continuar, volto a falar-te daquela moeda. É muito importante para a tua orientação. Recordas-te de uma particularidade que ela apresentava?

- Não - respondeu ela, depois de pensar alguns instantes.           

- Era uma moeda italiana. Descobriste, já à beira do lago, que o “l” da palavra "Lire" estava cortado ao meio... Comentamos juntos esse fato, antes de a atirarmos à água. Lembras-te, agora?

Iluminou-se, então, a face pálida da senhora X. A revelação era forte, mas necessária. Amparada como se achava por irmãos invisíveis, ela não corria nenhum risco de emocionar-se em demasia.

Apertando as mãos do médium, expandiu-se:

- Lembro-me, sim! Isso é verdade! Leandro, nunca pensei que fosse possível acontecer o que está acontecendo! Durante anos tenho pranteado a tua ausência, pois julgava que estivesses perdido para sempre. Sinto, porém, que és tu mesmo quem está a meu lado. A tua voz, o teu jeito de dizer as coisas... Mas... e o nosso filho?

Leandro, afagando-a, tornou:

- Prepara-te para outra revelação. Nossa vida é entretecida de consequências pelo que fizemos e fazemos. Há uma lei - de causa e efeito - que regula, baseada em existência anterior, a nossa vida presente e futura. Não temos céu nem inferno, segundo a concepção antiga de religiões superadas pela Razão. Assim como ninguém é irremediavelmente condenado a castigos eternos, porque a todos é dada a oportunidade de reabilitar-se por si mesmo, através de outras vidas, onde cada qual expia erros e faltas, preparando-se para existências mais felizes, todos alcançam o prêmio do bem que praticam, realizando as colheitas decorrentes de semeaduras abençoadas.

Nosso filho é inocente nesta encarnação. Nada fez agora, mas está sofrendo no cárcere culpas do pretérito, de outras existências. Isto não quer dizer que o deixemos sem defesa. Continuaremos a pugnar por sua libertação, que está próxima. Seu nome será redimido e o verdadeiro culpado, ferido pelo remorso, concorrerá para restabelecer-lhe a honra maculada.

- Ah! Leandro! Como Deus é bom! Alguma coisa me dizia que, hoje, minhas preces não seriam infrutíferas. Será que nosso filho será libertado antes do Natal? Faltam tão poucos dias... Se eu pudesse ir buscá-lo para consolar-me nele! Se eu pudesse afagá-lo, alisando lhe os cabelos com a ternura das minhas mãos!

Nova crise de choro sobreveio.

Leandro, como todos os presentes, estava comovido. Procurou confortá-la:

- Paciência, minha querida; paciência... Falta tão pouco. " A justiça de Deus não sofre injunções. Confia, como tens confiado até aqui. Preciso partir. Sabes agora que também trabalho pela salvação de nosso filho. Ele está distante, mas virá ver-te logo que lhe soar a hora da remissão.

A senhora X, lacrimosa, já sorria aquele sorriso simpático e triste dos sofredores que não perdem a fé. Bendizia as circunstâncias que a haviam levado à "Casa do Caminhante Perdido".

Se pudesse, nos dias porvindouros voltaria para sentir a presença de Leandro e falar-lhe, se possível. Aprendera que Jesus não marca previamente os lugares que percorre na grande obra da caridade, nem reconhece divisões religiosas e sectárias. Para Ele, todo ser humano é um irmão que deve ser envolto no Seu amor.

*

Decorreram alguns dias e já se ouviam os ruídos alegres da véspera do Natal. A velha viúva, em estado comatoso, fora recolhida a um hospital. Não pudera saber, portanto, que os jornais anunciavam com estardalhaço que um homem se apresentara como culpado do crime de que era acusado seu filho, As manchetes exploravam pormenores do erro judiciário, que levara à prisão, por mais de dez anos, um jovem inocente!
           
...................................

Comprovada a procedência da confissão feita pelo verdadeiro criminoso, foi a notícia levada ao filho da senhora X. Sua alegria foi enorme mas não resistiu à comoção e tombou fulminado por uma síncope cardíaca. Estava, contudo, com o nome limpo, reabilitado, Resgatara a culpa de haver, em encarnação anterior, deixado que outro inocente purgasse na prisão o crime que ele próprio consumara. O "carma' não falha e a "pena de talião' sempre se exerce através da "lei do retorno".

*

Naquele mesmo Instante, já na madrugada do Natal, a senhora X transpunha o limiar do Além com a mais santa serenidade. Vislumbrou diante de si dois vultos que para ela caminhavam. Admirada, porque não se apercebera da transição, partiu, fitando-os, como a querer identificá-los. Em seguida, louca de alegria, partiu em direção a eles, exclamando; ao mesmo tempo que de seus olhos corriam lágrimas de felicidade.


- Meu filho! Meu filho!..

A Eloquência dos fatos


A Eloquência dos fatos
Leopoldo Machado
Reformador (FEB) Janeiro 1941

Somos francamente pelo espiritismo de vivos e para vivos; francamente a prol do espiritismo daqueles que aprenderam dos Espíritos o dever de trabalhar, solidários entre si e tolerando-se fraternalmente, no sentido de tocar mais velozmente o carro da evolução da Doutrina! Evolução de molde a converter mais do que convencer, se é que os convertidos são os que, sentindo a Doutrina através de todas as suas sublimidades, procuram reformar-se para, à força de seus exemplos e por seu contato, reformarem os semelhantes. Por isso, preferimos o espiritismo evangélico ao mediúnico sem evangelho; o espiritismo doutrinário ao metapsíquico; o espiritismo de atos cristãos, de obras de assistência social, ao simplesmente teórico: o espiritismo dos que o pregam mais pelos exemplos de trabalho, solidariedade e tolerância, ao dos que, sem tolerância, solidariedade e trabalho, se limitam a tiradas lírico-doutrinárias, por figuração e cálculo.

Não somos, por isso, dos que se abalançam a testemunhar e registrar fenômenos espíritas em prejuízo daquilo que, partindo de nós, possa esclarecer Inteligências, sacudir corações e preparar consciências! Não somos curiosos de fatos espíritas, nós, que viemos para o Espiritismo sem o acicate da dor, nem o testemunho dos fatos! Lemos a Doutrina; sentimo-la como o verdadeiro Cristianismo redivivo em espírito e verdade e pusemo-nos a praticá-la evangelicamente, cristãmente, doutrinariamente! Os fatos vieram depois, por si mesmos, sem os procurarmos, para maior robustecimento do que havíamos compreendido e sentido. E, sem que ainda hoje os provoquemos, eles andam a procurar-nos! Foi bem um desses, que estão a exigir adjetivação, o fato estupendo! formidável! - que nos procurou há duas semanas.

Um domingo, cheio de sol e de vida, fomos procurado, na parte da manhã, por um cavalheiro educado, de atitudes bem postas, para contar-nos a tragédia de sua existência nestes últimos tempos. Sua senhora dispõe de múltiplas mediunidades, sem conhecer, entretanto, o Espiritismo. Também ele não é espírita. Influenciados por Espíritos atrasados, andava o casal, ultimamente, a sofrer toda sorte de inquietações e a registrar toda sorte de fenômenos espíritas. Estavam residindo, então, numa pensão, na Tijuca. Na véspera, fechados no quarto, registraram, talvez pela centésima vez, uma saraivada de pedras que lhes entravam o quarto sem que eles vissem por onde. Em meio do pandemônio, a senhora vê que mão indiscreta retira da carteira do marido alguma coisa, Era uma cédula de 200$000 das quatro que lá se encontravam. Apelam, então, para o Espírito de Bezerra de Menezes, por isso que lhe haviam dito que era um bom Espirito! Um velhinho amável, com leve sorriso de piedade e conforto nos lábios, apresenta-se entre ambos, visto pela médium, que faz do Espírito, de quem nunca vira a fotografia, uma descrição que coincide com seus traços fotográficos. O velhinho os orienta, confortando-os e sugerindo-lhes que nos procurassem. Atinamos, para logo, com o porquê dessa sugestão do grande Espírito. É que presidimos, a despeito de tudo, uma sessão de trabalhos mediúnicos, a que só vão Espíritos obsessores e turbulentos. Como os Espíritos de luz, qual o de Bezerra, só se comprazem nas manifestações inteligentes, precisos lhe eram Espíritos inferiores, como o nosso e os que conosco trabalham em serviços terra-terra, para desatarem o nó górdio das tribulações do ilustre visitante, a quem prometemos examinar o seu caso na sessão próxima.

Assim fizemos, com efeito, atraindo a legião dos que o perturbavam, inclusive o que lhe raptara a cédula de 200$000. Caindo em si, porque vencido, mercê de Deus, à força de doutrinação, prometeu que reporia a cédula. Disto demos conhecimento, na manhã seguinte, ao visitante ilustre que, ansioso, voltou a procurar-nos.

- Mas, até eu sair de casa, ainda não tinha reposto. Só se o fez na minha ausência - disse-nos.

- Se ainda não o fez, fará, tenho a certeza - afirmamos-lhe cheio de convicção.

No dia seguinte, quinta-feira, fomos para a Hora Espírita Radiofônica. Encontramos o cavalheiro na emissora, a nossa espera, com um sorriso de satisfação a brincar-lhe nos lábios e em atitude mais confiante. Disse-nos: .

Ele repôs hoje, às três e meia, os duzentos mil réis. Foi assim: estávamos eu e minha senhora no quarto, quando sentimos uma ambientação leve, suavíssima. Era Bezerra de Menezes que chegava. Foi-nos dizendo: "O Espírito está aí, disposto a restituir a cédula, conforme a promessa feita em Nova-lguaçú. Concentrem-se para ajudá-lo." Pus, apenas, um caixote vazio no meio do quarto, para servir de mesa e esperamos concentrados. A médium viu como se se produzisse uma fenda no forro do teto, na qual apareceu a mão do Espírito que soltou a nota. Só testemunhei a nota a cair do teto. Aqui está ela; trouxe-a para mostrar-lhe.

E mostrada nos foi, realmente, como ao Agostinho de Souza, ao Dr. Gonçalves Maia, ao Rocha Garcia, ao Victor de Souza, ao Humberto de Aquino e a muitos outros confrades que ali se encontravam! ...

Escrevemos este relato diante da carta que o Sr. Mario Araújo de Lacerda, que é o cavalheiro em questão e reside, atualmente, à rua Haddock Lobo, 191, que foi onde se verificou o fenômeno, nos dirigiu em testemunho do que se passou.

Assim, através da lógica dos fatos e das obras puramente cristãs que realiza, vai o Espiritismo zombando dos gigantes de outras religiões que o adversam e da ciência materialista que o nega! Vai zombando dessa gigantaria toda, a granjear, sem esforços, adeptos, porque, além do mais, vai também lenindo mágoas e solucionando situações difíceis, enxugando lagrimas!

Abençoada Doutrina que tanto pode.


Paz, Luz e Fé.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Planos superpostos


Planos Superpostos
Arnaldo S. Thiago
Reformador (FEB) Janeiro 1941

A lei do progresso é inelutável.

As camadas geológicas se superpõem no curso dos séculos. Se é duvidoso encontrar-se no arqueano um traço primitivo de vida, absurdo não será procurar-se no paleozoico um organismo animal, os restos fósseis de uma árvore que já estivesse enfeitada de flores.

Também o progresso moral se faz gradativamente. Do salteador de estrada ao santo de Assis há toda uma sucessão de degraus a ascender, na torrente dos séculos.

O decálogo nos veio, quando o espírito humano começava apenas a entrever, ainda configurada em férteis pastagens e rios de mel, a Terra da Promissão. Contudo, é um código de moral absoluta, sendo eternos os seus princípios, como eterna é a divina lei do Amor em que se baseia o mesmo decálogo. Constitui a Lei indiscutível, inflexível para as sociedades humanas. Quem quiser ter vida feliz deve submeter-se a esse código.

A advertência que Jesus fez ao mancebo rico enquadrava-se no primeiro mandamento do Decálogo. Entretanto, o mancebo estava convencido de que em toda a sua vida outra coisa não fizera senão cumprir à risca todos os mandamentos. Como se compreende, então, que Jesus não lhe houvesse contestado a declaração, mas apenas advertido de que, para segui-lo, devia vender, primeiro, tudo o que possuía e distribuí-la entre os pobres?

Será, então, que a própria Lei Divina esteja sujeita ao critério da elasticidade, como as leis humanas?

Certamente que não. Apenas, o que se dava era que o mancebo supunha honestamente estar cumprindo a Lei - embora infringindo-a - e Jesus, que lhe reconheceu a honestidade intencional e, portanto, a dificuldade de compreender de outra forma o decálogo, ofereceu-lhe, naquela advertência, uma interpretação mais elevada do primeiro mandamento, sem uma referência expressa a este - o que seria de ordem secundária para o objetivo que o Mestre tinha em mente - e que não era comprometer a relativa felicidade honestamente desfrutada pelo mancebo rico, felicidade decorrente da sua ingênua certeza de que cumpria integralmente a Lei, mas tão só induzi-lo a um modo de viver compatível com o desejo, que nutria, de seguir o Mestre, isto é, de ascender na escala do progresso.

A lição é eloquente e mostra até que ponto chega o delicadíssimo respeito que Jesus vota ao livre arbítrio dos seus irmãos mais moços, ou, seja, das ovelhinhas que o Pai lhe confiou.

Pode, portanto, cada um ser feliz ao seu modo, desde que honestamente pratique o decálogo segundo a interpretação compatível com o seu grau de discernimento.

A questão está em praticá-lo honestamente, embora errado. Agora, o que não pôde dar felicidade é o erro consciente. E nisto é que consiste o pecado: na infração consciente da Lei.

Não há, portanto, elasticidade na Lex legum; o que há são estados conscienciais mais elevados e menos elevados.

Por isso, Jesus disse aos apedrejadores da adúltera: "Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra". E ele, que o estava, longe de atirar-lhe essa primeira pedra, levanta-a carinhosamente, aconselhando-a: "Vai e não peques mais".

Mestre, concede-nos o teu divino perdão, tanto por causa das nossas próprias faltas. como por causa da intolerância que muitas vezes revelamos com relação às faltas dos nossos irmãos!


Aos que sabem interpretar a Lei e a infringem conscientemente - para estes, sobretudo, Mestre, a tua misericórdia!