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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Novos tempos, novas táticas



Novos tempos, novas táticas
por Roberto Coimbra
Reformador (FEB) Julho 1947

A um fluente e culto pregador ouvimos certa feita a afirmação de que a quase ninguém hoje amedrontam mais os pintados e celebrados horrores do inferno. Para salvar almas não vale o esforço de traçar, a cores vivas e a golpes largos, em sermões e artigos maçudos, os quadros dantescos reservados aos bodes no dia do juízo final. O povo já não liga para essas assombrações. É preciso mudar de tática - concluía o orador.

Posto o ilustre reverendo quisesse, com isso, reforçar argumentos outros com os quais não concordamos, absolutamente, por amor da lógica e da verdade, o certo é que ele tem carradas de razão e, honra se lhe faça, aceitou um fato indiscutível que muita gente boa inda não aceita, ou faz que não aceita.

De feito, o inferno descrito em certo palratório (= parlatório), que chega às vezes a parecer inflamado pelo próprio fogo daquelas bandas, só mesmo por um milagre da ignorância mantém nesta época o seu prestígio neste mundo de Deus, - neste mundo de Deus que alguns ministros, com a sua poderosa homilética (arte de pregar sermões religiosos), buscam à viva força convencer-nos de que é do diabo.

Essa história de céu e inferno vem sendo muito mal contada. E não pode ser doutro modo. Mas, depois que as vozes de além-túmulo repontaram aqui, ali e acolá, nas línguas mais díspares, entre os povos mais diversos, nos meios até mais adversos, depois que o Espiritismo, assentado em bases graníticas, entrou a espalhar luz sobre os ensinos do Cristo, uma nova, e mais justa, e mais segura concepção de Deus e do Universo veio transformar a vida de inestimável multidão de gente.

O preconceito, de mãos dadas a interesses e convenções sociais, ainda faz pé atrás e empenha-se, infelizmente, em conservar as consciências nas trevas, asfixiando-as, Mas dia virá em que desaparecerão os carneiros de Panúrgio (personagem de Rabelais; seguir alguém sem limites ou restrições) e todo o mundo aprenderá, por si mesmo, o rumo a seguir.

Até lá, muita luta, muito obstáculo, muita incompreensão terão de ser enfrentados, transpostos e vencidos pelos cristãos-novos, por aqueles que fazem por viver o Cristianismo em sua primitiva pureza e simplicidade. Ao presente, apesar de tudo que por aí vai, já temos fortes razões para considerar animador o progresso alcançado. Boa parte da humanidade pensa com a própria cabeça e sente com o próprio coração, o que não é pouco. Daí o crescente fracasso da verborragia dos que advogam a causa do inferno eterno, ou do céu ganho à custa alheia, do céu dependente até de salvo-condutos de homens como nós mesmos.

A verdade triunfa sempre. É das leis de Deus. Só ela libertará o homem do pecado, através das vidas sucessivas. Não obstante isso, certos religiosos multiplicarão seu zelo e sua energia no triste e inglório intuito de incutir falsidades na mente dos seus semelhantes. Poderão ir mudando de tática esses sectaristas, mas, dominados por dogmas, procurarão impô-las às criaturas, assim como quem está certíssimo de que o reino dos céus seja, exclusivamente, o reino dos seus.

Não esmoreçamos, pois, no combate aos erros, venham donde vierem. Orando e vigiando, assiste-nos, a nós, os espíritas, o dever de esclarecer os homens no verdadeiro caminho do Espírito de Verdade.


Quadro da Vida Espírita



Quadro da Vida Espírita - I
por Allan Kardec
Reformador (FEB) Julho 1947 (extraído da ‘Revista Espírita’ Abril de 1859)


Todos, sem exceção, cedo ou tarde atingiremos o término fatal da vida; nenhum poder conseguiria subtrair-nos a essa realidade, eis o que existe de positivo. Multas vezes as preocupações do mundo nos desviam do pensamento o que se passa além do túmulo; mas, quando chega o momento supremo, poucos são os que não interrogam a si mesmos o que virá a ser deles, porque a ideia de deixar para sempre a existência tem algo de aflitivo. De fato, quem poderia encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo que ele amou? Quem poderia ver sem terror abrir-se diante dele o abismo Imenso do nada que viria engolir para sempre todas as nossas faculdades, todas as nossas esperanças? - Que! depois de mim, nada, nada mais do que o vácuo; tudo acabado pura sempre; mais alguns dias -e a lembrança a meu respeito ficará extinta da memória dos que me sobreviverem; brevemente não restará traço algum da minha passagem pela Terra; até o bem que eu fiz estará esquecido pelos ingratos a quem eu servi; e nada para compensar tudo isso, nenhuma outra perspectiva senão o meu corpo roído pelos vermes! - "Esse quadro do fim materialista, traçado por um Espírito que viveu com esses pensamentos, não tem algo de horrível, de glacial"!

A religião nos ensina que não pode ser assim, e a razão confirma o ensinamento; mas essa existência futura, vaga e indefinida, nada tem que satisfaça o
nosso amor ao positivo; é isso que em muitos gera a dúvida. Temos uma alma, vá lá que assim seja; mas que é nossa alma? Tem ela alguma forma, alguma aparência? É uma entidade limitada ou indefinida? Uns dizem que é um sopro de Deus, outros que é uma centelha, outros, uma parte do grande todo, o princípio da vida e da inteligência; mas, que nos ensina tudo isso? Dizem ainda que ela é imaterial: mas uma coisa imaterial não poderia ter proporções definidas; para nós, isso seria o nada. A religião ainda nos ensina que seremos felizes ou infelizes, conforme o bem ou o mal que houvermos feito; mas qual é essa ventura que nos aguarda no seio de Deus? É uma beatitude, uma contemplação eterna, sem outra ocupação além de cantar louvores ao Criador? As chamas do inferno são uma realidade ou uma figura? A Igreja mesma o entende nesta última acepção: mas quais esses sofrimentos? onde está situado esse lugar de suplícios? Em uma palavra, que se faz, que se vê, nesse mundo que nos espera a todos? Ninguém, dizem, voltou para no lo descrever. Isso é um erro e a missão do Espiritismo é precisamente nos esclarecer sobre esse porvir, fazer-nos, até certo ponto, tocá-la com o dedo e com os olhos, não mais com o raciocínio apenas, mas com os fatos. Graças às comunicações dos Espíritos, já não é isso simples presunção, probabilidade que cada um borda a seu jeito e que os poetas embelezam com suas ficções ou semeiam de imagens alegóricas que nos enganam, é a realidade mesma que nos aparece, porque são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever sua situação, dizer-nos o que fazem, permitir-nos assistir, por assim dizer, a todas as peripécias de sua nova vida e, por esse meio nos mostram a sorte inevitável que nos aguarda, conforme nossos méritos ou deméritos. Há nisso algo de anti religioso? muito ao contrário, pois que nisso os incrédulos encontram a fé e os tíbios a renovação do fervor e da confiança. O Espiritismo é, portanto, o mais poderoso auxiliar da religião. Se ele existe é porque Deus o permite e Deus o permite para reanimar nossas esperanças vacilantes e reconduzir-nos ao caminho do bem pela perspectiva do futuro que nos aguarda.


As conversações familiares do além-túmulo que damos os relatos da situação dos Espíritos que nos falam, esclarecem-nos sobre suas dores, alegrias e ocupações; é o quadro animado da vida espírita e, na variedade mesma dos assuntos, podemos encontrar as analogias que nos convencem. Vamos tentar resumi-las em um conjunto.

Tomemos primeiramente a alma em sua saída do mundo e vejamos o que se passa nessa transmigração. As forças vitais extinguem-se, o Espírito desprende-se do corpo no momento em que cessa a vida orgânica; mas a separação não é brusca e instantânea. Algumas vezes ela começa antes da cessação integral da vida; nem sempre está completa no instante da morte. Sabemos que entre o Espírito e o corpo existe uma ligadura semi material que constitui um primeiro invólucro; essa ligadura não se quebra subitamente, e, enquanto ela subsiste, o Espírito se acha num estado de perturbação que se pode comparar à que acompanha o despertar de sono profundo; multas vezes ele até duvida de sua morte; sente que existe, vê e não pode compreender que viva sem o corpo do qual se sente separado; os laços que ainda o unem ao corpo tornam-no acessível a certas sensações que ele toma por sensações físicas, só depois que está completamente livre é que o Espírito se reconhece; até então ele não compreende sua situação. A duração desse estado de perturbação, como já temos dito em outras ocasiões, é muito variável; pode ser de algumas horas, como de vários meses, mas é raro que ao cabo de alguns dias o Espírito não se reconheça mais ou menos bem. No entanto, como tudo lhe é estranho e desconhecido, é-lhe necessário algum tempo para se familiarizar com seu novo modo de perceber as coisas.

O momento em que um deles vê cessar a escravidão pela ruptura dos laços que o prendiam ao corpo, é um momento solene; à sua reentrada no mundo dos Espíritos, ele é acolhido pelos seus amigos que o vêm receber como à volta de penosa viagem; se a travessia foi feliz, isto é, se o tempo do exílio foi empregado de modo proveitoso para ele e o eleva na hierarquia do mundo dos Espíritos, felicitam-no; lá reencontra os que conheceu, reúne-se aos que o amam e simpatizam com ele e, então, começa verdadeiramente para ele uma nova existência.

O invólucro semi material do Espírito constitui lhe uma espécie de corpo de forma definida, limitada e análoga à nossa; mas esse corpo não tem os nossos órgãos
e não pode sentir todas as nossas impressões. No entanto, ele percebe tudo que percebemos: a luz, os sons, os odores, etc., e essas sensações, por nada terem de material, não são menos reais; elas têm até algo de mais claro, de mais preciso, de mais sutil, porque chegam ao Espírito diretamente, sem Intermediário, sem passar pelo filtro dos órgãos que as embotam. A faculdade de perceber é inerente ao Espírito: é um atributo de todo o seu ser; as sensações lhe chegam de toda parte e não por certos canais circunscritos. Dizia-nos um deles, falando da vista: "É faculdade do Espírito e não do corpo; vedes pelos olhos, mas em vós não são os olhos que veem, é o Espírito".

Pela conformação dos órgãos, temos necessidade de certos veículos para as nossas sensações: assim precisamos da luz para refletir os objetos, do ar para
nos transmitir os sons; esses veículos se tornam inúteis desde que não tenhamos os intermediários que os tornavam necessários; o Espírito vê, pois, sem o auxílio da nossa luz, ouve sem necessidade das vibrações do ar; é por isso que para ele não existe obscuridade. Mas as sensações perpétuas e indefinidas, por agradáveis que sejam, tornar-se-iam por fim fatigantes se não pudéssemos evitá-las; assim, o Espírito tem a faculdade de suspendê-las; ele pode deixar, à vontade, de ver, de ouvir, de sentir tais ou tais coisas, portanto, não ver, não ouvir, não sentir senão o que quer; essa faculdade está na razão de sua superioridade, porque há coisas que os Espíritos inferiores não podem evitar e é isso que lhes torna penosa a situação.

O Espirito não compreende imediatamente essa nova maneira de sentir, mas só a pouco e pouco ele adquire uma compreensão clara. Os que têm a inteligência ainda muito atrasada nada absolutamente compreendem de suas novas percepções e ficariam em grande dificuldade para descrevê-las; perfeitamente do mesmo modo que entre nós os ignorantes veem e movem-se sem saber por quê nem como.

Essa impossibilidade de compreenderem o que se acha acima de seu alcance, junta à pretensão, companheira comum da ignorância, é a fonte das teorias absurdas que nos dão alguns Espíritos e que nos induziriam a erro se as aceitássemos sem controle e sem nos assegurarmos pelos meios que nos dão a experiência e o hábito de conversar com eles, do grau de confiança que merecem.

Há sensações que tem sua fonte no estado mesmo dos nossos órgãos; ora, as necessidades Inerentes ao nosso corpo não podem existir desde que o corpo já não existe. O Espírito não sente fadiga, nem necessidade de repouso e alimento, porque ele não tem consumo algum a reparar; ele não é atormentado por nenhuma das nossas enfermidades (1). As necessidades do corpo ocasionam necessidades sociais que já não existem para os Espíritos; assim, para eles os cuidados dos negócios, as intrigas, as mil tribulações do mundo, os tormentos que nos Impomos para prover às necessidades ou superfluidades da vida já não existem; eles tem piedade dos sofrimentos que nós nos causamos em busca de vãs frioleiras (2); e contudo, tanto de felicidade têm os Espíritos superiores, quanto de sofrimento os inferiores, mas esses sofrimentos são angústias que apesar de nada terem de risco, nem por isso são menos pungentes; eles têm todas as paixões, todos os desejos que tinham quando vivos (referimo-nos aos Espíritos inferiores) e seu castigo é não poder satisfazer a tais paixões e desejos; isso constitui para eles verdadeira tortura que julgam perpétua, porque a sua inferioridade mesma não permite que eles lhes vejam o término e também isso lhes é um castigo.

            (1) Kardec se refere aos Espíritos elevados, puros, inteiramente desmaterializados, cujo perispírito não necessita de alimentos nem repouso. Quanto nos outros, componentes da imensa maioria que ainda está presa ao Planeta, necessita de repouso, sofre fome, sede, dores físicas; e isto está universalmente confirmado pelas comunicações recebidas e publicadas numa literatura imensa. Se escrevesse hoje, Kardec seria mais claro a esse respeito. O Tradutor.

(2) Entenda-se que o Mestre se refere aos Espíritos realmente superiores, porque os outros tem partidos, seitas, tomam parte pró e contra os movimentos
humanos, misturam-se conosco e sofrem e gozam materialmente com os homens, têm todas as ilusões de mundo. O Tradutor



Quadro da Vida Espírita - II
por Allan Kardec
Reformador (FEB) Agosto 1947 (extraído da ‘Revista Espírita’ Abril de 1859)


A palavra articulada, igualmente, é uma necessidade da nossa organização; não tendo necessidade de sons vibrantes para ferir-lhes os ouvidos, os Espíritos compreendem-se somente pela transmissão do pensamento (3), como a nós muitas vezes nos sucede compreendermo-nos apenas pelo olhar. No entanto, os Espíritos fazem ruídos: sabemos que eles podem agir sobre a matéria e esta nos transmite o som; é assim que fazem ouvir pancadas ou gritos no ar vazio, mas o fazem para nós e não para si mesmos. Teremos que voltar a esse assunto em artigo especial no qual trataremos dos médiuns auditivos.

Enquanto arrastamos penosamente nosso corpo pesado e material sobre a terra, como o galé arrasta a grilheta, o corpo dos Espíritos, vaporoso, etéreo, transporta-se sem fadiga de um a outro lugar, transpõe o espaço com a rapidez do pensamento, penetra em todos os lugares, matéria alguma lhe opõe obstáculo.

O Espírito vê tudo que vemos e mais claramente do que o podemos fazer: além disso, vê o que os nossos sentidos limitados não nos permitem ver; como ele mesmo penetra na matéria, descobre o que a matéria oculta a nossa vista.


Portanto, os Espíritos não são entidades vagas, indefinidas, conforme às definições abstratas da alma a que nos referimos acima; são seres reais, determinados, circunscritos, que gozam de todas as nossas faculdades e muitas outras que nos são desconhecidas, porque são inerentes apenas à natureza deles. Eles possuem as qualidades da matéria que lhes é própria e formam o mundo invisível que povoa o espaço, nos cerca, nos acotovela sem cessar. Suponhamos por um momento que se rasgue o véu material que os oculta à nossa vista, ver-nos-íamos em meio de uma multidão de seres que vão, vêm, agitam-se em volta de nós, observam-nos, como nos sucede quando nos achamos numa assembleia de cegos. Para os Espíritos nós somos os cegos e eles são os videntes.     

Dissemos que, ao entrar em sua nova vida, o Espírito leva algum tempo a reconhecer-se, que tudo lhe é estranho e desconhecido. Perguntarão decerto como pode ser assim, se ele já teve outras existências corporais; essas existências foram apartadas umas das outras por intervalos em que ele habitou no mundo dos Espíritos; portanto, esse mundo não lhe deve ser desconhecido, pois que não o está vendo pela primeira vez.

Várias causas contribuem para lhe tornar novas essas percepções, conquanto já as tenha experimentado. A morte, dissemos, é sempre seguida de um momento
de perturbação, mas que pode ser de curta duração. Nesse estado suas ideias estão sempre vagas e confusas: a vida corporal confunde-se de alguma sorte com a vida espírita, seu pensamento não pode ainda apartá-las (4). Dissipada essa primeira perturbação, as ideias esclarecem-se a pouco c pouco e com elas a recordação do passado só gradualmente vai voltando à memória, porque essa memória não lhe faz uma irrupção brusca. Só quando ele se acha inteiramente desmaterializado é que o passado se descortina diante dele como uma perspectiva saindo de um nevoeiro. Só então se recorda ele de todos os atos de sua última existência e, depois, vai-se lembrando das existências anteriores e de suas diversas passagens pelo mundo dos Espíritos. Compreende-se, pois, que, durante algum tempo, esse mundo tem que lhe parecer novo até que se recorde completamente do passado e que a lembrança de suas sensações ali experimentadas lhe tenham voltado de maneira precisa. Mas a essa tem-se que juntar outra causa muito preponderante.

O estado do Espírito, como Espírito, varra extraordinariamente em razão do grau de sua elevação e sua pureza. A proporção que ele se eleva e se depura, suas percepções e sensações tornam-se menos grosseiras; adquirem mais finura, sutileza, delicadeza; ele vê, sente e compreende coisas que não podia ver, nem sentir, nem compreender em uma condição inferior. Ora, como cada existência corporal é para ele uma ocasião de progresso, cada uma o leva a um meio que lhe é novo, porque ele se vem a encontrar, se houver progredido, entre Espíritos de outra urdem, cujos pensamentos e hábitos são diferentes daqueles com os quais se achava habituado. Acrescentemos a Isso que tal depuração lhe permite penetrar, sempre como Espírito, em mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, como entre nós os salões da alta sociedade estão interditos as pessoas sem educação. Quanto menos esclarecido é o Espírito, tanto mais limitado lhe é o horizonte; à proporção que se eleva e purifica, seu horizonte se dilata e com ele o círculo de suas ideias e percepções. A seguinte comparação nos poderá fazer compreender o exposto: Suponhamos um camponês bruto e Ignorante, vindo a Paris pela primeira vez; conhecerá e compreenderá ele a Paris do mundo elegante e dos sábios? Não, porque só tratará com gente de sua classe e nos quarteirões em que tal gente habita. Mas imaginemos que, no intervalo até uma segunda viagem, esse camponês se haja desenvolvido, adquirido instrução e maneiras polidas, seus hábitos e suas relações serão totalmente outros; então, verá um mundo novo, para ele, que em nada se parecerá com sua antiga Paris. Dá-se o mesmo com os Espíritos; mas nem todos sentem no mesmo grau essa certeza. A proporção que progridem, suas ideias se desenvolvem, a memória torna-se mais acelerada: estão antecipadamente familiarizados com sua nova situação; sua volta para o meio dos outros Esp1rltos nada tem de espantosa para eles, reencontram-se em seu meio normal, e, passado o primeiro momento de perturbação, compreendem quase imediatamente sua situação.


É essa, em geral, a situação dos Espíritos no estado a que chamamos erraticidade, mas, nesse estado, que fazem eles? como passam seu tempo? esta questão nos é de capital Interesse, São eles mesmos que nos irão responder, como foram eles que nos forneceram as explicações que acabamos de transcrever, porque nada disso é tirado de nossa imaginação; não é um sistema nascido em nosso cérebro; julgamos pelo que vimos e ouvimos. Deixando-se de lado todo partidarismo espírita, tem-se de reconhecer que esta teoria da vida de além-túmulo nada tem de Irracional; ela apresenta uma ordem e um encadeamento de tão perfeita lógica que fariam o orgulho de qualquer filósofo.

Cometeríamos erro se supuséssemos que a vida espírita é ociosa; ao contrário, é uma vida muito ativa e todos os Espíritos nos falam de suas ocupações; essas ocupações diferem necessariamente conforme esteja o Espírito encarnado ou na erraticidade. No estado de encarnação, são relativas à natureza dos globos que os Espíritos habitam, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses globos, bem como da organização dos seres vivos. Não é disso que nos temos de ocupar aqui. Só trataremos dos Espíritos errantes. Entre os que já atingiram certo grau de elevação, uns velam pelo cumprimento dos desígnios de Deus nos grandes
destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem para o progresso de cada mundo; outros tomam os indivíduos sob sua proteção e se constituem gênios tutelares, anjos guardiões, seguindo-os desde o nascimento até a morte, procurando dirigi-los para o caminho do bem: sentem-se venturosos quando seus esforços são coroados de êxito. Alguns se encarnam em mundos inferiores para cumprirem missões de progresso; procuram pelos trabalhos, exemplos, conselhos, ensinos, fazer que estes progridam nas ciências ou nas artes, aqueles outros, em moral. Submetem-se, então, voluntariamente às vicissitudes de uma vida corpórea muitas vezes penosa para fazerem o bem, e o bem que fazem lhes é computado. Muitos deles não tem atribuições especiais; vão a todos os lugares, onde sua presença possa ser útil, a fim de darem conselhos, inspirarem boas ideias, reanimar a coragem enfraquecida, dar força aos fracos e castigar os presunçosos.

Se considerarmos o número infinito dos mundos que povoam o Universo e o número Incalculável dos seres que os habitam, compreenderemos que os Espíritos têm muito em que se ocuparem; mas essas ocupações nada têm de penosas para eles; realizam-nas com alegria, voluntariamente, não constrangidos, e a sua felicidade consiste em obterem êxito no que empreendem; nenhum deles cuida de uma ociosidade eterna que lhes seria verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre a orientação a seguir, conforme os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e depois partem para onde o dever os chamam. Essas assembleias são mais ou menos gerais ou particulares conforme a importância do assunto. Não existe nenhum lugar especial e circunscrito para tais reuniões: o espaço é o domínio dos Espíritos; no entanto, realizam-se de preferência tais reuniões nos globos que lhes são objetivo. Os Espíritos encarnados em missão, em tais globos, tomam parte nessas reuniões de acordo com a sua elevação; enquanto seus corpos repousam, eles vão receber conselhos entre outros Espíritos e, muitas vezes, receberem ordens sobre a conduta que devem manter como homens. Ao despertarem, não têm, na verdade, uma recordação precisa do que se passou, mas conservam a intuição que os leva a agirem como de moto próprio. (5)

Em hierarquia desce nu ente, encontramos Espíritos menos elevados, menos purificados, e, por conseguinte, menos esclarecidos mas que não são menos bons, os quais, numa esfera de atividade mais restrita, exercem funções análogas. A ação destes, em vez de estender-se aos diferentes mundos, é exercida mais especialmente sobre um globo determinado, em relação com seu grau de adiantamento; a influência destes é mais individual e tem por objeto coisas de menor importância.

A seguir, vem a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons ou maus, que pululam em torno de nós; elevam-se pouco acima da humanidade que eles representam em todos os seus matizes e da qual são como que o reflexo, porque têm dela todos os vícios e todas as virtudes (6); num grande número, encontram-se os gostos, as ideias, as tendências que tinham em vida; suas faculdades são limitadas, seu julgamento falíveI como o dos homens, muitas vezes errôneo e imbuído de preconceitos.


Em outros o senso moral está mais desenvolvido: sem possuírem grande superioridade nem grande profundeza, julgam mais sadiamente e por vezes condenam o que fizeram, disseram ou pensaram durante a vida. Há ainda o seguinte a notar: mesmo entre os Espíritos mais vulgares a maioria tem sentimentos mais puros como Espíritos do que como homens, a vida espiritual os esclarece sobre seus defeitos; e, com muito poucas exceções, eles se arrependem amargamente e lamentam o mal que fizeram, porque já lhe sofreram mais ou menos duramente as consequências. Temos visto alguns que não são melhores, mas nunca vimos algum que fosse pior do que havia sido em vida. O endurecimento absoluto é muito raro e só é temporário, porque mais cedo ou mais tarde terminam por lamentar sua própria situação e pode dizer-se que todos aspiram a aperfeiçoarem-se, visto que todos compreendem que este é o único meio de saírem de sua inferioridade: instruírem-se, esclarecerem-se é a sua grande preocupação e sentem-se felizes quando podem conseguir pequenas missões de confiança que os elevam a seus próprios olhos.

Também estes tem suas assembleias, mais ou menos sérias, conforme a natureza ele seus pensamentos. Eles nos falam, nos vêm e observam o que se passa em volta de nós; metem-se em nossas reuniões, em nossos jogos, em nossas festas, em nossos espetáculos, tanto quanto em nossos negócios sérios; escutam nossas conversações: os mais levianos, para se divertirem e muitas vezes para rirem à nossa custa ou para nos pregarem peças, quando podem; os outros para se instruírem; observam os homens, o caráter destes, e fazem o a que chamam estudos de costumes, a fim de firmarem sua escolha, visando a sua futura existência.

Temos visto o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra em sua nova vida; temos analisado suas sensações, seguido o desenvolvimento gradual
de suas ideias. Os primeiros momentos são empregados pelo Espírito a se reconhecer, a compreender o que se passa nele; em uma palavra, ele ensaia, por assim dizer, suas faculdades, como a criança que vê crescerem a pouco e pouco suas forças e seus pensamentos. Estamos falando dos Espíritos vulgares, porque os outros, como já dissemos, estão de certo modo identificados antecipadamente com o estado espírita que não lhes causa surpresa alguma, mas somente a alegria de sentirem-se libertos das peias e sofrimentos corporais. Entre os Espíritos inferiores muitos lamentam haver perdido a vida terrestre, porque sua situação, como Espíritos, é cem vezes pior, por isso eles buscam uma distração em ver o que outrora os deliciava, mas esse panorama mesmo é para eles um suplício, porque sentem os desejos e não os podem satisfazer.    

A necessidade de progredir é geral entre os Espíritos, e é isso que os excita a trabalhar para seu próprio melhoramento, porque compreendem que é esse o preço da felicidade; mas nem todos sentem no mesmo grau essa necessidade, sobretudo no princípio; alguns se comprazem numa espécie de vagabundagem, mas que não dura muito tempo; a atividade torna-se logo para eles necessidade imperiosa, à qual são impulsionados também por outros Espíritos que neles estimulam o sentimento do bem.

Depois vem o a que se poderia chamar escória do mundo espírita, composta de todos os Espíritos impuros, para os quais o mal é a única preocupação. Sofrem e
desejariam ver todos os outros sofrendo como eles. O ciúme lhes torna odiosa toda superioridade nos outros; o ódio lhes é estado permanente; não podendo descarregá-lo sobre os Espíritos, eles se voltam contra os homens e atacam aqueles que acham mais fracos. Excitar as más paixões, insuflar discórdia, separar amigos, provocar rixas, inchar os ambiciosos de orgulho para, posteriormente, terem o prazer de abate-los, divulgar o erro e a mentira, em uma palavra, desviar do bem, tais são seus pensamentos dominantes.

Mas porque permite Deus que seja assim? Deus não tem que nos prestar contas. Os Espíritos superiores nos dizem que os maus são provações para os bons, e que não há virtude onde não há vitória a alcançar. Além disso, se esses Espíritos malfeitores se reúnem na Terra, é porque aqui encontram ecos e simpatias. Consolemo-nos com a lembrança de que, acima dessa lama que nos envolve, há seres puros e benevolentes que nos amam, amparam, animam e estendem o braço para nos atrair a si e nos conduzirem a mundos melhores, onde o mal não tem acesso, se soubermos fazer por merece-lo.

(3) Ainda aqui se trata somente dos Espíritos muito adiantados; os inferiores chegam a sofrer como nós as barreiras linguísticas; só entendem a linguagem articulada e, por isso, são trazidos para serem doutrinados pelos homens em linguagem e figuras muito materiais. - O Tradutor.

(4) No sonho temos uma imagem incompleta e imperfeita dessa situação. Nunca entendemos que estamos fora do corpo, que somos um Espírito; temos toda
a ilusão de estar com o corpo, ouvindo pelos ouvidos, vendo pelos olhos, mas possuímos faculdades que realmente não pertencem ao corpo, como, por exemplo,
podermos voar de um lugar a outro. - O Tradutor.

(5) Nas recentes obras de André Luiz são pormenorizadamente descritas algumas dessas reuniões espirituais conjuntas de encarnados e desencarnados. - O
Tradutor.

(6) O leitor suporá que há aqui um engano, porque a multidão de Espíritos vulgares em nada é superior à humanidade, e talvez lhe seja Inferior, pois que
nesta existem encarnados - além dos vulgares - alguns missionários que lhe são muito superiores. A seguir fica mais claro o pensamento do Mestre: os mesmos Espíritos vulgares, quando desencarnados, adquirem normalmente um pouco mais de elevação do que tinham na Terra, compreendem melhor, sofrem, arrependem-se, corrigem-se. Tomada essa mesma camada humana inferior e posta, pela desencarnação, no mundo espiritual, ai "se eleva pouco acima da humanidade". - O Tradutor.


sábado, 7 de abril de 2018

Uma estrela que se apaga...



... Uma estrela que se apaga ...
por José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Setembro 1947

Naquela tarde morna, quando ia em meio o crepúsculo, a prece do muezim (aquele que do alto dos minaretes conclama os muçulmanos à oração)  Habhallad, com o coro dos crentes, era levada pelos ventos através das calcinadas terras da Arábia... Estranho encantamento provinha de suas palavras. Lá em baixo, na praça estreita e mal calçada, os fiéis, contritos, a face lavada por sentidas lágrimas, prosternavam-se diante da mesquita e erguiam os braços ao céu, tartamudeando os salmos. 

O Sol agonizava ao longe, lentamente, como que buscando ocultar-se atrás dos inumeráveis lençóis de areia do deserto imenso. Seus últimos reflexos se perdiam no horizonte longínquo, pintalgando o firmamento de rubros e violáceos tons. Os instantes finais da prece foram comovedores, levando aos crentes ali reunidos as puras e fortes emoções daquela hora inolvidável.
  
O muezim também chorava ... Ao render graças ao Todo Poderoso Alá (*) sentira-se transfigurado, presa de místicos arroubos. Sua voz se dulcificara, como se nela repercutissem sonoridades divinas. O muezim também chorava ...
  
Dentre os fiéis, um havia, o jovem Afhir-al-Baghid, cujo rosto triste denotava a preocupação que íntimos problemas alimentavam. Erguendo-se, Afhir--al-Baghid enxugou os olhos avermelhados pelo pranto, saudou Alá e Maomé, e encaminhou-se para o minarete, onde o muezim se aprestava para recolher. Ao avistá-Io, Afhir arrojou-se ao chão, de joelhos, e, reverente, deprecou-lhe pronta ajuda na crise espiritual em que se debatia. O sacerdote ouviu em silêncio sua história. Afhir-al-Baghid esvaziou o coração dolorido, depositando suas mágoas aos pés do generoso servo do Profeta. Em seu olhar refletia-se a ansiedade da alma aflita. Que lhe diria
Habhallad ? Que remédio lhe indicaria para a inquietude que o consumia?
  
Por fim, o muezim falou, o rosto esquálido espelhando singulares fulgores:

“Filho: A bondade de Alá é maior que a sua sabedoria, mas a sua sabedoria é muitas vezes maior que os grandes desertos do leste... Toda a sua glória é cantada na Cidade Santa, a Meca dos crentes, terra eleita do Profeta... De Riad a Adém, de Adém a Hofuf, os fiéis celebram a glória eterna de Alá. Ouça, filho: Só Alá é amigo. Abre teu coração a ele, mas nunca te esqueças de que o homem nada mais é, na face da Terra, do que um pobre proscrito. Sua maldade exilou-o das regiões de bem-aventurança. Se estás aqui, carregando o pesado fardo de tuas dores, é porque - tu também - és um egresso do paraíso ... "
                                                                                                                                   
Habhallad emudeceu por instantes. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para a frente. Assim permaneceu alguns segundos. Depois, prosseguiu, voz pausada e meiga:

- "Ouvi tuas queixas, Afhir. Se teu amigo não te compreendeu, paciência; não te revoltes contra ele. É mais digno de tua piedade do que de tua reprovação. A tolerância bem usada é um bálsamo que multiplica as forças de quem a utiliza. Cada amigo que trai outro amigo, é um ídolo que tomba, um vácuo que se abre em nossa alma. Aproveita esse vácuo: enche-o de perdão. Assim tua alma será salva... Quando vires uma noite escura, um céu sem estrelas, procura a solidão, faze tua prece, ungindo-a, porém, com o mais puro sentimento de amor de que sejas capaz. Um amigo que trai outro amigo, podes crer, é uma estrela que se apaga no céu... Mas Alá é magnânimo em toda a sua onipotência e onisciência, porque enfeita de esperanças novas a alma dos crentes. Quando uma ilusão fenece, sufocada pela ingratidão, a esperança renasce para curar as chagas causadas pelo sofrimento..."

Afhir-al-Baghid soluçava baixinho, não mais de dor, porém de comovido reconhecimento ao bem que lhe prodigalizava Habhallad. Agarrou-lhe nervosamente a destra macilenta e, osculando-a com indizível respeito, murmurou, ofegante:

- "Alá falou pela vossa boca, mestre!"

E silenciou de novo. 
  
Então, erguendo-se, o muezim despediu Afhir com estas últimas palavras de conforto:

- "Vai, filho, vai! Aprende a receber o sofrimento com serenidade e paciência. Aprende a dominá-lo pela resignação consciente. E perdoa, perdoa sempre, porque nenhum de nós sabe até onde vai a nossa culpa e a daqueles que nos magoam. Alá é sábio e nada ocorre sem estar conforme às suas leis. Vai, filho, vai! Não te esqueças, entretanto, do que te digo: aprende a receber o sofrimento com corajosa serenidade. Habitua-te a dominar a dor pelo cultivo da resignação fortalecida com prece sincera. Sofre corajosamente, perdoa humildemente, recolhido sempre no santuário do teu coração. Não te apartes do amigo infiel: ele precisa mais de ti do que supões. Lembra-te do sândalo: quando recebe um golpe, deixa escapar pela chaga aberta o mais suave perfume que Alá já derramou sobre a Terra... Ora pelo amigo que te traiu: pede a Alá que o proteja, mas que não te desampare a ti..."

Afhir-al-Baghíd tinha os olhos rasos de pranto. Compreendeu que o amigo infiel é um desgraçado. Está sem guia, perdido no meio de ideias fragmentadas que sua mente não pôde concatenar. Não deve ficar ao abandono, mas assistido e orientado. Afhir deixou o minarete, dirigindo-se vagarosamente para os lados do sul. Caminhou alguns passos, estacou e, pela vez derradeira, voltou-se para olhar a mesquita distante, semi-esbatida (de tom ou colorido pálido) na noite que já descia sobre a cidade velha. Ergueu o braço e passou a manga da túnica amarfanhada nos olhos molhados.
  
E num suspiro extenso, recordou as palavras de HahhaIlad:

- "O amigo infiel é um ídolo que tomba... um vácuo que se abre em nossa alma ... Aproveita esse vácuo: enche-o de perdão... Perdoa, perdoa sempre... Um amigo que trai outro amigo, podes crer, é uma estrela que se apaga no céu..."


E esta última frase foi-lhe bimbalhando (soando) nos ouvidos: - Uma estrela que se apaga no céu ... uma estrela que se apaga ... uma estrela que se apaga..."

Nota do Blog: Os trechos em negrito não existem no original. Foram destacados na estória acima pois resumem os ensinamentos nela contidos.

Plano Satânico


Plano Satânico
Editorial
Reformador (FEB) Setembro 1947

Um comentador publicou um artigo no qual, parecendo defender a Doutrina, lança maldosamente Allan Kardec contra os Evangelistas com finalidade remota e diabolicamente inteligente de destruir o Espiritismo.

Cita trechos de Kardec e os interpreta como negando o Codificador que Jesus tenha sido um Agênere, mas que teria sido um homem de carne e ossos, gerado e nascido como qualquer de nós. Como, porém, os Evangelistas dizem que Jesus nasceu de uma virgem, sem contato carnal; que seu corpo se fazia e desfazia à sua vontade que ele andou sobre as águas, desapareceu do sepulcro e reapareceu com o mesmo corpo, havendo comido peixe à beira do lago, partido e comido pão com os dois discípulos a caminho de Emaús, fez que um dos discípulos (Tomé) lhe examinasse o corpo para verificar que era tão material como antes da morte e, finalmente,
que se tornou mais etéreo e se elevou, pelos ares até desaparecer por trás de uma nuvem. Como os evangelistas, relatando os fatos observados, deixam fora de dúvida que Jesus foi um Agênere, o astucioso articulista, pondo em oposição aos Evangelhos a opinião pessoal de Kardec, lança o descrédito contra os Evangelhos; e como Kardec baseou a Doutrina exatamente sobre esses mesmos Evangelhos, fica fora de dúvida que se os Evangelhos não merecem fé, o Espiritismo não tem fundamento e há de cair com o Novo Testamento.

É esse o caminho tenebroso já seguido em França e outros países para lançar a dúvida e matar o Espiritismo. Não são os Evangelhos que caem, porque estes são  defendidos pelas Igrejas e se conservam; eles são muito mais velhos e têm muito mais autoridade no mundo do que a opinião de quem quer que seja; o que pode cair como caiu na França, nessa luta artificial contra os Evangelhos, é a codificação de Kardec, o Espiritismo.

Sempre que um suposto espírita lança Kardec contra os Evangelhos, está fazendo a tenebrosa obra de demolição da Doutrina.

O Destino



O Destino
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Destino e livre arbítrio sempre coexistem nas atividades humanas.

O Criador Infalível estabelece a Vida Universal. O homem falível traça os roteiros da vida que lhe é própria.

O Pai organiza as leis eternas.

O filho vale-se das experiências.

Não há fatalidade para o mal e sim destinação para o bem.

É, por isso, que a todas as criaturas foi concedida a bênção da razão, como luz consciencial no caminho.

Se o Senhor Supremo estatui diretrizes e recomenda aos homens a execução dos princípios formulados, o homem é compelido a cooperar em sua obra divina.

Da desobediência da alma aos supremos desígnios procedem as desarmonias no serviço universal. E quanto maior a expressão de entendimento no Espírito rebelde, mais agravo de responsabilidade caracteriza a intervenção indébita do colaborador humano que abusa da magnanimidade das Leis Divinas.

Quanto maior a capacidade do discernimento, mais vasto o débito.

Que a alma encarnada, pois, compreenda o transcendentalismo das divinas concessões e desempenhe os deveres que lhe competem no caminho diário. Ninguém fugirá ao doloroso trabalho individual de recomposição dos elos quebrados na corrente da universal harmonia.

Cada devedor será defrontado pela própria dívida, agora ou mais tarde, atentos à realidade de que nem todas as sementes produzem frutos dentro de alguns dias ou de algumas semanas. Se os minúsculos grãos de vida dos legumes oferecem resultados em alguns dias, plantas existem que só fornecem a multiplicação de valores no curso de longos anos. Assim, nossos atos e compromissos. Nem todos proporcionam efeitos em tempo breve. Daí a necessidade dos indivíduos e dos agrupamentos, quanto à real observação da vigilância no círculo de si mesmos.

O Pai concede a bênção da oportunidade. Mas ao filho compete a cooperação.

Há, portanto, leis que regem a vida e, consequentemente, destinação de homens e coletividades a essa ou àquela tarefa, a esse ou aquele trabalho nas edificações da experiência humana; entretanto, nesse campo, permanece o homem - colaborador de Deus - com a sua capacidade de execução c também de influenciação ou interferência.

Que todos nós, portanto, usando dos sagrados dons da liberdade interior, colaboremos com o Pai no maior engrandecimento de sua obra, a fim de que, no esplendoroso amanhã do futuro, venhamos a integrar as fileiras dos servidores fiéis, a caminho da justa e real glorificação na Eternidade.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Propaganda Original



Propaganda Original
A Redação
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Todos os homens sabemos que não há melhor propaganda que a discussão. Sem lutas e discussões dificilmente um ensinamento poderá atravessar os séculos. O próprio Evangelho sofreu e sofre ainda ataques e é motivo de discussões.

Da discussão nasce a luz, dizemos todos, e realmente isso é uma verdade.

Kardec vem sendo discutido em todos os países anglo-saxônicos e, dia a dia, o chamado dogma da reencarnação vem conquistando adeptos naqueles países, nos quais não reeditaram as obras do Codificador, agora a eles levadas através das edições brasileiras, em Esperanto.

Roustaing, da mesma forma, vem sendo discutido apaixonadamente, quase diríamos fanática e estacionariamente; todavia, pela procura sempre crescente de sua obra, verificamos que os resultados têm sido excelentes.

Agradeçamos, pois, aos nossos adversários.


Frederico Fígner



Frederico Fígner
A Redação
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Em nosso número de Fevereiro anunciamos a desencarnação de nosso querido companheiro de trabalhos espíritas, Frederico Figner, e dizíamos, então, que ele foi o espírita mais perfeito que já existiu no Brasil. Não quisemos com isso diminuir o brilho da ação de outros pioneiros da Doutrina, como foram Bezerra de Menezes, Antônio Luiz Sayão, Cairbar Schutel, Guillon Ribeiro, Batuira e outros. Fígner possuía todas as grandes virtudes cristãs que mais enobrecem as almas privilegiadas por alto grau de progresso e tinha ainda o espírito prático do homem moderno que sabe reunir meios materiais para ajudar em grande escala a divulgação das ideias e os necessitados. Esse conjunto raro de capacidades espirituais, intelectuais, sociais e materiais fez dele realmente um espírita modelar, dentro da vida social, em pleno século vinte. A faculdade de desenvolver capacidades tão variadas que no Espírito sem elevação se chocam e tendem a destruir-se reciprocamente, predominando umas somente pelo aniquilamento de outras, é o que em Fred Fígner revela grande superioridade espiritual. Saber ganhar fortuna sem se prender a ela, mas, ao contrário, fazendo-a serva obediente de serviço social, e conservar a candura do crente, a fé que transporta montanhas, sem cair no fanatismo religioso, e, ao mesmo tempo, instruir-se em letras e línguas, sem desviar o pensamento de uma série complexa de deveres; cultivar as mais altas relações sociais, sem esquecer o convívio com os infelizes e sofredores, essa multiplicidade de atividades não é dada ao comum dos homens, mas somente aos Missionários, aos Espíritos de escol.

O Brasileiro

Toda a imprensa diária regista o passamento de Fígner como a de um grande brasileiro. Adquiriu ele a cidadania brasileira há 25 anos e desposou uma dama de nossa melhor sociedade, criou uma família brasileira e amou ao Brasil como os que mais o amem. Sua obra de unificação espiritual de nossa gente é maior do que
em geral se pensa. Gravando ele em pessoa discos fonográficos de músicas populares brasileiras e divulgando-as por todo o território nacional, tornando-as assim patrimônio comum de toda a gente desde o extremo Norte ao extremo Sul, de Leste a Oeste do Brasil, Fígner realizou um trabalho de unidade espiritual do nosso povo
como poucos o podem hoje compreender. Mais tarde, quando a indústria de gravação fonográfica progrediu, ele soube orientar o progresso. Já não executava o trabalho como simples técnico, mas montava oficinas modernas de gravação as quais, em maior escala, operavam nessa obra sentimental de distribuir por todo o Brasil o patrimônio artístico, genuinamente brasileiro. Meio século de trabalho desse pioneiro fonográfico representa uma obra imensa de unificação nacional. A ação industrial de Fred Fígner, no tempo em que não existia o rádio, tem o valor de nobre apostolado patriótico.

Como divulgador das máquinas de escrever, do mesmo modo contribuiu grandemente para o progresso material do Brasil. Trabalhou no Brasil 56 anos.

Seus serviços de beneficência e assistência social exemplificando pela ação a Doutrina que pregava pela palavra e pela imprensa, são outra modalidade de serviço que não poderia ficar esquecida de quantos o conheceram, daí toda a grande imprensa prestar-lhe reverente homenagem por ocasião de seu passamento. Dentre todos os jornais, temos que destacar o serviço de "A Noite Ilustrada" que lhe consagrou duas páginas de encômios e compreensão da sua obra, classificando-o de "o mais brasileiro de todos os estrangeiros, o cidadão dos mil amigos, o protetor dos necessitados, filantropo dos mais legítimos e dedicados.

O Espírita

Israelita de nascimento, bebeu no lar paterno os preconceitos de sua raça contra o Carpinteiro de Nazaré, cujos supostos seguidores tão cruelmente perseguiram durante séculos o povo eleito, os descendentes de Abraão e dos Profetas. Na verdade, porém, Fígner, como muitos outros judeus, não tinha religião alguma, era cera virgem sua alma na infância e na juventude.

Foi no Brasil e quando já negociante próspero, com seu estabelecimento comercial e industrial nesta Capital e uma sucursal em S. Paulo, que Fígner foi chamado a conhecer a Verdade... 

Nos últimos anos do século passado ou nos primeiros deste século, Fígner travou relações de amizade com Pedro Sayão, filho do saudoso doutrinador Antônio Luiz Sayão, pai da célebre cantora Bidu Sayão. Pedro Sayão, durante cerca de dois anos, lhe frequentava a loja e palestrava sobre Espiritismo e Cristianismo, sem que Fígner se impressionasse muito pelo assunto; porém, numa de suas visitas ao seu estabelecimento de S. Paulo, Fígner ouviu a dolorosa história de um seu empregado, cuja esposa se achava gravemente enferma e necessitada de melindrosa intervenção cirúrgica. Ao regressar ao Rio, Fígner pediu a Pedro Sayão lhe obtivesse receita para
a cura da enferma de S. Paulo. Veio a receita e a cura da doente, sem intervenção alguma dos médicos. Foi esse fato que impressionou Fígner a favor do Espiritismo.

Já Impressionado com a cura da doente mediante uma receita mediúnica, Fígner foi procurado em sua loja por um pobre, pai de família desempregado, em penosa situação econômica. Ouviu-lhe o relato de suas aflições, deu-lhe um pouco de dinheiro e disse-lhe que voltasse oito dias mais tarde. Ao sair o necessitado, pela primeira vez na vida Fígner fez um pedido ao Carpinteiro de Nazaré: "Se é como dizem os cristãos que tu tens muito poder, ajuda a esse pobre par de família; arranja-lhe trabalho e meios de vida!"

Oito dias mais tarde, voltava o homem com o sorriso dos felizes e lhe narrava: "Já estou trabalhando e brevemente virei restituir seu dinheiro, Sr. Fígner. Fui procurado por uma pessoa que me convidou para um emprego inteirramente inesperado".

O Fígner se entusiasmou e repetiu semelhantes pedidos, com resultados sempre positivos. Em vez de pedir a Jesus, passou a pedir a Maria e igualmente os resultados não se faziam esperar. Encheu-se da fé que transporta montanhas e estudou com entusiasmo o Espiritismo e o Cristianismo. "Passou a consagrar sua vida ao 
serviço dos outros.

Não se sabe ao certo quando se deu essa conversão, mas em 1903 já se encontram vestígios das atividades espíritas de Figner na Federação Espírita Brasileira.

Por ocasião da gripe "espanhola", em 1918, com 14 doentes em seu próprio lar e ele mesmo adoentado e febril, passava os dias inteiros na Federação, atendendo a doentes e necessitados que lá iam, em avalanches, buscar recursos para situações aflitivas.

Sua vida normal durante longos anos consistia em ir de manhã e à tarde à Federação tomar ditados de receitas de diversos médiuns, chegando a tomar 150 a 200 receitas por dia e a dar passes em numerosos doentes. Levantava-se às cinco horas da manhã e, antes de ir à loja, ia à Federação, de onde só saía quando terminava esse serviço de tomar ditados de receitas. Às quatro horas da tarde lá estava de novo para orar e dar passes em doentes. E curava mesmo os enfermos, pois que seus "fregueses", como ele lhes chamava na intimidade, cresciam sempre de número.

            Escreve-nos pessoa digna de toda fé:            

“Eu ainda não conhecia o Figner nem frequentava os meios espíritas, mas sabia pelos jornais que ele dava passes em doentes. Fui procurado por um Sr. Lima, funcionário do Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina, que me narrou um caso doloroso: Em Engenho de Dentro jazia num leito, abandonada, uma doente em 
estado grave e na mais absoluta miséria. Perguntou-me o Sr. Lima, se conhecia algum médium que pudesse dar passes na doente; facilitando-lhe a desencarnação que se eminente. Pelos jornais eu sabia que o Fígner dava passes e dei essa informação ao Sr. Lima, adiantando-lhe que no índice dos telefones talvez encontrasse o endereço do médium.

"Três meses mais tarde, encontrei-me novamente com aquele funcionário do S.N.F.M. e lembrei-me do caso. Perguntei se havia recorrido ao Fígner. Fui, então, informado que o Sr. Lima havia procurado o médium em seu escritório e que, durante dois meses, o Fígner visitara diariamente a enferma, levando-lhe remédios, gêneros, dando-lhe passes, até que ela se restabeleceu."

São inumeráveis os casos como esse na longa vida desse apóstolo da caridade. Agora, por ocasião de sua partida para a pátria espiritual, cada espírita se recorda de um ou mais fatos dessa natureza.

Franco, leal, por vezes rude, repreendia frente a frente a qualquer companheiro que ele supunha ou fora informado haver cometido erro grave em detrimento da Doutrina. Mas se o caso se esclarecia e verificava ser injusta a recriminação, penitenciava-se com a mais comovedora humildade cristã.

Contrariamente à primeira impressão que causava, era extremamente humilde e cordato. Deu disso um exemplo quando andava aceso o Caso Humberto de Campos. Com entusiasmo deu muitas entrevistas a jornais e prometera outras; mas o advogado da defesa da Federação fez-lhe ponderações no sentido de silenciar, para que os Julgadores conhecessem primeiramente o caso no seu aspecto jurídico, sem campanhas jornalísticas que poderiam parecer desrespeitosas à serenidade da Justiça. Com uma disciplina digna de todos os louvores, Fígner negou as entrevistas prometidas e guardou absoluto silêncio até ao pronunciamento dos Juízes que deram ganho de causa à Federação.

Como propagandista da Doutrina, manteve sempre uma secção no "Correio da Manhã" que era lida no País todo; promoveu a publicação de muitos livros, custeando as edições. Foi a Inglaterra visitar o célebre "Circle of Crew", onde o médium WiIly Hope obtinha as famosas fotografias de extras; visitou, então, Sir Arthur Conan Doyle e outros grandes vultos do Espiritismo inglês.

Em 1920 perdeu a filha primogênita e sua esposa ficou inconsolável. Ouvindo ele falar da médium de Materialização D. Ana Prado, de Belém do Pará, decidiu-se a partir para o Norte. No dia 1º de Abril de 1921, partiu para ali com toda a família. O que sucedeu naquelas sessões acha-se relatado no livro do Dr. Noguelra de Faria, intitulado O Trabalho dos Mortos, pela Sra. D. Esther Fígner, esposa de Frederico Fígner, a qual apenas regressando das sessões e assistida por sua filha Leontina, escrevia relato minucioso de tudo que ocorrera.

Trouxe ao Brasil o famoso médium de vozes diretas, Valiantine, e aqui realizou com ele sessões em rodas de amigos.

Presidia diversos grupos na sede da Federação e em seu lar.   

Foi Vice-Presidente da Federação e depois Membro do Conselho Fiscal, função que exerceu até à desencarnação. Era Tesoureiro da Comissão pró livro Espírita.

Consumia vultosas rendas em obras de beneficência. Possuía sólidos conhecimentos da Doutrina e defendia com ardor as obras de Allan Kardec e a de J. B. Roustaing. Por ocasião de sua viagem pela Inglaterra, pasmou-se de não encontrar nas livrarias essas obras fundamentais. Percorreu pacientemente as mil casas de livros de segunda mão, em Londres, e lá encontrou alguns exemplares de ambos os Autores. Comprou-os todos e ofereceu a instituições espíritas. Relatava-nos, depois, com entusiasmo: “Três exemplares da obra de Roustaíng, em perfeito estado, em boa tradução inglesa, encontrei numa livraria e ofereci a três sociedades espíritas!"

O Homem

Frederico Fígner nasceu na madrugada de 2 de Dezembro de 1866, na casa humilde nº 37 da rua Teynska, em Milevsko, perto de Tabor, Tcheco-Eslováquia, então Boêmia e parte do Império Austro-Húngaro.

Era, portanto, compatriota de outro missionário que como ele vinha cumprir sua tarefa no Brasil, durante longa existência como brasileiro, entre os melhores, Francisco Valdomiro Lonrenz, nascido em Zbislav, perto de Tcháslav, e chegado ao Brasil dois anos depois de Fígner. Ambos vinham da Pátria dos grandes mártires
do Cristianismo, Jan Hus e Jerônimo de Praga, divulgar aqui os ideais superiores que conduziram os dois heróis aos tormentos da Inquisição. Fígner c Lorenz gravitaram para a Federação Espírita Brasileira que era muito jovem quando eles chegaram ao Brasil. O primeiro já concluiu sua missão visível na Casa de Ismael, o segundo
está em plena atividade através de livros que já lhe perpetuaram o nome na obra da Federação, com vistas ao futuro Milênio. Fígner venceu galhardamente a escorregadiça e perigosa prova da riqueza, Lorenz vai vencendo com igual bravura os tormentos da pobreza.

Filho de pais pobres, Fígner tinha que emigrar para o Novo Mundo, como faziam os jovens da Europa Central, naquele tempo. Aos treze anos sai do lar paterno e vai para a cidade de Bechim aprender um ofício. E em 1882, aos 16 anos, deixa definitivamente a terra natal. Parte com sua maleta de emigrante para Bremershafen,
de onde, a bordo do vapor "Elbe" (como passageiro de terceira classe), ruma para os Estados Unidos, só levando dinheiro para a travessia. Contava Fígner um pormenor interessante dessa viagem. Sua mãe fizera e lhe dera para a viagem uma trança de pão doce. Chegando a bordo, nota que a alimentação de terceira classe é absolutamente insuportável. Divide, então, o seu pão doce, de sorte a bastar para todos os dias da travessia que durou 14 dias. Foi essa a sua única alimentação durante duas semanas.

Levava como modelo de conduta a tenacidade dos pais. Era o exemplo a imitar para vencer na vida.

Uma tempestade violenta foi o único incidente da travessia, mas foi-lhe rude a luta para adquirir estabilidade econômica de sorte a manter-se e ajudar os pais e irmãos. Estados Unidos, México, América Central e, finalmente, América do Sul, foram seus campos de luta econômica. No Brasil, esse filho de Israel encontrou sua
Canaã. Estabeleceu-se, prosperou, conheceu uma jovem de peregrinas virtudes e alma de artista, D. Esther de Freitas Reys, filha de família ilustre.

Em 1897, Frederico Fígner e D. Esther de Freitas Reys fundavam, pelo matrimônio, seu lar feliz. Recebia ele o prêmio de suas grandes lutas de trinta anos, mas não sonhava repouso que não era ideal de seu caráter vibrante e que de certo nem Átropos lhe dará. Desse feliz enlace nasceram seis filhos: Rachel, Aluízio, Gabriel,
já desaparecidos do mundo antes do venerando pai; Leontina, Helena e Lelia, vivas e muito devotadas ao seu velho pai.

O serviço de Fígner nas obras de assistência e no trabalho profissional afastava-o muito do lar, mas isso não prejudicava o cultivo de um afeto extremado entre pai e filhas. Amavam-se com ardor e respeitavam reciprocamente as ideias e crenças particulares de cada um.

Ainda nos últimos dias de sua Vida distribuía ele principescamente donativos por Instituições e pessoas pobres de sua amizade, guiando-se pelo coração e nem sempre pelo cérebro, e só respeitando a fortuna das filhas.

Trabalhou e serviu abnegadamente até que a enfermidade o prendeu ao leito, poucos dias antes da partida. Completou oitenta anos em 2 de Dezembro e em 19 de Janeiro, às 20 horas, partiu para o mundo espiritual, deixando abertos caminhos de luz sobre a Terra que pisara por tanto tempo.

Ao funeral compareceu uma multidão de amigos e admiradores. Diante da câmara mortuária, o Presidente da Federação pronunciou algumas palavras de despedida e o Vice-Presidente fez uma prece. Ao descer o ataúde ao jazigo no Cemitério São Francisco Xavier, falaram com sentimento os Drs. Miranda Ludolf e
Lins e Vasconcelos e o Capitão Silva Pinto.

O Crente Preparador do Futuro

Na intimidade e geralmente pela hora das refeições, Fígner recitava uns versinhos em língua alemã, nos quais o poeta ensina que o homem que não passou dores nem faltas; não sofreu privações, não conheceu o Poder de Deus:

Wer nie sein Brod in Tränen ass,
Der kennt Euch nicht die heilige Macht.

Foi depois de muito lutar e muito sofrer que lhe desceram do Sinai da vida os Mandamentos que o tornaram feliz e útil em todas as situações.

Seu caráter resoluto, ao compreender a Terceira Revelação, adquiriu aquela fé que transporta montanhas e não se detém diante de nenhum obstáculo. Tornou-se o crente modelar e ativo que põe a fé em obras e as eterniza no mundo.

O futuro pertence a Deus, mas o grande crente deixou edificados altares em numerosos corações de jovens que lhe continuarão o trabalho de construção de um mundo novo, mesmo entre as procelas que tudo ameaçam tragar. A família espírita sente-se órfã com o desaparecimento, do mundo objetivo, de um vigoroso trabalhador; mas seu Espírito nos continuará inspirando e seus exemplos hão de dar frutos e sementes que se reproduzirão pela eternidade em fora.             

As grandes obras não podem ser compreendidas no século em que viveu seu Autor. Só as consequências futuras lhes revelam a grandeza. Não somos nós, seus contemporâneos e amigos, que poderemos compreender a obra de Fred Fígner; só a posteridade terá essa compreensão pelos desdobramentos que a obra engendrará. Mais do que ninguém, Fígner deu o exemplo de viver a Doutrina, de praticá-la a cada Instante, enquanto outros brilhantemente a pregam em belas palavras e conservam frio o coração. Não deixou um grande livro com as suas ideias, como não o deixaram Sócrates nem Jesus, que se limitaram a deixar o exemplo, a vida da ideia que vieram ensinar aos homens, Socrates e Jesus foram incompreendidos totalmente pelos seus coevos e até pelas Suas famílias - Fígner foi um pouco mais feliz: sua família e a sociedade em que viveu compreenderam--lhe parte da obra e saberão conservar-lhe a lembrança.

O Espírito

Frederico Fígner não teve escola superior. Foi autodidata sem tempo nem calma para estudar, pois que em lutas econômicas desde a infância; no entanto, sua missão reclamava grandes conhecimentos e ele os revelou. Possuía e manejava com segurança línguas de três famílias mui diversas entre si: eslavas germânicas e latinas. Adquiriu conhecimentos jornalísticos suficientes para colaborar num dos maiores diários do País. Demonstrou raras capacidades técnicas em sua indústria e no comércio.

Essa posse de conhecimentos universitários, inexplicavelmente adquiridos, revela a elevação de seu Espírito, demonstra que ele não era um simples habitante da Terra, mas, sim um Missionário descido ao Planeta para colaborar em sua transformação predita e anunciada para o nosso tempo.

Fora um Espírito comum da Terra e ter-se-ia limitado à sua profissão, sem cogitar da sorte dos outros; ter-se-ia perdido nos meandros da fortuna, sem saber aproveitá-la; ou, ao conhecer as sublimidades da Doutrina, teria abandonado a fortuna, esse precioso instrumento de trabalho sem o qual sua obra teria sofrido tristes limitações.

Um exame atento na obra, nos conhecimentos, na ética, no caráter de Frederico Fígner nos leva à convicção de que ele foi missionário e cumpriu sua missão com perfeita segurança.

Que lá das esferas de luz, para onde se elevou, continue ele nos ajudando no cumprimento das mesmas tarefas que iniciou, e que teremos de continuar!